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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MENDIGOS E VAGABUNDOS NO CONCELHO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 26.05.20

166 - 2 Arte Pintura António Ramalho Mendigo 1896

antónio ramalho - mendigo - 1896

 

ENTRE A POBREZA E A MARGINALIDADE: MENDIGOS E VAGABUNDOS NO ALTO MINHO DE OITOCENTOS

Alexandra Esteves

Segundo o número 8, do artigo 249.º, do ( …) Código Administrativo de 1842, competia aos administradores dos concelhos o exercício da vigilância e polícia sobre os mendigos e vadios. Em 1869, o governador civil do distrito de Viana do Castelo recordava que nenhum mendigo podia esmolar no respectivo concelho de residência sem estar munido de licença. Determinava ainda que só poderia ser concedida permissão para mendigar aos indivíduos naturais do concelho, ou que nele residissem há mais de dois anos, e desde que fossem reconhecidamente pobres e estivessem  impossibilitados de trabalhar. A indigência, a idade e a residência dos peticionários tinham que ser comprovadas pelos párocos e regedores, ao passo que a incapacidade física ou mental devia ser atestada por documento médico. Considere-se, a propósito, o requerimento para pedir esmola, formulado por João Manuel Esteves e confirmado pelo regedor da freguesia de Castro Laboreiro:

 

“Diz João Manoel Esteves solteiro da Villa de Castro Laboreiro da Comarca de Melgaço que achando-se já de idade de sessenta anos, e sem meios alguns de subsistência como mostra pelos documentos juntos, do Reverendo Parocho, e do Administrador do Concelho, e alem disso sem vista por cauza das cataratas, e lezo do corpo da parte direita de hum ataque que sofreu do estupor já há mais de quatro annos, durante os quaes tem sido socorrido por hum seu irmão, porque do contrario já teria sido vitima da morte: hé neste estado miserável que o supplicante implora a benovolência de V. EX. a fim de que todas as juntas de Parochia do Districto concorrão com hum subsidio; bem como todos os thezoureiros das Misericórdias e confrarias segundo suas forças  para a conservação de seus dias; pois por esta graça o supplicante não cessara de rogar a deus pela conservação de V. EX.ª”.

 

Através de editais afixados nas freguesias, mencionando os documentos a apresentar, os mendigos eram convocados para comparecerem na administração do concelho. Na ocasião, deviam estar presentes os regedores, para conferiram a sua identidade, e os médicos, para analisarem o seu estado de saúde. Concluído o processo de triagem, os que fossem considerados aptos para trabalhar tinham que assinar uma declaração onde se comprometiam a abandonar a mendicidade e procurar uma ocupação. Se fossem encontrados a mendigar sem causa superveniente e sem licença, eram entregues ao poder judicial para serem punidos na conformidade da lei.

 

INTERCONEXÕES

Revista de Ciências Sociais

Vol. 1  N.º 1

 

http://academia.edu

 

 

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL III

melgaçodomonteàribeira, 14.03.20

armada manel.jpg

azulejo de manuel igrejas

 

Durante a guerra da invasão napoleónica, não menos digna foi a attitude de Melgaço.

Esta foi a primeira praça de armas que saccudiu o jugo do odioso Attila moderno. Foi d’ali que partiu o primeiro grito da libertação, e de lá também se levantou a famosa plêiade de valentes, que pondo à sua frente o general Sepúlveda, tão nobremente contribuíram para o resultado da lucta.

Cabe a esta villa também a honra de ter sahido da família dos Castros de Melgaço o laureado ministro da nossa marinha, Martinho de Mello e Castro, nome altamente sympático e bemquisto da nação.

Nasceu o illustre varão a 11 de novembro de 1716.

Seguiu a carreira eclesiástica e em 1739 foi nomeado cónego da sé patriachal. Seguiu depois a carreira diplomática, e estava ministro em Londres, quando rebentou a guerra entre a nação dos piratas, a Hespanha e a França.

O patriótico ministro prestou então valorosos serviços ao paiz, já enviando armas e munições de guerra, já envidando todos os meios para dar lustre ao nome portuguez. Coube-lhe a elle assignar a paz em Paris, o que realisou, salvaguardando a honra e os interesses nacionais como um verdadeiro portuguez.

José I nomeou-o ministro e secretário de estado dos negócios da marinha, em 1777.

Martinho de Mello tomou o mais vivo interesse no desenvolvimento da marinha de guerra portugueza, e esteve sempre ao lado do grande marquez de Pombal, em todos os commettimentos de utilidade pátria. Comquanto não fosse affeiçoado ao severo ministro, que tanta influência teve no reinado de D. José, coadjuvou-o sempre que se tratava do engrandecimento e prosperidade nacional. Depois da queda de Sebastião José de Carvalho e Mello, continuou a dirigir a pasta da marinha com a mais evidente intelligência e sollicitude.

A este hábil ministro se deveu a magnífica esquadra que então houvemos. Ainda quando D. João VI fugiu covarde e criminozamente para o Brazil, deixando a pátria nas garras do inimigo bonapartista e do pirateiro aliado, se compunha a esquadra de guerra portugueza de doze fragatas, e doze naus de linha, afora muitas outras embarcações de menor importância.

Isto em 29 de novembro de 1807…

Hoje temos o Pimpão e meia dúzia de chavecos, incapazes de aguentarem os embates do oceano em revoltas de borrasca.

Ah! Mas é que já não existem homens como o marquez de Pombal e Martinho de Mello, à frente da administração pública!

O digno estadista conservou a pasta da marinha até à data do seu falecimento, em 24 de março de 1795. Possuía inalteravelmente a mais clara inteligência, e foi activo no desempenho da sua nobre missão até que a morte o prostou, velho nos annos, sempre novo na pujança do espírito, e no discernimento da acção.

Em Loanda conhecemos ainda um transporte de guerra com o nome do illustre ministro. Há annos desarmou esse vaso da nossa marinha, e ainda não houve quem se lembrasse de dar o nome de Martinho de Mello a outra qualquer embarcação de guerra.

Em troca há-os que teem nomes que nada significam, a não ser a máxima insignificância.

Tem Melgaço um templo digno de menção, edificado sobre uma elevação sobranceira ao rio Minho, o qual, como se sabe, separa esta villa do reino vizinho. O átrio d’este santuário é atravessado por uma estrada, que vindo da povoação parte para a Galliza.

Perde-se nos dédalos do tempo a história d’este templo, sabendo-se, porém, que já estava construído na época dos godos.

Em 1170 estava quasi totalmente arruinado, e D. Affonso Henriques mandou-o reconstruir, conforme consta de uma escriptura de doação feita por D. Sancho I, em Santarém, em setembro de 1207, e assignado pelo rei, todos os seus filhos e prelados do reino. Até 1834 conservou-se esta escriptura no Livro das Datas, depois foi inglesada com tudo mais quanto serviu de repasto à voracidade anonyma.

O templo, da invocação da Nossa Senhora da Orada, é construído de boa cantaria e foi até 1834 da jurisdicção dos monges do convento de Santa Maria de Fiães, por doação de D. Sancho, que o havia herdado de seu pae.

Desde a egreja à povoação é a estrada ladeada de formosas hortas, pomares, fontes abundantes de magníficas águas, vistosos campos e casas, o que dá o mais alegre e grato aspecto ao sítio.

Do dia da Ascenção até ao domingo do Espírito Santo era outr’ora muito concorrida a estrada pelos romeiros do concelho de Melgaço, Valladares e Monção, os quaes iam offerecer à Virgem da Orada o resíduo paschal, levando cada freguezia os seus parochos, e ao menos uma pessoa de cada família.

Tinham estas romagens por motivo um voto que os povos das mencionadas freguesias fizeram durante uma terrível epidemia de peste, que, tendo assolado e deixando desertas innumeras povoações, àquellas não havia causado o mínimo damno.

