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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

UM LENÇOL NO CASTELO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 18.01.20

24 b2 - castanheiro castro.JPG

 

LUGAR DAS CHEDAS

O lugar das Chedas fica situado na freguesia de Cristóval, na encosta da serra da Aguieira, entre o monte baldio das terças e os cotos da Atabaia, limitado pelo antigo caminho que fazia ligação entre as Lamas da Aveleira e Fiães. Uma zona com bastante arvoredo, onde predomina o carvalho, o vido e a giesta, e existem ainda alguns anelhos de feno.

Desde criança sempre ouvi dizer que naquele local tinha morado gente.

Segundo me contou o sr. António Marques, conhecido pelo Tónio “Trinta”, ao lado da sua propriedade existem ainda as paredes de uma casa paupérrima.

Como conheço o local, no dia 9 de Julho de 2001, pus os pés ao caminho, fui ver umas propriedades pertenças da família nas Terças e na Ameixeira. Andei mais um pouco e desloquei-me ao local indicado pelo Tónio “Trinta”.

Com bastante dificuldade, devido à densa vegetação, mas lá consegui encontrar o local da dita casa, para tirar algumas fotografias que confirmam e testemunham a existência das paredes de uma casa bastante antiga.

As paredes da dita casa encontram-se do lado direito da carrelheira de acesso ao anelho de feno do Tónio “Trinta”, numa tapada que pertence à família do falecido José do Val, conhecido por Zé “Palhaço”.

Pelo que o avô do Tónio “Trinta” lhe contava, essa casa foi utilizada pelo salteador Tomaz das Quingostas, Capitão da quadrilha do Alto Minho.

Dado se tratar de um local isolado e afastado das populações, era o local ideal para o dito Capitão reunir com a sua quadrilha e planear os assaltos a fazer naquelas redondezas.

Contou-me ainda que um dia o Tomaz Codeço de seu verdadeiro nome foi à casa do avô do Tónio “Trinta” para lhe comprar uma junta de bois. O velho homem disse que não vendia, claro, sabia que não lhos ia pagar.

Mas de nada lhe valeu, o Tomaz disse: «Compre outros que estes são meus» e lá lhe levou os bois, contra a força não há resistência, ninguém se opunha ao poderoso Capitão da Quadrilha de Salteadores.

Passados uns dias, Tomaz Codeço foi a casa do dito senhor, levar-lhe o dinheiro dos bois.

O senhor olha para o dinheiro, viu-o cheio de zebro e disse: “este dinheiro é falso”. O Capitão disse-lhe: “Há seu burro, passe-o pelo cabelo da cabeça, limpe e verá que é verdadeiro”. O senhor fez o que o capitão lhe ordenou. Na verdade, o dinheiro era verdadeiro.

O capitão Tomaz diz ao senhor: “Não precisa dizer-me que é verdadeiro, esses pesos são de prata e ainda ontem à noite estavam na casa do padre de Monte Redondo”.

O dinheiro com que o Tomaz Quingostas tinha pago os bois era proveniente do último assalto praticado pela quadrilha do capitão.

Dado tratar-se de quem era, o avô do Tónio “Trinta” tinha pensado: “lá se vão os meus boizinhos, não vou receber dinheiro nenhum”. Mas não, o capitão cumpriu a palavra: “compre outros bois que estes são meus”. O pobre do homem só Deus sabe quanto sofreu, enquanto não recebeu o dinheiro.

Os ladrões por vezes também têm boas acções, e esta foi uma delas.

Como digo, em princípio, as pessoas antigas vão rareando e os mais novos pouco ou nada ligam, e estas coisas vão-se perdendo com o tempo.

Isto é verdade, passou-se comigo, há cerca de 40 anos ouvi várias histórias sobre o Tomaz das Quingostas e não passei cartuxo, como se costuma dizer. Hoje não penso assim, acho que devemos preservar e ouvir com atenção aquilo que os mais velhos nos dizem.

