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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AMORES EM TEMPO DE GUERRA 3

melgaçodomonteàribeira, 16.09.23

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 delfina e o filho de eudosia, paul féron

Sem possibilidade de apresentar números exatos, todos dizem que por Castro passaram centenas de refugiados. “Algo que foi possível porque a raia seca é muito fácil de ultrapassar”, prossegue Américo Rodrigues. “Nos primeiros tempos da guerra, os polícias portugueses nem sabiam bem o que fazer. É que os que fugiam eram inocentes. Vinham para não ter de morrer a combater.”

Nesse espírito de solidariedade, revela o investigador, muitos castrejos foram presos por acolher refugiados. “Se o conflito fosse do lado de lá, nós também seríamos ajudados por eles”, defende, argumentando que as redes de amizades dos negócios clandestinos foram uma alavanca para os que fugiam. “O contrabando aqui era uma forma de se ganhar a vida e de sobrevivência.” Contrabandeava-se azeite, café e bens de primeira necessidade, “não era droga”, remata Américo.

NOVE ANOS SEM VER O PAI

Matavam-nos a tiro. Mataram tantos, que ela bem ouviu. Ela e muitos dos antigos de Castro Laboreiro. Por vezes, à noite, as balas que furavam os corpos ecoavam no silêncio. Ainda hoje o fazem, mas só na memória dos poucos que sobram daquele tempo. “Matavam-nos pelos montes fora.” Aos “rojos”, os que não alinhavam no regime fascista de Franco. “Ainda lhes posso mostrar por onde fugiam”, diz, apontando para as montanhas que a rodeiam.

Lucinda Alves tem o sobrenome da mãe portuguesa, mas tem sangue espanhol a correr-lhe nas veias e nas palavras. “Já a minha avó me dizia que esta aldeia foi montada por refugiados”. Vestida de negro, abre os braços ao vento, ali no alto, ao lado do cemitério, depois de ter mostrado a campa dos pais, um refugiado da Guerra Civil e uma lavradora castreja.

“Sou filha da guerra. Não fosse ela, eu não estaria aqui.” Sendo que esse “aqui” é um lugar chamado Além, algures no Ribeiro de Cima, em Castro Laboreiro. Uma das terras que durante o conflito da vizinha Espanha mais terá acolhido refugiados.

A guerra, garante, está marcada no coração das pessoas. “Deus nos livre dela. Eu nem gosto de falar sobre isso. Mas deixem-me contar esta que, para mim, é a história mais importante.” Bate com a mão no peito e pede novamente. Na verdade, não pede – suplica, já com o choro a embargar-lhe a voz. Tinha ela uns sete anos quando ouviu a avó gritar o nome dos dois filhos. “Ai meu Jaime, ai meu Manel!” Um chamamento desesperado que ainda parece ouvir aos 78 anos. “Deixem-me contar, que eu era canalha, mas ainda tenho isto aqui ‘atrancado’ no peito. Choro porque me lembro. Eu que sou mãe de três só posso imaginar o que ela sofreu. Já as tenho tido boas, mas nenhuma foi como aquela por que passou a minha avó, que não sabia dos filhos fugidos.”

Quando a guerra estalou em Espanha, Manuel Vasquez, pai de Lucinda, escapou para o Além, que fica depois de Rio de Ossos e antes de Terços. Manuel era de Entrimo, um município raiano da província de Ourense. E era contra Franco. “Se o apanhavam matavam-no.” Então fugiu para Portugal e o irmão Jaime para França. Manuel escondia-se onde podia, nas casas dos amigos portugueses. E corria para os montes quando recebia avisos de que as autoridades portuguesas andavam à caça de fugitivos espanhóis.

Entretanto, ele arranjou namoro com a minha mãe, uma mulher divorciada. Não sei como aconteceu porque não havia grandes explicações”, aponta Lucinda. O certo é que Ermezinda, que Lucinda descreve como “um pedaço de uma mulher”, andava “às escondidas” porque o “Manuel não podia estar em sítio fixo, não fossem os fiscais andarem por aí à procura de refugiados.” Mesmo que a maioria do povo os encobrisse, “porque a gente era humana”, todo o cuidado era pouco. Até porque entre eles havia bufos. Poucos, mas existiam.

Ermezinda e Manuel tiveram duas meninas. O irmão de Lucinda, a mais nova, morreu há pouco mais de um ano. De todo o modo, é ela que se lembra de “mais cousas”. Quando o pai emigrou para França ela tinha sete anos; a necessidade levou a que entrasse clandestino em França, onde a grande procura de mão-de-obra na construção civil proporcionava um salário fixo. Eram 850 escudos por mês, enviado pelo correio.

Lucinda foi quem “deu fôlego” à mãe até o pai regressar, tinha ela 16 anos e estava prestes a casar. No regresso, Manuel foi apanhado e ainda passou uns meses na cadeia de Ourense, até que a madrinha, com contactos, o conseguiu tirar de lá. “O meu pai tinha de tudo. A minha mãe gostava dele, embora ele por vezes bebesse uma pinguinha a mais. Se calhar pelos passados que teve, porque não foi fácil.”

Manuel morreu em 2002, a mãe em 2005. “Tenho aí um bocadinho de terreno. Uma horta que ando a trabalhar. Eu nem sou muito de falar. Mas não hay dia nem noite que esqueça o meu passado. Está todo aqui”, aponta para a cabeça. E, devagarinho, pousa a mão sobre o peito.

 

JN – NOTÍCIAS MAGAZINE

 

Texto de Filomena Abreu

Fotos de Artur Machado/Global Imagens

19/9/2018

AMORES EM TEMPO DE GUERRA 2

melgaçodomonteàribeira, 09.09.23

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 casa do rodeiro, castro laboreiro

Delfina soube que os amigos estavam a salvo, mas passaram mais de 50 anos até voltar a ter notícias de Eudosia. “Um dia ela escreveu ao nosso padre Aníbal. Foi uma alegria.” Disse-lhe o clérigo. “Tive uma carta da professora que esteve com os seus pais.” Apressou-se a pedir o endereço e “no dia seguinte, no monte com o gado”, agarrou “num papel de 25 linhas e, em cima de uma das vacas”, escreveu-lhe “a dizer que era viva”.

Ainda se encontraram três vezes depois disso. Eudosia morreu em 2004, mas a história da professorinha é conhecida em cada canto de Castro. “O polícia que a prendeu, e que arranjou tudo para os meter no comboio e no barco, chegou a dizer por aqui: “Aquela gentinha, se eu tenho dado com eles antes, não tinha sofrido tanto”. E verdade se diga, os que vinham não tinham crime, fugiam das armas. Fugiram porque os tiravam de casa durante a noite para os matar. A guerra de Espanha foi a coisa mais escandalosa do mundo inteiro”, lamenta Delfina.

O conflito foi sangrento. Começou em 1936, quando os militares espanhóis se revoltaram contra o governo republicano, dando o primeiro tiro de uma guerra civil que se estendeu até 1939. Apoiantes de esquerda e de direita digladiaram-se durante vários meses nas ruas. De um lado posicionaram-se as forças do nacionalismo e do fascismo, aliadas ao Exército, e à Igreja. Do outro estava a Frente Popular, que formava o Governo Republicano, representando os sindicatos, os partidos de esquerda e aos partidários da democracia.

