Sábado, 18 de Maio de 2019

UM CONCURSO DE CÃES DE CASTRO LABOREIRO (conclusão) - ÓBIT0

49 b2 - vencedora concurso cães castro 1971.jpg

vencedora do concurso

(continuação)

 

Festa sem foguetes e três mil contos por mês

O «Cinco de Outubro» é dia de festa na freguesia, festa sem foguetes nem procissão. Prato melhorado ou saia nova. Mas festa. A mulher de Castro Laboreiro vê em tal dia a promoção dos seus cuidados no mundo canino. Data que é um chamariz à terra, de gente de todos os lados e culturas. Dia em que os naturais contactam mais de perto e se familiarizam com as pessoas da cidade.

Hoje já não se interessam pelos prémios pecuniários – disse-nos aquele pároco – Só lhes interessam as taças e as medalhas ganhas pelos seus cães para as exibirem no melhor canto da casa. E o dinheiro dos prémios não lhes interessa porque em Castro Laboreiro todos vivem muito bem. Não há pobres.

A nosso pedido, o «chefe espiritual» daquele povo esclareceu-nos:

Para esta pequenina terra, os emigrantes enviam mensalmente à volta de três mil contos.

Esboçamos uma reacção de surpresa. O Padre Aníbal, então, à muita insistência nossa, acedeu em pormenorizar:

Cada um remete para a família uma média de cinco a seis mil escudos.

Mas há quem remeta todos os meses meia centena de contos, garantiram-nos; aquele sacerdote não desmentiu. O seu sorriso antes, confirmou. E nós próprios chamamos com a esposa do proprietário da estalagem de Castro Laboreiro, na qual foram gastos três milhões de escudos, que, depois de muito instada, acabou por confessar que o marido lhe mandava de França trezentos contos anuais, ou seja, uma mensalidade de 25!

 

«Vá perguntar ao inferno»

Os cães em número de 25, a ser presentes aos juízes, Drs. António Cabral presidente do Clube Português de Canicultura, e Teodósio Antunes, foram dispostos por classes: de cachorros, destinada aos exemplares que, à data do concurso, tenham mais de seis e menos de doze meses de idade; e aberta, destinada a todos aqueles com mais de um ano.

Enquanto os bichos eram minuciosamente observados, com muita mais minúcia do que as «misses» num concurso de beleza, pois eram apalpados de todas as formas e feitios, incluindo grãos e dentes, os mirones da cidade (Lisboa, Porto, Évora, Faro), que ali se haviam deslocado propositadamente, procuravam estabelecer contactos com toda aquela gente, que nos pareceu, contudo, pouco receptiva a satisfazer a curiosidade geral, nada disposta a ser considerada avis-rara.

O repórter afadigou-se em formular perguntas, mas, quase sempre, esbarrou com muralhas de mutismo. Então quando lobrigava obter resposta, era do género: «Não sei». «Para que quer saber?», «Vá perguntar ao inferno» Não saíam disto. Deixarem-se fotografar foi problema ainda mais difícil. Sempre que o camarada fotógrafo apontava a máquina e elas davam por isso, era certo e sabido virarem, ostensivamente, as costas. Indignavam-se mesmo. «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós. Já toda a gente sabe que «semos» bonitas. A gente não precisa disso». Não fora a perícia do Orlando e a reportagem não conseguiria fixar as suas expressões.

 

Modernos quartos-de-banho servindo de arrecadação

As casas circulares cobertas de colmo, durante séculos características da região, foram substituídas pelas casas de telha «francesa». Com o dinheiro que amealha na estranja, o natural de Castro Laboreiro começa por mandar construir a sua própria casa. Depois, investe na cidade, comprando andares em regime de propriedade horizontal.

Apesar disso, naquela aldeia serrana, o forasteiro, nas primeiras impressões, fica com a ideia que os naturais vivem com extrema dificuldade. O aspecto humilde das pessoas, de cara queimada e enrugada, precocemente envelhecidas, leva exactamente a supor que subsistem em função do que ganham com a enxada na mão. De parcos recursos portanto.

Pois ali, mais do que em qualquer outro lado, pode dizer-se que assentou arraiais a decantada sociedade de consumo. Dizia-nos quem mais e melhor está informado acerca de Castro Laboreiro, que é precisamente o Padre Aníbal que lá nada falta. «Televisores, torradeiras, máquinas de lavar e barbear, gravadores, aspiradores, aquecedores. Tudo aquilo que a técnica criou para facilitar a vida de cada um, há cá na terra.»

Alguém de fora, mas que por funções profissionais vai muitas vezes a Castro Laboreiro, dizia-nos depois: «É formidável, de facto, como esta gentinha tem tudo.» Um sorriso. Uma dúvida, como que se interrogando a si próprio se havia ou não, de dizer-nos o resto. Acabou por dizer: «Têm tudo realmente. Mas têm tudo dentro de caixas, tal como veio das lojas. Novinho em folha. Nem todos, claro. Com muitos, porém, isso acontece.» Depois: Conheço casos em que os quartos-de-banho, por exemplo, servem de arrecadações. Estão a abarrotar de coisas. E ainda que os artigos sanitários sejam o último grito, tenham ainda o selo da fábrica, (por estrear portanto), as pessoas vão ao campo fazer as suas necessidades…»

Tal estado de coisas tende, contudo, a acabar, dado que os filhos dos emigrantes, frequentam as Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa e o Seminário, tendo a terra já os «seus» doutores.

 

Seis contos pelo «Paris»

As pessoas que ali se haviam deslocado propositadamente para adquirir um cão de «Castro Laboreiro», e para isso atravessaram o país de lés a lés, percorrendo mais de mil quilómetros (!!!) procuravam ouvir aquilo que os juízes cochichavam acerca de cada cão julgado, para depois abordarem o respectivo proprietário, antes de serem conhecidas as classificações. E é fácil saber porquê. Evidentemente que desde a altura em que o proprietário soubesse que o seu animal havia sido premiado, acto contínuo faria «render o peixe», que no caso era pedir mais dinheiro pelo animal, elevado à categoria de vedeta. Cão com diploma e medalha é mais caro. A propósito julgámos que a melhor altura para o negócio não seria aquela. Talvez por isso, há «peregrinações» a Castro Laboreiro, «santuário» da raça com o mesmo nome, durante todo o ano, ainda que os meses de Março e Abril sejam aqueles que mais gente atraem.

