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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, UM MOSTEIRO QUE DESAPARECEU

melgaçodomonteàribeira, 13.07.19

54 b2 - terras de paderne.jpg

terras de paderne

 

SÃO PAIO DE PADERNE

 

Vamos agora sair da vila de Melgaço e dar uma volta pelo seu concelho medieval. Depois voltaremos de novo à vila.

Começáramos por S. Paio de Paderne que foi sede, segundo me parece, do antigo arcediago de Valadares, arcediago esse que não tinha assento no coro de Tui, onde apenas tinham cadeira os arcediagos de Cerveira e de Labruja do território português pertencente ao bispado de Tui, que era todo o Entre Minho e Lima.

Paderne foi em tempos um vasto território, subordinado ao mosteiro dedicado a S. Paio. Em 1141 o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, é que dividiu esse território em dois para formar património ao novo mosteiro de S. Salvador de Paderne, a que presidia D. Elvira Sarrazim. Estava já então decadente o mosteiro de S. Paio.

Não compreendo porque passou a chamar-se S. Paio de Melgaço, chegando mesmo a escrever-se em obras de certa responsabilidade que a vila de Melgaço tem duas freguesias, Santa Maria da Porta e S. Paio. Nunca S. Paio chegou à vila.

Ninguém estranhe que pudesse haver duas freguesias de Paderne, S. Paio e S. Salvador. Há muitos casos semelhantes e cá tivemos duas igrejas de Santa Maria de Melgaço, que se estremavam chamando a uma da Porta e a outra do Campo, e ainda S. Fagundo de Melgaço, portanto três igrejas ou freguesias de Melgaço.

Quer o leitor mais exemplos ainda em nossos dias? Posso mostrar-lhos em várias freguesias de nome igual, diferenciadas pelo padroeiro: S. Julião da Silva e Santa Maria da Silva, em Valença; Santa Maria Madalena de Jolda e S. Paio de Jolda; Santa Cristina de Padreiro e S. Salvador de Padreiro; Santa Maria de Távora e S. Vicente de Távora, em Arcos de Valdevez; e muitos mais casos semelhantes que não cito porque longa seria a lista só do nosso arcebispado. Assim ninguém estranhe que houvesse a freguesia de S. Paio de Paderne e a freguesia de S. Salvador de Paderne. Ainda muita gente em nossos dias chama S. Paio de Paderne, tal qual foi sempre conhecida nos tempos antigos. Na Idade Média vários documentos a referem.

A primeira vez que encontrei a citação de S. Paio de Paderne foi em um documento de 1071. Foi outorgado à Sé de Tui, restaurada após a invasão e devastação da mourama, pela infanta D. Urraca, filha de D. Fernando I e irmã daquele D. Afonso VI pai de D. Teresa, sogro do conde D. Henrique, e avô do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques. Por outras palavras, a sobredita D. Urraca Fernandes era bistia materna de D. Afonso Henriques.

Esta D. Urraca favoreceu muito a restauração da Sé de Tui. Entre outras fez-lhe doação de metade do mosteiro de S. Paio de Paderne. Convém reparar que lhe doou metade, porque teremos ocasião de encontrar referências a outros quinhões.

Os mosteiros e igrejas tinham donos, padroeiros, ou patronos (hoje diríamos patrões) que tinham certos direitos e privilégios, como seja intervenção na escolha dos párocos das igrejas e abades ou priores dos mosteiros, bem como no gozo de parte dos rendimentos.

Antes de passar adiante, devo dizer alguma coisa sobre S. Paio, santo padroeiro desta freguesia, por cujo nome ela é conhecida presentemente.

Estamos habituados a escutar nos sermões das festas de S. Paio, a que estão dedicadas muitas freguesias no Alto Minho, que ele era um jovem novo, sobrinho de um bispo de Tui chamado Hermógio, jovem martirizado pelos mouros em 925.

Sem dúvida que novas freguesias haverão tomado este S. Paio como padroeiro, mas há outro S. Paio mais antigo a quem já estavam dedicadas várias igrejas.

Em 1071 aparece-nos o mosteiro de S. Paio de Paderne dividido entre consortes. Já tive ocasião de dizer que os mosteiros e as igrejas muitas vezes foram pertença de senhorios que daí levavam rendas, foros ou pensões.

A invasão dos mouros no século VIII abalou a organização cristã mas não suprimiu o culto. Muitas igrejas com suas freguesias, se não a maior parte, ainda hoje se conservam. Raro as igrejas mudarem de padroeiro.

A igreja de S. Paio devia ser antiga para em 1071 estar já dividida.

A infanta D. Urraca, irmã de do Afonso VI de Leão, fez doação à Sé de Tui da metade que tinha no mosteiro de S. Paio.

Nas terras do velho termo de Valadares conservou suas tradições, e ainda no século XV era em S. Paio a Câmara do Arcebispo, a que hoje poderíamos chamar a sede do arcebispado se o cargo de arcipreste fosse de atribuição local.

  1. Paio sobrinho do Bispo de Tui foi martirizado em 925. Com o tempo que levaria a difundir-se o seu culto e com a antiguidade que parece ter a igreja de S. Paio, primeiro mosteiro e depois simples paróquia, sou levado a crer que não fosse este S. Paio o seu primeiro padroeiro.

Como, porém, não me orienta a pretensão de fazer bonito, devo acrescentar que o grande historiador P. Pierre David, em estudo sobre «Os Santos Padroeiros de igrejas entre Minho e Mondego até ao fim do século X», publicado em francês na Revista Portuguesa de História, em 1943, escreveu: «forçoso é reconhecer que a Espanha e Portugal nunca veneraram outro S. Paio senão o jovem mártir de Córdova».

