Sábado, 10 de Novembro de 2018

O LOBO DE CUBALHÃO

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OS LOBOS

 

No tempo em que de noite não havia luz em lado nenhum, os lobos vinham com frequência visitar as casas. Nas noites escuras de Inverno, quando certos barulhos circundavam as casas, todos se arrepiavam, pensando no lobo esfomeado.

As histórias de pessoas e rebanhos devorados pelos lobos ouviam-se com frequência junto à lareira. Naquele dia o Agostinho tinha ido a Castro Laboreiro com o seu carro de bois. Ganhava a vida carregando feno, vinho ou lenha dos montes. Camiões e camionetas era coisa que não existia. Nesse dia carregara o carro com uma pipa de vinho para o Laboreiro e, no regresso, para aproveitar o frete, trazia um carro de feno, abundante lá para Castro Laboreiro. Já que tinha que fazer o caminho, assim ganhava duas vezes, ocupando sempre o carro.

Quando regressou, como a viagem era longa e o caminho difícil para a segurança da carga, já fazia noite. Vinha sozinho com os bois entrepostos pela ladeira a baixo, com um aguilhão para picar o gado. No meio da escuridão, o gado parecia conhecer melhor o caminho do que o tio Agostinho, que ora seguia à frente dos animais, ora se colocava ao lado, conforme os locais e a disposição.

Havia passado Lamas de Mouro e estava perto de Cubalhão, num sítio a que chamam «as Grandes Botas de Cubalhão». Num raio de 4 ou 5 km não se vê viva alma ou casa habitada. Ali não existe nada! As pessoas diziam que aquelas «botas» eram muito medrosas por ali ter sucedido há muito tempo acontecimentos estranhos com lobos. Conta-se que ali, numa encruzilhada, aparecia um lobo que comia as pessoas. Todo o que por aquele local passava, a uma certa hora, era comido! É verdade que alguns diziam terem visto no dito lugar botas, bocados de pés…  Acontece que uma vez um homem muito valente, quando soube que tinham aparecido mais umas botas e pernas disse: “Eu vou desafiar o lobo! Vou matar esse lobo maldito!” Ninguém queria acreditar no que estava a ouvir. Os outros homens bem tentaram dizer-lhe que o que pretendia era uma loucura, e que iria morrer, como os outros; que ele sozinho não conseguia matar o lobo. Mas ele fez ouvidos de mercador e, depois de se apanhar com uma boa caneca de vinho, foi para a encruzilhada a esperar o lobo, levando consigo um valente pau com que estava habituado a lutar nas festas e nas feiras da região.

A dado momento apareceu o lobo. Assim que o viu, o homem levantou o pau, em posição de espera, ora rodando à direita, ora à esquerda, na tentativa de não ser surpreendido pelo lobo. O lobo foi-se aproximando, confiante, mas sem grande entusiasmo, como querendo estudar os golpes do seu adversário. O homem bem tentava «botar-lhe» o pau, mas o lobo, de tão manhoso e inteligente, apanhava o pau ao homem com o rabo! O pobre do homem por mais ágil que fosse, não conseguia acertar nem na cabeça nem no corpo do lobo, porque este desviava sempre o pau com o rabo. Durante a noite o homem foi lutando sempre, na expectativa de acertar na cabeça, mas sem sucesso. Começava a ficar cansado e a baixar cada vez mais a vara. Parecia que o lobo sabia o que estava a fazer: levar o pobre do homem a tal fadiga que, não podendo depois defender-se, o poderia comer a seu belo prazer.

Na aldeia a espera já angustiava os mais hesitantes. Então, um dos amigos, foi atrás dele: - “Esse desgraçado vai fazer-se comer! Deixa-me ir acudi-lo”. Pegou num outro pau e lá foi, não sem antes deixar de levar consigo lume, para assustar o lobo. Quando chegou junto do amigo, estava ele ainda a lutar com o lobo, e o lobo a deitar-lhe o rabo… Resolveu atacar o lobo pelo outro lado, a ver se lhe acertava na cabeça, pois ele não se podia defender dos dois ao mesmo tempo. Desta forma conseguiram dominar o lobo e matar a fera que a todos assustava.

