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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 8

melgaçodomonteàribeira, 22.05.20

 

Apesar disso, com as parcas recompensas da lavoura, os magros teres e uns trapicheos – negócios ilegais – circunstanciais, a existência jocosa desta população era visiva.

A gente aceitava a vida rotineira, estóica, compassada pela carrinha que, de manhã, lhe trazia peixe fresco de Vigo; pelo tempo, que era o decisor invariável da viveza e dos encargos colectivos; e pelos crebros comboios que faziam ou não uma transitória paragem no povoado.

O prestigioso e sumptuoso Expreso Rías Bajas que unia a Ciudad Olívica – Vigo – à capital do Reino – Madrid –, e ali apitava por volta das onze da noite, deixava-os impressionados, atónitos. Cópia do famigerado Orient Express, fora fornido, como outros, pela Compagnie Internacionale des Wagons-Lit, depois da sociedade belga que criara o ilustre comboio cessara toda exploração como operadora ferroviária em 1971.

Através das vastas e lustrosas vitrinas do vagão-restaurante, enxergavam os viajantes endinheirados diante de pantagruélicos e refinados pratos. Este espectáculo mirífico e, ao mesmo tempo, fantasmagórico – possível devido à morosidade da locomotiva, compelida pela sinuosidade da linha – pasmava-os e devolvia-lhes a modicidade e a inanidade com as quais se debatiam

Para a prosperidade das aldeias e os seus moradores, a estação era capital, era o seu âmago; a linha Vigo-Orense, o sendeiro para as deslocações inevitáveis. O comboio constituía a única alternativa para os poucos jovens que ainda havia nos lugares redondezes de ambas margens, e cujo futuro dependia dele. Os colegiais utilizavam-no para ir a Ribadávia onde se situavam os colégios mais acercados; os que faziam estudos superiores apanhavam-no à sexta e ao domingo à tardinha para regressar a Santiago de Compostela, depois de um fim-de-semana entre os seus.

Da orla esquerda, distinguia-se um belo, harmonioso e sólido casarão burguês. O contraste com as casas das aldeias das duas ribas era espectacular. Os que se dirigiam para a estação ficavam uns instantes admirativos diante daquele solar, apesar de já o terem visto,. O considerável terraço e as colossais galerias envidraçadas, face ao rio, ofereciam uma vista fantástica sobre o Minho, e Portugal. Mais abaixo, na parte traseira, uma serração inteiramente mecanizada era imperceptível. Nela trabalhava perto de uma dezena de homens. Mensalmente, despachavam vários vagões abarrotados de pranchas, vigas, traves, troncos e outras madeiras para toda a Espanha. O caminho-de-ferro, ao qual estava subordinada, configurava a sua artéria indispensável.

Era pertença da família Alves Gomes. O genitor, natural de Ponte de Lima, casara com uma espanhola, mas tanto ele como os numerosos filhos eram conhecidos pelos Branquinho. O contrabando fez dele um homem fértil. Várias casas e terrenos disseminados pela zona, serviam-lhe de entreposto para tudo o que contrabandeava. Excluindo o chefe da estação, só ele usufruía de telefone. Apesar da sua influência e dos seus conhecimentos, teve de se refugiar uns tempos em Cevide – onde começara a negociar antes de se instaurar do outro lado – por ter sido objecto de delação. Alojou-se na casa onde vivera, meio degradada. Dali, com um cúmplice, coordenava o seu business sem ser molestado. Para controlar os guardas fiscais com mais facilidade, comprou o moinho junto do Trancoso, a dois passos do posto.  Intencionara fazer umas obras de conforto na moradia, mas não teve tempo: o obstáculo que o compulsara a espaçar-se dos seus fora revogado. Reinstalou-se no casarão da Frieira, de onde pilotou os negócios até falecer.

A família Branquinho fora a mais virente e basta da Frieira da margem direita do Minho. Graças ao pé-de-meia amealhado pelo Alves Gomes, os filhos puderam reciclar-se um pouco por toda a Galiza. Só o mais novo, o Carlos, prorrogou o business que enriquecera a dinastia Branquinho: o contrabando. O seu terreno era o lugarejo de Pousa, em frente da freguesia de Chaviães, por onde circulavam os artigos postulados pelos fregueses portugueses. O petate, dificilmente levado às costas por uma rampa até à beira-rio, era, em seguida, transportado para o lado português numa batela que fazia um vaivém infindável durante a noite.

Todas as casas que fizeram parte do esquema concebido por Alves Gomes para o exercício da ramboia – contrabando – foram-se deteriorando progressivamente, até se transformarem em ruínas. A algumas apenas se lobrigavam partes, tanta era a vegetação bravia e daninha que as cobria.

 

 

Oficialmente, a tienda do Manolo estava aberta em permanência e sem excepção das oito às vinte horas quando o sol se deitava mais cedo – de Outubro a Março –, e até às vinte e duas horas quando o sol arredava mais tarde – o resto do ano. No entanto, os horários eram flexíveis, raramente respeitados; o fecho era decidido pelo número de clientes e pelas obrigações do matute – contrabando.

Como acontece ordinariamente nas mais pequenas aldeias ou lugares, a sua loja era o local crucial onde tudo o que ocorria, se fazia, se dizia, se sabia ou se pensava na aldeia da margem esquerda era propagado, discutido, comentado e reiterado pela aldeia homónima da banda direita do Minho.

Na loja, ao lado do café, o Manolo vendia um pouco de tudo: géneros alimentícios, louças, recordações, roupas, tintas, panelas, ferramentas, produtos e alfaias agrícolas, e tudo o que reivindicasse o pescador mais intratável e cerimonioso.

Era dono dum autêntico minimercado bastante rentável, que lhe permitia uma vida planturosa e livre de dificuldades factuais. Porém, os proveitos mais roborativos tirava-os do contrabando.

No seu negócio coexistiam pessoas que tinham trabalhos variegados e, visto o leque de produtos que propunha, as razões de lá encontrarem o que era urgente não faltavam. Os consumidores provinham de todo lado e formavam uma clientela fixa e leal.

O escudo, sobreavaliado – não andava longe das duas pesetas –, tornava um grande número de vitualhas muito mais acessíveis em Espanha. Aos sábados, domingos e feriados, mas especialmente aos sábados, naquela região fronteiriça o escudo e os portugueses eram os patrões das lojas, dos cafés e das limitadas boutiques

Regra geral, quando o tempo estava bom, já o Manolo tinha o café e a loja abertos antes das oito. A Rosa, a criada portuguesa, era a primeira a madrugar a fim de passar a esfregona no chão do café e da loja; o patrão, o segundo, cerca de meia hora mais tarde.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 7

melgaçodomonteàribeira, 09.05.20

 

O não dito reforçava-se e acalentava-lhe, com veemência, o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo.

As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. Por enquanto, tinha de refreá-las sem piedade, custasse o que custasse. Faltava-lhe a audácia, prisioneira dos efeitos garantidos. Por vezes, asfixiavam-na tanto que tinha crises de dispneia. Estava de mãos atadas; era escrava da sua fragilidade.

Tirou a tampa a uma panela enfumarada que dormitava por cima da longeva cozinha de ferro – desvanecida havia bastante –, pegou num prato, entulhou-o de batatas, duma mão-cheia de grelos e de três módicas postas de merluza – pescada –, tudo cozido, e depositou-o diante dele sem uma palavra.

Em Espanha, o consumo pelos mais pobres deste peixe lauto e gostoso  – congelado e de pequena dimensão – derivava do seu baixo preço, causado pela possante hegemonia espanhola: depois da norueguesa, era a frota europeia que mais pescava.

Adiu-lhe um galheteiro encardido, um garfo e um bom naco de pão semiduro que cortou num cacete. Com um pudor conventual, saiu; foi ao puxado e atestou a típica caneca de cerâmica branca com tiras azuis de um vinho recendente e espumoso. O Manel acarinhava ali uma provisão de tintol em garrafões de cabaço – detestava o vinho branco –, bebida de eminente nível, confeiçoada pelos lavradores mais calejados da zona.

