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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 III

melgaçodomonteàribeira, 25.06.22

817 b manuel igrejas, arte e cultura melgacense no

CAPÍTULO III

 

O Augusto do Félix teve uma viagem bonançosa e alegre. A quase totalidade dos passageiros daquele vapor inglês eram jovens portugueses e espanhóis a caminho da fortuna. Nos vinte e oito dias da travessia outra coisa não fizeram que projectar mirabolantes sucessos. Tudo era festa, o mar imenso com os enjoos do balanço, a precaridade das acomodações amontoados em cabines exíguas e neda higiénicas, não obstava para abater a animação da próxima prosperidade.

Muitos daqueles jovens nunca tinham visto o mar e as surpresas que diáriamente lhes reservava. Teve um dia que apareceu coalhando de grandes bolhas coloridas quais imensas bolas de sabão, tão grandes que chegavam à amurada do navio. O comandante avisou que não tentassem estourá-las ou pôr-lhe as mãos, podiam estar cheias de gás venenoso.

Chegando a Belém não foi difícil ao Augusto arranjar colocação. Exibindo suas qualidades profissionais logo foi contratado como oficial na Alfaiataria Portas de São Miguel, das mais conceituadas da cidade. Belém do Pará era o Eldorado da época. Vivia-se o esplendor do ciclo da borracha. Tudo era grandiosidade na fulgurante metrópole. Companhias de ópera, estrangeiras, famosas, acorriam a exibir-se. Em pouco tempo o Augusto tornou-se contra-mestre da alfaiataria e amigo do proprietário. Levava uma vida de fidalgo fora das horas de trabalho, motivo por que, embora ganhasse razoávelmente bem, andava sempre atrapalhado de finanças. Não perdia estreia de temporada teatral, de bailes e saraus e outras manifestações artísticas, culturais e desportivas. Era destacado na roda de amigos onde fazia tudo para sobressair. Um dia, em plena festa de casamento de um amigo, influenciado pelos vapores do champanhe e outras bebidas achou de fazer-se engraçado: meteu-se por baixo da grande mesa onde estavam as iguarias e levantando-a com as costas derrubou-a espalhando pelo chão tudo que estava em cima. Foi um grande alvoroço que arrancou gargalhadas dos mais eufóricos e custou ao engraçadinho seis meses de salário.

O fruto proibido do jovem Dr. Vasconcelos e da condessa Constança nasceu em meio a jurado segredo da parteira e da meia dúzia de pessoas intímas. Na noite do nascimento um serviçal da máxima confiança levou a criança com riquíssimo enxoval, jóias e dinheiro, por caminhos escusos, Galiza a dentro até ao convento de Orense, cidade espanhola bastante retirada de Melgaço. A trouxa com o recém-nascido e pertences, foi posta na Roda do Mosteiro e tocada a sineta que avisava de mais uma prevericação da nobreza.

Com a complacência da igreja fora instituída essa forma de orfanatos. As crianças rejeitadas eram encaminhadas a essas instituições onde recebiam criação e educação esmeradas. As criaturas instruídas nesses internatos ao completar a maioridade saíam preparadas para enfrentar a vida.

O recém exposto na roda oriundo de Melgaço foi acolhido com o habitual carinho e baptizado para ser mais um cristão. Foi-lhe dado o nome de Félix que quer dizer feliz e o sobrenome que a instituição dava a todos os enjeitados, Iglesias, que quer dizer filho da igreja. Ficou sendo então, oficial e cristãmente Félix Iglesias que mais tarde, quando requereu a nacionalidade portuguesa passou a ser Félix Igrejas.

Educado e instruído segundo os cânones da  instituição ensinaram-lhe o ofício de alfaiate de que se tornou mestre.

Os desentendimentos entre os Félix e os Violas sofreram um estremecimento quando constou que a Amália do Félix estava namorando o Ilídio dos Violas. Os membros de lado a lado não queriam acreditar. Os Félix viram naquilo um grande insulto, uma vilania. Iria-se repetir a tragédia da Jelcemina? Cruz, credo, Deus nos livre de tal desgraça.

