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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

GRAVURAS RUPESTRES D0 FIEIRAL

melgaçodomonteàribeira, 10.09.22

823 b dolmen mamoa e.jpg

 

GRAVURAS RUPESTRES DO FIEIRAL

CASTRO LABOREIRO

MELGAÇO

 

O Fieiral, situa-se no seio da necrópole megalítica do planalto de Castro Laboreiro, a cerca de 500 m para nascente da mamoa de Porcoito 1 e a, aproximadamente, 450 m da mamoa do Alto dos Piornais . Localiza-se numa pequena plataforma a oeste-sudoeste do Alto dos Piornais, na margem direita do rio Laboreiro, à cota de 1169 m.  Trata-se de um local bem irrigado onde se destacam, para além do referido rio, a Corga do Fieiral, a Corga dos Piornais e a Corga do Vale das Antas.

Apesar do Fieiral ser protegido a Norte e a Este, pelas plataformas mais elevadas do planalto, dali obtém-se um excelente domínio visual para o vale de Castro Laboreiro, que se abre a Oeste, e para os prados onde se concentram as brandas do Rodeiro, de Adofreire, de Queimadelo, de Falagueiras e das Coriscadas.

Aqui, emergem à superfície dois grandes afloramentos de granito do tipo de Castro Laboreiro, moderadamente elevados, que se orientam no sentido NE/SW: o Fieiral I, mais a norte e de menores dimensões, com cerca de 8 m de comprimento, e o Fieiral II, com cerca de 35 m de comprimento.

O Fieiral I apresenta uma superfície superior horizontalizada onde existe uma incrustação de cristais de quartzo hialino e pendentes suaves. O Fieiral II, de contornos mais irregulares, com algumas fissuras significativas e áreas levemente deprimidas no topo, também apresenta pendentes suaves. Na sua extremidade NE, há uma nascente, hoje transformada. Estes dois afloramentos distam entre si cerca de 10 m e avistam-se mutuamente.

Uma das particularidades deste lugar é a existência de um filão de quartzo branco que o atravessa no sentido Norte/Sul e que, por vezes, irrompe de forma destacada do solo, característica que pode estar na origem do topónimo. Tal permite que existam à superfície inúmeros calhaus e blocos desta matéria, embora estes possam resultar tanto de fatores naturais como antrópicos.

O Fieiral é de fácil acessibilidade pedestre, quer para quem está nas áreas mais altas do planalto, quer para quem, seguindo o vale do Laboreiro, lhe acede a partir de cotas inferiores. Tal circunstância, associada às características aplanadas do lugar, teria possibilitado a concentração de um número significativo de pessoas em redor do espaço gravado, com visibilidade para os símbolos que se escrevem nas pendentes oblíquas dos afloramentos. Parcelar seria a visualização de alguns motivos existentes na superfície superior do Fieiral II.

As gravuras em ambos os afloramentos inscrevem-se, maioritariamente, no que se denomina “arte esquemática”, embora ocorram algumas que se inscrevem na gramática estilística da “arte atlântica”, normalmente isolados ou em áreas periféricas.

O Fieiral I apresenta menor diversidade de símbolos. Aí, inscrevem-se quase só quadrados ou retângulos segmentados internamente, distribuídos nas diferentes pendentes da rocha, atribuíveis à Pré-história.

No Fieiral II, com maior diversidade de símbolos, serão pré-históricos os quadrados ou retângulos segmentados internamente e os diversos tipos de antropomorfos, alguns deles ictiformes. Da Idade do Bronze, poderá ser a gravação de um machado plano de gume alargado, encabado, localizado na extremidade norte da rocha, nas imediações da nascente, assim como um círculo segmentado. Deste período ou posterior, será um par de pedomorfos de adulto, orientados no sentido poente-nascente, existente na pendente Este deste afloramento. Aqui gravaram-se, igualmente, diversas paletas quadrangulares em baixo relevo, com cabo delimitado por covinha, motivos que tipologicamente se inscrevem na Idade do Ferro. As paletas aparecem, também, na área mais interna da rocha, por vezes sobrepondo-se a antropomorfos, numa nítida apropriação e alteração dos signos anteriores.

A diversidade de símbolos e de estilos, as alterações que parecem ter sofrido alguns deles, as sobreposições e as diferentes técnicas utilizadas (picotagem com abrasão e baixo relevo) indiciam que o Fieiral foi um lugar significante e com uma biografia complexa, na longa duração, que se foi mantendo simbolicamente ativo para as populações que viveram e frequentaram o planalto de Castro Laboreiro, desde a Pré-História até à Idade do Ferro.