A cada refeição, o consuetudinário era um litro. No entanto, havia dias que, por motivos ignotos, vazava pouco mais de meia caneca. O Manel bebia por amor, pela irmandade que o soldava à pinga, à cepa. Ainda não tinha dois anos e já as sopas de vinho alegravam os seus dias.

A placidez sorumbática da casa era amordaçada pelo estribilho casmurro da água límpida do regato.

Estes ápices deprimentes iteravam-se dia sim dia não. Sem se atardar mais, a Gracinda, silente, foi-se discretamente. Subiu as escadas e acostou-se à cabeceira da cama, já desfeita, com o pequeno receptor a pilhas na mão.

Enquanto que o marido se alambazava e drenava a caneca, sobrava-lhe o tempo para lucubrar um tanto; olvidar a vida consternada e sem qualquer ambição ou finalidade que, irreparavelmente, encaixava havia um tempo desmedido.

Era a hora da radionovela, a sua baforada de nostalgia, a sua alegórica escapatória interina, o seu alcalóide biológico. Graças a estes romances diários, simples enredos, devaneava. Apesar das tramas e das manigâncias coriáceas, das inimizades, das perfídeas e das paixões insustentáveis, contrariamente à sua realidade, o desfecho era agradável, romântico. Esta escapulida mental era um reconfortante paliativo que lhe aligeirava as difíceis preocupações conjugais.

Nos dois quartos do lado, a prole, passiva fisicamente, matutava, imaginando um rumo, um caminho, uma bússola. Insubmissos, cada qual vivia no seu universo. Com a petulância arcana dos adolescentes indiferentes às inquietudes, às sombras e à atonia dos pais, eram transparentes, inexistentes. A certeza de um dia enveredarem por um trilho diferente, construtivo e escolhido por eles, estava-lhes obscurecido pelo hodierno mofino dos progenitores e pela penúria. Cada qual tinha o seu objectivo preciso traçado. Embora utópico por agora, tinham uma confiança total neles.

 

 

Nos lugares desleixados como os da Frieira – incalculáveis –, o afastamento e a dispersão dos compósitos e espinhosos trabalhos isolavam, no conjunto, as pessoas durante o dia. O contacto era, pois, impreterível para que não se recluíssem numa insensibilidade sórdida, pestilenciosa. O seu desenvolvimento, notório, desaguava, tristemente, nos aberrantes e inexplicáveis suicídios repertoriados anualmente na região. O instigador, em todos os seus perfis, era e continuará a ser, sem dúvida –independentemente dos perenes pseudoprogressos de comunicação –, a solitude. Este veneno, impassível e infatigável, quando o álcool – o amensalismo com o qual acreditavam combatê-lo – se mostrava impotente, esvaía, murchava e, por fim, destruía-os. O vergonhoso agravamento afónico da desertificação rural não fazia senão periclitar o emaranhamento da problemática.

Aos idosos da aldeia, inofensivos – como aos de todas as outras –, ninguém lhes evidenciava quaisquer razões para os impelir a aproveitar e a ter curiosidade por coisas e recursos que não estivessem estreitamente relacionados com as suas incumbências jornaleiras. Levavam uma vida negligente, embrenhados numa total ignorância e incompreensão do mundo truculento que os envolvia. Sendo, pois, a sua inserção irrealista, o progresso ia-os adulterando e desorientando.

A violência, o sexo, as tecnologias e as práticas cacofónicas e formatadas que viam na televisão – sangrada da sua missão primitiva que era a cultura e a educação dos mais iletrados –, além de os aterrorizar, ainda mais os coagia a persistirem em se enclaustrar nos costumes e nos dogmas arcaicos que sempre foram os deles, e aos quais se empolgavam devotadamente.

O precipício que disjungia a antiga geração da nova era excessivamente largo e intransponível para que a derrisória e árida propinquidade entre as duas o reduzisse com o tempo, mesmo em parte. Viam-se, falavam-se, mas cada qual campava no seu tempo, no seu território, na sua ilusão. A nova – como toda geração nascente –, sitiada por uma cinorexia galopante, era febrosa e vivia o dia-a-dia sequiosa, dessabendo a ainda tenra barbaridade passada; a antiga era uma geração descurada, repudiada, incorpórea, que fazia tudo para ressalvar o que lhe sobejava da acidentada modernidade. Por não entrar nos anais do inédito consumismo crescente – a ditadura contemporânea –, nem os corpos políticos seduzia, a não ser em vésperas de eleições.

Não obstante esse encarceramento instrucional, eram seres curtidos. Vivenciaram e superaram uma trágica e interminável guerra civil – incognoscível para a população – que arruinara o país, orfanara um sem-número de almas, desmembrara milhares de famílias e injungira outras tantas à expatriação. Sustentaram com paciência e dignidade o contragolpe acerbo, deletério e miliário que um período bélico desta amplitude acarreta inexoravelmente. Os estigmas complexos e perduráveis que esta hecatombe cruel, inefável gravou neles, definiram-lhes uma temeridade original e enrijada. Já nada mais os poderia atribular.

 

Continua.

 

NEM PENSE EM SAIR DE CASA, DIVIRTA-SE COM ESTES AMIGOS!

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 6

melgaçodomonteàribeira, 18.04.20

 

Com os anos, aprendera a arrogar-se daquele recanto, a viver ali. Agora suspeitava de que não se conformaria com uma mudança. Era o seu buraco, o seu ninho. Morava em Espanha e via Portugal da sua casa; de ambos lados do Trancoso, falava-se uma língua gémea, e as pessoas não destoavam.

No verão, era um rincão feérico, refrescante; no inverno, para as pessoas que como ele compadeciam ligeiramente de reumatismo, a humidade – acrescida pela que a barragem estancava – acabava por ser inconciliável, ruinosa. «Na vida tudo tem o seu revés; não se pode ter só o lado bom.», desabafava com acrimónia.

Uma vez diante da casa, em vez de escorar a sacha à parede, dependurou-a na parreira, a umbela nos dias de forte sol. Premunia-se assim contra a encurvadura do cabo que o tempo, insensivelmente, lhe faria incorrer; a humectação, por seu lado, fazia com que o cabo da sachola aderisse idealmente à parte férrea. O Manel era muito avisado.

Com o préstimo dum pé, abriu, com vigor, a porta do que outrora fizera as vezes de palheiro e de arrecadação para um carro de vacas e distintos apetrechos para a lavoura. A madeira da armação e da porta da casa, apesar do tempo enxuto e ameno das semanas precedentes, ainda se dilatava.

Entrou na cozinha que, por norma, estava deserta. Além desta, o rés-do-chão do pequeno pardieiro era composto por uma minúscula dependência que funcionava como sala de jantar nos dias de festa ocasionais. De baixo da mesa retirou um banco já meio desgastado pelo seu traseiro e sentou-se. Não havia outro, os demais assentos eram cadeiras. Não se sentia à vontade numa cadeira. Desde criança, as suas nádegas afeiçoaram-se aos bancos toscos, fabricados pelo pai com a madeira das árvores das terras que cultivavam. Aquele, fizera-o ele.

Deixou deslizar um repousante uf de acalmia, de complacência enquanto passeava o olhar lasso pela cozinha. A casa era velha, surrada e insalubre, mas havia muito que transluzia uma conivência absconsa entre ele e aqueles escombros remendados. Fora tudo feito por ele, pelas suas mãos calosas, pela sua força animalesca. Mesmo o primeiro andar, e isso era uma sobranceria que não ocultava a ninguém.

Estava bem. Fora um dia cansativo, um dia de faina como os outros, mas tranquilo, e isso agradava-lhe. Nascera para esta vida.