Estava a conversar com um senhor de Alvaredo, chamado Joaquim Basteiro e conhecido por Joaquim “Torno”, à porta da sua casa no Maninho em Alvaredo e passou uma rapariga e ele disse: “Aquela se fosse no tempo do Tomaz das Quingostas o pai tinha que levar-lha a casa, dele”. Não liguei ao que o sr. Joaquim “Torno” queria dizer com aquilo.

Quando há tempos conversei com o António “Trinta” sobre o Tomaz das Quingostas, depois de me ter contado as histórias que já contei, disse-me: “Olha Zé, além do que já te disse sobre esse homem, vou-te dizer uma coisa que não te havia de dizer. Se tinhas uma filha boa, se ta mandasse levar a casa, tinhas que levar-lha, ou senão eras linchado, também ouvi isto ao meu avô”.

Pensei um pouco, olhei para ele e disse-lhe: “Já não és o primeiro a dizer-me isto”. De repente, veio-me à minha mente aquilo que o Joaquim “Torno” me queria dizer há cerca de 40 anos atrás e eu não prestei a devida atenção.

Sobre este testemunho aos leitores não é difícil adivinhar qual a intenção do Tomaz das Quingostas. Sem comentários, não tenho palavras para comentar este acto deste salteador.

Não posso confirmar nem desmentir, pelo que ouvi e li, este homem monstruoso trazia o povo do Alto Minho aterrorizado.

No entanto, havia quem dizia que roubava aos ricos para dar aos pobres. Isto passou-se entre finais do século XVIII e o primeiro quartel do século XIX. Será que nessa altura já era financiado algum grupo político ou terrorista?

Uma coisa é certa, segundo afirmam, quando saía a tropa para o prender, alguém subia ao castelo de Melgaço e dependurava um lençol, de maneira a ser visto das Quingostas. Era sinal para ele fugir que as forças da ordem o iam prender.

Certamente que havia algum agente infiltrado nas forças da ordem, que protegia o capitão da quadrilha de malfeitores do Alto Minho.

Acerca deste assunto, os leitores que o desejarem, podem encontrar na Casa da Cultura literatura escrita pelo Dr. Augusto Esteves, com mais pormenores, sobre o referido capitão de quadrilha do Alto Minho “Tomaz Codeço”.

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

             José Joaquim da Ribeira

2006

pp.73-75

l

TOMAZ E O CIRURGIÃO

melgaçodomonteàribeira, 13.04.19

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canastro na rua verde - s. gregório

 

AS AVENTURAS DE TOMAZ CODEÇO

 

Saído «das cadeias do Porto em 1832 pela entrada do Senhor D. Pedro naquela cidade» e, na verdade todos os historiadores daquele período da luta fratricida confirmam terem as forças desembarcadas em Pampelido, à sua chegada ao Porto, aberto as prisões e soltado os presos, indultando-os assim, veio o Tomaz para S. Paio, sem aguardar para a escápula a caricata aventura de Carlos Napier.

Sua mãe tinha no lugar de Baratas uma casinha onde fôra feito, dizia-se, o património do primo do seu filho, o P. Manuel António Pereira Codeço, morador no lugar do Cruzeiro, mas comprada pelo seu marido era ainda solteiro.

O Tomaz, ao chegar à terra, fôra-se logo com machadas e verrumas, cravos e martelos à referida casa e, à valentona, lhe cravára as portas, ficando até, alegou o padre, dentro fechadas umas suas sobrinhas.

Com este acto de violência parece ter atemorisado muita gente e especialmente aquele clérigo, pois sempre ele se disse receoso de perder a vida às mãos do parente.

Perde-se lhe a pista no resto daquele ano, mas não repugna a suposição de ter gasto esses meses na formação de uma guerrilha ou a reorganizar a malta de facinorosos e atrevidos ladrões, acusada como já existente nos tempos anteriores à prisão.

Perto das Baratas vivia o Cirurgião de Real, Manuel José de Caldas, casado e com filhos, a prestar os seus serviços por aquelas redondezas em troca das avenças dos fregueses, quase todas em milho, e por isso havia bom passadio no seu lar.

