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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOMOS EMIGRANTES, SIM SENHOR

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
  Homenagem ao emigrante - Fiães       ESTE TEXTO TEM POR BASE DADOS DOS INSTITUTOS DO GOVERNO PORTUGÊS. MELGAÇO É O CONCELHO COM MENOR NÚMERO DE INSCRITOS EM CENTRO DE EMPREGO. É VERDADE, SIM SENHOR; E DESDE CAMÕES FOI POETICAMENTE ESCRITA A NOSSA BOA SORTE.     "A QUE NOVOS DESASTRES DETERMINAS DE LEVAR ESTES REINOS E ESTA GENTE QUE PERIGOS, QUE MORTE LHES DESTINAS DEBAIXO DALGUM NOME PREMINENTE! QUE PROMESSAS DE REINOS E DE MINAS D’OURO, QUE LHE FARÁS TAM FACILMENTE ? Q (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XXIV

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Não tivera coragem para levantar os olhos da lareira e enfrentar o olhar cordial, mas circunspecto da avó que não ficara nada satisfeita com a resposta. Gostaria tanto de ter a coragem necessária para lhe contar a pena funesta que se apoderara dele, o envenenava e o impelia a destruir-se. Era um jovem e, portanto, naquele momento, parecia mais velho do que a avó que tinha cinco vezes a sua idade. É bem verdade que a pior velhice é a do estado de espírito, que corroi, que se (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XXIII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Não fazia mal. Mostrar-lhes-ia o desdém, a irreverência que tinha por estas pessoas maldosas, diabólicas, luciferianas. Lembrou-se do sermão do padre na missa do último domingo. Para quê ameaçar as pessoas com o Inferno, se elas já são infernais ? O próprio Diabo devia ter ciúmes desta gente ! O balido das cabras acabou por pôr fim ao seu devaneio. Tirou as mortalhas e o tabaco do bolso interior do casaco, velho pelo tempo e pelo uso, e enrolou um cigarro calmamente. (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XXII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    A Lídia não pôde suportar mais tempo o silêncio inquietante do rapaz. Endireitou-se e, inconscientemente, levantou os braços como quem quer contorcer a fatalidade com as mãos. Uma pequena aragem fez mexer os ramos do velho carvalho, a cabeça da moça encheu-se de sombra e o seu coração duma claridade infinita e abrasadora. Então, disse-o, tinha que dizê-lo, era, talvez, a última oportunidade que tinha de fazê-lo: “Gosto de ti, Mindo.” A suavidade do timbre e a (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XXI

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Às tardes, o Armindo sentava-se no muro e não cessava de olhar para a curva do caminho, esperando, a todo instante, ver despontar a Lídia com um saco às costas. Nessa tarde, o sol iluminava frouxamente o caminho por debaixo do carvalho e o rapaz, encostado ao eucalipto, acabava de fumar o segundo cigarro do dia. O seu olhar, perdido para lá dos lindos e verdejantes vales que dali podia contemplar, viu súbitamente emergir qualquer coisa no caminho. Era a Lídia. Não trazia (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XX

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    XXII O Armindo entrou no quinteiro com o gado quando já o sol salpicava o horizonte de línguas de fogo alaranjadas. A noite, que no outono parece cair do céu de tal modo cai depressa, não tardaria em instalar-se. Nestes lugares isolados com hábitos regulados e simples, as pessoas reganham as casas a esta hora precoce pois as noites, cada vez mais longas, são feitas para dormir. Fechou os animais e, satisfeito, subiu para a cozinha. O Fedelho não se mostrou, sinal de que a (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XIX

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    XXI Para a Áurea, o domingo não foi longo em chegar. Passara os dois últimos dias a preparar-se mentalmente para este verdadeiro primeiro encontro. A sensação que o Pedro lhe produzira, quando bateu com ele na feira, fora extraordinariamente agradável. O importante era ver se o cenário, embora não voltasse a ser tão intenso, produzia as mesmas sensações. Como tinham combinado, encontraram-se de tarde na pastelaria da alameda. Estavam a ser duas horas.  Nesse dia, os (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XVIII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
         XX No dia seguinte levantou-se à hora habitual e ainda o sol estava a espreguiçar-se  e já ele ia pelo caminho da azenha. Os dias repetiam-se e raramente divergiam. A manhã estava fresca, mas o sol não tardaria em aquentar um pouco o ambiente. Quando chegou ao cruzeiro ouviu as pancadas que as marteladas espaçadas e matinais do ferreiro propagavam até ele. Vindo de mais longe, talvez do caminho de Cubalhão, ouviu chocalhar e berrar alguém como quando as reses (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XVII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    XVIII Só quando chegou à casa é que a Áurea reparou que deixara ficar no café o saco com as meias e o cachecol, assim como os pastéis. Iria mais tarde recuperá-los. Sentou-se na cama a pensar no que lhe acontecera, como reagira, as razões e as possíveis consequências. Quantas vezes pensara nisto ! A gente cuida sempre que só acontece aos outros ! De todos modos, não tinha nada que deplorar. Reagira como qualquer outra, na sua situação, reagiria. Nem mais nem menos. (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XVI

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    XVII Às sete e meia da manhã, a Palmira e o filho estavam sentados à mesa da cozinha. Era domingo. Cada qual tinha diante dele uma malga de sopas fumegantes. Para ela, a comida tinha de estar bem quente, ainda que tivesse que esperar ou soprar-lhe, de outro modo, não a queria. Tinham-se encontrado na cozinha, lavado a cara e preparado a desjejua sem se terem dirigido uma só palavra. Evitavam cruzar o olhar. A Palmira tinha a cara particularmente ressequida pelo cansaço físico (...)