Sábado, 7 de Abril de 2018

UM MELGACENSE EM LA LYS

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trincheira portuguesa em la lys

 

 

ANTÓNIO REIS

 

 

No relógio da eternidade já bateu a hora fatídica em que as parcas cortaram o fio da vida de António Reis. Estou-o a ver rapaz novo, cheio de vida, feito tropa na grande guerra, a partir para França levando no coração juntinhos o nome da mãe e o de Melgaço. Foram eles o seu amuleto e sob a sua influência soube ele impor-se na batalha de La Lys a um pelotão de alemães, quando, rotas as linhas portuguesas, um prussiano alto como as casas e valente como as armas o quis dominar e sentiu-se agarrado pelo António. E vira para aqui, vira para ali; tomba para um lado e tomba para o outro, lá estiveram os dois a medir forças e todo o pelotão parado, pasmado, a gostar de ver e a admirar o camarada português, que era valente. E quando o prussiano julgou levar a melhor e dar um tiro no António, todos os seus camaradas lhe gritaram: - Glória aos valentes! Em sentido! Apresentar armas. Só então o António Reis caiu em si e chorou. Estava prisioneiro. O nome da mãe e o de Melgaço foram na verdade o talismã mágico, que lhe insuflou na alma a valentia e a coragem dos tesos, que sempre mostrou em toda a campanha. E quem há por aí que possa dizer-nos não ter ele retemperado sua fé na vitória dos aliados sempre que rezou baixinho:

 

                          «Lá nas trincheiras exposto constantemente

                          Encarando em minha frente

                          A morte por tanta vez,

                          Pensava nelas e sentia-me tão forte,

                          Que não receava a morte

                          Porque eu era português.»

 

António Reis pertencia ao quadro da nossa Câmara Municipal e foi o notável requinta da banda dos B. V. Em qualquer destes lugares também brilhou e como sempre foi correcto, o seu nome foi um dos bem conceituados entre os seus concidadãos.

Paz à sua alma e condolências aos doridos.

 

                                     (Publicado em Notícias de Melgaço de ../5/1958)

 

 

Obras Completas Augusto César Esteves

Nas Páginas do Notícias de Melgaço

Edição Câmara Municipal de Melgaço

Volume I Tomo 2

2002

Pág.s 689, 690

 


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Sábado, 13 de Janeiro de 2018

PROFESSOR DOUTOR CÓNEGO JOSÉ MARQUES

250 - 2 jose marques.jpg

 

 

José Marques, nasceu a 12 de Agosto de 1937, em Roussas, no concelho de Melgaço. Fez a instrução primária na terra natal, seguindo os estudos no Seminário da Arquidiocese, em Braga, onde se ordenará em 1961, sendo logo chamado a exercer no Seminário Conciliar (1961-1970).

Entre (1969-1974) faz a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e de imediato a frequência e conclusão de curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1976) e especialização como Bibliotecário-Arquivista.

Realizou provas de Doutoramento com o trabalho intitulado A Arquidiocese de Braga no século XV, em 1982, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde ascendeu a Professor Catedrático (depois das provas de agregação de 1989-90) com a Lição de Síntese, sobre a Assistência aos peregrinos no Norte de Portugal durante a Idade Média, tendo-se aposentado em 2003.

Colaborou com as Universidades Portuguesas de Coimbra, Açores, Universidade Católica de Braga (Faculdade de Filosofia e Teologia), com a Fluminense de Niterói – Rio de Janeiro Brasil, e com a Universidade de Louvain-la-Neuve.

Foi Diretor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1982-1985).

Foi coordenador desde 1984 até 1998 da Revista da Faculdade de Letras, nas séries de História, Filosofia e Línguas e Literaturas Modernas.

Membro do Centro de História da Faculdade de Letras do Porto (co-fundador em 1982, da Academia Portuguesa da História (sócio de número e atual vice-presidente), do Instituto Galaico-Minhoto (também co-fundador em 1982), da Real Academia de la Historia de Madrid (sócio correspondente), das Sociedades de Estudos Medievais, portuguesa (de que é sócio fundador, 1985) e espanhola, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (sócio correspondente), da Comission Internationalle de Diplomatique (membro desde Outubro 1986, seu vice-presidente em 2008) e do Comité International de Paléographie Latine (desde 1989).