A Guerra Civil Espanhola terminou com a vitória dos nacionalistas ou do Movimento Nacional. A República instaurada em 1931 foi esmagada e Francisco Franco passou a governar. Iniciou o franquismo, que caiu anos depois da morte do seu mentor.

Foram 39 anos de ditadura. De repressão. De gente a fugir à fome, à guerra. A saltar as fronteiras, de Norte a Sul de Portugal. E a serem acolhidos do lado de cá. À revelia de Salazar que usou as forças que tinha para apanhar e expulsar os fugidos para Espanha. Para a morte.

A população de Castro Laboreiro teve um papel fundamental na sobrevivência de grande parte dos refugiados. Os castrejos esconderam os galegos em nome de uma solidariedade fraterna sem fim. Nos relatórios da Guarda Nacional Republicana e da PVDE foi com frequência referido que havia “na Serra de Castro Laboreiro e na província da Peneda grande número de refugiados espanhóis”, sobre os quais eram aguardadas informações do paradeiro certo “para proceder às respetivas capturas”.

No entanto, as próprias autoridades reconheciam a dificuldade da missão. Devido às características do terreno mas também à proteção que muitos castrejos davam aos fugidos. Um relatório da PVDE de 27 de setembro de 1937 refere que “nas regiões montanhosas de Castro Laboreiro encontram-se escondidos nas furnas, em plena montanha, desde princípio da guerra em Espanha, bastantes espanhóis. Esta polícia tem feito algumas sortidas que, dada a configuração do terreno e uma frente de 50 quilómetros, têm sido pouco profícuas.

E em 1940, um comandante da GNR destacado para a região de Castro para acabar com a presença mais do que evidente dos refugiados, queixava-se aos seus superiores da empreitada que lhe tinha sido confiada. “Uma batida completa à serra, dada a imensidade desta, exigiria milhares de homens e, em virtude da carência de estradas e caminhos capazes e da falta de recursos, julgo-a impraticável. Enquanto aquela região, pela ausência quase completa de vias de comunicação, estiver, como está, isolada do resto do País, será sempre um possível refúgio (…). A população vive a vida mais miserável que é possível imaginar-se.”

O TIO GALEGO

Maria de Fátima Afonso nasceu depois destes relatórios mas ainda testemunhou a humildade e a pobreza do lugar. A professora Fátima, como é conhecida, mora há 63 anos na Várzea Travessa, em Castro Laboreiro. Apesar da tenra idade, recorda a existência de um tio com sotaque diferente que, só mais tarde soube, se refugiou em Portugal fugido da Guerra Civil espanhola. Era o tio Galego. Casado com a tia Rosa Pintora.

Por muito que puxe pela cabeça só se lembra do sobrenome, Ojea Blanco. “Sentava-me à beira dele enquanto ele fazia os cestos de vime, e a minha tia penteava-me com água e açúcar, para me segurar o cabelo. Viveram ali bastantes anos sem serem incomodados. Trabalhavam na agricultura, nos muitos terrenos que possuíam. “Tiveram dois filhos, com nomes espanhóis. A rapariga era Gomercinda, o rapaz Juanito.” Quando em Espanha “a coisa amainou, eles mudaram-se para Ginco do Lima, o local de onde ele era natural”. Como se conheceram ninguém sabe. Mas era natural. Viviam próximo da raia. Eram vizinhos.

A castreja não tem memória de algum dia a polícia ter andado na Várzea. “Aqui nunca veio ninguém à procura dele. Não que eu saiba.” Se tal acontecesse, o fim da história é conhecido. “Claro que a polícia andava no encalço deles, mas se passassem aqui e perguntassem se tínhamos visto alguém, a gente dizia que não e pronto”.

O tio Galego gozava de boa reputação. “Era muito boa pessoa, amigo do lugar e as pessoas gostavam dele”. O instinto protetor parecia gravado na alma de Castro. “Aqui costumava dizer-se: um por todos e todos por um. Se houvesse algum problema, a vizinhança acudia toda. Era um meio comunitário, era a civilização castreja”. Um meio habituado aos galegos e pronto a fazer frente a Franco. “Aqui houve muitos casos de espanhóis que se juntaram com portuguesas. Depois foram para Espanha. E a minha tia também foi, mas já os filhos eram crescidos. Aqui o povo protegia sem medo. Eles atravessavam e refugiavam-se aqui, por ser um sítio muito pacato. Não havia gente má, também não se saía tanto. Vivia-se naquele pedacinho”.

Além do mais, e fazendo referência ao relatório da PVDE citado há pouco, era do conhecimento comum que por ali “havia polícias bons e maus”. Todavia, os “que se deixavam comprar eram a maioria”, confirma a professora Fátima. “Eles sabiam bem que as pessoas aqui iam buscar farinha, azeite e tudo (à Galiza), porque em Castro não tinha nada.” E as autoridades também fechavam os olhos aos galegos. “Os espanhóis têm esse sentimento de gratidão por causa do acolhimento. Ficamos sempre com esta amizade.” Mais: “Até se diz que somos irmãos.”

“Onde há mulheres e homens acontecem histórias de amor e há descendência, ainda para mais entre povos que conviviam diariamente e que tanto tinham em comum”, explica Américo Rodrigues, do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro. “Por isso, para nós, a raia é um espaço de liberdade. A guerra só aproximou mais castrejos e galegos”.

(continua)

AMORES EM TEMPO DE GUERRA 1

melgaçodomonteàribeira, 02.09.23

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 eudosia

 

AMORES EM TEMPO DE GUERRA

 

Texto: FILOMENA ABREU

Fotos: ARTUR MACHADO/GLOBAL IMAGENS

19/9/2018

 

Dizem que o Rodeiro, em Castro Laboreiro, é o fim do mundo. Quando acaba, acaba mesmo. Não há mais estrada. Dalí vê-se o planalto. A raia seca. É Portugal do lado de cá e Espanha do lado de lá, mas é terreno com terreno. Caminhos esbatidos para os que há séculos ali convivem. Foi por esses marcos, que não falam, que passaram contrabandistas e refugiados.

Depois da fronteira encontraram o amor, essa casa onde muitos se aninharam nos tempos da Guerra Civil espanhola. Mergulharam a cabeça da mais nova nas frias águas do rio. “Onde estão escondidos os galegos?” Nada. As agressões continuaram em casa. Pontapearam e bateram em António Rodrigues Rendeiro, o pai da pequena. “Onde esconderam os galegos?” Nada. A tortura já durava a algum tempo e continuaria, mas Eudosia Lorenzo Diz não suportava mais. Saiu do fosso cavado na pedra, sob a lareira da cozinha, onde ela e os pais se tinham refugiado, ali no Rodeiro. “Não batam mais no homem, que ele não tem culpa.”