Como já se disse, Paderne era um extenso território subordinado à igreja de S. Paio. D. Afonso Henriques tirou-lhe grande naco para formar património ao mosteiro do Salvador, cuja fundação não deve ser anterior ao seu tempo. Parece que Alvaredo se desmembrou também do antigo território de Paderne, pois alguns autores chamaram à sua igreja S. Martinho de Paderne.

Poderiam ainda explorar-se razões para crer que Penso tenha feito parte do território de Paderne que pela toponímia nos convence da existência de extensa vila romana pertença de um Senhor Paterno, porque de Paterno homem lhe vem o nome e não de Paterna mulher como se costuma dizer e escrever.

Vejamos agora as memórias históricas que pude colher das antiguidades de S. Paio de Paderne:

Em 13 de Janeiro de 1071 a infanta D. Urraca deu à Sé de Tui a sua metade no mosteiro de S. Paio de Paderne, juntamente com outros bens.

Em 13 de Abril de 1118 D. Onega Fernandes deu à Sé de Tui uma quarta parte da igreja de Paderne, em satisfação do crime praticado por seu filho Paio Dias que havia cometido um homicídio na igreja de Sant’Iago de Penso violando o lugar sagrado e seu direito de asilo.

Em 4 de Setembro de 1125 D. Teresa (mãe do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques) em doação feita à Sé de Tui incluiu também a igreja de S. Paio de Paderne inteira.

Em 1 de Dezembro de 1156 o bispo de Tui D. Isidoro e os Cónegos outorgaram um documento de partilha entre si dos rendimentos eclesiásticos daquela Sé, para concretizar a dotação feita de metade dessas rendas ao Cabido pelo bispo D. Paio na sua fundação em 1138. Essa partilha, no que dizia respeito à parte do bispado de Tui sita desde o Minho ao Lima, foi sancionada pelo nosso rei D. Afonso Henriques. Na meação dos cónegos incluiu-se «além Minho, na Terra de Valadares, o mosteiro de S. Paio de Paderne com todas as suas igrejas e pertenças».

O mosteiro de S. Salvador, dotado por D. Afonso Henriques com grande porção do território de Paderne em 1141, começou a desenvolver-se e o de S. Paio decaiu até se extinguir. De momento não tenho mais referências ao mosteiro de S. Paio. A sua igreja continuou, e a construção, de forma não habitual, que as pessoas de mais idade ainda conheceram, recordava possivelmente o encosto à desaparecida casa de habitação dos monges.

A igreja de S. Paio tinha duas naves separadas por arcaria, cada uma com seu altar-mor e sua porta principal. Só lá fui uma vez de muito novo e não fixei, mas dizem-me que uma das naves era mais alta do que a outra.

Foi reformada cerca do ano 1930 pelo pároco Raimundo Prieto que lhe conservou uma das portas principais de arquivoltas românicas e um velho altar de estilo renascença.

Nas inquirições de D. Afonso III em 1258 aparece-nos S. Paio de Paderne como paróquia no couto de Melgaço, sem qualquer memória de mosteiro. Era pároco D. João Garcia. Ele e mais uns tantos homens importantes, ajuramentados, informaram que ouviram dizer a seus pais, avós e homens antigos que a quarta parte da igreja era reguenga, isto é, do património real. Há referência ao casal de Paio Rana, ao casal de Padrão, à vila de Prado e à Leira Corta. De notar que Prado e Remoães estavam incluídos em S. Paio e não eram ainda freguesias. A elas me referirei a seu tempo.

Também na inquirição efectuada na vila foi informada a pertença real da quarta parte de S. Paio e feita referência aos locais já mencionados.

Na taxação de 1320 foram atribuídas apenas 30 libras à igreja de S. Paio de Paderne, classificação muito baixa que nos indica a limitação de seus bens. Ainda nessa altura conservava oficialmente a designação de S. Paio de Paderne.

No igregário de D. Diogo de Sousa, de princípios do século XVI, aparece na Terra de Melgaço, de livre atribuição do Arcebispo «S. Paio, Câmara do Arcebispo» e «a capela da dita Câmara».

No foral de D. Manuel I concedido a Melgaço em 3 de Novembro de 1513 vem a seguinte referência a S. Paio: «E acerca do quarto das dízimas e primícias da dita igreja de S. Paio que costumamos de levar usaremos do nosso direito e posse quanto por dinheiro se achar que se deve fazer».

A Corografia Portuguesa do P.e Carvalho da Costa, publicada no princípio do século XVIII, diz que «S. Paio é o mesmo a que Sandoval chama Mosteiro de S. Paio de Paderne, haveria sido antes dos Mouros e a Infanta D. Urraca, filha del Rei D. Fernando o Magno, dotou a metade do seu padroado à Sé de Tui e a seu Bispo D. Jorge no ano de 1071…». Quanto aos rendimentos desta igreja informa-nos que o Abade tinha a quarta parte dos dízimos, a Casa de Bragança outra quarta (chamada renda do Castelo) e a Mesa do Arcebispo metade (que são as outras duas quartas).

 

Obra Histórica

Padre Manuel António Bernardo Pintor

Edição do Rotary Club de Monção

2005

pp. 86-90

UM CONCURSO DE CÃES DE CASTRO LABOREIRO (conclusão) - ÓBIT0

melgaçodomonteàribeira, 18.05.19

49 b2 - vencedora concurso cães castro 1971.jpg

vencedora do concurso

(continuação)

 

Festa sem foguetes e três mil contos por mês

O «Cinco de Outubro» é dia de festa na freguesia, festa sem foguetes nem procissão. Prato melhorado ou saia nova. Mas festa. A mulher de Castro Laboreiro vê em tal dia a promoção dos seus cuidados no mundo canino. Data que é um chamariz à terra, de gente de todos os lados e culturas. Dia em que os naturais contactam mais de perto e se familiarizam com as pessoas da cidade.

