Sábado, 8 de Setembro de 2018

A RIBEIRA QUE DEIXOU DE SELO

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rio trancoso

 

A RIBEIRA QUE DEIXOU DE SELO. A FRONTEIRA GALEGO-PORTUGUESA TRAS O GOLPE DE XULLO DE 1936

 

(…)

 

No primeiro dos casos, e decir, un fusilamento cun xuicio, ainda que sumarísimo e urxente, documentábase o condeado, e polo tanto, eram mais doado o recoñecemento e a deportación cara Portugal. Cando a morte producíase pola acción dos teóricamente incontrolados, esto non era posible. Recibíronse informacións de morte de traballadores portugueses da vía férrea Ourense-Zamora, ou mesmo a escoita de disparos pólos postos de vixiancia da raia que logo resultan ser fusilamentos de persoas desta nacionalidade afincadas en España.

Mais a colaboración máis estreita neste proceso de represión tivo lugar na zona de Castro Laboreiro. Dende o comenzo da guerra houbo un importante continxente de fuxidos que tras pasar a fronteira tentaron agacharse nas súas montañas, levando a cabo en ocasións actividades contra o réxime portugués e contra os destacamentos ‘nacionais’. Era evidente que o mantemento dun grupo paramilitar dentro de territorio portugués, nunha situación de conflicto bélico no país fronteirizo non era unha situación moi agradable para as autoridades do Estado Novo.

Ainda que esta circunstancia fora un producto directo da situación de inestabilidade civil en España, o Estado Novo tiña que poñer remédio dende a súa autoridade para o seu territorio. Dende finais de xullo de 1936 tiveran lugar numerosas incursións de españoles armados nesta zona. Un mes despóis, Tomás Fragoso, Gobernador Civil de Viana do Castelo, recordaba ó Ministro do Interior portugués estas accións, e recomendaba a conveniencia de reforzar ós postos da Guardia Nacional Republicana para evitalas. O seu fin era evitar casos semelhantes e poder manter o prestígio português e defender a integridade nacional.

Mais o problema na zona continuou prácticamente durante toda a guerra civil. As batidas na procura dos agachados foron compartidas entre falanxistas españois e militares portugueses, moi especialmente a PVDE. Un membro desta informaba de como se realizaban as detencións:

 Geralmente, na montanha, estes indivíduos respondem com a fuga, ou com tiros, a intimidação de ‘Alto! ‘. E então a perseguição faz-se a tiro…

 

Emilio Grandío Seoane

 

Retirado de:

 

HOMENAXES

FACULTADE DE XEOGRAFÍA E HISTORIA

Departamento de Historia Contemporânea e de América

Universidade de Santiago de Compostela

 

http://books.google.pt

 


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Sábado, 24 de Fevereiro de 2018

ALTO MINHO E GALIZA. ESTUDOS HISTÓRICOS

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O REITOR DA UNIVERSIDADE DO MINHO

 

O Professor Doutor José Marques é um académico de referência que desenvolveu a sua carreira na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com extensa obra publicada, reconhecido pelos seus pares nacionais e internacionais e referenciado pelos que tiveram o previlégio de ser seus alunos. Neste contexto, personifica o que nas universidades anglo-saxónicas se designa por scholar at large, pela holística dos seus conhecimentos e pela especialidade dos seus saberes, competências que são evidenciados ao longo deste livro por testemunhos muito variados.

Enquanto Minhoto de nascimento, bracarense de sacerdócio e investigador medievalista, José Marques teve um percurso que se cruzou naturalmente com o da Universidade do Minho (UMinho), numa relação natural, cúmplice e intensa que a Universidade quer reconhecer através deste testemunho do seu Reitor, na publicação desta obra e no evento que lhe está associado. Uma relação muito profícua e multifacetada que tem como principal locus o Arquivo Distrital de Braga (ADB), unidade cultural da UMinho que constitui um dos maiores acervos documentais nacionais, nomeadamente sobre a Idade Média.

José Marques tem sido um dos seus mais insignes utilizadores, cuja leitura com olhar perscrutante, abordagem científica e cruzamento de conhecimentos revelou conteúdos de documentos únicos. Este Arquivo foi um dos principais lugares de estudo e fonte de informação para o investigador José Marques, que ele utilizou intensamente ao longo de quase cinco décadas.

O Doutor José Marques retribuiu essa disponiblidade da melhor maneira e do modo como apenas um académico o pode fazer, pelo conhecimento que criou a partir suas leituras, investigações e análises integradoras e comparativas. De facto, na sua extensa lista de publicações são omnipresentes as referências ao ADB e, importa realçar, existem traduções, para latim moderno ou português, de compilações de documentos medievais como são os casos do Liber Fidei ou do Cartulário do Mosteiro de Fiães.