Os seus Estudos Históricos fixam-se, no período da História Medieval Portuguesa, no quadro cronológico que concentra a montante e a jusante do séc. XV. Tem como quadro geográfico de principal concentração e referência a Arquidiocese de Braga, que é o Minho e Trás-os-Montes e que por ele, em estudos extensivos e comparativos se alarga a outros territórios diocesanos. E como território de fronteira extremamento ativo e participativo, se estende e alarga às vicissitudes de outros territórios (e dioceses) de fronteira.

 


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Sábado, 30 de Dezembro de 2017

O IRMÃO DO ALCAIDE-MOR DE MELGAÇO

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 D. JOÃO DE MELO, INQUISIDOR DO REYNO E MELGAÇO

 

Pedro Fernandes de Castro passou a Portugal, aonde casou com Dona  Maria Dade, filha de Martim Dade, Alcaide Mór de Santarem , de quem se deduz a Casa das Galveas que seu segundo neto na Varonia, Martim de Castro, Senhor de Sanguinhedo, e de Parada, Alcaide Mór de Melgaço, e Castro Laboreiro, a quem ElRey D. João I. fez algumas mercês no Termo de Guimarães no anno de 1402, casou com D. Leonor Gomes Pinheira, filha de Martim Lopes Lobo, e de Maria Esteves Pinheira, e foi segundo avô de Fernão de Castro, Alcaide Mór de Melgaço, irmão de D. João de Melo, que foy Inquisidor, e hum dos tres primeiros, que houve neste Reyno, Bispo do Algarve, Arcebispo de Évora, Regedor das Justiças, Presidente do Paço, e da Inquisiçaõ, e assim foy Presidente em todos os Tribunaes, em que havia servido, faleceo a 6 de Agosto de 1574.

 

Retirado de:

Memorias historicas e genealogicas dos grandes de Portugal, que contem a origem e antiguidade de suas famílias

Por D. Antonio Caetano de Sousa

M. DCC. LV

 

http://books.google.pt

 


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Sábado, 4 de Novembro de 2017

UM ALFERES DESTEMIDO

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rio minho - pintura de murteira

 

DOMINGOS GOMES DE ABREU

 

Filho legítimo de Maria Gomes de Abreu e marido Domingos da Assureira, de nº 3, foi militar brioso e valente, que numa das companhias de ordenanças da vila de Melgaço serviu com o posto de alferes desde 1675 a 1697 ou seja durante vinte e dois anos e sete meses.

Faleceu em 22 de Setembro de 1697 tendo sido nomeado um pouco antes capitão da sua companhia. A folha de serviços militares atesta a sua coragem e o seu patriotismo. É uma bonita página da história da nossa vila digna de recordar-se.

Quando em 1662 durante a Guerra da Restauração Don Baltazar Pantoja encontrou barrado o caminho de Braga no concelho de Arcos de Valdevez, aquele ilustre militar deixou o quartel de Giela e andando pelos fortes dos Pereiros e Mouriga veio parar aos montes de Lordelo aquartelando o exército em Barbeita entre Monção e o forte da Foz de Mouro; quando aí veio parar e pensou ocupar Melgaço nos começos de Outubro, o alferes Domingos Gomes de Abreu fazia parte da sua guarnição, que obrigou os inimigos a desistirem do projectado cerco, tão valorosamente pelejou.

Destemido mas prudente, corajoso mas sereno, fora o homem escolhido pelo governador da praça de Melgaço para prender Romão Valasquez, havido como traidor à coroa portuguesa e com risco da vida, nesse mesmo ano de 1661, um pouco acima do forte levantado junto da foz do rio Mouro, em vão atravessou o Minho a nado para fazer a referida prisão.

Em 1662 bateu-se com o inimigo no lugar de Valadares nuns paços vizinhos ao rio de S. Lourenço e atravessando outra vez o Minho, já na Galiza, perseguindo-o por entre penhascos até o render, aí prendeu o capitão João Esteves, outro traidor a Portugal.

O seu brio, porém, andava ferido pelas proezas de Romão Valasquez e, por isso no ano seguinte, para o colher às mãos, fez-lhe uma emboscada junto ao forte da Ponte do Mouro e sendo o primeiro que o avistou, sobre ele correu até ao rio Mouro, em cujas águas Valasquez se afogou.

