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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AO NELO, IN MEMORIAM III

melgaçodomonteàribeira, 31.10.20

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Chegaram a França de noite, seguindo a linha de comboio de longe, por sorte ainda tinham as lanternas. Pararam debaixo de um viaduto para passarem a noite, aconchegaram-se uns nos outros. Antes de adormecerem, a conversa girou entre as saudades de casa, maldições aos passadores gatunos, a bela panela de sopa com que o senhor Xosé lhes aquecera o corpo e a alma antes de correr com eles, o que fazer nos dias seguintes, como chegar a Paris. Já era dia alto quando se fizeram ao caminho, esperando encontrar indicações na estrada, uma venda para comprar pão. O mais afoito era o Alberto e foi ele que se aventurou a ir às compras. Voltou com uma peça para cada um, era a ração do dia. Caminhavam depressa, sempre em direção a Bordeaux. Estavam exaustos e deram com uma estação de comboio. Tentavam apanhá-lo? Era um risco, mas se tivessem sorte… valia a pena esperar pela noite e entretanto dois deles podiam ir ver se arranjavam comida. O Zé e o Nelo ofereceram-se. Fartaram-se de andar e não lhes ocorria nenhuma ideia. Sentaram-se à entrada de um portão, desanimados, passado pouco tempo surgiu um homem e um cão, que começou a rosnar-lhes. Não entendiam o que o homem lhes dizia, mas entenderam que deviam sair dali. O Nelo falou com o cão, os animais eram todos seus amigos, aquele começou a ladrar-lhe, parecia que os estava a expulsar. E eles obedeceram. Pararam num estaminé, vários camiões à porta. Entraram e vinte olhos em cima deles. Entender o que lhes diziam, nem patavina. Queriam comer e disseram com gestos o que a língua não conseguia, apontando para as sandes que estavam à vista, pediram cinco, os dedos de uma mão. As pesetas que puseram em cima do balcão não pareciam interessar ao dono do café, acabando por retirar as que quis, os rapazes não controlavam nada. A cena continuou, cada vez mais insólita, com um homenzarrão a dirigir-se-lhes, só entendiam Paris, saiu com eles, mostrou-lhes um camião, Paris, Paris e mais nada. Largaram-no e desataram a fugir, de volta para os companheiros. O Nelo e o Zé atropelavam-se a contar o episódio, se calhar estava a oferecer-se para os levar, intuía o Alberto. Voltaram ao café, o camião tinha partido.

Andaram nestas andanças por mais uns dias, a dormir onde calhava, alimentados a pão e água e umas maças que tinham ficado como refugo nas árvores, a fugir de cães que lhes ladravam como se fossem salteadores, a ver portas que se lhes fechavam na cara. Pareciam maltrapilhos quando se abeiraram da grande cidade. Para se protegerem da chuva que os trespassava até aos ossos escolheram um abrigo de autocarros e aí se deixaram ficar, famintos, sem dinheiro, sujos e rotos, metiam nojo aos cães, na expressão do Nelo. Foi aí que até a comida que a mãe dava aos porcos lhe acudiu à ideia para matar a fome. Já nem falavam uns com os outros, todo o diálogo era interior, solitário, repleto de saudades e lágrimas escondidas, todos se sentiam no maior desamparo, nenhum queria ser o primeiro a dar parte de fraco.

Durante a noite, o Tono começou a tossir sem parar, a dizer coisas estranhas. O Berto pôs-lhe a mão na testa, ardia em febre. Tremia como varas verdes, doía-lhe muito o peito, tinha dificuldade em respirar. Tinham de fazer algo. Até ali, tinham procurado afastar-se da polícia, mas, no estado a que tinham chegado, mais pobres do que os pobres que andavam a pedir de porta em porta na terra deles, com o Tono incapaz de se mexer, a delirar, parecia que tinha gatos no peito, deviam entregar-se, que fosse o que Deus quisesse.

Na esquadra da polícia, tomaram banho, vestiram roupas lavadas, comeram até querer. Menos o Tono, que levaram de imediato para o hospital. Pareciam animais assustados, encolhidos, encostados uns aos outros, buscando algum conforto na proximidade física. Chegou um intérprete, explicaram que iam ter com familiares a Paris, tinham sido roubados, o Nelo desatou a chorar, incapaz de continuar. Tomaram-lhe o papel quase desfeito da mão, iam verificar, não se preocupassem, nada de mal lhes iria acontecer. Levaram-nos para uma camarata, deram-lhes cama para descansar, quando acordassem veriam tudo menos negro.