Para este Arquivo, esta Universidade e esta Região, José Marques é um pensador incontronável sobre o período histórico fundacional dos contextos sociopolíticos e administrativos que originaram o aparecimento da nação portuguesa e de uma geografia diocesana que teve enorme centralidade no nosso percurso histórico do último milénio. Pensador igualmente incontronável para perceber o espaço transfronteiriço e culturalmente identitário do Norte-Galiza. Espaço que a separação histórica entre os dois países ibéricos não eliminou e que se constitui hoje como património relacional, cultural, social, económico e político potenciador de novos modos da construção europeia.

Por tudo isto, o evento da inauguração das novas instalações do Arquivo Distrital de Braga teria de se cruzar com a figura de José Marques. Estas novas instalações são um investimento de grande qualidade, em montante superior a quatro milhões de euros, que dotará o ADB de excelentes condições para a persucução da sua missão de serviço público na conservação, disponibilização e divulgação do seu valioso espólio. É a concretização de um sonho para a Universidade e para todos os que, hoje, utilizam o Arquivo presencialmente ou por acesso remoto.

Estou certo que o nosso Amigo José Marques é um dos que está mais feliz com esta obra, ao ver os seus documentos – porque foi ele quem mais os utilizou – adequadamente preservados para que futuros investigadores possam continuar a sua obra.

Obrigado Professor José Marques, estou certo que o novo Arquivo continuará a ser uma das suas casas.

 

                         António M. Cunha

                        Reitor da Universidade do Minho

 

 

 

UM ESPAÇO FRONTEIRIÇO MAS DE “VIZINHANÇA”

 

A criação das fronteiras tem muito a ver com as decisões políticas, mas a sua consolidação demora muito tempo, nomeadamente no processo de serem aceites pelas populações que moram em territórios vizinhos. Contudo, a vizinhança é um valor mais forte do que as normas administrativas. Um exemplo que patenteia esta realidade é o limes político traçado desde o século XII nas terras da velha Gallaecia entre o reino da Galiza e o novo reino de Portugal. Passaram vários séculos e continuavam em vigor muitos vestígios da continuidade territorial praticada desde a época romana e sueva. Com certeza, as mudanças políticas da primeira metade do século XII foram irreversíveis, mas a permeabilidade da fronteira luso-galaica é um dado indubitável, ao menos até aos tempos modernos da guerra de Restauração.

Por esta razão, resulta do maior interesse construir de uma perspectiva cultural e historiográfica actual um discurso que não retroprojecte o sentido e significado das fronteiras dos modernos estados nacionais para tempos mais recuados. Bem o adverte o autor deste livro em nota de rodapé, quando indica que nos “períodos de guerra entre Portugal e Castela, já não podemos falar em Espanha, nessa altura”, assim como o constante reconhecimento dos “galegos” como identidade própria e da Galiza como um reino, mesmo acreditado nos documentos das chancelarias régias, por vezes mencionado como “Gualiza”. Oportuno relativismo que cura os excessos do presentismo. Esta vontade de entender, a partir duma enorme quantidade de fontes arquivísticas, o espaço situado entre os rios Lérez e Lima como um território comum é, no meu parecer, o principal contributo deste livro. Além disso, nesta publicação está recolhido o mais substancial do percurso investigador do professor e cónego bracarense José Marques, especialista medievalista e perito arquivista educado na escola, que teve também fundos ecos na Galiza, do professor Avelino Jesus da Costa.

Os grandes resultados da magna obra do professor Marques e da sua especialização historiográfica nas terras do Alto-Minho e da Galiza, ficam bem retratados no texto redigido pelo professor José Viriato Capela. Eu só poderia apontar qualquer consideração de caráter geral e acrescentar alguma “brasa à minha sardinha”, focalizando a existência de uma realidade territorial contínua entre as águas do Verdugo e as do Lima. Porque se algo fica bem patente na maioria dos contributos aqui reunidos é que os grandes actores da história destas terras durante os séculos da Baixa Idade Média foram, além dos monarcas portugueses e castelhanos, algumas instituições eclesiásticas como o mosteiro de Oia e, nomeadamente, a diocese de Tui que teve de agir entre dois poderes fortes – as arquidioceses de Braga e de Compostela. O mosteiro de Oia possuiu terras e mesmo uma granja ao sul do rio Minho até princípios do século XVI, o mesmo que o bispado de Tui, que logrou manter debaixo do seu governo paróquias situadas entre o Minho e o Lima, de Melgaço a Ponte de Lima ou de Caminha a Viana. Não se trata de proclamar um saudoso irredentismo que não tem lugar no panorama presente, senão de mostrar que “estes povos do Alto Minho e Galiza”, que o autor considera “palco da história nacional” portuguesa, teriam sido durante séculos o contrário de povos de fronteira virados de costas.

