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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 16

melgaçodomonteàribeira, 12.09.20

 

— É uma lástima – desabafou o Manco, afectando desolação ao mesmo tempo que fazia uma curta pausa, questão de o embaralhar e intrigar ainda mais.

Encantado por saber que ia viver um momento de deleite, de vingança mágica, antes que o homem objectasse, proferiu com espontaneidade:

— Sabe por que é pena?

Desconcertado pela incoerência da pergunta, e querendo dar prova de gentileza e de servilismo, o representante oscilou a cabeça negativamente e confidenciou com pudicícia:

— Para lhe ser franco, não sei, caro senhor.

— Pois é muito simples. Também vou ser sincero consigo. Quando era miúdo, uma época que, afortunadamente, não conheceu, na minha família a fome era tanta que, muitas vezes, até pedras éramos capazes de roer se não houvesse outra coisa mais mole. Nunca se desperdiçou um grama de tudo o que se pudesse ingurgitar, nunca, ouviu? Ainda que fosse mal-cheiroso ou que tivesse bichos! Foi assim que, desde pequenino, entre outras coisas, me afiz a comer côdeas de queijo nas quais já se tinham desenvolvido larvas. O mais engraçado é que, pouco a pouco, acabei por ficar doido por estes animais.

O viajante, apavorado pelas palavras do Manco, quase cessara de respirar e fixava-o de olhos bugalhudos. «Introduzi-me na casa de um desequilibrado mental, de um doente ou o homem não estará a falar a sério?», disse para si.

O Manco, convencido da incidência que as suas palavras produziam nele, jubilava. Voltou a tossicar, secamente, desta vez.

E, pretextando surpresa, disse:

— Não me diga que nunca teve a ledice de provar – cochicou.

Com a regozijante intenção de lhe dar a estocada postrema, insistiu:

— Como disse inicialmente, devorava queijo com larvas. Claro que, tirando a família, ninguém sabia. Um dia, já era eu dono desta casa, tive a visita de um amigo de infância que, depois de viver mais de trinta anos no México, se instalou em Santiago. Relembrando os tempos de grande pobreza, inopinadamente, disse-me que, em muitos países da América do Sul, comer vermes, formigas, minhocas, gafanhotos e outras coisas semelhantes fazia parte da cultura culinária dessas populações. Eu, que, envergonhado, comia bichos ao abrigo dos olhares alheios, compreendi afinal que não era extravagância nenhuma. E deu-me a receita para preparar as larvas à mexicana. Que maravilha, meu amigo! É um prato primoroso, pode crer-me. A partir daí, deixei de comer queijo; só os vermes que nele se formam é que têm importância para mim. É o meu péché mignon, um petisco especial, uma glutonaria da qual nem o mais requintado caviar iraniano me faria renunciar. Desde então, este amigo traz-me com frequência de Santiago um punhado de colegas composto por uma clientela de gourmets. Tudo gente reputada, fiel e que me dá o privilégio de a satisfazer. Nem pode imaginar o regalo que os vermes cozinhados  pela Vicenta lhes propicia. Só visto.

Fez uma pausa, antes de prosseguir:

— Mas fique ciente de uma coisa: nem todos os queijos geram bichos da mesma dimensão, rigidez, paladar e espécie. As moscas, engenhosas, escolhem os queijos mais nutritícios para as larvas. Não são parvas! E aí é que está a chatice. A coisa não é tão elementar como se pensa. Além disso, a fineza do queijo sem a individualidade da mosca, ou vice-versa, nunca dará uma categoria de larvas opulentas e suculentas. Contudo, como é a minha única paixão, vou tentando aperfeiçoar-me para conseguir os melhores espécimes. Por isso, quando o interroguei, a sua atitude foi justa, pois desconhece inteiramente estes costumes culinários.

Vibrou de prazer, embora o rosto e o olhar perdurassem estáticos. Sentia-se melhor, enlevado consigo próprio. Porém, a garrafa de branco, obsessivamente, foliava-lhe na cabeça. À mala hóstia primitiva sucedera uma paz sádica. Quando o indesejável fosse embora, sabia que mesmo a bebida ia ter um sabor diferente, bonificado.

Nestes casos, o que lhe aprazia eram as díspares alterações fisionómicas dos viajantes. Quanto mais estupor e incredulidade acusasse o rosto, maior era a instigação para elucubrar o chiste. Moldou o grande e denso traseiro por cima da cansada cadeira, que deu por ela crepitando instantaneamente, e, cauteloso, estudou o jovem caixeiro-viajante: ficou com a percepção de que a pele do seu rosto estava encolhida como a de um Shar Pei, formando um dominó de ressentimento e de sanha.

Não restava absolutamente nada do homem gracioso e inexorável que, havia uns escassos minutos se tinha sentado diante dele. Bruscamente, levantou-se. A tensão, forte, era manifesta. Sem articular uma palavra, desandou em direcção da porta a grandes passadas. Nem se dera ao trabalho de inserir o catálogo no attaché case. O infeliz representante, sem dúvida, já anatematizara o Manco.

— Se um dia desejar, será com a maior satisfação que lhe dou a provar as minhas larvas – lançou-lhe.

Desprendeu uma nádega da cadeira e, arrastadamente, facilitou a fuga dum ruidoso bufo, contra o qual havia alguns momentos batalhava. O alívio foi momentâneo e distensor. «Pantomineiros!», exclamou enojado. E deu uma gargalhada estrondeante que, inevitavelmente, fez vibrar os tímpanos do desafortunado viajante, já lesionados pelo artifício do Manco.

Que ficaria a pensar dele? Que era um alienado? Um bárbaro ou um maníaco? Tanto lhe dava. Era como era e estava-se a cagar para quem o desaprovasse.

Fora uma nova vítima da sua ridícula tramóia e não seria decerto a última. Merecera. Eles é que pediam. Já se obliterara do dia que, pela primeira vez, pregara esta partida nem como excogitara a cena dos bichos.

Pôs-se de pé, levou a garrafa vazia para de trás do balcão do bar e deitou a mão a uma cheia. Deu meia volta, pousou o posterior na cadeira e a garrafa no lugar da outra. Com o toco, apertou-a contra a axila e, com a perícia que contraíra ao longo dos anos, foi enroscando o saca-rolhas que residia no seu bolso. Em seguida, prendeu a garrafa entre os joelhos e excarcerou o líquido amigo, sem o qual a sua vida não teria sentido. Encheu o copo daquele vinho branco sem vida, dormente, que mais se assemelhava a urina opaca, e esvaziou-o febrilmente. O organismo gratificou-o liberando-lhe emanações benfeitoras. Do maço de tabaco que tinha no bolso da camisa, extraiu um Ducados – marca de cigarros – e acendeu-o. Deu duas longas passas que lhe incharam os pulmões obnubilados. A inoportuna interrupção do caixeiro-viajante perturbara-o tanto que esquecera o pitillo. Mas isso já fazia parte do passado.

 

Continua.

 

EVA MARIA É O NOME DA MINHA NETA

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 15

melgaçodomonteàribeira, 29.08.20

 

A mente, saturada de vapores de álcool, afigurava-se-lhe deperecida, despregada do tronco. Procurou decantar as ideias enfezadas que rodopiavam no seu cérebro, mas este, penado, reagiu confusamente. Não tinha desejo nem forças para guindar a cabeça. Raramente, e apenas com finalidade devidamente firmada, o vinham arreliar durante um momento tão íntimo como aquele.