Hoje, comquanto ainda tenha devotos, não é a egreja procurada como d’antes. A civilização fazendo pouco a pouco luz no espírito humano tem-lhe ensinado que o verdadeiro templo é a consciência própria, que todos devem honrar e respeitar como um santuário que Deus nos collocou dentro do peito.

Finalmente: não é a villa de Melgaço rica de pergaminhos artísticos, de que tantas outras povoações se envaidecem, porém, a sua carreira histórica dá-lhe foros de illustre.

E o castelhano que com ella defrontar hade comprehender que ali naquelle pedaço de terreno frigidíssimo, rude, mal agradecido aos labores do proletário; que ali, sob aquelle céu ora de um azul espelhado e frio como uma lâmina de aço polido, ora nevoento e opaco como uma desgraça latente, há corações que abrigam o fogo sagrado dos mais nobilitantes sentimentos.

E poderá pensar que nas veias dos filhos de Melgaço corre um sangue tão puramente portuguez como aquelle que gravou na lusitana história, n’aquelle dia solemne de Aljubarrota, o verbo sagrado – Independência!

Quando uma povoação tem tão heroicos antecedentes, pode com altivez medir-se em glórias com a mais opulentada cidade.

 

FREGUEZIAS D’ESTE CONCELHO DIGNAS DE MENÇÃO

 

CASTRO LABOREIRO – Esta povoação foi conquistada aos mouros, em 1136, por D. Affonso Henriques, que mandou circumdar de muralhas o castello que já ali existia desde remotos tempos. D. Affonso III concedeu-lhe foral em Lisboa, a 15 de janeiro de 1372, e a elevou à cathegoria de villa com o nome de Laboreiro. Foi reedificada por D. Dinis, pelos annos de 1290, assim como o castello, que havia sido completamente arrazado no princípio do século XIV, em consequência de um raio lhe ter incendiado o paiol da pólvora.

Este venerando baluarte, hoje completamente arruinado, fica ao sul da villa, sobre um elevadíssimo pico que terá de altura uns 400 e tantos metros, e ergue-se sobre uma base de modesta circumferência, o que o torna espantosamente aprumado. Teve quartéis em recuadas eras e um poço de água nativa, o que se torna admirável n’aquella espantosa altura.

Gosou esta povoação o privilégio, concedido por vários monarcas e confirmado por D. João V, de não dar mancebos para o exército.

D. Manuel concedeu-lhe foral em Lisboa, a 20 de novembro de 1513, e n’elle é citada villa pelo nome de Castro Laboreiro.

Há anos, e não sabemos se ainda hoje, emigravam de Castro Laboreiro para o Douro, Tráz-os-Montes, Beira Alta e outras terras, desde que entrava o mez de setembro, bastantes indivíduos do sexo masculino de oito annos para cima até à idade mais provecta, não recolhendo senão na Paschoa.

Dava isto em resultado ficar a villa tão despovoada de homens que os defuntos eram conduzidos para a egreja por mulheres, havendo antes d’esse acto, em casa dos doridos um banquete para todas as pessoas que quizessem assistir a elle, o que grande número d’ellas aproveitava.

Adiante do féretro ia uma comitiva de mulheres, conduzindo à cabeça broas de milho, açafates com bacalhau e outros comestíveis, que na egreja entregavam ao paracho.

Ao enterramento assistiam com uma vela na mão, arrancando gemidos, e soluços e manifestando hypocritamente com os trejeitos ridículos que faziam, dor e mágoa profundas!

 

LAMAS DE MOURO – No anno 812, no sítio chamado Valle do Mouro, d’esta freguezia, teve logar uma grande batalha, dada pelo bravo Bernardo del Carpio, parente e vassalo de D. Affonso, o Casto, de Leão, contra Ali-Aton, rei de Córdova, que ficou derrotado e perdeu grande número de soldados. Ali-Aton havia tomado muitas terras aos luzitanos, que, em consequência d’este desastre, tornou a perder.

Dizem alguns chronistas que por esta povoação entrou, em 1129, D. Affonso VII de Castella, que foi derrotado na Veiga da Matança, junto aos Arcos de Val-de-Vez, por seu filho D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Também por ali entrou para ir atacar Valença, em 1657, o general castelhano D. Vicente Gonzaga.

 

PADERNE – Na doação que D. Affonso Henriques, em 1141, fez do couto de Paderne a D. Elvira, prioreza do convento das cónegas de Santo Agostinho, fundado n’esta povoação em 1130, pela condessa D. Paterna, viúva de D. Hermenegildo, conde de Tuy, diz o monarca que lh’a fizera pelos bons serviços que as freiras lhe haviam prestado quando elle estava sitiando Castro Laboreiro, mandando-lhe mantimentos e alguns cavallos, sendo um d’elles magnífico e ricamente ajaezado, para el-rei montar.

Durante a guerra da restauração, o Prior de Paderne, D. Simão da Paixão, commetteu actos de bravura como guerreiro e como capitão-mor do seu couto.

 

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL

Narrativa da Fundação das Cidades e Villas do Reino, seus Brazões D’Armas, etc.

2ª Série

Numº 43

Anno de 1890

 

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL II

melgaçodomonteàribeira, 29.02.20

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No período que medeia de 1384 a 1393, sustentou Portugal encarniçadas batalhas com os pretendentes castelhanos João I e Henrique III.

Depois do assassinato do conde Andeiro, a rainha D. Leonor Telles repleta de ódios contra Portugal, chamou o genro de Castella, para que tomasse conta do paíz. Desde logo o monarca veiu sobre Portugal, invadindo e perpetrando várias barbaridades, mas a heroica attitude de Nunalvares, a sábia direcção política de João das Regras, e a sensatez e brios do valoroso mestre de Aviz, lograram salvar o paíz das algemas da escravidão. Não há, ou pelo menos não deve haver, um só português que ignore os feitos brilhantes dos nossos avós d’aquella época de riscos, de angústias e indecisões, aggravada tão lastimosa situação ainda pela peste que se alastrava na Europa.

O epílogo d’estes combates titânicos foi a assombrosa batalha de Aljubarrota, em que as portuguezas hostes se ergueram ás proporções de legendários heroes. Foi ali que vinte mil guerreiros inimigos, bem equipados e instruídos na guerra, ficaram derrotados por um exército indisciplinado, ignorante, e cujo número não passava de dez mil homens. Mas em cada um d’esses homens havia um coração gigante, transbordando de amor pátrio! Iam dispostos a morrer, mas não a presencearem a morte da adorada mater. Com elles estava o homem digno, que n’aquelle grande dia symbolisava a Pátria, e esse, o sympathico Mestre de Aviz, bateu-se como um leão, incutindo audácia aos seus com a palavra e com o exemplo.

Este ilustre varão, que tão immortalisado tinha de ficar na gratidão portugueza por seus feitos e pelos seus preclaros filhos, viu fugir em debandada o numeroso exército inimigo, que tão soberbo e provocante se apresentara, contando de antemão com o triumpho decisivo.

Fiava-se o insolente castelhano na desproporção numérica dos nossos combatentes, olvidado dos heroísmos de que a fronteira lhe dera já severa lição. É certo que a princípio nos tinham tomado grande parte das povoações fortificadas do Alto Minho, mas os portuguezes retomaram o forte castelo de Neiva. Vianna, que estava sob o governo de um castelhano, por nome Vasco Lourenço da Lira foi salva de similhante ignomínia por um popular chamado Frisus, o qual pondo-se à frente do povo atacou valentemente o castello, e aprisionou toda a guarnição castelhana. Frisus morreu na refega, porém a posteridade immortalisa-o no capitólio da glória.