Ora em Janeiro de 1834 o Tomaz das Quingostas exigiu do cirurgião quarenta e sete alqueires e meio de milho e em Julho do ano seguinte mais cincoenta alqueires e tres quartos.

Poucos dias antes desta última data a Prefeitura do Minho iniciara a caça ao Homem, oficiando aos sub inspectores de Melgaço e de Monção para lhe ser feita guerra de morte, com «a suspeita que sejão um fermento de guerrilha notrindo rellaçõens com os faciosos do reino vizinho» e no princípio do último trimestre deste mesmo ano secundara a caça o Governo Civil de Viana, mas confessando, abertamente, haverem-se «tornando infructíferas todas as medidas adoptadas para este fim, pelo auxílio que os mesmos Povos dão a este chefe, fazendo-se por isso tão cúmplices como os referidos Salteadores…»

Tomaz das Quingostas nem assim transferiu o seu quartel general para outra região, mas os acontecimentos políticos desenrolados no país e, sobretudo no distrito, dele distraíram as atenções dos diversos dirigentes da nação, durante o ano de 1836.

À vontade, portanto, o Tomaz continuou a campear em Melgaço e em 7 de Maio de 1836 fez ao cirurgião Caldas a nova exigência de setenta e dois alqueires de milho e, como tantos não havia em casa, levou-lhe o rol das avenças e foi cobrar a maior parte do cereal à casa dos próprios fregueses.

O Tomaz das Quingostas foi então perseguido pela tropa e, desconfiando do cirurgião, considerando-o único espia dos seus actos, recebeu em Agosto como indemnização; um cavalo, levado das Baratas pelo seu companheiro bem conhecido pela alcunha «O Casal de Sante» e em Outubro um touro, tangido desde ali pelo João Ferreiro, de Barata.

Dias antes perseguido outra vez pela tropa, fôra ele encontrado no caminho de São Bento do Cando, em 11 de Julho. Apanhada a guerrilha de surpresa, poude ela, contudo, escapar-se das garras da força pública, mas deixou ficar no sítio vários objectos e um cavalo, que a tropa apreendeu.

Este insucesso foi também imputado ao cirurgião e, para salvar a vida, remiu-o pagando uma segunda indemnização; 99$800 reis.

Mas como a tal luta de morte não acabara ainda, nos primeiros dias de Fevereiro do ano seguinte o Comandante da 4ª Divisão Militar, com o conhecimento e aplausos do Governo de Sua Magestade a Rainha, anunciou às autoridades locais que, brevemente, uma força militar sob o comando do Major de Caçadores 4, José de Figueiredo Frazão «vai occupar esse Concelho, o de Monsão e Valladares, com o importante fim de conseguirem o extermínio ou dispersão da Quadrilha de salteadores que tantos males tem causado aos seus infelices habitantes, e de que é chefe o malvado Congostas».

Poucos dias volvidos sobre este aviso, Paderne foi ocupado por trinta baionetas da Ordem, de propósito mandadas por autoridades superiores para efectuarem o extermínio da fera humana.

Por este mesmo tempo, no monte de Montrigo, na própria freguesia de São Paio, casualmente vieram à fala Tomaz Codeço e Manuel de Caldas e dessa conversa saiu o empréstimo de cinco libras em ouro, feito por aquele para este governar a sua vida.

Em Março de 1838 «com muita violência e ameaças de vida» foram-lhe ainda exigidos mais sessenta alqueires de milho.

Não contente com este canastro, segundo parece sempre aberto para fornecer de brôa os guerrilheiros, em 26 de Agosto recebeu o Tomaz das Quingostas cento e cinco mil reis por um cavalo, que lhe levara o Izidoro, alferes de voluntários e, em 17 de Outubro, uma clavina, entregue pelo Caldas na sua própria casa ao buscador Caetano Manuel Meleiro, da Granja.

