Sábado, 2 de Setembro de 2017

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

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Ao escolher este tema para o meu primeiro caderno sobre a história e arte das magníficas Pontes que ligam as margens do rio Laboreiro e seus Afluentes, o meu coração de Castrejo bateu mais apressadamente do que é normal: pois tomei uma tremenda responsabilidade perante os meus conterrâneos, quando resolvi soletrar algumas das mais belas páginas do seu rico património histórico e artístico, cujas folhas, constituídas por duro granito da região, continuam a desafiar o tempo e cujas idades se medem por 20 e 8 séculos respectivamente. Apesar da sua já longa existência guardam na sua própria estrutura a mesma grandeza do passado. Por elas passaram os Castrejos de, há já 2.000 anos, e ainda hoje as utilizam para transporem os volumosos cursos de água, no inverno, e os caudais límpidos no Verão. Situada numa grande bacia hidrográfica, esta vetusta freguesia conserva no seu longínquo passado lindas e numerosas pontes que a ligam às civilizações Celta, Romana e Medieval. Embora a sua maior parte haja sido classificada pelo Instituto Português do Património da Cultura, umas como Monumentos Nacionais e outras como Imóveis de Interesse Público, estou certo de que vale a pena descrevê-las em todos os seus pormenores, fazendo o levantamento fotográfico da cada uma, especificando o estilo utilizado na sua construção, com as medidas precisas de altura, comprimento e largura, as vias de comunicação que ligavam e o tempo aproximado da sua construção. É uma tarefa bastante custosa para mim, mas faço-o com o máximo interesse e carinho; pois estas obras de arte e história fazem parte do povo, de quem nasci, e cujo curriculum vitae constitui para mim motivo de orgulho. Os meus defeitos, as suas virtudes estão intimamente ligados ao meu carácter, à minha personalidade. São raízes de um passado, que não volta. Pelo estudo dos seus históricos Monumentos podemos facilmente aquilatar a grandeza e antiguidade da sua civilização. Esperançado em que este meu despretensioso trabalho concorra para um conhecimento mais completo e profundo das antiguidades de Castro Laboreiro, das suas paisagens e das suas gentes, vou iniciar o meu trabalho.

 

Castro Laboreiro, 10 de Julho de 1984

 

Padre Aníbal Rodrigues

 

 

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

 

Autor: Padre Aníbal Rodrigues

 

Edição: Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 2

             CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

1985

 


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Sábado, 5 de Agosto de 2017

VERTIGENS

28 d2 - vertigens beites.jpg

 

    (…)

    E aí, de novo, entronca sem dúvida a ideia de “circulação”, desde os sentimentos, repete-se, à estrutura mobilizante de coisas, produtos e mercadorias, da fábrica que se perfila no horizonte económico possuído e a desenvolver (a tinturaria de Sérgio), às relações entre personagens donde nunca está ausente o factor económico, mais ou menos condicionante (à excepção da personagem João Parra) das suas vidas.

    (…)

    Nos seus esforços de “integração” ou adaptação a um quotidiano banal de onde não sabe bem como sair, mas adquirindo sobre isso a firme noção de querer sair e ter de sair, a fuga pelo devaneio desemboca sem consumação no incesto latente, potencial porque sempre sufocado e escamoteado mas que dir-se-ia quase desejado, numa cena (das mais poderosas do livro) em que a dimensão onírica da escrita e da sua descrição fazem surgir um dos mais impressivos e fortes momentos de todo o romance.

    (…)

 

                                                                                                                                    (do Prefácio)

 

 

Vertigens

 

Manuel Beites

 

Edições Triunvirato

 

2005

 


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Sábado, 28 de Janeiro de 2017

OS FORAIS DE MELGAÇO

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A cultura tem constituído preocupação primária na nossa política municipal. A Câmara de Melgaço tem investido na recuperação do património e na criação de infra-estruturas e equipamentos, assim como na acção cultural e na publicação de livros e textos que registam passagens importantes da nossa história colectiva.

Com a concessão do primeiro foral em 1183, D. Afonso Henriques deu estatuto jurídico e administrativo a Melgaço, fundando assim o nosso concelho.

Ao longo da Idade Média e Moderna foram concedidos mais dois forais, um em 1258 por D. Afonso III e o outro em 1513 por D. Manuel I, vendo assim Melgaço reconhecida a sua autoridade concelhia.

Estando a decorrer a passagem dos 820 anos do primeiro foral de Melgaço, considerou a Câmara Municipal que a publicação dos três forais constituía um investimento cultural que se impunha por se tratar de documentos que são autênticos símbolos de autoridade concelhia e de grande valor patrimonial que marcam três fases importantes da vida da nossa terra.