Villa Nova de Cerveira, Caminha e Monção foram igualmente reavidas pela ousadia patriótica dos povos. Ponte de Lima foi resgatada pelos heroicos esforços dos seus habitantes em prémio do que o bom rei D. João I lhes mandou collocar os bustos sobre as vergas das portas.

Voltemos, porém, ao nosso propósito de exemplificar o quanto valem e o quanto bem merecem da Pátria as mulheres de Melgaço.

Permanecia ainda esta villa sob o domínio castelhano, defendendo o castello Alvaro Paes Sotto-Maior, alcaide-mor, que tinha às ordens uma guarnição de trezentos infantes e trezentos cavallos.

Enfastiado pela resistência, foi o valente D. João I pessoalmente pôr cerco a Melgaço, mas os dias decorriam sem haver ensejo para mais de ligeiras escaramuças sem importância para a decisão do pleito. Ao décimo dia o rei-guerreiro, já exasperado pela situação, tomou a resolução de mandar fazer um castello de madeira, que ficasse a cavalleiro das muralhas. Vinte dias levou o plano a executar-se. Vendo os inimigos propinque um assalto, deram signal de um armistício, e mandaram à praça um emissário para entabularem negociações.

Alvaro Paes, o velho amigo de D. João, taes condições poz, que não pode resolver-se coisa alguma, e então o monarca ordenou que se desse o assalto, o qual seria por elle mesmo commandado.

Deu-se isto pelo anno de 1387; D. João havia-se matrimoniado recentemente com a virtuosa e intelligentíssima princeza D. Filippa de Alencastre, que tão salutar, honesta, e gloriosa influência exerceu no ânimo do esposo e na educação dos heroicos filhos. A jovem rainha estava em Monção com as suas damas e acompanhada pelo famoso João das Regras, sábio mestre e alma da política d’aquelles tempos. Viera do Porto para ver o esposo real, e tencionava residir no convento de Fiães emquanto durasse o cerco. Espírito varonil e angélico ao mesmo tempo, não a atemorizava o perigo, antes d’elle se approximava como uma estrella de amor, que lançava os seus castíssimos reberveros no coração dos reivindicadores dos direitos de sua nova pátria, pátria que a doce e bella rainha tanto amou e soube honrar!

Dentro da praça havia uma mulher destemida, espécie de virago, que sendo natural de Melgaço, renegara a sua origem e se dera de alma e coração aos castelhanos. Ora no arraial dos portuguezes achava-se também uma mulher de muita valentia, do que havia dado bastas provas. Esta, cujo nome era Ignez Negra, abrigava no coração os mais sagrados princípios patrióticos, e daria a sua vida pela honra de sua terra. Sabedora a renegada da existência da valente portugueza nas sua vizinhanças, mandou-a desafiar a um combate singular.

Ignez Negra não repelliu a proposta, e dirigiu-se immediatamente para o lugar da justa, que ficava a meia distância do arraial e da villa. Chegada ali encontrou a sua antagonista já perfilada, arregaçada e capaz de luctar com o próprio Hércules. Não se intimidou Ignez, mas antes se encheu de nobre indignação, em presença da deshonrada virago que atraiçoara a mãe pátria.

Feriu-se o combate com extraordinário ardor. Parece que ambas andavam armadas, mas não especialisa a chronica a espécie de armas de que se serviram, sabendo-se apenas que essas armas ficaram despedaçadas na refega. Por fim valeram-se de unhas e dentes.

Afinal a arrenegada, como então de se dizia, ficou vencida, rotas as vestes, esmurradas as narinas, escalavrada a cara, e n’esse vergonhoso estado de derrota teve de fugir, deixando como tropheus à vencedora os cabellos e os farrapos do vestuário.

Grande foi a assuada que os castelhanos soffreram do arraial portuguez, e a nossa destemida compatriota foi victoriada como de justiça era.

No dia immediato cahia a villa no regaço da mãe pátria e, Ignez Negra, guerreira entre os guerreiros, lá estava no alto da plataforma do castello, cercada de besteiros, olhando amoravelmente o pendão das quinas, que de novo conquistara o seu lugar.

Então, no auge do seu enthusiasmo exclamou triumphantemente, collocando as mãos sobre o generoso coração que parecia disposto a saltar-lhe do seio:

«Mas vencemos-te! Tornaste ao nosso poder. És do rei de Portugal!»

Salvé brilhante heroína de Melgaço! A Pátria agradecida te cobre de bênçãos a gloriosa memória!

 

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL I

melgaçodomonteàribeira, 15.02.20

 

48 a2 - antigo escudo da vila, desaparecido.jpg

antigo brasão de melgaço

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL

MELGAÇO

Fica esta villa na província do Minho, e pertence ao arcebispado de Braga.

É praça de guerra, cabeça de comarca e dista 430 kilometros de Lisboa e 72 ao noroeste de Braga.

A origem de Melgaço perde-se na penumbra da história. Sabe-se que é povoação antiquíssima, mas ignora-se quando e por quem foi fundada. Querem uns que a sua fundação fosse devida aos luzitanos, outros que ella fosse obra dos romanos. Não há vestígios de espécie alguma que dêem qualquer idéa do que foi esta povoação na sua primeira idade. Nenhum monumento, nenhuma revelação archeologica tem aparecido a fazer luz n’esta obscuridade de origem.

Que existia no tempo da dominação árabe é incontestável, porem já a esse tempo era Melgaço antiquíssima povoação, visto ter D. Affonso Henriques encontrado ali uma grande fortaleza inteiramente arruinada.

Era este castello denominado castello do Minho, e foi com certeza construído pelos árabes. Em volta d’elle apinhavam-se alguns casebres, talvez construídos com o fim de acolherem os seus habitantes á protecção do forte, pois que n’aquelles tempos não havia segurança longe d’esses colossos de pedra, que continham em respeito os aventureiros.

Qual a importância que tivesse esta villa não é dado, pois, saber-se positivamente. No entanto, o facto de n’ella terem os árabes edificado uma fortaleza, prova que não era destituída de consideração dos seus possuidores.

No tempo de D. Affonso Henriques achava-se, porém em misérrimas circumstancia, e abandonada pelos seus habitantes. Não são também conhecidas as razões que levaram os mouros a essa emigração. Talvez possa explicar-se o facto pela guerra acérrima que os christãos lhes moviam. O audacioso e aguerrido filho do conde D. Henrique encontrando a terra deserta, mandou-a povoar por christãos e reedificar-lhe o castello, em 1170.

Em 1197 o prior do mosteiro de frades crúzios, D. Pedro Pires, mandou á sua custa edificar a fortaleza e a torre.

Era este prior muito abastado de fortuna e dedicado ao engrandecimento do paiz. O mosteiro a que pertencia era o de Longosvales.

Em 21 de Julho de 1181 deu D. Affonso Henriques o primeiro foral a Melgaço e fez doação da aldeia de Chaviães aos seus moradores.

D’este foral trata o sapientíssimo historiador Alexandre Herculano na sua História de Portugal, vol. IV, pag. 114. Referindo-se ás garantias e liberdades que usofruiam alguns concelhos, escreve o imortal auctor do Eurico: Quanto, porém, ás liberdades mais importantes, eis o que lemos no foral de Melgaço concedido por Affonso I em 1181:

«O vigário d’elrei seja um morador da villa. Se alguém o ferir ou matar, pague cem soldos de multa, como de outro qualquer homem.»

«O que quizer ser vizinho, vindo morar convosco, pague um soldo, seis dinheiros para os juízes da villa, e seis para o senhor da terra.»

«Se algum mercador vier com estofos, venha o fardo por atacado e não a retalho, salvo sendo na feira, e se assim o não fizer, pague trinta soldos que se dividirão entre o meu vigário, e os juízes de vossa villa».

