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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 27

melgaçodomonteàribeira, 13.02.21

                                                                                                                           

Muitos naturais da raia, e que nela estanciavam, eram naturalmente atraídos por este tipo de vida, como os habitantes da costa eram geralmente arrastados pela vida do mar. Tivera e tinha o tráfico tão vivaz, tangível que finara por se arraigar nele e no seu dia-a-dia, da cabeça aos pés; foi-o incorporando até ficar submisso. Do nascer ao pôr-do-sol, tudo nele era contrabando. Transformara-se numa compulsão que o fazia subsistir mental, fisica e socialmente.

Na época em que o café Sical ainda primava na integralidade da raia lusa, o Nelo enfrentou sérias dificuldades financeiras depois de lhe assaltarem a garagem apinhada de café. O João-João, a quem o petate pertencia, exigiu-lhe o seu valor. Agravado, fez uma estadia em França a fim de reembolsar a dívida. Foram uns tempos atormentadores, pois estava afeito à atracção exercida pela peripécia e à predilecção descomedida pela euforia que o risco lhe desencadeava.

Cevide ficara sem alma. Sem ele não era nada. O Nelo simbolizava Cevide, era Cevide, era o fragmento imprescindível ao lugar.

Logo que amealhou o mandatório, regressou à terra. Foi com indescritível satisfacção que os habitantes das duas margens o viram de novo cavaloar jovialmente pelos campos que flanqueavam o rio Trancoso com matute  às costas, um olho aruspicino em cada um dos lados do regato.

Proporcionalmente, dizia que o contrabando já não era mais que um lazer, que uma brincadeira. As transacções organizadas e por atacado, como presentemente as da banana – embora fosse uma ocupação que não depreciava –, não era o petate que mais o satisfazia. O que mais afeiçoava, o que lhe enchia a espinha de dopamina e lhe proporcionava um gozo paroxísmico era o pessoal, aquele que lhe possibilitava brincar ao gato e ao rato com os guardas fiscais e os guardas civis. Prezava infringir e ludibriar as autoridades. Comummente, nesta categoria de contrabando, trazia a veniaga para a sua casa. Uma factura sumária, caso fosse fiscalizado pelo trajecto, comprovava a sua conformidade. Depois, era só espreitar o momento mais oportuno para ir ao outro lado.

Quando os guardas fiscais se achavam no largo de Cevide e o viam com mais um artigo qualquer às costas, diziam-lhe gracejando:

— A tua casa, Nelo, deve ser um museu!

E todos gargalhadeavam.                         

O cinzento da farda dos guardas portugueses e o verde escuro da dos espanhóis – as cores preeminentes do seu diário – faziam-no flipar: detestava os que as portavam, mas não duvidava que, sem eles, não haveria emoção nem felicidade. No dia mais do que verosímil em que este contrabando desvanecesse, o Nelo encarquilharia, murcharia e acabaria por exalar. Não teve tempo de ver o abandono que, pacatamente, se hospedava.

Viúvo, partilhava a vida com um filho deficiente motor, consequência de um acidente de moto quando tinha apenas vinte anos. O rapaz mitigava constantemente nele a angústia e a acrimónia que a sua condição lhe instilava, ocasionando-lhe imensas e reiteradas amarguras.

O contrabando, com as suas translações coercivas, compromissos e eventos, era concomitantemente aproveitado por ele como a exclusiva e cordial diversão que lhe afuguentava as pulsões e as mais  nefastas elucubrações. E, evidentemente, o café do Manolo era o local pertinente para se espairecer e, por vezes, entre amigos, desvencilhar o riso coibido, coisa que, com os anos, se desabituara de fazer.

Havia muito que o axiomático ofício social desempenhado pelos pequenos cafés – considerados populares – era manifesto e perpetuado. O do Manolo era uma ilustração palpável: tanto funcionava como fórum, confessionário, ringue, banco e, quando emergia uma alma caritativa com vocação e eupatia para escutar, servia de consultório de psicanálise ou psicoterapia.

As caixas de bananas eram encaminhadas da casa do Manolo para a garagem que abrangia a totalidade do rés-do-chão da casa do Nelo, em Cevide. Em geral, eram transportadas prudentemente o mais rápido possível naquela noite ou na seguinte para as variadas e remotas afectações a sul do país. Se por acaso surgisse um óbice, e o petate tivesse de continuar armazenado até que se apresentasse uma ocasião congruente, o resultado incorrido podia ser catastrófico.

O Nelo era o mandatário do promotor e coordenador das redes que actuavam no Trancoso, o Mário da Corga, de cujas encomendas estava pendente o resto da organização da Frieira. Conferia as caixas que levavam para a sua adega, registava quem as trasladava e encarregava-se da remuneração dos guardas fiscais, o reconhecimento pelos bons serviços prestados. O comandante dos agentes de fiscalização do concelho de Melgaço, um tenente da região, apodado Tampa de Mala, e tido como o maior papador com o qual os contrabandistas alguma vez negociaram, discutia pessoalmente o seu estipêndio com o capo. O que não o impediu de um dia vir com a esposa fornecer-se à loja do Manolo e arriscar um acréscimo, emitindo quando pagava: «Isto até devia ser uma dádiva, pois somos praticamente da mesma família, não é verdade ?» O Manolo, que já o vira em Cevide fazer o figurante, respondeu-lhe cruamente: «Que eu saiba, caballero, não tenho família em Portugal». Não reviu.

O Nelo tinha como cúmplice o Zeca, dos Casais. Mais ou menos da mesma idade, um pouco mais pequeno que ele, bigode à tasqueiro, tinha uma forte fama de mulherengo.

Como todos os jovens fronteiriços, a terra e o petate eram os seus singulares afazeres. Ambicioso, vendo que aquilo não era futuro para ele, logo que pôde deu o salto para França. Ao cabo de uma vintena de anos, serviu-se de um insignificante acidente do trabalho para voltar definitivamente à terra. As confortáveis economias que se constituíra e a ridícula pensão faziam dele um homem livre.  

Hoje em dia, o contrabando, além dos benefícios mais do que profícuos que lhe garantiam uma existência correctíssima, propiciava-lhe uma vida alegre, aventureira e enlevada, apesar da periculosidade; o antípode do que aguentara do outro lado dos Pirenéus. A despeito de experiente, não totalizava, todavia, o quarto das horas de serviço contabilizadas pelo Nelo.

Contava as caixas de bananas que saíam da garagem do Manolo – a quantidade arrolada ali tinha de coincidir com a das recepcionadas pelo Nelo –, incumbia-se de angariar os carregadores e do embolso correspondente, uma vez ultimada a transição.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 26 PRO. DR. JOSÉ MARQUES

melgaçodomonteàribeira, 30.01.21

                                                                                                                    

As mãos alapadas por debaixo do avental, como se segurassem a barriga, manifestavam a curiosidade no rosto. Pelos olhos meios cerrados, sinal de concentração, reflectiam velozmente.

— Foram os carabineiros! – desabafaram as duas conjuntamente.

Até mil novecentos e quarenta, ano em que se fez a sua integração na Guardia Civil, as fronteiras e as costas espanholas eram controladas por uma antiga corporação armada, denominada Cuerpo de Carabineros. Os anciãos, que têm uma relutância específica  em prescindir dos hábitos, perseveravam e nomeavam os actuais guardas civis carabineiros.

Tácito até ali, foi o Sebastião que replicou um pouco inimistado, como se a acusação das duas mulheres fosse absurda, inútil:

— Quem queríeis que fosse? Ora esta!

— Santa Mãe! Temo o pior. Estas coisas põe-me fora de mim. – foi a vez da Tinita – E se soubessem o mal que me faz vê-los na igreja, minhas queridas!

Ninguém adiantou a mínima pressuposição, mas, mentalmente, imaginavam o que infalivelmente acontecera. Comovidos, o olhar inexpressivo, ficaram mudos uns segundos. Marcavam a solidariedade para com o malfadado estranho.