Ao darmos a conhecer aos Melgacenses e ao exterior marcos tão importantes da nossa história estamos a preservar as nossas raízes e a promover o nosso concelho.

Uma palavra final de agradecimento sincero ao ilustre Melgacense Prof. Doutor José Marques que com esta publicação presta mais um enorme serviço ao nosso Município.

Continuamos a construir o futuro de Melgaço, preservando e engrandecendo os valores da nossa cultura.

 

                      O Presidente da Câmara Municipal

 

 

Os Forais de Melgaço

José Marques

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2003

 


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Sábado, 30 de Maio de 2015

VERTIGENS

 

A pedra de toque desta obra de Albertino Gonçalves é a vertigem, uma repentina névoa do olhar que o leva a perder nitidez, associada a um ligeiro desequilíbrio que complica os movimentos, baralhando os gestos e as acções humanas. O sociólogo cujo olhar, por natureza epistemologicamente calculado e vigiado, se deixe tentar pela vertigem deste desequilíbrio humaniza todavia o conhecimento, aproximando-o da condição humana e das figuras que a exprimem, não apenas a ambivalência e o desassossego, mas também o enigma e o labirinto. (…) A indagação sobre a natureza das práticas e das classificações sociais coloca-nos na senda da sua irremível vertigem e viscosa ambivalência, reconduzindo-nos ao quotidiano, prosaico umas vezes, exaltante, outras, em que a existência humana se decide.


Vertigens. Para uma sociologia da perversidade

Albertino Gonçalves

Grácio Editor

2009

 


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Sábado, 15 de Junho de 2013

O MOSTEIRO DE FIÃES

 

 

Quando, em Março de 1981, estava prestes a terminar o ano beneditino, dedicado à comemoração do XV Centenário do Nascimento de S. Bento – acertadamente denominado Patriarca dos Monges do Ocidente e Pai da Europa –, além de termos apresentado uma comunicação ao « I Colóquio sobre Monacato Gallego », intitulada O estado dos mosteiros beneditinos na Arquidiocese da Braga no século XV, escrevemos também três longos artigos, publicados em « A Voz de Melgaço », de 1 e 15 de Março e 15 de Junho, sobre o Mosteiro de Fiães, que, tendo abraçado a Regra de S. Bento, por meados do século XII, algumas décadas depois, aderiu à sua variante cisterciense.

Com estes artigos pretendíamos chamar a atenção dos melgacenses para a extraordinária personalidade e obra de S. Bento e para a importância desta instituição monástica na história do nosso concelho e de todo o Alto-Minho.

Cerca de três anos depois, em 28 de Maio de 1984, passou o 150º aniversário da assinatura do decreto régio da extinção das Ordens Religiosas masculinas, preparado pelo Ministro da Justiça e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos, Joaquim António de Aguiar, encerrando-se, então, o longo ciclo de quase setecentos anos de vida documentada deste Mosteiro, geralmente desconhecida não só das gentes de Fiães, mas também dos numerosos visitantes deste monumento nacional.

Em 1834, não era a primeira vez que o Mosteiro de Fiães enfrentava a sentença de morte, pois já, em 1775, tinha sido extinto pelo Marquês de Pombal, vindo, no entanto, a ser restaurado nos primórdios do reinado de D. Maria I, mais exactamente em 1777. Sobre este assunto fizemos uma exposição na Biblioteca Municipal de Melgaço, em 17 de Agosto de 1984, subordinada ao título O Mosteiro de Fiães, da primeira à segunda extinção.

Consideramos, por isso, oportuno e útil ampliar as notas anteriormente publicadas, acrescentando-lhes alguns dos elementos relativos aos últimos decénios de vida e à fase de extinção definitiva desta comunidade, revelados pela primeira vez, em Melgaço, colocando, deste modo, ao alcance do público dados suficientes que lhe permitam vislumbrar o que este Mosteiro ainda era, em 1834, e melhor poder aquilatar da intensa acção demolidora, desde então, contra ele desencadeada, a que só escapou a igreja por ser paroquial.

Este pequeno estudo, que, apesar da sua simplicidade, deveria ter sido publicado, há muito, não podia continuar na gaveta por mais tempo, até porque, neste ano de 1990, está a celebrar-se por toda a Europa Ocidental, nos Estados Unidos e na Polónia, o IX Centenário do Nascimento de S. Bernardo, e a ele queremos associar-nos, proporcionando ao público interessado alguma informação acessível, não só acerca deste extraordinário Abade Reformador e grande Doutor Mariano, mas também sobre a sua grandiosa obra, de que o mosteiro de Fiães é parte integrante.