— Não há ninguém?

Desta vez a voz derivava de cerca, mais explícita, mais distinta. A ressonância desaparecera, substituída por umas pancadas secas, insistentes e inconfortáveis, sendo-lhe, todavia, impossível demarcar a proveniência. Sentiu uns adejos temíveis nos tímpanos.

Na sala lôbrega, junto do balcão, mantinha-se um homem sorridente, de uma trintena de anos, solicitamente trajado e engravatado, com uma volumosa pasta preta de couro na mão.  

O Manco, enfurecido, levantou a cabeça abruptamente e, sem abrir os olhos, berrou:

Me cago en Dios! Quem me vem enfadar a esta hora?

Assustado pelo grito estentóreo, e talvez ainda mais por aquele impressionante vulto cabalístico que distinguiu ao fundo do bar, o indivíduo relutou uns segundos antes de recitar num tom musical e bajulador:

— António Perez Gallardo, representante da fábrica de queijos Lacta Casales, da Ortigueira, A Coruña, para o servir, caro senhor.

Estupefacto, o Manco, perante tal prolação, descolou as pálpebras parcialmente; sem pronunciar uma palavra ou fazer qualquer movimento, olhou, para o jovem que se acercara da sua mesa e o agraciava com uma cativante expressão comercial.

Era uma première. Nunca um caixeiro-viajante o apostrofara manifestando-se com este maneirismo mercantil. Não lhe agradou mesmo nada. Esta arenga tinha um timbre incrivelmente efeminado para o seu gosto. Apeteceu-lhe expelir o tipo do bar. Alguém lhe telefonara para o informar que o Manco precisava de queijo? Que maneiras eram estas? Odiava que o assediassem, que o perseguissem! Era ele quem decidia! Que descaro, que arrogância havia que ter para desterrar uma pessoa dum adorável sono reparador! E isto para tentar vender-lhe produtos similares aos que ele comprava, havia muito, a outro provedor do qual estava plenamente satisfeito!

Joder, tio! – improperou com desacato. 

Reticente, engoliu em seco e ficou uns segundos a deliberar sobre o comportamento a adoptar. Por fim, resolveu conter-se. Taciturno e firme, pressionou as maxilas.

— Dá-me licença, caro senhor? – perguntou-lhe o profissional, desdenhando a careta inenarrável e inquietante em que o carão do Manco se metamorfoseara.

Não era a amabilidade ilusória do homem que enganaria o Manco.

O caixeiro-viajante deduziu que a sua quietação era uma acreditação. Sem aguardar pelo seu agrément – que não sabia se teria – colheu a segunda cadeira e sentou-se, risonho, diante dele, o attaché-case preto por cima dos joelhos. O proprietário do estabelecimento, descontente, arrulhou, resignado.

A estes cantamanhanas antevia-lhes os procedimentos comerciais e os métodos de comunicação. Visitas de representantes stressados como este tivera várias dezenas; eram um pesadelo. Ainda que vivamente contrariado, esforçou-se para aguentar a estopada do indivíduo sem extravagar. Fitava-o, mas não o via.

No entanto, para lhe significar o seu frenesim, remoeu a língua com barulho na boca mirrada, indício de que a ressaca não tivera tempo de se esbanjar. A subida do vinho branco é tão fulgurante como a queda é lenta; a diferença é que a primeira é atractiva, álacre e tebaica, enquanto que a segunda é subversiva e, por conseguinte, desagradável e encolerizante.

Desinibido, o polido viajante minuciou-lhe o que fazia a especificidade das criações propostas pela fábrica que personificava. Realçou as excelentes virtudes da nutrição que as vacas – a quintessência de raças – tosavam nos amplos campos de pastagens verdejantes, perto do mar; vizinhança que, aliada às admiráveis condições climáticas de que a região usufruía, conferia uma deliciosa eflorescência salina ao leite. Fez um breve hiato para observar o primeiro efeito sobre o cliente.

O Manco tinha o semblante duma cariátide. Não mexia nem descravava os olhos do caixeiro-viajante. Permitiu-lhe desenrolar o palavreado à vontade, movendo com com subtileza a cabeça periodicamente, como se a conversa lhe interessasse.

Se o homem soubesse quanto gostaria de ir buscar uma garrafa de branco por detrás do balcão! Controlava-se porque mais uns minutos e livrava-se do desavergonhado intruso de uma vez por todas.

O viajante, implacável, mencionou o tempo de refinação; exaltou, em seguida, as suas dominantes e traços gustativos, olfativas e texturais, tamanhos e peso. Sobrepôs-se a amostra fotográfica dos produtos para os quais o Manco, grosseiramente, fingiu olhar. O extremoso viajante terminou a perfeita hipotipose sublinhando os controlos higiénicos regulares de que as modernas instalações, assim como todos os produtos nobres nelas elaborados, eram objecto.

O homem emudeceu. Finalizara a lábia sem um lapso, um erro e uma expressão oral irrepreensível. As feições afáveis persistiam. Persuadido, sem dúvida, do resultado da sua convincente dissertação, intentava desmascarar-lhe vestígios da sua adesão.

O Manco manteve-se imóvel uns segundos, deixando o silêncio desestabilizá-lo. Duas rugas, sinónimo de ambiguidade, esculpiram-se na testa do representante. Para testá-lo, o anfitrião deu uma tossidela cavernosa, como se quisesse desobstruir o gorgomilo para falar, e humedeceu os lábios com a ponta da língua alvacenta. As rugas faciais do visitante distenderam-se ao mesmo tempo que o bem-estar o invadia. A intuição garantia-lhe que a sua démarche ia ter uma saída favorável.

Sobrestimava-se, e essa análise presuntuosa comprazia imenso ao Manco que pensava: «É quando menos se prevê que a coisa mais dói». Com o ar sério e normal que até ali fora capaz de desvendar, indagou:

— Dos queijos que o senhor me sugere, qual deles atrai mais as moscas?

A questão insensata petrificou o visitante. Ofendido, adoptou um ar digno e esquiçou um gesto de repulsa, negando resolutamente com a cabeça.

— Nenhum. Isso é coisa impensável, caro senhor. Os nossos queijos são de uma qualidade extra, sublime, sem falar da frescura incomparável e inigualável. Depois de encetados pode mesmo conservá-los ao ar livre uma semana.

 

Continua.

 

 

 

 

PAIVA COUCEIRO NA GALIZA

melgaçodomonteàribeira, 18.08.20

 

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 posto da guarda-fiscal - ameijoeira

 

JOSÉ RELVAS E AS RELAÇÕES LUSO-CASTELHANAS

 

A 25 de Abril (1920) uma força de carabineiros espanhola apreendeu um considerável número de armas em S. Vicente, península de El Grove, destinadas às forças de Couceiro, devido ao aumento da vigilância reforçada ordenada por Canalejas aos governadores civis. Este empenho não se traduziu, todavia, na ordem de abandono das terras galegas pelas forças monárquicas portuguesas, que orquestraram a 28 de Abril, um assalto ao posto fiscal de Ameixoeira para aumentar as suas disponiblidade em armas*.

 

*”Foi assaltado hoje posto fiscal Ameixoeira na serra perto de Melgaço, roubadas as armas que alli estavam e os artigos das praças. O assalto foi feito por um grupo de 60 conspiradores que voltaram a internar-se em Hespanha, peço a v. E. as mais energicas reclamações a esse Governo pedindo urgentes providências.