Talvez dentro de uns dias, de umas semanas ou de uns meses deparassem com mais um cadáver irreconhecível, a jusante do rio. O número destes clandestinos anónimos – oriundos das antigas colónias portuguesas, em geral –, impudentemente assassinados e atirados para as águas do troço internacianal do rio Minho, variava de ano para ano, tendo decrescido radicalmente desde a Revolução dos Cravos. Uns eram colhidos vários quilómetros depois da barragem, outros, pouco antes da foz do Minho; uns eram distinguidos a flutuar, outros, nos areais, restituídos à terra pelas águas do rio, tanto na margem portuguesa como na espanhola. Estes mártires da pobreza, antes de serem lançados ao rio, eram despojados de tudo: do parco dinheiro e ouro e de qualquer documento ou objecto que os pudesse identificar.

Como se nunca tivessem resfolgado, sonhado e existido, estes incógnitos banidos deixavam famílias num pirronismo demente, a vegetar, agarrando-se a um sebastianismo epocal. 

Habitualmente em mau estado – segundo o tempo macerado na água –, eram sepultados na freguesia portuguesa ou galega onde tinham naufragado.

— O castigo é descomedido, desumano para quem quer ganhar a vida a fim de matar a fome aos seus – disse a Otília.

— Estas coisa são muito tristes, muito injustas – opinou a Maruja.

— Só Deus pode ser indulgente com estes renegados! – adjurou a Tinita.

Tinham matéria para conjecturar durante dias. Eram como eram, mas, nestes casos, falavam essencialmente para que a consciência não se silenciasse e não se acostumasse a estes episódios sinistros.

 

 

Para o Manolo, a noite transformou-se em martírio. Não cessou de dar voltas e mais voltas; foi uma noite em branco. Quando um automóvel abrandava diante da sua casa, sobressaltava, escutava e aprontava-se para que umas fortes pancadas fizessem abalar a porta. A efígie dos guardas civis esquadrinhando a garagem afligiu-o uma grande parte da noite. Por volta das quatro da manhã chegou a furgoneta do Fernando e só depois, já prostrado, dormiu um pouco.

Durante o dia, não pôde sofrear nem camuflar um irrequietismo silencioso que teimava em corroê-lo psiquicamente. Enquanto o impasse que o angustiava havia uns dias não fosse solucionado, não conheceria a impavidez, a confiança e o repouso que tanto almejava.

Às seis e meia da tarde, o Nelo e o Zeca, os seus sequazes do lado português, ainda não tinham dado sinal, o que ampliou particularmente a sua ansiedade. No negócio das bananas ou como homems tinha criado estreitas e sólidas relações com os dois, apesar de ser bastante mais novo.

O Nelo era de S. Gregório, mas vivia em Cevide, terra da esposa. Ainda moço, principiara a laborar como passador patenteado para o Relâmpago, o proprietário do comércio dominante em São Gregório, que aprovisionava o Branquinho de Sical e outras mercadorias. O café saía de noite da praia de Cevide na batela do Nelo, e viajava até à ourela galega do Minho, para debaixo da mansão da família Gomes, precisamente. O número de toneladas que assim transitaram morrera na memória. Actualmente, era uma neta, filha do Maia, e o marido, o João-João, que estavam à frente do estabelecimento e para os quais ainda fazia uns passes periodicamente.

De estatura média, cabelo castanho claro, embora o crânio já estivesse um pouco desprovido, tinha cinquenta anos passados, mas uma compleição viripotente e uma agilidade felina. Estes qualificativos não eram mais do que a decorrência das viagens incalculáveis que executara ao longo dos anos monte abaixo, de São Gregório à Frieira, com objectos de calibre diverso ao lombo – televisores, faqueiros, alambiques, esmagadoras...

Os comerciantes de S. Gregório faziam, digamos, dois tipos de contrabando. O primeiro consistia em pôr do lado de lá  pelos criados – cada negociante tinha os seus –, a uma hora combinada com os clientes espanhóis, as compras sujeitas a direitos aduaneiros. A isenção do pagamento de tributo na alfânfega espanhola fazia com que qualquer objecto portugues fosse sempre rendoso para os nossos vizinhos. O segundo era planejado, encoberto, opaco e atingia dimensões extraordinárias. Como o que se contrabandeava dependia da demanda, as lojas de S. Gregório tinham anexos e aposentos unicamente acessíveis extrinsecamente, onde abundava tudo o que era proibido e reclamado pelos consumidores espanhóis.

Claro que, esporadicamente, as autoridades locais irrompiam numa ou noutra loja e vistoriavam-na de cima a baixo; simples inspecções infecundas. Os guardas fiscais e os funcionários da alfândega eram, em grande parte, nativos e todos os comerciantes tinham entre eles informadores. Mal o ruído de uma razia a um estabelecimento definido era percebido na aduana, o dono concernido era oficiosamente advertido e tudo o que fosse embaraçoso, removido sem demora.

O Nelo já era contrabandista quando veio ao mundo. «Não basta querê-lo para o ser», dizia. De facto, o homem dispunha das qualidades chave: era inteligente, astucioso, corajoso e engenhoso.

 

Continua.

 

 

MELGAÇO ESTÁ MAIS POBRE.

MORREU O PROF. DR. JOSÉ MARQUES.

12/08/1937

29/1/2021

DESCANSA EM PAZ, PROFESSOR

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FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 25

melgaçodomonteàribeira, 16.01.21

 

A Otília e a Maruja foram percorrendo a ponte pausadamente. Conversavam com animosidade, mas não desviavam os olhos da curva pela qual podia sobrevir a qualquer altura o jipe dos guardas civis. A juridisção deles incluía metade da ponte. Desceram a maciça escadaria metálica e, pachorrentamente, como se passeassem, calcorrearam o caminho paralelo à via férrea. Este atalho, lamacento quando chovia, terminava junto da passagem de nível, depois da estação. Exteriormente, nada denotava o refolho dos quilos de café. Visivelmente, eram as mesmas com ou sem eles.

Pousados no primeiro degrau dos três que contava a tienda, avistaram a Tinita e o marido, o Sebastião. Dum saco de lona, iam extraindo umas magníficas cebolas que entrançavam, formando grandes réstias.

A Tinita era uma septuagenária muito bondosa e devota. Era patroa de uma loja de roupas e de calçado. Como não puderam ter filhos, quatro anos atrás, optaram por adoptar a Lurdes, filha de um casal português que albergavam, o Manuel e a Augusta. A miúda ainda não  andava. A Tinita e o Sebastião cuidavam dela como se fosse uma princesa. Cada dia, enroupavam-na com novos indumentos. Olhavam para a garota como para uma deusa.

Pouco depois da adopção, a Augusta ficou novamente grávida. O segundo parto deu vida a outra menina, a quem puseram o nome de Maria. No sub-rés-do-chão, onde os alojavam – a antiga adega –, o solo era de terra, sem divisões, e os ratos, os ocupantes lídimos, flanavam indiferentemente. A pequena Maria foi crescendo e definhando no meio de tanta esterqueira, de tanta incúria, de tanta miséria, sem saber que a rapariga que vivia por cima era sua irmã. Na casa, as rixas sucediam-se diante da garota, a quem a míngua e a adiaforia esponjavam as lágrimas e o temor. Pétrea, apática a estes alaridos constantes, divertia-se com os ratos.

Quando se viam a distância, a Lurdes, ingenuamente, vexava-a dizendo-lhe que se vestia com farrapos, que não se lavava, que não tinha sapatos, que era muito magra... Intrincada diante de tanta pompa, a Maria não falava, interiorizava tudo. O olhar vítreo, fusco, cruciante, deprecava auxílio, bondade, amor, tudo o que a irmã tinha em demasia.

A Tinita obstou as duas crianças de conviverem, de se falarem, enterrando o elo de irmandade que as unia. A despeito de contundir princípios cristãos humanamente irremissíveis, assistia como o crente mais expurgado e com alegria à missa dominical na companhia da filha e do marido.

O Manuel, além de abécula, era um alcoólico incurável; a mulher e a filha assemelhavam-se a camponeses medievais. Apenas saíam da casa para ir à água ao lado oposto da casa.

A palermice não inibiu o pai das raparigas de desvendar na incapacidade da Tinita – e no desgosto que daí escoava – uma forma de a espoliar facilmente de umas pesetas, a fim de cevar a sua intemperança inveterada e fomentar as suas alienações iteradas. Oportunista, prestes a tudo, de vez em quando, chantageava-a, intimidando-a de desapossá-la da filha.