Pois por cachorros de um mês, portanto ainda «imberbes» para participarem no concurso, os donos pediam entre 200 e 250$00. Mas já o bicho considerado o melhor do certame, de seu nome «PARIS», propriedade de Manuel Gonçalves Loureiro, ausente no Canadá e apresentado por sua mulher Benezinda Gonçalves, teve cotação de seis mil escudos. Muito dinheiro, convenhamos, segundo o nosso ponto de vista pessoal, naturalmente. Observámos à «ti» Benezinda: «Não tem vergonha de pedir seis contos pelo cão?»

«Oh home, deixe-me ficar o bicho em paz. Não o quero vender. Vocês é que mo querem comprar.» A despachar-nos: «Daqui a algum tempo isto (e apontou para o cachorro) não é um cão. É um elefante. E foi-se.

 

Guerra às malhas brancas

Facto curioso é que os possíveis compradores antes de entrarem em negociações procuravam ‘catequizar’ o Padre Aníbal a fim dele dar a sua opinião sobre o cão em causa, pois, como já referimos, é um estudioso profundo das raças nacionais, e ao mesmo tempo servir de medianeiro para que o preço não ferrasse demasiadamente. Já se vê a sua dificuldade em aguentar-se entre dois fogos de interesses díspares. Defesa do paroquiano e amabilidade para com o forasteiro.

Após os julgamentos, ouvimos o Dr. António Cabral: «A impressão geral é bastante boa. A fixação das características étnicas está garantida. O lote de cães este ano foi muito bom! Muito bom! Antes da distribuição de prémios, o Dr. Teodósio Antunes ‘falou às massas’. Depois de ter historiado a razão do concurso, disse: «Cada vez temos de ser mais exigentes. Temos de combater as malhas brancas. Não devem existir mais cães de «Castro Laboreiro» com malhas brancas. Há que evitar o cruzamento com outras raças. Prendam as vossas cadelas na altura do cio…»

 

In Jornal “ O MUNDO CANINO

Novembro de 1971

Aurélio Cunha (texto)

Orlando Soares (fotos)

 

655 - 2 caravelas igrejas.png

manuel e o painel por ele executado e oferecido à Casa do Minho do Rio de Janeiro

 

MORREU MANUEL IGREJAS

Não sei que dizer; descansas finalmente depois de tantas décadas a levar a história da tua querida vila pelos quatros cantos do mundo, de enfeitar paredes em Portugal e Brasil, de fazeres gargalhar cada casa onde chega A Voz de Melgaço e o nosso blogue. Choro-te agora e abraçar-te-ei um dia lá no sítio para onde partiste.

Ilídio

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:05
link do post | comentar | favorito
Sábado, 6 de Abril de 2019

O COCIOLLO DO LILI

44 - x cociollo lili.JPG

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

IV

 

Para o julgamento do Lili do Teodorico foram arroladas várias testemunhas que dariam seu depoimento sobre a conduta e personalidade do rapaz. A mais importante testemunha era o doutor João Durães, farmacêutico, dono da única farmácia da Vila. Político destacado, membro da União Nacional, partido único existente na época, já exercera a presidência da Câmara Municipal com destacada administração. O governo do País só permitia, então, uma farmácia para determinado número de habitantes. Na Vila de Melgaço, só existia a farmácia Durães, a farmácia do Lili era em S. Gregório, localidade nove quilómetros distante.

O Teodorico João Fernandes, garoto ainda, terminado o ensino primário, foi ser aprendiz na farmácia Barreiros Sucessores, sob a direcção técnica do farmacêutico diplomado, doutor João de Barros Durães. Pouco depois, a razão social da firma passou a denominar-se Farmácia Durães, transferindo suas instalações para a Praça da República. Assumiu a gerência do estabelecimento o prático farmacêutico senhor Alves, figura hilariante que ganhou a nomeada de Pédanjo. Retornado do Brasil, simpático como são todas as pessoas obesas, cantarolava a marchinha carnavalesca em voga na data do seu embarque, “O Pé de Anjo”. Mantinha bastante carregado o sotaque brasileiro e usava termos daquele país que faziam dele tema de chistes.

Razoavelmente inteligente, o Li li foi absorvendo os ensinamentos do manuseio das drogas tornando-se hábil boticário.

Quando o senhor Alves faleceu, o Lili já estava no ponto de o substituir. O salário não era lá essas coisas, mas excessivamente económico, beirando a avareza e vivendo com os pais, guardava tudo que ganhava. Era muito educado e respeitador, porém, veladamente tinha atitudes de grandeza relacionando-se com as famílias pseudo fidalgas e isso irritava os rapazes da sua geração e da sua condição económica.

De tanto economizar conseguiu capital para comprar a farmácia do velho doutor Canhoto em S. Gregório. Dono do seu próprio negócio, a vaidade do rapaz transcendia a ponto de fazer exigências aos órgãos administrativos.

Naquela fase do após guerra, vulgarizaram-se as bicicletas motorizadas lançadas pela indústria italiana, as mais conhecidas, Lambreta e Cociollo. O Lili comprou o segundo Cociollo da terra onde desfilava sua imponência pelas ruas da Vila de maneira peculiar que causava risos e deboche da população: para economizar gasolina, usava a motorizada pedalando como se fosse bicicleta comum.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:24
link do post | comentar | favorito
Sábado, 5 de Janeiro de 2019

O DOUTOR SUIÇA

2 cx - casa da dona marieta - nº 60.JPG

nº 60, casa da dona marieta

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

II

Espalhou-se rápida nas tabernas e no café a notícia do internamento no hospital, do Amílcar da Lucrécia. O grupo de rapazes reunido numa mesa do café do Zé Félix, comentava o caso:

- Realmente fazia alguns dias, talvez mais de uma semana, que não aparecia no bilhar.