O tio Jaime confirmou que esperava os rapazes, partiria para Bordeaux tomar conta do caso na mesma tarde. No dia seguinte, apresentou-se na esquadra, identificou o sobrinho e os outros, responsabilizava-se por todos, pelo que estava no hospital também. Antes de partir, foram visitá-lo, o tio Jaime e o companheiro deram a morada, o nome do chefe, a empresa onde trabalhavam, quando o rapaz estivesse bem da pneumonia iriam busca-lo.

Três semanas de pesadelo, praticamente desde que saíram de casa até ao encontro com o tio Jaime, numa esquadra de polícia às portas de Bordeus, foi quanto durou a viagem dos jovens para a terra da promissão. Ainda não tinham entrado na idade adulta e já tinham provado até ao âmago a fome, o frio, o medo, a desconfiança. Ficavam vacinados contra a maldade dos homens, mas ganharam confiança na polícia e na bondade das instituições do país que os acolhia para lhes proporcionar uma vida melhor.

 

                                                                        Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Novembro de 2014

 

 

 

 

 

 

 

AO NELO, IN MEMORIAM II

melgaçodomonteàribeira, 17.10.20

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Estava um frio de rachar, que nem sentiam devido ao ritmo acelerado da marcha. O dia avançava, as nuvens prometiam borrasca e o caminho de ferro nem vê-lo. Deixaram os caminhos batidos, meteram por atalhos, saltaram muros, afastando-se das aldeias e das casas isoladas que iam aparecendo com regularidade. O Paco sempre à frente, os rapazes seguindo-o e sentindo que não era por ali, que algo não estava a correr como devia, demoraram a interroga-lo. Já faltava pouco, era só mais uma carvalheira, depois de um ribeiro onde havia um moinho. Este veio ao encontro deles, mesmo a tempo de os abrigar de um temporal medonho. Ficariam ali, não poderiam continuar debaixo de tanta chuva, não conseguiriam apanhar o comboio, ele ia procurar comida, voltava logo. Cansados, estendidos como puderam na exiguidade do espaço, caíram nos braços de Morfeu. O primeiro a acordar foi o Nelo. Estava tão escuro que não enxergava nada, abriu a porta para confirmar que era noite cerrada e continuava a chover. Acordou os outros, perguntou as horas ao Berto, o único que tinha relógio, herdado do avô paterno. Era quase meia noite. O filho da mãe do Paco não tinha voltado, tê-los-ia abandonado? Cheios de fome, partilharam os restos que encontraram no fundo dos sacos, as castanhas, nada de substancial. O medo tomava conta de todos, primeiro e durante um certo tempo em silêncio, depois à mistura com pragas e pedidos de ajuda a Deus, Nosso Senhor, à Senhora de Fátima. Tinham de esperar pela manhã, o melhor era continuarem a dormir, pelo menos descansavam e enganavam a fome. O Nelo não conseguia, só pensava em ser apanhado pela guarda, recambiado para Portugal e acabar por ir parar à Angola.

Raiava o dia quando ouviram passos. Devia ser o Paco, o magano tinha passado a noite no bem bom. Abriram a porta de rompante e deram de caras com um estranho, velhote, magricelas, um bigode que lhe tapava metade da cara, carregando um saco. O espanto foi de parte a parte, mas foi o idoso que falou, queria saber quem eram, o que faziam no seu moinho. Incrédulos, os rapazes ficaram sem voz. À insistência do mais velho respondeu o Alberto, que se tinham abrigado da chuva, esperavam um companheiro para partir, para lhes ensinar o caminho, era o Paco, tê-lo-ia visto? Pacos havia muitos na Galiza, era o nome do caudilho. Eram portugueses, a caminho de França? Não havia nenhum lugar ali perto, só duas casas, a dele e a da sua mãe, o tal Paco, se é que existia, abandonara-os. Havia muitos Pacos a enganar pobres como eles. Depois de pôr o milho a moer, punha-os no caminho para o comboio. Contaram-lhe do assalto, estavam sem dinheiro para comprar comida, tinham fome, mas não podiam voltar para trás. Por mais fortes que quisessem parecer, não podiam evitar as lágrimas.

O velho, de seu nome Antenor Cardeu, podiam tratá-lo por Cardeu, condoeu-se dos rapazes. Não havia perigo de serem apanhados por aquelas bandas, mas sem bilhetes nem dinheiro para o comboio não via como seguiriam viagem. Serviu-os de pão à descrição e preparou-lhes água de unto com ovos, até parecia que estavam em casa. Podiam aceitar ou não, era com eles, mas perto havia uma serração, seguramente arranjariam lá trabalho. Não sabiam como agradecer, seguiram para o “pueblo”. O Alberto não se queria expor, tinha algum dinheiro escondido, mas não dava para todos, queria seguir, mas não se queria sozinho. Ficava escondido, à espera de informações, se arranjassem uns dias de trabalho para ganharem para a passagem, ele juntava-se a eles depois, mas que estivessem atentos a ver se havia guardas por perto, e queriam ser pagos no fim de cada dia, era melhor não confiar nos galegos.