Em seguida foi à Galiza, ao lugar de Padrenda, tomar língua de uma tropa de cavalos, conseguindo trazer consigo três soldados com montadas e armas e ao lugar de Queirão, a cujo saque assistiu e onde, no ano seguinte, 1664, pelejou valentemente.

Foi como mercê por estes serviços, que seu filho primogénito recebeu o hábito de Cristo em 28 de Agosto de 1698.

Casou com D. Francisca Coelho, viúva de Jerónimo Teixeira e filha de Francisco da Rosa e esposa D. Maria Coelho, naturais da vila de Melgaço, neta materna de Gonçalo Afonso Coelho e de sua esposa D. Violante Novais, também oriundos desta vila.

Gonçalo Afonso Coelho e Francisco da Rosa exerceram no termo altas funções como vereadores da Câmara e juízes mais velhos pela ordenação fazendo também parte de algumas mesas da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 65-66

 


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Sábado, 15 de Julho de 2017

MELGAÇO E D. JOÃO I

23 c2 - vila assadura.jpg

 

XVI Centenário da Tomada do Castelo de Melgaço

 

 

A CAMPANHA DE D. JOÃO I CONTRA AS FORTALEZAS DA REGIÃO DE ENTRE-DOURO-E-MINHO

 

 

                                                  Por: HUMBERTO BAQUERO MORENO

 ……………..

 

A derradeira campanha de D. João I contra um reduto acastelado de Entre-Douro-e-Minho deu-se em Fevereiro de 1388. Depois duma longa permanência em Braga, desde 11 de Setembro de 1387 até ao termo de Janeiro do ano seguinte, «assaaz afadiguado da guerra», empreendeu o ataque a Melgaço, cujo arraial perdurou até meados de Março do referido ano.

A vila era «cerquada sem arraballde, de bom muro e forte castello». O exército real era formado por mil e quinhentos lanceiros e «muita gemte de pee». A defesa do lugar pertencia a Álvaro Pais de Sotomaior e Diogo Preto Exemeno, acompanhados por trezentos homens de armas e muitos «pioees escudados». As escaramuças iniciais provocaram alguns mortos e feridos. No dia 3 de Março de 1388 foi erguida a bastida para o ataque final. Após um cerco que durou cinquenta e três dias chegou-se a acordo entre ambas as partes. Assentou-se deste modo na entrega do castelo e da vila a D. João I, estabelecendo-se «que todos aviam de sair em gibõees, com senhas varas nas mãos». A alcaidaria do castelo foi entregue a João Rodrigues de Sá, partindo então o rei para Monção, onde se encontrava D. Filipa de Lencastre. Daqui retornaram a Ponte de Lima, encontrando-se nesta vila em 27 de Março desse mesmo ano.

 Numa síntese final temos que as campanhas de D. João I resultaram duma forte organização militar, em que não raro os atacantes dispuseram da colaboração de alguns sitiados favoráveis a causa do recém-eleito monarca. Sublinhe-se a acentuada supremacia das forças leais ao rei português a par duma ausência de auxílio por parte do monarca castelhano, a que se poderá acrescentar a circunstância das populações aderirem com relativa facilidade a causa do fundador da dinastia de Avis. O poderio militar de D. João I associado a uma certa desmoralização das guarnições militares dos castelos ajuda a explicar a feitura de acordos que se traduziam na rendição dos sitiados, situações que aliás se repetiu em todos os casos, após assédios mais ou menos demorados e dependentes do início de negociações.

 

Retirado de:

REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS

Humberto Baquero Moreno

A Campanha de D. João I

pp. 56-57

 

http://www.ler.letras.up.pt

 


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Sábado, 6 de Maio de 2017

MILMANDA E MELGAÇO

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ALCÁZAR DE MILMANDA

 

(Milmanda – concelho de Celanova)

  

O castelo foi palco de confrontos entre Pedro I de Castela e Henrique de Trastâmara. Quando faleceu Pedro em Montiel a maior parte da nobreza galega reconheceu como sucessor a Fernando I de Portugal, genro de Pedro I, o qual estabeleceu sua corte neste castelo e realizou uma campanha de ocupação de muitas vilas e cidades do país galego.