- A Maria da Rosa Pires que ultimamente cuidava dele, é que o levou ao hospital.

- Disseram que estava irreconhecível. Um rapagão que ele era, consumido pela febre.

- Tudo começou por uma dor de cabeça.

- Está com meningite e talvez não escape.

Quem afirmava isto era o Neca Pires, sempre bem informado e que acabara de se juntar ao grupo.

O Dr. Esteves, mais conhecido como Dr. Suíça pela marca de nascença que tinha no rosto, encostada à orelha esquerda, médico clínico do hospital, sentenciara:

- Meningite em estado adiantado, não tem jeito!

O Zeca da Cabana, funcionário municipal, de família influente e amigo do médico, presente na hora do diagnóstico interveio:

- Ó Esteves, vê o que podes fazer pelo rapaz, ele é um desocupado, mas é um ser humano.

- É um pária, imprestável, não merece qualquer tentativa…

Era o doutor António Cândido Esteves, radical em suas opiniões e aparentemente desprovido de sentimentos piedosos. Não acreditava em Deus nem em qualquer manifestação espiritual. Uma tarde, na alfaiataria do Augusto do Félix, do outro lado da rua, quase em frente à sua casa, onde passava alguns momentos do dia conversando, surgiu o assunto:

- Claro que Deus não existe, donde é que ele veio?

- Mas, senhor doutor, a terra, os planetas, o universo, quem os fez? – perguntava o Gú, filho do alfaiate.

- Apareceram por acaso. A maior parte das coisas aparecem por acaso.

- E Jesus Cristo? – perguntou o Augusto do Félix.

- É isso que é uma boa alma, como vocês dizem. Foi um sujeito bom, como tantos outros e o povo diz que é uma boa alma.

A conversa nesse dia acabara meio sem graça. Não obstante a sua instrução superior, o doutor Esteves não teve argumentos para evitar o sentimento de piedade que naquele momento lhe devotaram. Todavia convivia o doutor Suíça pacificamente com a religião chegando a participar de alguns actos do culto como se fossem eventos sociais, e era amigo de todos os padres da região, a quem respeitava e era respeitado.

As declarações de ateísmo do doutor Esteves eram contrariadas por suas atitudes de vida. Atendia a todos que o procuravam ou mandavam chamar, sem cobrar coisa alguma, mesmo porque a maioria do povo não tinha recursos monetários. Nos seus tempos de estudante na Faculdade em Lisboa, frequentara a Academia de Equitação, e, desde então tinha predilecção por cavalos e era óptimo cavaleiro. Sempre tinha um animal de boa linhagem, geralmente uma égua, que era o seu meio de transporte para atender aos enfermos nas povoações distantes, na montanha, onde o automóvel não ia.

Tinha um Citroen, modelo 1928, em bom estado, pelo pouco uso, não obstante os quase vinte anos. Quando resolvia utilizar o automóvel, para o tirar da garagem valia-se de alguns rapazotes que o empurravam até pegar. Pelo longo tempo de inactividade sempre a bateria estava descarregada. Nos sábados, dia de feira na Vila, à porta do doutor Esteves havia uma romaria de pessoas que vinham agradecer os seus préstimos; um parente que ele salvara, ou o próprio enfermo já recuperado. Como reconhecimento, faziam-se acompanhar de frangos, galinhas, cabritos, peixes do rio, frutas e outros produtos da terra.

- Ó Manel, vem cá! Leva estas trutas à casa da Marieta.

O Manel era o filho mais novo do Augusto do Félix, o vizinho alfaiate. A Marieta era a mulher oficial do doutor Suíça com quem tinha duas filhas. Não moravam juntos, nem eram casados.

Dava toda a assistência mantendo a casa da mulher no maior conforto e abastança. Parte dos pagamentos que os pacientes lhe traziam eram mandados para a casa da Marieta. Na sua casa na rua da Calçada, morava com sua mãe, a D. Teresa Pedreira, e uma criada. Um dos motivos para que a Marieta não morasse na casa do médico era a intransigência da mãe.

Todavia, segundo os mais velhos, ela, Teresa, tinha sido empregada naquela casa.

Tinha o doutor Esteves, e parece que era esse um dos seus pecados, aparte os conceitos filosóficos e teológicos, uma tremenda vaidade da sua colecção de objectos. Algumas pessoas que ele atendia tinham familiares emigrados em outros países a quem comunicavam o acontecido. Quando estas pessoas conseguiam ir de visita a seus familiares ou em regresso definitivo, traziam os mais variados e valiosos presentes para o doutor Suíça. Uma espingarda de caça, cano duplo, toda entalhada, o melhor que existia na época segundo os entendidos, que alguém levara da Bélgica; relógios idos da Suíça, máquina fotográfica de França e outros objectos de alto valor. Nunca, naquela terra, se ouvira falar em tal: um retornado dos Estados Unidos levou-lhe um barbeador eléctrico. Foi uma sensação!

Mas o doutor Esteves não saía de seus hábitos e não usava nenhum daqueles objectos. Eram como troféus dos quais era cioso e só uns poucos amigos podiam apreciar.

Para manter suas necessidades económicas e sua posição social, tinha considerável património de família. Auferia salário simbólico como clínico do hospital, porém tinha bons lucros com a transacção de gado bovino. Era entendido no assunto, frequentava as feiras especializadas, comprando e vendendo bois e vacas. Mantinha os animais ao ganho durante algum tempo, que consistia no seguinte: comprava os animais em época baixa, quando os lavradores precisavam de dinheiro para custear suas lavouras e vendia-os em época em que os mesmos precisavam dos animais para as fainas agrícolas. Nesse meio tempo os animais ficavam à guarda de proprietários rurais conhecidos ou amigos, que passavam a ser parceiros. Cuidavam dos animais utilizando-os em seus serviços de lavoura e quando o convencionassem vender, o lucro era dividido.

