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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O VASCO, O MANEL E A CENTRAL DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 10.02.18

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manuel f. igrejas

 

O ANTIGAMENTE

 

Nos anos quarenta do século passado, como meu primeiro emprego foi ser ajudante do Vasco, na Central. O Despacho Central de Melgaço ficava no térreo da casa das senhoras Teixeiras, ao lado da caneja da Fonte da Vila. O meu pai queria fazer de mim alfaiate como fez com meus irmãos, mas o Dr. Sá, que cuidara da minha tuberculose e reconheceu que não foram tanto os remédios que me curaram… convenceu o Augusto do Félix a não me fazer alfaiate que sobrecarregava muito o peito. Uma profissão ao ar livre, talvez lavrador, seria o ideal. Gostei de não ser alfaiate mas não gostei da ideia de agricultor, ainda bem que meu pai não tinha terrenos. Como já estava espigadote não ficava bem andar vagabundando. O Bino do João Lima fora demitido do cargo de ajudante do Vasco. O Augusto do Félix pediu a intervenção do Dr. Suíça (Esteves) vizinho e amigo, para pleitear do Sr. Teixeira o cargo para o seu Manelzinho.

Antes do Vasco quem gerenciou a Central foi um tal Vieira, cidadão forasteiro indicado pela CP (Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro) a que a Central estava ligada. Este Vieira, além daquele departamento de despacho e recebimento de mercadorias, assumiu a Pensão que anteriormente fora Vila Verde, ali na Calçada em frente à barbearia do João do Gabriel, e mais tarde foi do Zeca da Pureza (o Estica). Quem administrava a Pensão era uma irmã do Vieira, matrona rechonchuda, o tipo de beleza que os papalvos apreciavam naquela época, acho que solteira pois aceitava a corte dos mancebos que a bajulavam e lhe ofereciam presentes. Alguns casados que a título de ir beber uma pinguinha na taberna da Pensão, passavam os fins de tarde naquelas reuniões. Um primo nosso, casado e com filhos, ia todas as tardes ao sair do trabalho, penteado e perfumado para a Pensão. Mais tarde gabou-se que lhe oferecera umas meias e lhas calçara.

O Sr. Teixeira, co-proprietário da Auto Viação Melgaço Lda., atacadista de mercadorias com galpão no largo da Calçada que chamávamos garagem, também era o responsável pela Central, autorizou a minha admissão. O Vasco gostou pois conhecia-me muito bem. Éramos vizinhos com as casas geminadas. Aliás, essas casas tinham sido uma única vivenda em época anterior. Então fui ser ajudante na Central sem ganhar coisa alguma. Naquela época quem se iniciava numa profissão ou comércio, trabalhava de graça, às vezes por anos. Além de não ter vencimento ainda ganhava raspanetes bem ásperos. O Sr. Teixeira aparecia de surpresa e reclamava por a Central estar desarrumada e sem varrer. Foi aí que percebi que além da parte burocrática também tinha de varrer. Mas não o fazia, os rapazes que perambulavam por ali na expectativa da chegada da camioneta que de Monção trazia as mercadorias, iam comunicar aos comerciantes destinatários que lhes davam uns tostões para as transportarem após desembaraçadas, varriam por mim a troco de lhe indicar de quem eram as mercadorias. Quem mais varreu foi o Álvaro da Conceição (Facadas) e o Manel da Rosa Nabeiro que até hoje agradeço.