Figurava no rol das pessoas que não nasceram para beber. O álcool, verdadeira pernície, subjugava-o, enraivecia-o, desfigurava-o, conspurcava-o. Como todos os fracos, nos quais a dependência se refugia sem esforço, o seu amanhã era uma contingência. No início, bebia para se embriagar; depois, para se furtar à ressaca.

Fazia da vida das pessoas do lado direito do Minho um inferno. Quando o álcool o inundava, desassisava. Então, a altas horas da madrugada, ia para diante das casas dos habitantes, espertando-os com vitupérias, alusões paradoxais inimagináveis, passíveis de arrepiar o ser mais abjeto.

Uma noite, durante uma das suas alucinações etílicas, dando de conta que um comboio se acercava, pulou para a via-férrea gesticulando e rugindo. Foi arremessado violentamente pela locomotiva para a beira da via.

Apesar das inúmeras contusões e das fracturas suficientemente críticas, restabeleceu-se em poucas semanas. Não tardou em recomeçar os seus desvairos.

Nas aldeias, as pessoas ressentiam as depredações provocadas à volta delas pela calamidade que representava o álcool. A escassez e a dureza do trabalho, as circunstâncias de vida peníveis e desesperantes faziam delas pessoas complacentes.

Também lhe perdoavam porque quando estava num estado normal, não deixava de ser um indivíduo deferente e serviçal.

Tanto o Manuel como o Manel Grande – e muitos mais naquela parte da raia – vieram preencher o vazio deixado pelos galegos emigrados. Entre Cevide e Vila Real de Santo António eram milhares.

Como era de supor, as duas mulheres fizeram uma alta para parolar e, preventivamente, deitar uma olhada à ponte. Todas as precauções eram poucas para frustrar as astúcias dos guardas civis.

— Carambas, Tinita, que boas cebolas tivestes! E tantas! – constatou a Otília perplexa.

— Graças a Deus, mulher. Foi um ano bom – retorquiu a Tinita – Ides de passeio, não?

— Vamos à estação ver o Firmo – foi a vez da Maruja.

A Tinita, como os outros habitantes, estava a par do porquê destas visitas bisadas. Pousou as cebolas já trançadas no regaço. A sua cara reverberava intriga e suspeição. Depois de espreitar com fugacidade para um e outro lado do caminho, demandou em voz baixa:

— Quando vínheis pela ponte não apercebestes umas pingas de sangue no passeio, antes de chegar às escadas?

As duas mulheres, pasmadas pela nova, entreolharam-se e abanaram negativamente a cabeça.

— E não ouvistes uns tiros por volta das quatro da madrugada?

Cada vez mais confusas e alarmadas, deram, por sua vez, uma olhadela em redor e avizinharam-se mais da Tinita e do marido.

— Pois olhai, estava despertada quando senti dois tiros. Virei imediatamente a cara para o despertador, por isso vos digo que eram quatro da madrugada. De manha, já não me recordava. O Sebastião, como sabeis, vai lá acima regar mal o sol nasce e, quando veio, disse-me que havia pingas de sangue frescas antes das escadas. Foi então que os tiros ressoaram na minha cabeça. Fiz logo a ligação.

— Não nos digas, mulher! – exclamaram a Otília e a Maruja.

 

Continua.

 

 

SUSPENSAS MISSAS EM MELGAÇO DEVIDO AO AUMENTO DE CASOS DE COVID-19

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 24

melgaçodomonteàribeira, 31.12.20

Os diabos dos guardas civis não demonstravam vontade nenhuma em mexer, e isso abespinhava-as. Portanto, àquela hora da tarde, os raios de sol abrasavam as placas esverdeadas da casota onde descansavam. A atmosfera interna, indubitavelmente irrespirável e perspirante, convinha-lhes, pelo visto.

Mas havia dias assim, que eram embirrentos, impedientes. Tinham, provavelmente, adivinhado a intenção das duas mulheres. As urdiduras dos guardas eram-lhes familiares e havia dias que adoravam contrariá-las, aborrecê-las. Era, para os detentores da autoridade, um modo de lhes notificar a hegemonia de que eram senhores e à qual tinham de se arriar.

Para as pessoas como elas que tinham de ir com frequência à outra riba fazer umas lidas, a vista do jipe, em parte, tranquilizava-as. A sua ausência decuplaria a ambiguidade e a desconfiança; os carabineiros podiam aparecer de repente ou, emboscados em qualquer lado, vigiar a ponte e a estação com binóculos.

Languidamente, taramelavam, palratório decerto asséptico, que, em essência, não diferiria dos que tinham diariamente em qualquer outro lugar e situação.

Tiveram de pacientar mais cinco minutos, antes de ouvirem ronronar o motor do potente Land-Rover Santana. Ainda houve uns instantes de suspense acerca do destino dos guardas civis. Tremulavam, ou simulavam. Às vezes, vinham ao café do Manolo dar uma vista de olhos e beber algo, embora não fizesse parte da circunscrição deles. Finalmente, deram meia volta e desapareceram na curva.

A Otília e a Maruja, a mulher do Virgílio, permaneceram amouchadas nos degraus. Com o tempo, descobriram que a impaciência era capaz de originar surpresas amargas. Dali, o troço final da estrada estrangulada que conduzia à estação era claramente visível. Perscrutaram-no demoradamente. Não, os guardas civis não tomaram a direcção da estação, de outro modo já tinham divisado o jipe. Levantaram-se e prepararam-se para atravessar a ponte.

Colaboravam, havia bastante tempo, com o Firmo, o chefe da estação de ferrocarril –caminho de ferro –, personagem poderosa e respeitada pelos aldeões. Alto, fortinho, o passo do homem seguro de si, era a calma personificada. Moinante desconforme, sempre bem disposto, era dotado de um humor fino, inaudito.

Entre dois comboios, abandonava o seu cubículo duas vezes por semana. Ia ao bar do Manolo na companhia do seu amigo Bárcia, um sexagenário tão forte como ele. Ex-membro da Benemérita, havia anos que fora ejectado da instituição por corrupção quando prestava serviço no porto da Corunha. Desde aí, explorava um modesto restaurante em Arbo, sua terra natal, o Casa Bárcia. Sita junto da estação ferroviária, a casa tinha como especialidades angulas al ajillo (meixão) e lampreia do rio Minho. Era o sósia de Clark Gable.

Além da amizade que os associava, deslocava-se igualmente à Frieira por causa dos atributos da carne do Celso.

O Firmo era sempre o primeiro a transpor a porta do bar. Fosse quem fosse que estivesse presente, nasalava acentuada e invariavelmente o mesmo enunciado:

— A ver, põe-nos dois vermutes num pronto e com carinho !

Enquanto bebiam dois ou três cada, entretinham-se soltando meia dúzia de palavras vãs. Pagavam por turno e, quando o Manolo estava presente, como despedida, o Firmo resmungava:

— Cada vez tenho menos ganas de vir beber um aperitivo a este bar. Somos mais mal recebidos do que um cigano, joder!

Eram homens de poucas palavras, que se apreciavam admiravelmente, e que sabiam mais coisas do que na realidade desejariam.

O Firmo residia em Ribadavia. Como chefe de estação, tinha uma situação vantajosa. No entanto, quando se tratava de ganhar umas pesetas suplementares fazendo um jeito aos amigos, ou simplesmente aos amigos dos amigos, aceitava com grande alegria. Certos dias, finalizado o dia de labor, quando subia para o ferrobus das seis da tarde para volver ao lar, carregava uma caixa de papelão de considerável tamanho bem encordoada. O conteúdo não era novidade para os habitantes dos dois lugares.

A Otília e a Maruja, como os antepassados e todas as velhotas das aldeias mais ou menos da mesma idade, tinham um abdómen desenvolvido. Depois dos numerosos partos, não usaram – não fazia parte dos seus costumes – os artifícios das citadinas para o ventre reassumir a planura anterior.

O Firmo teve, pois, a brilhante ideia de fazer dessa especificidade um recurso e de tirar proveito dele, tanto para si como para as mulheres. Por meio delas, o chefe da estação abastecia em café Sical alguns amigos e quase metade dos proprietários dos cafés de Ribadávia, a vila que fora capital da Galiza.