Os métodos violentos dos agentes da PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado – não constam do relatório de 17 de maio de 1938, o dia em que fugitivos espanhóis foram encontrados. Tampouco mostram o deslumbramento de João Guilherme da Cunha, o chefe do posto de Melgaço que, naquela data, tinha ido com mais seis guardas à casa dos Rendeiros com o intuito de capturar pai, mãe e filha. No caminho que fizeram a pé, pelo monte, do Rodeiro até à prisão em Melgaço, Eudosia contou ao seu carrasco a história que os tinha levado ali. Tudo tinha começado dois anos antes.

Agustin Lorenzo Puga era capador na zona de Grou e na serra portuguesa. Vivia em Fradalvite, Ourense, e era conhecido como o Masidario. Basilisa Diz Gonzales, a mulher, era lavradora. Tinham três filhos: dois rapazes e a jovem professora Eudosia.

Numa noite de junho de 1936, um mês antes do golpe de Estado falhado contra o governo da Segunda República espanhola que conduziu à Guerra Civil, o Masidario regressava a casa no seu cavalo quando foi vítima de uma tentativa de extorsão.

Armado livrou-se dos agressores disparando para o ar.

Na sequência desse acontecimento, Agustin é obrigado a entregar a pistola às autoridades municipais. Dias depois recebe em casa uma carta dos falangistas. Queriam que pagasse 50 000 pesetas, um imposto revolucionário, caso contrário ele e a família iriam sofrer. A decisão foi tomada na hora: cada um preparou uma mochila com a roupa indispensável e saíram separadamente de casa para não levantar suspeitas. O destino era a franja portuguesa de Castro Laboreiro, onde o capador tinha amigos, acumulados ao longo dos muitos anos de ofício.

Entraram clandestinamente, fugidos dos inimigos franquistas. E uma vez cá passam a ser procurados também pelas autoridades portuguesas. Os irmãos de Eudosia acabam por regressar a Espanha algum tempo depois. A professora fica com os pais. Durante dois anos vivem escondidos, com a ajuda de algumas famílias castrejas, entre as brandas e inverneiras da Serra da Peneda, os núcleos habitacionais temporários utilizados pela povoação para que o gado tivesse sempre pasto fresco, verão e inverno. Sobreviveram misturando-se. Elas disfarçadas de castrejas, com capas negras como as moças da terra, ninguém as reconhecia, nem mesmo a guarda.

Aproveitando a calmaria, Eudosia começou a ensinar clandestinamente as gentes a ler, a escrever, a fazer contas. Delfina Fernandes foi uma das alunas.

“Tinha 15 anos quando ela veio para a nossa inverneira, no lugar da Alagoa. Dormimos juntas. Ela, eu e a minha irmã. Na mesma cama, para não levantar suspeitas”.

Aos 97 anos há coisas que se esquecem, mas não o essencial. “Ensinou-me a numeração, a ler as parcelas até um milhão e a tabuada. A mim e a outros. Ela era amável. E linda. Foi por caridade que os meus pais os acolheram.” Delfina faz eco do que todos dizem por ali.

Naquela época havia muitos refugiados. Escondiam-nos como se fossem pessoas de cá. Toda a gente lhes deu abrigo. Mesmo sendo pobres dava sempre para alimentar mais um.” Porém, apesar do aparente sossego, a pressão das autoridades franquistas para que os encontrassem nunca desapareceu. Divulgaram o nome dos três como sendo gente “perigosa para a causa nacional”.

Quando a estação mudou, a família foi acolhida pelos Rendeiros, na branda do Rodeiro, e ali foram apanhados após denúncia. Delfina lembra-se bem: “Houve um gajo aqui de Castro que teve problemas com a polícia e quando foi apertado revelou a zona onde eles estavam.” Nessa altura, a PVDE aproximou-se da casa de António Domingues. Torturou a família para que confessassem o esconderijo dos galegos. “Bem que podiam matá-los que eles nunca falariam”, assegura Delfina.

O PVDE QUE SE APAIXONOU

Chegados à prisão de Melgaço, e depois de ouvir a história pela boca da Eudosia, João Guilherme da Cunha, o chefe da PVDE que os havia prendido, “já ia encantado por ela”. A bem dizer, “foi amor à primeira vista”, conta Delfina, com um sorriso maroto, explicando que a “professorinha” (como é recordada em Castro), além de “pimpolha”, sabia “falar bem”. Rendido à jovem, o guarda decide ajudar os galegos. “Se ele não fosse casado teria ficado com ela”.

Aos franquistas é comunicada a prisão dos três, mas salienta-se que “devem estar inocentes da acusação que lhes é imputada pelas autoridades espanholas”. Aos olhos do chefe do posto de Melgaço, as acusações eram fruto de “vingança pessoal”, uma vez que Eudosia declarava ter “terminado o namoro com um seu colega, professor e falangista, optando por um advogado que, segundo consta, era esquerdista” e havia entretanto morrido na frente de guerra. Por esse motivo, a família começara a ser perseguida. O relatório termina justificando que, depois de “ameaçados de morte” os galegos fugiram para Portugal.

Ainda que inocentados das acusações franquistas, Eudosia e os pais deviam permanecer em regime de prisão. Contudo, após três dias de cativeiro, mãe e filha foram transferidas para o hospital da Misericórdia de Melgaço, onde passaram a ajudar as freiras a cuidar dos doentes. Já o capador continuou preso.

Durante três meses, tudo foi feito para que obtivessem documentação para saírem do país. Os passaportes e salvo-condutos terão sido facilitados pelo cônsul francês em Lisboa. Mas antes de os meter no comboio que saiu de Melgaço rumo à capital, João Guilherme da Cunha ofereceu a Eudosia um crucifixo. Objeto que ela emoldurou no quarto, quando anos depois pôde regressar a Fradalvite. Uma vez em Lisboa, os três esperaram dez dias pelo vapor Jamique, que os levou para Casablanca, em Marrocos. O medo da morte só passou quando chegaram ao continente africano, às 19 horas do dia 11 de agosto de 1938.

 

(continua)

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GALIZA E CASTRO LABOREIRO - UMA TERRA SOLIDÁRIA

melgaçodomonteàribeira, 30.12.21

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 ameijoeira 

 

ACTAS DO I CONGRESO DA MEMORIA – NARÓN 2003

 

No primeiro semestre de guerra civil, o número de refuxiados españois na freguesía de Castro Laboreiro, se bem de xeito non estable, acadou, según testemuñas orais, unha cifra entre catrocentas ou oitocentas persoas, cifra que debeu convertirse nunha preocupación, especialmente para os falanxistas da zona que coñecían á perfección o territorio e mantiñan vínculos de intimidade com moitas das familias dos refuxiados, preocupación que finalmente acabarían asumindo las forzas represivas portuguesas, moi especialmente a PVDE.

Assim comenzarían as batidas polas serras, polas brandas e polas inverneiras, na procura dos refuxiados. Os comandantes dos postos, especialmente o de Castro Laboreiro reciben periodicamente ordes de manter unha rigorosa e persistente vixilancia. Algúns días despois amplíanse as ordes, que sinalan que se faga unha limpeza completa de tódolos estranxeiros indocumentados, malia que o número de fuxidos vai medrando ós poucos.