Era novamente domingo. Só aos domingos tinham tempo para se envolverem em zaragata. Naquele domingo a discussão e os empurrões estavam acontecendo nas portas da vila, nos fojos, perto da fonte da galinha. Enquanto os contendores se destratavam e ameaçavam a Amália e o Ilídio escondidos entre os arbustos da Feira Nova, onde mais tarde foi construído o edifício da Câmara, se apalpavam e faziam juras de amor eterno.

 

(Continua)

                                                            M. Félix Igrejas

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 II

melgaçodomonteàribeira, 18.06.22

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CAPÍTULO II

A Jelcemina, terceira dos dezoito filhos de Félix Igrejas e da Conceição Costa, era uma moça trigueira, desembaraçada, bem feita de corpo e bonita, como de resto todas as raparigas daquela família. Não lhe faltavam namorados. Estava por surgir o seu ái-jesus. Este apareceu na figura do Ismael, um guapo rapaz, vizinho quase porta com porta, membro da família Sousa mais conhecida pela alcunha de Violas.

O namoro desenvolveu-se naturalmente como todos os namoros da juventude recatada e super-vigiada da época. As famílias embalaram aquele namoro em que faziam gosto.

Com o tempo a vigilância abrandou concedendo maior liberdade aos namorados. Já se falava em futuro casamento.

Surgiu, então, o fantasma que assombrava a todos que pretendiam constituir família: uma vida monótona, sacrificada, beirando a mizerabilidade. O futuro risonho estava do outro lado do mar. O Ismael, como todos os rapazes instruídos, não aceitava resignar-se à mesma vida das gerações anteriores. Sabia dos sacrifícios, a falta de recursos com que lutaram seus pais para alimentar as inúmeras bocas que Deus lhes destinara. Pior ainda, outros chefes de família que emigraram na ânsia de ir buscar sustento para os seus, não mais voltaram nem mandaram recursos. Constava que tinham constituída nova família lá nas lonjuras e na terra, a coitada da mulher fazia das tripas coração para que não faltasse uma côdea de pão à baca dos filhos. Essa côdea era conseguida entre parentes e vizinhos como esmola. Era por isso que as famílias preferiam que emigrassem solteiros.

O Félix Igrejas permitiu e ajudou seu filho Francisco Augusto a embarcar nessa aventura. E havia um detalhe bastante intrincado que ajudou na decisão. O rapaz estava com 16 anos, logo teria de se decidir sobre a nacionalidade que lhe interessava: se portuguesa ou espanhola e a consequente prestação de serviço militar num ou noutro país. É que, em virtude do pai ter sido registado em Espanha, onde, teoricamente nasceu pois foi aí que apareceu, residindo, embora, em Melgaço, Portugal, ainda não tinha requerido a nacionalidade portuguesa, o que aconteceu mais tarde; os filhos, pela lei vigente na época, só na maior idade podiam optar pela nacionalidade que lhe conviesse: se a de onde nascera ou a do pai. Na idade própria assumia a nacionalidade portuguesa como o resto da família por que o pai já fizera o mesmo.

Foi Francisco Augusto embarcar em Vigo, cidade portuária da Galiza rumo a Belém do Pará, cheio de ilusões e qualificação profissional. O pai ensinara-lhe a profissão de alfaiate de que era mestre, ofício aprendido no estabelecimento onde fora criado. Corria o ano de 1896.

Melgaço era um vilarejo bastante agradável para se viver quando se tinha recursos. Os fidalgos detentores de propriedades e os comerciantes, burgueses, levavam vida regalada. O povo, humílimo e subserviente considerava-se feliz por ter uma malga de caldo e um naco de pão de milho ou centeio ao fim do dia para sua família. A não ser uns poucos artesãos os demais dedicavam-se à agricultura cultivando as terras daqueles senhores, de quem recebiam uma mínima percentagem da colheita por altura do São Miguel. Valia ao povo as galinhas e os porcos. Cada família mantinha, pelo menos um porquinho na corte que geralmente era o térreo da sua humilde casa ou um anexo no quintal, animal que durante o ano engordavam com restos de hortaliças, legumes especialmente abóboras, landras e farelo de milho. No início era o suíno abatido, salgado e defumado para durar o ano inteiro. As partes mais nobres do animal eram consumidas em datas festivas.