Hoje já não se interessam pelos prémios pecuniários – disse-nos aquele pároco – Só lhes interessam as taças e as medalhas ganhas pelos seus cães para as exibirem no melhor canto da casa. E o dinheiro dos prémios não lhes interessa porque em Castro Laboreiro todos vivem muito bem. Não há pobres.

A nosso pedido, o «chefe espiritual» daquele povo esclareceu-nos:

Para esta pequenina terra, os emigrantes enviam mensalmente à volta de três mil contos.

Esboçamos uma reacção de surpresa. O Padre Aníbal, então, à muita insistência nossa, acedeu em pormenorizar:

Cada um remete para a família uma média de cinco a seis mil escudos.

Mas há quem remeta todos os meses meia centena de contos, garantiram-nos; aquele sacerdote não desmentiu. O seu sorriso antes, confirmou. E nós próprios chamamos com a esposa do proprietário da estalagem de Castro Laboreiro, na qual foram gastos três milhões de escudos, que, depois de muito instada, acabou por confessar que o marido lhe mandava de França trezentos contos anuais, ou seja, uma mensalidade de 25!

 

«Vá perguntar ao inferno»

Os cães em número de 25, a ser presentes aos juízes, Drs. António Cabral presidente do Clube Português de Canicultura, e Teodósio Antunes, foram dispostos por classes: de cachorros, destinada aos exemplares que, à data do concurso, tenham mais de seis e menos de doze meses de idade; e aberta, destinada a todos aqueles com mais de um ano.

Enquanto os bichos eram minuciosamente observados, com muita mais minúcia do que as «misses» num concurso de beleza, pois eram apalpados de todas as formas e feitios, incluindo grãos e dentes, os mirones da cidade (Lisboa, Porto, Évora, Faro), que ali se haviam deslocado propositadamente, procuravam estabelecer contactos com toda aquela gente, que nos pareceu, contudo, pouco receptiva a satisfazer a curiosidade geral, nada disposta a ser considerada avis-rara.

O repórter afadigou-se em formular perguntas, mas, quase sempre, esbarrou com muralhas de mutismo. Então quando lobrigava obter resposta, era do género: «Não sei». «Para que quer saber?», «Vá perguntar ao inferno» Não saíam disto. Deixarem-se fotografar foi problema ainda mais difícil. Sempre que o camarada fotógrafo apontava a máquina e elas davam por isso, era certo e sabido virarem, ostensivamente, as costas. Indignavam-se mesmo. «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós. Já toda a gente sabe que «semos» bonitas. A gente não precisa disso». Não fora a perícia do Orlando e a reportagem não conseguiria fixar as suas expressões.

 

Modernos quartos-de-banho servindo de arrecadação

As casas circulares cobertas de colmo, durante séculos características da região, foram substituídas pelas casas de telha «francesa». Com o dinheiro que amealha na estranja, o natural de Castro Laboreiro começa por mandar construir a sua própria casa. Depois, investe na cidade, comprando andares em regime de propriedade horizontal.

Apesar disso, naquela aldeia serrana, o forasteiro, nas primeiras impressões, fica com a ideia que os naturais vivem com extrema dificuldade. O aspecto humilde das pessoas, de cara queimada e enrugada, precocemente envelhecidas, leva exactamente a supor que subsistem em função do que ganham com a enxada na mão. De parcos recursos portanto.

Pois ali, mais do que em qualquer outro lado, pode dizer-se que assentou arraiais a decantada sociedade de consumo. Dizia-nos quem mais e melhor está informado acerca de Castro Laboreiro, que é precisamente o Padre Aníbal que lá nada falta. «Televisores, torradeiras, máquinas de lavar e barbear, gravadores, aspiradores, aquecedores. Tudo aquilo que a técnica criou para facilitar a vida de cada um, há cá na terra.»

Alguém de fora, mas que por funções profissionais vai muitas vezes a Castro Laboreiro, dizia-nos depois: «É formidável, de facto, como esta gentinha tem tudo.» Um sorriso. Uma dúvida, como que se interrogando a si próprio se havia ou não, de dizer-nos o resto. Acabou por dizer: «Têm tudo realmente. Mas têm tudo dentro de caixas, tal como veio das lojas. Novinho em folha. Nem todos, claro. Com muitos, porém, isso acontece.» Depois: Conheço casos em que os quartos-de-banho, por exemplo, servem de arrecadações. Estão a abarrotar de coisas. E ainda que os artigos sanitários sejam o último grito, tenham ainda o selo da fábrica, (por estrear portanto), as pessoas vão ao campo fazer as suas necessidades…»

Tal estado de coisas tende, contudo, a acabar, dado que os filhos dos emigrantes, frequentam as Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa e o Seminário, tendo a terra já os «seus» doutores.

 

Seis contos pelo «Paris»

As pessoas que ali se haviam deslocado propositadamente para adquirir um cão de «Castro Laboreiro», e para isso atravessaram o país de lés a lés, percorrendo mais de mil quilómetros (!!!) procuravam ouvir aquilo que os juízes cochichavam acerca de cada cão julgado, para depois abordarem o respectivo proprietário, antes de serem conhecidas as classificações. E é fácil saber porquê. Evidentemente que desde a altura em que o proprietário soubesse que o seu animal havia sido premiado, acto contínuo faria «render o peixe», que no caso era pedir mais dinheiro pelo animal, elevado à categoria de vedeta. Cão com diploma e medalha é mais caro. A propósito julgámos que a melhor altura para o negócio não seria aquela. Talvez por isso, há «peregrinações» a Castro Laboreiro, «santuário» da raça com o mesmo nome, durante todo o ano, ainda que os meses de Março e Abril sejam aqueles que mais gente atraem.