Alguns dos percursos mais atraentes do livro – que estão presentes em vários capítulos – são aqueles nos que se dá conta da elevada presença de candidatos galegos a receberem ordens na diocese de Braga ou os pedidos para fazerem vizinhança. A permeabilidade institucional da fronteira, evidente ainda no século XV, nunca esteve encerrada com chave, mas o que importa é que, em menos de quarenta anos (1430-1468), a diocese de Braga conferiu ordens a 597 candidatos galegos, dos quais 228 procediam da diocese de Ourense e 242 da de Tui. Por outro lado, os previlégios concedidos pelo monarca Afonso V às populações do Minho e da Galiza para poderem vizinhar é outra mostra da permeabilidade da raia, mas revela claramente que, no âmbito comunitário e popular, as fronteiras eram pouco mais do que nominais. Na súplica dos vizinhos da vila galega de Baiona a El-Rei D. Afonso V, diz-se que “elles teveram por custume vizinharem com nossos vassalos”. A ideia de fazerem vizinhança é do mais feliz, porque reconhece a existência da raia, o que não evita que o monarca português autorize oficialmente uma prática que está fundada na existência de fortes laços familiares (“casavam os filhos e filhas os de uma parte com outra”) e de comércio de mercadorias (“ouro, prata e armas, bois e bestas”). Em certo modo, esta vizinhança nunca foi extinta de todo, mas o relevante nesta altura é que se trata de um previlégio real que, ao tempo, evitava a possível prática do contrabando.

Fica para penas mais especialistas do que a minha o dizer uma palavra certa sobre as razões político-estratégicas que, de forma progressiva, foram mudando as relações  de fronteira, até que os seus limites são estabelecidos de modo preciso no século XIX. Eu acho que até à guerra da Restauração a ideia de fronteira era pouco firme e mesmo frágil. Mas alguns acontecimentos de finais do século XIV, como a guerra contra Castela ou a influência dos poderes extrapeninsulares (França, Inglaterra e, nomeadamente, o Papado de Roma) nos destino dos reinos cristãos da Ibéria é claro que tenham sido fatores decisivos para uma progressiva aceitação da fronteira política, o que teve repercussões diretas na gestão de patrimónios monásticos ou episcopais de Oia ou Tui, que acabaram por coincidir, na altura de 1512, com os limites territoriais dos reinos de Portugal e da Galiza.

Devo concluir com um reconhecimento e com gratidão. A edição deste livro tem um carácter de homenagem, quer das suas terras de origem, representadas pela Câmara Municipal de Melgaço, quer da Universidade do Minho e da Casa Museu de Monção, à figura de José Marques. Não é frequente que, nos tempos de hoje, se homenageei o trabalho oculto e silencioso de um investigador que viveu anos e anos entre arquivos e pergaminhos, o que é merecedor dos mais sinceros parabéns, Assinala no seu prefácio o professor Capela que “esta obra é um marco em primeira linha para os estudos históricos e diocesanos bracarenses; é-o também para os estudos portugueses” e acho que seria injusto não acrescentar que também vai resultar obra de referência para os estudos medievais galegos. Aos responsáveis desta iniciativa e, em primeiro lugar o professor Capela, fico muito grato pela oportunidade que me foi concedida de colocar umas linhas próprias no incipit deste volume, que são também de admiração pessoal para com o professor José Marques, a quem conheci em tempos longínquos de colóquios monásticos e “galaico-minhotos”. Naquela altura nem mesmo podia imaginar que o passo do tempo me traria esta nova oportunidade de partilhar com o investigador, o professor e o amigo esta alegria de olhar neste volume a obra de toda uma vida. Bem haja…

 

                         Ramón Villares

                        Presidente do Consello da Cultura Galega

                       Professor Catedrático Universidade  Santiago Compostela                                                   

                      Doutor Honoris Causa Universidade do Minho

 

 

ALTO-MINHO E GALIZA. ESTUDOS HISTÓRICOS

JOSÉ MARQUES

Edição:

CASA MUSEU DE MONÇÃO/UNIVERSIDADE DO MINHO

CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

Março de 2017

 


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Sábado, 1 de Julho de 2017

O BARQUEIRO DE S. MARCOS

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JORNAL DE MELGAÇO Nº 1174, DE 8/9/1917

 

 

Há dias apareceu por aqui um fulano da Beira que, depois de ter casado com uma mulher de Orense resolveu emigrar para Buenos Aires; uma vez aí trabalhou e economizou de tal maneira que em pouco tempo conseguiu juntar 550 pesos; até aqui bem foi; mas… depois, sente-se doente, vai consultar um médico que lhe diz estar tuberculoso, e por isso tem de recuar imediatamente; o infeliz retira, trazendo consigo o dinheiro que só o acompanha até Lisboa, pois aí, com um pequeno descuido, fica sem dinheiro, sem conhecimento algum e sem roupa, além da que traz vestida. Como viajar nestas condições? Aí vem o desgraçado a pé desde Lisboa, mendigando uma esmola de porta em porta. E sabem o que o traz a Melgaço? A recordação de que em tempos mais felizes por aqui andou ele a trabalhar, e por isso encontraria por cá alguns dos seus amigos daquele tempo. Infeliz! Doente, e com fome talvez, ninguém o conhece! Dirige-se ao rio Minho para o passar a nado, mas vê que se encontra sem forças e nessas condições tal tentativa equivaleria ao suicídio. Em vista disso, aproxima-se do barqueiro e diz-lhe que desejava transitar para Espanha, mas que não tinha dinheiro para lhe pagar. Em virtude duma declaração tão franca, o barqueiro mandou-o entrar para a barca e não só o conduz gratuitamente à outra margem, como ainda na estação de Arbo promove uma subscrição que excede a importância do bilhete que no caminho de ferro lhe dá passagem até Orense; aliás, teria de fazer esse trajecto a pé e mendigando como de Lisboa a Melgaço. Quereis, leitores, que o nome desse barqueiro figure na lista dos benfeitores que vós conheceis? É o barqueiro do posto de S. Marcos, e chama-se Ponciano Ferreira.