Alternativamente, e mais do que uma vez por dia, a Otília, a Maruja e outras mais convergiam para a estação com dois quilos de café dissimulado no baixo ventre. O Firmo nunca fora molestado pelas autoridades. Esta imunidade era legitimada pela sua posição.

Os guardas civis e as famílias beneficiavam de um desconto de sessenta e cinco por cento no preço dos bilhetes da RENFE, qualquer que fosse o destino em Espanha; o Firmo recompensava-lhes o privilégio acordado com uns bilhetes especiais que os dispensava dos trinta e cinco por cento restantes. A colaboração fazia o bem-estar de todos.

O chefe da estação também ajudava as pessoas que ansiavam visitar os seus parentes dispersados pela Europa, adquirindo-lhes na agência Wasteels de Ribadávia os notórios bilhetes BIGT – bilhete internacional de grupo para trabalhadores.

Criadas por um belga no início dos anos cinquenta, estas agências destinavam-se exclusivamente aos emigrantes e dominavam o mercado dos bilhetes a baixo custo. Graças aos seus preços imbatíveis – menos 30% –, a Wasteels facilitava a centenas de milhares de imigrados pela europa ocidental e central a viagem aos países atinentes. Contudo, para aceder a estes títulos de transporte era indispensável fundamentar o estado de emigrante.

Com o Firmo, a agência era pouco ou nada formalista. Permitia mesmo encarecer ficticiamente de cinco por cento o preço dos bilhetes, suplemento reavido pelo chefe de estação quando entregava o bilhete ao pedidor.  

Este favor que fazia aos parentes dos emigrantes – evitava-lhes a perda de tempo, o sumpto da ida e volta a Ribadávia e concedia-lhes o desconto a que não tinham direito – era-lhe amplamente agradecido.

 

Continua.

 

 

UM GRANDE ABRAÇO A TODOS OS QUE ME VISITAM

E

2021 SEM OS BICHOS

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 23

melgaçodomonteàribeira, 19.12.20

 

Era evidente que ninguém poderia desarraigar a exploração dos pobres, a voracidade dos grandes, nem os maus tratamentos e as atrocidades com que estes contêm a fúria dos indigentes e dos justos. Ninguém mudaria o ser humano, mas obcecava-o o múnus imperioso de defender acções nobres e valores sem os quais o homem deixa de ser homem, e a vida societal se torna insuportável. Envolver-se-ia com os que faziam tudo para salvar o mundo. Não queria nem podia deixar que prosseguissem a sua transfiguração, o que, com o tempo, acarretaria a sua destruição.

A irmã do Padre, a Fátima, era uma moça bonita, bem feita, mas atrevidamente ególatra. Ela e o rapaz alimentavam, porém, uma carasterística semelhante: uma ociosidade inata. As esperanças da rapariga eram bastante mais determinadas. Vivia para ela, para a sua imagem, para que olhassem para ela, para se ver no olhar dos outros.  As raras moedas que a mãe lhe dava, ou que ocasionalmente tinha o ensejo de lhe surripilhar, utilizava-as na aquisição de produtos de beleza corriqueiros, na compra de fotonovelas e de revistas glamour. Era neste universo constelado que se projectava. Via-se, oniricamente, no lugar das vedetas fotogénicas rodeadas por belos e ricos homens, que desencantava naquelas páginas.

Dera os primeiros traços de lápis de maquilhagem, de modo esquemático, com quatorze anos apenas, alcançando sem delonga um nível de competência que, confrontado com o que se via naqueles lugares, animara em algumas adultas uma emulação explícita.

O pai, quando o álcool o submergia e lhe fazia surgir os sentimentos antagónicos que por ela fora condensando, injuriava-a e taxava-a de macaca.

A falta de meios, que a moça deplorava melancolicamente, não a deixavam granjear os trajes e a parafernália atinente, capital para se exibir como gostaria, pondo em evidência e valorizando o escultural corpo que ela acatava como um inestimável património.

Revoltada contra a mesquinheza, o hilotismo e a ataraxia vanguardista dos pais – outra afinidade com o irmão –, o seu fomento monomaníaco eram os rapazes que manobrava com um menoscabo e uma faculdade inerentes. Dos múltiplos jovens que a requestavam incessantemente, apenas seleccionava os mais abastados, os que tinham a capacidade de lhe saciar os desejos pelo medíocre e desfasado fausto que ali podia obter. Em troca, brindava-os com uns abreviados momentos de luxúria onanista. Os mancebos, lenificados, honravam-lhe as exigências.

Enfastiado de a ver preguiçar desinteressadamente, o Manel ordenou-lhe que se empenhasse em lograr um lugar de doméstica, cargo inesgotável e sensivelmente bem remunerado. A discussão depravou em conflito e, desde então, rejeitavam-se. Esse incidente impeliu a mãe, vigilante e contemporizadora, que já reparara na vida estéril e nos sonhos da filha, a pôr-se do seu lado. Sem negligenciar a delicadeza e as incertezas dos seus anseios, meditou maduramente na heurística mais eficiente para que a rapariga desfruísse das suas aspirações meretrícias.

A Gracinda sabia que uma mulher bonita, bem feita e creditada de uma galante eloquência predispunha das potencialidades indefectíveis para deslumbrar um homem opulento ou aburguesado, respirar e florescer pacientemente às expensas do seu rendimento ou da sua fortuna. Compreendera, graças ao seu empirismo, que o amor e a moralidade não eram mais do que um derivativo de luxo ao qual só os ricos concediam, e que só os louvavam depois de os terem pisado em nome da cobiça.

Por ter um precedente na família, depreendera que a probabilidade de a filha um dia rastrear um tecnocrata e conquistar um futuro irreprochável não era de desprezar. Fora a façanha cumprida por uma tia sua que, depois de se encabrestar alguns anos a uma vida dúbia em Lisboa, triunfara desposando um misterioso desconhecido com uma atribuição de relevo na companhia Electricidade de Portugal.

Para isso, a jovem filha, inábil, precisava de alguém imbuído do apurado savoir-faire basilar a uma fêmea; de alguém que lhe professasse e incutisse as técnicas lúbricas, os gestos, a desteridade, as maneiras; ou seja, o conjunto dos conhecimentos libidinosos determinantes que metamorfoseiam uma mulher atraente e irresistível numa decocção adictiva pela qual nenhum homem se embaraça em vender a alma ao diabo.

Explicou meticulosamente à filha a estratégia que urdira e, um dia, pediu-lhe que a acompanhasse. Recomendá-la-ia ao Dom Gulian, popularizado por Capitão, pessoa endinheirada, a quem fazia umas horas de limpeza por semana. Já lhe tinha tocado no assuntos do jeito mais subtil e aceitável. Era o homem idóneo para educá-la na arte da sedução, a constituinte crucial. Capitão de fragata reformado depois de quarenta anos de serviço, levava uma vida fosca desde que a esposa, a Dona Carmen, mulher de uma pulcritude inefável, fora levada repentinamente por uma doença insanável. Havia cinco anos. 

A Deolinda sabia que os marinheiros sulcavam o mundo e tinham uma mulher em todos os portos onde atracavam; eram, pois, homens exercitados. Para muitos destes marujos, que engelhavam durante meses rodeados de tocos sem verem uma fenda no horizonte, o sexo assumia um estatuto de destreza admirável; para os oficiais, era óbvio que se reduzia a uma arte. Como capitão e com a sua classe de pessoa estudada, a Gracinda estava persuadida de que o Don Gulian se apropriava das mulheres mais garbosas e versadas dos bordéis que, sem dúvida, visitara.                     

Não foi preciso porfiar com a filha para que subscrevesse a sua proposta. A moça faria tudo para conseguir os meios com que incrementar os seus fantasmas.

 

As duas velhotas estavam sentadas nos degraus de acesso a um dos passeios laterais da ponte. Exacerbadas, já não sabiam quanto tempo havia que esperavam. As suas nádegas, apesar de carnudas, lamuriavam-se do peso egrégio que sustentavam, forçando-as frequentemente a modificar de posição. Um lenço preto na cabeça abrigava-as dos raios solares, tórridos àquela hora da tarde.