Alertada pelo ruído da abertura brusca da porta, a Gracinda resvalou com languidez e em silêncio os degraus da escada de madeira em espiral, o acesso aos três ínfimos quartos de dormir, que absorviam o primeiro piso. Intencionalmente, eternizava a descida. Ao fim do dia, quando o travesso marido penetrava no lar, velava em abordá-lo com minuciosa circunspecção; aferia o seu humor, a fim de se eximir do perigo de expressar a palavra indevida que o quizilasse bruscamente de modo irracional.

Pequena, franzina, o cabelo trançado, enrolado e preso na nuca, uns olhos pequenos e vivazes, tinha uma certa graça, mas aparentava não ter qualquer prestância. Portanto, era uma mulher com genica da qual emanava uma energia imparável e uma solidez incrível, tanto compleicional como moral. De tempos a outros, quando a chamavam a ela e ao marido para arrancar batatas ou sachar milho, manejava, de modo pretensioso, uma sachola da mesma polegada que a dele. O Manel, para a acompanhar e resistir ao seu ritmo endiabrado sem perder a face diante dos outros jornaleiros, devia duplicar os esforços. Desforrava-se publicamente da falocracia do homem.

Congratulava-se, com toda a legitimidade, que fora graças à sua volição e ao seu afinco que fizeram as economias correspondentes para adquirir o casebre em que residiam. Actualmente, o marido satisfazia-se em entregar-lhe dois terços do salário do dia, guardando a sobra para cuidar da sua fraqueza dipsomaníaca.

A Gracinda, apesar de fazer uns biscatos todos os dias, tinha necessariamente de ser muito parcimoniosa em tudo: na alimentação, na electricidade e, em especial, no vestuário. Embora limpa, trajava sempre a mesma roupa: uns dias com uma, outros, com outra e, ao domingo, com a mais engalanada. O mesmo acontecia com o marido. Os filhos, jeunesse oblige, eram bem mais impertinentes.

O Manel, ciumento como um leão, condenara-a, desde que se tinham amigado, a vestir calças quotidianamente: não admitia que lhe mirassem as pernas. Demasiado perfeitas e excitantes, captariam, a seu ver, olhares devassos; era uma criação da qual tutelava o monopólio visual.

Para os usos recorrentes da terra – omitindo as adolescentes e as vintaneiras mais emancipadas –, esta conduta feminina não era nada bem vista pelas sexagenárias e septagenárias, que eram a maioria na aldeia. Contudo, o tempo, inebriante e indulgente, foi empreendendo uma estagnante cura homeopática, fazendo com que até as mais escandalizadas se vergassem àquele modelo de trajo.

A Gracinda falava pelos cotovelos. Em geral, a verborreia é vista por muitos como uma anomalia, um descabimento, mas, na Frieira, para sua grande alegria, não; provava que a pessoa era extrovertida e se agregava sem demora à vida do lugar.

 «O silêncio é a única coisa de ouro que deixa as mulheres insensíveis.», dizia o Manel. Com ele, havia muito que a Gracinda se resignara a reter a língua, mas com os da paróquia tagarelava de tal forma que, por vezes, baralhada, interrompia-se por já não saber de que estava a falar.

— Vens um bocado mais tarde do que nos outros dias. Vejo que tiveste muito que fazer – arriscou, com prudência.

«Mais uma!», pensou, agastado. Sem olhar para ela, bufou de novo e, em tom agreste, retrucou:

— Só fiz o que tinha que fazer. Nem mais nem menos.

— E agora estás cheio de fome e de sede, não é? A terra seca-te a garganta – ironizou, um nada solicitante.

O Manel optou por não replicar, embora lhe aprazesse mandá-la calar-se. Fruira de um dia simpático, estava extenuado e não queria estragar a noite de descanso. Sentia-se com pouco ou nenhum ânimo para polemicar. Com malacia e martelando bem as sílabas, retorquiu:

— Vejo que não se te pode esconder nada, Gracinda.

Quando o Manel era prosódico, a mulher não duvidava de que o melhor era fazer de conta e pôr um ponto final ao breve litígio. Desolada, deu meia volta e lamentou-se subtilmente. O diálogo não podia aviltar-se. À medida que as dissimilitudes entre eles floresciam, os dias assemelhavam-se proporcionalmente.

continua

  

 

 

VAMOS TODOS FICAR EM CASA

 

 

GALEGOS EM MELGAÇO - MARGINALIDADE E ASSISTÊNCIA

melgaçodomonteàribeira, 14.04.20

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A PRESENÇA GALEGA NO ALTO MINHO NOS FINAIS DO ANTERIOR REGIME

Alexandra Esteves 

Muitos dos mancebos espanhóis que atravessavam ilegalmente a fronteira para escapar ao recrutamento militar e procuravam guarida em Portugal tinham grandes dificuldades em angariar o seu sustento, pelo que acabavam por ingressar em grupos de salteadores e enveredar pelo banditismo. Em 1835, as autoridades galegas, conhecedoras deste fenómeno, solicitaram ao governador civil de Viana do Castelo que “se no permita que ninguna persona desconocida passe de un reino a outro sin o qual indispensable documento sea arrestado como sospechoso”. Nesse ano, muitos desertores galegos que estavam refugiados na zona de fronteira compreendida entre Castro Laboreiro e Valadares constituíam um autêntico manancial de recrutamento das quadrilhas que atuavam na região, em particular a de Tomás das Quingostas. A inoperância revelada pelas autoridades portuguesas na captura deste assaltante era incompreensível aos olhos das suas congéneres da Galiza, onde tinha perpetrado uma série de desmandos, dada a facilidade com que se movimentada pelas feiras e festas do Alto Minho.

A ineficácia na vigilância do território raiano punha em causa a segurança de pessoas e bens, dado que tanto as quadrilhas de ladrões como os pequenos larápios se dedicavam, sem grande dificuldade, a pilhar igrejas e habitações galegas e minhotas. A resposta portuguesa, no sentido de pôr termo à situação, traduziu-se no reforço da guarda da fronteira nos locais mais propícios à entrada e movimentação de desertores, nomeadamente em Castro Laboreiro e S. Gregório.

Por outro lado, a cumplicidade entre o bandido português Tomás das Quingostas e o guerrilheiro espanhol Mateo Guillade, conhecido salteador e carlista, era motivo de grande preocupação para as autoridades dos dois países. Este, por várias vezes, se refugiou em Portugal com a cumplicidade da quadrilha de Quingostas e de miguelistas. Em funho de 1837, por exemplo, foi detetada a sua presença na cidade de Braga. Em agosto desse mesmo ano, sabia-se que estava refugiado em Melgaço.

Ao longo da década de 30 do século XIX, era frequente as autoridades galegas solicitarem a Portugal a captura dos soldados sorteados para o serviço militar. Todavia, esta missão revelava-se difícil, uma vez que os fugitivos contavam com a conivência das populações que os acolhiam e os sustentavam em troca de prestação de trabalho não remunerado. Esta situação revelava-se vantajosa para os lavradores locais, pelo que não estavam interessados em denunciar a presença de trânsfugas nas suas comunidades.

 

A PRESENÇA GALEGA NO ALTO MINHO NOS FINAIS DO ANTIGO REGIME: ENTRE A MARGINALIDADE E A ASSISTÊNCIA

 

Alexandra Esteves

Universidade Católica Portuguesa Lab2PT

Universidade do Minho

pp. 129-131

 

 

 

LAR EM MELGAÇO LEVOU CRUCIFIXO A UTENTES EM APOIO DOMICILIÁRIO

 

OUTRO CASO ACONTECEU NO CENTRO SOCIAL DE PADERNE, EM MELGAÇO, ZONA ONDE JÁ SE REGISTARAM, NOUTRO LAR DE IDOSOS, MORTES POR COVID-19. SEGUNDO O JORNAL O MINHO, FOI A DIRETORA DE SERVIÇOS DAQUELE LAR QUE TOMOU A INICIATIVA DE IMPROVISAR UMA VISITA PASCAL AOS QUINZE UTENTES QUE BENEFICIAM DO APOIO DOMICILIÁRIO DA INSTITUIÇÃO.