 

 

Retirado de: Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                     Volume I

                     Joaquim A. Rocha

                     Edição de autor

                     2009

                     pp. 241, 242

 

Joaquim A. Rocha edita o blog  Melgaço, Minha Terra

 


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Sábado, 27 de Maio de 2017

DE AQUÍ NOM PASSAM - RELATO DE UM CASTREJO

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ribeiro de baixo, castro laboreiro

 

                     

A FALA GALEGO-PORTUGUESA

DA BAIXA LIMIA

E CASTRO LABOREIRO

 

Integrado no Projecto para a declaraçom de Património da

Humanidade da Cultura Imaterial Galego-Portuguesa

 

 

I.E.S. AQUIS QUERQUERNIS

BANDE – OURENSE

 

José Manuel Gonçáles Ribeira

 

 

 

OS FUGIDOS

 

Recolha gravada em 07/05/2003

Sexo: Home

Idade: 78 anos

Lugar: Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

   - … e entom estuverom …… numha ocasion um… era eu rapá novinho .. porque as autoridades portuguesas tinham que os prender… tamém… eram mandados polo governo para os arremeter à Espanha. E um que era d’A Ilha botou-se ao rio… niste rio… a fugir-lhe aos portugueses e atravessou o rio e fugiu pró outro lado… um espanhol fugido. I… e bueno… i outros, tú vês acolá aquela carbalheira daquel monte, estuverom ali seis meses numha lapa debaixo de umha fraga, chamámos-lhes nós umha lapa, debaixo dumha fraga, hai ali umha fraga grande e estuverom alí fugidos… Ouuh! E talvez até perto do ano, alí fugidos, claro, eles tinham que comprar a comidinha pra comer, mas tuverom que estar alí para fugir às autoridades, compreendes?... é por eso que che eu digo que aquí passarom (…)… mui mal cando a guerra… e passámo-la nós tamém!!... que era eu pequenotinho havía que, chegado o caso, andar cumhas zoquinhos de pau e correas, de inverno

   - sei, sei como som…

   - o caramba… aquilo… bueno… olha… porque tudo que pudesse passar prá Espanha, ia prá Espanha, claro, tinha uma miséria moito grande porque a guerra durou para aí dous anos

   - dous anos e meio…

   - ou isso…

   - … case três…

   - bueno i… nom havia lá que comer… entóm o milhinho ía para lá, entendes?... o milhinho ía para lá… e aqui nom havia…pronto!... porque ao ir para lá, falhava aqui, compeendes?, aquilo alí foi uma miséria, já che digo, se for, se a gente vai a contare… bom… depois, bom…(………….)e eu… cando prenderom os espanhois prenderon-os alí, e o caminho vem por ali e vinha um caminhinho porque prá baixo e asi aquí nesta voltinha foi onde se juntou o povo…, a capelinha está ali abaixo e tocou-se o sino, tú sabes o que é o sino?... juntou-se aquí e eu tamém tinha um tio que era tamém destes que nom eram, nom tinha medo e assim que ouviu a campana véu para aí para arriba de… Eu tinha uma mãe… e as autoridades espanholas aqui!... (…) e pararon aquí nesta voltinha,… eu tinha uma mãe que se pôs à frente das autoridades espanholas e dixo “de aquí nom passam!”… e eles côas espingardas: “que a mato!” mas é que eles nom podiam disparar para os portugueses… compreendes

   - …

   - ooh… ai que nom!, … nom podiam!... e o remedio foi deixa-los, mas depois é quando eles andarom a atirar tiros para cá, eles… é por isso que che eu digo

 

Ler o trabalho completo em:

 

http://www.agal-gz.org/pdf/falabaixalimia.pdf


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Sábado, 6 de Maio de 2017

MILMANDA E MELGAÇO

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ALCÁZAR DE MILMANDA

 

(Milmanda – concelho de Celanova)

  

O castelo foi palco de confrontos entre Pedro I de Castela e Henrique de Trastâmara. Quando faleceu Pedro em Montiel a maior parte da nobreza galega reconheceu como sucessor a Fernando I de Portugal, genro de Pedro I, o qual estabeleceu sua corte neste castelo e realizou uma campanha de ocupação de muitas vilas e cidades do país galego.