 

Telegrama de Augusto de Vasconcelos para José Relvas, 28 de Abril 1912

 

No dia 28 de Abril, à uma hora da tarde, 40 a 50 conspiradores armados entram em Portugal, atravessando a fronteira da província de Orense, perto de Castro Laboreiro aos gritos de: «viva a monarquia!», arrombaram a janela do posto fiscal português da Ameixoeira, roubam todos os objectos que aí se encontravam e voltam a Espanha, seu asilo, onde não consta que tenham sido perseguidos, presos ou sequer incomodados.

 

Vanessa Sofia Batista Engrossa

Uma Diplomacia Estratégica: José Relvas em Madrid

                              (1911-1913)

Universidade de Lisboa – Faculdade de Letras

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FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 14

melgaçodomonteàribeira, 15.08.20

 

Nascera a Casa Manco, cuja popularidade se difundiria rapidamente.

A partir do ano mil novecentos e sessenta e oito, a vaga de emigração principiou a enfraquecer vagamente, sem todavia deixar de ser uma forte fonte de rendimentos. A efervescência económica originada pela construcção da barragem fazia levedar os proventos do seu negócio. Mais tarde, a ponte forneceu-lhe um novo filão de receitas adicionais. Sem jamais o ter agoirado, em dez anos o Manco transformou-se num homem pecunioso.

Optou, então, por empregar parte do augusto pecúlio na compra de uns magníficos campos adjacentes, no lugar da Agra, perto da junção da estrada Ponte Barxas-Ourense e da que descia para A Frieira.

No maior, fez erigir o que ele denominou, não sem prosápia, o Chalé Manco, uma linda casa com rés-do-chão e primeiro andar, para mais tarde ele e a Vicenta lá acabarem os dias. Nos remanescentes, plantou um sem-fim de árvores frutíferas. Uns anos mais tarde, todos falavam do vergel do Manco; era o mais completo e exótico da região.

Porém, o seu chalé não foi rematado sem sérios distúrbios. Os trabalhadores portugueses com os quais tinha negociado a execução da obra, depois de tormentosas altercações, queixaram-se à guarda civil por ele não ter honrado a totalidade dos pagamentos estabelecidos. Foi tempo perdido. Sem documentação que os habilitasse a trabalhar em Espanha, o comandante recomendou-lhes que negligenciassem a tramóia e não voltassem a cair noutra. Procedendo assim, o tenente da Benemérita – nome dado à Guardia Civil pelos serviços ministrados à população no século XIX – também poupou o Manco por recorrer à mão de obra estrangeira não declarada, deliberação que lhe abria as portas da Casa Manco.

Presentemente, já meio enfastiado e entediado, contentava-se em realizar bailes – reuniões dançantes, dizia, salientando a nuance. Aos domingos, do fim da tarde até altas horas da madrugada, amontoava-se ali a juventude da zona, assim como alguns portugueses.

Os galegos, como muitos outros povos, com um copo a mais são perturbadores e desordeiros. Todavia, nos dias de sarau, as zaragatas eram marginais. Os casos, esporádicos, afloravam, logicamente, quando os espíritos estavam escaldados e amblíopes.

A esposa, um tronco de couve a quem ele obedecia cegamente, murmuravam os alcoviteiros locais, tivera de aprender a brincar ao bombeiro.

Alguém que protestasse, fosse qual fosse a causa, ou vociferasse por se atrasarem em atendê-lo, era repreendido descaradamente com severidade. Podia até ser motivo para que o Manco ressentisse o reparo como um ultraje e incitasse illico o impertinente a ir empachar-se para outro lado, prevenindo-o cinicamente: «Agora, nem que me baixasses as calças te servia, cabrón

Nestas declinações, sem a intervenção pronta e habilidosa da Vicenta, a ameaça de que a controvérsia se alastrasse precipitadamente e findasse à hóstia era flagrante. Alguns jovens imprudentes, pensando que a sua debilidade os avantajava, tinham saído do seu estabelecimento fortemente aturdidos.

O génio rabugento que se apossara dele incentivava-o com regularidade a acometer alguns indivíduos por razões muitas vezes mais do que duvidosas, impertinência que o obrigara a sentar o cu no mocho – ir a tribunal – mais de uma vez.

Todos os dias, depois de almoçar copiosamente em família, sentava-se a uma das duas mesas do bar e entrava num estado tórpido, pré-letárgico, tanto físico como mental. Em silêncio, continuava a beber até ser aspirado, como por magia, pela tranquilidade feltrada, abstracta e opiácea de Hipnos, da qual, infalivelmente, emergia cerca de uma hora mais tarde.

A vida era-lhe insípida, inerte, agnóstica: elanguescia-o. Amigos não tinha, apenas conhecimentos. O vinho branco, o seu acólito, a sua amizade pagã desviava-o durante as situações instáveis, das águas do rio. Imergia-se nas lágrimas dos bagos, o paredão que conseguia retê-lo no seu mundo austero. Sempre disponível, afagava-o e mostrava-lhe, através dos seus vapores, uns raios de sol, embora lívidos e insulsos. Concorria para amortecer e equilibrar a fervorosa, a insuperável ira que, de modo impiedoso, fora prosperando nele e lhe despeçava o moral e a vida, desde que aquele malvado camião despejara parte da carga por cima dele. Se não fosse a carneirada, a barragem e a ponte, havia muito que o Manco não era deste mundo.

Na verdade, ninguém podia asseverar categoricamente que o Manco se embebedava, no sentido literal que ali as pessoas atribuíam correntemente à palavra; ninguém o vira alguma vez cambalear.

Homem condicionado pelo ânimo e pela atmosfera, arpoado pelo infortúnio, abusava do álcool, sem dúvida, mas comia bem e apenas bebia até um dado pique que poucas vezes excedia.

O mês de março estava a chegar ao fim. A mulher e as duas filhas andavam azafamadas nos campos: plantavam batatas, couves, tomates, ervilhas, cebolas, alfaces, feijões, cocos, alhos...

Naquela tarde insolada, encontrava-se, mais uma vez, desamparado no estreito e obscuro bar, ao lado da porta vaivém que o separava da sala do restaurante. Sentado diante da pequena mesa, a manga da camisa do braço órfão pendente, e a cabeça assentada sobre o ressaltado peito, degustava a descida fleumática das pálpebras defessas pela bebida. Por cima da mesa, uma garrafa e um copo, vazios. Era a hora da sesta, da primeira viagem do dia.

Intrépido, deixava a porta escancarada, mas, nunca se sabe, na gaveta nem uma perra – peseta – ficava. No entanto, qualquer podia entrar e apoderar-se sem grande trabalho de uma ou mais garrafas das que tinha em evidência no bar. Hipótese que descartava totalmente; o medo que inspirava desencorajava qualquer um. Aliás, as pessoas, em grande maioria, eram íntegras e trabalhadoras.

De repente, uma voz ecóica que lhe pareceu vir de longe extirpou-o dos braços hipnagógicos de Morfeu, nos quais se aninhara.

— Não há ninguém ?

 

Continua.