«Se alguns homens travarem lucta e se arrepelarem (per capillos se traxerint) dentro da villa, quer seja em concelho reunido, quer na egreja, a ninguém deem satisfação disso senão a si mesmos, se quizerem fazel-o, etc.»

«Se, porém, algum dos dous recusar a reparação, e o outro der querela por intervenção do vigário, execute-se o que sentenciarem os juízes da villa, dando-se metade (da condemnação) ao espancado e metade ao vigário.»

«Se entre vós o vizinho matar seu vizinho, venha a justiça da villa com o vigário d’elrei á porta do homicida e peçam-lhe um penhor: dado este, peçam-lhe um fiador por cinco soldos: dado o fiador, restituam-lhe o penhor dentro de nove dias: passados os nove dias, venham as dictas justiças e vigário, e exijam do criminoso cem soldos pelo homicídio. Se, porém, não o acharem na terra, o fiador pague cinco soldos, e o homicídio recaia sobre a casa e prédios ruraes do auzente, e ninguém mais lhe faça mal senão os seus inimigos.»

Isto quer dizer que a vingança ficaria aos parentes do morto pelo direito de revindicta, sem que a justiça interviesse n’isso, tendo tirado os cem soldos de multa por execução nos bens do criminoso.

El-rei D. Affonso III lhe deu outro foral em Braga, a 29 de abril de 1258.

Tratando d’este segundo foral, diz ainda o imortal Alexandre Herculano em uma nota da sua História, que se encontra a pag. 169, que ali se estabelecia que os moradores da villa fossem 350, devendo pagar 350 morabitinos de direitos reaes. D’este foral, transcreve o mesmo auctor:

«Mandae-me immediatamente um cavalleiro português, que me faça menagem do castello de Melgaço, tal que possa ter e defender o dito castello e fazer delle direito.»

Estes foraes são escriptos em latim bárbaro, e encontram-se no archivo da Torre do Tombo, na gaveta especial de foraes antigos.

Pertenceu esta villa á caza dos Braganças, e pelos duques eram dados todos os offícios.

De Melgaço são oriundas várias famílias nobres de Portugal, taes como os marquezes de Niza, condessa da Ribeira, barão de Proença-a-Velha, Castros Pittas, de Caminha, e outras ilustres famílias, mais ou menos aparentadas com o antigo senhor de Lapella, morgado de Covas, Gaspar de Castro Caldas.

Se Melgaço não é conhecida na sua origem, se não tem a illustral-a nem columnas nem templos, preciosas relíquias da civilisação pagã, a sua história desde os tempos em que foi povoada pelos christãos é insufficientemente honesta e heroica para lhe grangear títulos de nobreza.

De quantas vezes a pátria precisou do seu auxílio, de lá correram valentes e  intrépidos patriotas, affrontando perigos, determinando-se bravamente a todos os sacrifícios. Nas longas e successivas guerras com Castella os melgacenses souberam sempre honrar a sua terra e a lusitana bandeira.  

E não só os homens como também as filhas de Melgaço são heroicas e arrojadas na defeza da integridade do território pátrio. Exemplos teem dado dos seus nobillísimos sentimentos, e d’este vamos fazer a narração de um, que de per si basta a orgulhar as formosas e honestas mulheres d’esta briosa villa.

 

NÚCLEO MUSEOLÓGICO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 21.12.19

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ACHADOS ARQUEOLÓGICOS DE MELGAÇO CONVERTIDOS EM MUSEU

 

16.02.2001 – Por Lusa

 

Os achados arqueológicos resultantes das escavações que decorreram na Praça da República, em Melgaço, vão ser convertidos em peças de museu, numa empreitada que deverá estar concluída no início do Verão.

Segundo o chefe das escavações, Brochado de Almeida, o principal achado é um fosso medieval desconhecido em todos os registos documentais e gráficos, mas também a antiga muralha da vila, agora descoberta.

O espaço museológico a criar, cujo estudo prévio já foi aprovado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico, resultará do restauro do fosso medieval e da muralha.

Algumas das peças arqueológicas encontradas serão também objecto de restauro e reprodução de forma a poderem ser expostas, estando ainda previsto a criação de painéis informativos e explicativos para auxiliar os visitantes a interpretar aquilo que vão observando ao passarem no espaço entre o fosso medieval e a muralha.

Durante as escavações na Praça da República de Melgaço foi encontrado um vasto espólio de cerâmica, pertencente aos séculos XVII, XVIII e XIX, estando muitos dos fragmentos em condições de restauro, além de cerca de três dezenas de moedas, de que há a destacar uma moeda de 400 réis de D. João I.

Estas escavações arqueológicas, que decorreram de Dezembro de 1999 a Maio de 2000, precederam as obras de remodelação da Praça da República, já que a câmara não quis correr o risco de ver as máquinas destruírem alguns pedaços da história do concelho. É que a Praça da República situa-se no enfiamento da couraça nova desenhada por Duarte d’Armas, que protegia o acesso ao posto de abastecimento da vila e que, posteriormente, viria a ser remodelada, por altura das obras de adaptação da fortaleza moderna.

Segundo Rui Solheiro, presidente da autarquia local, a remodelação da Praça da República, actualmente em fase de conclusão, visa aproveitar ao máximo as potencialidades do espaço como zona de estadia e encontro, acabando com o “uso desregrado” que ali se registava, “fruto da falta de elementos organizadores e caracterizadores”.

A empreitada está orçada em cerca de 100 mil contos (498 mil euros), metade dos quais será garantida pela parte pública do Projecto Especial de Urbanismo Comercial, desenvolvido no âmbito do Programa de Apoio à Modernização do Comércio (Procom).

 

Publicado no jornal Público

 

http://desporto.publico.pt/Londres2012/noticias

 

MELGAÇO, UM MOSTEIRO QUE DESAPARECEU

melgaçodomonteàribeira, 13.07.19

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terras de paderne

 

SÃO PAIO DE PADERNE

 

Vamos agora sair da vila de Melgaço e dar uma volta pelo seu concelho medieval. Depois voltaremos de novo à vila.

Começáramos por S. Paio de Paderne que foi sede, segundo me parece, do antigo arcediago de Valadares, arcediago esse que não tinha assento no coro de Tui, onde apenas tinham cadeira os arcediagos de Cerveira e de Labruja do território português pertencente ao bispado de Tui, que era todo o Entre Minho e Lima.

Paderne foi em tempos um vasto território, subordinado ao mosteiro dedicado a S. Paio. Em 1141 o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, é que dividiu esse território em dois para formar património ao novo mosteiro de S. Salvador de Paderne, a que presidia D. Elvira Sarrazim. Estava já então decadente o mosteiro de S. Paio.

Não compreendo porque passou a chamar-se S. Paio de Melgaço, chegando mesmo a escrever-se em obras de certa responsabilidade que a vila de Melgaço tem duas freguesias, Santa Maria da Porta e S. Paio. Nunca S. Paio chegou à vila.

Ninguém estranhe que pudesse haver duas freguesias de Paderne, S. Paio e S. Salvador. Há muitos casos semelhantes e cá tivemos duas igrejas de Santa Maria de Melgaço, que se estremavam chamando a uma da Porta e a outra do Campo, e ainda S. Fagundo de Melgaço, portanto três igrejas ou freguesias de Melgaço.

Quer o leitor mais exemplos ainda em nossos dias? Posso mostrar-lhos em várias freguesias de nome igual, diferenciadas pelo padroeiro: S. Julião da Silva e Santa Maria da Silva, em Valença; Santa Maria Madalena de Jolda e S. Paio de Jolda; Santa Cristina de Padreiro e S. Salvador de Padreiro; Santa Maria de Távora e S. Vicente de Távora, em Arcos de Valdevez; e muitos mais casos semelhantes que não cito porque longa seria a lista só do nosso arcebispado. Assim ninguém estranhe que houvesse a freguesia de S. Paio de Paderne e a freguesia de S. Salvador de Paderne. Ainda muita gente em nossos dias chama S. Paio de Paderne, tal qual foi sempre conhecida nos tempos antigos. Na Idade Média vários documentos a referem.