Um dos senhores, o senhor de Vilardecãs Francisco Feijoo Sotelo, foi protagonista de um célebre feito:

   Ocorrera que um fidalgo de Milmanda foi julgado à força e condenado na vila portuguesa de Melgaço. O senhor de Vilardecãs reuniu 40 homens armados e atacou o cárcere resgatando o condenado. Como resposta a esta provocação o duque de Bragança juntou 6 000 homens e, em resposta a este, o conde de Benavente juntou outros 6 000, começando deste jeito a guerra entre Espanha e Portugal, que só terminou com a condição de que o senhor de Vilardecãs deixasse o mando do Alcázar de Milmanda.

O derradeiro nobre que possuiu o castelo foi Suero Eanes de Prada, partidário de Pedro I, que com a morte do monarca partiu a Portugal para não voltar mais. Conta a lenda que nenhuma outra casa da nobreza voltou a possuir o castelo.

 

Retirado de: Wikipédia

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/alcazar_de_milmanda


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Sábado, 1 de Abril de 2017

MELGAÇO E GALIZA

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3º DA ESO EN MELGAÇO

 

 

Enviado por eladioanxo en Xov, 2009-05-14

 

 

Nos passados dias 21 e 22 de Abril o estudantado de 3º da ESO do Don Aurélio e do IES de Curtis visitamos o concello de Melgaço, na outra beira do Minho. A viagem faz parte das actividades organizadas por o Proxectoterra do Colexio Oficial de Arquitectos de Galiza, com o objectivo de dar a conhecer o património e potenciar a sua valorización e cuidado. O Projecto financiou grande parte dos gastos, de tal modo que os alunos só pagaram uma parte do custo do autocarro e tiveram que levar a comida da primeira jornada.

A manhã do primeiro dia chegamos directamente a uma das portas de entrada ao Parque Nacional Peneda Gerês, a Porta de Lamas de Mouro, onde nos explicaram as características desse formoso espaço natural que compartilham Portugal e Galiza, e fixemos um pequeno passeio acompanhados por dois amáveis monitores. Pela tarde fomos uns quilómetros mais arriba, a Castro Laboreiro. A pena foi que não pudemos caminhar pelo castelo pelo que uns dias antes sofrera um incêndio. De todos os modos fixemos um agradável passeio duns cinco quilómetros junto a duas guias muito atentas, que nunca puseram má cara para pesar das muitas queixas dos (maus) caminhantes.

À tardiña instalamo-nos na Pousada da Juventude, um edifício novo e com umas instalações que lhe dão a categoria de hotel, por riba do Minho. O entorno é muito bonito e a poucos metros se encontra um complexo desportivo de primeira categoria, o Centro de Estágios. Até a hora de cear estivemos jogando ao futebol, ao ténis e, alguns, mesmo pedalearon um pouco.

A manhã seguinte, depois de uma comprida noite para alguns, fomos visitar o Centro Histórico de Melgaço e os seus numerosos e interessantes museus, onde nos atenderam muito bem. O Espaço Memória e Fronteira, está dedicado ao contrabando e  à emigración, ubicado num antigo convento magnificamente restaurado. Baixamos depois as ruínas medievais no entorno do castelo amurallado e depois subimos até a bem conservada Torre de Menagem, com umas vistas espectaculares sobre a vila e a raia que marca o Minho. Por último, visitamos o esplêndido Museu do Cinema, com uma importante colecção de proxectores e cartazes, onde uma exposição temporária recordava ao grande director italiano Federico Fellini. Volvimos ao albergue, a comer, e regressamos à casa sem deixar de deitar uma cabeçada no autocarro.

 

Retirado de:

XUNTA DE GALICIA

Consellaría de Educación

E Ordenación Universitaria

 

www.edu.xunta.es/centros/cpiaureliomarcelino/category/37/162

 

 


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Sábado, 25 de Março de 2017

OS FORAIS DE MELGAÇO E RIBADÁVIA

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OS FORAIS ANTIGOS DE MELGAÇO, TERRA DE FRONTEIRA

 

(…)

 

Devem ter sido os burgueses de Allariz que manifestaram a Afonso VII a sua preferência pelo modelo sahaguntino, tal como os moradores de Ribadávia se interessarão pelo de Allariz e os de Melgaço pelo de Ribadávia. Convém não esquecer que Ribadávia e Melgaço se situam nas margens do rio Minho, a uma distância relativamente próxima, e estavam ligadas por um caminho que, estabelecidas as proporções, era mais frequentado nessa época do que nos tempos actuais. Ainda no tempo de D. Pedro I, em 1361, Melgaço é referida, numa carta régia, como uma das principais entradas de mercadorias vindas da Galiza no Reino de Portugal.

Sendo Melgaço uma povoação fronteiriça, foram sempre múltiplos os seus contactos com a Galiza, o que se traduziu em muitos aspectos da história local: Santa Maria da Porta, actual orago de Melgaço, evoca as grandes festas de Santa Maria do Portal, de Ribadávia, e São Facundo ou Fagundo, o santo que deu o nome a Sahagún, era o padroeiro de uma das igrejas medievais da nossa vila raiana. É natural que entre os povoadores de Melgaço se contassem agricultores e comerciantes provenientes de Ribadávia.