Aparentemente remansadas, conversavam. Porém, apenas iludiam os cândidos: espiavam os guardas civis estacionados na outra extremidade da pontede. Como dois tralhotos, não arredavam a vista do jipe, com discrição, ao mesmo tempo que palravam. Eram mulheres de muita experiência neste exercício. A vista e a audição, os dois sentidos imperativos requeridos para estas azáfamas, tinham-nos em alerta contínua.

 

Continua.

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 22

melgaçodomonteàribeira, 05.12.20

 

O Manel e a Deolinda viveram perto de seis meses na raia, o que, graças à ajuda de fronteiriços com os quais tinham tecido vínculos de cordialidade, lhes deu tempo para coordenarem a mudança de margem com fiabilidade. Em outubro, mês da festa da Virgem do Rosário na Notária, uma aldeia a meio caminho entre Puente Barjas e a Frieira, e que, em parte, se enxergava de S. Gregório, deram o salto.

Como era natural, foi dos lugares arraianos que saíram ilegalmente os primeiros emigrantes. Em S. Gregório, a família que não tivesse um familiar expatriado era insólita. Por esta razão, o emblemático sofrimento – tanto físico como moral – dos inumeráveis desgraçados que, com regularidade, viam desfilar no lugar, recordava-lhes o suplício afrontado por parentes ou amigos e exortava-os à benignidade. Precavidos por preceito, o olhar dos raianos era intenso, perfurante, mas lotado da mais casta complacência.

As singelas particularidades apelativas dos raianos faziam-lhes refulgir a  imediação,  a proximidade, diferenciando-os dos outros; faziam deles uma população delirante que descurava as portas e não fazia distinção entre o dentro e o fora. Para este povo inconformista, a fronteira era uma mera barreira diáfana, um garante das identidades, um espaço onde se esbarrava com a alteridade; era uma aldraba que encorajava à partilha, à hospitalidade, ao cosmopolitismo; era um traço de união espaçando pessoas que coabitavam em terras unidas pelo mesmo ar, pelos mesmos cursos de água, e que se singularizavam instintivamente entre si.

As fronteiras, inobstante preconceitos fanados, não desirmanavam; acicatavam as pessoas à coexistência, a descortinar-se. A raia constituía um território arrebatador onde o estrangeiro era sempre o vizinho.

O Manel e a Deolinda tinham dois filhos: uma rapariga com pouco mais de dezanove anos e um rapaz mais novo doze meses. Do rapaz, o Manel procurara fazer um padre. Afirmava que estes auferiam de um emprego decente, cómodo e bem retribuído; que usufruíam de um alojamento honorável e que mulheres não lhes faltavam. Isto, sem referir a categórica preeminência da qual não se privavam para tirar partido da sociedade. Mencionava, ainda, que, no fim da vida, eram amimalhados em estruturas com os convenientes serviços canónicos que lhes favorizavam uma cessação adequada, etérea, estritamente divina.

Não obstante a virulenta hostilidade do rapaz, o Manel, consciente de lhe lavrar o futuro, ficando ao mesmo tempo com menos um estômago a providenciar, deliberou interná-lo no Seminario Mayor Divino Maestro, em Orense. Tinha doze anos e não findara os estudos primários! A estadia durou perto de quatro longos anos – para o rapaz – ao cabo dos quais, para grande consternação dos pais, foi expulso. Os motivos eram lacónicos: incompatibilidade com a instrução religiosa, ou seja, falta de vocação, diversos percalços, pugnacidade, encadeamento de escapadas e, o mais grave, amedrontara seriamente os seus preceptores avivando um incêndio no enorme dormitório do seminário.

Era tido por pacóvio, faccioso e, coisa que nunca ofuscura, revelava uma índole infusa pelos estupefacientes. Chamava-se António, mas a alcunha de Padre colou-se-lhe logicamente à pele.

As grandes orelhas – proeminente herança do genitor – retinham-lhe diante dos olhos uns óculos cujas lentes esverdeadas e espessas, incrustadas numa grosseira armação preta de plástico, lhe imprimiam um equívoco ar de pateta. Inalteravelmente vestido de negro, a única repercussão que a instituição religiosa operara sobre o adolescente, vagueava por ali, sozinho, ou na companhia do único amigo, um moço da sua idade sobrenomeado Chino. Recalcitrante declarado contra os regimes instituídos, a coercividade, o arbitrário e a ascendência, era, segundo toda aparência, um absoluto iconoclasta. No seu imo, enraizara uma insubmissão surda.

Desde que, para seu grande refolgo, fora compelido a abdicar da carreira espiritual, despendia grande parte dos dias deambulando como um eremita pelas bordas do rio e do regato. Era o seu domínio, a sua religiosidade, o seu paraíso. Tudo lhe estimulava o congénito desvelo juvenil: as desconcertantes configurações dos rochedos, autênticas obras de arte; os troncos e os montes de detritos caseiros que se sucediam sem interrupção nos dias de chuvadas, vindos sabe-se lá de onde e que ali encalhavam caoticamente; e os sorvedouros do rio e o tumulto do regato que o alienavam misticamente. Estas enternecedoras bagatelas agregava-as com a amorável errância, indiferença e a beatitude que a ganza lhe facultava. Ao inverso da maioria dos habitantes – que a sofriam –, a solidão, sua companheira, fazia-o devanear.

Como outros rapazes que abominavam a escolaridade, boicotara, pontualmente e com a conivente acatalepsia dos desmazelados pais, as aulas. Este desdém – uma revelação precoce – incentivara-lhe a descoberta de lugares esconsos e ideais para fantasiar e planar; deslindara-lhe as importantes exuberâncias prolíficas que povoavam essas paragens semi-selvagens.

Trabalho, como a gente o concebia, era uma palavra que desestimava, que execrava. «Andar a efectuar tarefas desagradáveis às ordens de outros e a sacrificar-me a uma vida desastrosa como a que toda a gente aqui levou e leva ? Não, não quero passar ao lado da vida.» Tinha o desígnio resoluto de ser o protagonista do seu porvir longe daquela gente, ainda que fosse como um pedinte repelente.  

Enquanto o não pudesse arrostar, contrafazia-o, o que desatava o motejo da gente, dominantemente insciente.

Apesar do seu embrião contestatário, aquiescia episodicamente em trabalhar como servente nas obras ou em dar uma mão a um vendedor de mobílias da Notária quando este tinha de proceder a entregas. Estes miúdos serviços contribuíam para  a sua independência, para participar moderadamente nas despesas da casa – o que lhe preservava a paz social – e financiar a sua amatividade pelo haxixe.

Aguardava, fleumaticamente, pela mili – serviço militar –, o que ocorreria quando completasse os vinte anos. Depois, a pé e à boleia, peregrinaria pela terra onde viera ao mundo, pelo seu país, pelo seu Reino. Aplicar-se-ia para se embeber prontamente e com ardor dos fantásticos contrastes que faziam da Espanha – que tanto o cativava – um mosaico flavescente de etnias, culturas, línguas, tradições, crenças e panoramas matizados. Sem deslembrar, todavia, o que verdadeiramente o trabalhava: as entranhadas posições anticonformistas.

Continua.

 

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CASTRO LABOREIRO - 4/12/20 - 1º nevão  foto JN

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 21

melgaçodomonteàribeira, 21.11.20

 

Esta, precavida por natureza, inconformada e suspicaz, não mexia; mas, por meio do silêncio que observava, dava mostras de ter inevitável propensão para ceder. A lata de cola-cao, a mãe e tudo mais, tinham saído da sua mente.  

O Manolo arrumou a última lata que tinha nas mãos, voltou-se e, antes de pegar noutras, preveniu pateticamente:

— A ver se nos pomos de acordo, Otília. Acredita se quiseres. Eu não ganho nada com isso, mas sabes muito bem que água mole em pedra dura tanto dá até que fura. Sou amigo do Fernando, não é nenhum segredo para ti, mas, antes, já o era teu. Andaste comigo no colo, ou crês que me esqueci?

Na cara da Otília desenhou-se um sorriso maternal.

O negociante serviu-se da afectividade da mulher, a sua falha.

—Agora, faz o que te der na gana, o que te agradar, mas não venhas dizer-me dentro de uns anos que não te avisei. Isto fica entre nós, já sabes.

E retomou o seu trabalho. Dissera tudo e era desnecessário expandir-se mais.