Pois por cachorros de um mês, portanto ainda «imberbes» para participarem no concurso, os donos pediam entre 200 e 250$00. Mas já o bicho considerado o melhor do certame, de seu nome «PARIS», propriedade de Manuel Gonçalves Loureiro, ausente no Canadá e apresentado por sua mulher Benezinda Gonçalves, teve cotação de seis mil escudos. Muito dinheiro, convenhamos, segundo o nosso ponto de vista pessoal, naturalmente. Observámos à «ti» Benezinda: «Não tem vergonha de pedir seis contos pelo cão?»

«Oh home, deixe-me ficar o bicho em paz. Não o quero vender. Vocês é que mo querem comprar.» A despachar-nos: «Daqui a algum tempo isto (e apontou para o cachorro) não é um cão. É um elefante. E foi-se.

 

Guerra às malhas brancas

Facto curioso é que os possíveis compradores antes de entrarem em negociações procuravam ‘catequizar’ o Padre Aníbal a fim dele dar a sua opinião sobre o cão em causa, pois, como já referimos, é um estudioso profundo das raças nacionais, e ao mesmo tempo servir de medianeiro para que o preço não ferrasse demasiadamente. Já se vê a sua dificuldade em aguentar-se entre dois fogos de interesses díspares. Defesa do paroquiano e amabilidade para com o forasteiro.

Após os julgamentos, ouvimos o Dr. António Cabral: «A impressão geral é bastante boa. A fixação das características étnicas está garantida. O lote de cães este ano foi muito bom! Muito bom! Antes da distribuição de prémios, o Dr. Teodósio Antunes ‘falou às massas’. Depois de ter historiado a razão do concurso, disse: «Cada vez temos de ser mais exigentes. Temos de combater as malhas brancas. Não devem existir mais cães de «Castro Laboreiro» com malhas brancas. Há que evitar o cruzamento com outras raças. Prendam as vossas cadelas na altura do cio…»

 

In Jornal “ O MUNDO CANINO

Novembro de 1971

Aurélio Cunha (texto)

Orlando Soares (fotos)

 

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manuel e o painel por ele executado e oferecido à Casa do Minho do Rio de Janeiro

 

MORREU MANUEL IGREJAS

Não sei que dizer; descansas finalmente depois de tantas décadas a levar a história da tua querida vila pelos quatros cantos do mundo, de enfeitar paredes em Portugal e Brasil, de fazeres gargalhar cada casa onde chega A Voz de Melgaço e o nosso blogue. Choro-te agora e abraçar-te-ei um dia lá no sítio para onde partiste.

Ilídio

 

JUDEUS E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 20.04.19

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porta do carvalho

 

VIVIENDAS DE JUDÍOS Y CONVERSOS EN GALICIA Y EL NORTE DE PORTUGAL

 

EMILIO FONSECA MORETÓN

 

ARQUITECTO POR LA ESCUELA SUPERIOR DE ARQUITECTURA DE MADRID Y ARQUIRECTO DE LA DEPUTACIÓN DE OURENSE. AUTOR DE VARIOS TRABAJOS SOBRE LA CONSERVACIÓN DEL PATRIMONIO, Y DE INVESTIGACIÓN DOBRE LA CIUDAD DE OURENSE.

 

Melgaço es de antiguo punto estratégico importante de la frontera definida por el río Miño. Preside aún la villa el castillo medieval que mandó levantar D. Afonso Henriques en 1170, quién le dio fueros a la población en 1181. Reconstruido en 1197 el castillo conserva su torre del homenaje y la muralla que la rodea. D. Afonso III le concedió a Melgaço un foro especial que liberaba la villa de toda tutela religiosa y pasó a depender directamente de la Corona.

Estuvieron la fortaleza y el caserío que la rodea protegidos por una muralla de la que aún se conservan algunos lienzos y puertas. Sin duda Melgaço acogió en tiempos medievales alguna población judía asentada bajo la protección de su castillo. La existencia de una fortaleza importante en la frontera del Miño, con su guarnición militar y sus administradores y funcionarios debió ser el motivo por el que D. João II señaló a Melgaço como uno de los seis puntos para permitir la entrada de los judíos expulsados de España en 1492. Esto indica que en Galicia existía entonces una población judía de relativa importancia (25). Es muy interesante el dibujo realizado por Duarte de Armas en su  “Livro das Fortalezas”, ya antes citado, que muestra como era la villa a principio de siglo XVI. Son pocas las casas que se conservan en Melgaço de esa época, pero en la puerta medieval de la muralla, que en su lado derecho conserva una inscripción latina del año de 1263 que conmemora la construcción ordenada por D. Afonso III, hay un rebaje pulido en la arista de su jamba derecha.

 

(25) No conosco estudios que documenten como y por donde salieron por tierra los judíos de Galicia que no se bautizaron y si se llegó a producir su paso por Melgaço y en que número lo habrían echo. Es de suponer que sí ya que era un lugar muy lógico y apropiado para el paso de los judíos de Galicia que no fueron al exilio directamente desde los puertos gallegos por mar. Si bien es cierto que un gran número de judíos gallegos se bautizaron no lo hicieron en su totalidad. Cabe suponer que por Melgaço habrián salido, aunque fuese en número reducido, algunos de Ribadavia. Sería interesante indagar con este propósito en los archivos portugueses.

 

Retirado de: Anuario Brigantino 2004, nº 27

 

http://anuariobrigantino.betanzos.net

 

O COCIOLLO DO LILI

melgaçodomonteàribeira, 06.04.19

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

IV

 

Para o julgamento do Lili do Teodorico foram arroladas várias testemunhas que dariam seu depoimento sobre a conduta e personalidade do rapaz. A mais importante testemunha era o doutor João Durães, farmacêutico, dono da única farmácia da Vila. Político destacado, membro da União Nacional, partido único existente na época, já exercera a presidência da Câmara Municipal com destacada administração. O governo do País só permitia, então, uma farmácia para determinado número de habitantes. Na Vila de Melgaço, só existia a farmácia Durães, a farmácia do Lili era em S. Gregório, localidade nove quilómetros distante.