 

 

 

 

 

O DRAMA DE ALVAREDO ou O CRIME DE MELGAÇO II

melgaçodomonteàribeira, 25.07.20

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 alvaredo

(continuação)

Piedade adorava o seu Alfredo. Quando forem presos, há de jurar-lhe que nunca o abandonará. Mais novo quinze anos do que ela, era um rapaz destemido, habituado a abrir caboucos e muitas vezes obrigado a alargar o campo de ação pela força das circunstâncias, significando esta a falta de dinheiro, por dispêndio excessivo em jogo e vinho, embora deste último não haja notícia de exageros, apesar do tempo que passava nas tabernas, com os seus companheiros, alguns de anos, outros mais recentes. Eram eles: António Fernandes, de 29 e nove anos e de alcunha o Guerra, Santiago Rey y Lopez, de 37, António da Fonseca pinto, de 35, João Esteves, de 24, e Romão Lousada de 24 ou 25.

Alfredo Gomes, de 23 anos, nascido em Monção, não se saía mal, normalmente, quer dizer, nunca fora preso por roubar, tal como Maria da Piedade que não faria do roubo a sua ocupação principal, até ao malfadado dia em que um assalto deu para o torto e a polícia se revelou bastante eficiente. O namorado ganhara a sua coroa de glória num assalto na vizinha Espanha, do qual escapara por um triz, e isso dera-lhe confiança para continuar tivesse ou não trabalho na construção civil.

Ele e o Romão Louzada, um espanhol de Pontevedra, participaram, entre 1887 e 1889, num assalto a casa de um padre, no lado de lá da fronteira. Foram experimentar a ligação ferroviária à província de Salamanca, provavelmente, depois de trabalharem nas obras entre Barca de Alva e La Fregeneda, troço inaugurado em dezembro de 1887, mas quando apanharam o comboio já iam com o propósito do roubo. Eles e outros mais, desconhece-se quantos, uma vez que a coisa correu bem.

Assaltaram-lhe a casa à noite, a horas mortas. O padre espanhol ainda resistiu, não querendo dizer onde guardava o dinheiro. Mas não lhe serviu de nada, ao ver-se atado, deitado num colchão de palha a que os ladrões largaram fogo, logo se prontificou a revelar o esconderijo. Os meliantes extinguiram as chamas, agarraram no dinheiro e fugiram. O Romão, ligeiramente ferido, escondeu o roubo nas ceroulas e chegou bem a Lisboa, o Alfredo passou um momento de tensão quando, na estação da fronteira espanhola, o consideraram suspeito. Livrou-se, dizendo ser “limpiador do comboio e começando a fingir que o limpava”, contou “A Vanguarda”.

 

Deita-se fogo à casa e recebe-se o seguro

 

A dada altura, no mês de junho, João Esteves soube que uma sua tia de Monção, governanta em casa do reitor da freguesia de Troviscoso, recebera um conto de réis de herança, e desafiou os amigos cabouqueiros. “Não acham que seria um golpe real apanhar-mos aquele dinheiro? Alem disso o reitor também possui pé de meia. De uma cajadada matam-se dois coelhos. Que dizem?” Como o golpe de Salamanca dera uma boa maquia, Romão e Alfredo pensaram que não seria má ideia roubar outro sacerdote, já que estes possuíam sempre alguma riqueza. Doas depois, a 25 de junho, reuniram-se de novo, desta feita em casa de Alfredo e de Maria da Piedade, para acertar o que fazer.

Enquanto os homens andavam nesta combinação, Maria da Piedade engendrava outra maneira de ganhar não apenas uns cobres, mas uma boa maquia. Para isso, nada melhor do que fazer o que já ouvira que outros tinham feito com resultados positivos. Dirá depois que o espanhol Santiago é que a incentivou. “Podemos ganhar bastante com isso”, ter-lhe-á dito mais tarde. Pouco tempo depois, ela, que “nunca mais tinha pensado no assunto” desde que Alfredo recusara a ideia, correu a segurar a casa por 500$000 réis.

Escondendo de Alfredo aquilo que preparava, Maria da Piedade foi combinando com Santiago como iriam dar o golpe à companhia de seguros. Na madrugada de 26 de junho, estando já acertada a ida para norte, faltando apenas decidir o dia, os dois cúmplices mudaram todo o recheio para casa do espanhol. De seguida, esfarelaram um colchão, espalharam a palha pelo solo, regaram-na com aguardente e pegaram-lhe fogo. A casa, localizada ao lado da igreja, ardeu completamente. “Para se avaliar bem a força da amante do Alfredo, basta dizer que ela se dirigiu à esquadra próxima, e pediu a dois polícias que lhe servissem de testemunhas para receber o dinheiro do seguro!”, observou Luíz Silva.

 

(continua)

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 12

melgaçodomonteàribeira, 18.07.20

 

Já um pouco curvado para diante e arrastando os pés, o septuagenário desceu com cuidado o reduzido declive que havia entre a estrada e o prédio do Manolo.

Foi quando os dois agricultores, esgotados pela espera ilimitada, acharam que, no fim de contas, era melhor concluir a expectativa. Impulsivamente, abandonaram o bar, perseverando, todavia, com o maior alarido, em rejeitar-se a culpa do absentismo do taxista.

Um deles entrechocou-se com o senhor Ângelo, indelicadeza a que foi insensível. Penetrou no café e cumprimentou os presentes com a cortesia costumeira. Abeirou-se do balcão, deu aos ombros, puxou pelas golas e deu dois saltinhos, obviamente.

O Manolo acolheu-o com o entusiasmo usual.

— Senhor Ângelo, então que tal o tempo pela estação?

Não replicou. Com a característica equanimidade que toda a gente lhe reconhecia, exigiu:

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Que diz, senhor Ângelo?

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Quem foi para o campo?

— Na... não... bran... bran... branco! – repetiu, levemente incomodado.

— Que diz, senhor Ângelo? Não o ouço. Fale mais alto, carambas!

Impaciente, suspirou e sacudiu a cabeça com firmeza em sinal de agastamento e de lassidão. Arranjou o capote à pressa esticando as golas, deu os saltinhos e arremeteu de novo.

— Po... po... po... põe mum... mum... muuun bran... bran... branco! – empenhou-se, quezilado.

O gaguejo enfatizara-se com a aflição, e o seu rosto purpurara, tanta fora a instância.

Para reprimir o riso que estava prestes a deflagrar, o Fernando simulou contemplar o regato e o lugar de Cevide, do lado português, observáveis do janelo do fundo do salão do café. Era, também, para dar mais credibilidade à chocarrice.

— Ah! Um branco? – exclamou finalmente o Manolo – Já podia ter dito há mais tempo, senhor Ângelo! – e deu um dos seus singulares risos – Eu pensei que me dizia que andava manco, já viu? Ai meu Deus!

Agarrou na caneca e baixou-se diante do pipote de vinho branco que confinava com o de tinto.

Foi a altura apropriada para o padeiro delivrar a forte pressão que o sufocava e dar azo à pândega. Era a primeira vez que participava a uma brincadeira implicando o senhor Ângelo. Intrometeu-se amavelmente na conversa.

— Este, senhor Ângelo, já perdeu o juízo e agora está a ficar mouco. Mete pena! É tão novo!  Há quem diga que foi por isso que o correram da França. Não me estranharia nada.

O homem ignorou as suas palavras, como se fosse pusilânime. Nem um célere olhar de solicitude se dignou conceder ao panificador. Ergueu um braço e buliu duas vezes a mão entreaberta diante da testa, como quem quer dissuadir um insecto desenvolto e importuno. Era a sua modalidade. Desta forma, mostrava implicitamente – a quem tinha faculdade para tal – que interpretara o chiste, que este não o estimulava nada e, sobretudo, que não era nenhum títere. 

Para coroar o painel, e sem piar, acomodou o capote, desfraldou-lhe as lapelas e deu os saltinhos compatíveis.