A primeira vez que encontrei a citação de S. Paio de Paderne foi em um documento de 1071. Foi outorgado à Sé de Tui, restaurada após a invasão e devastação da mourama, pela infanta D. Urraca, filha de D. Fernando I e irmã daquele D. Afonso VI pai de D. Teresa, sogro do conde D. Henrique, e avô do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques. Por outras palavras, a sobredita D. Urraca Fernandes era bistia materna de D. Afonso Henriques.

Esta D. Urraca favoreceu muito a restauração da Sé de Tui. Entre outras fez-lhe doação de metade do mosteiro de S. Paio de Paderne. Convém reparar que lhe doou metade, porque teremos ocasião de encontrar referências a outros quinhões.

Os mosteiros e igrejas tinham donos, padroeiros, ou patronos (hoje diríamos patrões) que tinham certos direitos e privilégios, como seja intervenção na escolha dos párocos das igrejas e abades ou priores dos mosteiros, bem como no gozo de parte dos rendimentos.

Antes de passar adiante, devo dizer alguma coisa sobre S. Paio, santo padroeiro desta freguesia, por cujo nome ela é conhecida presentemente.

Estamos habituados a escutar nos sermões das festas de S. Paio, a que estão dedicadas muitas freguesias no Alto Minho, que ele era um jovem novo, sobrinho de um bispo de Tui chamado Hermógio, jovem martirizado pelos mouros em 925.

Sem dúvida que novas freguesias haverão tomado este S. Paio como padroeiro, mas há outro S. Paio mais antigo a quem já estavam dedicadas várias igrejas.

Em 1071 aparece-nos o mosteiro de S. Paio de Paderne dividido entre consortes. Já tive ocasião de dizer que os mosteiros e as igrejas muitas vezes foram pertença de senhorios que daí levavam rendas, foros ou pensões.

A invasão dos mouros no século VIII abalou a organização cristã mas não suprimiu o culto. Muitas igrejas com suas freguesias, se não a maior parte, ainda hoje se conservam. Raro as igrejas mudarem de padroeiro.

A igreja de S. Paio devia ser antiga para em 1071 estar já dividida.

A infanta D. Urraca, irmã de do Afonso VI de Leão, fez doação à Sé de Tui da metade que tinha no mosteiro de S. Paio.

Nas terras do velho termo de Valadares conservou suas tradições, e ainda no século XV era em S. Paio a Câmara do Arcebispo, a que hoje poderíamos chamar a sede do arcebispado se o cargo de arcipreste fosse de atribuição local.

  1. Paio sobrinho do Bispo de Tui foi martirizado em 925. Com o tempo que levaria a difundir-se o seu culto e com a antiguidade que parece ter a igreja de S. Paio, primeiro mosteiro e depois simples paróquia, sou levado a crer que não fosse este S. Paio o seu primeiro padroeiro.

Como, porém, não me orienta a pretensão de fazer bonito, devo acrescentar que o grande historiador P. Pierre David, em estudo sobre «Os Santos Padroeiros de igrejas entre Minho e Mondego até ao fim do século X», publicado em francês na Revista Portuguesa de História, em 1943, escreveu: «forçoso é reconhecer que a Espanha e Portugal nunca veneraram outro S. Paio senão o jovem mártir de Córdova».

Como já se disse, Paderne era um extenso território subordinado à igreja de S. Paio. D. Afonso Henriques tirou-lhe grande naco para formar património ao mosteiro do Salvador, cuja fundação não deve ser anterior ao seu tempo. Parece que Alvaredo se desmembrou também do antigo território de Paderne, pois alguns autores chamaram à sua igreja S. Martinho de Paderne.

Poderiam ainda explorar-se razões para crer que Penso tenha feito parte do território de Paderne que pela toponímia nos convence da existência de extensa vila romana pertença de um Senhor Paterno, porque de Paterno homem lhe vem o nome e não de Paterna mulher como se costuma dizer e escrever.

Vejamos agora as memórias históricas que pude colher das antiguidades de S. Paio de Paderne:

Em 13 de Janeiro de 1071 a infanta D. Urraca deu à Sé de Tui a sua metade no mosteiro de S. Paio de Paderne, juntamente com outros bens.

Em 13 de Abril de 1118 D. Onega Fernandes deu à Sé de Tui uma quarta parte da igreja de Paderne, em satisfação do crime praticado por seu filho Paio Dias que havia cometido um homicídio na igreja de Sant’Iago de Penso violando o lugar sagrado e seu direito de asilo.

Em 4 de Setembro de 1125 D. Teresa (mãe do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques) em doação feita à Sé de Tui incluiu também a igreja de S. Paio de Paderne inteira.

Em 1 de Dezembro de 1156 o bispo de Tui D. Isidoro e os Cónegos outorgaram um documento de partilha entre si dos rendimentos eclesiásticos daquela Sé, para concretizar a dotação feita de metade dessas rendas ao Cabido pelo bispo D. Paio na sua fundação em 1138. Essa partilha, no que dizia respeito à parte do bispado de Tui sita desde o Minho ao Lima, foi sancionada pelo nosso rei D. Afonso Henriques. Na meação dos cónegos incluiu-se «além Minho, na Terra de Valadares, o mosteiro de S. Paio de Paderne com todas as suas igrejas e pertenças».

O mosteiro de S. Salvador, dotado por D. Afonso Henriques com grande porção do território de Paderne em 1141, começou a desenvolver-se e o de S. Paio decaiu até se extinguir. De momento não tenho mais referências ao mosteiro de S. Paio. A sua igreja continuou, e a construção, de forma não habitual, que as pessoas de mais idade ainda conheceram, recordava possivelmente o encosto à desaparecida casa de habitação dos monges.

A igreja de S. Paio tinha duas naves separadas por arcaria, cada uma com seu altar-mor e sua porta principal. Só lá fui uma vez de muito novo e não fixei, mas dizem-me que uma das naves era mais alta do que a outra.

Foi reformada cerca do ano 1930 pelo pároco Raimundo Prieto que lhe conservou uma das portas principais de arquivoltas românicas e um velho altar de estilo renascença.

Nas inquirições de D. Afonso III em 1258 aparece-nos S. Paio de Paderne como paróquia no couto de Melgaço, sem qualquer memória de mosteiro. Era pároco D. João Garcia. Ele e mais uns tantos homens importantes, ajuramentados, informaram que ouviram dizer a seus pais, avós e homens antigos que a quarta parte da igreja era reguenga, isto é, do património real. Há referência ao casal de Paio Rana, ao casal de Padrão, à vila de Prado e à Leira Corta. De notar que Prado e Remoães estavam incluídos em S. Paio e não eram ainda freguesias. A elas me referirei a seu tempo.

Também na inquirição efectuada na vila foi informada a pertença real da quarta parte de S. Paio e feita referência aos locais já mencionados.

Na taxação de 1320 foram atribuídas apenas 30 libras à igreja de S. Paio de Paderne, classificação muito baixa que nos indica a limitação de seus bens. Ainda nessa altura conservava oficialmente a designação de S. Paio de Paderne.

No igregário de D. Diogo de Sousa, de princípios do século XVI, aparece na Terra de Melgaço, de livre atribuição do Arcebispo «S. Paio, Câmara do Arcebispo» e «a capela da dita Câmara».