Uma fortaleza medieval em ruínas donde sobressaía a torre de menagem ainda intacta, restícios de guarda avançada da nacionalidade, davam certa imponência ao lugar. O desmantelar das muralhas deveu-se aos da classe dominante que aproveitavam os grandes blocos de granito para construir ou melhorar os seus casarões. E por ser um lugar de magníficas paisagens, de ares salutares, povo ordeiro, era propício a retemperamento da saúde de fidalgos doutras terras que se hospedavam, por temporadas, em casa de parentes ou amigos.

Na casa solarenga do Dr. Vasconcelos estava hospedada uma jovem fidalga da cidade de Barcelos que por linhagem vinha a ser condessa. Formosa de corpo e bonita de rosto fora para retemperar-se dum princípio de anemia. Ao fim de algumas semanas voltaram-lhe as cores da saúde e a vivacidade da juventude que viraram a cabeça do Dr. João, jovem médico recém- formado, filho da casa. A convivência e o ardor da juventude fez aqueles jovens se enlearem. Uma gravidez indesejada veio transtornar certos projectos de vida. A moça fidalga era compremetida com um mancebo de alta linhagem. Compromisso de honra que não poderia ser desfeito por vários factores, inclusivé por representar alto interesse pecuniário e político. As famílias envolvidas no acontecido, para evitar o escândalo decidiram pelo processo usado na época em tais situações.

A jovem continuou em Melgaço o tempo suficiente para a criança nascer, ao nobre pretendente foi dito que ela contraíra doença contagiosa que exigia isolamento sendo-lhe proibida a visita.

 

(continua)

                                                                                    M. Félix Igrejas

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 I

melgaçodomonteàribeira, 11.06.22

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félix igrejas e conceição costas

 

CEM ANOS DE RETALHOS DUMA FAMÍLIA

1852 – 1952

 

CAPÍTULO I

 

Era domingo. As criaturas que saíam da missa do dia, espantadas, entreolhavam-se inquirido sobre o alarido que vinha da rua de Baixo. Alguém, vindo daquele lado informou que era mais uma zaragata entre os Violas e os Félix. Maioria das pessoas deram de ombros e foram à vida, outros, os que tinham amizade ou parentesco com os contendores, acorreram ao largo da Misericórdia onde acontecia a balbúrdia.

Com a chegada dos espectadores a rusga foi arrefecendo e os contendores deixaram para lá e debandaram.

Discussões entre os membros das duas famílias vinham de algum tempo após um infausto acontecimento. As consequências dos encontros não passava das ofensas verbais e um ou outro empurrão. Apesar de toda a animosidade eram criaturas tementes a Deus e com a necessária dignidade para evitar consequências desastrosas. Afinal, eram gente da mesma comunidade que se haviam querido bem até algum tempo atrás. Agora, sempre que membros daquelas famílias se cruzavam o bate-boca era  inevitável.