A mulher não fez o menor movimento. A sua cabeça encontrava-se repleta de turbilhões, cujas espirais eram, decerto, tão grandes e fortes como as que sublevavam os rochedos do rio.

— Bem, vou-me – disse subitamente.

Deu meia-volta e orientou-se para a porta.

— Otília! E o Cola Cao para a tua mãe?

O braço meio levantado, mostrava-lhe uma lata amarela com tampa vermelha.

— Visto o tempo que aqui perdeste, agora é que vais ter de suportá-la! – e riu com infinda alegria, aquela alegria melosa e expansiva que lhe esguichava com constância pelos poros desde que retornara à sublime aldeia natal.

Por detrás da cortina da cozinha saiu a Rosa que o informou:

   — Veio um rapaz de Cevide dizer que o Nelo e o Zeca só vêm amanhã à tarde, às seis e meia.

Foi como se uma foice lhe abscindisse o peito. O riso esvaneceu-se e as feições endureceram. Constatava o que pressentira: a obrigação de procrastinar a transferência da banana para a noite seguinte. Era inelutável, apesar dos riscos demenciais a que se sujeitava. No caso de uma rusga inesperada – embora pouco provável –, o Manolo nunca poderia justificar a presença do amontoamento astronómico de bananas na sua garagem. Ia passar mais vinte e quatro horas horríveis, angustiantes.

 

O Manel era da Boalhosa, Ponte de Lima. Os pais, caseiros de nascença, cultivavam as terras de um fidalgo despótico. O Manel, os três irmãos e as duas irmãs começaram, pois, a trabalhar na agricultura mal deram os primeiros passos. Acantoados numa casa imunda, sem água nem electricidade, sobreviviam em condições animalescas, mourejando do nascer ao pôr do sol.

A Deolinda era de Porto Bom, Ponte da Barca. Também se iniciou na lavoura com os pais, jornaleiros, quando ainda era uma criança. Mas, no parecer do Manel, eram ricos porque viviam na própria casa, apesar de mísera.

Conheceram-se quando ela passou a fazer parte do rancho folclórico de Santo Estevão da Boalhosa, onde ele fascinava pela fluência de bailador. Foi o coup de foudre entre o atlético moçoilo e a raparigota. A ciumeira infernal que este apego engendrou em algumas dançarinas, assim como a inópia que os alagava, acabaram por ser ominosas. Decidiram enjeitar aquela vida e ir aventurar-se para Espanha. Uns dias mais tarde, os pertences como bagagem, aterraram em S. Gregório. Corria o ano 1956 e tinham dezoito anos.

Nessa altura, o lugar gozava de uma animação espantosa; era uma pequena vila campestre turbulenta e possivelmente um dos poucos lugares portugueses com médico e farmácia. Tinha dois cafés e um sem número de tascas, três comércios preponderantes e o dobro de pequenas lojas. Quase todos vendiam de tudo: mercearias, ferragens, tecidos, roupas, louças, talheres, utensílios para a lavoura... e, pouco depois do 25 de abril, tabaco americano e revistas pornográficas. Claro que as lojinhas não dispunham do mesmo sortimento que as três imperantes e célebres. Tudo isto destinado, predominantemente, a uma clientela espanhola. O tempo e as ocorrências sucessivas dizimaram as pequenas lojas, deixando a exclusividade às outras.

A actividade entusiástica do lugar era imputável à alfândega flamejante que trouxera consigo uma multitude de funcionários: aduaneiros, polícias da PIDE e guardas-fiscais. Apenas o doutor da alfândega, o chefe dos polícas da PIDE e o seu impedido tinham direito a um alojamente no recinto da aduana. Os agentes da PIDE e os guardas-fiscais solteiros, vindos de lugares longínquos para guarnecer o défice de funcionários da terra, hospedavam-se nas casas dos autóctones; os que tinham formado família alugavam moradias vetustas, pois os ordenados eram modestos. Os gastos correntes desta gente faziam viver uma parte notável da população.

Induzidos por pessoas da aldeia, que viam neles a incandescência rompante da juventude, o Manel e a Deolinda passaram uns tempos de aclimatação na aldeia fronteiriça, esperando pelo momento propício para mudar de  lado com segurança. Este procedimento era muito empregado pelos do corno de baixo – de fora – para ganharem a confiança das autoridades, omnipresentes e sempre atentas aos rostos ignotos. As chances de os alóctones passarem despercebidos na raia eram muito poucas. Durante uns meses, trabalharam à jorna na lavoura e moraram numa lapa, uma mina dessecada que acondicionaram para dormir e cozinhar.

Nos dias das festividades das aldeias galegas mais próximas de S. Gregório – A Frieira, A Notária, Puente Barjas e Padrenda –, havia uma nítida tolerância por parte das autoridades de ambos países. Qualquer podia passar pelo regato sem o menor constrangimento. Os mais jovens, cujo alvo eram as formosas chavalas – moças –, valiam-se, ao mesmo tempo, da facilidade para adquirir jeans, ténis e beber umas Coca-Colas, artigos americanos muito cobiçados inexistentes em Portugal. Os mais comilões aproveitavam-se dessa condescendência para se arroubarem com algumas das insignes tapas espanholas: pulpo, callos – polvo, tripas –, carne ó caldeiro ou calamares a la romana.

 

Continua.

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 20

melgaçodomonteàribeira, 07.11.20

 

Num comércio como o do Manolo, radicado numa aldeia despovoada como aquela e a menos de duzentos metros da raia, era incontestável que os camiões de bananas que ali eram descarregados semanalmente só podiam ser para contrabandear.

Sozinho na loja, assobiando brandamente, ia tirando de caixas de papelão produtos enlatados que colocava nas prateleiras atinentes, por detrás do balcão. Para ele, era a maneira mais sensata de distrair harmoniosamente os pensamentos, de serenar um pouco a cabeça e, paralelamente, de avançar o trabalho.

— Dá-me uma lata de Cola Cao – mistura achocolatada  –, anda, que não há quem ature a minha mãe.

Não sentira entrar a Otília. Como quase todas as jubiladas da aldeia andava de pantufas na rua. Usualmente, um ruído quase imperceptível alertava-o. Não gostou.

Por vezes, a premência do negócio da banana apoderava-se dele e despojava-o de sensibilidades portanto cruciais.

Virou-se, sisudo, e, encarando-a, ripostou:

— Achas que se fosse rico estava aqui a suportar gente reles como tu, Otília?

— Percebeste muito bem o que quiz dizer, anda! –  replicou

Não concluía uma frase sem acrescentar anda, desde que pudesse inseri-lo. Era um tique pouco mais novo do que ela.

— E a tua mãe merenda? Os velhos são mesmo como a canalha! Aposto contigo, Otília, que és mulher para seres mais idosa do que a tua mãe antes de ela morrer.

Sem perceber o seu propósito derrisório, riu e, num tom meditativo, disse:

— Ai sim... Quem me dera... Anda!

   O Manolo colocou por cima do balcão de vidro dois frascos de compota que tinha nas mãos. Com ar enigmático, questionou :

— Sabes que o Fernando todas as manhã parte a lenha para aquecer o forno.

Fitou-o e abanou a cabeça afirmativamente, dizendo:

— Estou tão habituada que não lhe ligo. Por que me perguntas uma coisa destas? – questionou, não entenderndo aonde ele queria chegar.

— Pois, olha, vou dizer-te algo que te diz respeito e que vai ficar entre nós. Vê lá se depois me vais atraiçoar e me fazes passar por uma má-língua – avisou o Manolo, olhando para a porta como se temesse ser ouvido.

— Ai, eu alguma vez te atraiçoei, Manolo? Alguma vez te causei preocupações? –inquiriu com indignação, todavia insuficiente para lhe eliminar dos olhos a forte curiosidade interesseira.

A maneira como ela se tinha expressado dera-lhe vontade de rir. Bisbilhoteira como ela, havia poucas. Quando saía da casa, se abalroasse na estrada com alguma das suas comadres a quem a pressa não privava de tagarelar, sentanvam-se prontamente onde quer que fosse e palravam regiamente.