No olhar irónico do dono do café reluzia um afecto real. Meneando a caneca como se fosse um ioiô, a fim de fazer espumar o líquido, encheu a tigela que pousara diante dele. Estava tão acostumado que, uma vez a tigela cheia, não ficava praticamente nada da quantidade de vinho retirada do pipote.

Deglutiu a primeira tigela de uma golada e a segunda de duas. Despejou o recheio do porta-moedas – que abria em forma de vulva – sobre o balcão, destacou umas quantas  moedas e saiu, silencioso, como se não tivesse estado no bar. Viria umas quatro vezes mais durante o dia.

O Fernado sentiu-se embasbacado. Intimamente, admitiu que o homem tinha a sua personalidade. Não era sem razão que todos o tratavam por senhor.

— Já viste, Fernando? Esta gente põe-me louco! – bradou o Manolo.

 

 

O Manco era seguramente a pessoa mais conhecida da Frieira, indubitavelmente a mais temida e, incontestavelmente, a mais amaldiçoada. Hercúleo e titânico – mais de um metro e oitenta e cinco e uns bons cento e dez quilos –, tinha uma força assombrosa e, ademais, um temperamento de suíno.

Ninguém sabia a razão por que tinha o cognome de manco pois, na realide, era maneta. Segundo rumores, o drama dera-se uma tarde, no centro da cidade de Orense, havia bastantes anos. O que ainda não era Manco estava na esquina de duas ruas à espera de uma oportunidade para atravessar com confiança. Subitamente, um velho camião atulhado de canos de cerâmica para o saneamento, vindo de uma transversal, largou parte da carga diante dele e doutros. Acordou no hospital. Os estragos foram plurais, mas o dano irreversível deu-se no braço esquerdo, triturado pelos tubos maciços. Do úmero, os médicos apenas foram susceptíveis de lhe preservar um toco com cerca de uma dezena de centímetros.

Desgraça que, pouco mais tarde, o não impossibilitava de manipular uma enxada ou uma pá e de trabalhar, ocasionalmente, como qualquer indivíduo consumado.

O traumatismo engendrado pela deficiência fora o inodoro fermento que fizera com que, passo a passo, medrasse nele um carácter irascível e provocador que, por vezes, alcançava proporções excessivas e preocupantes. A mínima adversidade era vista por ele como um opróbrio, uma vexação e mesmo como um insulto.

As pessoas, com os seus aforismos e as suas paródias ásperas, justificavam a sua força excepcional afirmando que a do braço perdido fora herdada pelo outro. O caso é que onde deitasse a mão nem Cristo lha abria, diziam.

Fumava como as primeiras locomotivas e bebia vinho branco como um tudesco. Quando estava de mala hóstia – mal disposto –, coisa mais amiudada do que o contrário, era mais idóneo evitá-lo ou abordá-lo apenas se o caso fosse francamente imperioso.

 

Continua.

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 11

melgaçodomonteàribeira, 04.07.20

 

 

Nessa manhã, exaustos, depois de mais uma madrugada uniforme em que tinham o sentimento de serem os raros sobreviventes do lugarejo, transpuseram a estrada e empurraram a porta do familiar café. Os rostos, assolados pelo trabalho ininterrupto e opressivo, denunciavam o cansaço compilado durante a noite. A roupa, vetusta, suja e enfarinhada, dava-lhes uma triste aparência de foragidos.

O panificador e o jovem ajudante fincaram-se no extenso balcão, estenderam os cacetes recém-cozidos à Rosa e pediram as habituais sandes: hoje seriam de presunto. Concertavam-se anteriormente e concordavam sempre em comer ambos o mesmo acompanhamento.

A uma das mesas do café, uma parelha de camponeses de certa idade querelava-se incompreensivelmente, increpando-se mutuamente. Segundo a Rosa, havia mais de uma hora que esperavam pelo improvável aparecimento de um taxista que se comprometera a conduzi-los a Padrenda; contavam regularizar um problema importante no ayuntamiento – junta de freguesia.

— Quantos cacetes quereis hoje, Rosa ?

— Eu sei lá! Olha, traz oito, como ontem; depois, se precisarmos de mais, vê-se.

O padeiro fez um gesto da cabeça, o ajudante sumiu-se e regressou decorridos dois minutos com os oito cacetes.

Quando sobrava pão, depois de feita a repartição pela esposa do Fernando, confiavam a chave da padaria à Otília que, com todo gosto, se incumbia de corresponderer às eventuais demandas da clientela. Era o ensejo para uma hipotética conversa.

— Onde anda o sorna – o Manolo ? Diz-lhe que a mulher despertou e quer o café.

A moça riu. Tinha uma repulsão ínsita pela patroa. Portanto, esta considerava-a mais como uma colaboradora do que como uma criada.

Quando o marido se deslocava a Ourense por exigências comerciais, a Maribel, uma vez por outra, acompanhava-o e, diligentemente, percorria uma ou duas galerias –centros comerciais. Nunca menosprezava a empregada. Carinhosamente, brindava-a com uma peça de roupa interior, uma camisa qualquer, um tecido para fazer uma saia ou um vestido, um perfume de qualidade...

— Estás doido ! Ela não o quer. Quem ligaria a um homem como ele ? – e deu uma risada – Anda no outro lado a pôr um pouco de ordem nas mercadorias – confessou por fim.

Naquele instante, saiu ele de trás da cortina da cozinha, excitado.

— Vai-te embora, Rosa! Vem aí o senhor Ângelo. Vamos gracejar um pouco. Vais ver como o enervo – disse ao Fernando.

No país onde os desconhecidos se tuteavam, fosse qual fosse a idade duns e doutros, o Ângelo, ferroviário reformado, era a irregularidade notável. Fazia parte dos raros homens da Frieira a quem todos tratavam, invariavelmente, por senhor.

Tanto no verão como no inverno, exibia orgulhosamente pelas costas, quase como um troféu, um grosso capote castanho com o logótipo da companhia estampado no lado esquerdo. A cabeça, que abanava continuamente, trazia-a resguardada pela típica boina galega. Tartamudeava e articulava muito baixinho. Era, além disso, homem duns tiques pasmosos, excêntricos, mas cómicos: dava aos ombros repetidas vezes, tirava pela gola direita do capote com a sinistra, e vice-versa; depois, alçava o pé sestro ligeiramente, imitado imediatamente pelo direito. Era uma coreografia incontestável.

Segundo constava, estes gestos eram a sequela de um ritual que praticara sem restrição durante a vida que trabalhara nas linhas galegas da RENFE – caminhos de ferro espanhóis. Para não perturbar a trâfego, os trabalhos nas vias são efectuados de noite, maioritariamente; ora o senhor Ângelo fora capataz – chefiara uma equipa de dez trabalhadores – e, como é logico, não se movia muito. Durante as noitadas invernais, para que o frio não se assenhoreasse dele, supõe-se que operava estes meneios centenas de vezes, cadência que, com o tempo, acabara por se tornar mecânica e incontrolável.

Ademais destas digressões, soliloquiava imperceptivelmente de modo constante. Nunca falava com quem quer que fosse, nem nada o interessava ou comovia. Limitava-se a saudar as pessoas com um respeituoso aceno de cabeça sem nunca suspender a sua deambulação ramerraneira, como se fizesse tudo para se fundir no meio, dar a impressão de ser invisível.