O Félix Igrejas ficou arreliado com a decisão do filho homem mais velho quando este falou em ir para o Brasil. Era uma sina, todas as famílias da terra tinham um ou mais membros naquelas lonjuras. Era o destino inevitável. Não havia condições de tanta gente se manter numa terra de recursos tão escassos. Agricultura de sobrevivência e os ofícios tradicionais eram os únicos recursos para atender as necessidades dos habitantes. As famílias tinham proles numerosas, as mais pequenas com oito ou dez filhos. Emigrar era a única alternativa para quem aspirava um futuro melhor. E os engajadores oferecendo mirabolantes perspectivas nos Brasis onde se ficava rico do dia para a noite, era só abanar a árvore das patacas. O interesse deles era a comissão que as companhias de navegação lhes ofereciam por cada passageiro engajado. Os candidatos a ricos, geralmente os mais jovens, pediam aos pais e estes empenhavam os parcos haveres que possuíam para custear a passagem. Sabiam que os bens penhorados eram bens perdidos, dificilmente os recuperariam. Dos muitos rapazes que abalaram, poucos remetiam dinheiro que compensasse o sacrifício. Num ou outro natal vinham minguados mil réis que davam para pouco mais que as rabanadas. Sinal que na terra da tal “árvore das patacas” não havia a facilidade apregoada. É bem verdade que de longe algum que já tinha partido há um ror de anos voltava de visita alardeando abastança. Exibiam roupas extravagantes e um linguajar arrevezado decorado durante a viagem, para impressionar os papalvos da terra. Os antigos sabiam muito bem que aquilo era fogo de vista, já tinham feito encenação igual ou parecida. Houve o caso de um “brasileiro” que foi visitar a família após dezenas de anos, com todo o espalhafato da praxe que apenas durou um mês. Os restantes cinco meses que a passagem de vapor lhe permitia, passou-os trabalhando na forja do cunhado para se manter.

Houve, sim, no espaço de cinquenta anos, dois ou três emigrantes que voltaram com considerável fortuna lhes permitindo comprar as propriedades de fidalgos arruinados.

Não obstante os prós e contras, mais contras que a favor, os chefes de família faziam o impossível para proporcionar meios ao seu membro de pagar a passagem. Era um jogo de sorte. Quem sabe seu filho ía ser um daqueles que voltavam ricos?

 

(continua)

                                                       Félix Igrejas

FÁBRICA DE PIROLITOS

melgaçodomonteàribeira, 12.02.22

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

 

VIII

 

O julgamento do Lili ainda estava por marcar. Talvez o Delegado do Procurador da República e o próprio Juiz, achassem de somenos importância aquele caso e o protelassem sine-die.

Enquanto isso outro momentoso caso ia a julgamento. Um conhecido industrial, rapaz lisboeta casado com uma moça da terra, convenceu o sogro, industrial de panificação, a montar uma fábrica de gasosas, refrigerante a que davam o nome de pirolito devido ao formato da garrafa e processo de tampa, esfera de vidro que, com a pressão do gás da bebida, era impelida contra uma arruela de borracha no gargalo, interiormente. O cidadão, embora casado, era namorador e foi acusado de desflorar uma rapariga menor de idade. Depois dos trâmites legais, foi indiciado e levado a julgamento. Na noite em que o caso ia ser debatido em plenário o auditório do tribunal esteve repleto. Um caso daqueles era assunto que daria debates entre os advogados e, logicamente, detalhes escabrosos viriam à baila. A rapaziada estava interessada nos detalhes que lhes dariam certa excitação. Verificando que a assistência era formada, na maior parte, por jovens, quase crianças, o juiz mandou que os oficiais de diligências fizessem uma vistoria e retirassem os menores de 21 anos. Formou-se tremendo burburinho, raparigas escondendo-se entre os bancos para passarem despercebidas. O João Antí, um dos oficiais fazia vista grossa e deixou a Rosinda amochada. Foi uma sessão ao gosto de povo que para tal fora ali. O advogado de acusação explorou ao máximo os lances de sexualidade que o acusado teria feito contra vontade da estrupada. Por sua vez, o advogado de defesa atenuava as circunstâncias e incriminava a desflorada como provocadora da situação. Por ser hora tardia, o julgamento foi adiado.