Como sempre o Caldas de Real foi o bode expiatório: por aquele cavalo apreendido pelo alferes de voluntários tinha-lhe sido pedida a avultada indemnização de 207$800 reis e para tanto lhe não pagar «se valeu de alguns amigos que o compuzeram pella quantia de sento e sinco mil reis e huma clavina de vallor de sinco mil reis.»

Roubado, perseguido, procurado de dia e de noite, o cirurgião Caldas resolveu sair de São Paio e refugiou-se na vila, porque o Tomaz era «Homem destemido, ladrão e matador, que roubaba de dia e de noite e quando se lhe não desse ou fezesse o que elle queria logo entimava a penna de vida e assim o executava» e «depois de indultado se fez mais temível cometendo mortes e vários roubos como foi na romaria da Sr.ª da Peneda em 7 de Setembro de 1838, Riba de Mouro, andando em todo o monte temível, muito armado e com a cometiva da sua quadrilha que a todos ameação e todos temião pellas suas dezordens.»

Mas se tudo isto assim se articulou no tribunal, nos mesmos autos se escreveu, que entre Tomaz Codeço e Cirurgião tinha havido toda a familiaridade e bom entendimento e, por vezes, dos dinheiros do Tomaz se valeu o Caldas nas suas aflições.

 

Melgaço e as Invasões Francesas 1807-1814

Augusto César Esteves

Edição do autor

1952

 

pp. 38 a 42

 

 

GUERRILHA EM MELGAÇO NO SÉCULO XIX - III

melgaçodomonteàribeira, 03.10.15

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Lamas de Mouro

 

 

 

(continuação)

 

A vida do Tomaz das Quingostas foi cortada pelas balas da tropa no dia 30 de Janeiro de 1839 na quinta da Alota, em São Paio, quando das Quingostas, enquadrado por elementos da Ordem, vinha preso para Melgaço.

A sua morte foi um assassinato como tantos naquele tempo, legal se o quizerem ver assim, mas um assassinato chocante e condenável em todos os tempos e em todos os logares, quer fosse provocado pela tentativa de fugir aos captores, quer por inadvertidamente, como se diz também, ter pisado os calos ao soldado – o assassinato dum homem sem devassa nem pronúncia o envolverem nas malhas, sem qualquer julgamento lhe ser feito, sem nenhuma condenação ter sido pronunciada contra ele pelas justiças da terra.

Vai passado mais de um século sobre essa data e por estas redondezas ainda hoje se ouve uma ou outra voz depreciativamente aludir à serra e aos tempos do Tomaz das Quingostas.

E enquanto uns, contando desvarios e violentas façanhas, o apresentam como vulgar quadrilheiro e o retratam como ladrão atrevido e assassino sem qualquer escrúpulo, outros, lembrando generosidades havidas com pobres lavradores, atiram para as costas dos comandados com todas as violências e mostram-o, a ele, caçador apaixonado e papa léguas da montanha, homem de muitas e boas relações no meio, acarinhado pelos grandes e a tirar exclusivamente a ricos, unhas de fome, algumas dezenas de mil reis para ele mesmo os entregar, depois, a desgraçados cuja boca não trincava a brôa precisa para mourejarem nos campos todo o santo dia e parte da noite.

A sua vida está a pedir revisão e, se um dia se fizer, talvez desse processo póstumo, saia ele de muitas e muitas culpas ilibado.

E despejado, precisamente, daqueles actos mais degradantes atribuídos à sua vida, talvez ele surja aos olhos dos melgacenses, como os Marçaes e os Brandões das Beiras, com a nova aureola de figura política marcante e talhada pelos moldes daqueles tempos da forca miguelista de 1828 a 1833 e do regabofe e anarquia liberal de 1834 a 1838, militando nas hostes miguelistas contra os constitucionais e, depois, setembrista da última hora, com a tal guia passada pelo Conde das Antas, contra os carlistas, aproveitando a sua sombra, como é natural e humano, para manter em respeito a um ou outro recalcitrante, a este ou àquele empata folhas da victória da sua facção política.