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:33
link do post | comentar | favorito
Sábado, 11 de Agosto de 2018

UMA FORÇA DE FÉ

7 - igrejas 2017.jpg

pastoriza por manuel igrejas 2017

 

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

 

VI

 

O julgamento do Lili do Teodorico aguardava data. Ele continuava em sua actividade e era assunto das conversas.

Naquele fim de verão, um ano depois do Amílcar ter-se recuperado, numa tarde cálida, quando as pessoas andavam de roupas leves e os homens, na sua maioria em mangas de camisa, a notícia caiu como um raio que a todos fulminou: o Zéca do Aurélio caíra de cama com uma meningite.

Era o José de Araújo Azevedo, conhecido como o Zéca do Aurélio, um distinto rapaz. Filho do senhor Aurélio, abastado comerciante, gozava de estima geral. Alto, bem apessoado, primava pela fidalguia e boa educação. Estudara na cidade do Porto o que lhe dava certa superioridade sobre os demais rapazes. Devia ter nessa altura por volta dos 25 anos.

A consternação inicial que a todos tomara transformou-se de súbito numa força de fé. Numa roda de rapazes e raparigas que se formara no canto da praça, próximo da casa do senhor Aurélio, alguém sugeriu que se fizessem orações. Uma novena seria forte apelo a Deus por intermédio de Nossa Senhora. Resultado. O senhor Pe. Justino perfilhou a ideia e, a partir do dia seguinte, ao fim da tarde, a juventude reunia-se na igreja matriz onde rezavam o terço, liam trechos do Evangelho, faziam reflexões, recitavam a ladainha e entoavam cânticos, intercedendo ao Criador pelo restabelecimento do amigo enfermo, e terminavam o culto com louvação e adoração do Santíssimo Sacramento. Nove dias repetiu-se aquela devoção. O procedimento médico foi o que se tornara usual. Accionada a delegacia distrital de saúde que encaminhou ao órgão competente na capital.

- Se a penicilina chegar a tempo vai ficar bom. Olha o Amílcar que passa o tempo jogando bilhar!

 - Dizem que o caso do Zéca é mais grave, comentavam os rapazes no café!

 

 

VII

 

O doutor Esteves foi chamado para atender a uma rapariga da família que estava muito mal. Informado sobre os sintomas e o que teria causado a enfermidade, negou-se a atender. Que fossem chamar o doutor Sá que era o médico oficial do município! Ele não atendia a desmanchos!

A irmã da rapariga doente desfazia-se em apelos. Ele, doutor Suiça, era o mais entendido em doenças de mulheres. A pleiteante, irmã da enferma era abastada comerciante na vizinha vila de Monção, podia pagar o que ele pedisse. Não e não! Abominava, o doutor Esteves, a prática do aborto! Não admitia que se fizesse tal, fosse a propósito do que fosse! Muito menos por ter emprenhado do namorado. Esta posição do médico era bastante contraditória com a sua filosofia materialista. Considerava crime abortar uma futura pessoa. Mesmo quando o aborto era espontâneo, ele se revoltava.

Aconteceu isso anos depois, quando uma sua criada engravidou dele mesmo. Pensando ser recriminada demitiu-se ao sentir a gravidez. Com poucas semanas abortou e aí, sim, ele enfureceu-se ao saber do caso. Devia ter-lhe confessado; ele a cuidaria uma vez que conhecia o malogro dum caso anterior com um namorado, proclamava o médico a quem lhe falava no assunto.

Aquela comerciante ofereceu vultosa quantia para o médico ir cuidar-lhe da irmã. Ou pelos reiterados apelos ou pelo dinheiro, ele foi, tratou da rapariga e ela curou-se.

 

   Manuel Igrejas

 

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:10
link do post | comentar | favorito
Sábado, 10 de Fevereiro de 2018

O VASCO, O MANEL E A CENTRAL DE MELGAÇO

6 d2 - igrejas 2017 (2).jpg

manuel f. igrejas

 

O ANTIGAMENTE

 

Nos anos quarenta do século passado, como meu primeiro emprego foi ser ajudante do Vasco, na Central. O Despacho Central de Melgaço ficava no térreo da casa das senhoras Teixeiras, ao lado da caneja da Fonte da Vila. O meu pai queria fazer de mim alfaiate como fez com meus irmãos, mas o Dr. Sá, que cuidara da minha tuberculose e reconheceu que não foram tanto os remédios que me curaram… convenceu o Augusto do Félix a não me fazer alfaiate que sobrecarregava muito o peito. Uma profissão ao ar livre, talvez lavrador, seria o ideal. Gostei de não ser alfaiate mas não gostei da ideia de agricultor, ainda bem que meu pai não tinha terrenos. Como já estava espigadote não ficava bem andar vagabundando. O Bino do João Lima fora demitido do cargo de ajudante do Vasco. O Augusto do Félix pediu a intervenção do Dr. Suíça (Esteves) vizinho e amigo, para pleitear do Sr. Teixeira o cargo para o seu Manelzinho.

Antes do Vasco quem gerenciou a Central foi um tal Vieira, cidadão forasteiro indicado pela CP (Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro) a que a Central estava ligada. Este Vieira, além daquele departamento de despacho e recebimento de mercadorias, assumiu a Pensão que anteriormente fora Vila Verde, ali na Calçada em frente à barbearia do João do Gabriel, e mais tarde foi do Zeca da Pureza (o Estica). Quem administrava a Pensão era uma irmã do Vieira, matrona rechonchuda, o tipo de beleza que os papalvos apreciavam naquela época, acho que solteira pois aceitava a corte dos mancebos que a bajulavam e lhe ofereciam presentes. Alguns casados que a título de ir beber uma pinguinha na taberna da Pensão, passavam os fins de tarde naquelas reuniões. Um primo nosso, casado e com filhos, ia todas as tardes ao sair do trabalho, penteado e perfumado para a Pensão. Mais tarde gabou-se que lhe oferecera umas meias e lhas calçara.