No foral de D. Manuel I concedido a Melgaço em 3 de Novembro de 1513 vem a seguinte referência a S. Paio: «E acerca do quarto das dízimas e primícias da dita igreja de S. Paio que costumamos de levar usaremos do nosso direito e posse quanto por dinheiro se achar que se deve fazer».

A Corografia Portuguesa do P.e Carvalho da Costa, publicada no princípio do século XVIII, diz que «S. Paio é o mesmo a que Sandoval chama Mosteiro de S. Paio de Paderne, haveria sido antes dos Mouros e a Infanta D. Urraca, filha del Rei D. Fernando o Magno, dotou a metade do seu padroado à Sé de Tui e a seu Bispo D. Jorge no ano de 1071…». Quanto aos rendimentos desta igreja informa-nos que o Abade tinha a quarta parte dos dízimos, a Casa de Bragança outra quarta (chamada renda do Castelo) e a Mesa do Arcebispo metade (que são as outras duas quartas).

 

Obra Histórica

Padre Manuel António Bernardo Pintor

Edição do Rotary Club de Monção

2005

pp. 86-90

UM CONCURSO DE CÃES DE CASTRO LABOREIRO (conclusão) - ÓBIT0

melgaçodomonteàribeira, 18.05.19

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vencedora do concurso

(continuação)

 

Festa sem foguetes e três mil contos por mês

O «Cinco de Outubro» é dia de festa na freguesia, festa sem foguetes nem procissão. Prato melhorado ou saia nova. Mas festa. A mulher de Castro Laboreiro vê em tal dia a promoção dos seus cuidados no mundo canino. Data que é um chamariz à terra, de gente de todos os lados e culturas. Dia em que os naturais contactam mais de perto e se familiarizam com as pessoas da cidade.

Hoje já não se interessam pelos prémios pecuniários – disse-nos aquele pároco – Só lhes interessam as taças e as medalhas ganhas pelos seus cães para as exibirem no melhor canto da casa. E o dinheiro dos prémios não lhes interessa porque em Castro Laboreiro todos vivem muito bem. Não há pobres.

A nosso pedido, o «chefe espiritual» daquele povo esclareceu-nos:

Para esta pequenina terra, os emigrantes enviam mensalmente à volta de três mil contos.

Esboçamos uma reacção de surpresa. O Padre Aníbal, então, à muita insistência nossa, acedeu em pormenorizar:

Cada um remete para a família uma média de cinco a seis mil escudos.

Mas há quem remeta todos os meses meia centena de contos, garantiram-nos; aquele sacerdote não desmentiu. O seu sorriso antes, confirmou. E nós próprios chamamos com a esposa do proprietário da estalagem de Castro Laboreiro, na qual foram gastos três milhões de escudos, que, depois de muito instada, acabou por confessar que o marido lhe mandava de França trezentos contos anuais, ou seja, uma mensalidade de 25!

 

«Vá perguntar ao inferno»

Os cães em número de 25, a ser presentes aos juízes, Drs. António Cabral presidente do Clube Português de Canicultura, e Teodósio Antunes, foram dispostos por classes: de cachorros, destinada aos exemplares que, à data do concurso, tenham mais de seis e menos de doze meses de idade; e aberta, destinada a todos aqueles com mais de um ano.

Enquanto os bichos eram minuciosamente observados, com muita mais minúcia do que as «misses» num concurso de beleza, pois eram apalpados de todas as formas e feitios, incluindo grãos e dentes, os mirones da cidade (Lisboa, Porto, Évora, Faro), que ali se haviam deslocado propositadamente, procuravam estabelecer contactos com toda aquela gente, que nos pareceu, contudo, pouco receptiva a satisfazer a curiosidade geral, nada disposta a ser considerada avis-rara.

O repórter afadigou-se em formular perguntas, mas, quase sempre, esbarrou com muralhas de mutismo. Então quando lobrigava obter resposta, era do género: «Não sei». «Para que quer saber?», «Vá perguntar ao inferno» Não saíam disto. Deixarem-se fotografar foi problema ainda mais difícil. Sempre que o camarada fotógrafo apontava a máquina e elas davam por isso, era certo e sabido virarem, ostensivamente, as costas. Indignavam-se mesmo. «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós. Já toda a gente sabe que «semos» bonitas. A gente não precisa disso». Não fora a perícia do Orlando e a reportagem não conseguiria fixar as suas expressões.

 

Modernos quartos-de-banho servindo de arrecadação

As casas circulares cobertas de colmo, durante séculos características da região, foram substituídas pelas casas de telha «francesa». Com o dinheiro que amealha na estranja, o natural de Castro Laboreiro começa por mandar construir a sua própria casa. Depois, investe na cidade, comprando andares em regime de propriedade horizontal.

Apesar disso, naquela aldeia serrana, o forasteiro, nas primeiras impressões, fica com a ideia que os naturais vivem com extrema dificuldade. O aspecto humilde das pessoas, de cara queimada e enrugada, precocemente envelhecidas, leva exactamente a supor que subsistem em função do que ganham com a enxada na mão. De parcos recursos portanto.

Pois ali, mais do que em qualquer outro lado, pode dizer-se que assentou arraiais a decantada sociedade de consumo. Dizia-nos quem mais e melhor está informado acerca de Castro Laboreiro, que é precisamente o Padre Aníbal que lá nada falta. «Televisores, torradeiras, máquinas de lavar e barbear, gravadores, aspiradores, aquecedores. Tudo aquilo que a técnica criou para facilitar a vida de cada um, há cá na terra.»

Alguém de fora, mas que por funções profissionais vai muitas vezes a Castro Laboreiro, dizia-nos depois: «É formidável, de facto, como esta gentinha tem tudo.» Um sorriso. Uma dúvida, como que se interrogando a si próprio se havia ou não, de dizer-nos o resto. Acabou por dizer: «Têm tudo realmente. Mas têm tudo dentro de caixas, tal como veio das lojas. Novinho em folha. Nem todos, claro. Com muitos, porém, isso acontece.» Depois: Conheço casos em que os quartos-de-banho, por exemplo, servem de arrecadações. Estão a abarrotar de coisas. E ainda que os artigos sanitários sejam o último grito, tenham ainda o selo da fábrica, (por estrear portanto), as pessoas vão ao campo fazer as suas necessidades…»

Tal estado de coisas tende, contudo, a acabar, dado que os filhos dos emigrantes, frequentam as Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa e o Seminário, tendo a terra já os «seus» doutores.

 

Seis contos pelo «Paris»

As pessoas que ali se haviam deslocado propositadamente para adquirir um cão de «Castro Laboreiro», e para isso atravessaram o país de lés a lés, percorrendo mais de mil quilómetros (!!!) procuravam ouvir aquilo que os juízes cochichavam acerca de cada cão julgado, para depois abordarem o respectivo proprietário, antes de serem conhecidas as classificações. E é fácil saber porquê. Evidentemente que desde a altura em que o proprietário soubesse que o seu animal havia sido premiado, acto contínuo faria «render o peixe», que no caso era pedir mais dinheiro pelo animal, elevado à categoria de vedeta. Cão com diploma e medalha é mais caro. A propósito julgámos que a melhor altura para o negócio não seria aquela. Talvez por isso, há «peregrinações» a Castro Laboreiro, «santuário» da raça com o mesmo nome, durante todo o ano, ainda que os meses de Março e Abril sejam aqueles que mais gente atraem.

Pois por cachorros de um mês, portanto ainda «imberbes» para participarem no concurso, os donos pediam entre 200 e 250$00. Mas já o bicho considerado o melhor do certame, de seu nome «PARIS», propriedade de Manuel Gonçalves Loureiro, ausente no Canadá e apresentado por sua mulher Benezinda Gonçalves, teve cotação de seis mil escudos. Muito dinheiro, convenhamos, segundo o nosso ponto de vista pessoal, naturalmente. Observámos à «ti» Benezinda: «Não tem vergonha de pedir seis contos pelo cão?»