O Teodorico João Fernandes, garoto ainda, terminado o ensino primário, foi ser aprendiz na farmácia Barreiros Sucessores, sob a direcção técnica do farmacêutico diplomado, doutor João de Barros Durães. Pouco depois, a razão social da firma passou a denominar-se Farmácia Durães, transferindo suas instalações para a Praça da República. Assumiu a gerência do estabelecimento o prático farmacêutico senhor Alves, figura hilariante que ganhou a nomeada de Pédanjo. Retornado do Brasil, simpático como são todas as pessoas obesas, cantarolava a marchinha carnavalesca em voga na data do seu embarque, “O Pé de Anjo”. Mantinha bastante carregado o sotaque brasileiro e usava termos daquele país que faziam dele tema de chistes.

Razoavelmente inteligente, o Li li foi absorvendo os ensinamentos do manuseio das drogas tornando-se hábil boticário.

Quando o senhor Alves faleceu, o Lili já estava no ponto de o substituir. O salário não era lá essas coisas, mas excessivamente económico, beirando a avareza e vivendo com os pais, guardava tudo que ganhava. Era muito educado e respeitador, porém, veladamente tinha atitudes de grandeza relacionando-se com as famílias pseudo fidalgas e isso irritava os rapazes da sua geração e da sua condição económica.

De tanto economizar conseguiu capital para comprar a farmácia do velho doutor Canhoto em S. Gregório. Dono do seu próprio negócio, a vaidade do rapaz transcendia a ponto de fazer exigências aos órgãos administrativos.

Naquela fase do após guerra, vulgarizaram-se as bicicletas motorizadas lançadas pela indústria italiana, as mais conhecidas, Lambreta e Cociollo. O Lili comprou o segundo Cociollo da terra onde desfilava sua imponência pelas ruas da Vila de maneira peculiar que causava risos e deboche da população: para economizar gasolina, usava a motorizada pedalando como se fosse bicicleta comum.

 

(continua)

 

COROGRAFIA PORTUGUEZA - MELGAÇO MDCCVI

melgaçodomonteàribeira, 02.03.19

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COROGRAFIA PORTUGUEZA, E DESCRIPÇAM DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAL

 

 S. Maria da Gave,

ou Gavia, he Vigairaria ´q apresenta o Reytor de Riba de Mouro, rende quarenta mil reis, & para o Commendador setenta mil reis: tem cento & trinta visinhos.

S. Mamede de Parada do Monte,

Vigairaria da mesma apresentaçaõ, que rende ao todo quarenta mil reis, & para o Commendador sessenta & seis mil reis, tem cento & cincoenta visinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he mui procurado para cubertas de camas de Lavradores, ou criados, & ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores; he mui branco, grosso & macio. Nestas montanhas em `q ha muita caça & veaçaõ, houve antigamente hum Couto, a que chamavaõ Val de Poldros, o qual fez, marcou & defendeo Payo Rodrigues de Araujo, de que possue parte seu sexto neto Manoel de Araujo de Caldas, Sargento mór de Valladares, inda que atenuando em parte das grandes regalias que tinha.

S. João de Lamas de Mouro,

he Abbadia do Ordinario, rende quarenta mil reis, tem quarenta visinhos, que saõ privilegiados de Malta pela Commenda de Távora, a que pagaõ muito foro, não sendo a terra por roim capaz de tanto. Dizem que algum tempo foy esta Igreja de Templarios, & delles, quando se extinguiraõ, passou aos Maltezes. O como sahio delles para o Ordinario nam alcançamos, que naquelles tempos os mais dos contratos erão verbaes. Aqui nasce o rio Mouro, nome que tomou daquelle poderoso, ou regulo, de que já fallamos, & que neste monte tinha sua coutada de recreação para caçar. O rio inda que pequeno, dá saborosas trutas, & se engrossa  com o da Mendeira, que pouco abaixo lhe entra.

 

   Santiago de Penso,

Vigairaria do Mosteiro de Paderne com dez mil reis, ao todo oitenta mil reis, & para os Frades cento & dezoito mil reis, tem duzentos visinhos. Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possue Felippe de Araujo de Caldas, Cavalleiro do Habito de Christo, Capitaõ mór, & Monteiro mór de Valladares; tomou este nome de huma Capella antiga deste Santo Cipriano, que alli está; he tradição foy templo da Gentilidade dedicado a Júpiter: o sitio he funebre, & desacomodado no meyo de hum campo com pouca veneraçaõ, & menos o fora a naõ ser advogado das cezoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem alli termendo, & voltaõ saõs.

 

 

Couto de Paderne

 