O Sr. Teixeira, co-proprietário da Auto Viação Melgaço Lda., atacadista de mercadorias com galpão no largo da Calçada que chamávamos garagem, também era o responsável pela Central, autorizou a minha admissão. O Vasco gostou pois conhecia-me muito bem. Éramos vizinhos com as casas geminadas. Aliás, essas casas tinham sido uma única vivenda em época anterior. Então fui ser ajudante na Central sem ganhar coisa alguma. Naquela época quem se iniciava numa profissão ou comércio, trabalhava de graça, às vezes por anos. Além de não ter vencimento ainda ganhava raspanetes bem ásperos. O Sr. Teixeira aparecia de surpresa e reclamava por a Central estar desarrumada e sem varrer. Foi aí que percebi que além da parte burocrática também tinha de varrer. Mas não o fazia, os rapazes que perambulavam por ali na expectativa da chegada da camioneta que de Monção trazia as mercadorias, iam comunicar aos comerciantes destinatários que lhes davam uns tostões para as transportarem após desembaraçadas, varriam por mim a troco de lhe indicar de quem eram as mercadorias. Quem mais varreu foi o Álvaro da Conceição (Facadas) e o Manel da Rosa Nabeiro que até hoje agradeço.

Após algumas semanas estava senhor de todo o serviço da Central, pois o Vasco que iniciava o romance com a Biti, ausentava-se várias vezes ao dia e eu ainda tinha de mentir caso o Sr. Teixeira aparecesse dizendo que fora resolver na Câmara, assunto da Central. De tal modo conhecia todos os trâmites do serviço que fiquei sozinho com toda a responsabilidade quando o Vasco adoeceu por alguns meses, e nessa altura apareceu um fiscal da CP para avaliar o funcionamento daquele departamento que elogiou o meu desempenho. E eu continuando com o mesmo salário: nenhum! Naquele tempo como por certo todos os tempos, quem se prevalece do trabalho gratuito de alguém, será muito ingénuo não pensar que o ajudante gracioso não irá tirar proveito doutra maneira. O Vasco que não devia ganhar muito bem fazia pequenas trapalhadas com as mercadorias. Eu aprendi. Quando fiquei responsável pela Central fui abordado sigilosamente por um comerciante conhecido que disse, antes da minha actuação, terem-lhe violado uma encomenda de sapatos. No trajecto do comboio e na estação de Monção era frequente o sumiço de parte das mercadorias. A propósito, uma tarde o Pianho ajudante avulso na mecânica das camionetas, apareceu na Central procurando faca ou objecto cortante, que cheirava. Não achou nada que incriminasse. Esclareceu que investigava quem comeu meio queijo do Reino, aquele feito bola vermelha, que faltou numa encomenda. Mais tarde o motorista e o ajudante da camioneta gabaram-se que tinham feito uma merenda e tanto.

O comerciante em questão propôs fazer uma grande encomenda de calçado sob seguro e quando chegasse eu assinava a guia atestando a violação e a falta de vários pares de sapatos que o seguro iria cobrir, em troca ele dava-me um par de sapatos novos. Mas é claro que aceitei! Quando fui reclamar os meus sapatos quis-me dar um par encalhado que eu não gostei. Escolhi uns de camurça, os melhores que tinha na loja. Relutou mas dizendo-lhe que ou aqueles ou não queria nenhum, acabou cedendo.

Quando calcei aqueles sapatos a primeira vez o meu pai observou: estás calçando sapatos melhores que o teu patrão. Patrão simbolicamente pois não me pagava nada!

Mas este antigamente todo é para recordar alguns dos muitos ensinamentos da vida que o Vasco me passou. Um dia chamou-me a atenção para o seguinte: “já reparaste, Manel, que a nossa terra é puta mãe e boa madrasta?” E passamos o resto daquele dia enumerando os forasteiros que se radicaram em Melgaço e se deram bem: Até fizeram fortuna!

 

Rio, Abril de 2012

Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sábado, 23 de Setembro de 2017

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

62 c2 - r baixo melgaço.JPG

rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço   

                                               


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:12
link do post | comentar | favorito
Sábado, 29 de Julho de 2017

O AJUDANTE DO VASQUINHO

62 b2 Os Vitoriosos - plantel.jpg

 

               O ANTIGAMENTE 

 

 

Isto de por a funcionar a gravação do passado no registo da memória, corre-se o risco de disparar por falta de funcionamento prolongado, e põe-se a descoberto cenas e situações que se pretenderam esquecer.