Neste opúsculo, os romeiros e turistas, que subirem até ao Mosteiro de Santa Maria de Fiães, encontrarão um conjunto de informações documentadas, susceptíveis de responderem a muitas das interrogações que, por certo, implícita ou explicitamente não deixarão de formular sobre ele, desvendando-lhes um pouco da rica história desta comunidade de monges brancos e ajudando-os a compreenderem e amarem o que ainda resta deste antigo cenóbio. Esclarecemos, entretanto, que neste breve estudo privilegiámos os aspectos institucionais, praticamente, desconhecidos.

Nesse intuito, dividimos o presente estudo em duas partes. Na primeira, procurámos traçar uma panorâmica histórica desta instituição, desde os seus primórdios documentados, isto é, desde os meados do século XII, até à primeira extinção, provocada pelo Marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII, preenchendo a segunda parte com os aspectos mais salientes, relativos à mencionada primeira extinção, com as circunstâncias em que se concretizou a exclaustração de 1834 e, finalmente, com a descrição de alguns aspectos inerentes ao património e rendas desta comunidade.

O que aqui fica são apenas algumas notas dispersas, convém frisá-lo. Mas se, apesar disso, de algum modo, conseguirmos sensibilizar o público leitor para a importância dos objectivos acima expostos, sertir-nos-emos, deveras, compensado por este serviço cultural prestado à Comunidade.

 

O MOSTEIRO DE FIÃES

(Notas para a sua história)

 

Autor: José Marques

 

Edição: do autor

 

Braga, 1990

 


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Sábado, 20 de Abril de 2013

CONTOS DA RAIA

 

 

Luís Faria nasceu em Março de 1954, na Casa da Corga, na freguesia de Remoães, Concelho de Melgaço. Hoje é professor do quadro de um agrupamento escolar, destacado na CPCJ (Comissão de Protecção de Crianças e Jovens).

É amante das letras e alguns dos seus autores preferidos são Camilo, Eça, Bocage, António Vieira, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Cervantes, Voltaire e Lorde Byron.

Foi o vencedor do concurso literário lançado no ano de 1992 pela Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, em associação com a respectiva escola secundária, cujo tema era “O Conto”.

Contos da Raia é o seu primeiro livro.

 

Os Contos da Raia são pequenas histórias romanceadas que acontecem, temporalmente, entre os anos 70 e os dias de hoje e, especialmente, em toda a zona ribeirinha de Melgaço, Serra da Peneda e de Barroso, termas do Peso e Galiza.

À volta das tradições e crenças do povo dessa região, o leitor deparar-se-á com possessões demoníacas, bruxedos, ciganas advinhas, contrabando, vacas do olhar lânguido, casamentos pouco sustentáveis e amores fatais. Se alguns contos são sátiras que provocam facilmente o riso, outros são episódios pungentes, de um romantismo clássico, que convidam à lágrima.

Em Contos da Raia o leitor encontrará as mais deliciosas fábulas e lendas, as mais caricatas personagens humanas e animais e peculiaridades linguísticas e etnográficas essenciais ao património imaterial deste povo raiano. Tudo isto embrulhado pelas mais belas descrições da deslumbrante paisagem minhota.

Contos da Raia é um documento de incomensurável valor cultural.

 

CONTOS DA RAIA

 

Autor: Luís Faria

 

Capa: Ludy Yakael

 

Edição: Papiro Editora

 

Agosto, 2011

 


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Terça-feira, 26 de Março de 2013

RECEITA DA LAMPREIA, sécs. XV – XVI

 

 

« Receita da lampreia » no Livro de Cozinha da Infanta

Dª. Maria de Portugal (séculos XV – XVI)

 

 

    O Livro de Cozinha da Infanta Dª. Maria, códice portugués da Biblioteca Nacional de Nápoles, de fins do século XV e principios do XVI, ilumina moito mellor a antiga arte de cociñar en Portugal nunha época histórica de que pouco se coñece sobre matéria gastronómica. Dona Maria de Portugal (1538 – 1577), filla do Infante D. Duarte e neta de D. Manuel I, era una muller de notable formación e sensible á cultura de súa pátria.