Entre os destinatários do foral outorgado a Melgaço, em Agosto de 1185, designados simplesmente como moradores ou vizinhos, distinguem-se os mercadores. Nada se pormenoriza sobre o estatuto social, mas supõe-se que é uniforme, fundamentalmente o mesmo dos «burgueses» ou habitantes das povoações noutros documentos designadas «burgos».

Propõe-se-lhes, como objectivos, que edifiquem e habitem na herdade que o Rei possuía no lugar de Melgaço, doando-lhes também a metade régia de Chaviães, na terra de Valadares.

Aparentemente, o foral nada tem a ver com o de Ribadávia, pois as matérias foram objecto de uma exposição e de uma redacção totalmente diferente, mas o mesmo não se dirá em relação aos conteúdos que são, em grande parte, semelhantes.

Fixa-se um imposto geral único, de 1 soldo, ou 12 dinheiros, a pagar por cada casa, como nos forais dos outros burgos portugueses e no de Ribadávia, a que se ajunta a taxa de dois soldos a pagar pelos carniceiros, que também se paga em Ribadávia. Os vizinhos de Melgaço são ainda obrigados a pagar 6 soldos, de colecta, uma vez por ano, no máximo, quando o rei se deslocar à sua vila, tributo que não sobrecarrega os burgueses de Ribadávia.

A tabela das portagens apresenta, naturalmente, várias coincidências e variantes. Com oscilações, nuns casos para mais e noutros para menos, e com variantes, a tabela das sisas e portagens aplicava-se aos mercadores vindos de fora, aos quais apenas era permitido vender a retalho no dia da feira – a segunda a que os documentos portugueses fazem referência. Refere-se expressamente que os moradores nada pagarão do pão e do vinho que colherem, dos panos e dos animais que venderem ou comprarem, assim como dos moinhos, fornos e almuinhas. Estas cláusulas, nos forais de Ribadávia e de Melgaço, explicam-se com a preocupação de corrigir disposições mais gravosas que se mantinham nos forais derivados de Sahagún, se bem que, em certos aspectos correspondem a outras que já encontramos nos forais de Guimarães e do Porto (isenção de taxas sobre as compras de reduzido valor, e especificamente sobre o pão), e por outro lado lembra-nos que, tendo Melgaço um foral idêntico ao de «burgos» mais ricos, se previa também a expressão do sector agrário, como aliás já acontecia no foral do Porto…..

 

 

António Matos Reis

Revista da Faculdade de Letras

 

http://ler.letras.up.pt

 

 


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Sábado, 15 de Outubro de 2016

MELGAÇO EM GUERRA COM O IMPERADOR

troncoso1.jpgrio trancoso - desconheço a autoria da foto

 

LA PARADANTA EN LA GUERRA CONTRA NAPOLEÓN

 

 Por: Antonio Troncoso de Castro (1)

  

La Guerra de Independencia en el Sur de Galicia y Norte de Portugal, desde una perspectiva militar favoreció sensiblemente la organización del ejercito anglo-hispano-portugués que en sucesivas batallas consiguió la expulsión de los franceses de la Peninsula..................

En la acción de Vimieiro, la primera derrota de Junót, ya estan milicianos de Tuy y Monterrey y en la represalia de Soult ejecuta sobre el Pazo de Barreiro, desde el que escribo este recordatorio, los vecinos de Villar y Couto se refugiaron en Melgaço, que meses antes ya había declarado guerra al Emperador. Y así cuando el Consejo de Regencia concede la Cruz Supernumeraria de Carlos III a los abades de Villar-Couto y Valladares po el «sitio y reconquista de Vigo y Tuy» - como reza en la credencial – tanbién condecora a los oficiales portugueses don Juan Almeida y Sousa,  don Joaquín Pereira de Castro y don José Rodriguéz Gomez, por su ayuda en aquellos trágicos y a la vez gloriosos sucesos................

Mientras tanto las terras fronteirizas de Melgaço, y jurisdicciones de Alveos e Crecente, siguiendo órdenes de la ola Romana, acantonado en Lobeira y fugura injustamente silenciada tienen lugar cuatro decisiones..............

Fueron tan eficaces las acciones de las gentes de la Paradanta, Melgaço y Ribeiro, que un Cuerpo de Ejército, seguramente el más poderoso de la «grant armae» mandado por el mejor táctico de Europa,........ arribando a Orense con 2.000 bajas entre muertos y heridos.

Un capitulo muy importante de la historia militar de España en la Guerra de Independencia digno de recordarse con todos, los honores del sacrificio y heroísmo que promovió en esta tierra un troncoso de Sotomayor, que al igual que sus antepasados frente a los ingleses en Bayona y A Coruña y más tarde en la línea Peneda-Barxas, - de haí que dicho rio se identifique por los portugueses con el nombre de Trancoso, en el tratado de límites de 1881 – y seguido por el pueblo dio una léccion de patriotismo, cuyo ejemplo merece ser reconocido, así como los 64 muertos de estas parroquias en aquellos trágicos días.