Trabalho para quatro ou cinco? Claro que sim, sobretudo se de braços fortes para arrastar os toros de árvore, para os descascar, para empilhar as achas. Acertaram-se, não queriam saber de horários, quanto mais trabalhassem, melhor. A madeireira ficava junto da linha do comboio, muita da madeira saía dali pelos carris. Os rapazes concertaram-se para se esconderem no meio da lenha e viajarem escondidos, era só estudarem os horários e o destino dos comboios. Quase não comiam para poupar dinheiro, dormiam nos fundos da serração, o capataz tinha bom coração, não fez perguntas quando apareceu o quinto elemento, deu-lhes uns cobertores velhos para se taparem. Uma noite apareceu lá, com um caldeirão de caldo, para aquecerem o bandulho. O Nelo ainda se lembra de tudo o que tinha aquela sopa, que lhe soube pela vida, melhor do que o que a sua mãe fazia e com que os tinha criado a ele e aos irmãos. O senhor Xosé disse-lhes que tinham de partir logo, havia uns bufos por ali, ouvira uns zunzuns, os passadores estavam de olho aberto, o patrão não queria problemas, se os encontrassem sobrava para todos, incluso para ele. Com o coração nas mãos, agradeceram e despediram-se, os poucos pesos que tinham ganho dariam para comer uns dias.

Arriscaram num comboio de mercadorias, passava devagar, muito lento, não custou nada saltar para cima. Levá-los-ia até à Hendaia, mas tinham de sair antes da fronteira e atravessar a pé. Do lado de lá havia menos perigo de serem presos, os franceses eram menos maus que os castelhanos. Estes conselhos ou instruções, vejam-se como se quiser, saíram da boca de Xosé, desejava-lhes boa sorte, na França talvez encontrassem algum trabalho no campo, deviam sair das grandes estradas, não dar nas vistas. “Adiós, coño”, já estava a ficar sentimental.

 

(continua)

 

 

AO NELO, IN MEMORIAN I

melgaçodomonteàribeira, 03.10.20

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 lançamento do livro de olinda de carvalho - e agora, luisa

A SALTO

Ao Nelo, in memoriam

 

Desde que se meteu ao caminho, naquela noite escura e fria de um outono invernoso, a sua vida tomaria um rumo que faria dele um homem diferente. Os seus companheiros tornar-se-iam irmãos, as vicissitudes por que passaram aproximaram-nos como se tivessem nascido do mesmo ventre, foi como se os filhos de sua mãe passassem de quatro para oito. A salto para França, em mil novecentos e sessenta e seis. Para fugir a uma servidão que podia mais do que a entrega sem restrições de alguns anos de vida, era um risco para a vida. Quando o edital com os nomes dos mancebos para ir à inspeção aparecia afixado na porta da igreja, era o momento de dar o salto. A decisão de deixar a terra e se recusar a cumprir o serviço militar nem foi sua, mas aceitou-a como natural, era comum à esmagadora maioria dos rapazes em idade de servir o país. Portugal do Minho a Timor era fácil de decorar mas difícil de entender por crianças que viviam livres, arriscar a vida por essa Pátria abstrata não estava no seu horizonte. Os que não conseguiam fugir a esse destino por meios legais, que os havia, arriscavam a fuga numa viagem clandestina que, muitas vezes, raiava os limites da sobrevivência. Pelo menos, esta foi a perceção que o Nelo passava, sempre que o assunto vinha à baila.

A despedida foi cheia de muitas lágrimas, muitas recomendações, muitas saudades antecipadas, que seria da sua mãe com mais um filho de abalada, sem mais dois braços fortes para a aliviar? Parecia ao Nelo que mais do que a partida da sua pessoa, era a falta do que ele deixaria de fazer que a mãe lamentava. E não se atrevia a deixar que uma lágrima sequer se soltasse, seria a nascente de um rio caudaloso que era preciso conter, um homem não chora.

Estava escuro como breu, mas não tanto como o seu coração, quando os companheiros passaram a busca-lo e só a fraca luz das lanternas os impedia de andar ao pontapé às pedras, de mergulhar o pé numa das inúmeras poças que havia pelo caminho. O percurso da primeira etapa era bem conhecido, estavam todos habituados a calcorreá-lo nas viagens de contrabando useiras para um e outro lado da fronteira. Não temiam os carabineiros nem a guarda-fiscal, a carga era leve e o tempo frio convidava os homens da lei a ficar no remanso do lar. O passador largou-os à entrada do lugar combinado, outro tomou a sua vez, galego este.