 

                                                                     Manuel Igrejas

Publicado em A Voz de Melgaço

NEGÓCIO SUJO

melgaçodomonteàribeira, 29.05.21

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igreja paroquial de roussas

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XV

Na Galiza, província espanhola que confrontava com Melgaço e outras localidades portuguesas na margem do rio Minho, a carência de produtos importados era total. A guerra mundial tinha terminado mas a Espanha continuava sob bloqueio comercial por parte das potências aliadas que haviam vencido o conflito. O pouco que os galegos conseguiam era através do contrabando. Se os produtos tradicionais eram difíceis calcule-se as novidades científicas. Casos de tuberculose e meningite que eram frequentes naquela época, poderiam ser melhor combatidos caso a penicilina e outros derivados fossem acessíveis. Os contrabandistas forneciam aqueles produtos a troco de fortunas. Como podia ser se eram controlados? Causava espécie tais produtos miraculosos em Portugal não surtirem o mesmo efeito na Espanha.

A quantidade de penicilina e estreptomicina que agora ia para Espanha era um assombro. Trataria-se de milagre ou mágica? Os sinais de riqueza de alguns cidadãos tornaram-se acintosos.

O Zézé Peres fora atacado de infecção pulmonar que estava sendo atacada com estreptomicina com resultados satisfatórios que o levaram à cura. Um dia, conhecido comerciante e contrabandista, chegou-se ao Zézé e em modos de confidência propôs-lhe pagar três escudos por cada frasquinho vazio da estreptomicina. Não aceitou mas outros pacientes devem ter aceitado.

O arcipreste, pároco de Roussas, faleceu vitimado pela idade. Freguesia considerada rica pelos óbolos, côngrua e espórtulas auferidas pelos serviços religiosos e consolo espiritual, era cobiçada pelos padres de paróquias carentes. As solicitações ao Arcebispo de Braga eram numerosas. Cada pretendente apresentava suas razões à petição. O pároco de Fiães era sério concorrente e seus méritos apregoados, principalmente pelo sobrinho, na altura da vila de Melgaço. Tudo levava a crer que ele seria o indicado. Para espanto geral e irritação daquele sobrinho foi nomeado para Roussas com o cargo de arcipreste, um padre filho do Concelho que exercia seu apostolado em Vila do Conde. A revolta do padre da vila foi grande; aliado ao estado nervoso que nos últimos tempos o assolava e motivava atitudes desairosas; a carta irreverente escrita a tinta vermelha que enviou ao arcebispo precipitou a sua transferência.

Por algum tempo o jovem e nervoso padre tentou desprestigiar o novo arcipreste e sua família que contava com mais dois padres. Um destes padres tinha sido apelidado quando estudante no seminário, de Campaínhas.

Valeu-se dum filho do sacristão, garoto habilidoso para o desenho, pedindo-lhe que fizesse a caricatura daquele outro padre enfiado numa batina recoberta de campainhas.

 

                                                                                     Manuel F. Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

OS AMORES DO VASCO

melgaçodomonteàribeira, 07.07.20

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XIII

Nos ensaios do teatro a rapaziada cochichava sobre o namorico do Vasco. Viúvo já há uns anos, com poucas sequelas do tempo da prisão, voltara a ser um homem interessante. Empregado na Central, serviço de camionagem em combinação com o caminho de ferro, que só chegava a Monção, tinha uma situação desafogada, tanto mais que, prevalecendo-se do seu cargo, facilitava os negócios aos contrabandistas.

Riam à socapa achando algo ridículo. A Biti, solteirona, loura, elegante, pela sua figura esbelta, pertencente à burguesia que se arvorava em fidalguia, portanto, tida como socialmente superior, não daria confiança a alguém de passado obscuro. Seria mais uma cena teatral na imaginação do Vasco, diziam.

O espectáculo foi encenado com o sucesso esperado, duas representações apenas. Como das outras vezes, a vaidade pessoal sobrepunha-se ao grupo, por dá cá aquela palha alguns elementos se afastavam desorganizando todo o elenco.

O namoro do teatrólogo foi confirmado. A Beatriz Ribeiro Lima, em horas calmas de expediente visitava a Central e, segundo os bisbilhoteiros, ficavam aos beijinhos. A Ana Toupeira, contemporânea do Vasco, para o arreliar, dizia-lhe: “estás velho não dás mais nada”.