ÀQUELE JORNAL, A RESPONSÁVEL ADMITIU QUE NÃO SEGUIU AS INDICAÇÕES DA DGS E EXPLICOU: "A INICIATIVA FOI MINHA, ERA A MINHA VEZ DE LEVAR OS PEQUENOS-ALMOÇOS AO DOMICÍLIO E DECIDI LEVAR UM POUCO DE ALEGRIA A CASA DESTAS PESSOAS". QUATRO UTENTES DO REGIME DE APOIO DOMICILIÁRIO BEIJARAM A CRUZ, QUE DEPOIS FOI LEVADA PARA O INTERIOR DO LAR DE IDOSOS E DEPOIS BEIJADA POR OUTROS IDOSOS.

"FIZ ISTO PORQUE MUITOS DELES NÃO TEM NINGUÉM, A FAMÍLIA NÃO OS PODE VISITAR E ANDARAM A SEMANA TODA A QUEIXAR-SE PORQUE NÃO IAM TER PÁSCOA ESTE ANO" AFIRMOU A RESPONSÁVEL CONSIDERANDO A SUA AÇÃO COMO UM ATO DE "CARINHO" PERANTE OS IDOSOS QUE "SÃO MUITO CATÓLICOS".

DENTRO DO LAR O CRUCIFIXO FOI DESINFETADO COM ÁLCOOL ENTRE CADA BEIJO. "a INTENÇÃO ERA MELHORAR O ESTADO ANÍMICO DOS UTENTES, NUNCA PENSEI QUE AS PESSOAS FOSSEM LEVAR PARA O LADO DE QUERER FAZER MAL", DISSE A DIRETORA DOS SERVIÇOS DA INSTITUIÇÃO.

A CÂMARA MUNICIPAL JÁ EMITIU UM COMUNICADO A APELAR A TODAS AS INSTITUIÇÕES DO CONCELHO QUE SIGAM AS PRÁTICAS QUE CONSTAM DO PLANO DE CONTINGÊNCIA DO MUNICÍPIO.

(...)

Segunda feira,13/04/2020  20:07

Publicado no jornal online OBSERVADOR

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 5

melgaçodomonteàribeira, 04.04.20

 

A esposa, a Gracinda, quando a oportunidade o propiciava, não desprezava estas fantochadas de ricos, como ele lhe chamava. Influenciada pelas cativantes estultícias da pantalha e pelas constantes cantilenas das colegas, insistira várias vezes com ele para que arranjasse uma televisão em segunda mão; o homem foi sempre intransigente. Um dia, colérica, chantageou: «Pois olha, se não a compras tu, compro-a eu!» O Manel, convencido da sua supremacia, rira e, cinicamente, advertira: «Com o machado, abro-ta ao meio, Gracinda.» Desistiu. O marido não tinha por hábito ameaçar em vão, e ela sabia-o bem; tinha a triste confirmação disso no corpo.

Para não suspender a viagem  quimérica à mulher do patrão, ainda que fosse apenas por uns segundos, bateu de mansinho com a manápula aberta por cima do balcão. A cortina afastou-se quase instantaneamente e o Manolo desembocou da cozinha. Verteu o tinto na tigela sem pronunciar uma palavra e, consoante irrompera, assim  desapareceu.

Havia pouco tempo que coabitavam. Para ele, pouco tempo era um, dois anos. No entanto, estimava-o e testemunhava-lhe uma sincera admiração por ser um homem obsequioso, sempre bem-disposto, consciencioso e que escutava os problemas dos outros. Era uma maneira de ser que lhe agradava. Graças a Deus, até àquele dia, não tivera de ir bater à sua porta... nem à de ninguém. Ainda que não o demonstrasse, nem o confessasse, o Manel estava a par de muitas coisas. Para ele, a reserva e a civilidade eram propriedades consubstanciais.

Percebera que, embora fosse bastante galhofeiro, era um homem seriíssimo. Quando, por coincidência, assistia às suas pilhérias, ria com um anelo irrefreável, apesar de nem sempre as compreender. Eram suficientes as suas mímicas, a fraseologia e o estilo para o fazer gargalhadear.

Uma música mais forte apregoava o fim da telenovela.

A Maribel, depois de se espraiar ruidosamente, levantou-se com a alhada costumeira. Saíra do entorpecimento em que as novelas a entranhavam. De estatura média, cabelo preto cortado à rapaz, usava uns vestidos floreados, largos e compridos. Forcejava-se para encobrir ao máximo as redondezas que a entristeciam e contra as quais conflituava desde o primeiro e único parto: pesava uns bons vinte quilos a mais do que o marido.

— Ai, tu estavas aí, Manel? Não te vira.

«É bem verdade que as mulheres desgraçam a cabeça com estas palhaçadas», disse para si.

— Vens do Freixo, não? – e acrescentou logo – Vens tarde, carambas!

A observação não o incensou. Um esgar inaparente dos beiços traiu o seu descontentamento. No timbre da voz decifrou, uma vez mais, a ponta de diatribe habitual à qual nunca se acostumara.

E se tivesse trabalhado até anoitecer ou se, como era proverbial, tivesse dilapidado o restante da tarde a beber? Vinha quando queria e lhe apetecia e ela não era quem para o reputar sobre o emprego que fazia do seu tempo. Quando é que a gente abandonaria essa ousadia, essa desenvoltura de se entremear na vida dos outros e de os avaliar?

Não era o que ela conjecturava, a ideia que fazia das suas quedas, dos seus vícios ou da sua vida que o irritava, mas a permissividade com que se sentia autorizada em admoestá-lo.

Que cresse o que quisesse! Devido à sua mandriice e à sua verbosidade, o carinho por ela nunca levedara e, cada dia, mais abaixava.

A despeito do fastio com que as suas palavras o tinham acirrado, sorriu-lhe friamente e deu aos ombros. Preferiu fazer o néscio e não ripostar.

Podia ser reconhecida ao formidável marido, senão havia muito que a tinha posto no merecido lugar.

Exasperado, inspirou devagarinho o mais que pôde. Eram horas de ir para a casa. Apesar do corte da patroa, recobrara vivacidade e tinha fome. Pediu mais uma tigela para o caminho e pagou as três.

Já noite escura, enxada ao ombro e sibilando baixinho, foi encurtando a distância que o abduzia do logo. Depois de percorrer uns cem metros pela estrada, virou à direita, pelo caminho do regato. A partir dali, a ligeira luz – e intermitente – era a do inapreensível astro da noite, quando os cúmulos, de imprevisto, o não impediam de espargir a sua claridade coruscante e imaculada. Por entre campos e por debaixo de um par de latadas, ia ao encontro da velha casa que ocupara uns anos depois de emigrar para a Galiza.

Não ressentia arduidade alguma para se orientar. Era capaz de adivinhar o caminho de olhos fechados. Sem embargo, já lhe adviera, embriagado, de se enganar e de dar sucessivas voltas a um ou outro campo até, por fim, atinar. Outra vez, não caiu no tanque de rega que havia ao lado de uma das latadas porque teve o reflexo de deitar uma mão ao pé de uma vinha.

Uns metros antes de avistar a luz da casa, já ouvia o burburinho particular orquestrado pelas águas do regato, tão recôndito e falante. Discriminava facilmente as variações sinfónicas que, durante o ano, o caudal, umas vezes agitado, atrabiliário e estrepitoso, e outras, sereno, reticente e embalador, gorjeava.