Até à noite do segundo dia foi sempre a andar, já não aguentavam os pés, o Zé da Eira tinha os seus cheios de bolhas, partira com umas botas novas, para aguentar bem o caminho, viravam-se os calcantes contra ele. O primeiro revés deu-se aí: a comida seria por conta deles. Não sabendo onde se aviar e não querendo expor-se para não se denunciarem, aceitaram o que Paco lhes arranjou pelo dinheiro que quis. Dormiram que nem anjinhos até meio da noite, era tempo de “toca a marchar”, até ao povoado onde iam apanhar o comboio eram muitas horas. Ainda o dia não clareava, o Paco a incitá-los a avançar, como se estivesse conduzindo gado, foram surpreendidos por três indivíduos da cara tapada. Queriam o dinheiro. Depressa. Que esperavam? Era um assalto, não queriam ferir ninguém, só os pesos e os francos. O Nelo foi agarrado por um braço, uma garra a convidar à obediência, resistir seria pior. O guia ficou mudo e quedo, não pertencia àquele filme, foi o primeiro a entregar a carteira. Só o Alberto resistiu, levou um murro no nariz, ficou a sangrar e viu os bolsos serem-lhe virados do avesso.

A voz segura do galego fê-los tomar consciência do que se passara, tinham de se apressar, o comboio não esperava. Não tinham sido alertados para possíveis assaltos, como fariam para prosseguir sem dinheiro? Tinha de fazer algo, o trato era conduzi-los a salvo até ao caminho de ferro, entrega-los ao outro passador, já se tinham sentido ludibriados com a comida, agora era o dinheiro, afinal para que é que servia? Eram jovens inexperientes, não eram parvos, queriam comida e era para já, senão… Senão o quê? Ele também perdera o seu dinheiro, estavam todos no mesmo barco, tinham de deixar aquele caminho. Seguiram com esforço, a barriga a dar horas, o farnel preparado pelas mães forneceu as últimas côdeas, nada capaz de matar a fome. À entrada do casario onde o passador resolveu parar para arranjar comida entregaram o corpo ao descanso, encostados a grossos troncos de castanheiros debaixo dos quais se puseram a apanhar castanhas. Eram grandes e boas, mas não aquilo por que a barriga ansiava. Pelo sim, pelo não, algumas foram parar às sacolas, ao fundo dos bolsos. Umas cabras pastavam perto e um teve a ideia de as mungir. Estava habituado a fazê-lo no monte, sempre que o farnel se mostrava insuficiente ou para presentear a tia Isalina com leite para umas sopas. Era com esta estratégia que a velha lhe guardava o gado e ele ia ver a Berta. Não o fez, porque o Paco voltou com pão, chouriço e latas de sardinhas.

 

(continua)

 

A LUZ DE PEQUIM

melgaçodomonteàribeira, 22.08.20

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Uma homenagem discreta à cozinha burguesa do Porto: iscas de bacalhau com arroz de feijão, grelos com vitela cozida, favada, pescada frita, arroz de bacalhau, filetes de polvo, arroz de vitela com legumes, vinho de Freixo de Espada à Cinta, aguardente de Melgaço. Sim, Avelino Marques podia esperar. Da próxima vez iria ao Cozinha da Amélia comer arroz de vitela. E levaria Rosa com ele.

pp. 102

Depois, tudo isso desapareceu. Fardas da Mocidade Portuguesa. Programas de Sousa Veloso e Jorge Alves na televisão. Sapatos Campeão Português e gasosa espanhola La Casera. Brandy Domecq. Água mineral de Melgaço. Citroen Dyane. Citroen Mehari. Citroen 2CV. Ford Cortina. Ford Capri.

pp. 272

 

A LUZ DE PEQUIM

Francisco José Viegas

Edição: Porto Editora

1ª edi.: novembro 2019

 

 

 

RUA DOS REMÉDIOS

melgaçodomonteàribeira, 04.01.20

1 ac 2 25 abril 115 - política de 1974 em melgaç

De facto, o esconderijo era aceitável. Emitir a um nível inferior ao pavimento da rua sem grandes hipóteses de montar a antena no exterior podia não resultar em qualidade, mas valia a pena experimentar.

A comunicação com Ponta Delgada foi importante, tendo obtido a informação que iriam ser infiltrados dois agentes do SOE que falavam espanhol… um para o norte e outro para o sul do continente, que falavam colaborar estreitamente com ele no comando das operações e composição de células. As coordenadas do terreno onde iriam ser lançados de paraquedas foram dadas pelos serviços portugueses, sendo os agentes e respetivo equipamento apoiados a norte em Castro Laboreiro pelos “argentinos” e no sul por ex-membros da PVDE e da Legião já contactados pelo agente E. Os lançamentos eram efetuados por aviões vindos das Canárias e dos Açores, onde já se encontravam os operacionais. Dependendo das condições meteorológicas estudadas pelos respetivos departamentos militares, se fossem benéficas e coincidissem com noite de lua favorável ao voo à baixa altitude do qual eram lançados as missões eram realizadas. Na véspera do lançamento a BBC emitiria a senha Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui.