A Maria de Fátima, filha do saudoso Toninho do Cerinha, é a culpada do desarranjo mecânico do nosso gravador cerebral que não quer parar de funcionar. Como foi dito, eu era ajudante do Vasco na Central, e o meu desempenho chamou a atenção do Sr. Teixeira que tratou de explorá-lo. Nas horas mortas da Central, e eram muitas, incumbiu-me de cobrar as letras promissórias dos comerciantes. Era o Sr. Teixeira, também, representante bancário e as facturas das mercadorias que os lojistas compravam, quando venciam, o representante bancário era incumbido de as receber. Lógico que o chefe não iria a pé ou de bicicleta quando mais longe, cobrar. Não sei quem fazia isso antes de mim, só sei que fui guindado a esse posto que me elevou no conceito social da terra, ganhando a mesma coisa, nada! E o meu desempenho agradou a tal ponto que além das duas funções que já exercia, Central e cobranças, acresceu a de cobrador na carreira. O Sr. Aires, aparentado com a D. Laura, esposa do Sr. Teixeira, retornado do Brasil, foi ser cobrador duma das camionetes da carreira. Naquele tempo, anos quarenta, havia duas carreiras diárias entre S. Gregório e Monção. De manhã, às 7 horas, uma carreira mista, camionete metade bancos e metade livre para mercadorias. Voltava de Monção às 6 horas da tarde. A outra carreira, a do correio, saía às 10 horas e voltava às 4 da tarde quando não havia atraso no comboio. Na da manhã, o chaufer era o Emídio ou o Álvaro da Orada, e cobrador o Fernando Ferrador. Na carreira do correio, o chaufer era o Sabariz e o cobrador o Aires que pelas mazelas que levava do Brasil, vira e mexe ficava doente e era substituído em cima da hora pelo Gui (Henrique Fernandes) fiel do departamento atacadista. Um dia, pela impossibilidade do Gui se ausentar do seu metiê, fui mandado ser cobrador. Esta situação repetiu-se várias vezes até que o Sr. Aires se afastou e eu passei a ser permanente. Surgiu uma dificuldade: na hora do jantar (almoço) eu estava em Monção. O Sr. Teixeira autorizou que eu tirasse da receita das passagens a importância para pagar a refeição que fazia na taberna anexa àquele restaurante que tinha na avenida da Estação da C. P., e recomendou: - Come bem! Pois sabia da tuberculose que me atacara anos antes. E a rotina manteve-se por vários meses. Ao voltar da carreira entregava ao Constantino, grande amigo e parceiro desde os bancos da escola, que era o responsável pelo escritório das empresas, os talões das passagens e o dinheiro correspondente descontada a refeição. Nem sempre conferia na hora, colocava numa caixa para mais tarde contar. Um dia o Sr. Teixeira nas investidas que fazia no escritório, perguntou: - Que dinheiro é este na caixa? – É o que o Manel entregou do correio. Resolveu contar. – Está faltando quinze escudos – É o da refeição! – Mas é muito dinheiro, manda-o chamar. Fui interrogado e respondi: - O senhor mandou que me alimentasse bem. Aí o Fernando Ferrador, que também almoçava na mesma taberna e estava presente, achou de agradar ao patrão e me entregou: - Ele só gasta nove escudos. Era verdade! Diariamente eu me fazia um salário de 5 ou 6 escudos. O Sr. Teixeira achou que eu não merecia tanto e estipulou: - Vou-te dar 150 escudos por mês, cinquenta por receberes as letras e cem pela carreira (pela Central, nada). Deu na mesma, mas pelo menos ia ter um salário. Só o meu pai é que teve a despesa ao fornecer-me o bife que havia de comer no almoço.

   Fui apurado para a tropa o que causou estupefacção geral. Quando mais perto de me apresentar ao serviço militar, pensando noutro modo de vida após a tropa, engendrava um modo de atrapalhar o Sr. Teixeira. O João Castro, outro grande amigo e também parceiro da escola, um domingo à tarde convidou: - Queres ir connosco ao Porto? O pai dele, o Manuel Castro, grande comerciante, em função dos seus negócios fazia muitas viagens àquela cidade no Ford que antes comprara ao dito Sr. Teixeira. Arrumei-me às pressas e pedi à minha irmã Esmeralda que dissesse ao Gui que arrumasse quem fosse na camioneta no dia seguinte. No Porto, desliguei-me dos Castro, apenas combinamos o regresso e procurei os irmãos Manuel e José Lourenço, filhos do Manuel da Garagem (Lourenço) que estudavam e viviam naquela cidade. No quarto com duas camas que ocupavam, facilitaram-me uma por aquela noite e eles dormiram juntos. Grandes amigos, especialmente o Manuel, parceiro em “Os Vitoriosos”. Fiquei dois dias zanzando pelo Porto, pela segunda vez, dando vazas à minha necessidade de auto afirmação. Dos trocados que tinha amealhado comprei uma gabardine que era na época, o máximo de snobismo. Ao regressar, o Sr. Teixeira passou-me o maior responso que se possa imaginar. Mandou que fosse pedir emprego ao Manuel Castro. Como se eu esperasse outra coisa. E na medida que ele se mostrava furioso eu me considerava realizado ao verificar que ele precisava dos meus préstimos.

   Quando voltei da tropa e reorganizei “Os Vitoriosos”, o Sr. Teixeira demonstrou amizade comigo. Tratava-me com educação e acreditou na minha palavra a ponto de facilitar uma camionete para levar o grupo “Os Vitoriosos” a Viana disputar uma taça, para pagar com festas que iria promover depois.

 

 

Rio, Maio de 2012

                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:06
link do post | comentar | favorito
Sábado, 3 de Dezembro de 2016

SAGRADO E PROFANO

19 c2 - anos 30 XII.jpg

                                 texto e desenho de manuel igrejas

 

O SAGRADO E O PROFANO EM MELGAÇO NOS ANOS 30 DO SÉCULO XX

 

Tradição enraizada na fé do povo da Vila de Melgaço, era, em Maio, a devoção ao Sagrado Coração de Maria quando acontecia festividade e a Primeira Comunhão das crianças.

Naquele ano a preparação em torno dos preparativos no que respeita à solenidade eucarística, foi fora do comum.

As famílias empenharam-se ao máximo para que as suas crianças fizessem boa figura. Tanto mais importante que o sacramento que pela primeira vez as crianças iam partilhar era o exibicionismo nas roupagens. Nos rapazes não dava para variar muito nas calças e na camisa branca e em alguns com casacos. Já nas raparigas era ver o luxo nos tecidos e modelos dos vestidos.

A maioria da rapaziada aprendia as orações obrigatórias em casa com a família, geralmente as mães; a doutrina, os princípios teológicos, eram ensinados pelas catequistas, as Donas Leonor e Emília Durães, com ajuda de outras senhoras, durante algumas semanas, diariamente, à tarde. O Padre Firmino que paroquiava as freguesias de Prado e da Vila, aparecia raramente para dar ênfase aos pecados e ameaçar com o fogo do inferno. Numa das prelecções, quando frisava que o fogo do inferno era eterno, o Manel do Jacob observou: - então a gente acaba por se habituar…

No domingo da festa, logo cedo, o Augusto do Félix chamou o seu pimpolho para se arranjar com esmero. O Manel e o Rogério, ambos fazendo a sua primeira comunhão, vestiam a rigor com fatos pretos confeccionados especialmente. Era o Manelzinho o mais novo da turma entre rapazes e raparigas. A maioria ou a totalidade daquelas crianças, por serem muito novas, não tinham a verdadeira noção do que iam fazer, e o Manel, a par da vaidade que a sua figura proporcionava aos parentes sofria tremenda expectativa ao pensar que não iria corresponder às recomendações. O primeiro dilema já fora no dia anterior quando voltou da confissão e em meio a uma brincadeira mandou o irmão à merda. O Ná, que trabalhava na alfaiataria, para o arreliar disse-lhe que a palavra era pecado.