Quando a noite fora boa, deitava-se descontraído, encantado, com a cabeça ensopada de álcool. Durante estas madrugadas, bastante frequentes, a casa afigurava-se-lhe um palácio, o colchão, de penas de ganso, e a mulher, a mais bela e excitante que podia existir. Até o sussurro do ribeiro, que lhe valsava no bestunto, soava como o folclore – uma invenção divina, dizia –, a sua flama, o seu fervor desde que tinha ouvidos. Adormecia arrastado por este arrebatamento, como uma criança, como um serafim.

E, repetidas vezes, tinha o mesmo pesadelo: via-se no cimo de uma montanha, no fundo da qual vislumbrava uma ponte monstruosa sob a qual serpenteava um rio sedicioso. Apesar da sua resistência, terrificado, era propelido no vazio por um viço esfíngico. Apartava os braços e auxiliava-se deles como se fossem asas, até se amainar e governar a conturbação. Em seguida, baixava vagarosamente e pousava-se numa das pontas do viaduto num admirável estado de euforia.

Quando acordava e lhe sobreviviam resíduos destas fantasias, infestava-o uma ledice estrambólica.

 

Continua.

FICA EM CASA, CARALHO

 

O BLOG, MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA, VAI CONTINUAR COMO ATÉ AQUI,  ACRESCIDO DO POST DE TERÇA-FEIRA. COMO TEMOS QUE FICAR EM CASA E OS POST ATÉ AO FIM DO ANO ESTÃO A SER PUBLICADOS AUTOMÁTICAMENTE, VOU FAZENDO UNS ACRESCENTOS PARA NOS AJUDAR A PASSAR O TEMPO QUE ESTAMOS EM CASA... EM CASA... EM CASA...

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 4

melgaçodomonteàribeira, 21.03.20

 

Uma vez chegado ao fim da ponte, fez uma curta pausa e resfolegou com ansiedade. Meio aquietado, consultou o velho Longines de pulso. Havia uns minutos que as sete e meia tinham ficado para trás, mas o Manel guiava-se sempre pela velha. Deu uma olhadela medrosa à casa situada no limite da ponte, o café-loja do Manolo.

Depois da meia hora da carreira, embora descendente, e daquela eternidade de transe e de quebranto psíquico, estava lavado da hora revigorante saboreada na tienda do Perfecto. Umas tigelas eram incontornáveis para se restabelecer.

Tanto no café como na loja, a iluminação ainda não fora extinta. Tinha horários, mas encerrava quando lhe dava na gana. Atendendo à hora incerta e tardia a que habitualmente saía da ponte, a ideia de deparar com o café fechado angustiava-o, espavoria-o. O café do Manolo era o mais chegado à sua casa e o único da Frieira da província de Ourense.

Quando se aproximou, reparou que o carrinho de mão e o moinho eléctrico – modelos que o Manolo expunha todos os dias para promover a venda – ainda estavam colados à parede do edifício. «Hoje está atrasado», pensou. Sossegado, esboçou um sorriso furtivo. Tinha tempo de se refazer sucintamente a fim de voltar à casa com serenidade. Gostava de acabar o dia assim, com remanso.

Desceu o pequeno acidente entre a estrada e o espaço cimentado existente diante do do modesto prédio, e arrimou a enxada contra o banco de madeira azul, disposto do lado esquerdo da porta do café. Várias vezes consertado, aquele assento fazia parte dos raros objectos que tinham subsistido aos trespasses regulares do estabelecimento.

Com assiduidade, aos sábados de tarde, desde que aquela casa fora estruturada, as comadres da aldeia sucediam-se nele: mexericavam e perscrutavam os vizinhos portugueses que ali se deslocavam para fazer compras. Uns palmos acima do banco, uma grande vidraça deixava transparecer o interior do café.

Na sala, a uma das mesas – três, como na tienda do Perfecto, mas bastante maiores – com armadura férrea e tampo de fórmica avermelhada, estava sentada a Maribel, esposa do Manolo. Não havia mais ninguém.

Como era sua usança familiar, cumprimentou a patroa com um canoro «Muito boa tarde, minha senhora!» A mulher não respondeu nem desviou os grandes olhos pretos da astronómica televisão, instalada à direita da porta. Não estava ali. De cabeça erguida, devorava abstractamente o ecrã que expelia uma imagem alterada e estremecida.

Para captar a melhor imagem fazível – a Frieira ficava numa aba –, tiveram de posicionar o televisor no ângulo de duas paredes, colado ao forro, o que, inicialmente, suscitou uns consequentes problemas de adaptação às cervicais dos mirones mais fervorosos.

A Maribel estava imersa na segunda telenovela do dia, o refúgio idílico das donas-de-casa ociosas, insatisfeitas. Nas mãos, um saquinho de pipas – sementes de girassol – que ia decorticando e mastigando como um autómato, atirando descaradamente com as cascas para o chão.

Mesmo num meio conformista como aquele, as telenovelas subornavam e colonizavam os espíritos femininos mais pueris e romanescos. Algumas mulheres, as mais sortudas financeiramente, tinham um televisor, apesar de a imagem não ser fenomenal. Durante as longas horas de claustro caseiro em que tinham que fazer avalanchas de tarefas enfadonhas, valiam-ses destes folhetins sentimentais – nos quais umas se urdiam bucolicamente e outras, em parte, até se identificavam – como um subterfúgio analéptico.

Indolente, o Manel dirigiu-se para o balcão, pouco mais curto do que o comprimento do bar.

— Mais um dia, não, Manel? – saudou-o alegremente o dono do café.

Surgira de trás da cortina que fazia ofício de porta entre o café e uma pequena cozinha, a partir da qual – e do mesmo jeito – podia alcançar a loja, de onde viera. A irrupção de uma pessoa, como qualquer outro facto circundante, não escapava aos seus sentidos atentivos, estivesse num ou noutro lado. 

O Manel, cordial, sorriu-lhe, descalçando os dentes denegridos. Lerdamente, apoiou o cotovelo esquerdo por cima do balcão, afectando interessar-se pelo que o titânico televisor difundia.

A animosidade que enfrentava ao passar sobre o rio amputava-lhe qualquer desejo de cavaquear durante uns quantos minutos. Era-lhe primordial revivificar-se. O Manolo não estranhava e havia muito que deixara de puxar conversa. Conhecia-o bem e cedia a seu bel-prazer ao particularismo do Manel.

Não teve de pedir. Como de costume, encheu-lhe a tigela de tinto e sumiu-se por de trás da cortina.

Molhou o bico, e as papilas, como por magia, horripilaram-se intuitivamente. Ainda que não houvesse mais clientes no bar, como pessoa atenciosa que se orgulhava de ser, fez, com recato, um ignóbil trejeito. O vinho que o Manolo vendia havia umas semanas deixava um intenso sabor avinagrado no gasganete. «É criminal», lamuriou-se sub-repticiamente pela centésima vez. Portanto, tinha muitos adeptos, e ele sabia por quê: era uma pinga capitosa como poucas vezes bebera, da qual meia dúzia de tigelas punham qualquer homem cargado – ébrio – durante umas horas. Por isso, todos lhe perdoavam o agressivo paladar.

Não se podia comparar minimamente com o vinho da tienda do Perfecto que, indubitável ambrosia, quanto mais bebia, mais o corpo adjurava que lhe desse. Para ele, essa é que era a boa pinga. Por muito que ingerisse – e só Deus se inteirava dos seus excessos –, tinha a impressão de permanecer sóbrio.

Interpelado pelos vivos protestos de uma voz feminina, alteou o olhar para a televisão, mas foi incapaz de distinguir o que quer que fosse. Habitava-o uma antipatia paroxísmica por este chisme – objecto inútil.

Nunca se comovera com estas incrédulas absurdidades, nem se sentia concernido pelas figurações idiotas, ridículas, sofisticadas e irreais que ali faziam desfilar todos os dias. Era um mundo tão discordante, tão esparso e afastado do seu e do da gente com a qual convivia! O pouco que, de modo estocástico, fora vendo naquele ecrã apenas concorrera para o confortar nas suas predilecções.