Passaram vários dias, ouvindo a emissão da BBC em português. Relatos de manobras militares, do esforço dos homens e mulheres do Reino Unido em colaborar com as vitórias de Churchill e contrainformação negra sobre os países do Eixo. Alguma música… Nada sobre Yupanqui. Eduardo sabia a ansiedade que os dias de espera provocavam nos operacionais e nos que os iriam receber no solo. Tudo dependia das condições meteorológicas. Até que Fernando Pessa depois de descrever os últimos desenvolvimentos da guerra… e agora Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui. Oiçam esta voz maravilhosa… Até amanhã.

Estava dada a ordem. Eduardo não sabia quem eram os “argentinos” nem o agente E, mas tinha a certeza de que amanhã seriam lançados reforços no norte e sul. Estávamos no final de abril e em 2 meses estava montado o embrião da guerrilha em Portugal continental.

Entretanto em abril o Terceiro Reich no dia 6 bombardeou a cidade de Belgrado que se rendeu 6 dias depois. No Norte de África na Líbia Italiana começou a Batalha de Tobruk entre as forças das Potências do Eixo contra os Aliados maioritariamente constituídos por tropas Australianas. Erwin Rommel começou a investida do Afrika Korps. O Estado Independente da Croácia foi proclamado em 10 de abril de 1941 e foi reconhecido de imediato pela Alemanha e Itália.

Em 13 de abril o Império do Japão e a União Soviética assinaram o Pacto de Não Agressão nipónico-soviético. Perante a invasão alemã da Grécia que começou em 6 de abril o Primeiro-ministro grego Alexandros Koryzis suicidou-se no dia 18 quando Atenas ia ser ocupada. Três dias depois 230.000 soldados gregos renderam-se. O exército alemão ocupou a capital Atenas, em 27 de abril, avançando para a costa sul da Grécia anexada no dia 30 de abril com a captura de 7000 soldados das forças do Reino Unido, da Austrália e Nova Zelândia. A Grécia foi ocupada por forças militares da Alemanha, Itália e Bulgária. O Governo grego refugiou-se em Creta com o apoio de Aliados e uma feroz resistência civil.

Eduardo mantinha contactos regulares com Ponta Delgada e Londres, fornecendo informações sobre as atividades no terreno e recebendo instruções. Já o fazia de casa. A próxima e arriscada missão era a realização de duas reuniões em separado com os dois agentes SOE recentemente introduzidos em Portugal, que se deslocaram a Lisboa, uma vinda de Vila Real de Santo António e um outro do Minho, concretamente de Castro Laboreiro. Qualquer falha nestas reuniões comprometia a implementação da Resistência portuguesa. O facto de ser uma agente que chefiava a região sul não preocupava Eduardo. Tinha feito a preparação do SOE com algumas mulheres que se mostravam bem aguerridas e competentes. As reuniões seriam em dias diferentes e individualmente com cada um deles. Os locais também diferentes.

pp.193-195

 

RUA DOS REMÉDIOS

Fernando dos Santos

Edições Vieira da Silva

1ª Edição

2019

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Melgaço, do monte à ribeira à conversa com o autor

Mmr – Num livro em que a história se mistura com a ficção onde podemos situar Castro Laboreiro?  Ficção ou história?

FdS – O papel das gentes de Castro Laboreiro no apoio aos refugiados da Guerra Civil de Espanha foi bem efectiva e nada ficcional. Exaustos e perseguidos encontram aqui (contra as ordens de Salazar) o bálsamo da sobrevivência. Alguém conseguiu para eles passaportes falsos da Argentina. Por isso eram conhecidos por “argentinos”.

Mnr – Qual o contributo da gente de Castro Laboreiro na Guerra Civil Espanhola?

FdS – O povo português ajuda sempre os necessitados. Seguramente havia em Castro Laboreiro quem não visse com bons olhos os republicanos espanhóis e em contraste quem os apoiasse à revelia do status salazarista. Mas já alguém viu um natural de Castro Laboreiro recusar alimento ou guarida a quem sofre?

 

 

O DEPUTADO DE MELGAÇO EM CAMILO CASTELO BRANCO

melgaçodomonteàribeira, 19.10.19

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O CARRASCO DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES

 

CAMILO CASTELLO BRANCO

 

Eram negros côr da noite

Uns olhos negros que eu vi…

 

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d’esta arte:

- Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo consta, sangue real nas veias. Se eu fosse príncipe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo.