Falavam da noite que tinham passado, de fulana que, diziam, andava amigada com sicrano, do intempestido falecimento de alguém, das colheitas, dos pequenos acontecimentos domésticos, das mudas do dia, do tempo que iriam ter, dos novos horários das missas, das doenças de que padeciam – muitas eram umbráticas... Todas diziam ter as piores e, por vezes, a conversação azedava. Linguajavam de tudo, o que, parcialmente, lhes embelezava a desolada existência. Era dos frívolos sujeitos dum leque planturoso – dos quais os citados faziam parte –, sustido unicamente pelas vicissitudes do dia-a-dia, que tratavam quotidianamente.

As entorses eram acidentais e, como não podia deixar de ser, celebradas dignamente. A irregularidade do caso, da situação e a sua acuidade faziam com que as conversações se prorrogassem indefinidamente, até lhe darem todas as voltas admissíveis e exaustarem o assunto.

O Manolo dava-se bem com ela desde criança. Quando era pequenino, ia, contente, comprar o pão à padaria, e ela metia-se com ele. Exasperava-o designando-o por Chíchio, o nome do irmão retardado, como se o confundisse. Ele, que já tinha a semente da velhacaria em germinação, respondia-lhe enervado:

— Eu sou o Manolo! Já estou farto de lho dizer! Você está mais tola do que o meu irmão porque ele ainda sabe que eu não sou ele!

Então, ela ria com agrado, fazia-lhe umas festas na cabeça com carinho e dava-lhe um can – moeda de 25 cêntimos –, que o catraio iria converter em dois ou três rebuçados na loja do Santiago. Estava longe de presumir que aquele miúdo seria, anos mais tarde, o dono dessa mesma loja.

— Ouve, eu resolvera não te dizer nada, mulher. As semanas corriam, hesitava, mas hoje tenho de to dizer, senão rebento! Sabes por quê? Porque cada vez que vejo o Fernando cortar a lenha, o coração abre-se-me e cogito: «Por este andar, a bater todos os dias com as ripas contra a casa da Otília, vai acabar por lha deitar abaixo!»  Francamente, é como se a casa fosse minha. Juro-te, Otília, que é verdade.

Calou-se e ficou a olhar para ela, convicto, expectando a sua reacção. O tom fora alarmante, dramático. A mulher, ar ponderado e prudente, as mãos ocultas por debaixo do avental preto, como toda a sua vestimenta, escrutou-o com cuidado, como se quisesse entrever o que se passava na cabeça do comerciante. Suspeitava. Já a levara muitas vezes de paleio. A predisposição do Manolo para a chalaça e o divertimento diminuíam a eventualidade de discernir se falava ou não a sério. Instalaram-se uns lestos segundos de mutismo. O rosto da Otília, pirrónico, foi-se transformando lenta e timidamente até se converter num simulacro de sorriso.  Sempre a olhar para ele, que se mantinha silencioso e imóvil, murmurou com visível apreensão e voz enrouquecida:

— Tu estás a brincar comigo...

O Manolo, aparentando um contratempo, pegou de novo em meia dúzia de latas de conserva de frutas e de legumes; lenta e silenciosamente, foi-as depositando nas prateleiras metálicas. Eram necessários uns segundos para que, na cabeça da Otília, a desconfiança fosse varrida pela verosimilhança. Tinha a certeza de que estava a vencer o desafio. Saboreava, de antemão, a marotice que estava a pôr em marcha. Devia fazer daquele último instante uma mistura de ironia e de piedade, de desafio e de súplica. O tempo encarregar-se-ia de incrementar com celeridade na cabeça pueril da Otilia o que ele nela semeara.

 

Continua.

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 19

melgaçodomonteàribeira, 24.10.20

 

Na parte traseira do prédio do Manolo, deslizava um caminho recentemente cimentado que perecia num exíguo largo salvaguardado por umas alminhas cujo santo desvanecera sem ninguém já saber quando. Dali até ao rio, através de uma calçada de extensas pedras puídas pelo homem e pela natureza, atingia-se o que, desde sempre, fora um embarcadouro: o Porto de Bergote. Ao lado, o regato Trancoso e o rio Minho acoplavam-se, formando ângulos rectos entre os dois países.

Para descarregar as caixas de bananas ao abrigo de olhares barulhentos, o Manolo fizera instalar uma grande porta de ferro basculante do lado direito do rés-do-chão, lado que ficava a uma vintena de metros da estrada principal. Os camiões Pegaso dos anos 60 chegavam lastrados, desciam com a máxima prudência o caminho de marcha atrás e adrentavam metade do veículo nos enormes os fundos. Foi o que se verificou nesse dia a meio da tarde: o camião foi aliviado num ápice das cinco toneladas de bananas vindas de Vigo.

Embora houvesse contrabando nos dois sentidos, o fluxo foi sempre superior no sentido Portugal-Espanha, mas havia uns anos que Espanha ganhava terreno. Toneladas de peixe, gambas e camarão entravam diariamente em Portugal cursando os dois rios; manadas de gado bovino, do vitelo à vaca, assim como automóveis roubados em França atravessavam a raia seca na região de Castro Laboreiro.

Depois de enterrado o fascismo, o governo português estava – mais uma vez – ante uma complicada e embaraçadora penúria de divisas. Vitais para as imprescindíveis importações, decidiu, pois, anexar determinadas mercadorias às já catalogadas – consideradas acessórias – como produtos de luxo e taxá-las como tal. Entre os produtos dispensáveis, figurava, pois, a banana; os portugueses teriam de se consolar com a magra colheita das da Madeira e dos Açores, cuja inflação, forçosamente, disparou. Esta anódina medida foi o suficiente para desencadear, imediatamente, um sulfuroso contrabando do exótico fruto de Espanha para Portugal.

A banana vinha das ilhas Canárias, territórios insulares espanhóis, e entrava pelo porto de Vigo. Dali, era encaminhada pelos grossistas em camiões de média tonelagem e distribuída pelos passadouros. Entre a Frieira e Caminha, galgava o Minho em batelas; da foz do Trancoso até A-Da-Velha, galgava o insignificante regato às costas de carregadores. Em Cristóval, decorrente do trajecto, havia quem utilizasse uma mula.

Nestes dois cursos de água desproporcionados, que formavam fronteiras naturais, havia séculos que o contrabando estava programado; era uma componente social e económica inata. As redes, as zonas e a logística utilizadas eram, na generalidade, as mesmas, fosse qual fosse o produto contrabandeado. Apenas comutavam os contrabandistas.

Correntemente, por razões organizacionais e securitárias, as bananas eram  levadas ao lombo na mesma noite da Frieira para Cevide por jovens musculosos e de uma resistência inoxidável, de onde saíam nessa noite ou no dia seguinte para vários pontos do país.

Porém, havia uns dias que um sério obstáculo perdurava. Para o Manolo e os seus associados era insolucionável, fazendo com que, do lado espanhol, a garantia de protecção  fosse ambígua. A solução do óbice só podia vir de Portugal. A  transferência  das dez toneladas de bananas para território português naquela noite era incerta.

O nervosismo e a contrariedade que nos dias crónicos de manivérsia se apossavam  do Manolo eram perceptíveis pelos íntimos.

Apenas dois guardas civis do posto de Puente Barjas, província de Ourense, os que vigiavam o tramo do rio Trancoso, não se deixavam estipendiar. O tenente andaluz que os comandava havia pouco tinha, como estes seus subordinados conscienciosos, inconcussos, uma profunda lealdade ao cargo; como eles, lutava, para não sucumbir à sedutora e dificilmente reprimível atracção da opulência que o dinheiro lhe permitiria; como eles, resistia ferronha e obstinadamente a todas as proposições de cooperação, por mais estimulantes que fossem; como eles, batalhava para proteger a sua probidade, a sua honra.

No entanto, os dois guardas civis não representavam um estorvo significativo para os passadores. Com resguardo, eram obliquamente quadrilhados em permanência pelos pervertidos que lhes desmanchavam uniformemente qualquer intento íntegro de neutralizar ou, ainda que fosse, contrariar os contrabandistas.

Era uma postura clássica e característica, tanto do comandante como dos guardas civis. Os recém-chegados necessitavam de uma etapa para se adaptarem, apesar de haver sempre um ou outro renitente.