 (1) Antonio Troncoso de Castro es sobrino tataranieto del Abad de Couto.

 

Tomado de el FARO DE VIGO.

Ler artigo completo em:

 

Revista de la Hermandad del Valle de los Caídos – nº 131 Noviembre de 2009

 

http://www.hermandaddelvalle.org/article.php?sid=5840

 

 


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Sábado, 24 de Setembro de 2016

FARO DE VIGO, 10/9/2016

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CINE E FRONTEIRA

 

Xavier Nogueira, viaxeiro, historiador, xeógrafo, escribe ao Fondo dos Espellos. “O caso (cóntanos) é que a comezo dos oitenta coñecín en Melgaço certo personaxe digno de lembranza. Presentoumo alguén do lugar que coñecía a súa historia e peripécia (…) Aquel home, xa maior, vivía cerca da Cámara, na rúa que descende lateralmente desde a Praça da República ata a de Hermenegildo Solheiro. Con grande amabilidade relatou como polos anos trinta (ou antes) se dedicara a percorrer as vilas e as festas da contorna nun carromato no que, ademais de servirlle de habitación, transportaba unha máquina de cine, coa que gañaba a vida. Non soamente levaba a cabo proxeccións nas vilas portuguesas senón tamén naquelas outras galegas próximas á raia. Como Bande ou Entrimo. Nomeou, se mal non lembro, varias mais, como Portoquintela, Lobeira e ata creo que Celanova, pero soamente das dúas primeiras teño a certeza”. Despois doutras interessantes consideracións a respecto da película de Manoel de Oliveira sobre o Castro Laboreiro e a raia, tan pouco coñecida entre nós, e logo de referirse ao museo do cine de Melgaço, Xavier Nogueira formula un desexo. Que entre todos consigamos reunir mais datos e documentación sobre “aquel singular personaxe, merecente de ser historiado ainda que só fosse sobre os traballos e atrancos que sem dúbida tivo que passar polos infernais camiños daquelas penedias serranas coa maravillosa máquina de soños no carromato”.
Desgrazadamente, nin na Terra de Celanova nin en calquera outra zona de fronteira da Raia Seca, ou noutras partes, sentín falar desse señor de Melgaço que andaba polo mundo proxectando películas, segundo parece na primeira metade do século XX. Polo menos valía a pena incorpurar a súa memória ao museu de cinema de Melgaço e facer a crónica das súas andadas. En canto a ollada de Manoel de Oliveira, en Viagem ao Princípio do Mundo, á rota prodixiosa que vai de Caminha ao Crasto (sic) Laboreiro, é algo para ser tratado noutra ocasión e de xeito preferente.
Polo momento, pidamos axuda a todos aqueles que poidan proporcionarnos información sobre o señor de Melgaço que percorria a fronteira cunha máquina de cine no seu carro.

Todos aqueles que queixeren colaborar coa súa opinión en NO FONDO DOS ESPELLOS podem escribir por correo ordinário a:

X. L. Méndez Ferrín
Faro de Vigo
Policarpo Sanz, 22
Aptdo. Correos 91
VIGO

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publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:04
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Sábado, 30 de Abril de 2016

HISTÓRIAS DA MINHA BISAVÓ

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 o carvalho; à esquerda a minha vinha

 

O ANTIGAMENTE

 

- Ó Emiliano, bota aí na caderneta; a Joaquina Loureiro levou meio alqueire, a tia Rendeira também levou meio alqueire, a Silvéria entregou dois alqueires. A Chica Pega pagou o milho que levou na semana passada e a Ana Serafina acertou a conta do outro mês. O Emiliano, oitavo dos dez filhos que vingaram (em família dizia-se que tivera dezoito), paciente, destrinçava aquele emaranhado de informações no competente livro, um caderno de capa dura, onde, na etiquete, o João do Gabriel que tinha bonita caligrafia e era íntimo frequentador da casa do Emiliano, escrevera: VALA-COMUM!

Era assim a contabilidade da tia Conceição do Félix, do seu entreposto do milho. Era analfabeta mas inteligente como a maioria do povo de Melgaço no século XIX. À noite, na volta do trabalho, após tomar a ceia em sua casa no largo do Carvalho, ia à vivenda do filho, ali perto, na avenida, onde dava conta das transacções que fizera durante o dia sem esquecer detalhe, não obstante sua idade avançada. Depois que enviuvou, no início da segunda década do século XX, para se manter, ajudar os filhos, os netos, os filhos dos netos e outros aparentados, e eram muitos, meteu-se a negociar com milho. Alugou por valor simbólico (naquele tempo pouco povoada a Vila, havia lojas e casas devolutas) aquela casa na rua do Rio do Porto, esquina da estrada nacional na Loja Nova, onde muito mais tarde foi a oficina da alfaiataria do Rabioso. Comprava e revendia milho. Nem todas as famílias colhiam milho (na Vila ninguém) mas todas as pessoas consumiam o pão feito com aquele cereal.

