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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VIL PERSEGUIÇÃO A UM ADVOGADO POR UM DELEGADO DO M. PÚBLICO

28.10.17, melgaçodomonteàribeira

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DURAS REALIDADES

 

Devido a vil e selvática perseguição que me moveu um incrível Delegado do Ministério Público foram terríveis em sofrimentos os três últimos anos, para mim e para os Meus.

Durante a desatinada perseguição fui vexado, depois preso, cometendo-se sórdidos e imperdoáveis abusos.

Minha Mulher, meu Filho, meu Irmão e meus Cunhados, com grande coragem e amizade, viveram intensamente os meus desgostos.

Minha saudosa Mãe, idosa, depois que soube da prisão, apenas me pediu que não mais repousasse, até perfeito esclarecimento do caso e castigo dos perseguidores.

Ela que tanto apreciava a conversa, nunca mais falou.

Seis horas antes da morte, fez extraordinários esforços para me dizer qualquer coisa.

Já não podia falar.

Percebi que me queria repetir a sua recomendação.

 

É do conhecimento de toda a gente que todos quantos trabalham na Justiça têm muitos inimigos.

O bandido nunca mais pode perdoar ao Advogado acusador e ao Juiz que o condenou.

Mais:

É sabido que quando o Advogado recebe procuração para qualquer causa, a parte contrária fica zangada.

Esta falta de compreensão é, infelizmente, quase geral.

Inimigos ocultos, a quem sómente a cobardia faz encolher as garras, vivem agachados.

Se encontram momento para, impunemente, cevar os seus instintos, surgem, então, rugidores.

Um grande e humaníssimo Juiz de Direito, o saudoso Doutor Eduardo Marques Correia Simões, arrebatado pela morte no melhor da sua vida e carreira tinha condenado um bandido numa pena insignificante.

Quando este soube do seu falecimento, atreveu-se a bolsar infâmias contra o grande e bondoso Magistrado, calando-se logo, por ser obrigado a fazê-lo.

Cobardias deste quilate são vulgaridade.

 

Há poucos meses, no decurso de um julgamento em Tribunal de Lisboa, um Advogado foi acometido de súbita e fulminante doença.

Quando a parte contrária se apercebeu de que tinha morrido, despejou esta frase: »Bem feito».

Eu, Advogado nesta Comarca há muitos anos, tenho, como não podia deixar de ser, quem me deteste.

E não são, apenas, aqueles, a quem um dia, no cumprimento do dever profissional tivesse atacado.

Além desses há a horda dos invejosos, a pulular neste meio.

E o ódio que assenta as suas raízes na inveja é feroz.

Logo que se soube da minha prisão, deslocou-se para junto de minha casa um mulherão disforme, autêntico saco de fezes, postando-se, na ponta dos pés - uns pés fenomenais -, para ver sair minha mulher, mostrando satânica alegria na caraça hedionda.

 

Mas nem tudo é mau neste mundo.

Afinal, toda a moeda tem o seu reverso.

O vulcão, que faz cuspir a porcaria da lava, descobre, tantas vezes, preciosidades sem valor, que a Terra esconde no seu seio.

Assim nos grandes infortúnios surgem os Amigos de todas as horas, tão bons como nossos irmãos; aparecem as almas bem formadas, que expontânea e veementemente se revoltam contra as infâmias; pessoas de relações cortadas connosco tomam atitudes reveladoras de carácteres de eleição.

Se não fora o mal irreparável que os grandes infortúnios causam à vida dos Nossos e também à nossa, cifravam-se, afinal, num bem.

Ficamos a ver mais claro nesta coisa escura que é a vida social.

 

VIL PERSEGUIÇÃO A UM ADVOGADO POR UM DELEGADO DO M. PÚBLICO

 

José Joaquim de Abreu

Edição do Autor

1955

pp. 5-7

 

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dr. josé joaquim de abreu 

 

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