   Saõ Salvador de Paderne,

Mosteiro de Conegos Regrantes de Santo Agostinho, tomou o nome de sua fundadora a Condeça Dona Paterna, viúva do Conde de Tuy Dom Hermenegildo, que aqui tinhaõ grandiosa quinta, & muitas aldeãs, a qual vendose livre das obrigaçoens conjugaes fez este Mosteiro para nelle se recolher com quatro filhas, acabou-o no anno de 1130. & em seis de Agosto, dia da Transfiguração do Senhor, Dom Payo Bispo de Tuy o dedicou ao Salvador, lançando no mesmo dia à Condeça, filhas, & companheiras o habito de Conegas Agostinhas, de que antigamente tivemos muitos, & hoje só hum Mosteiro tem este Reino em Chellas meya legoa distante de Lisboa: logo lhe meteo para Capellaens, & Confessores sete Clerigos, os quaes no anno de 1138. se fizeraõ Regulares, & a Abbadessa Dona Paterna lhes mandou fazer para a parte do Sul hum claustro com cellas, em que vivessem, ficando as Freyras para o Norte, & o Mosteiro Duplex. Faleceo a Condeça Abbadessa em seis de Janeiro de 1140. & foi sepultada em hum arco da parte de fóra da banda do Evangelho da Capella, que hoje he Sacristia dos Clerigos, aonde se vè sua figura de Conega obrada de meyo relevo sobre o tumulo, & junto de si na mesma sepultura outro de homem armado com huma espada da maõ para o pé; presumimos ser do Conde seu marido, que com ella estará alli enterrado: sucedeo-lhe no cargo de Abadessa sua filha Dona Elvira, a quem ElRey Dom Affonso Henriques fez doação do Couto de Paderne, & da jurisdição civil no anno de 1141. & nella diz lha fazia pelos bons serviços, que lhe fizera, quando elle estava sobre o Casttelo de Castro Laboreyro, a quem tinha cercado, mandandolhe mantimentos, & alguns cavallos, entre elles hum muito fermoso, & jaezado ricamente para sua pessoa. Não se sabe em que tempo se devidirão as Freyras dos Frades, mas acha-se que no anno de 1231. vivião aqui só estes, ou raçoeiros, a quem governava Dom João Pires, que derrubou a Igreja antiga, por ser pequena para os muitos freguezes, que tinhão crescido, & fazendoa novamente, a acabou no de 1264. & he a que existe. Deste foy tam affecto ElRey Dom Affonso o Terceiro, que lhe fez algumas doaçoens, confirmandolhe o Couto no anno de 1248. Em seis de Agosto de 1264. a sagrou Dom Gil Pires de Cerveira (não Egídio, como dizem outros) Bispo de Tuy, ficandolhe o mesmo orago do Salvador. Tem Prior triennal com sete, ou oito Relegiosos, & hum Cura secular com sete mil reis, ao tode setenta mil reis, & para os Frades com as annexas, que se seguem, & Paços, & sabidos perto de tres mil cruzados, de que pagão pensoens: tem quatrocentos & trinta visinhos. Passou este Mosteiro a Commendadores, & nelle o forão sucessivamete dous, ou tres fidalgos do apellido de Mongueymes, & Fajardos, que sendo Gallegos, deixàraõ muita sucessaõ em Portugal, entre ella se acha nesta freguesia a da

Quinta de Pontezellas , que elles fundàraõ, & a possuiu o Capitão Pedro Falcão, por ser casado com filha herdeira de Diogo Ortiz de Tavora, filho de Gregorio Mogueymes Fajardo. O ultimo Commendatario perpetuo, a quem o Chronista dos Conegos Regrantes chama Prior, foy Diogo de Alarcão, por cujo falecimento, permitindo-o ElRey Dom Sebastião, se unio a Santa Cruz de Coimbra no anno de 1594. por Bullas do Papa Clemente Oitavo, com condição, que sempre nelle ficassem Religiosos, que rezassem no Coro os Officios Divinos, & prégassem ao povo, & Clerigos Curas, que administrassem os Sacramentos, razão porque deixàraõ como estava, & foy seu primeiro Prior triennal Dom Nicolao dos Santos. He Couto no civel, & as Freguesias, que se seguem com Juiz ordinario, que faz o Prior, & todos os Officiaes; vem Tabeliães de Valladares escreverlhe hum anno, outros dous no seguinte: o Prior he Ouvidor, no crime, & Orfaõs os de Valladares, & assim o Enqueredor, & Contador; tem duas Companhias, de que o Prior he Capitaõ mór.

S. Thomé do Couço,

Curado annual do Mosteiro de Paderne, rende vinte & cinco mil reis, & para os Frades quarenta mil reis: tem cento & vinte visinhos.

 

   Nossa Senhora de Cubalhão,

Curado do mesmo Mosteiro, rende trinta mil reis, & para os Frades sessenta mil reis: tem oitenta visinhos. Esta Imagem de Nossa Senhora he de pedra, & mui milagrosa. Ha aqui um sitio, a que chamão o Castro, que mostra ser fortificação antiga dos Romanos. Estas duas Freguesias são do mesmo Couto.

P. Antonio Carvalho da Costa

Na officina de VALENTIM DA COSTA DESLANDES

Impressor de sua Magestade, & à sua custa impresso.

Com todas as licenças necessarias. Anno M. DCC. VI.

 

 Retirado de: http://books.google

 

O FORAL DE D. AFONSO III

melgaçodomonteàribeira, 16.02.19

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inscrição junto a porta na muralha

 

OS FORAIS ANTIGOS DE MELGAÇO, TERRA DE FRONTEIRA

 

O primeiro foral de Melgaço esteve em vigor até à outorga de nova carta, em 29 de Abril de 1258. As razões que terão motivado a concessão de novo foral a Melgaço devem encontrar-se através do estudo da política seguida por D. Afonso III.

O caos político que submergiu o reino no tempo de D. Sancho II deu lugar à intervenção directa da Santa Sé, tendo o Sumo Pontífice Inocêncio IV, após o encerramento do concílio de Leão (1245), expedido uma bula a ordenar aos portugueses a obediência ao infante, que, nos começos do ano seguinte, entrava em Lisboa, intitulando-se visitador, curador e defensor do reino. No termo de uma luta encarniçada, D. Sancho II, derrotado, retirou-se para Toledo, onde viria a falecer nos primeiros dias de 1248. D. Afonso III foi então aclamado rei, ocupando-se, nos anos seguintes, na conquista definitiva do Algarve, que constitui uma das principais fases do programa de estabelecimento definitivo das fronteiras de Portugal, assim como na reorganização administrativa do reino. Neste contexto se enquadram as inquirições realizadas em 1258, bem como a outorga de numerosos forais e cartas de foro, a publicação de legislação adequada e a convocação de cortes gerais, tendo os municípios participado pela primeira vez nas de Leiria em 1254…….