Foi preciso o pai dizer-lhe que não era tão pecado assim, para o sossegar.

 A entrada para a igreja, mal comparando, teve alguma semelhança com o desfile de carnaval. Os adultos já superlotavam a nave da matriz da Vila. As crianças assumiram os lugares que lhe estavam reservados em bancos corridos a todo o comprimento da igreja. As pessoas em pé ou ajoelhadas na hora apropriada (ainda não existiam os bancos). Como era missa de festa, solene, como determinava o protocolo, teve sermão. O padre Artur, de Penso, o mais consagrado orador da região, inspiradíssimo, como sempre, arrebatou os fiéis em prolongada dissertação, em dado momento exortou as crianças a pedirem perdão aos pais. Foi uma tremenda confusão. As crianças procuravam o pai ou a mãe empurrando as pessoas. O Manel tinha visto o pai no coro, ia ser difícil passar pelo meio das criaturas e subir lá, sorte que a mãe estava perto e ele não vira, ela é que veio dar-lhe um abraço. Ao receber a comunhão empertigou-se numa atitude solene. A hóstia colou-se no céu da boca e ele não conseguia despegá-la sem que tocasse nos dentes o que lhe fora advertido ser pecado. Assustado, estava a ponto de chorar quando lhe valeu o António Toca, também conhecido por Nossa Senhora, que vinha com um copo d’água auxiliar as crianças naquela dificuldade. Durante o dia tudo foi festa: procissão, banda de música e muita gente andando para cá e para lá. Era gostoso o Melgaço naquele tempo.

A juventude melgacense quando sentia falta em que se ocupar fora dos seus ofícios organizava grupos de futebol. O Sport Club Melgacense fora reorganizado duas ou três vezes mas por pouco tempo vingava. O Toninho do Augusto do Félix que aparecia como adolescente promissor, líder dos rapazes na sua faixa de idade, com o João do Padeiro, fundou um grupo de futebol a que deu o pomposo título de União Artística Melgacense. As novidades sempre empolgavam e logo adquiriram o equipamento, um jogo de camisolas com listas verdes e brancas, verticais. Sobravam rapazes naquele tempo. Os irmãos, Carriço e Mi da Amália, mais o Carlota e outros, organizaram um grupo adversário, Atlético Club Melgacense, de início com as camisolas do extinto Sport. Logo se manifestou grande rivalidade no campo de jogo e muito mais fora dele. O povo da terra também por não ter  em que se envolver acudia por um ou por outro grupo, conforme o parentesco ou amizade com os jogadores. Segundo comentavam, antigamente as disputas eram entre os partidos políticos, diversão proibida naquela época. Jogaram algumas vezes entre si, ganhava um e ganhava o outro. Para aquilatar a soberania fora do campo organizavam bailes ao despique no carnaval. O União promovia os seus bailes na sala da Chico da Serra, ali no início da rua Direita, em frente à igreja, encostada à Farmácia Barreiros. No terreno o João Cataluna acabava de montar a Pensão Olímpia. O Atlético promoveu seus bailes no Salão Pelicano. Mais que os próprios bailes a sensação que os rapazes do Atlético imprimiram os seus carnaval foram os cortejos que antecediam.

O Sr. Silva, o mestre da marinha, pessoa grada e muito respeitada atendeu aos apelos e envolveu-se nos desfiles do Atlético. Foi ele o responsável pelos temas, organização e ensaios dos cortejos. Demonstrou grande capacidade de coreografia que redundou no grande sucesso dos desfiles. No largo da Calçada, onde tinha a bomba de gasolina do Sr. Teixeira, reunia-se a turma e se organizava conforme o tema a desenvolver no desfile. Rapazes e raparigas fantasiados de acordo, saíam cantando rua abaixo, Terreiro, rua Direita até ao Salão Pelicano. Durante quatro sábados apresentaram cortejos em temas e canções. O último foi uma apoteose. Uma réplica do castelo, iluminada por dentro, transportada como um andor, encheu os olhos do povo e muito aplaudido. A música entoada por todos os componentes fantasiados e sacudindo enfeites nas mãos, com letra brejeira sobre a música duma canção em voga, que em dado trecho dizia: Meu patrão mandou-me embora, mas não foi por roubar nada, foi só por molhar a pena, no tinteiro da empregada…

Como acontecera com outras manifestações também esta feneceu. A empolgação inicial logo dava lugar ao desânimo pela monotonia da repetição. Era como uma doença endémica.

 

 

                                                                                                                       Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:04
link do post | comentar | favorito (1)
Sábado, 26 de Novembro de 2016

AS HISTÓRIAS DO MATIAS

001 - Cópia.jpg

 

 

  

O mundo torna-se mais pequeno à medida que os anos vão passando. Matias ainda tem muito que viver, para aprender. É um menino de 3 anos, muito enérgico e com muita vontade de sorrir. E existe coisa melhor para se fazer? É muito curioso, como é normal para a sua idade.

É um aventureiro, um explorador e um artista da vida. Tudo se torna belo e fácil sendo imaginado por ele. Sempre atento, sempre fiel à sua personalidade.

A felicidade e a boa disposição que irradia o seu olhar, faz com que quem esteja perto dele seja contagiado com a sua energia.

As histórias que são contadas neste livro são baseadas em acontecimentos reais. O primeiro dia de escola, os primeiros amigos, passeios e festas aqui são descritos de uma forma que cativa as crianças que as ouvem ou lêem.

São histórias em que todos os pais se identificarão, tal como os seus filhos.

Não há nada melhor que ser criança.

 

 

As Histórias do MATIAS

Texto de Renato Martins

Ilustrações pelo Autor

CHIADO Editora

Junho, 2016

 

 

Renato Martins nasceu em Melgaço, a vila mais a norte do país, em 1978. Actualmente residindo em Monção, trabalha como Desenhador Projectista.