A PVDE sabe da presencia en Castro Laboreiro de varios refuxiados na inverneira de Cainheiras, no lugarfixo de Portelinha, etc. Os falanxistas españois introducíronse en territorio portugués com asiduidade desde as primeiras datas de sublevación, mesmo obrigando a intervención da Comandancia Militar de Ourense que se viu na necesidade de castigar preventivamente a eses elementos incontrolados.

Son moitas as notificacións das policías portuguesas sobre a presencia de “refugiados comunistas espanhóis” entre a fronteira de Amenjoeira e Castro Laboreiro: o grupo formado por Manolo, O Dente de Ouro e o , Ramón Yañez Pereira, O Médico, que se movían por toda a freguesía de Castro Laboreiro, xunto coa amante deste último, Rosa Alves, A Africana, veciña de Ribeiro de Baixo, e nai de catro contrabandistas; fuxidos perseguidos insistentemente pola policía portuguesa e considerados peligrosos como o comunista de Bande, Lelisindo Lopez Pazos e José Alemany; outros fuxidos menos significados como José de Sousa, O Gaiteiro, natural de Pereira (Entrimo), etc. Naquela extensa área que vai desde Alcobaça ata Ribeiro de Baixo estableceuse unha persistente vixilancia, que, sen embargo, resultaba demasiado ampla e difícil de controlar polos obstáculos naturais e a facilidade de refuxios, a meirande deles furnas ou grutas, que topaban os fuxidos na serra cando eran perseguidos.

Desde os postos de Portelinha e Castro Laboreiro tratouse de localizar e capturar ó refuxiado Pepe Trabazos, protexido por unha cidadá portuguesa residente na branda de Qeimadelo, quen coa chegada do inverno trasládase a inverneira no val de Pereira, mentres o seu protexido mantense arriba na branda. A policía portuguesa sigue organizando batidas, algúns dos refuxiados preocupan más ca outros. Ás veces son grupos de sete ou oito policías. Os primeiros dias de decembro de 1936 o tenente de infantería Fernando José Lopes destina un grupo de homes ós postos da serra e a Ribeiro de Baixo para averiguar sobre a “capitana dos refuxiados españois” daquela poboación, a devandita Rosa Alves. Nos dous Ribeiros, de Cima e de Baixo, lugares fixos, lévase tempo notando a presión policial. A PVDE captura a Rosa Alvas, A Africana o 26 de outubro de 1937, moi popular no val de Pereira e con familia na aldea arraiana galega de Olelas, fronte do lugarfixo de Várzea. A comunicación secular entre os dous Ribeiros e as aldeas entrimeñas de Bouzadrago e Pereira tiñan fomentado a creación de roteiros vinculados ó contrabando, empregados polos familiares dos escapados para abastecelos de comida e roupa, evitando ser controlados polos carabineiros españois ou pola guarda fiscal portuguesa.

En Lamas de Mouro a policía ten constancia tamén da presencia de refuxiados antifranquistas. Algúns deles optan por vestir elegantemente porque lles permite alixeirar certa presión das forzas represivas, aínda que prefiren ir armados por se se vem na obriga de defenderse.

Na branda de Seara, doutro lado da Pena de Anamán, hai varios refuxiados españois, entre eles Manuel Fernández González, O Curto, acollido na casa da súa amante. Sospeitando da persión das forzas represivas, pernocta nunhas fragas próximas. Algúns habitantes destas serras son reincidentes en agachar refuxiados españois na serra, polo que se vem sometidos frecuentemente a rexistros nas súas vivendas. Nessa mesma branda está agachada unha familia enteira. Como todos, esperan documentación para internarse ó centro do país, pero resúltales complexo porque Eudosia Lorenzo Diz, de vintecinco anos, quen antes do golpe militar era mestra en San Ginés no concello limítrofe de Lobeira, ten un fillo. Para non levantar sospeitas viste o traxe de típico de castrexa. Ademais, movese cos seus pais: Agustín Lorenzo, un home de cincuenta anos, que sofre as inclemencias dunha hernia, e Basilisa Diz, cinco anos máis nova e que ten un sinal característico na faciana. Outras testemuñas, conseguidas pola policía tras interrogar os veciños, sitúaos na inverneira de Entalada ou na branda de Rodeiro; outras din que están nos lugaresfixos de Ribeiro, quizais na inverneira de alagoa ou nas brandas dos Portos. En realidade, ó integrarse coa poboación local acompáñanos nas súas migracións anuais, e as veces, ante a abafante presión policial e dos confidentes, saltan a algunha aldea galega, como Cabanelas, onde tamém consiguen acocho.

 

Ler mais em: www.memoriahistoncademocratica.org

Entre brandas e inverneiras: refuxiados e guerra civil na fronteira entre Ourense e Portugal

Ángel Rodríguez Gallardo

HOJE COMO ONTEM - SOLIDÁRIOS

O TOJO MAIADO

melgaçodomonteàribeira, 26.06.21

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O BIVAQUE DOS FASCISTAS

 

Desde o princípio do mundo talvez, diz uma das atuais terra-tenentes desses “andengues”, que os portugueses possuíam propriedades do lado de lá da fronteira. Eram campos de pasto, de feno, carvalheiras, “uzeirais”, tojais, que pouca valia deviam ter para os galegos mas que eram explorados e mantidos por portugueses. Todos os três meses iam a Crespos pagar as “pagas”, o que até dava jeito pois a viagem servia também para comprar a melhor preço bacalhau, azeite, chocolate, farinha triga, toucinho branco até, quando o caseiro se esgotava. Estava-se ainda longe do final do século XX quando acabaram com essa contribuição, por insignificante que deveria ser para o erário público do país vizinho. Com os aumentos de impostos que se sofrem nos dias que correm e o descalabro financeiro que a televisão mostra também na Espanha, há quem tema pelas “pagas” sejam repostas, mas em multiplicado. Outros pensam de modo diferente receando antes uma expropriação justificada pela falta de uso da terra. A ver vamos, o que o futuro reserva a esta realidade local é incerto e poderá até eternizar-se tal como está.

Por fracos que fossem os proventos daquelas propriedades, os seus donos exploraram-nas até quase ao virar do milénio. Depois aconteceu-lhes o mesmo que aos terrenos em Portugal: foram sendo progressivamente votados ao abandono, não restando hoje quaisquer das atividades tradicionais que foram o ganhapão de gerações e gerações, antes das reformas e pensões com que quase todos são contemplados. Essa pequena fonte de recursos de além fronteira só conta hoje na memória saudosista e em raras conversas dos antigos, muitos dos atuais e futuros proprietários nem será capaz de localizar os seus prados.

No decurso da guerra civil espanhola e mais tarde, durante e para além da segunda guerra mundial, o controlo do vaivém entre os dois países era efetivo: pessoas e animais tinham de andar munidos da respetiva identificação. As “guias” davam razão do que cada proprietário possuía, terras e cabeças de gado, bem como cães e carros de bois. Não havia contemplações para quem não cumprisse, não era permitido levar um animal a mais e quem prevaricasse ficava sujeito a punição que podia ser o impedimento de atravessar a fronteira, de ver os animais retidos, de pagar uma multa ou, em casos extremos, de se ver conduzido para um posto da guardia civil. Não brincavam em serviço os carabineiros dos idos anos trinta, quarenta e cinquenta.