Por este motivo, quando havia um imperativo que realmente necessitasse a esterilização do tenente, recorriam a intermediários, pessoas influentes, o escol da região que, directa ou indirectamente, estavam conectados com os chefes das redes. Estas benemerências convidavam amigavelmente o oficial subalterno para jantar um dia preciso num restaurante gastronómico arredado da raia, com o único intuito de o terem localizado enquanto que a mercadoria mudava de país. Era um convite que o tenente não podia recusar devido ao influente peso dos requerentes no microcosmo local. A categoria da guloseima também simbolizava um opimo engodo. Ninguém tinha quaisquer dúvidas de que brevemente o oficial teria duas contas bancárias, sendo uma bastante mais choruda do que a outra, como todos os que o tinham precedido. Eram trabalhados pouco a pouco e, inconscientemente, findavam por colaborar com os candongueiros. Até àquele dia, não houve excepções.

Todavia, não eram apenas os guardas civis que fiscalizavam a zona do regato que comiam. Do outro lado da ponte, os que dependiam do posto de Crecente, província de Pontevedra, vigiavam a faixa internacional do rio Minho até ao limite de Arbo; rapidamente se aperceberam do vaivém dos Pegasos e do trabalho de  formiga entre a loja do Manolo e a casa do Nelo, em Cevide. Exigiram, pois, parte do bolo para continuarem a ignorar o atacadista de frutas, assim como o destinatário, o Manolo.

Todos os veículos que transportassem qualquer tipo de mercadorias e fossem vistoriados a uma demarcada distância da fronteira, o condutor – segundo a lei – era obrigado a certificar a procedência e a comunicar o nome e morada do destinatário, apresentando a factura atinente; por sua vez, o receptor, estando situado no interior do espaço contíguo à linha fronteiriça, tinha a imposiçao de anunciar às autoridades fronteiriças locais a veniaga com antecedência, quando esta ultrapassava uma quota definida.

 

Continua.

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 18

melgaçodomonteàribeira, 10.10.20

 

Por detrás do telheiro onde o Fernando habitualmente fendia a lenha, espraiava-se um descampado no qual meia dúzia de virtuosos do anzol aparcavam os automóveis. Ali principiava o caminho que os pescadores seguiam para alcançar o lado esquerdo da represa. Com o tempo, a água das comportas fora puxando rochedos e criara uma lagoa diante do imponente paredão no qual repousava o local de controlo. Naquele sítio, pescavam-se os melhores arquétipos de salmões e todos queriam implantar-se lá.

Os profissionais e os amadores, em maioria, faziam a viagem por este fenomenal  peixe, mas alguns faziam-na pela truta arco-íris do regato, sápida, combatente e, para muitos, tão aprazível e difícil de pescar como o salmão.

O Capador, o Zafra e o Eduardo eram os mais fiéis. O primeiro, cuja alcunha era o breviário da sua insólita profissão, vinha dos lados da Corunha; o segundo, o Zafra, depois de uma estada na Venezuela, fundara um comércio de electrodomésticos em Ribadávia; o terceiro, o Eduardo, da mesma vila, era representante-distribuidor de bebidas.

Havia anos que, do princípio de Março até ao fim de Maio, período autorizado para a pesca do salmão, se concentravam os três na Frieira aos sábados de manhã, antes de o Manolo abrir as portas. Pescavam até até ao fim da tarde, obtemperando à paixão que os inflamava. Acampavam, naturalmente, do lado esquerdo da barragem na penha mais bem situada.

Por volta das três da tarde almoçavam no bar do Manolo. Todas as semanas, ritualmente, comiam uns bistés – bifes – do talho do Celso, bem sangrentos, e batatas fritas de pacote. Satisfeitos, tomavam café e degustavam um maravilhoso conhaque Carlos I. Havia muito que o Eduardo trazia uma garrafa e, quando via que continha a espessura de um dedo, renovava-a. Recobravam em seguida o lugar junto do rio onde tinham deixado as canas armadas e entaladas entre os penedos.

Porém, o rei do salmão era o Adriano, o irmão da Otília, que vivia numa casa próxima da dela. Sem o menor complexo, reconhecia que, durante a Guerra Civil, ele e os moços da sua idade iam, em parte, aos serões das casas mais ricas da zona para matar a fome.

«Naquele tempo, não havia electricidade. », confiava o Adriano. « Então, trazíamos sempre um canivete bem afiado no bolso e se houvesse chouriços dependurados, à mínima oportunidade, zás! Quantas vezes tive de amparar um chouriço entalado entre as calças e a camisa!»

Desses tempos todos se rememoravam, mas como a vergonha é um complexo narcísico, poucos falavam deles. Em geral, os sarões eram realizados na casa dos pais de uma  ou mais chavalas – moças –, na cozinha, ao calor da lareira. Duas ou três velas e as labaredas ocasionadas pelas achas iluminavam toscamente o recinto. Ali se reuniam habitantes da aldeia e de outros lugares vizinhos: moços, moças, pais e/ou mães, tios e primos. O fundamento era aproveitar as infindáveis noites de inverno. As mulheres ensinavam às moças a tecer, a bordar e a coser; os anciãos contavam façanhas e legendas inverosímeis que cortavam o fôlego aos jovens. Um gaiteiro punha os jovens a dançar frequentemente. Mas estas reuniões também eram feitas com o intuito dos jovens se relacionarem, se prezarem e constituírem casais para ultimarem na igreja.

Aquando da construção da barragem, na metade dos fundos da casa, montou um bar. Num canto deste, além de louças típicas galegas, expunha, para venda, tudo o que fosse necessário ao mais profissional e difícil pescador. Findos os trabalhos da central hidroeléctrica, poucos anos demorou em fechar.

Possuidor de uma colecção de dezenas de canas, de carretos e de centenas de amostras e anzóis, para ele, a pesca era mais do que um eretismo: era um culto que se amplificara desde a adolescência e que vivia com mais intensidade cada dia que passava. Fusionara e conciliara a desmedida felicidade com que a pesca o facultava, e os úteis episódios monetários que o famigerado salmão do rio Minho lhe assegurava. Podia discorrer de pesca durante horas como outros o faziam de política ou de futebol.

Alegava, com uma petulante fatuidade, que era filho e herdeiro do rio; que o curso de água, por meio de frémitos voluptuosos ou de grunhidos tonitruantes, lhe cochichava as ocasiões oportunas para provocar, afrontar e derrotar o senhor do rio Minho: o portentoso e venerado salmão. Regra geral, aproveitava os dois lusco-fuscos, os períodos mais adequados do dia para pescar. Aproximava-se das grades da ponte, especulava o caudal e perscrutava com recolhimento o que o rio lhe sussurrava. Só depois é que tomava a decisão de baixar ou não. 

E, para arrematar o quadro vesano, proclamava sem pestanejar que, durante os frenéticos minutos de contenda para arrancar o salmão da água – que podiam ser da ordem das dezenas –, se extasiava tanto ou mais como quando copulava loucamente com a esposa. «Só me falta ejacular», frisava, dando uma gargalhada.

Durante o dia, se constatasse que uma variação súbita cerceava o zumbido ordinário da corrente do rio, sinal de que tinham fechado pelo menos cinco das sete comportas do dique – prática atípica –, saía pressurosamente da casa de cana na mão. O nível da água baixava de tal modo que os peixes presentes diante da represa se encontravam súbita e temporariamente amputados de liberdade num espaçoso tanque. Os escalos e as bogas – de longe os mais profusos – encantoados nas pedras, saltavam por falta de oxigénio. Nestes acasos, dirigia-se apressadamente para a margem direita do rio; menos pedregosa, oferecia uns meios formidáveis para pescar.

As chances de um salmão fazer parte dos aprisionados não eram elevadas, mas se se desse o caso, a probabilidade de capturar um era largamente plausível.

Fora visto com assiduidade provindo do rio esbaforido, mas embevecido e altivo, pavoneando elegantemente nos braços um enorme bebé, termo que utilizava quando evocava os salmões.

Alguns exemplares transcenderam o peso reverencioso de quinze quilos. Geralmente – salvo uma adventícia reservação para um casamento – vendia-os aos parcos restaurantes gastronómicos vigueses, aos dos hotéis de luxo, os únicos que podiam pagar o avultado preço que o quilograma valia.

Os amorosos deste desporto difuso que ali pescavam testemunhavam-lhe um respeito mítico; conceituavam-no como o melhor, o primado.

 

Continua.