Frequentou o curso de Engenharia Civil no Instituto Politécnico de Bragança e um curso de desenho no CICCOPN. Tem também formação profissional de tatuagem.

Desde pequeno que foi habituado a ler e a desenhar. Hábito que considera muito importante na sua formação como pessoa. Adora fazer desenhos realistas, e tem um portfólio de mais de 100 desenhos do Matias, entre outros.

 

O RENATO SEGUE AS PISADAS FAMILIARES. GÚ E A POESIA, O MANEL E O ANTÓNIO NO DESENHO E AZULEJO.

 

Um abraço Renato

Ilídio


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:38
link do post | comentar | favorito (1)
Sábado, 20 de Agosto de 2016

ADEGA REGIONAL

61 b2 - melg vila central.jpg

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

Na segunda metade do século passado, já terminada a guerra mundial, a Espanha ainda sofria as consequências da sua guerra civil e da mundial. Havia carência de muitos produtos que fomentavam a prosperidade das povoações portuguesas da fronteira. Melgaço era uma das privilegiadas. O contrabando corria solto, contemplando a todos, directa ou indirectamente. Desde produtos alimentares a utilidades, tudo passava através do rio Minho, do rio Trancoso ou da raia seca, e não era tão escondido assim. Os produtos tiveram a sua fase: os ovos, o sabão, a tripa seca, os cigarros e o café. Café produzido em Melgaço sem ser semeado.

Era frequente até em pleno dia, ouvir-se em determinadas casas um bater ritmado, diziam, quebrando milho e outros grãos. Confesso que nunca vi, mas ouvi. Aos grãos triturados era misturado óleo queimado de automóvel, diziam, para dar a cor desejada. Ao resultado desta alquimia era misturado café em grão, verdadeiro, talvez meio por meio. Ensacado era este produto vendido aos receptadores espanhóis por alto valor. Antes de embarcar para o Brasil, 1952, fui à festa de Orense com o Manuel Macarrão. Ao chegar, entramos num café para tomar alguma coisa e o Manuel advertiu-me: “não tomes café; é feito com as porcarias que mandamos para cá!” O pagamento das mercadorias contrabandeadas era mais em ouro e prata e menos em pesetas desvalorizadas. Os únicos artigos que da Espanha iam para Portugal eram medicamentos e cosméticos. Por alguns anos, foi famoso o fortificante Ceregumil, que todos tomavam como uso de moda. Os cigarros americanos imperaram na contravenção durante anos. Chegavam a Melgaço idos do Porto e Lisboa via correios. Diariamente, dezenas de encomendas, grandes pacotes, chegavam destinados a várias pessoas, maioria de S. Gregório. A guarda-fiscal que na raia não cumpria a sua tarefa ou até participava, desmoralizava o comando que resolveu tomar medida coerciva, plantão na porta do correio para prender as encomendas. Não resolveu. Então impôs medida drástica, mandou trancar portas e janelas da agência dos correios e da habitação contígua, do casal responsável pela agência (os chefes de correio). Funcionavam os correios na metade da mansão da D. Maria Higina, no cimo do terreiro que mais tarde foi consumida por incêndio. Trancadas com grandes sarrafos pregados nas paredes e nas próprias janelas, de modo que nada pudesse passar através delas, nem sequer ser abertas para ventilação. Foi outra medida que não deu certo e até ridicularizou a guarda-fiscal.

O que queremos dizer é que muita gente ganhava dinheiro com o contrabando. Os mais jovens gastavam tudo nas tabernas e nos cafés, os mais ponderados amealhavam. Foi assim que o Vasco da Central, graças ao café, juntou um capital que resolveu investir. Constou em Melgaço que na vila dos Arcos de Valdevez fora inaugurada uma nova taberna tão sofisticada e de grande sucesso intitulada Adega Regional. Associou-se com a Maria Olinda que ficara viúva e regressara a Melgaço com três filhos e a mãe. Esta Maria Olinda era mulher muito dinâmica e trabalhadeira. Instalara taberna na casa das Cortiças, na rua Direita e também negociava cigarros.

Vasco e Maria Olinda, num domingo, no carro de praça do Emiliano, foram aos Arcos conhecer a Adega Regional. Acharam inovadoras as instalações e modo de operar. Alugaram parte do rés-do-chão da casa do Bernardo Cunha, mais tarde do António Chivinho onde em época passada funcionara a pharmácia da Dona Amália, assim conhecida pelo povo, na rua Dr. Afonso Costa. Tenho uma vaga ideia dessa pharmácia onde a minha mãe comprava as pílulas para as bichas, amargas que só elas, mas sempre trazia alguma de açúcar para atenuar.

Contrataram, o Vasco e a Maria Olinda, os serviços do Jacob, grande artista que dominava todas as áreas da construção especializado em pintura decorativa. Dividiram o recinto em espaços apropriados às várias opções degustativas. Sala luxuosa para banquetes, balcão para taberna, saleta para chá e outra para café e confeitaria, tudo finamente ornamentado. Não tiveram o retorno esperado, o investimento fora muito grande, daí que trespassaram o estabelecimento para a Maria Cascalheira e esta para o Henrique do Geraldo. Andou de mão em mão sempre dando prejuízo. Quem melhor conta a odisseia desta Adega Regional é o Dr. Joaquim da Rocha no seu Dicionário Enciclopédico de Melgaço.

A Maria Olinda, com o filho e a mãe, emigraram para a Argentina, o Vasco continuou na Central.

 

 

   Rio, Abril de 2012

                                                                          M. Igrejas 

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:25
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 9 seguidores

.Maio 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

12
13
14
15
16
17

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


.links

.posts recentes

. UM CONCURSO DE CÃES DE CA...

. O COCIOLLO DO LILI

. O DOUTOR SUIÇA

. UMA FORÇA DE FÉ

. O VASCO, O MANEL E A CENT...

.pesquisar

 

.tags

. todas as tags

.subscrever feeds