A broa de milho era o principal alimento da população, ou o único entre indigentes. A Conceição, que desde sempre estivera envolvida com milho e farinha, teve facilidade em tornar conhecido o seu negócio e foi um benefício para o povo lhe facilitando a aquisição daquele alimento. E a forma de negociar era a mais usual entre a maioria das famílias daqueles tempos: a confiança! Em contabilidade passaram a denominar a venda a crédito e na actualidade sujeita a juros.

As pessoas compravam o milho na tia Conceição para pagar quando recebessem pelos seus afazeres, ou recebiam o ordenado, caso fossem empregadas. Mas quem vendia para o entreposto recebia na hora. Quem vendia eram os lavradores que o colhiam, e vendiam na quantidade do dinheiro que precisavam para outros produtos.

Para satisfazer as compras, como não tinha capital algum, a Conceição valia-se da Loja Nova. Era o estabelecimento mais conceituado na época com agência bancária. A D. Ludovina, esposa do António Joaquim Esteves, o dono, dito António da Loja Nova, amiga de longa data da Conceição, era quem intermediava o negócio, dinheiro que a Conceição devolvia à medida que recebia dos seus compradores. E também neste caso, eu acho que não havia juros.

Durante longa data, a forma de negociar em Melgaço era aquele, na base da confiança.

Nos anos trinta, garoto ainda, observei essa prática. As famílias eram freguesas exclusivas de determinada loja que lhes vendia tudo pela caderneta. – Sr. Hilário, a minha mãe pediu um quartilho de azeite. Ou, um quarto de quilo de arroz e toda a espécie de mercearia. E a cada compra que o freguês fazia ou mandava alguém de casa fazer, acompanhava-se da caderneta onde o comerciante anotava a compra com o valor. Talvez fizesse anotações idênticas em caderno da loja, ou nem isso, pois, alguns pequenos comerciantes faliram, por não saberem, ao fim de muito tempo, quem lhes devia. Dificilmente o comerciante ia bater à porta do devedor, mesmo quando este demorava a pagar. Lamentavelmente à medida que as gerações se iam instruindo, ia diminuindo a honestidade.

Um pequeno comerciante, no final dos anos trinta, dos poucos que ainda vendiam a crédito, certo dia fez uma relação de quem muito lhe devia. Fez bilhetes dirigidos aos devedores e pediu ao filho que os fosse entregar a cada um. Quando o garoto saiu, fechou a porta do estabelecimento e envenenou-se. O Sabino morreu dias depois em agonia. Foi o primeiro e acho que único suicídio que tomei conhecimento na Vila de Melgaço.

Quando lá atrás evoquei o comerciante Sr. Hilário, podia dizer: António Fernandes, Antenor, Zé Pereira, Zé Pequeno, Aurélio, Sabino, Carneira e Loja Nova, principais mercearias de então.

Mas voltando à minha avó Conceição do Félix, que era uma mulher vigorosa, habituada a trabalhar duro desde criança, achava que todas as mulheres da família, sob sua responsabilidade, deviam ser bastante activas, admoestando-as por tudo e por nada. Todos os dias, logo ao romper da aurora, ao abrir a porta, voltando da rua, gritava: - “Vagabundas, calaceiras, catrefa de mandrionas ainda na cama a estas horas. Já fui à Loja Nova arrumar o milho e vós a dormir”. Este rol de desaforos era mais destinado às noras que propriamente às filhas.

Os homens da casa, quando casavam, enquanto não arrumavam suas vidas e arranjavam casa própria, ficavam agregados à casa da mãe. A Aninha, esposa do Emiliano, filha única, criada com muitas regalias, que lhe permitia o ordenado do pai, guarda-fiscal, arreliava-se com os sermões da Conceição. Desconfiada, matreiramente, um dia levantou-se ainda era noite e ficou escondida para verificar o procedimento da matriarca. Então: deu o flagrante. A sogra, sorrateiramente, abria a porta da rua e saía, na mesma hora abria a porta com estardalhaço e aquela ladainha de admoestação, como voltando já de trabalhar. Dando de cara com a Aninha e percebendo que lhe descobrira a marosca, ficou sem graça e perdeu toda a autoridade com aquela nora.

Nas conversas de recordações na casa do Emiliano contou que para alimentar o rol de dependentes era obrigada a usar de subterfúgios. Não raro, mesmo negociando com milho, o pão em casa acabava antes do que era esperado. Então, quando faltava pão para alguma refeição, combinava com a filha que mais a ajudava e reclamava: - “Ó Amália, raio de rapariga, esqueceste-te de pôr o pão na mesa”. Lá da cozinha a filha respondia: - “Já vai, tenho de fazer tudo, estou ocupada”! E nada de levar o pão que ninguém reclamava. E confessou: se dissesse que não havia pão, todos iriam reclamar!

 

Rio, Outubro de 2012

                 Manuel Igrejas

Publicado em A Voz de Melgaço, 11/10/2013

 


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