Pela proximidade com os monumentos megalíticos e pelo esquematismo dos símbolos maioritariamente gravados, característica que também se encontra no interior das câmaras funerárias deste planalto, embora com temáticas globalmente distintas, colocamos a hipótese que o Fieiral terá sido materializado, em pleno Neolítico, como um lugar de reunião e de celebração do mundo. A especificidade dos símbolos gravados em relação aos das câmaras megalíticas explicar-se-ia pelas diferentes ações e sentidos, inerentes a cada um destes espaços.

 

GRAVURAS RUPESTRES DO FIEIRAL

CASTRO LABOREIRO, MELGAÇO

Ana M. S. Bettencourt & Alda Rodrigues

Departamento de História da Universidade do Minho

CITCEM

 

O PLANALTO DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 23.07.22

786 2 foto trilho do megalitismo. montes de labore

 trilho do megalitismo - montes laboreiro

CONJUNTO MEGALÍTICO DO PLANALTO DE CASTRO LABOREIRO

Alda Rodrigues

 

Na chamada raia seca desenvolve-se a Serra do Laboreiro, que começa no vale do rio Trancoso (Galiza) e se estende para Nordeste e para Leste – pelos concelhos de Padrenda, Quintela de Leirado, Verea, Lobeira e Entrimo, na Galiza, e o concelho de Melgaço, em Portugal. Esta serra forma um altiplano, o Planalto de Castro Laboreiro, que se começa a delinear nos concelhos galegos de Verea e Lobeira, mas que se desenvolve, essencialmente, na freguesia de Castro Laboreiro. Neste, desenvolve-se um conjunto de monumentos pré-históricos, em vias de classificação, que serviu de palco à produção da curta-metragem Raízes, de Carlos Ruíz, realizada em 2009. Trata-se de uma representação alegórica da vida e da morte numa comunidade Neolítica.

O cenário onde se implanta este conjunto, inserido no Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG), apresenta uma topografia de natureza suave e é recortado por pequenas linhas de água e por várias nascentes, É também aqui que nasce o rio Laboreiro, que atravessa o altiplano, aproximadamente no sentido Este – Oeste.

Este conjunto de monumentos pré-históricos é o mais setentrional do país e o que se encontra a cotas mais elevadas (Jorge et al. 1997). Desenvolve-se na Galiza e, maioritariamente, em Portugal. Constituí um marco da primeira arquitetura monumental, de um período onde, tal como refere F. C. Boado (1999), se inicia um processo crescente de “domesticação” da envolvente, que não é apenas a expressão de uma nova economia ou aparato tecnológico mas, também, de uma nova relação da sociedade com a natureza, caracterizada por uma atitude que se espressa na sua transformação sistemática e progressiva.

Trata-se de um conjunto importantíssimo quer pela dimensão quer pela diversidade de estruturas (motivada, por outros fatores, pela sua longevidade cronológica) quer, ainda, pela multiplicidade de localizações topográficas.

É ainda relevante o bom estado de conservação dos monumentos e da paisagem envolvente “…belíssima, erma de ruídos e de outros elementos poluidores, procurada por veraneantes que gostam de andar a pé pela montanha, e onde ainda se pode ouvir o silêncio” (Jorge 2003: 109).

Os trabalhos de investigação e valorização patrimonial desta necrópole megalítica datam de 1978, ano em que a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho realizou ali um primeiro levantamento arqueológico, em parceria com o extinto Serviço Regional de Arqueologia da Zona Norte, sob a orientação de Francisco Sande Lemos. Este trabalho contou com o apoio de António Martinho Baptista, então arqueólogo do PNPG. Em 1992, e no âmbito do projeto “Estudo do Conjunto Megalítico do Planalto de Castro Laboreiro”, desenvolvido por Vítor Oliveira Jorge, Susana Oliveira Jorge, Eduardo Jorge Lopes da Silva e António Marinho Baptista verificaram-se escavações do núcleo megalítico do Alto da Portela do Pau. Deste estudo viriam a resultar diversas publicações (Jorge et al. 1995, 1997; Baptista 1997, entre outros).

A partir de 2006, a equipa de arqueologia do PNPG, coordenada por Henrique Regalo, dirigiu esforços para aprofundar o conhecimento da área, tendo realizado um levantamento georreferenciado do conjunto megalítico, com vista à revisão do Plano de Ordenamento do Parque Nacional. Foram então, identificados 66 monumentos megalíticos no território português, dispersos por uma área aproximada de 50 km2. Alguns deles encontram-se isolados, mas a maioria está organizada em grupos (definidos pelo critério da proximidade geográfica).