«Aplicam-se a meter-nos os dedos nos olhos. E há quem caia nela. A história é sempre a mesma. Tolices!», sentenciava.

 

Continua.

 

A PARTIR DE HOJE PASSAMOS A 2 POST POR SEMANA, TERÇAS E SÁBADOS.

TEMOS QUE FICAR EM CASA

FORÇA MELGAÇO

FORÇA PORTUGAL

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 3

melgaçodomonteàribeira, 07.03.20

 

 

Com a pesada enxada ao ombro, o passo abúlico e o olhar fixado em permanência na outra margem, como se estisesse a auto-hipnotizar-se, decidiu, mais uma vez, fazer face à dramática travessia da extensa ponte pelo centro, o modo menos aflitivo para ele. Como mais alguns, não se servia dos passeios laterais, protegidos por barreiras metálicas, como justamente recomendava o bom senso.

Uma quinzena de metros abaixo da ponte, a água do rio fronteira golpeava com fragor tudo o que se empenhava em dirimir o seu galope. Esporeado pela brutalidade da água que duas comportas liberavam constantemente, evadia-se da omnipotência da represa. Numa luta perpétua, assediava os escolhos abundantes e os calhaus que o flanqueavam. Estes infindáveis blocos pétreos dimanavam das explosões impostas pelas fundações do açude. Passado este bulício, as águas do rio perseguiam o seu caminho murmurando.

O vácuo assustador entre a ponte e o dilúvio de água, assim como a barulheira retumbante, provocavam-lhe vágados abomináveis. As tigelas de vinho deglutidas frequentemente depois do trabalho acentuavam-lhe rudemente o terrível sentimento de pânico.

Quando, por causas laborais, era obrigado a mudar de margem, só assentia por mérito do lavrador ou se não tivesse outra alternativa.

Este suplício era escamoteado com a mais peremptória cupidez por ele. Ninguém, rigorosamente ninguém, estava ao corrente da sua incapacitante fobia. Era um problema de amor-próprio, de ufania. Não queria, de modo nenhum, ser a risada dos outros. Fazia parte dos inconfessáveis segredos que o laceravam.

Embora não fosse com desopilante prazer, havia quatros dias que trabalhava para um casal de lavradores do Freixo. A primeira vez fora há meia dúzia de anos, quando as rugas os tolhera de assegurar a lida dos terrenos e das cepas. Os três herdeiros da parelha viviam na Suiça e esperavam regressar um dia. Entretanto...

O Freixo era um lugar próspero e gracioso da margem direita, arrimado por cima da Frieira, a meio do monte cuja falda o Manel descera. As habitações – decalque das dos países onde os mais jovens ganhavam a vida –, ressuscitadas ou construídas com os haveres vindos de fora, espelhavam o prestígio dos seus donos. As parreiras seguiam os contornos dos campos, hortados com subtileza, que gozavam de uma exposição solar privilegiada. Esta prerrogativa fazia com que as suas vides produzissem uma uva cujo néctar dava vida a uns vinhos – branco e tinto – inqualificáveis, mas de uma qualidade extra. Apadrinhavam maravilhosamente os peixes nobres do rio e o fumeiro local. Estes produtos, cuja reputação excedera os confins do concelho, faziam a vanidade dos seus habitantes.

O Manel só tinha boas razões para anuir ao trabalho dos idosos lavradores. Com amenidade, preparavam-lhe uma alimentação a seu gosto, sápida e em quantidade mais do que correcta. No entanto, como o conheciam e eram pessoas de incontestável sensatez, acautelavam-se delicadamente na bebida, a fim de prevenir repercussões que se fariam, talvez, reverberar na actividade ou, mesmo, quem sabe, nas relações pessoais.

Por sorte, depois de terminado o dia de labor, tinha, à mão, onde afogar a sua sofreguidão cíclica. No coração do lugar, o Perfecto, um viúvo de oitenta e dois anos, proprietário da única tienda – loja – da aldeia, ostentava uma pinga caseira de prodigiosa categoria no andar térreo da sua casa. Três mesas quadradas, cheias de laivos de vinho tinto e de queimadelas de pitillos – cigarros –, doze cadeiras e um balcão obsoleto – tudo de madeira avelhantada –, mobilavam o negócio. Havia muito que o Perfecto apenas vendia produtos vitais, de última hora, para a alimentação; o pouco que os habitantes do Freixo compravam faziam-no num verdadeiro comércio. Mas, para o Perfecto, a tienda e ele faziam um.

As paredes do seu comércio estavam, quase na totalidade, revestidas de amplos programas anunciadores da festa de San Roque e da  Romaria do Cruceiro Quebrado, as duas manifestações festivas que, anualmente,  faziam trepidar o lugar. O mais antigo, como muitos outros, descorado e amarelecido como uma bola de unto rançoso, datava de mil novecentos e trinta e três e publicitava a Romaria do Cruceiro Quebrado, celebrada o primeiro domingo de Julho. Nesse ano, calhara o dia dois.

Naquela sala grotesca, reuniam-se quotidianamente os mais ancianos do lugar. Num ou noutro programa, todos eles viam e reviviam instantes folgazões, lascivos e imortais da sua vida. Era um passado que os cingia, que os acaparava e ao qual se agarravam jovialmente; um passado catequizado todos os dias num presente artificioso, que lhes ciciava, mudamente, que o futuro se ia reduzindo à medida que o tempo escoado se estirava.

Por turnos e com buliço, jogavam às cartas, o passatempo popular ao qual se consagrava a pluralidade dos galegos. Para eles, o jogo era um rito que veneravam. Para o Perfecto, que os exortava e se presumia numa arena, era o meio de dar vida ao dia, de testilhar a derrelicção.   

Os jogadores, fitando-se, acatavam fielmente o mutismo durante a partida, mas, uma vez perfeita, a tradicional algazarra de críticas e de regozijo empeçava. O folclore associado tinha muita mais importância para eles do que o jogo.

Para os esporádicos espectadores, como o Manel, esgotados pelo estafante trabalho da lavoura, este cenário equivalia a um depurativo revulsório. Encostado ao sumário balcão, sem que ninguém lhe prestasse atenção, seguia, religiosamente, aquela brincadeira com franca satisfação. Achava-lhes muita piada. Dizia que eram castiços, dicção que propalava as suas raízes forâneas. Enquanto ia esvaziando tigelas e mordiscando azeitonas saídas dum molho generosamente apimentado, contorcia pouco a pouco o músculo risório. Radioso, externava inocentemente uns dentes cheios de sarro e num estado avançado de apodrecimento.

Era um homem superficial que fazia tudo para evitar de se complicar a humilde vida. «Como não sabemos o que vamos descobrir mais tarde, acho que o melhor é não nos apoquentarmos com isto», gostava de filosofar.

Um dito insulso punha-o a rir até se mijar. Acomodava-se perfeitamente com coisas simplistas, como ele, como tudo o que tinha conseguido discernir até ali; com o dia-a-dia que, frivolamente, se tinha modelado e com o qual se contentava plenamente. O Manel era, à sua maneira, um homem feliz, um homem para quem um dia chuvoso era sempre ensolarado.

 

 

ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.01.20

P1090625 Américo Rodrigues e unha testemuña da v

    américo rodrigues e uma testemunha da vida arraiana em melgaço na época das ditaduras

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

 Américo Rodrigues (1)

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

A freguesia montanhosa é rodeada a norte, nascente e sudeste pela Galiza – várias comarcas – perfazendo a raia seca entre Minho e Lima, traçada desde o marco 2 ao 53. No sul da freguesia, a fronteira é riscada pelo rio Laboreiro, desde Mareco ao sul do Ribeiro de Baixo. Pela sua situação geográfica, nos anos trinta, o contrabando era a principal indústria local. Em 1936 existiam três postos de Guarda Fiscal (GF): Portelinha (saída da freguesia em direcção a Melgaço), Vila (central) e Ameijoeira, junto ao marco 52 e 53. Fora da freguesia, bem perto, o posto de Alcobaça.