«Oh home, deixe-me ficar o bicho em paz. Não o quero vender. Vocês é que mo querem comprar.» A despachar-nos: «Daqui a algum tempo isto (e apontou para o cachorro) não é um cão. É um elefante. E foi-se.

 

Guerra às malhas brancas

Facto curioso é que os possíveis compradores antes de entrarem em negociações procuravam ‘catequizar’ o Padre Aníbal a fim dele dar a sua opinião sobre o cão em causa, pois, como já referimos, é um estudioso profundo das raças nacionais, e ao mesmo tempo servir de medianeiro para que o preço não ferrasse demasiadamente. Já se vê a sua dificuldade em aguentar-se entre dois fogos de interesses díspares. Defesa do paroquiano e amabilidade para com o forasteiro.

Após os julgamentos, ouvimos o Dr. António Cabral: «A impressão geral é bastante boa. A fixação das características étnicas está garantida. O lote de cães este ano foi muito bom! Muito bom! Antes da distribuição de prémios, o Dr. Teodósio Antunes ‘falou às massas’. Depois de ter historiado a razão do concurso, disse: «Cada vez temos de ser mais exigentes. Temos de combater as malhas brancas. Não devem existir mais cães de «Castro Laboreiro» com malhas brancas. Há que evitar o cruzamento com outras raças. Prendam as vossas cadelas na altura do cio…»

 

In Jornal “ O MUNDO CANINO

Novembro de 1971

Aurélio Cunha (texto)

Orlando Soares (fotos)

 

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manuel e o painel por ele executado e oferecido à Casa do Minho do Rio de Janeiro

 

MORREU MANUEL IGREJAS

Não sei que dizer; descansas finalmente depois de tantas décadas a levar a história da tua querida vila pelos quatros cantos do mundo, de enfeitar paredes em Portugal e Brasil, de fazeres gargalhar cada casa onde chega A Voz de Melgaço e o nosso blogue. Choro-te agora e abraçar-te-ei um dia lá no sítio para onde partiste.

Ilídio

 

JUDEUS E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 20.04.19

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porta do carvalho

 

VIVIENDAS DE JUDÍOS Y CONVERSOS EN GALICIA Y EL NORTE DE PORTUGAL

 

EMILIO FONSECA MORETÓN

 

ARQUITECTO POR LA ESCUELA SUPERIOR DE ARQUITECTURA DE MADRID Y ARQUIRECTO DE LA DEPUTACIÓN DE OURENSE. AUTOR DE VARIOS TRABAJOS SOBRE LA CONSERVACIÓN DEL PATRIMONIO, Y DE INVESTIGACIÓN DOBRE LA CIUDAD DE OURENSE.

 

Melgaço es de antiguo punto estratégico importante de la frontera definida por el río Miño. Preside aún la villa el castillo medieval que mandó levantar D. Afonso Henriques en 1170, quién le dio fueros a la población en 1181. Reconstruido en 1197 el castillo conserva su torre del homenaje y la muralla que la rodea. D. Afonso III le concedió a Melgaço un foro especial que liberaba la villa de toda tutela religiosa y pasó a depender directamente de la Corona.

Estuvieron la fortaleza y el caserío que la rodea protegidos por una muralla de la que aún se conservan algunos lienzos y puertas. Sin duda Melgaço acogió en tiempos medievales alguna población judía asentada bajo la protección de su castillo. La existencia de una fortaleza importante en la frontera del Miño, con su guarnición militar y sus administradores y funcionarios debió ser el motivo por el que D. João II señaló a Melgaço como uno de los seis puntos para permitir la entrada de los judíos expulsados de España en 1492. Esto indica que en Galicia existía entonces una población judía de relativa importancia (25). Es muy interesante el dibujo realizado por Duarte de Armas en su  “Livro das Fortalezas”, ya antes citado, que muestra como era la villa a principio de siglo XVI. Son pocas las casas que se conservan en Melgaço de esa época, pero en la puerta medieval de la muralla, que en su lado derecho conserva una inscripción latina del año de 1263 que conmemora la construcción ordenada por D. Afonso III, hay un rebaje pulido en la arista de su jamba derecha.

 

(25) No conosco estudios que documenten como y por donde salieron por tierra los judíos de Galicia que no se bautizaron y si se llegó a producir su paso por Melgaço y en que número lo habrían echo. Es de suponer que sí ya que era un lugar muy lógico y apropiado para el paso de los judíos de Galicia que no fueron al exilio directamente desde los puertos gallegos por mar. Si bien es cierto que un gran número de judíos gallegos se bautizaron no lo hicieron en su totalidad. Cabe suponer que por Melgaço habrián salido, aunque fuese en número reducido, algunos de Ribadavia. Sería interesante indagar con este propósito en los archivos portugueses.

 

Retirado de: Anuario Brigantino 2004, nº 27

 

http://anuariobrigantino.betanzos.net

 

O COCIOLLO DO LILI

melgaçodomonteàribeira, 06.04.19

44 - x cociollo lili.JPG

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

IV

 

Para o julgamento do Lili do Teodorico foram arroladas várias testemunhas que dariam seu depoimento sobre a conduta e personalidade do rapaz. A mais importante testemunha era o doutor João Durães, farmacêutico, dono da única farmácia da Vila. Político destacado, membro da União Nacional, partido único existente na época, já exercera a presidência da Câmara Municipal com destacada administração. O governo do País só permitia, então, uma farmácia para determinado número de habitantes. Na Vila de Melgaço, só existia a farmácia Durães, a farmácia do Lili era em S. Gregório, localidade nove quilómetros distante.

O Teodorico João Fernandes, garoto ainda, terminado o ensino primário, foi ser aprendiz na farmácia Barreiros Sucessores, sob a direcção técnica do farmacêutico diplomado, doutor João de Barros Durães. Pouco depois, a razão social da firma passou a denominar-se Farmácia Durães, transferindo suas instalações para a Praça da República. Assumiu a gerência do estabelecimento o prático farmacêutico senhor Alves, figura hilariante que ganhou a nomeada de Pédanjo. Retornado do Brasil, simpático como são todas as pessoas obesas, cantarolava a marchinha carnavalesca em voga na data do seu embarque, “O Pé de Anjo”. Mantinha bastante carregado o sotaque brasileiro e usava termos daquele país que faziam dele tema de chistes.

Razoavelmente inteligente, o Li li foi absorvendo os ensinamentos do manuseio das drogas tornando-se hábil boticário.

Quando o senhor Alves faleceu, o Lili já estava no ponto de o substituir. O salário não era lá essas coisas, mas excessivamente económico, beirando a avareza e vivendo com os pais, guardava tudo que ganhava. Era muito educado e respeitador, porém, veladamente tinha atitudes de grandeza relacionando-se com as famílias pseudo fidalgas e isso irritava os rapazes da sua geração e da sua condição económica.

De tanto economizar conseguiu capital para comprar a farmácia do velho doutor Canhoto em S. Gregório. Dono do seu próprio negócio, a vaidade do rapaz transcendia a ponto de fazer exigências aos órgãos administrativos.

Naquela fase do após guerra, vulgarizaram-se as bicicletas motorizadas lançadas pela indústria italiana, as mais conhecidas, Lambreta e Cociollo. O Lili comprou o segundo Cociollo da terra onde desfilava sua imponência pelas ruas da Vila de maneira peculiar que causava risos e deboche da população: para economizar gasolina, usava a motorizada pedalando como se fosse bicicleta comum.