Um dos senhores, o senhor de Vilardecãs Francisco Feijoo Sotelo, foi protagonista de um célebre feito:

   Ocorrera que um fidalgo de Milmanda foi julgado à força e condenado na vila portuguesa de Melgaço. O senhor de Vilardecãs reuniu 40 homens armados e atacou o cárcere resgatando o condenado. Como resposta a esta provocação o duque de Bragança juntou 6 000 homens e, em resposta a este, o conde de Benavente juntou outros 6 000, começando deste jeito a guerra entre Espanha e Portugal, que só terminou com a condição de que o senhor de Vilardecãs deixasse o mando do Alcázar de Milmanda.

O derradeiro nobre que possuiu o castelo foi Suero Eanes de Prada, partidário de Pedro I, que com a morte do monarca partiu a Portugal para não voltar mais. Conta a lenda que nenhuma outra casa da nobreza voltou a possuir o castelo.

 

Retirado de: Wikipédia

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/alcazar_de_milmanda


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Sábado, 25 de Março de 2017

OS FORAIS DE MELGAÇO E RIBADÁVIA

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OS FORAIS ANTIGOS DE MELGAÇO, TERRA DE FRONTEIRA

 

(…)

 

Devem ter sido os burgueses de Allariz que manifestaram a Afonso VII a sua preferência pelo modelo sahaguntino, tal como os moradores de Ribadávia se interessarão pelo de Allariz e os de Melgaço pelo de Ribadávia. Convém não esquecer que Ribadávia e Melgaço se situam nas margens do rio Minho, a uma distância relativamente próxima, e estavam ligadas por um caminho que, estabelecidas as proporções, era mais frequentado nessa época do que nos tempos actuais. Ainda no tempo de D. Pedro I, em 1361, Melgaço é referida, numa carta régia, como uma das principais entradas de mercadorias vindas da Galiza no Reino de Portugal.

Sendo Melgaço uma povoação fronteiriça, foram sempre múltiplos os seus contactos com a Galiza, o que se traduziu em muitos aspectos da história local: Santa Maria da Porta, actual orago de Melgaço, evoca as grandes festas de Santa Maria do Portal, de Ribadávia, e São Facundo ou Fagundo, o santo que deu o nome a Sahagún, era o padroeiro de uma das igrejas medievais da nossa vila raiana. É natural que entre os povoadores de Melgaço se contassem agricultores e comerciantes provenientes de Ribadávia.

Entre os destinatários do foral outorgado a Melgaço, em Agosto de 1185, designados simplesmente como moradores ou vizinhos, distinguem-se os mercadores. Nada se pormenoriza sobre o estatuto social, mas supõe-se que é uniforme, fundamentalmente o mesmo dos «burgueses» ou habitantes das povoações noutros documentos designadas «burgos».

Propõe-se-lhes, como objectivos, que edifiquem e habitem na herdade que o Rei possuía no lugar de Melgaço, doando-lhes também a metade régia de Chaviães, na terra de Valadares.

Aparentemente, o foral nada tem a ver com o de Ribadávia, pois as matérias foram objecto de uma exposição e de uma redacção totalmente diferente, mas o mesmo não se dirá em relação aos conteúdos que são, em grande parte, semelhantes.

Fixa-se um imposto geral único, de 1 soldo, ou 12 dinheiros, a pagar por cada casa, como nos forais dos outros burgos portugueses e no de Ribadávia, a que se ajunta a taxa de dois soldos a pagar pelos carniceiros, que também se paga em Ribadávia. Os vizinhos de Melgaço são ainda obrigados a pagar 6 soldos, de colecta, uma vez por ano, no máximo, quando o rei se deslocar à sua vila, tributo que não sobrecarrega os burgueses de Ribadávia.

A tabela das portagens apresenta, naturalmente, várias coincidências e variantes. Com oscilações, nuns casos para mais e noutros para menos, e com variantes, a tabela das sisas e portagens aplicava-se aos mercadores vindos de fora, aos quais apenas era permitido vender a retalho no dia da feira – a segunda a que os documentos portugueses fazem referência. Refere-se expressamente que os moradores nada pagarão do pão e do vinho que colherem, dos panos e dos animais que venderem ou comprarem, assim como dos moinhos, fornos e almuinhas. Estas cláusulas, nos forais de Ribadávia e de Melgaço, explicam-se com a preocupação de corrigir disposições mais gravosas que se mantinham nos forais derivados de Sahagún, se bem que, em certos aspectos correspondem a outras que já encontramos nos forais de Guimarães e do Porto (isenção de taxas sobre as compras de reduzido valor, e especificamente sobre o pão), e por outro lado lembra-nos que, tendo Melgaço um foral idêntico ao de «burgos» mais ricos, se previa também a expressão do sector agrário, como aliás já acontecia no foral do Porto…..