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

                                               Manuel Igrejas

 

 

 

AINDA O JULGAMENTO DO LILI

melgaçodomonteàribeira, 02.06.20

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tribunal no r/c esquerdo. no topo o antigo escudo de melgaço

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XIV

A venda da penicilina sem autorização já não era mais crime contra a economia nacional, mas continuava controlada. Outros medicamentos mais evoluídos já tinham aparecido.

A Estreptomicina era agora o antibiótico mais usado para combater a tuberculose pulmonar. Mas o processo criminal contra o Lili perdurava, pois tratou-se de denúncia sobre contrabando. Nova sessão foi marcada para inquirição de testemunhas.

Oito horas da noite ia iniciar-se a sessão. As janelas que davam para a Feira Nova foram abertas de par em par, mesmo assim o calor era sufocante. Havia excesso de gente no plenário, tinham colocado bancos suplementares mas não chegaram, tinha gente em pé. O fim do verão tornava insuportável o ambiente no salão de audiências. O burburinho cessou quando o Juiz tomou o seu lugar. O Lili, metido na sua roupa nova como se fosse para uma festa, estava em pé, com um sorriso apalermado, intimamente vaidoso por ser o alvo das atenções. Era vaidoso a esse ponto.

Foi chamado para depor o José Félix. Nada sabia sobre a penicilina, disse, mas podia dar informações sobre procedimentos do indiciado. Contou que em determinado dia o Lili entrou no café Melgacense, sua propriedade, e dirigindo-se ao balcão vitrina pediu que lhe mostrassem alguns tipos de queijo. Das três qualidades que lhe exibiram fez questão de provar, um deles ainda por encetar. O funcionário, julgando que fosse comprar grande quantidade deu-lhe as provas. Com aquele seu jeito afectado, meticuloso, saboreou com calma as provas e após reflectir decidiu: “deste aqui, pese-me cem gramas”. Houve riso geral no plenário. A rapaziada que estava assistindo ficou perplexa. Entreolhavam-se e faziam gestos de espanto, por não entenderem o que se estava passando ali. O que estava sendo dito nada tinha a ver com o assunto do julgamento, que de resto era de domínio público aquela maneira de ser do Lili, que passara a incorporar-se no folclore da terra.

Outra testemunha informou, no depoimento, que na sua farmácia, o Lili adicionava goma-arábica em algumas fórmulas que manipulava. Novo assomo de perplexidade tomou conta da assistência, era sabido que tal adição de goma fazia parte de determinadas fórmulas.

Começou a tornar-se nítido na cabeça das pessoas que a única finalidade daquele julgamento era desmoralizar o Lili. Procurar saber se alguém vendia penicilina no contrabando, não interessava. Convinha preservar os figurões.

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

                                                               Manuel Igrejas

 

 

 

PONTAPÉ NA BOLA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 12.05.20

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XI

O julgamento do cidadão que desflorara a rapariga menor de idade teve um desfecho imprevisto: por falta de provas concretas foi absolvido.

A tomada de depoimentos das testemunhas no caso Lili ia desenrolar-se. Por incrível que pareça, pessoas gradas ofereceram-se para depor. A rigor, o processo, agora, resumia-se à denúncia de que a Farmácia Durães vendia penicilina aos contrabandistas. Na sua inocente ignorância, o Teodorico João Fernandes, apenas reclamara do órgão competente, na condição de dono da farmácia, o não recebimento do medicamento que havia sido liberado do excesso de burocracia, mas ainda controlado.

O Rápido Futebol Club e o Unidos Futebol Club acertaram realizar o campeonato melgacense de futebol a fim de decidir de quem era a hegemonia daquele desporto, na terra. Seria de quatro desafios entre eles, representando primeira e segunda voltas. O mando de campo alternado, sendo que o campo era sempre o mesmo. O Monte de Prado, campo dos jogos, tinha as medidas oficiais, mas de terra batida, cheia de torrões e pedrinhas. Fora aberto naquele pedaço de monte, nos anos vinte, pelos rapazes de então, que iniciaram a prática daquele desporto, influenciados pelos rapazes que estudavam nas cidades e por filhos de “brasileiros” que no verão iam usufruir a terra de seus pais.