Tendo em conta os resultados dos vários trabalhos desenvolvidos neste sítio, sobretudo das escavações arqueológicas no Alto da Portela do Pau podemos afirmar que a humanização do planalto de Castro Laboreiro se encontra atestada desde o Neolítico Médio/Final, mais precisamente  desde os finais do V milénio AC (datas calibradas), momento em que foi construída a Mamoa 3 daquele grupo (Jorge et al. 1997). Trata-se de um monumento com uma câmara funerária apenas definida por um anel constituído por pequenos blocos de pedra. Em termos de espólio, o único resto de artefacto cerâmico digno de nota encontrado na área deste monumento é um fragmento da pança de um vaso campaniforme, achado fortuitamento à superfície (Jorge et al. 1997:86).

Na primeira metade do IV milénio AC ergue-se, neste lugar, a Mamoa 2 do Alto da Portela do Pau, um grande monumento com câmara aberta, virada para nascente de planta poligonal que ostenta motivos gravados nos seus esteios e alguns ténues vestígios de pintura. Os motivos são, essencialmente, geométricos (zigzagues e ondulados), dispostos verticalmente, mas também apareceram outros motivos simbólicos, como antropomorfos e círculos concêntricos (Jorge et al. 1997, Baptista 1997). Neste monumento as práticas funerárias implicaram o depósito de uma possível “estatueta” antropormórfica, de vários percutores em quartzo, de uma ponta de seta, entre outros. Este imóvel foi objeto de trabalhos de conservação em 2011.

Nesta área também foi intervencionada a Mota Grande, já em território galego. É um monumento de grandes dimensões, com câmara de planta poligonal e com gravuras sobre os seus esteios, onde se destaca uma representação do tipo “idoliforme”, em baixo-relevo, rodeada por figuras meândricas (Baptista 1997). Nas suas imediações apareceu um menir com aproximadamente 1,90 m de altura máxima e 0,70 m de largura máxima, que ainda jaz no solo, a cerca de 20 metros para sudoeste da Mota Grande.

Durante o Calcolítico o Planalto de Castro Laboreiro continuou a ser frequentado. Disso é prova a reutilização da Mamoa 1 do Alto da Portela do Pau (Jorge et al. 1997), verificada através da deposição de, pelo menos, três vasos campaniformes (Jorge et al. 1997).

No planalto, perto das mamoas de Porcoito e do Alto dos Piornais a 2,3 km do Alto da Portela do Pau para sudoeste, existe ainda um santuário rupestre de arte esquemática que terá sido usado desde o Neolítico até à Idade do Ferro/Romanização (Bettencourt & Rodrigues, neste vol.).

O grupo do Alto da Portela do Pau, será pois, o mais interessante em termos de visitação quer pelo que sobre ele se sabe em termos científico quer por ser acessível através de um percurso pedestre que se inicia na Branda do Rodeiro. Este percurso está marcado no terreno e as informações sobre o mesmo podem ser obtidas no Núcleo Museológico de Castro Laboreiro; no Centro de Informação de Castro Laboreiro; na Porta do Parque Nacional em Lamas de Mouro e na ADERE-PG (Associação de Desenvolvimento das Regiões do Parque Nacional da Peneda-Gêres).

 

TERRITÓRIOS DA PRÉ-HISTÓRIA EM PORTUGAL

DIR.LUIZ OOSTTERBEEK

 

A PRÉ-HISTÓRIA DO NOROESTE PORTUGUÊS

 

Ana M. S. Bettencourt

 

 

A NECRÓPOLE MEGALÍTICA DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.04.20

 

MONTES LABOREIRO

PALMILHANDO UMA RAIA CARREGADA DE SÉCULOS

 

AMÉRICO RODRIGUES

               e

JOSÉ DOMINGUES

No traçado da linha imaginária aproveitam-se indícios salientes na paisagem. Um dos indícios que nos chamou a atenção (mas que ainda não conseguimos observar pormenorizadamente no terreno, apesar de sabermos a sua localização) foi a pedra “que bole quando bolem com ella” – no tombo de 1565. Tudo leva a crer que se trata de uma pedra bolideira.

As pedras oscilantes já são referidas pelos escritores da Antiguidade, Plínio e Ptlomeu. Eduardo Amarante, citando Henry Martin, chama a atenção para a sua função como prova judiciária: “os acusados que não conseguissem pôr em movimento a pedra eram considerados culpados; há não muito tempo ainda que os maridos que suspeitavam da fidelidade das suas mulheres obrigavam-nas a passar esta prova”. Trata-se da prova medieval de ordálio ou juízo de Deus, mediante os quais se remetia a decisão para Deus, na crença de que Este não iria favorecer o culpado contra o inocente.

