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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ZARAGATA NA FRONTEIRA

melgaçodomonteàribeira, 05.07.14

 

Portocarreiro

  

UMA FESTA COM FINAL INFELIZ

 

   Como nos anos anteriores, a 11/8/1935, domingo, temperatura acima dos 30º, realizou-se a festa da Senhora da Vista no lugar de Portocarreiro, freguesia de Fiães, concelho de Melgaço. A capela estava muito bem arranjada, os mordomos capricharam, embora tivessem de pôr algum dinheiro do seu próprio bolso. O orador sagrado foi o jovem padre fenalense, António Luís Vaz, nessa altura prefeito e professor no Seminário de Braga. A música esteve a cargo da Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, cujo regente, Manuel Rodrigues de Morais, natural de Paderne, vinha ganhando fama merecida, e da Filarmónica de Paços. Tudo estava a correr lindamente, mas chegando a tardinha houve zaragata. O vinho que os vendeiros puseram ao dispor dos festeiros tinha-se esgotado. O calor e o álcool actuaram naqueles cérebros incultos e brigões. O cronista ouviu os relatos e depois contou para a posteridade no Notícias de Melgaço nº 282, de 18/8/1935: «À noite, quando o povo debandava, deu-se um incidente triste. Começara o barulho entre portugueses e espanhóis. Alguém nos disse que o começo foi devido a palavras menos respeitosas de uns para com os outros. Trocadas poucas palavras, já o sangue jorrava. Um guarda-fiscal, o senhor Manuel Lourenço, que se dirigia para a ponte, viu os feridos já da parte de Portugal e agarrou-os para os defender da fúria dos espanhóis. Quando praticava este acto, uma invasão de galegos, superior a cinquenta pessoas, avançava contra os feridos, e já pisavam cinco metros de território português. O guarda Lourenço, vendo isto, clamou – “a Espanha ainda não declarou guerra a Portugal; por isso, galegos para Espanha e portugueses para Portugal.” Os espanhóis não obedeceram, obrigando o guarda a disparar três tiros. Foi o bastante para os galegos se porem em fuga para Espanha. O guarda Manuel Lourenço colocou-se então no meio da ponte e não consentiu que houvesse comunicação de portugueses com galegos. Os outros guardas-fiscais, que andavam em serviço, ouvindo os tiros acorreram ao local para ajudar o colega a restabelecer a ordem. Os ânimos estavam exaltadíssimos. Encontravam-se naquele local para cima de duzentas pessoas, segundo nos informaram. A acção dos guardas foi enérgica, e rápida, e a ordem foi restabelecida. É justo salientar e louvar neste momento a acção da guarda-fiscal do posto de Portocarreiro, de um modo especial a Manuel Lourenço, para quem, em nome da Junta de Freguesia, pedimos um voto de louvor da parte dos seus superiores. Dizemos que deve ser louvada a guarda porque evitaram o derramamento de muito sangue e mortes. Não só repeliram os galegos, mas ainda abateram o ânimo de alguns portugueses que se encontravam exaltados, facto este que os carabineiros não imitaram, segundo nos contam. Aquando da entrada das cinquenta pessoas galegas em território português, dizem que um carabineiro, de pistola empunhada, auxiliava, e caminhava à frente dos seus compatriotas. Oxalá reine sempre a paz entre portugueses e galegos, para bem e tranquilidade dos povos raianos.»

   Chamo a atenção dos leitores para o facto de não haver nessa altura GNR em Melgaço.

   Infelizmente, no ano seguinte, 1936, dar-se-ia uma guerra civil em Espanha, a qual duraria três longos anos, morrendo e ficando ferida imensa gente.

 

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO, III VOLUME

(em preparação)

 

                                                                  Joaquim A. Rocha

 

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