    No seu manuscrito lemos esta receita da lamprea: « Tomarão a lampreia lavada com água quente e tirar-lhe-ão a tripa sobre uma tigela nova, porque caia o sangue nela, e enrolá-la-ão dentro daquela tigela e deitar-lhe-ão coentro e salsa e cebola muito miúda, e deitar-lhe-ão ali um pouco de azeite e põ-la-ão coberta com um telhador, e como for muito bem afogada, deitar-lhe-ão muito poucochinha água e vinagre, e deitar-lhe-ão cravo e pimenta e açafrão e um pouco de gengibre ».

    Esta xoia bibliográfica, xunto coa de Rupert de Nola, veñen a ser as máis antigas referencias – fins do século XV e comezos do XVI – que ensinan de maneira clara receitas sobre a lamprea. Estes autênticos « libros de receitas », aparecidos finalizando o período medieval, posiblemente recollan unha tradición culinaria de séculos anteriores, e igualmente demonstran que o petromyzon fluvialis era prato coñecido de grandes señores e de ilustres señoras, tal o caso da infanta dona Maria de Portugal e o rei don Hernando de Nápoles.

 

 

Retirado de:

 

Caderno da XLIII Festa da Lamprea

2003

Arbo – Galicia  

 


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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

CASTRO LABOREIRO, POVOAMENTO E ORGANIZAÇÃO DE UM TERRITÓRIO SERRANO

 

 

Alexandra Cerveira Pinto Sousa Lima, nasceu no Porto em Fevereiro de 1963. Inicia a sua actividade arqueológica em Mértola e no PARM (Moncorvo), tendo terminado o curso de História, Variante de Arqueologia, em 1985, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 1994 finaliza o Mestrado em Arqueologia na mesma Faculdade, com a defesa de uma Dissertação versando o tema da organização do povoamento em Castro Laboreiro. Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. É desde 1992 colaboradora do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O trabalho de investigação que desenvolve centra-se na análise do povoamento, ocupação do espaço e aproveitamento de recursos ao longo dor períodos Medieval e Moderno na área montanhosa do Noroeste português.

 

CASTRO LABOREIRO: POVOAMENTO E ORGANIZAÇÃO DE UM TERRITÓRIO SERRANO

 

Autor: Alexandra Cerveira Pinto Sousa Lima

 

Edição: Instituto da Conservação da Natureza

 

             Parque Nacional da Peneda-Gerês

 

             Câmara Municipal de Melgaço

 

Cadernos Juríz Xurés

 

1996

 


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UMA HISTÓRIA MELGACENSE

 

 

“LEITURA”

 

 

    Não, não pensem que vou falar de livros! O título sugere-o, eu sei. Trata-se, tão somente, de uma escultura do nosso conterrâneo Acácio Caetano Dias que acaba de ganhar o 1º prémio da Quinzena Cultural Bancária (10ª edição), iniciativa do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. O Júri «constituído pelo pintor António Carmo, pelo arquitecto João Santa Rita e pelo pintor A.M. Pinto Carvalho, tendo em conta os regulamentos publicados e os trabalhos apresentados aos respectivos concursos, decidiu:

    b) – No concurso de Escultura, atribuir apenas o primeiro prémio à peça de escultura “Leitura” de Acácio Caetano Dias»…

    Não tive ainda a oportunidade de ver a escultura, nem de falar com o seu criador, mas espero consegui-lo em breve. Disso falarei oportunamente. A peça está exposta no Palácio Foz, em Lisboa, juntamente com outros trabalhos premiados.

    Um conterrâneo com o talento do Acácio é um orgulho para todos os  melgacenses. Ele é um artista nato, um homem que não tendo frequentado Escolas Superiores de Arte é émulo daqueles que tiveram essa possibilidade; é um autodidacta, pois as suas habilitações literárias (1º ciclo) nunca o impediram, nem impedem, de brilhar em várias exposições: Escola de Belas Artes, Hotel Altis, Palácio Foz, Festa da Cultura (Melgaço).

    Acácio nasceu em Prado em 1935. Seu pai, o popular Amadeu «Rato», tinha a profissão de latoeiro. A sua oficina situava-se perto da barbearia e taberna-restaurante do Carlota (quem não conheceu?). Juntamente com a sua oficina coexistia uma outra, de sapateiro, cujo mestre era o Henrique «Abelhão» (isto em 1958, mais ou menos). Nessa altura já o Acácio se encontrava possivelmente em Lisboa, pois em 1959 entra para o Banco Nacional Ultramarino como apontador.

    Os dois, Amadeu e Henrique, formavam um duo impagável no que diz respeito a «malandrices». Não havia cliente que não saísse sorridente com a graça de ambos, mesmo os mais sisudos.