Após algumas semanas estava senhor de todo o serviço da Central, pois o Vasco que iniciava o romance com a Biti, ausentava-se várias vezes ao dia e eu ainda tinha de mentir caso o Sr. Teixeira aparecesse dizendo que fora resolver na Câmara, assunto da Central. De tal modo conhecia todos os trâmites do serviço que fiquei sozinho com toda a responsabilidade quando o Vasco adoeceu por alguns meses, e nessa altura apareceu um fiscal da CP para avaliar o funcionamento daquele departamento que elogiou o meu desempenho. E eu continuando com o mesmo salário: nenhum! Naquele tempo como por certo todos os tempos, quem se prevalece do trabalho gratuito de alguém, será muito ingénuo não pensar que o ajudante gracioso não irá tirar proveito doutra maneira. O Vasco que não devia ganhar muito bem fazia pequenas trapalhadas com as mercadorias. Eu aprendi. Quando fiquei responsável pela Central fui abordado sigilosamente por um comerciante conhecido que disse, antes da minha actuação, terem-lhe violado uma encomenda de sapatos. No trajecto do comboio e na estação de Monção era frequente o sumiço de parte das mercadorias. A propósito, uma tarde o Pianho ajudante avulso na mecânica das camionetas, apareceu na Central procurando faca ou objecto cortante, que cheirava. Não achou nada que incriminasse. Esclareceu que investigava quem comeu meio queijo do Reino, aquele feito bola vermelha, que faltou numa encomenda. Mais tarde o motorista e o ajudante da camioneta gabaram-se que tinham feito uma merenda e tanto.

O comerciante em questão propôs fazer uma grande encomenda de calçado sob seguro e quando chegasse eu assinava a guia atestando a violação e a falta de vários pares de sapatos que o seguro iria cobrir, em troca ele dava-me um par de sapatos novos. Mas é claro que aceitei! Quando fui reclamar os meus sapatos quis-me dar um par encalhado que eu não gostei. Escolhi uns de camurça, os melhores que tinha na loja. Relutou mas dizendo-lhe que ou aqueles ou não queria nenhum, acabou cedendo.

Quando calcei aqueles sapatos a primeira vez o meu pai observou: estás calçando sapatos melhores que o teu patrão. Patrão simbolicamente pois não me pagava nada!

Mas este antigamente todo é para recordar alguns dos muitos ensinamentos da vida que o Vasco me passou. Um dia chamou-me a atenção para o seguinte: “já reparaste, Manel, que a nossa terra é puta mãe e boa madrasta?” E passamos o resto daquele dia enumerando os forasteiros que se radicaram em Melgaço e se deram bem: Até fizeram fortuna!

 

Rio, Abril de 2012

Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

O AJUDANTE DO VASQUINHO

melgaçodomonteàribeira, 29.07.17

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               O ANTIGAMENTE 

 

 

Isto de por a funcionar a gravação do passado no registo da memória, corre-se o risco de disparar por falta de funcionamento prolongado, e põe-se a descoberto cenas e situações que se pretenderam esquecer.