Durante esse período de razia de vidas humanas os portugueses da raia não podiam atravessar a fronteira antes do nascer do sol ou depois de o mesmo se ter posto. Estava-lhe igualmente interdito o trânsito com dinheiro nos bolsos, não fosse algum “celerado” refugiado beneficiar da ajuda dos portugueses. Os falangistas, que, como é sabido, prolongaram a sua atividade de guerrilha muito para além do término da guerra civil, eram presença assídua nos caminhos trilhados pelos castrejos, entre os marcos um e vinte e tal. Eram agressivos e mais papistas do que o papa, quer dizer, chegavam a ser mais controladores e violentos do que a guardia civil. O povo temia mais os bivaques amarelos do que os próprios carabineiros e, sobretudo as mulheres que temiam pela sua honra, fugiam de encontros com eles.

Um dia saía, asinha, Isabel da Barreira para ir guiar a água a um campo de feno na Galiza. Encontrou à saída do lugar um comerciante de gado pronto a pagar-lhe ali mesmo um vitelo que lhe tinha comprado. Isabel precisava do dinheiro, não o recebendo no momento ficava sem saber quando o veria, pelo que resolveu arriscar e seguir para a raia com ele. Guardou-o bem escondido junto ao seio, debaixo do corpete, longe do salvaconduto, com sorte não ia ter maus encontros. Apressou-se a chegar ao seu destino, abriu as “tolas” e certificou-se que a água tinha caminho aberto até ao fundo do campo. Sentou-se um momento para espraiar o olhar sobre a propriedade, tão bonita, tão limpa, tão bem murada, pena que ficasse tão longe do eido. Olhou para o portal de saída e o seu coração começou a bater em ritmo acelerado: um bivaque amarelo escondia-se mesmo ao lado do ponto de saída. Desviou a vista, como a esconjurar a presença do inimigo. Voltou a olhar e lá estava o chapéu amarelo a abanar para um lado e outro. Diabo de homem, porque não se mostrava? Devia estar com más intenções, queria apanhá-la de surpresa, maldito! O dia declinava e Isabel sem coragem de se pôr a caminho. Dali a pouco tudo seria pior, o sol estava quase a cair para lá da Cabeça do Pito. Sol posto e ela ali no prado, encurralada, seria a sua desgraça!

Estava neste indeciso e temeroso cismar quando ouviu um melodioso assobio. Vinha do lado da Corga da Gândara. Pronto, outro maldito que se ia reunir ao que a espiava, escondido, o cobarde, só o bivaque amarelo a indiciar a sua presença. A força que a mantinha pregada ao chão aumentou e o medo tomou o lugar do receio, a barriga a revolver-se-lhe toda. Começava a encomendar-se à Senhora dos Aflitos e eis que ouve chamarem por ela. Reconheceu logo a voz de Domingos, seu vizinho e compadre e levantou-se como uma flecha, atravessou o campo a correr, descurando onde punha os pés, o que menos lhe importava era os socos cheios de água, queria o amparo da companhia. Fez-lhe sinal para parar, alcançou-o e segredou-lhe que tinham companhia. Estava enganada, acabara de se cruzar com eles no sentido contrário, baixavam para Lapela.

Aproximaram-se do ponto fatídico onde o biltre se escondia e Isabel riu-se em voz alta do seu próprio medo: o que ela tinha tomado por um bivaque amarelo à sua espreita não passava de um grande tojo maiado abanando ao vento. Nem se aborreceu com os chistes do Domingos nem se apressaram a chegar ao marco três antes do pôr do sol, se os falangistas se dirigiam para o lugar de Lapela tinham tempo de regressar com calma e fazer da caminhada um momento de partilha.

O medo de se confrontar com os fascistas e ser maltratada até a fizera esquecer-se do dinheiro guardado na quentura do seio, só à noite, ao desapertar o colete, antes de se deitar, é que encontrou as notas que o Cerdeirinha lhe tinha dado à tarde.

 

                                                              Olinda Carvalho

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Abril de 2015

GUERRA CIVIL DE ESPANHA - REFUGIADOS EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 06.03.21

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BREVE ESTUDO ETNOGRÁFICO SOBRE O NÚCLEO FAMILIAR TRADICIONAL DE CASTRO LABOREIRO

 

DEPOIMENTOS SOBRE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA (1936-1939)

 

19/08/2014, Rodeiro

Houve um “casal” (não de matrimónio) que se refugiou no Rodeiro, numa casa que hoje se encontra em ruínas, ao lado de uma outra com uma “alminha” numa das paredes exteriores, no caminho que vai para o forno comunitário, em direcção às cascatas. Este senhor conta que a Guarda sabia da localização deste casal e um dia, a cavalo, dois guardas pararam em frente a esta casa e perguntaram pelo paradeiro destes refugiados. Como a resposta dos habitantes foi muda ou incerta, os dois guardas ataram as mãos de uma senhora de idade com uma corda e lentamente puxaram-na para que viesse a pé atrás dos cavalos, e os “refugiados” vendo isto expuseram-se. A verdade é que uns dos guardas enamorou-se pela rapariga refugiada e casou com ela. Ainda hoje estão casados e por vezes visitam o Rodeiro.

 

10/09/2014, Portelinha

A D. Maria José Fernandes, falecida, habitante de Portelinha, guardou um segredo no tempo da Guerra Civil Espanhola. Houve um médico galego que se refugiou em Castro Laboreiro nessa altura. O local de seu refúgio foi o moinho das Coriscadas, que pertencia à sua irmã, “que morreu com 96 anos”. Os familiares deste médico levavam-lhe comida e livros. “Durante o dia saía, e à noite pernoitava no moinho”. Mas este médico foi encontrado pelas autoridades e levado novamente para Espanha. “O montão de livros que ele deixou lá!”

 

Diana Carvalho

Mestranda em História e Património

ABELTERIVM

Volume III

Maio 2017

 

 

GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.03.20

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

Américo Rodrigues

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

ASSALTO A PORTO QUINTELA AO COMÉRCIO DOS PARADA

 

No dia 4 ou 5 de setembro de 1940, Gabriel, Saturnino e José do Quarto estavam no Bago, na casa de Maria Negrita. Juntaram-se Manolo, Francisco de Lobeira e o Rizo que propuseram o atraco de Porto Quintela. Manolo argumentava, “que era uma vergonha que estivessem tão inativos os elementos roxos fugidos que existiam em Portugal, que, para mostrar o seu amor à República, era preciso cometer algum atraco em povos da província de Ourense próximos a Portugal.” (Róman, 2016:143).