Estava o tio Agostinho a pensar nesta luta, quando viu aproximar-se dele um grande cão, que logo viu ser um lobo! Perante tal visão, sentiu um arrepio pelo corpo todo. Segurou com força o aguilhão do gado, e colocou-se na frente dos bois, sem nunca tirar os olhos daquele animal que não deixava, agora, de o seguir. Durante 2 km o lobo acompanhou-o, sem mostrar qualquer receio, nem esboçar qualquer ar de ferocidade. Não teria ele fome? Estaria ele ali só para lhe lembrar que aquele era o seu território, exigindo o respeito que lhe era devido? A resposta era difícil de encontrar, mas o certo é que, já perto de Cubalhão, às primeiras casas, o latir dos cães ao barulho dos rodados do carro fez parar o lobo. Tio Agostinho sentiu que o sangue voltava, na certeza que dali para baixo já não era terra de lobos.

 

 

CAMPELO, Álvaro, Lendas do Vale do Minho, Valença,

Associação de Municípios do Vale do Minho, 2002, p.89-91

 

Retirado de: CEAO Centro de Estudos Ataíde Oliveira

 

http://www.lendarium.org/narrative/os-lobos/?place=78

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:10
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Sábado, 6 de Outubro de 2018

1861, A FERA EM FIÃES

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fonte da madalena, fiães

 

FIÃES

 

 

Em 1861 foram devastadas as povoações gallegas de Padrenda, Monte Redondo e Gazgoa, por uma féra, que uns diziam ser lobo, outros tigre, outros javalis, etc.

D’alli passou a Portugal e encheu de terror as povoações de Castro Laboreiro e immediatas, fazendo muitas victimas.

Só em um dia, matou duas creanças de 11 anos, em Castro Laboreiro, devorando uma e despedaçando outra. Não era raro encontrar aqui um braço, acolá uma perna, além um craneo; principalmente nas freguezias gallegas.

Tudo andava horrorisado. Ninguem sahia de noite; e, mesmo de dia, só bem armado e nunca só.

O povo, sempre propenso ao maravilhoso, ligou varias historias sobrenaturaes a este acontecimento. Segundo uns, era a féra – um filho indigno, amaldiçoado por seus paes. Segundo outros era um Caim que tinha assassinado um seu irmão. Outros pretendiam que era uma alma do outro mundo. Os mais espertos sustentavam que era um lobishomem – e os mais serios, teimavam que era, nem mais nem menos, o diabo em pessoa.

Combinaram-se todos os povos d’estes sitios para fazerem uma grande montaria ao animal feroz, qualquer que fosse a especie a que pertencesse. Reuniu-se grande numero de povo no terreiro da capella d’Alcobaça, limites de Fiães e Castro Laboreiro, e mais de 300 homens investiram com a floresta das Ramalheiras.

Não appareceu a fera, mas achou-se um rapaz, de 14 annos, horrorosamente ferido por ella, e salvo por umas vaccas, que andava guardando, as quaes se atiraram resolutamente ao animal feroz, e o fizeram fugir. O rapaz escapou. Esta féra appareceu n’estes sitios por duas vezes, com intervallo de dois annos, demorando-se de cada uma alguns mezes.

Desappareceu sem se saber como, nem para onde.

Tambem nunca se chegou a saber positivamente que especie de animal era.

Pelos signaes que davam os que tiveram a infelicidade de o ver, suppõe-se ser um grande tigre, fugido da jaula de qualquer domador de féras.

 

PINHO LEAL, Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de,

Portugal Antigo e Moderno, Lisboa, Livraria Editora Tavares

Cardoso & Irmão, 2006 (1873), p. Tomo III, p.184

 

Retirado de:

 

CEAO – Centro de Estudos Ataíde Oliveira

 

http://www.lendarium.org/narrative/fiaes/?place=78

 

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:02
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Sábado, 18 de Março de 2017

O DIA DE INÊS NEGRA

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    INÊS NEGRA

 

 

Três vivas à Inês Negra

brava mulher de Melgaço

que venceu a Arrenegada

e lhe meteu grande cagaço

 

Três vivas à Inês Negra

que fez descer a terreiro

a sua crença valente

sem ter armas de guerreiro

 

Três vivas à Inês Negra

que mostrou à Arrenegada

a força que tem a alma

de uma pátria libertada

 

Três vivas à Inês Negra

neste largo arraial

onde se joga em duelo

a sorte de Portugal

 

Três vivas à Inês Negra

com o estandarte de Aviz

e a festa dos soldados

reconquistando o país

 

Três vivas à Inês Negra

por ser guerreira e mulher

e por ter no dia certo

a força que faz vencer

quem sabe tomar partido

quem tem razão para escolher

 

José Jorge Letria

1995 

 


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Sábado, 13 de Fevereiro de 2016

LENDAS DO VALE DO MINHO

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O Vale do Minho é um espaço de forte identidade cultural, com características muito próprias e particulares, subjacentes à riqueza do seu património (arqueológico, edificado, gastronómico e etnográfico), e a um tipo de vivência que referencia e cataloga a sua população.