O imperativo da história e a honra da terra ficam agora impondo essa revisão e para a encetar e para iniciar, quiçá, a reabilitação da memória desse melgacense, como um acto de justiça às suas possíveis virtudes cívicas, de tantos documentos existentes sobre Tomaz Joaquim Codesso, «comandante da guarda volante do Alto-Minho» apenas um escolho para ser ponderado:

 

   «Administração Geral de Viana

   1ª Repartição

   2ª Secção

   Nº 303

   Circular                               Ill.mo Sñr

 

Tendo sido informado de viva voz pelo General Comandante da Divisão de Observações das Províncias do Norte, o Visconde das Antas, que elle a bem do serviço público havia concedido uma Guia a Thomaz das Quingostas cumpre que V. S.ª quando pelo mesmo lhe fôr aprezentada a mencionada Guia observe as disposições que ella contem.

Deus guarde a V. S.ª Vianna 23 de Dezembro de 1837

O Administrador Geral interino

  1. R. Marreca

 

Ill.mo Sñr Administrador do concelho de Melgaço»

 

O bando de Tomaz das Quingostas lembra a fábula «O Lobo e o Cordeiro» e, como este, vai arcando com todas as culpas, da responsabilidade de outros, embora. Nenhum dos seus acusadores descobriu ainda as terras de Melgaço e as dos visinhos concelhos trabalhadas pelos sectários da usurpação na falaz expectativa de qualquer vantagem alcançada pelos Carlistas, em alguma das muitas províncias fronteiriças de Espanha, trazer para Portugal a oportunidade apetecida para uma revolta contra o governo português comparsarem também; nenhum dos seus evocadores procurou desenvencilhar as consequências trazidas para Melgaço pelo scisma religioso de 1832-1842 começado no Porto e especialmente agudo em toda a diocese de Braga, onde chegaram a exercer simultaneamente autoridade, sem autoridade, dois Vigários Capitulares, ou apreendeu as lutas surdas e as travadas nos púlpitos, surpreendendo assim esse irrequietismo de Melgaço provocado pelos padres miguelistas na quadra do Tomaz das Quingostas, pois «que no concelho de Monsão appareceu um frade da Falperra chamado Frei Sebastião, que dizia ter vindo de Roma, e ser portador de excomunhões do Santo Padre, para os Ecclesiásticos empregados pelo Governo Constitucional, o qual nomeou Delegados para absolverem os que se lhe apresentassem, ordenado-lhes que não communicassem com os não absolvidos, sendo um destes Delegados o ex-abade de Rouças», o P.e Diniz Ferraz de Araújo, cujo múnus desde 1834 a 1844 exerceram sucessivamente os encomendados P.e Manuel da Conceição, P.e João da Rainha dos Anjos Cunha e P.e Agostinho Manuel Cardoso; nem tão pouco nenhum dos seus detratores visionou todas estas terras do Alto Minho invadidas sucessivas vezes por guerrilhas espanholas e entre estas pelo bando de cento e cincoenta homens capitaneados pelo célebre Guillade, um dos apaixonados chefes do movimento carlista galego, que conseguiu entrar em Tui e em Vila Verde e foi morrer no ataque a Lugo, na conhecida Guerra de Los Siete Años.

Talvez, desde hoje, no espírito do melgacense culto fique abalada a tradicional ferocidade atribuída nas seroadas dos aldeãos a Tomaz Joaquim Codeço se, acaso, consegui humanisar esse vulto das lutas liberais melgacenses e, esbatido de muitas sombras, apresentá-lo na ribalta como um vulgar facioso daqueles tempos; mas nos recantos das aldeas, ninguém se iluda, a sua vida há-de continuar a entreter as horas dos serões, longe da história e afastada da verdade, porque a lenda do Tomaz das Quingostas está feita.

  

 

Melgaço e as Invasões Francesas 1807 – 1814

Augusto César Esteves

Edição do autor

Tipografia Melgacense

Melgaço – 1952

pp. 38-47