 

 

António Matos Reis

Revista da Faculdade de Letras

 

http://ler.letras.up.pt

 

 


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Sábado, 21 de Janeiro de 2017

O CAGARRÃO DO EMILIANO

74 b2 - fachada do cagarrão.JPG

 

O TI EMILIANO

 

Por motivos nunca devidamente esclarecidos entre a opinião pública o Emiliano e o Pires desentenderam-se. Cada um foi para seu lado fazendo-se concorrência com carro de praça. Cada um comprara um Ford modelo A, 1929.

O Emiliano habilitou-se e ganhou a concorrência para cobrar o imposto indirecto devido à Câmara Municipal pelos comerciantes e negociantes. Por cada mercadoria entrada no concelho e as artesanalmente confeccionadas e vendidas, teria de ser pago um tributo estimado em percentagem sobre o valor de venda. A Câmara Municipal atribuía a essas transacções para efeito de orçamento, um valor global que o arrematante teria de pagar em tantas parcelas quanto fosse convencionado. O Emiliano com a ajuda de cobradores ha-doc exercia fiscalização rigorosa e cobrança imediata a tendeiros e vendedores avulsos nos dias de feira e festas, e mensalmente do comércio regular estabelecido. O lucro deixado por essa actividade deu ao Emiliano um status de prosperidade nunca antes visto naquela terra. O bafo da riqueza era patente. A circulação de mercadorias era intensa mormente aquelas destinadas ao contrabando: galinhas, ovos, chocolate, cigarros, sabão e outras, tão necessárias na vizinha Espanha que se envolvera em guerra civil.

Por vários anos o Emiliano renovou o contrato, sempre aumentando o valor do lance na concorrência para afastar outros concorrentes. Tudo caminhava a contento, contento demais que impelia o Emiliano a exagerar na ostentação de riqueza. A sua casa denominada Cagarrão pendurada nos fojos da muralha transformou-se numa deslumbrante vivenda agora debruçada sobre a nova e panorâmica avenida que a administração municipal sob a presidência do Dr. João Durães, havia construído. Tudo que o modernismo proporcionasse, comodidade e luxo, pusera o Emiliano em sua requintada casa. Rádio, ventilador para os dias de calor e calorífero para os dias de inverno, água encanada com bomba eléctrica para a puxar do poço. Construiu um grande galpão anexo à casa destinado a garagem e oficina. Um belo jardim e pomar embelezavam a fachada virada para a avenida nova. O térreo da casa era uma grande adega onde grandes pipas cheias do melhor vinho da região estavam à disposição do enorme grupo de “amigos” que frequentavam a sua casa. Comprou o casarão no Rio do Porto onde, até há pouco funcionara o quartel do Bombeiros; reformou-o completamente, ficou sem utilidade definida.

O Emiliano e a Ana tiveram uma filha, a Ausenda, que faleceu com poucos anos de idade. Posteriormente voltou a Ana a engravidar com a agravante de ter-se manifestado nas trompas. Estaria condenada não tivesse o Emiliano os necessários recursos e os pais dela morando no Porto. Transferiu-se para aquela cidade onde se submeteu a delicada cirurgia. Depois de prolongada internação e demorado restabelecimento ficou a Ana quase nova em folha não fosse a sequela que impossibilitava novas gestações e a ausência de prazer no acto sexual.

O Emiliano era louco por crianças. Rodeava-se de sobrinhos, especialmente os rapazes que na altura eram três do irmão Augusto, quatro da irmã Amália, por serem os mais jovens, outros sobrinhos já casados com família não gozavam tanto dos carinhos do Emiliano, mas era vê-los, uns e outros, nos dias de romaria farreando alegremente, espalhando alegria. Era a troupe do Emiliano como lhe chamava o povo. Corriam os últimos anos trinta e primeiros anos quarenta.