Morava do outro lado da ponte, numa casinhola, a dois passos da estação dos caminhos de ferro, como não podia deixar de ser.

Matrimoniara-se com uma costureira, mulher muito interesseira, egoísta, cujo ódio que afeiçoava se lhe via na cara engelhada: a Henriqueta. Só se entendia  com as mais linguareiras da aldeia. Dizia-se que nada podia subtrair-se aos seus olhos de fuinha. Despudorada como poucas, tinha livretas em todos os comércios da zona, nomeadamente nos que vendiam tecidos. Os credores, apesar de a acossarem, viam-se na incapacidade de cobrar as dívidas que lhe foram consentindo acumular.

Tanto na Frieira da margem direita como na da esquerda, já ninguém se recordava de quando o senhor Ângel e a Henriqueta tinham sido vistos juntos ou a falar em público pela última vez. O domicílio era o único espaço que ainda os achegava corporalmente. Os ralhos, pontuais e ríspidos, eram a discussão exclusiva entre eles de que os vizinhos depositavam.

Ao senhor Ângel, nem todos os dias o blanco – vinho branco – lhe instilava a disposição satisfatória para digerir a maldade e as insinuações biliosas da mulher. Quando a discórdia rompia e percebia que a sua metade não tardaria em ultrapassar a linha exacerbante que ele lhe autorizava, ajeitava a boina na cabeça, deitava o capote pelas costas e, mais uma vez, fazia a mímica crónica; dava uma vista ao relógio de bolso e, se lhe desse tempo, encaminhava-se para o pequeno bar de As Neves, três casas acima da dele. Abancava ali e bebia umas chiquitas – tigelas – enquanto pacientava pelo comboio.

Podendo viajar gratuitamente, como todos os aposentados da RENFE, era o epílogo preferido para estas peripécias glaciais. Entrava no primeiro comboio que ali fizesse uma alta, sem se alarmar com o paradeiro, e só reintegrava o domicílio no outro dia, conforme a inclinação. Os diversos amigos, ex-ferroviários ainda vivos, tinham a porta sempre aberta para ele. Havia anos que trocara a companhia da mulher pela do vinho branco e dos camaradas, muito mais acomodatícios e sociáveis do que a ominosa mulher.

 

Continua.

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 9

melgaçodomonteàribeira, 06.06.20

 

Com pouco mais de dezoito anos, a desditosa rapariga, oriunda de um lugar da freguesia de Roussas, furtara-se à bestialidade do pai alcoólico, à miséria da casa e ao défice de vicissitudes ao labor desumano do campo.        

O abandono da terra, do país, o medo do incerto, que desmoronava qualquer um, fez com que fosse pouco além da fronteira. Ficou na Notária, onde conseguiu o primeiro emprego num café. Aguentou um par de meses, apesar do ambiente autoritário e famélico que o casal proprietário lhe impunha. Por ser um trabalho menos cáustico que o do campo, conciliara-se com a perversidade.

Um jovem que acusava uma dilecção indecorosa por ela direccionou-a para o estabelecimento do Manolo.

Criada, cozinheira e empregada de bar podia dizer-se que fazia de tudo, inclusive o que o patrão de mais profundo lhe pedisse, segundo as más-línguas.

Os taxistas da zona, quando livres, eram os primeiros clientes do bar. Todas as manhãs, uma hora antes da entrada na estação dos dois ferrobuses – automotoras – procedentes de Vigo e de Monforte de Lemos, que, normalmente, ali se cruzavam – a linha era de via única – já estavam acotovelados ao balcão, tomando o café e a copa matinais. Conversavam e parafraseavam desordenadamente as últimas informações ouvidas no auto-rádio.

Muitos trabalhadores rurais e da construção civil, de um e outro lado do rio, sustavam-se ali uns minutos para matar o bicho. Os mais descuidados tinham a possibilidade de se procurar algumas ninharias de primeira necessidade, tanto para o campo como para as obras.

Havia também aquelas pessoas, entre as quais portugueses, que, por volta das nove, se acercavam da estação de caminho-de-ferro. Algumas, as que iam comerciar, apenas bebiam um café, mas outras, que iam de visita, lembravam-se do presente que tinham em vista ou obliterado à última hora.

O movimento matutino fazia parte dos momentos favoritos do Manolo. O ar da alvorada, frio ou morno, fortalecia-o. Porém, tinha um apego particular pelas manhãs dos dias 10 e 25 de cada mês, dias da feira de Ribadavia, a mais popular da região. A avidez dos campónios à ida – para os quais a feira era como um dia de festa – e a satisfação da volta, carregados de utensílios, mantimentos e produtos eclécticos para o campo, regalava-o. 

Conhecia grande parte das pessoas que por ali transitavam e com as quais adorava ter um diálogo caloroso, apesar de sucinto. Eram ocasiões propícias, preponderantes. Para ele, que desabrochara numa casa mesquinha das proximidades e tivera de sujeitar-se mais do que alguma vez pensara tão longe dela, estas ocasiões eram-lhe angelicais.

A privação daquela aldeia e dos seus odores peculiares, daquele rio imponente e do regato insignificante; a falta daquele sol abrasador, mas inerente; a falta daquelas glebas verdes em escaleira; a falta do cheiro da terra tórrida quando era refrescada pela chuva; a falta daquela gente simplória vestida de preto, que desafiava as agruras do meio com um sorriso clemente; a indigência daqueles montes e da sua vegetação ubiquista, fizeram-no tergiversar, desalentar, chorar, padecer...

Ainda o moço trabalhava como aprendiz de carpinteiro numa oficina da Notária, trazendo ao fim do mês uns escassos duros para a casa, quando o pai pereceu. A partir daí, esses irrelevantes vinténs eram imprescindíveis. Pouco a pouco, tentou preencher o lugar insubstituível que ficara desguarnecido. A mãe, a Lucinda, via-se obrigada a lutar em duas frentes: os afazeres das magras terras e o desvelo ao irmão primogénito do rapaz, o Chíchio, que sofria de desequilíbrio psíquico.

Foi na Notária que conheceu e namorou com a que seria mais tarde a sua esposa. Mas o seu destino e o da rapariga, como o de um elevado número de outros jovens, fora previamente decretado pela letargia, pela míngua e pelo ostracismo a que a política totalitária do Caudillo submetera o país.

Casaram e renunciaram ao berço, à terra por onde tinham repartido os seus marcos e emigraram para França em busca de perspectivas mais entusiasmantes.

A destreza que o Manolo tinha para a carpintaria facilitou-lhe uma presta progressão no ramo. Ao cabo de um ano, tinha um salário equivalente a vários meses de actividade na sua terra. A Maribel, sem qualquer contrariedade, logrou um lugar de preparadora de sandes e de saladas numa célebre cervejaria da praça da Ópera. Empregada cuidadosa, ali se manteve até resolverem retornar. Deram vida a um filho e passaram perto de quatorze anos contritos num país cujos fundamentos lhes eram absolutamente impenetráveis.

Com enorme penibilidade, assimilaram o vocabulário elementar que o trabalho e a vida de todos os dias lhes reclamava. O clima e o modo de vida adverso foram outras barreiras às quais tiveram de obtemperar, visto não poderem rectificá-los.

A mãe e o Manolo tinham uma vocação ingénita para o humor e o chiste. À mãe, estes traços linimentavam parcialmente os fortes desassossegos quotidianos da escarpada vida; ao filho e à esposa, travestia-lhes e esquivava-lhes, na medida do possível, a tristeza e a angústia com que a ausência forçada da terra os gangrenava.