Estamos perante uma região detentora de produtos culturais de excelência, reconhecida pela sua tradição em festas e romarias, pelo folclore e artesanato e por uma elevada qualidade de vida.

No cerne desta riqueza cultural destaca-se o património lendário da Vale do Minho, o qual tem vindo a sofrer ao longo do tempo um tratamento menos adequado, de deturpações e perdas permanentes e irremediáveis.

Perante a necessidade de recuperar este legado histórico de valor e variedade notáveis emergiu uma vontade colectiva de garantir a sua preservação e continuidade através das gerações mais novas.

Neste contexto, a Associação de Municípios do Vale do Minho assumiu este desfio e, no âmbito do projecto “Promoção e Gestão da Imagem do Vale do Minho”, co-financiado pela Medida 1.4. – Valorização e Promoção Regional e Local – da ON/Operação Regional Norte, promoveu o levantamento das lendas do Vale do Minho.

Esta tarefa, que implicou um criterioso trabalho de pesquisa e de estudo da região, foi desenvolvida e concretizada pelo Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa.

Como resultado, considerou-se oportuno e enriquecedor proceder à edição da presente monografia que retratasse o Mundo Lendário da Vale do Minho, surgindo como uma narração de qualidade do património oral desta região e um meio de sustentar e garantir a sua preservação e divulgação junto de todos os que evidenciem curiosidade por este testemunho da cultura popular das gentes do Vale do Minho.

 

Valença, Maio de 2002

 

O Conselho de Administração da Associação de Municípios do Vale do Minho

 

 

Lendas do Vale do Minho

Álvaro Campelo

Edição Associação de Municípios do Vale do Minho

2002

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:04
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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

O COTO DA MOURA

 

 

   Há muitos, muitos anos, no lugar onde hoje existe uma fonte que enche um regato e rega muitos campos, havia uma Moura encantada que todos os dias, ao nascer do sol, saía para estender o seu tesouro no cimo de um penedo, a que chamaram Coto da Moura. Servia este penedo de soalheiro ao tesouro da Moura. Depois de estender o seu tesouro, a moura sentava-se no cimo do penedo e, enquanto cantava, ia penteando os seus belíssimos cabelos louros com um maravilhoso pente de ouro. Refulgia ao longe tal conjunto. Pensava-se que a Moura assim fazia para atrair, com o deslumbramento das jóias, alguém que a pudesse desencantar.

   Os que por ali passavam contavam tal visão, mas a maior parte do povo, ou se mostrava incrédulo, ou temia aproximar-se. Então, um certo dia, um dos homens mais corajosos da aldeia foi ver se o que contavam era verdade.

   Quando chegou junto da fonte, viu uma Moura com o cabelo e pente de ouro. Estava ela sentada sobre o penedo a pentear-se. Aproximou-se lentamente, para a surpreender, de forma a que ela não pudesse escapar. Então ela, pressentindo a presença do homem disse-lhe:

   — Meu caro senhor, tenho um pente e uma “peina”. Qual deles queres?

O homem não esperava tal oferta! Até porque diziam que a Moura guardava com grande cuidado o seu tesouro. Restabelecido da surpresa, mas julgando pouco provável serem de ouro os cabelos da Moura, apesar de brilharem como esse metal, respondeu depois de breves momentos:

   — Quero o pente!

   — Ai homem, que me acabaste de dobrar a “fada”!

A Moura, depois de o fixar com um triste olhar, atirou o pente para o regato. E enquanto o homem o foi apanhar, motivado pela ganância, a Moura desapareceu.

   Em vão o homem procurou o pente. E ainda hoje se julga que o som das águas a cair no regato se parecem com o choro de uma donzela. Por isso se diz que o fado da Moura ainda contínua, já que o encanto só seria quebrado se o homem tivesse pedido a “peina” da Moura, que era a sua bela cabeleira.

 

(in Lendas do Vale do Minho)

 

RETIRADO DE: PORTUGAL A NORTE

 

http://www.nortept.com/lendas.aspx?concelho=melgaço

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 12:15
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