- E eu dois – ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço – (de Melgaço é que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos ósculos – continuou mais requebrado – limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas allabastrinas, mãos de princeza…

  1. Maria José, durante as pungentes facécias dos mal-fadados, não erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. Mal-fadados lhes chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e comia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega mortal.

E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice:

- Então o meu anjo não se humanisa até á humanidade de me tomar a medida do pescoço?

- Meço-lh’o eu – disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e d’ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignação, e disse-lhe:

- Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.

E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do seu infausto amigo.

Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.

 

O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castello Branco

Porto Livraria Chardron

de Lello&Irmão, editores

1902

 

Ler EBook:

 

http://www.gutenberg.org/files/30176/30176-h/30176-h.htm

 

PORTUGAL DE PERTO

melgaçodomonteàribeira, 14.09.19

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Os últimos dias da minha viagem foram de solidão invernal. Era já fim de Novembro de 2010 e poucas pessoas habitavam quer a zona da serra da Peneda quer o planalto, em Lamas de Mouro ou Castro Laboreiro. Quando alcancei o Santuário de Nossa Senhora da Peneda às cinco da tarde, vindo do Soajo, não encontrei ninguém. O hotel ao lado do Santuário fechara para remodelação. À porta da igreja, uma vaca pastava pachorrenta, só incomodada mais tarde por uma cadela que teimou em me acompanhar.

Em Lamas de Mouro e depois em Castro Laboreiro, um vento gélido fustigava a montanha e havia quem já previsse neve para o fim-de-semana seguinte. Na manhã do meu último dia de viagem, escolhi uma estrada estreita assente em território português mas virada para a Galiza para chegar a Cevide, a última etapa. Lembro-me que ainda suportei pedras de granizo e chuva muito fria. Era domingo e os altifalantes da Igreja de Cristóval emitiam indiferentes a missa para os dois lados da fronteira.

Ironia do destino, em Cevide, freguesia de São Gregório (*) e concelho de Melgaço, terminei a viagem a conversar com antigos contrabandistas, um português e outro galego, amigos de longa data. Recordaram a passagem de bananas, café e arroz ainda nos anos de 1980. O fim da actividade ditou a desertificação do local, mais uma terra marcada pela emigração. «Isto aqui morreu, aqui não há futuro…», desabafava o ex-contrabandista Manolo, em Frieira, do outro lado da fronteira. Na ponte internacional, Mário Olímpio, meu anfitrião em Cevide, apontava para o meio do rio Minho: «Estás a ver, ali mesmo no meio do rio? Ali é a linha de fronteira.»

 

(*S. Gregório não é freguesia. Cevide e S. Gregório pertencem à freguesia de Cristóval)

 

 

O NETO DE CAMILO

melgaçodomonteàribeira, 04.05.19

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A CELA E A VIDA

Um menino e um sapato

 

Um dos episódios maiores na história da Casa dos Anjos consta de um relato que, se não valer pelo seu literário desempenho, poderá servir os agentes naturais que vierem visitá-lo. Uma adolescente da época, Berta Maria, órfã de pai e mãe, senhora de «alma como que num perene coro de gorjeios», sairia daquela morada no lugar de Venade, freguesia de Ferreira, concelho de Paredes de Coura, apartando-se da companhia de suas manas. Ia por determinação da mais velha, Genoveva de seu nome, a morgada, e a despeito da dor que causava na segunda, Ifigénia de sua graça, dar à luz nos longes de Castro Laboreiro o rebento ilegítimo de um tal Leonel, galante que ela avistara pela primeira vez na romaria de S. Silvestre, aparecendo-lhe como detentor de «olhar muito negro», capaz de ler o «pensamento secreto» da que dele logo se enamorara. Faltará aduzir que o rapaz, acobertado por aquele onomástico de gosto popular, só pouco antes completara os dezassete anos, e que era o filho mais novo dos que contava o romancista Camilo Castelo Branco, fruto da união adulterina que mantinha com Ana Augusta Plácido. Nuno Plácido Castelo Branco, o tal falso Leonel, ingressara neste mundo em 1864, e já por alturas do início da nossa história se levantava como índole prometida a várias falcatruas e malfeitorias. O resto é o que resulta das notas que o famoso Camilo elaborou para seu próprio uso, e de cujas linhas faz parte o que se transcreve a seguir.