Durante quatorze anos pungentes, poucas vezes vieram à terra, mas, quando se dava o caso, ficavam mais de um mês. Em dois dias restauravam o alento moral e anímico. Contudo, à medida que os anos se sucediam, a amargura do retorno à capital francesa crescia. Por esta razão, quando pressupuseram que o contexto era oportuno para uma vinda definitiva, não balbucionaram. Tinham medo de se deixar inflectir por considerandos e, mais tarde, arrependerem-se. As economias e uma modesta reparação (10 000F per capita) com que o governo gaulês – depois do choque petrolífero de 1973 – encorajava os trabalhadores estrangeiros a partir, ajudaram-nos a converter-se nos donos daquela tienda. Esta formalidade vedare-lhes, para sempre, a probabilidade de trabalhar de novo em França.

Havia cerca de dois anos que, despreocupados e felizes, ali se tinham instalado. Portanto, ainda hoje faziam tudo para compensar o desprovimento e desafogar a intensa gula soterrada que o desterro ateara neles.

O Manolo idealizava e confeccionava quadros benígnos para se divertir mofando. De uma coisa banal, e aparentemente inconsistente, extraía assunto ou móbil capaz de espairecer toda a gente durante dias. Despistava, com um tacto maravilhoso, as disparidades, os tiques, as fraquezas, as manias... tudo o que o inspirasse e fosse passível. As suas travessuras compraziam a todos e era a maneira mais cordial de lutar contra a perdurável acinesia mental dos conterrâneos. Nos lugares escabrosos e ingratos como aquele, as casualidades de entretenimento eram fictícias, para não dizer nulas.

 

Continua.

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 8

melgaçodomonteàribeira, 22.05.20

 

Apesar disso, com as parcas recompensas da lavoura, os magros teres e uns trapicheos – negócios ilegais – circunstanciais, a existência jocosa desta população era visiva.

A gente aceitava a vida rotineira, estóica, compassada pela carrinha que, de manhã, lhe trazia peixe fresco de Vigo; pelo tempo, que era o decisor invariável da viveza e dos encargos colectivos; e pelos crebros comboios que faziam ou não uma transitória paragem no povoado.

O prestigioso e sumptuoso Expreso Rías Bajas que unia a Ciudad Olívica – Vigo – à capital do Reino – Madrid –, e ali apitava por volta das onze da noite, deixava-os impressionados, atónitos. Cópia do famigerado Orient Express, fora fornido, como outros, pela Compagnie Internacionale des Wagons-Lit, depois da sociedade belga que criara o ilustre comboio cessara toda exploração como operadora ferroviária em 1971.

Através das vastas e lustrosas vitrinas do vagão-restaurante, enxergavam os viajantes endinheirados diante de pantagruélicos e refinados pratos. Este espectáculo mirífico e, ao mesmo tempo, fantasmagórico – possível devido à morosidade da locomotiva, compelida pela sinuosidade da linha – pasmava-os e devolvia-lhes a modicidade e a inanidade com as quais se debatiam

Para a prosperidade das aldeias e os seus moradores, a estação era capital, era o seu âmago; a linha Vigo-Orense, o sendeiro para as deslocações inevitáveis. O comboio constituía a única alternativa para os poucos jovens que ainda havia nos lugares redondezes de ambas margens, e cujo futuro dependia dele. Os colegiais utilizavam-no para ir a Ribadávia onde se situavam os colégios mais acercados; os que faziam estudos superiores apanhavam-no à sexta e ao domingo à tardinha para regressar a Santiago de Compostela, depois de um fim-de-semana entre os seus.

Da orla esquerda, distinguia-se um belo, harmonioso e sólido casarão burguês. O contraste com as casas das aldeias das duas ribas era espectacular. Os que se dirigiam para a estação ficavam uns instantes admirativos diante daquele solar, apesar de já o terem visto,. O considerável terraço e as colossais galerias envidraçadas, face ao rio, ofereciam uma vista fantástica sobre o Minho, e Portugal. Mais abaixo, na parte traseira, uma serração inteiramente mecanizada era imperceptível. Nela trabalhava perto de uma dezena de homens. Mensalmente, despachavam vários vagões abarrotados de pranchas, vigas, traves, troncos e outras madeiras para toda a Espanha. O caminho-de-ferro, ao qual estava subordinada, configurava a sua artéria indispensável.

Era pertença da família Alves Gomes. O genitor, natural de Ponte de Lima, casara com uma espanhola, mas tanto ele como os numerosos filhos eram conhecidos pelos Branquinho. O contrabando fez dele um homem fértil. Várias casas e terrenos disseminados pela zona, serviam-lhe de entreposto para tudo o que contrabandeava. Excluindo o chefe da estação, só ele usufruía de telefone. Apesar da sua influência e dos seus conhecimentos, teve de se refugiar uns tempos em Cevide – onde começara a negociar antes de se instaurar do outro lado – por ter sido objecto de delação. Alojou-se na casa onde vivera, meio degradada. Dali, com um cúmplice, coordenava o seu business sem ser molestado. Para controlar os guardas fiscais com mais facilidade, comprou o moinho junto do Trancoso, a dois passos do posto.  Intencionara fazer umas obras de conforto na moradia, mas não teve tempo: o obstáculo que o compulsara a espaçar-se dos seus fora revogado. Reinstalou-se no casarão da Frieira, de onde pilotou os negócios até falecer.

A família Branquinho fora a mais virente e basta da Frieira da margem direita do Minho. Graças ao pé-de-meia amealhado pelo Alves Gomes, os filhos puderam reciclar-se um pouco por toda a Galiza. Só o mais novo, o Carlos, prorrogou o business que enriquecera a dinastia Branquinho: o contrabando. O seu terreno era o lugarejo de Pousa, em frente da freguesia de Chaviães, por onde circulavam os artigos postulados pelos fregueses portugueses. O petate, dificilmente levado às costas por uma rampa até à beira-rio, era, em seguida, transportado para o lado português numa batela que fazia um vaivém infindável durante a noite.

Todas as casas que fizeram parte do esquema concebido por Alves Gomes para o exercício da ramboia – contrabando – foram-se deteriorando progressivamente, até se transformarem em ruínas. A algumas apenas se lobrigavam partes, tanta era a vegetação bravia e daninha que as cobria.

 

 

Oficialmente, a tienda do Manolo estava aberta em permanência e sem excepção das oito às vinte horas quando o sol se deitava mais cedo – de Outubro a Março –, e até às vinte e duas horas quando o sol arredava mais tarde – o resto do ano. No entanto, os horários eram flexíveis, raramente respeitados; o fecho era decidido pelo número de clientes e pelas obrigações do matute – contrabando.

Como acontece ordinariamente nas mais pequenas aldeias ou lugares, a sua loja era o local crucial onde tudo o que ocorria, se fazia, se dizia, se sabia ou se pensava na aldeia da margem esquerda era propagado, discutido, comentado e reiterado pela aldeia homónima da banda direita do Minho.

Na loja, ao lado do café, o Manolo vendia um pouco de tudo: géneros alimentícios, louças, recordações, roupas, tintas, panelas, ferramentas, produtos e alfaias agrícolas, e tudo o que reivindicasse o pescador mais intratável e cerimonioso.

Era dono dum autêntico minimercado bastante rentável, que lhe permitia uma vida planturosa e livre de dificuldades factuais. Porém, os proveitos mais roborativos tirava-os do contrabando.