O campeonato melgacense de futebol acirrou rivalidades. A população da Vila dividira-se em dois partidos, de acordo com a simpatia, ou grau de parentesco com os jogadores.

O Unidos, por ser composto por integrantes mais jovens, levou a melhor: venceu os quatro jogos e foi proclamado campeão. Ao final de cada jogo, no regresso do campo, bastante distante, na entrada da Vila, vindo das Carvalhiças, estava postada em cima do muro da Avenida do lado da casa da Chaufera, a Dores, mulher do Abílio Costa, jogador do Unidos, que em altos brados e gestos de regateira, insultava os jogadores do Rápido. “Os Unidos têm colhões”, berrava ela. E outros impropérios. Com tais atitudes ganhou a inimizade de outras mulheres, inclusive vizinhas, ligadas ao outro grupo.

   Aconteceu, entretanto, que um filho da Dores andava febril, muito abatido, piorando dia a dia, sem que a mãe tomasse alguma providência. Uma daquelas vizinhas desafectas, reparando no estado da criança, tirou-a do colo da mãe e com o auxílio do cabo de uma colher, observou-lhe a garganta. Numa explosão de raiva, gritou: “Puta sem vergonha, esta criança está com o garrotilho. Vamos ao médico, correndo!” Salvaram a criança.

O Manuel Macarrão voltava às suas plagas, vindo de outros lugares. Empolgado com o movimento futebolístico da terra, resolveu aderir. Tinha sido razoável jogador quando mais jovem. Naquela altura, caminhando para os quarenta anos, foi recusado nos clubes existentes. Arregimentou outros quarentões e jovens que tinham sobrado dos outros grupos e fundou o Futebol Club Comercial. Adoptaram camisolas amarelas, compraram todo o material e montaram sede no térreo da casa da Duartina, a mulher do Mâncio Barbeiro, virado para a Rua Velha. O sucesso foi negativo nos desafios que realizou e finou-se o Comercial com poucos meses de idade.

O Unidos e o Rápido continuaram carreira. Este último para esquecer os desaires dos resultados dos recentes desafios, resolveu mudar de nome, passou a intitular-se Sporting Club de Melgaço, filiou-se no Sporting Club de Portugal, em Lisboa, que estava em destaque naquele momento. Teve um brilharete nesta nova fase, principalmente quando ficou sem concorrente. O Unidos, por falta de novos elementos para substituir os que foram servir no exército, a maioria, acabou.

 

                                                                            Manuel Igrejas

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

 

 

 

PORRA

melgaçodomonteàribeira, 31.03.20

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XVII

Finalmente o caso do Lili do Teodorico ia definir-se. Tinha-se esgotado a inquirição das testemunhas, nenhuma a favor do rapaz. O médico, Dr. Esteves, também fora dado a entender que o Lili seria um inconsequente. O doutor Durães, o farmacêutico, estoriou a conduta quase ingénua do rapaz quando seu funcionário. Ninguém se empenhou em incriminar o Teodorico, mesmo porque não tinha cometido crime algum, apenas ingenuamente denunciara que outros haviam infringido as normas da economia nacional. Baseado nos testemunhos, o Juiz declarou inocente o Lili, com uma restrição: devido ao que foi dito sobre sua capacidade mental, ficava proibido de administrar a sua farmácia.

O Marmita apresentou queixa no tribunal ao Delegado contra o Farpas, que lhe tinha deflorado a filha de 14 anos.

Constou que numa tarde pegou a rapariga sozinha no cortelho onde guardava utensílios da lavoura e fez-lhe mal. Ele já era casado e tinha dois

filhos. Tinha uma vida bastante turbulenta. De família de agricultores vivia mais do contrabando e de furtos.