 

                                                                                                                                        MANUEL IGREJAS


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Sábado, 14 de Janeiro de 2017

UMA CASA FIDALGA

23 a2 - casa ferreira silva.JPG

 

 

CASA DO RIO DO PORTO

 

 

 Sita na freguesia da Vila, SMP. As armas foram concedidas, a 1/9/1793, ao Dr. João Manuel Gomes de Abreu Cunha Araújo. O primeiro membro dessa família a residir no Rio do Porto parece que foi o Dr. João António, nascido no século XVIII, filho de Bento da Cunha Araújo e de Maria Gonçalves, ou Maria Martins (moradores na Rua do Campo, depois Rua do Espírito Santo, perto da igreja matriz da Vila), casado com D. Maria Gomes de Abreu, ou D. Mariana Gomes Figueiroa (ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, vol. I, p. 409). Na obra citada, p. 410, lê-se: «Ora em 17/5/1748 D. António da Glória, mestre doutor de Sagrada Teologia na Universidade de Coimbra e Prior Donatário do Real Mosteiro do Salvador de Paderne e os mais padres conciliares emprazaram por três vidas aos fidalgos da Casa do Rio do Porto o prazo das Serenadas, que pertencera à família da mulher.» No entanto, quem solicitou à rainha D. Maria I a justificação de nobreza e mandou colocar as pedras de armas no frontispício da Casa foi o Dr. João Manuel Gomes de Abreu Cunha Araújo, filho do Dr. João António de Araújo e de D. Mariana Gomes de Abreu, neto paterno de Bento da Cunha Araújo e de D. Maria Martins, e bisneto de Gonçalo da Cunha Araújo e de D. Catarina Esteves; e neto materno de João Gomes de Abreu e de D. Maria Gomes de Figueiroa, e bisneto de Manuel Gomes de Abreu e de D. Jerónima de Castro. Este Dr. João Manuel casou, a 6/8/1768, com D. Isabel Maria, filha do capitão Manuel Luís Pereira da Gama e de Maria de Araújo, moradores no Campo da Feira de Fora, SMP, e faleceu em 1813.

 É curioso que esta Casa Solar tenha sido adquirida, na década de vinte do séc. XX, pelo então secretário de finanças em Melgaço, Ernesto Viriato dos Passos Ferreira da Silva, de Braga, casado em Melgaço a 21/9/1918 com Margarida Maria, neta ilegítima do fidalgo da dita Casa, Caetano José de Abreu Cunha Araújo, e de Margarida Carolina de Castro Álvares de Barros. O acontecimento gerou polémica, pois Ernesto Viriato era o chefe dos republicanos no concelho, e foi Governador Civil de Viana em 1925. Acusaram-no de monárquico, mas ele argumentou publicamente que comprara aquela Casa fidalga porque estava em ruínas e queria recuperá-la. O certo é que ali viveu com a família, com o peso daqueles brasões à porta de entrada.

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

p.127

 

Joaquim A. Rocha é o editor do blog Melgaço, Minha Terra

 


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Sábado, 17 de Setembro de 2016

INDISCIPLINA CLERICAL

b 12 b  quinta calçada.jpg

 

 

LUCAS DE ABREU MAGALHÃES (P.e)

 

Filho de Pedro Gomes de Abreu e Ana Gomes, Nº 9 do Costado Magalhães de S. Julião de Baixo, foi presbítero e morou no lugar do Viso da freguesia de Chaviães e durante muitos anos prestou os serviços à Misericórdia local como capelão.

Faleceu em 6 de Agosto de 1737 e ao seu funeral anda ligada uma triste e flagrante prova da indisciplina clerical desses tempos.

Foi este um dos muitos padres melgacenses marcados com o ferrete da imprudência por à sombra da fragilidade humana sacrificar nos altares de Afrodite como qualquer leigo. Assim ferreteado decerto não deixou de ser vítima dos costumes sociais por ter sido empurrado para o breviário, quando o corpo lhe pedia matrimónio.

De qualquer das formas é certo não ter sido cauto o padre e como deste seu proceder deixou ficar provas no mundo melgacense, aqui se invocam para ficarem conhecidos alguns dos seus descendentes.

Embora no seu testamento apenas refira duas amantes – Maria Fernandes, galega e Camila Rodrigues, portuguesa e de Paços – três foram os seus aconchegos de solteirão, porquanto naquele número de amásias também se deve incluir a Maria Gomes, solteira, de Chaviães.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1991

pp. 101-102


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