No dia 10 de setembro de 1940 à noite, reunidos em monte próximo de Várzea Travessa, estão Gabriel, Saturnino, Francisco, José do Quarto, Rizo e mais uns quantos. Guiados por José do Quarto, seguem em direção ao lugar da Fraga pelas Motas (antas ou dólmenes), continuam por cima do povo de Santa Cristina, baixando pelo monte da Coroa em direção a Porto Quintela. Tinham um cúmplice em Lobeira, Gumersindo, amigo de José do Quarto. Chegam à capela de San Isidro de madrugada. Fazem à volta de dezassete quilómetros. Permanecem ali ocultos até ao à tardinha desse dia 11, pelas 19:30. O assalto correu mal devido à resistência bélica dos irmãos proprietários. Morreram duas pessoas, no comércio, e dois assaltantes foram baleados de morte. Regressam com os dois feridos e as autoridades alertadas. Por segurança e escuro, possivelmente, fizeram quase o mesmo trajeto. De volta à fronteira, quase sempre a subir, o esforço é enorme. No monte, enterram os dois mortos, que tinham sido feridos, o Joven e Valentin (Róman, 2016:159).

Luisinho, que não participou no assalto, diz que os sepultaram à beira de uma corga, perto da fronteira. Refere que a vinda das chuvas e crescidas, a água destapou os pés dos cadáveres. Os que estavam no lugar do Bago, na casa de Maria Negrita, entregam roupas com sangue para lavar, justificando com a matança de uns frangos na casa de familiares de José do Quarto, em Lobeira. Obviamente, ajudaram a carregar os feridos.

A notícia espalha-se depressa. De 14 a 20 de setembro a documentação é basta, o comandante de Castro Laboreiro, contacta co o comandante do batalhão nº 3 de Valença. Há contactos com Melgaço e PVDE do Peso, com o objectivo de prender os refugiados no Ribeiro e do alvoroço das populações castrejas, em virtude do assalto à mão armada. Há tropas espanholas na raia. Apesar da perseguição, os guerrilheiros não têm receio. No mês de novembro de 1940, assalto em Padrenda, Lobios, ao comércio de Celso González.

No dia 5 de janeiro de 1941, são presos, no Bago de Baixo, na casa da Negrita, Saturnino Darriba, Gabriel Hernandéz e José do Quarto.

Algo curioso é o confiscado aos presos no relatório da PVDE. Relógio de Ouro roubado em Porto Quintela, várias pistolas, uma Astra do nove largo, carregadores de balas, granadas, bombas, documentos, fotos de família, selos, dinheiro, preservativos, etc.

Volto ao Rizo. Em julho de 1941 já está preso em Portugal. Na prisão de Ourense terá a companhia de um preso famoso, Bailarin, já referido, que atuava na zona transmontana. Aponta Valentin, Guilhermo, Gerardo, Coella, Serin e o Joven, como amigos de Manolo o Dente de Ouro. Identifica como assaltantes ao comércio de Rio Caldo, Guilhermo, Gerardo, Coella, Serin e a Arcádio. Nega a participação no assalto de Paderne de Alariz. Seria Arcádio o guerrilheiro do segundo grupo que saiu de Trás-dos-Montes em direção ao Minho depois de Joven e Valentin?

Nesses tempos, sem conseguir precisar ano e mês, os castrejos José Augusto Fernandes e Rosa Monteiro, andando na ladeira de M. Martins com o gado foram surpreendidos por muita chuva, e para se abrigar, foram para a Mina dos Refugiados e, “descobriram um cadáver de um galego”. Não podemos precisar, se foi dentro ou fora da mesma. Considerando que a corga fica à beira da mina, com algum espaço, o enterramento deve ter sido fora. Havia dois cadáveres? Não encontrei resposta.

A mina fica na zona do itinerário calcorreado pelo grupo e coincide com o dizer de Luisinho, quando refere a corga junto à raia. A zona é a primeira segura para quem traz feridos, numa estafa de quilómetros. Naquele espaço, da serra do Laboreiro, não existem fragas que possam servir de abrigo. A dita “Mina” foi escavada próximo da corga, aproveitando o declive da ladeira e a barroca macia. Outro testemunho, recolhido há quinze anos, referia que ao cadáver já faltava cabelo por causa da corrente da água, que o destapara, o que vai de encontro às palavras do Luisinho. Não consegui apurar o que aconteceu ao cadáver encontrado.

Considerando o terreno e os dados conhecidos, na nossa modesta opinião, a Mina dos Refugiados deve ser lugar a considerar no enterramento de Joven e/ou do amigo Valentin. É verdade que também tenho conhecimento de sepulturas em Poços de Telo e Toleiros (um cadáver foi levantado), de possibilidade mais remota, atendendo à localização. Apareçam mais dados.

No dia 9 de setembro de 1941, sentença pelo assalto de Porto Quintela. Condenação à morte de Gabriel, Saturnino, José do Quarto, Francisco e Gumersino. São executados em 22 de dezembro de 1942 (Róman, 2016:233).

A 24 de maio de 1943, novo assalto a Torneiros, Lobios, sete companheiros capitaneados por José Rodriguez Páramo, Pepe, o Dente de Ouro, que vai ser baleado de morte num braço. Aguenta vários quilómetros e morre no lugar de Pereira, já próximo da raia, onde ainda fala com vizinhos do lugar. Para trás ficou outro guerrilheiro desconhecido que foi identificado em assaltos de 1940. Os dois foram fotografados para a posteridade. Pepe foi autopsiado e sepultado em Entrimo.

Neste espaço temporal de dois-três anos, outros assaltos sucederam, como o do comércio de Rio Caldo. O grupo era bastante activo. É difícil dizer quantos homens tiveram o(s) grupo(s) e os seus nomes.

Para outras calendas vão ficar nomes como Emilio, o Capitan, também Mala Pinta ou Emilio Aguado, que continuava a monte em setembro de 1943 (Róman, 2016:274).

Pelo menos num assalto participam castrejos do Ribeiro. Estamos numa época difícil. Os primeiros assaltos doutrinados por Manolo Dente de Ouro eram ideológicos, visavam castigar simpatizantes da direita e provocar alguma agitação na fronteira. Como distinguir banditismo de luta ideológica?

 

*Docente de Informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

  Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

  Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

 

Boletim Cultural de Melgaço

Nº 10

2018

pp. 200 - 204

 

 No Alto de Acebo (limite de Galiza e Astúrias) dezasseis combatentes republicanos foram fuzilados pelas tropas falangistas e atirados para uma vala comum. Eis a história da descoberta do local:

"Eles dous (aínda que non só foron eles dous) foron obrigados a cabar unha zanxa para enterrar aos cadavres no ano de 1937. A idade que eles tiñan por aquel entón sería sobre os 14 anos e recordábano perfectamente, pois supoño que son cousas difíciles de esquecer, e máis ainda tendo 14 anos. O certo é que un deles sabía perfectamente os pasos que había que dar desde un carvallo ou desde calqueroutra árbore ou desde unhas rochas. Foi por eles que durante algún tempo que só eran testemuñas silenciosas do avance das máquinhas que unha vez falaron, de seguida encontraron os restos."