 

    Nos altos daquela serra, para a qual a deportaram, e onde a ventania galopava, soprada de sudoeste, como um cavalo sem freio, presenciava a amargura da réproba, traída pelo sedutor que, de súbito, a abandonara, trespassada pelo aguilhão do mais pungente dos remorsos, o vagaroso decorrer de cada minuto. Rodopiava o restolho, nas eiras, por entre o torvelinho da poeira avermelhada, e nem o trinado de uma avezinha se pressentia, nem o gorgolejo de uma fonte, naquela desolação. Quando as ânsias do parto a assaltaram, impôs a humilde companheira, a um criadito meio tolo e surdo-mudo, que fosse buscar uma certa comadre entendida, ao outro lado dos penhascos, para que ajudasse a encaminhar o que ia nascer, até este Vale de Josafat. Galgaram ambos os ermos horrendos, com uma lanterna que, a espaços, se extinguia. Ao aproximarem-se, contudo, do leito onde Berta, transida de suores, Já não distinguia o pesadelo da realidade, debatia-se a precita com as vascãs da fatídica morte, que haveria de a vencer. Chamar-se ia o menino, que surgira refeitinho e moreno, Inácio Manuel dos Anjos por se não julgar de meridiana equidade apetrechá-lo com o apelido paterno.

 

Vira ele o dia aos 19 de Maio de 1881, consoante se lê no tombo dos baptismos da paroquial Igreja de Castro Laboreiro. O tal dito criado que escoltara a desgraçada, um certo Felício, procederia às diligências indispensáveis ao enterramento de Berta no cemitério local, e cortar-lhe-ia entre soluços uma madeixa dos cabelos louros, não tendo escasseado quem nisso vislumbrasse a paixão oculta que residiria naquele engano da Natureza, um desarranjo de pernas e braços, que parecia desassistido de quanto extravasa do mais elementar conhecimento das coisas. Quanto ao recém-nascido, decompondo-se num berro de plenos pulmões que se dissolvia no balido dos cabritinhos, acabados também de entrar na vida, eis que o enrodilhou Felício nos panos que a pobre mãe lhe deixara preparados, e se botou à estrada, conduzindo pela arreata um jumento que levava na garupa a condessinha onde se acomodava o pequenito. Passaritavam à frente deles as lavandiscas, e o criado atolambado desvanecia-se em sorrisos, não porque o fascinassem as nuvens brancas que singravam no céu muito azul, mas porque possuía afinal um ser de carne e osso que considerava exclusivamente seu, e ao qual se lhe arrimava o coração. Chegaram à Casa dos Anjos numa dessas tardes quentíssimas de Junho que torna escaldante a pedra tocada pela nudez dos pés.

 

 

Mário Cláudio

TIAGO VEIGA

 Uma biografia

D. Quixote

2011

 

A MULHER FATAL DE CAMILO

melgaçodomonteàribeira, 23.02.19

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festa da cultura 2013

 

A MULHER FATAL

E passou assim este grão caso, cuja narrativa hei-de levar seguida com a possível seriedade. Chamava-se Virgínia. Bom agouro de nome! Virgínia de Menezes Picaluga de Ias Cuencas. Os apelidos estão explicados no brasão do portal. Cuencas vem de fidalgos gallêgos que se entroncaram com os Picaluga de Melgaço em 1524.

Virgínia, dama de vinte e seis annos e bellesa solida, vive na sua quinta das Açudes. É só, solteira e rica. Veio para alli; mas não se sabe d’onde. Eu sei. Depois direi d’onde e como foi. O que lá consta é que seu pae, Christovao de Picaluga, a mandara pequenina para longes terras, e na velhice a chamara, e reconhecera para os effeitos de succeder na casa paterna.

 

Camillo Castello Branco

A Mulher Fatal

Romance

4ª Edição

Lisboa

Parceria António Maria Pereira – Editores Livreiros

 

Retirado de:

www.archive.org/stream/amulherfatalrom00brangoog/amulherfatalrom00brangoog_djvu.txt

 

S. ROSENDO, D. AFONSO HENRIQUES E O CASTELO DOS MONTES LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 03.06.17

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CASTELO

DOS MONTES LABOREIRO

José Domingues

 

O castelo dos Montes Laboreiro ou do Laboreiro (fr. Castro Laboreiro, c. Melgaço) é a segunda fortaleza mais setentrional de Portugal – a primeira é o vizinho castelo de Melgaço (fr. Vila, c. Melgaço). Situa-se em frente do lugar da Vila de Castro Laboreiro, no alto dum cabeço rochoso da cordilheira montanhosa de Entre-Lima e Minho – na época medieval identificada com os Montes Laboreiro, topónimo que ainda perdura do lado galego – servindo de sentinela avançada de toda a raia seca entre estes dois rios.