O novo foral não agradou às gentes de Melgaço. O diploma introduzia modificações a que os moradores teriam dificuldade em se adaptarem. O maior problema esteve certamente no censo anual a pagar ao monarca.

Com efeito, o tributo a pagar ao rei tinha sido fixado no tempo de D. Sancho II em 1000 soldos leoneses, a pagar em três prestações, ao longo do ano. No novo foral estipulava-se um tributo anual de 350 morabitinos velhos, também em três prestações fixas, nas datas acostumadas. Este valor foi fixado na previsão do pagamento de um morabitino por morador, o que fazia que se elevasse para 350 o número de moradores na vila. Essa mudança do panorama demográfico obrigaria a uma redistribuição das terras reguengas que o rei tinha doado ao concelho, a qual, para além de outras perturbações no que dizia respeito às benfeitorias introduzidas pelos seus exploradores, forçosamente diminuiria as parcelas, perspectiva suficiente para provocar uma onda de descontentamento.

O rei acolheu com compreensão as reclamações dos habitantes de Melgaço, que desejava continuar a ter por aliados e sentinelas da fronteira. E assim repôs o estado anterior das coisas outorgando, com pequenos ajustamentos, em 9 de Fevereiro de 1261, uma carta de confirmação do foral concedido por D. Afonso Henriques.

Quanto acabamos de dizer ajuda-nos a ver a forma humana como os nossos primeiros monarcas dialogavam com as populações, exercendo um poder moderador, ainda muito afastado dos figurinos absolutistas das eras moderna e contemporânea.

Para a defesa da fronteira, para a manutenção da ordem, para o povoamento e desenvolvimento do país, o rei sabia que era preciso o concurso de todos e, por isso, uma das suas primeiras preocupações era a de compatibilizar e congraçar os mais diversos interesses e de criar estímulos que promovessem a consecução dos objectivos comuns.

 

Revista da Faculdade de Letras

António Matos Reis

http://ler.letras.up.pt

 

 

 

O LILI DO TEODORICO

melgaçodomonteàribeira, 24.11.18

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

I

O Lili do Teodorico era o assunto de momento. O Alfredo Pereira, mais conhecido como Pandulho, oficial de diligências, divulgou que o rapaz fora indicado pelo ministério público e iria a julgamento. Perplexo, o povo da terra passou a especular. Inventavam várias hipóteses para explicar o acontecimento.

Novamente o Pandulho, que tinha acesso ao processo deu a explicação: o Lili, Teodorico João Fernandes como fora baptizado, escrevera ao Ministério da Saúde, em Lisboa, reclamando do não fornecimento da penicilina à sua farmácia. E acrescentara: «os donos das outras farmácias da região estavam ganhando muito dinheiro vendendo o remédio para a Espanha». A reclamação foi tomada como denúncia e teria de provar tal afirmativa.

O uso da penicilina era rigorosamente controlado e sua comercialização não oficial era considerada crime contra a economia nacional. No fim da segunda guerra mundial os jornais anunciaram como grande descoberta, um medicamento que iria acabar com todas as doenças inflamatórias, a penicilina. O povo simples logo enfeitou a notícia a seu belo prazer.

Naquela pequena e humilde vila dos confins de Portugal, ou melhor, onde começa Portugal, a notícia da maravilhosa descoberta gerou várias versões. Seria a redenção da humanidade, curaria todas as doenças e até nem precisaria ser comprada nas farmácias. Os mais esclarecidos destrinçaram a notícia: num laboratório nos Estados Unidos, uma cultura de germens produziu um certo bolor que eliminava vírus, bactérias e micróbios. Elaborado foi comercializado com o nome de penicilina. Ora, naquela região desde sempre as famílias fabricavam o seu próprio pão. Em priscas eras, de centeio, depois, desde que o milho foi introduzido na Europa, deste cereal. Era o pão feito em grandes broas que duravam a semana inteira. Acontecia que quando não ficava bem cozinhado ao fim de dois ou três dias embolorava; apareciam fungos esverdeados. Quando estas manchas bolorentas tomavam todo o pão não dando para apenas raspar os pequenos pontos, era jogado aos animais, porcos e galinhas, até um dia, no advento da grande descoberta, que alguém divulgou que aquele mofo era penicilina. Ninguém mais jogou pão aos animais durante bastante tempo.

   Importada dos Estados Unidos da América era a penicilina restrita a poucos países inicialmente, e em Portugal chegava em pequena quantidade e seu uso estava sujeito a justificação requerida a organismo próprio. A Espanha que, durante a guerra, fora aliada da Alemanha, sofria bloqueio comercial das potências aliadas que haviam ganhado a guerra. E ainda sentia as consequências da sua guerra civil. Estava carenciada de tudo. O contrabando de Portugal para Espanha era a momentânea opulência da gente fronteiriça. Esta situação manteve-se os anos quarenta e cinquenta do século XX.

(continua)

 

A HEROÍNA DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 03.11.18

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IGNEZ NEGRA

 

E já depois da batalha, estando os nossos cercando ainda a praça de Melgaço, que presenciam os dois exércitos? nada menos do que uma pequenina amostra do combate dos Horacios e Curiacios. Grande arruido soa num dos pontos da muralha. Destaca-se, do lado inimigo, uma intrépida Castelhana; do outro, uma Portugueza valorosa. As mútuas injúrias sibilam de uma para a outra como rajadas de vento; e os punhos, depois de se levantarem como imprecações tremendas, arremessam-se para diante, como se no aéreo espaço cada uma supusesse já despedaçar a contrária. As línguas já não tem mais injúrias para despedir nem os braços mais ameaças. O repto para virem às mãos rompe afinal como supremo anseio. Correm então para o meio do campo. Não são duas mulheres, são duas fúrias. Tem por espectadores, que as excitam, os soldados de ambos os campos; e as duas feras, primeiro com as armas, depois corpo a corpo, enovelam-se aos murros, arrancam mutuamente os cabelos na sua raiva furiosa, até que a inimiga, heróica mas vencida, é forçada a ceder a palma à nossa Ignez Negra, a popular combatente de Melgaço.