Nos anos 70, nas inverneiras, os caminhos eram empedrados e a luz era de candeia. À época, minha avó materna tinha teto de colmo. Era normal os vizinhos juntarem-se à troula (2) para matar o tempo invernal nas noites mais longas. Depois da ceia castreja (3), os contos nos escanos, junto ao lume, eram para todos os gostos. Ocupavam o palco brilhantes narradoras, nascidas nos primórdios do século XX. O guião histórico e cultural era sempre riquíssimo. É verdade, nestas terras altas, discorrendo sobre assuntos do terrunho, as mulheres sempre foram mais sábias que os homens, condenados desde tenra idade às agruras da emigração. A guerra civil de Espanha (1936-1939) por vezes vinha à baila. Os “roxos” (4), sem saber na verdade quem eram, os falangistas ou Francisco Franco, que tinha o nome do meu avô paterno – Francisco Rodrigues falecido numa pedreira de Paris em 1933 -, começaram a fazer parte do meu léxico.

Os dois esconderijos de refugiados mais próximos do lugar do Barreiro, a Gruta dos Refugiados do Piorneiro (na verdade dois sítios), e a Lapa da Ponte Cimeira, em frente ao monte da Fraga, eram referências obrigatórias. Alguns vizinhos, principalmente rapazes novos, tinham levado comida aos galegos que estiveram nesses locais. No Piorneiro estiveram homens fortemente armados. Chegaram a fazer um carro de vacas para particular. Quem não faltava também, nesses passos nostálgicos, eram os escapados que acolheu a vizinha da minha criação, Isabel Domingues, a tia Carvalha, também Valenciana, no Barreiro e em Queimadelo, lugar onde a tia Monteira também os recebia. Estes desesperados muitas vezes ajudavam na economia do lar, com víveres ou dinheiro. Contribuir com trabalho braçal era raro pela excessiva mão de obra (5) existente naquele período e pela pobreza dos sítios.

Eu imaginava a gabada beleza da professora Eudosia Lorenzo Diz, “a Maestra”, denunciada de forma covarde e aprisionada a 17 de maio de 1938, juntamente com os seus progenitores, pelo chefe da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, de 1933 a 1945) do Peso, acompanhado de guardas do Posto de Portelinha, no lugar do Rodeiro, onde  ensinara as primeiras letras às crianças que a procuraram, na casa de António Domingos Rendeiro.

Salvou-se milagrosamente e rumou a Marrocos, via Lisboa, em 10 de agosto de 1938. Tinha chegado a Castro Laboreiro em 20 de julho de 1936.

Rosaura Rodriguez Rodriguez, refugiada, apesar da jovialidade, já tinha quase 80 anos, morava numa casinha feita pelos vizinhos no lugar de Açureira, a 200 metros da minha escola primária de inverno. Era de Bouzadrago, aldeia galega que dista poucos quilómetros. Optara por ficar para sempre no lado português. Desaparecida a loja permanente do tio Bernardo no lugar, quando os vizinhos subiam às Brandas esta mulher, aparentemente singela, ficava sozinha, rodeada de carvalheiras durante muitos meses. Sem medo algum, dava que cismar aos mais novos, era uma vida de mistério e coragem.

Fascinou-me sempre o episódio da morte violenta do guarda fiscal na taberna da Macheta, Vila de Castro Laboreiro. É verdade que fui educado a desconfiar de guardas mas, seria correcto os contadores da tragédia não condenarem o crime de forma inequívoca? O atirador teve poiso em Várzea Travessa, Barreiro (casa da tia Carvalha) e Ribeiro de Cima, suspeitava-se que era um oficial importante da aviação, apresentava-se de forma impecável, fato e gabardina, muito educado, tinha escola, diziam os castrejos que com ele privaram. Era conhecido por Manolo, o Dente de Ouro. Depois do trágico acidente foi confrontado pelas autoridades no Ribeiro de Cima. O perfil, desaparecer sem deixar rasto, e o acontecimento brutal e decisivo que colocou as autoridades definitivamente no encalço dos refugiados, ficou para sempre na memória da freguesia.

Os galegos que prenderam no Bago de Baixo foram fuzilados. A guarda cercou o lugar e foram encontrados na côrte das vacas na casa dos Negritos. Estavam na moreia do estrume (6), roçado no monte e destinado à cama dos animais. Usaram estacas de ferro para os procurar e fazê-los sair.

Júlio Medela, refugiado da Lobeira casou no lugar de Formarigo, os filhos frequentaram a escola e os bailes casadoiros com os nossos pais.

Contavam-se fatias de assaltos violentos a lojas galegas nos anos 40, realizados por alguns escapados. Os atracadores usavam armas de guerra. O Rizo e Enrique, o Médico, eram nomes famosos.

Na minha criação, estas e outras referências a nomes, profissões, locais e episódios, ainda abundavam por toda a freguesia.

A Guerra Civil de Espanha de alguma maneira fez parte da minha meninice. Há muito que o tema me fascina, anda na minha cabeça, algumas vezes pensei em escrever sobre o assunto, mas tinha algum receio, porque me faltavam dados e, principalmente não valorava convenientemente a temática.

 

(1) Docente de informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

(2) Serão nocturno de convívio.

(3) Jantar.

(4) Alguém politicamente das esquerdas.

(5) Centenas de homens que emigravam normalmente para Espanha e França estavam junto à família.

(6) Em Castro, mato constituído de tojos, carqueijas, etc.

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO

Nº 10

2018

pp. 168-172

 

HOMENAGEM A PEPE VELO EM MELGAÇO

 

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 apresentação do evento

 

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 descerrar do monolito

 

P1090632 Representante Deputación de Pontevedra.J

 representante deputación de pontevedra

 

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 representante câmara municipal de melgaço

 

P1090621 Xosé González Martínez (Asociación Lo

 xosé gonzález martínez - asociación lois peña novo

 

P1090627 Antonio Piñeiro,  estudoso de Pepe Velo

 antonio piñeiro estudoso de pepe velo e traballa na casa do concello de celanova

 

P1090649 Público en xeral o día da inauguración

fotos cedidas pelo senhor xosé garcia 

 

A PÁGINA ON-LINE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO, PORTAL MUNICIPAL DE MELGAÇO, NÃO DEDICOU UMA ÚNICA LETRA A ESTE EVENTO QUE FOI PATROCINADO PELA PRÓPRIA CÂMARA.

GUERRILHA ANTIFRANQUISTA EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 07.12.19

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CREACIÓN  DE LA PRIMERA GUERRILLA ANTIFRANQUISTA EN GALICIA

 

En el año 1939 en fecha indeterminada llegó a Castro Laboreiro (Portugal) un tal Manolo llamado popularmente “Dente de Ouro”, por esse detalle físico. Vivió en Varzea Travesa y en Ribeiro (Portugal), Era muy hábil y capitaneaba a todos los huidos españoles de la zona (declaraciones de Saturnino Darriba y Luisiño).

Realizaba frecuentes viajes a Lisboa y Oporto.

En una ficha informe del SIG (servicio de información de la Guardia Civil) de Septiembre del año 1943 fue identificado como José Rodríguez Páramo de Doade, La policía española lo confirmó por las mismas fechas como Armando Pompilio Fdz Gonzalez vecino de Ourense,

Román Alonso Santos escribe… (Una persona tan significativa en la conformación del grupo guerrillero en la zona fronteriza hispano-portuguesa logró despistar al servicio de información de la Guardia Civil (SIG) y a la Policía Española. Es preciso añadir además su habilidad para salir físicamente íntegro de las situaciones comprometidas).