Metido a valentão era considerado à boca pequena um bandoleiro. Contavam mil diabruras a respeito do Farpas, alcunha porque era conhecido. Um dia, contavam, os carabineiros a quem ele havia vigarizado numa negociata de contrabando, prenderam-no. No meio de dois desses guardas-civis espanhóis, seguro pelos braços ia sendo levado para o posto. Pararam ao chegar à linha férrea para deixar passar o comboio que se aproximava. Num inesperado puxão desenvencilhou-se e pulou para o outro lado da linha a poucos metros do comboio. Quando a composição acabou de passar os carabineiros não mais viram o prisioneiro que jogava no rio e já estava do outro lado, em Portugal. Motivo de comentários também tinha sido o namoro com a mulher com quem casara. A Maricota, rapariga que fora para Lisboa trabalhar como empregada de servir, deu-se bem com os patrões que arranjou. Diplomatas, foram servir num país no centro da Europa e levaram a empregada. Passados anos, um belo dia a Maricota apareceu na terra visitando a família. Causou admiração aquela figura de mulher, bem trajada, com requintes de fidalguia e modos elegantes. Foi como uma alucinação para os rapazes casadouros. Vários se insinuaram mas o que teve receptividade foi o João do Louro. Rapaz de boa família, comportado, também envolvido no contrabando de maneira “honesta”.  Uma reviravolta inesperada aconteceu! O Farpas interpôs-se, a Maricota desmanchou o compromisso e aceitou casar-se com o novo pretendente, de improviso. Coitada! Os maus tratos passaram a ser a rotina daquele casal e quando o caso da filha do Marmita aconteceu, ela, a Maricota, a bem posta e afidalgada, estava transformada num trapo e envelhecida. O João do Louro, para não se dar achado, passou a namorar a Perfeita, a filha do Zé da Carminda e em poucos meses casaram.

O Marmita na inocência da sua ignorância contava o acontecimento a sua filha e como para se justificar, dizia: “se fosse com a minha mulher não me arreliava tanto…”

Foi mais um caso de estupro que durante algum tempo distraiu aquela gente. O Delegado mandou que a rapariguinha fosse submetida a exame médico que comprovou a perda da virgindade.

O Farpas foi absolvido! Mesmo comprovada a perda da virgindade, como não houve testemunhas, a palavra da rapariga não foi suficiente.

 

                                                                        Manuel Félix Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

FICA EM CASA PORRA, FICA EM CASA

 

 

 

A CHEGADA DA PENICILINA A MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 29.06.19

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

III

O Amílcar da Lucrécia estava prestes a bater as botas. O José Esteves (Zeca da Cabana) tanto insistiu com o médico que este, talvez nem tanto para salvar o moribundo, mais para testar a eficiência do novo medicamento de que se contavam maravilhas e ele só conhecia da literatura especializada que os laboratórios lhe enviavam, resolveu aceder.

Era isso! O amigo Zeca da Cabana mexera-lhe com os brios quando lhe evocou a penicilina. Telefonou, o médico, para o Delegado de Saúde Distrital em Viana do Castelo dando detalhes do caso, este telefonou para Lisboa e vinte e quatro horas depois a penicilina chegava a Melgaço pelo correio.

A expectativa era geral na localidade e arredores. A notícia de que naquela terra de “Deus me livre” de Portugal ia ser usada a tal penicilina, causou grande furor. O doutor Esteves pernoitou ao lado da cama do Amílcar, injectando-lhe de hora em hora o milagroso pó branco diluído no veículo especial que acompanhava. A reacção foi positiva e pela manhã foi considerado fora de perigo.

O júbilo foi grande e o povo da terra sentiu-se importante por estar participando do progresso da ciência. Uma maravilha, a penicilina ia salvar a vida de todos os enfermos, diziam. O médico ficou orgulhoso e já achava que valera a pena salvar o rapaz.

Manuel Igrejas

 (continua)