No seu negócio coexistiam pessoas que tinham trabalhos variegados e, visto o leque de produtos que propunha, as razões de lá encontrarem o que era urgente não faltavam. Os consumidores provinham de todo lado e formavam uma clientela fixa e leal.

O escudo, sobreavaliado – não andava longe das duas pesetas –, tornava um grande número de vitualhas muito mais acessíveis em Espanha. Aos sábados, domingos e feriados, mas especialmente aos sábados, naquela região fronteiriça o escudo e os portugueses eram os patrões das lojas, dos cafés e das limitadas boutiques

Regra geral, quando o tempo estava bom, já o Manolo tinha o café e a loja abertos antes das oito. A Rosa, a criada portuguesa, era a primeira a madrugar a fim de passar a esfregona no chão do café e da loja; o patrão, o segundo, cerca de meia hora mais tarde.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 7

melgaçodomonteàribeira, 09.05.20

 

O não dito reforçava-se e acalentava-lhe, com veemência, o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo.

As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. Por enquanto, tinha de refreá-las sem piedade, custasse o que custasse. Faltava-lhe a audácia, prisioneira dos efeitos garantidos. Por vezes, asfixiavam-na tanto que tinha crises de dispneia. Estava de mãos atadas; era escrava da sua fragilidade.

Tirou a tampa a uma panela enfumarada que dormitava por cima da longeva cozinha de ferro – desvanecida havia bastante –, pegou num prato, entulhou-o de batatas, duma mão-cheia de grelos e de três módicas postas de merluza – pescada –, tudo cozido, e depositou-o diante dele sem uma palavra.

Em Espanha, o consumo pelos mais pobres deste peixe lauto e gostoso  – congelado e de pequena dimensão – derivava do seu baixo preço, causado pela possante hegemonia espanhola: depois da norueguesa, era a frota europeia que mais pescava.

Adiu-lhe um galheteiro encardido, um garfo e um bom naco de pão semiduro que cortou num cacete. Com um pudor conventual, saiu; foi ao puxado e atestou a típica caneca de cerâmica branca com tiras azuis de um vinho recendente e espumoso. O Manel acarinhava ali uma provisão de tintol em garrafões de cabaço – detestava o vinho branco –, bebida de eminente nível, confeiçoada pelos lavradores mais calejados da zona.

A cada refeição, o consuetudinário era um litro. No entanto, havia dias que, por motivos ignotos, vazava pouco mais de meia caneca. O Manel bebia por amor, pela irmandade que o soldava à pinga, à cepa. Ainda não tinha dois anos e já as sopas de vinho alegravam os seus dias.

A placidez sorumbática da casa era amordaçada pelo estribilho casmurro da água límpida do regato.

Estes ápices deprimentes iteravam-se dia sim dia não. Sem se atardar mais, a Gracinda, silente, foi-se discretamente. Subiu as escadas e acostou-se à cabeceira da cama, já desfeita, com o pequeno receptor a pilhas na mão.

Enquanto que o marido se alambazava e drenava a caneca, sobrava-lhe o tempo para lucubrar um tanto; olvidar a vida consternada e sem qualquer ambição ou finalidade que, irreparavelmente, encaixava havia um tempo desmedido.

Era a hora da radionovela, a sua baforada de nostalgia, a sua alegórica escapatória interina, o seu alcalóide biológico. Graças a estes romances diários, simples enredos, devaneava. Apesar das tramas e das manigâncias coriáceas, das inimizades, das perfídeas e das paixões insustentáveis, contrariamente à sua realidade, o desfecho era agradável, romântico. Esta escapulida mental era um reconfortante paliativo que lhe aligeirava as difíceis preocupações conjugais.

Nos dois quartos do lado, a prole, passiva fisicamente, matutava, imaginando um rumo, um caminho, uma bússola. Insubmissos, cada qual vivia no seu universo. Com a petulância arcana dos adolescentes indiferentes às inquietudes, às sombras e à atonia dos pais, eram transparentes, inexistentes. A certeza de um dia enveredarem por um trilho diferente, construtivo e escolhido por eles, estava-lhes obscurecido pelo hodierno mofino dos progenitores e pela penúria. Cada qual tinha o seu objectivo preciso traçado. Embora utópico por agora, tinham uma confiança total neles.

 

 

Nos lugares desleixados como os da Frieira – incalculáveis –, o afastamento e a dispersão dos compósitos e espinhosos trabalhos isolavam, no conjunto, as pessoas durante o dia. O contacto era, pois, impreterível para que não se recluíssem numa insensibilidade sórdida, pestilenciosa. O seu desenvolvimento, notório, desaguava, tristemente, nos aberrantes e inexplicáveis suicídios repertoriados anualmente na região. O instigador, em todos os seus perfis, era e continuará a ser, sem dúvida –independentemente dos perenes pseudoprogressos de comunicação –, a solitude. Este veneno, impassível e infatigável, quando o álcool – o amensalismo com o qual acreditavam combatê-lo – se mostrava impotente, esvaía, murchava e, por fim, destruía-os. O vergonhoso agravamento afónico da desertificação rural não fazia senão periclitar o emaranhamento da problemática.

Aos idosos da aldeia, inofensivos – como aos de todas as outras –, ninguém lhes evidenciava quaisquer razões para os impelir a aproveitar e a ter curiosidade por coisas e recursos que não estivessem estreitamente relacionados com as suas incumbências jornaleiras. Levavam uma vida negligente, embrenhados numa total ignorância e incompreensão do mundo truculento que os envolvia. Sendo, pois, a sua inserção irrealista, o progresso ia-os adulterando e desorientando.

A violência, o sexo, as tecnologias e as práticas cacofónicas e formatadas que viam na televisão – sangrada da sua missão primitiva que era a cultura e a educação dos mais iletrados –, além de os aterrorizar, ainda mais os coagia a persistirem em se enclaustrar nos costumes e nos dogmas arcaicos que sempre foram os deles, e aos quais se empolgavam devotadamente.

O precipício que disjungia a antiga geração da nova era excessivamente largo e intransponível para que a derrisória e árida propinquidade entre as duas o reduzisse com o tempo, mesmo em parte. Viam-se, falavam-se, mas cada qual campava no seu tempo, no seu território, na sua ilusão. A nova – como toda geração nascente –, sitiada por uma cinorexia galopante, era febrosa e vivia o dia-a-dia sequiosa, dessabendo a ainda tenra barbaridade passada; a antiga era uma geração descurada, repudiada, incorpórea, que fazia tudo para ressalvar o que lhe sobejava da acidentada modernidade. Por não entrar nos anais do inédito consumismo crescente – a ditadura contemporânea –, nem os corpos políticos seduzia, a não ser em vésperas de eleições.

Não obstante esse encarceramento instrucional, eram seres curtidos. Vivenciaram e superaram uma trágica e interminável guerra civil – incognoscível para a população – que arruinara o país, orfanara um sem-número de almas, desmembrara milhares de famílias e injungira outras tantas à expatriação. Sustentaram com paciência e dignidade o contragolpe acerbo, deletério e miliário que um período bélico desta amplitude acarreta inexoravelmente. Os estigmas complexos e perduráveis que esta hecatombe cruel, inefável gravou neles, definiram-lhes uma temeridade original e enrijada. Já nada mais os poderia atribular.

 

Continua.

 

NEM PENSE EM SAIR DE CASA, DIVIRTA-SE COM ESTES AMIGOS!