    No Carnaval, o pai do Acácio fazia normalmente parelha com o Sr. António «Trauliteiro» (apesar da alcunha o Sr. António era um homem pacífico, brincalhão, o alvo cavaleiro – S. Jorge – que na vizinha vila de Monção, aquando da procissão do Corpus-Christi matava a Coca, ou Santa Coca, o terrível dragão que afugentava o povo amedrontado).

    Ainda me lembro de ver o «Trauliteiro» dentro de um carrinho de bebé, vestido a rigor e com chupeta na boca, chorando lágrimas comoventes, a ser empurrado pela velha ama (Amadeu «Rato»), pesarosa e convincente. Davam a volta à Avenida, percorriam as ruas da Vila, iam até à Calçada e Loja Nova e depois recolhiam, pois o líquido precioso esperava-os ansiosamente!

    Acerca do pai do Acácio conta-se uma história divertidíssima: o seu irmão, Edmundo «Rato», também latoeiro, um dia recebe na sua oficina um camponês que lhe pede para pôr um fundo a uma lata que consigo trazia, daquelas que se usavam para o sulfato ou a cal. O cliente perguntou quando é que poderia ir buscar a obra e a resposta, carregada de sofisma, não se fez esperar:

    — «Sr. Fulano, não precisa vir buscá-la. Na próxima semana tenho de ir visitar uma pessoa sua vizinha e assim aproveito para lha levar».

    O homem ficou radiante, pois deste modo evitaria perder tempo, tempo esse que necessitava para o amanho das suas terras.

    — «Obrigado Sr. Edmundo. Vai provar uma pinga que lá tenho que é só para os verdadeiros amigos».

    O convite do agricultor veio aguçar ainda mais o apetite devorador do latoeiro. Depois do cliente ir embora apressou-se a falar com o Sr. António «Cerinha», seu vizinho de oficina, e seu irmão Amadeu, acerca de tal convite. Todos eles passaram a língua pelos lábios ressequidos, fecharam os olhos e tiveram a visão do deserto, isto é, começaram a ver o líquido (em lugar da água o vinho do lavrador) a cair de baixas nuvens espessas. As malgas, todas elas do tamanho de alguidares, começaram a encher-se do divino néctar e seus olhos brilharam de sofreguidão e ânsia. O Sr. Amadeu sentenciou:

    — «O vinho só não chega. Terá de ser acompanhado de presunto e broa!»

    A lata parecia nova. Marcaram o dia e a hora e puseram-se a caminho. Dois quilómetros a pé não é brincadeira nenhuma, mesmo naquele tempo. Chegaram extenuados. O aldeão andava a sachar as suas leiras, perto de casa, e quando os viu gritou-lhes com ar bonacheirão:

    — «Ainda bem que vêm a esta hora porque também estou com sede».

    Todos aplaudiram o gracejo e como quem não quer a coisa lá se foram aproximando da adega. Malgas na mão, olhar fixo no presunto que baloiçava ali bem perto, começaram, um por um, a receber da pipa a tão esperada pinga. Depois de já terem despejado três ou quatro malgas, um deles disse ao anfitrião:

    — «Sr. Fulano, um naco de pão não lhe ia mal agora!»

    Isto apanhou o homem de surpresa. Aguardava que eles se despedissem a fim de recomeçar os seus trabalhos. O tempo passava, a torneira sem descanso e agora o pão! Chamou a patroa e pediu-lhe que trouxesse broa para a gente da Vila.

    — «Rico pão, sim senhor!», comentou um dos glutões.

    Outro, aproveitando a deixa, arrisca:

    — «Pão pede algo, talvez presunto!»

    O pobre lavrador estava entre a espada e a  parede, acossado com raposa e lobo. Se recusasse passava por somítico; se aderisse à sugestão ficava sem presunto. Pegou na faca, olhou pela última vez para o presunto que tanto trabalho e cuidados lhe dera e diz-lhe, como falando para um filho que parte para longe:

    — «O teu dia chegou – é o destino!»

    Do desgraçado, duas horas mais tarde, restava apenas um grande osso feio e bruto. Da broa nem um côdea restou! A pipa ficou exausta! Saíram da adega, cambaleando, rindo descaradamente! O cavador, entre pragas, foi-lhes dizendo:

    — Três para uma lata! É obra!

    Que me perdoem aqueles que conhecem a história ao vê-la tão mal narrada. Contei-a como ma contaram, apenas lhe acrescentei um pequenino ponto!

    Saudações amigas a todos os melgacenses.

 

Joaquim A. Rocha

 

Publicado em: A VOZ  DE MELGAÇO  

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 22:40
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