Xosé Garcia

E um dos corpos exumados era o do Comandante Moreno, anarquista, integrado no Batallón Galicia

E PARA HONRAR O COMANDANTE MORENO FICAMOS EM CASA

 

26/03/2020  13:25 por LUSA

CERCO SANITÁRIO MOSTRA A PARADA DO MONTE QUE NEM O "CANTINHO" ESTÁ SALVO.

O cerco sanitário em torno da aldeia de Parada do Monte despertou os 370 habitantes para uma "realidade" que não imaginavam ser possível, por viverem num "cantinho" do concelho de Melgaço que julgavam "guardado" da covid-19.

O "pesadelo" começou na segunda-feira, com a confirmação de um casal de idosos infetados com o vírus de covid-19 e transformou-se "numa coisa do outro mundo" com o terceiro caso e a consequente imposição do cerco sanitário decidido na quarta-feira pela Câmara de Melgaço, no distrito de Viana do Castelo, para conter a propagação da doença.

"Ninguém imaginava uma coisa destas. Isto é uma coisa do outro mundo. E no concelho de Melgaço, infelizmente somos nós os primeiros", desabafa Helena Barreiros.

Aos 48 anos, dona de uma mercearia da aldeia", "nunca" imaginou "estar a viver um pesadelo" que sempre pensou ser impensável em Parada do Monte.

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 branda de fitoiro - parada do monte

 

TERÇA-FEIRA, 31 DE MARÇO, MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA PUBLICA UM NOVO POST

 

VAMOS TODOS FICAR EM CASA

 

 

 

 

ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.01.20

P1090625 Américo Rodrigues e unha testemuña da v

    américo rodrigues e uma testemunha da vida arraiana em melgaço na época das ditaduras

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

 Américo Rodrigues (1)

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

A freguesia montanhosa é rodeada a norte, nascente e sudeste pela Galiza – várias comarcas – perfazendo a raia seca entre Minho e Lima, traçada desde o marco 2 ao 53. No sul da freguesia, a fronteira é riscada pelo rio Laboreiro, desde Mareco ao sul do Ribeiro de Baixo. Pela sua situação geográfica, nos anos trinta, o contrabando era a principal indústria local. Em 1936 existiam três postos de Guarda Fiscal (GF): Portelinha (saída da freguesia em direcção a Melgaço), Vila (central) e Ameijoeira, junto ao marco 52 e 53. Fora da freguesia, bem perto, o posto de Alcobaça.

Nos anos 70, nas inverneiras, os caminhos eram empedrados e a luz era de candeia. À época, minha avó materna tinha teto de colmo. Era normal os vizinhos juntarem-se à troula (2) para matar o tempo invernal nas noites mais longas. Depois da ceia castreja (3), os contos nos escanos, junto ao lume, eram para todos os gostos. Ocupavam o palco brilhantes narradoras, nascidas nos primórdios do século XX. O guião histórico e cultural era sempre riquíssimo. É verdade, nestas terras altas, discorrendo sobre assuntos do terrunho, as mulheres sempre foram mais sábias que os homens, condenados desde tenra idade às agruras da emigração. A guerra civil de Espanha (1936-1939) por vezes vinha à baila. Os “roxos” (4), sem saber na verdade quem eram, os falangistas ou Francisco Franco, que tinha o nome do meu avô paterno – Francisco Rodrigues falecido numa pedreira de Paris em 1933 -, começaram a fazer parte do meu léxico.

Os dois esconderijos de refugiados mais próximos do lugar do Barreiro, a Gruta dos Refugiados do Piorneiro (na verdade dois sítios), e a Lapa da Ponte Cimeira, em frente ao monte da Fraga, eram referências obrigatórias. Alguns vizinhos, principalmente rapazes novos, tinham levado comida aos galegos que estiveram nesses locais. No Piorneiro estiveram homens fortemente armados. Chegaram a fazer um carro de vacas para particular. Quem não faltava também, nesses passos nostálgicos, eram os escapados que acolheu a vizinha da minha criação, Isabel Domingues, a tia Carvalha, também Valenciana, no Barreiro e em Queimadelo, lugar onde a tia Monteira também os recebia. Estes desesperados muitas vezes ajudavam na economia do lar, com víveres ou dinheiro. Contribuir com trabalho braçal era raro pela excessiva mão de obra (5) existente naquele período e pela pobreza dos sítios.

Eu imaginava a gabada beleza da professora Eudosia Lorenzo Diz, “a Maestra”, denunciada de forma covarde e aprisionada a 17 de maio de 1938, juntamente com os seus progenitores, pelo chefe da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, de 1933 a 1945) do Peso, acompanhado de guardas do Posto de Portelinha, no lugar do Rodeiro, onde  ensinara as primeiras letras às crianças que a procuraram, na casa de António Domingos Rendeiro.

Salvou-se milagrosamente e rumou a Marrocos, via Lisboa, em 10 de agosto de 1938. Tinha chegado a Castro Laboreiro em 20 de julho de 1936.

Rosaura Rodriguez Rodriguez, refugiada, apesar da jovialidade, já tinha quase 80 anos, morava numa casinha feita pelos vizinhos no lugar de Açureira, a 200 metros da minha escola primária de inverno. Era de Bouzadrago, aldeia galega que dista poucos quilómetros. Optara por ficar para sempre no lado português. Desaparecida a loja permanente do tio Bernardo no lugar, quando os vizinhos subiam às Brandas esta mulher, aparentemente singela, ficava sozinha, rodeada de carvalheiras durante muitos meses. Sem medo algum, dava que cismar aos mais novos, era uma vida de mistério e coragem.

Fascinou-me sempre o episódio da morte violenta do guarda fiscal na taberna da Macheta, Vila de Castro Laboreiro. É verdade que fui educado a desconfiar de guardas mas, seria correcto os contadores da tragédia não condenarem o crime de forma inequívoca? O atirador teve poiso em Várzea Travessa, Barreiro (casa da tia Carvalha) e Ribeiro de Cima, suspeitava-se que era um oficial importante da aviação, apresentava-se de forma impecável, fato e gabardina, muito educado, tinha escola, diziam os castrejos que com ele privaram. Era conhecido por Manolo, o Dente de Ouro. Depois do trágico acidente foi confrontado pelas autoridades no Ribeiro de Cima. O perfil, desaparecer sem deixar rasto, e o acontecimento brutal e decisivo que colocou as autoridades definitivamente no encalço dos refugiados, ficou para sempre na memória da freguesia.

Os galegos que prenderam no Bago de Baixo foram fuzilados. A guarda cercou o lugar e foram encontrados na côrte das vacas na casa dos Negritos. Estavam na moreia do estrume (6), roçado no monte e destinado à cama dos animais. Usaram estacas de ferro para os procurar e fazê-los sair.

Júlio Medela, refugiado da Lobeira casou no lugar de Formarigo, os filhos frequentaram a escola e os bailes casadoiros com os nossos pais.

Contavam-se fatias de assaltos violentos a lojas galegas nos anos 40, realizados por alguns escapados. Os atracadores usavam armas de guerra. O Rizo e Enrique, o Médico, eram nomes famosos.

Na minha criação, estas e outras referências a nomes, profissões, locais e episódios, ainda abundavam por toda a freguesia.