El nombre de Manolo utilizado en Castro Laboreiro (Portugal) por Victor García García “el Brasileño” era uno de tantos que utilizó a lo largo de su vida clandestina: Antonio, o “Brasileiro”, Estanillo, Manuel Brasleiro, Antonio Ortiz Risso, Manuel García, Antonio García… Com la llegada de Manolo (Dente de Ouro), se impuso un nuevo paradigma de funcionamiento entre los huidos asentado en una clara definición política de la situación. Según la declaración de Pepe do Quarto propuso unirse a todos los refugiados de la zona para protegerse y ayudarse mutuamente porque no estaban ocultos en Castro por bandidos sino por su idoelogía política de izquierdas y por haberse manifestado de palabra y acción a favor de la República y del Frente Popular. No nos consta, escribe Román Alonso pero dado que Manolo era una persona inteligente y culta pudo talvez explicarles que en aquel instante estaban “erizados” los montes de toda España com miles de guerrilleros que traían de cabeza a Franco.

Asi creó “el Brasileño” el primer grupo guerrillero organizado de toda a Galícia localizado en el suroeste Ourensan. Según Luisiño acampaba fundamentalmente en Castro (Portugal) y tenían bastante armamento. También opina José Bernardo que usaban armas cortas de fuego.

Mención especial merece el recuerdo Rosa la “africana” vecina  de Ribeiro de Cima que tenía varios hijos ya mozos y su casa era habitualmente frecuentada por los guerrilleros. Rosaura Rodríguez declararía en uno de los muchos interrogatorios que sufrió, que los tres hijos mayores de la “africana” acompañaban frecuentemente a Manolo Dente de Ouro.

Se citan en esta primera partida guerrillera entre otros los nombres de Paramo, Ramón Yáñez, Rosario Rodríguez Rodríguez, Gabriel Hernández González con Saturnino Darriba, O Rizo y otros valientes luchadores antifranquistas que sería prolijo delatar. O Rizo pese a ser el más nuevo del grupo, o Luisiño le percebía como uma especie de lugarteniente de Manolo Dente de Ouro, el jefe indiscutible.

Un refugiado gallego de izquierda, fue detenido por la policía portuguesa en Alvaredo (Melgaso) y entregado a la española. Interrogado por esta acerca del número de demócratas españoles huidos de la represión franquista y existentes en los pueblos y montes portugueses limítrofes, confesó que eran unos trescientos, armados para su defensa com fusiles Máuzer y pistolas ametralladoras, suministradas en gran medida por la mediación y ayuda financiera de Manolo Dente de Ouro.

 

                                                           Victor Garcia Jr, su hijo

 

 

Retirado de: Víctor García G. Estanillo el Brasileño

http://blocs.tinet.cat/lt/blog/victor-garcia-g.-estanillo-el-brasileno

 

MELGAÇO E CELANOVA NUM ABRAÇO A PEPE VELO

melgaçodomonteàribeira, 16.11.19

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HOMENAXE A PEPE VELO

 

O PROFESSOR AMÉRICO RODRIGUEZ É O AUTOR DUNHA COLABORACIÓN PUBLICADA NO BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO TITULADO “ REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936-1943)”, NA QUE DEBULLA MIGALLEIRAMENTE AS VICISITUDES DE MOITOS GALEGOS QUE FUXIRON DO TERROR DO FASCISMO NO ANO DE 1936.

 

POR XOSÉ GLEZ.|REDONDELA|28/10/2019

 

O Ribeiro, Alagoa, Portos, Eiras ou na Seara, branda do Bico, foron algunhas das aldeas e lugares de Castro Laboreiro foron escenarios escollidos para residiren temporalmente mentres non procuraban unha saida cara o exilio.

Por Crecente, nunha batela, pasou a Melgaço tamén Pepe Velo, despois de estar choído durante moitos meses nun agocho en Moreiras, Celanova. As vicisitudes que tivo de pasar ata chegar ao Peço, onde atopou o amparo dun amigo no hotel Vila de Ranhada, son recreadas por Anton Piñeiro nun relato de próxima publicación co título “As augas do mañá” no que conta esas peripecias ata chegar a Lisboa.

Na capital portuguesa foi detido pola PIDE e safouse de ser entregue ás autoridades franquistas grazas á intervención do novelista venezolano Rómulo Gallegos, amigo seu, que por aquel entón era presidente do pais. Por esa mediación o Consulado venezolano en Lisboa expedíulle un Pasaporte de Emerxencia (núm. 67/48) ”de acordo coas instrucións recibidas do Ministerio de Relacións Exteriores de Venezuela”. Así foi como Pepe Velo puido chegar ao porto de Guarya semanas despois, onde vivíu deica xaneiro de 1961.

Na capital venezolana Pepe Velo dedicouse ao ensino e desempeñou cargos relevantes na colectividade galega, ao tempo que desenvoveu unha frenética actividade política que coroou coa creación do DRIL (Directorio Revolucionário Ibérico de Liberación), que o 21 de xaneiro de 1961 protagonizou a gran xesta heróica do secuestro do buque “Santa María” da “Compañia Colonial de Navegación” portugues. El foi o que deseñou a estratexia e dirixíu o secuestro, como recoñece a prensa internacional daqueles días.

Cómpre dicir que Pepe Velo fora militante das Mocidades Galeguistas en Celanova. Pero a súa radicalización política levouno a colaborar con instancias próximas ao Partido Comunista, concretamente na coordinación da guerrilla no sur de Galicia. Por mor deste compromiso foi deito, torturado e confinado ao cárcere de A Coruña. Aproveitando unha liberdade condicional foxe e refúxiase, como dixemos, en Moreiras…

Pepe Velo era un coñecido da miña casa familiar. Nas sobremesas falábase del. Meu pai construíulle o mobiliario para a academia que tivo, primeiro no barrio das Travesas e logo na rúa Carral, de Vigo. Pero amais diso, entregáballe periodicamente a súa avinza para a loita clandestina.

Pasados os anos, cando me iniciei na militancia nacionalista, o exemplo de Pepe Velo tíveno sempre presente. Perguntáballes aos vellos galeguistas e comunistas sobre el, e non atopei máis ca viscelaridade nas súas respostas. Para eles Pepe Velo era un tolo e un terrorista. En desacordo com tales despropósitos escribínlle ao seu curmán e amigo meu, Carlos Velo, o nosso gran cineasta que vivía no exilio mexicano que me facilitase información sobre el. A resposta foi inmediata (16 de decembro de 1985): “Amigo Pepe: Ei che mando algúns papeis do gran Pepe Velo e o teléfono de seu fillo, Victor Velo, que vive en Sao Paulo. Chámao da miña parte”. Dito e feito. Ao pouco Victor envioume unha morea de documentos inéditos de seu pai. Con eles publicamos un suplemento de catro páxinas no Faro de Vigo, reconstruíndo o vizoso perfil dun republicano galego que foi capaz de poñer en solfa ás ditaduras española e portuguesa durante os días que durou e secuestro do Santa María.

Pepe Velo profíaba no ideal dunha Iberia unida. A sua vída dedicáraa a soñar maneiras novidosas e decisivas para a consecución dos seus obxectivos, que non puido ver realizados porque morreu no exilio en 1972 aos 54 anos.

Agora chegoulle o tempo dos recoñecementos. Xa hai dous anos colocamos unha placa conmemorativa no edificio onde vivira en Vigo. O dia 6 de decembro, en Melgaço, descubrirase un monolito dedicado a súa memoria. En xaneiro, no parque das trigueirizas de Celanova, colucaremos o seu busto en bronce. Dúas homenaxes promividas pola Fundación L. Peña Novo e a Asociaçión de Amigos do Couto Mixto coas colaboracións dos concellos de Celanova e Melgaço, e tamén da Secretaría Xeral de Política Linguística.

 

Enlace á noticia:http://www.galiciaconfidencial.com/noticia/107666-homenaxe-pepe-velo

 

Este texto foi enviado ao blog pelo seu autor, Xosé Glez.