A ligação destas pedras ao megalitismo estaria aqui plenamente certificada. Este planalto, de ambos os lados da raia, está semeado de monumentos megalíticos. No actual processo de classificação dos monumentos Megalíticos e Arte Rupestre do Planalto de Castro Laboreiro, iniciado em 2008, do lado português estão referenciados sessenta e três monumentos megalíticos, duas estruturas líticas e um núcleo de arte rupestre, faltando no entanto nesse inventário alguns monumentos.

Num périplo por este fragmento da raia aos entusiastas do megalitismo revela-se um conjunto de estruturas, muito próxima da meia centena: 13 nas proximidades do marco nº 6 ao nº 9, desde Arrazis até ao Alto de Gontim; nas Roçadas, junto ao marco nº 14, mais 2 monumentos e outro no Alto de Paicota; no Alto da Besteira, perto do marco nº 18, um monumento; passando ao marco seguinte, na Lama do Rego, 6 monumentos; desde o marco 20 a 24, na Portela do Pau e Outeiro do Ferro, cerca de 8 monumentos; seguindo até ao marco nº 28, na Lama do Brincadoiro, 2 monumentos; em Pedra Mourisca, junto ao marco nº 29, 4 monumentos e estruturas líticas; em Cabeça de Meda, marco nº 31, mais 3 monumentos; nas proximidades dos marcos 33 e 34, em Cabreira e Barreiras Brancas, 4 monumentos; esta vasta necrópole termina com um monumento megalítico junto ao marco nº 40.

Esta disseminação acabou por colocar alguns destes monumentos no caminho preciso da raia, fazendo com que apareçam referidos na documentação compulsada. A Mota de Cidadela ou Cidadelha é referida nos dois tombos mais antigos (1538 e 1551). Trata-se, certamente, da mamoa junto ao marco nº 28, na Lama do Brincadoiro, vulgo identificada por Mota Furada. No tombo de 1754 aparece uma referência à “caza de Antella”, que ficaria nas proximidades do marco nº 36.

Mesmo por cima da linha da raia fica um dos maiores e mais emblemáticos monumentos do Laboreiro – a Mota Grande. Por motivos que nos escapam, este monumento, na segunda metade do século XX, passou na íntegra para território galego. Um dos mais conceituados investigadores do megalitismo do Laboreiro, António Martinho Baptista, já chamou a atenção para esta recente mudança do marco nº 23, precisamente, no “monte de terra chamado Motta-Grande”.

Mas, bem mais importante do que a estéril discussão sobre o lado de fronteira em que está implementado este monumento, seria promover uma investigação científica conjunta, que unisse especialistas dos dois países no aprofundar do conhecimento deste monumento em particular e de toda a necrópole em geral. Para além de ser o maior em tamanho, os seus esteios estão profusamente decorados com gravuras: com especial destaque para o motivo “idoliforme”, que, segundo Martinho Baptista, poderá ser a representação de uma “divindade megalítica”(?). Outro motivo válido e impulsor é o da existência de um menir nas suas proximidades.

Para a localização precisa e entendimento das funções deste menir podem ser proveitosos os conhecimentos radiestésicos de Alexandre Cotta. Este investigador já teve oportunidade de aplicar os seus estudos em menires e antas do Alentejo. Como amigo pessoal e a convite do NEPML visitou a Mota Grande e levantou interessantes questões, relacionando o menir com o motivo idoliforme, acabando por concluir: “seja como for, esta pedra actualmente tombada (com orientação Este-Oeste) indica ou marca um lugar particularmente importante”. Para Alexandre Cotta, o menir da Mota Grande pode ser uma pedra de cura:

“Quer em Castro Laboreiro como no Cromeleque dos Almendres confirmámos a experiência feita pelo nosso amigo Jean-Marc Riper. Ao colocarmo-nos sobre a pedra tombada (perto da Mota Grande) e no menir caído e amputado (dentro do Cromeleque), a polaridade indicada pelo movimento do pêndulo inverte-se. Tal indica que são pedras de cura. Em algumas doenças graves verifica-se que o movimento das células, correspondentes aos órgãos ou sistemas afectados, muda de sentido: de horário para anti-horário. Pelas suas características, as pedras de cura ajudam a inverter a situação das células doentes repondo a polaridade das células saudáveis”.

 

CADERNO ARRAIANO