A Guerra Civil de Espanha de alguma maneira fez parte da minha meninice. Há muito que o tema me fascina, anda na minha cabeça, algumas vezes pensei em escrever sobre o assunto, mas tinha algum receio, porque me faltavam dados e, principalmente não valorava convenientemente a temática.

 

(1) Docente de informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

(2) Serão nocturno de convívio.

(3) Jantar.

(4) Alguém politicamente das esquerdas.

(5) Centenas de homens que emigravam normalmente para Espanha e França estavam junto à família.

(6) Em Castro, mato constituído de tojos, carqueijas, etc.

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO

Nº 10

2018

pp. 168-172

 

HOMENAGEM A PEPE VELO EM MELGAÇO

 

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 apresentação do evento

 

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 descerrar do monolito

 

P1090632 Representante Deputación de Pontevedra.J

 representante deputación de pontevedra

 

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 representante câmara municipal de melgaço

 

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 xosé gonzález martínez - asociación lois peña novo

 

P1090627 Antonio Piñeiro,  estudoso de Pepe Velo

 antonio piñeiro estudoso de pepe velo e traballa na casa do concello de celanova

 

P1090649 Público en xeral o día da inauguración

fotos cedidas pelo senhor xosé garcia 

 

A PÁGINA ON-LINE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO, PORTAL MUNICIPAL DE MELGAÇO, NÃO DEDICOU UMA ÚNICA LETRA A ESTE EVENTO QUE FOI PATROCINADO PELA PRÓPRIA CÂMARA.

O LILI DO TEODORICO

melgaçodomonteàribeira, 24.11.18

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

I

O Lili do Teodorico era o assunto de momento. O Alfredo Pereira, mais conhecido como Pandulho, oficial de diligências, divulgou que o rapaz fora indicado pelo ministério público e iria a julgamento. Perplexo, o povo da terra passou a especular. Inventavam várias hipóteses para explicar o acontecimento.

Novamente o Pandulho, que tinha acesso ao processo deu a explicação: o Lili, Teodorico João Fernandes como fora baptizado, escrevera ao Ministério da Saúde, em Lisboa, reclamando do não fornecimento da penicilina à sua farmácia. E acrescentara: «os donos das outras farmácias da região estavam ganhando muito dinheiro vendendo o remédio para a Espanha». A reclamação foi tomada como denúncia e teria de provar tal afirmativa.

O uso da penicilina era rigorosamente controlado e sua comercialização não oficial era considerada crime contra a economia nacional. No fim da segunda guerra mundial os jornais anunciaram como grande descoberta, um medicamento que iria acabar com todas as doenças inflamatórias, a penicilina. O povo simples logo enfeitou a notícia a seu belo prazer.

Naquela pequena e humilde vila dos confins de Portugal, ou melhor, onde começa Portugal, a notícia da maravilhosa descoberta gerou várias versões. Seria a redenção da humanidade, curaria todas as doenças e até nem precisaria ser comprada nas farmácias. Os mais esclarecidos destrinçaram a notícia: num laboratório nos Estados Unidos, uma cultura de germens produziu um certo bolor que eliminava vírus, bactérias e micróbios. Elaborado foi comercializado com o nome de penicilina. Ora, naquela região desde sempre as famílias fabricavam o seu próprio pão. Em priscas eras, de centeio, depois, desde que o milho foi introduzido na Europa, deste cereal. Era o pão feito em grandes broas que duravam a semana inteira. Acontecia que quando não ficava bem cozinhado ao fim de dois ou três dias embolorava; apareciam fungos esverdeados. Quando estas manchas bolorentas tomavam todo o pão não dando para apenas raspar os pequenos pontos, era jogado aos animais, porcos e galinhas, até um dia, no advento da grande descoberta, que alguém divulgou que aquele mofo era penicilina. Ninguém mais jogou pão aos animais durante bastante tempo.

   Importada dos Estados Unidos da América era a penicilina restrita a poucos países inicialmente, e em Portugal chegava em pequena quantidade e seu uso estava sujeito a justificação requerida a organismo próprio. A Espanha que, durante a guerra, fora aliada da Alemanha, sofria bloqueio comercial das potências aliadas que haviam ganhado a guerra. E ainda sentia as consequências da sua guerra civil. Estava carenciada de tudo. O contrabando de Portugal para Espanha era a momentânea opulência da gente fronteiriça. Esta situação manteve-se os anos quarenta e cinquenta do século XX.

(continua)

 

A RIBEIRA QUE DEIXOU DE SELO

melgaçodomonteàribeira, 08.09.18

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rio trancoso

 

A RIBEIRA QUE DEIXOU DE SELO. A FRONTEIRA GALEGO-PORTUGUESA TRAS O GOLPE DE XULLO DE 1936

 

(…)

 

No primeiro dos casos, e decir, un fusilamento cun xuicio, ainda que sumarísimo e urxente, documentábase o condeado, e polo tanto, eram mais doado o recoñecemento e a deportación cara Portugal. Cando a morte producíase pola acción dos teóricamente incontrolados, esto non era posible. Recibíronse informacións de morte de traballadores portugueses da vía férrea Ourense-Zamora, ou mesmo a escoita de disparos pólos postos de vixiancia da raia que logo resultan ser fusilamentos de persoas desta nacionalidade afincadas en España.

Mais a colaboración máis estreita neste proceso de represión tivo lugar na zona de Castro Laboreiro. Dende o comenzo da guerra houbo un importante continxente de fuxidos que tras pasar a fronteira tentaron agacharse nas súas montañas, levando a cabo en ocasións actividades contra o réxime portugués e contra os destacamentos ‘nacionais’. Era evidente que o mantemento dun grupo paramilitar dentro de territorio portugués, nunha situación de conflicto bélico no país fronteirizo non era unha situación moi agradable para as autoridades do Estado Novo.

Ainda que esta circunstancia fora un producto directo da situación de inestabilidade civil en España, o Estado Novo tiña que poñer remédio dende a súa autoridade para o seu territorio. Dende finais de xullo de 1936 tiveran lugar numerosas incursións de españoles armados nesta zona. Un mes despóis, Tomás Fragoso, Gobernador Civil de Viana do Castelo, recordaba ó Ministro do Interior portugués estas accións, e recomendaba a conveniencia de reforzar ós postos da Guardia Nacional Republicana para evitalas. O seu fin era evitar casos semelhantes e poder manter o prestígio português e defender a integridade nacional.

Mais o problema na zona continuou prácticamente durante toda a guerra civil. As batidas na procura dos agachados foron compartidas entre falanxistas españois e militares portugueses, moi especialmente a PVDE. Un membro desta informaba de como se realizaban as detencións:

 Geralmente, na montanha, estes indivíduos respondem com a fuga, ou com tiros, a intimidação de ‘Alto! ‘. E então a perseguição faz-se a tiro…

 

Emilio Grandío Seoane

 

Retirado de:

 

HOMENAXES

FACULTADE DE XEOGRAFÍA E HISTORIA

Departamento de Historia Contemporânea e de América

Universidade de Santiago de Compostela

 

http://books.google.pt