 

(continua)

 

COROGRAFIA PORTUGUEZA - MELGAÇO MDCCVI

melgaçodomonteàribeira, 02.03.19

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COROGRAFIA PORTUGUEZA, E DESCRIPÇAM DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAL

 

 S. Maria da Gave,

ou Gavia, he Vigairaria ´q apresenta o Reytor de Riba de Mouro, rende quarenta mil reis, & para o Commendador setenta mil reis: tem cento & trinta visinhos.

S. Mamede de Parada do Monte,

Vigairaria da mesma apresentaçaõ, que rende ao todo quarenta mil reis, & para o Commendador sessenta & seis mil reis, tem cento & cincoenta visinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he mui procurado para cubertas de camas de Lavradores, ou criados, & ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores; he mui branco, grosso & macio. Nestas montanhas em `q ha muita caça & veaçaõ, houve antigamente hum Couto, a que chamavaõ Val de Poldros, o qual fez, marcou & defendeo Payo Rodrigues de Araujo, de que possue parte seu sexto neto Manoel de Araujo de Caldas, Sargento mór de Valladares, inda que atenuando em parte das grandes regalias que tinha.

S. João de Lamas de Mouro,

he Abbadia do Ordinario, rende quarenta mil reis, tem quarenta visinhos, que saõ privilegiados de Malta pela Commenda de Távora, a que pagaõ muito foro, não sendo a terra por roim capaz de tanto. Dizem que algum tempo foy esta Igreja de Templarios, & delles, quando se extinguiraõ, passou aos Maltezes. O como sahio delles para o Ordinario nam alcançamos, que naquelles tempos os mais dos contratos erão verbaes. Aqui nasce o rio Mouro, nome que tomou daquelle poderoso, ou regulo, de que já fallamos, & que neste monte tinha sua coutada de recreação para caçar. O rio inda que pequeno, dá saborosas trutas, & se engrossa  com o da Mendeira, que pouco abaixo lhe entra.

 

   Santiago de Penso,

Vigairaria do Mosteiro de Paderne com dez mil reis, ao todo oitenta mil reis, & para os Frades cento & dezoito mil reis, tem duzentos visinhos. Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possue Felippe de Araujo de Caldas, Cavalleiro do Habito de Christo, Capitaõ mór, & Monteiro mór de Valladares; tomou este nome de huma Capella antiga deste Santo Cipriano, que alli está; he tradição foy templo da Gentilidade dedicado a Júpiter: o sitio he funebre, & desacomodado no meyo de hum campo com pouca veneraçaõ, & menos o fora a naõ ser advogado das cezoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem alli termendo, & voltaõ saõs.

 

 

Couto de Paderne

 

   Saõ Salvador de Paderne,

Mosteiro de Conegos Regrantes de Santo Agostinho, tomou o nome de sua fundadora a Condeça Dona Paterna, viúva do Conde de Tuy Dom Hermenegildo, que aqui tinhaõ grandiosa quinta, & muitas aldeãs, a qual vendose livre das obrigaçoens conjugaes fez este Mosteiro para nelle se recolher com quatro filhas, acabou-o no anno de 1130. & em seis de Agosto, dia da Transfiguração do Senhor, Dom Payo Bispo de Tuy o dedicou ao Salvador, lançando no mesmo dia à Condeça, filhas, & companheiras o habito de Conegas Agostinhas, de que antigamente tivemos muitos, & hoje só hum Mosteiro tem este Reino em Chellas meya legoa distante de Lisboa: logo lhe meteo para Capellaens, & Confessores sete Clerigos, os quaes no anno de 1138. se fizeraõ Regulares, & a Abbadessa Dona Paterna lhes mandou fazer para a parte do Sul hum claustro com cellas, em que vivessem, ficando as Freyras para o Norte, & o Mosteiro Duplex. Faleceo a Condeça Abbadessa em seis de Janeiro de 1140. & foi sepultada em hum arco da parte de fóra da banda do Evangelho da Capella, que hoje he Sacristia dos Clerigos, aonde se vè sua figura de Conega obrada de meyo relevo sobre o tumulo, & junto de si na mesma sepultura outro de homem armado com huma espada da maõ para o pé; presumimos ser do Conde seu marido, que com ella estará alli enterrado: sucedeo-lhe no cargo de Abadessa sua filha Dona Elvira, a quem ElRey Dom Affonso Henriques fez doação do Couto de Paderne, & da jurisdição civil no anno de 1141. & nella diz lha fazia pelos bons serviços, que lhe fizera, quando elle estava sobre o Casttelo de Castro Laboreyro, a quem tinha cercado, mandandolhe mantimentos, & alguns cavallos, entre elles hum muito fermoso, & jaezado ricamente para sua pessoa. Não se sabe em que tempo se devidirão as Freyras dos Frades, mas acha-se que no anno de 1231. vivião aqui só estes, ou raçoeiros, a quem governava Dom João Pires, que derrubou a Igreja antiga, por ser pequena para os muitos freguezes, que tinhão crescido, & fazendoa novamente, a acabou no de 1264. & he a que existe. Deste foy tam affecto ElRey Dom Affonso o Terceiro, que lhe fez algumas doaçoens, confirmandolhe o Couto no anno de 1248. Em seis de Agosto de 1264. a sagrou Dom Gil Pires de Cerveira (não Egídio, como dizem outros) Bispo de Tuy, ficandolhe o mesmo orago do Salvador. Tem Prior triennal com sete, ou oito Relegiosos, & hum Cura secular com sete mil reis, ao tode setenta mil reis, & para os Frades com as annexas, que se seguem, & Paços, & sabidos perto de tres mil cruzados, de que pagão pensoens: tem quatrocentos & trinta visinhos. Passou este Mosteiro a Commendadores, & nelle o forão sucessivamete dous, ou tres fidalgos do apellido de Mongueymes, & Fajardos, que sendo Gallegos, deixàraõ muita sucessaõ em Portugal, entre ella se acha nesta freguesia a da

Quinta de Pontezellas , que elles fundàraõ, & a possuiu o Capitão Pedro Falcão, por ser casado com filha herdeira de Diogo Ortiz de Tavora, filho de Gregorio Mogueymes Fajardo. O ultimo Commendatario perpetuo, a quem o Chronista dos Conegos Regrantes chama Prior, foy Diogo de Alarcão, por cujo falecimento, permitindo-o ElRey Dom Sebastião, se unio a Santa Cruz de Coimbra no anno de 1594. por Bullas do Papa Clemente Oitavo, com condição, que sempre nelle ficassem Religiosos, que rezassem no Coro os Officios Divinos, & prégassem ao povo, & Clerigos Curas, que administrassem os Sacramentos, razão porque deixàraõ como estava, & foy seu primeiro Prior triennal Dom Nicolao dos Santos. He Couto no civel, & as Freguesias, que se seguem com Juiz ordinario, que faz o Prior, & todos os Officiaes; vem Tabeliães de Valladares escreverlhe hum anno, outros dous no seguinte: o Prior he Ouvidor, no crime, & Orfaõs os de Valladares, & assim o Enqueredor, & Contador; tem duas Companhias, de que o Prior he Capitaõ mór.

S. Thomé do Couço,

Curado annual do Mosteiro de Paderne, rende vinte & cinco mil reis, & para os Frades quarenta mil reis: tem cento & vinte visinhos.

 

   Nossa Senhora de Cubalhão,

Curado do mesmo Mosteiro, rende trinta mil reis, & para os Frades sessenta mil reis: tem oitenta visinhos. Esta Imagem de Nossa Senhora he de pedra, & mui milagrosa. Ha aqui um sitio, a que chamão o Castro, que mostra ser fortificação antiga dos Romanos. Estas duas Freguesias são do mesmo Couto.

P. Antonio Carvalho da Costa

Na officina de VALENTIM DA COSTA DESLANDES

Impressor de sua Magestade, & à sua custa impresso.

Com todas as licenças necessarias. Anno M. DCC. VI.

 

 Retirado de: http://books.google