A Maria de Fátima, filha do saudoso Toninho do Cerinha, é a culpada do desarranjo mecânico do nosso gravador cerebral que não quer parar de funcionar. Como foi dito, eu era ajudante do Vasco na Central, e o meu desempenho chamou a atenção do Sr. Teixeira que tratou de explorá-lo. Nas horas mortas da Central, e eram muitas, incumbiu-me de cobrar as letras promissórias dos comerciantes. Era o Sr. Teixeira, também, representante bancário e as facturas das mercadorias que os lojistas compravam, quando venciam, o representante bancário era incumbido de as receber. Lógico que o chefe não iria a pé ou de bicicleta quando mais longe, cobrar. Não sei quem fazia isso antes de mim, só sei que fui guindado a esse posto que me elevou no conceito social da terra, ganhando a mesma coisa, nada! E o meu desempenho agradou a tal ponto que além das duas funções que já exercia, Central e cobranças, acresceu a de cobrador na carreira. O Sr. Aires, aparentado com a D. Laura, esposa do Sr. Teixeira, retornado do Brasil, foi ser cobrador duma das camionetes da carreira. Naquele tempo, anos quarenta, havia duas carreiras diárias entre S. Gregório e Monção. De manhã, às 7 horas, uma carreira mista, camionete metade bancos e metade livre para mercadorias. Voltava de Monção às 6 horas da tarde. A outra carreira, a do correio, saía às 10 horas e voltava às 4 da tarde quando não havia atraso no comboio. Na da manhã, o chaufer era o Emídio ou o Álvaro da Orada, e cobrador o Fernando Ferrador. Na carreira do correio, o chaufer era o Sabariz e o cobrador o Aires que pelas mazelas que levava do Brasil, vira e mexe ficava doente e era substituído em cima da hora pelo Gui (Henrique Fernandes) fiel do departamento atacadista. Um dia, pela impossibilidade do Gui se ausentar do seu metiê, fui mandado ser cobrador. Esta situação repetiu-se várias vezes até que o Sr. Aires se afastou e eu passei a ser permanente. Surgiu uma dificuldade: na hora do jantar (almoço) eu estava em Monção. O Sr. Teixeira autorizou que eu tirasse da receita das passagens a importância para pagar a refeição que fazia na taberna anexa àquele restaurante que tinha na avenida da Estação da C. P., e recomendou: - Come bem! Pois sabia da tuberculose que me atacara anos antes. E a rotina manteve-se por vários meses. Ao voltar da carreira entregava ao Constantino, grande amigo e parceiro desde os bancos da escola, que era o responsável pelo escritório das empresas, os talões das passagens e o dinheiro correspondente descontada a refeição. Nem sempre conferia na hora, colocava numa caixa para mais tarde contar. Um dia o Sr. Teixeira nas investidas que fazia no escritório, perguntou: - Que dinheiro é este na caixa? – É o que o Manel entregou do correio. Resolveu contar. – Está faltando quinze escudos – É o da refeição! – Mas é muito dinheiro, manda-o chamar. Fui interrogado e respondi: - O senhor mandou que me alimentasse bem. Aí o Fernando Ferrador, que também almoçava na mesma taberna e estava presente, achou de agradar ao patrão e me entregou: - Ele só gasta nove escudos. Era verdade! Diariamente eu me fazia um salário de 5 ou 6 escudos. O Sr. Teixeira achou que eu não merecia tanto e estipulou: - Vou-te dar 150 escudos por mês, cinquenta por receberes as letras e cem pela carreira (pela Central, nada). Deu na mesma, mas pelo menos ia ter um salário. Só o meu pai é que teve a despesa ao fornecer-me o bife que havia de comer no almoço.

   Fui apurado para a tropa o que causou estupefacção geral. Quando mais perto de me apresentar ao serviço militar, pensando noutro modo de vida após a tropa, engendrava um modo de atrapalhar o Sr. Teixeira. O João Castro, outro grande amigo e também parceiro da escola, um domingo à tarde convidou: - Queres ir connosco ao Porto? O pai dele, o Manuel Castro, grande comerciante, em função dos seus negócios fazia muitas viagens àquela cidade no Ford que antes comprara ao dito Sr. Teixeira. Arrumei-me às pressas e pedi à minha irmã Esmeralda que dissesse ao Gui que arrumasse quem fosse na camioneta no dia seguinte. No Porto, desliguei-me dos Castro, apenas combinamos o regresso e procurei os irmãos Manuel e José Lourenço, filhos do Manuel da Garagem (Lourenço) que estudavam e viviam naquela cidade. No quarto com duas camas que ocupavam, facilitaram-me uma por aquela noite e eles dormiram juntos. Grandes amigos, especialmente o Manuel, parceiro em “Os Vitoriosos”. Fiquei dois dias zanzando pelo Porto, pela segunda vez, dando vazas à minha necessidade de auto afirmação. Dos trocados que tinha amealhado comprei uma gabardine que era na época, o máximo de snobismo. Ao regressar, o Sr. Teixeira passou-me o maior responso que se possa imaginar. Mandou que fosse pedir emprego ao Manuel Castro. Como se eu esperasse outra coisa. E na medida que ele se mostrava furioso eu me considerava realizado ao verificar que ele precisava dos meus préstimos.

   Quando voltei da tropa e reorganizei “Os Vitoriosos”, o Sr. Teixeira demonstrou amizade comigo. Tratava-me com educação e acreditou na minha palavra a ponto de facilitar uma camionete para levar o grupo “Os Vitoriosos” a Viana disputar uma taça, para pagar com festas que iria promover depois.

 

 

Rio, Maio de 2012

                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço