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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O REGEDOR VINGATIVO

melgaçodomonteàribeira, 14.06.14

 

Igreja paroquial de Prado

 

PADRES EM TRIBUNAL

 

 

    Em 29 de Julho de 1912, chegaram a Melgaço o capitão José Augusto Soares e o tenente Joaquim Carlos Pereira Brandão, a fim de procederem a corpo de delito no processo instaurado contra o ver. Francisco António Gonçalves, reitor de Prado, acusado de conspirar contra as instituições vigentes etc, etc.

    Esta acusação era infundada, como facilmente convence o teor do documento emanado do Tribunal Marcial de Braga, que tal é:

    «Cópia»

    Serviço da República

    Comando da 8ª Divisão do exército

    2ª Repartição Nº 944

    Contra o Pároco da freguesia de Prado, concelho de Melgaço, foi instaurado um processo que teve por base uma participação do regedor daquela freguesia, datada de 9 de Julho findo, na qual o referido pároco era arguido de conspirar contra as instituições vigentes e ameaçar com a entrada de Paiva Couceiro no país, o mesmo regedor e demais membros da Junta da Paróquia. Pelas provas produzidas no corpo de delito, demonstra-se que a participação é completamente destituída de fundamento e verdade, sendo lícito concluir-se em face dos próprios depoimentos das testemunhas dadas pelo participante, que devem considerar-se insuspeitas que este valendo-se das actuais circunstâncias e da sua qualidade de autoridade, teve somente em vista comprometer o arguido com quem não mantém boas relações de amizade. É pois repugnante e vexatório acto para as instituições que nos regem, o procedimento desta autoridade pelo atentado que representa à liberdade dum cidadão, que, sem culpa, mas vítima somente dum vil esforço, esteve preso por mais de quinze dias, enquanto a sua inocência não pôde ser demonstrada.

    E por que o facto é incontestavelmente grave, encarrega-me Sua Ex.a o General Comandante desta Divisão, de o comunicar a V. Ex.a para os fins que tiver por conveniente.

Saúde e Fraternidade.

Quartel General em Braga, 3 de Agosto de 1912.

 

 

P. Júlio Vaz Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do autor

1996

p. 246

 

AFOGADOS NO MINHO

melgaçodomonteàribeira, 22.03.14

 

Foto colecção particular de iasousa

 

 

RIBEIRO, António. Nasceu a 31/3/1942. No Notícias de Melgaço 1323, de 5/7/1959, lê-se a triste notícia: « O Minho cobrou o seu foro. No rio Minho e na área da freguesia de Alvaredo, pelas 8 horas da manhã de um para dois do corrente mês de Julho, seis rapazes resolveram fazer uma viagem à vizinha Galiza e vá de se meterem todos juntos numa pequena e frágil batela e de remar para a margem espanhola. Mas quer fosse por excesso de carga, quer por esta se deslocar, a meio do rio a batela voltou-se e nas poucas águas do rio desapareceram três dos improvisados marinheiros, conseguindo salvar-se outros três. Os infelizes afogados eram todos daquela freguesia e solteiros, novos ainda e de vida prometedora na sua frente. Chamavam-se os infelizes Carlos Manuel Ribeiro, de 24 anos, António Ribeiro, de 17, irmãos, e Luís Esteves, de 18 anos, lavradores. Os seus cadáveres ainda não apareceram… » Seus corpos foram recuperados dias depois: o do Luís a 4/7; os outros dois no domingo seguinte. Estão sepultados no cemitério de Alvaredo, havendo contudo um desfasamento entre a notícia do jornal e a placa, pois nesta consta que faleceram a 29/6/1959! Por causa deste caso e de outros é que se pensou em construir uma ponte. No Notícias de Melgaço 1374, de 9/10/60, lemos com um certo assombro: - A ponte Peso-Arbo « … há tanto tempo desejada… » O professor Rodrigues, então presidente da Câmara Municipal de Melgaço, deslocou-se a Arbo a 23/9/1960 a fim de conversar sobre esse assunto com os alcaides de Arbo e Creciente. Os três foram falar com o Dr. Amândio Tavares, magnífico reitor da Universidade do Porto, que ali se encontrava em gozo de férias. Agradeceram-lhe os esforços que tinha despendido para que a construção dessa ponte fosse uma realidade e manifestaram-lhe o seu apoio. O Dr. Amândio estava casado em Arbo, e apercebendo-se do perigo que era atravessar o rio, iniciou uma luta, inglória, pois o dinheiro necessário para a obre não chovia do céu (ainda não tínhamos aderido à UE); por outro lado, o governo não estava interessado em “ligações” com o país vizinho (amigos, amigos, ligações à parte). Em reunião da Câmara Municipal de Melgaço de 20/10/60 ainda foi lido um ofício da Direcção de Urbanização de Viana, fazendo várias perguntas com o fim de informar o ministro do Interior sobre o pedido da construção de uma ponte internacional em São Marcos, Peso. A partir daí julgo que nunca mais se falou no assunto. Como se sabe essa obra concretizar-se-ia muito mais tarde, no novo regime político. Muitas vidas foram poupadas desde então.

 

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

Volume I

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2009

p. 339