E assim, pelo correr dos tempos, sempre que o estrangeiro ocupou o nosso território, viu-se a Mulher Portugueza, aqui, além, reagir como protesto vivo em nome do seu sexo, gentil nas salas, meigo nos lares, mas ainda mais furioso do que o nosso quando o ímpeto de qualquer paixão lhe referve na alma.

 

Retirado de:

Fuul text of A mulher em Portugal

Dom António da Costa

Companhia Nacional Editora

Largo do Conde Barão 50

Lisboa 

1892

 

MELGAÇO NO REINADO DE D. AFONSO V

melgaçodomonteàribeira, 27.10.18

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ponte românica em lamas de mouro

 

Valença do Minho enviou á assembléa de Lisboa em 1459, entre outros capitulos, este que é curioso sob varios aspectos. Havia n’esta villa, diz o capitulo, bom trafego do sal que aqui importavam d’Aveiro, e vendiam aos Gallegos que vinham por elle em bestas de Terra de Lima, «dourões» e d’outros logares de Galliza. Traziam elles á villa sebo, cera, untos, manteiga e muitas outras mercadorias e mantimentos. A maior parte d’esta gente entrava em Portugal por Crasto Laboreiro e Lamas de Mouro, por ser caminho mais direito e mais seguro; porém Martim de Crasto, alcaide que foi de Melgaço e assim Fernão de Crasto, seu filho, que é agora ahi o alcaide, vedaram-lhes o antigo caminho que elles seguiam, e isto por nos fazerem perder a venda do sal e o commercio de Galliza em razão de termos accusado o dito Martim, no tempo da regencia do infante (e chegou até a ser citado para se apresentar na côrte), de trazer ladrões que roubavam as cargas aos Gallegos que vinham ao sal e os prendiam. Martim e o filho querem obrigal-os a passar por Melgaço na vinda e no regresso, e pagar ahi a portagem que elles preferiam satisfazer em «cubulhom» (hoje Cubalhão) ou na ponte do Mouro, onde os alcaides de Melgaço costumavam receber a portagem. Mas porque se desviavam muito do caminho por esse novo itinerário, cessaram quasi todos de vir de Galliza buscar o sal a Valença, e vão por elle a «rondella» (?), a Ponte Vedra e outros portos da sua terra, do que resultou grande diminuição dos direitos fiscaes. Rematava a villa pedindo que não se mantivessem as innovações estabelecidas pelo alcaide de Melgaço. Em resposta manda o rei que o contador o informe do caso, e declare tambem onde se pagava antigamente a portagem e onde é mais conveniente que se pague. E depois de ouvir o alcaide, o faça (ao rei) «todo sabemte» para resolver o que mais achar por seu serviço e bem do povo (1).

 (1) Chancell. De D. Aff. V, liv. XXXVI, fol. 163.

 

Retirado de: 

http://ler.letras.up.pt

 

MELGAÇO MEMÓRIA DOS TEMPOS PASSADO E PRESENTE

melgaçodomonteàribeira, 20.10.18

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A partir de Dezembro de 1982 e até princípios do século XXI, o ímpeto empreendedor que impulsionou o crescimento de Melgaço, foi verdadeiramente notável, pioneiro e arrojado a vários níveis.

Num enorme salto qualitativo para a modernidade, Melgaço posicionou-se à frente do seu tempo e, em muitos aspectos, à frente dos demais concelhos portugueses, em geral, e dos do Alto Minho em particular.

Ontem como hoje, o Município tem sabido acompanhar a contemporaneidade de discursos, abrindo portas à divulgação e projecção dos mais diversos eventos e criando equipamentos de grande qualidade para a fruição sócio cultural.

Muito do seu património edificado, acumulando vivências diversas e remotas na origem, readaptou-se e readapta-se às funcionalidades do tempo presente.

Como destino turístico, estadia de lazer ou local de negócios ou desporto, o diário de visita a Melgaço escreve-se com entusiasmo em qualquer época do ano.

As suas acessibilidades, as potencialidades de desenvolvimento e investimento; a exuberância das suas festas, sejam do Alvarinho e do Fumeiro ou da Cultura, respectivamente em Abril e Agosto de cada ano; o comércio, as unidades hoteleiras e de restauração; os eventos desportivos – com destaque para as diversificadas e polivalentes valências do seu Complexo Desportivo e de Lazer/Centro de Estágios de Melgaço e para o desporto aventura – organização da prestigiada Associação do Melgaço Radical – são motores propulsores do crescer social, económico e cultural do Município.

Talvez por isso, Melgaço foi considerado, entre 2004 e 2006, pelo Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, “um dos Municípios portugueses com maior qualidade de vida”. O inquérito, levado a cabo por uma equipa sob a responsabilidade do Geógrafo Doutor João Ferrão, analisou o desenvolvimento de Portugal através de 75 indicadores:

Ambientais,

Demográficos,

Sociais,

Culturais,

E económicos.

Melgaço entrou no século XXI para todo este compromisso de enlaces e pontos de interesse que fazem o engrandecimento e projecção, cada vez mais merecido, da região.

 

MELGAÇO memória dos tempos passado e presente 

J Marques Rocha

Edição do Autor

Patrocínio Câmara Municipal de Melgaço 

2007