Trata-se de um castelo medieval de tipologia roqueira, que, não fugindo à regra dos seus homólogos, nos aparece de improviso no fio cronológico do tempo, mudo como uma esfinge, ocultando o segredo das suas origens. Sem embargo, é tanta a sua antiguidade que se não guardou memória autêntica da sua fundação. Não surpreende, por isso, que desde o dealbar do século XVII, pelo menos, os documentos manuscritos e impressos, com alguma assiduidade, tributem a fundação da esculca do Laboreiro a S. Rosendo da Celanova ou à sua família – e não será de todo despiciendo que, do outro lado da raia, ainda hoje continuem a chamar-lhe o castelo de S. Rosendo.

Reza a lenda que D. Afonso III de Leão – o Magno – terá doado, a título hereditário, o monte Laboreiro – “leporarium momtem” – ao conde Hermenegildo Mendo, avô de S. Rosendo, a título de recompensa por lhe ter submetido um grande opositor. Por morte de seu avô passou para seu pai, o conde Guterres Mendo, e, sucessivamente, para S. Rosendo.

Mas todo o período lendário tem o seu aspecto histórico: (I) esta doação e consecutiva transmissão já aparecem registadas em manuscrito do século XII, que relata a vida do cenóbio de Celanova; (II) se efectivamente se pode identificar a arcaica terminologia “monte”, que aparece nos documentos do século X, com as estruturas defensivas muito rudimentares levantadas para as populações se abrigarem dos ataques muçulmanos, normandos e eventuais violências internas, desde esse recuado século que está documentada a existência do castelo do Laboreiro em expressões como “subtus mons leporario” e similares; (III) finalmente, não há dúvida de que o castelo do Laboreiro fazia parte do património do mosteiro galego de Celanova, conforme consta do contrato de permuta outorgado em Zamora, no ano de 1241, entre D. Sancho II de Portugal e o dito mosteiro de Celanova, cedendo este último o castelo do Laboreiro ao monarca luso, que por sua vez lhe liberou a igreja de Monte Córdova (c. Santo Tirso).

Contra o que tem seguido a corrente historiográfica tradicional, mais lendária parece ser a tomada deste castelo pela força das armas, no tempo de D. Afonso Henriques. Tudo por conta e crédito da carta de couto que, no dia 16 de Abril de 1141, o mesmo monarca outorgou ao mosteiro de Paderne, em compensação do tributo de dez éguas com suas crias, trinta moios de vinho, um cavalo avaliado em quinhentos soldos e cem moedas de ouro, que a abadessa Elvira Sarracine lhe tinha prestado durante a tomada do castelo do Laboreiro – “istum pretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex castellum do Laborario”. Este diploma afonsino vem confirmar a existência do castelo na primeira metade do século XII.

A cronologia documental conhecida impõe que, para se aceitar o sucesso bélico do nosso primeiro monarca, se acredite na conquista da fortaleza roqueira do Laboreiro duas vezes consecutivas, no Inverno de 1140 – uma por Leão e outra por Portugal. Esta ideia torna-se assaz improcedente tendo em conta: (I) a situação geográfica do castelo e a defesa natural proporcionada pela escabrosidade dos colossais penhascos que a natureza cinzelou; (II) os invernos rigorosos no âmago destas montanhas; (III) a morosidade, os riscos e as práticas de sitiar castelos em pleno século XII.

Assim sendo, o mais plausível é que, primeiro, o castelo do Laboreiro tenha tomado voz por Afonso VII, quando este por aqui passou a caminho de Valdevez, e depois, após o Bafordo de Valdevez e consecutivo armistício entre os dois reinos, tenha ficado do lado de Portugal, aproveitando o monarca luso a proximidade geográfica para o visitar e tomar posse. O convento de Paderne, por sua vez e tal como outros congéneres, ter-se-á limitado a comprar ao soberano a carta de couto para o seu mosteiro, pagando o respectivo preço.

Regressando ao hodierno, o “viajante” do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, ficou surpreendido com o nome da porta deste castelo voltada para o casario actual da vila – porta do Sapo – referindo que “alguma coisa daria o viajante para saber a origem deste nome”. Numa tentativa de satisfazer essa curiosidade, é bem plausível que a explicação esteja na formação granítica, em forma de tartaruga, que fica mesmo em frente a essa porta. A verdade é que por estas bandas, plausível legado do Galaico-Português, a tartaruga ainda é o sapo concho ou sapo com concha.

 

José Domingues – Historiador e jurista. Professor e investigador do CEJEA na Universidade Lusíada. Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro. Autor de As Ordenações Afonsinas e de muitos outros trabalhos da história da região do concelho de Melgaço.

 

 

LUGARES INESQUECÍVEIS DE PORTUGAL

Viagens com Alma

Edição Paulo Alexandre Loução

Julho 2011

pp. 417-419