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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 35

melgaçodomonteàribeira, 05.06.21

 

O Manel não teimou; optou por ignorar a impertinência arrogante do filho. «Cabrão do caralho», cingiu-se a murmurar, escarrando para o chão e centelhando-o visualmente. Desandou e, pesadamente, dirigiu-se para o bar.

Aparentemente, não tinha interesse nenhum em ver a filha mas, ultimamente, desconfiava do seu ritmo de vida. Tinha um guarda-roupa assombroso e diversos pares de sapatos – tudo nupérrimo – e um sem-fim de produtos de maquilhagem de excelente qualidade. Portanto, nem episodicamente trabalhava. Tinha as suas suspeitas, os seus pressentimentos e sabia que não devia estar enganado. Mas isso comprazia-o pessoalmente.

Ver-lhe aquelas pernas bem feitas, as coxas carnudas e rijas, era uma psicose. Quando uma minissaia as realçava, ficava esgazeado e atiçado como fogo pelo vento. Eram tão aliciantes como as da mãe quando tinha a mesma idade. Perdia a razão, o corpo era fogo e uma lubricidade inexplicável incitava-o a perder-se entre aquelas pernas. Sentia calafrios e exsudava tanto como quando percorria a maldita ponte. O pavor de que se reproduzissem os momentos de folia desbridada e irrefreável, não muito distantes, convulsava-o e retinha-o.

Estacou à porta do bar, que estava escancarada. Tirou a boina preta e, com a mão, fingiu arranjar os cabelos compendiosos, antes de voltar a colocá-la.  O bar, edificado do lado esquerdo do salão de bailes, era estreito, mas tinha a mesma profundidade que este. De lés a lés, um balcão rústico de carvalho, feito com troncos e uma prancha; por cima, um abrigo de colmo do mesmo cumprimento; por detrás, a meia altura, uma exorbitante prateleira sustentava perto de duas centenas de garrafas de bebidas alcoólicas, de diferentes marcas, feitios díspares, tamanhos, épocas e países diferentes. Era o terreno dos aracnídeos: tinham fiado nelas umas incríveis variantes de rendados e de bordados refinados.  A limpeza não era o credo da casa.

O ar era brumoso, fumífero; o cheiro a álcool, pestilento; a música, surda, compelia os foliões a falarem ainda mais alto do que habitualmente.

Abrir caminho até ao balcão e pedinchar uma tigela de tinto foi deveras trabalhoso para o Manel. A barafunda era tal que teve de pacientar mais do que desejaria. Umectou os beiços e, com cara de hospedeira de bordo, consentiu que o olhar divagasse à sua volta. «O pessoal está todo bem», estimou com júbilo.

Era neste meio que gozava de uma dilecção desmedida pela vida sombria que era a sua. Para ele, embora sonhasse que devia ser constante, a alegria não era senão uma disposição puramente perceptível com periodicidade. Fez uma carranca como quem quer espantar os pensamentos grisalhos. Não era o local nem a ocasião para essas meditações. Queria alegrar-se, beber e comer até enjoar e regressar à casa, às tantas, cantando, como lhe aprazia fazer. Depois, sacudia a mulher para lhe acariciar o sexo até adormecer.

 

Nos dias de baile, o Manco exercia o papel de segurança com meticulosidade. Fazia rondas assiduamente: bar, comedor – sala de jantar -, cozinha e salão de bailes, sem alteração. Quando entrou no bar, o Manel hauria o que restava da segunda tigela. Saudaram-se num ápice; eram amigos de longa data e alimentavam um apreço recíproco.

Os suspensórios, que quase tinham crescido com ele, obviavam as calças de resvalar para o fundo da barriga. Os pés trazia-os invariavelmente calçados com pantufas castanhas.

Transpôs o balcão, onde uma das filhas e o filho caçula afrontavam os ressequidos festeiros. Ao deslocar-se, a manga esquerda da camisa marcava o compasso. Deu uma olhadela generalizada, mas não divisou nenhum desordeiro nem ninguém de relevância. Foi à esquina onde, por cima do móvel do tabaco, guardava a garrafa de branco e o copo; encheu-o e esgotou-o com imperturbabilidade. Enfiou um Ducados no canto da boca e pôs-lhe lume com um fósforo.

Para os clientes inabituais, constituía sempre um espectáculo riscar o fósforo com uma só mão. Segurava a caixa com o anelar, o mínimo e o polegar; abria-a, retirava o fósforo com o indicador e o médio, entre ao quais o mantinha firme; em seguida era só esfregá-lo na lixa.

Deu duas fortes chupadelas no cigarro e, depois de verificar mais uma vez que tudo estava em ordem, empurrou as portas vaivém da sala de jantar com a barriga – em algumas tarefas empregava-a como se fosse o braço faltante – e avaliou quantas mesas estavam ocupadas e com quantas pessoas. Havia algumas vazias, mas, vista a hora, a lotação era correcta. A mesa na qual estava o Cerdeira, conhecido como o louco de Quintela, despertou a sua curiosidade. Já tivera pegadilhas passageiras com ele. De estatura média, maxilas quadradas, era uma pilha de músculos. Com cerca de trinta e cinco anos, já tinha sido internado repetitivas vezes em instituições psiquiátricas.

Uma cerveja diante dele, fumava com placidez e nem os olhos levantou para o Manco que se achegara à mesa.

- Já pediste? – inquiriu.

Sem mexer, meio nauseado, retorquiu que não.

- O que queres então? – instou.

- Nada! – largou cruamente o homem.

O sangue aqueceu subitamente nas veias do Manco. Fosse quem fosse, execrava refutações num tom destes. Esmagou o Ducados com força entre os dentes para sofrear o descontentamento.

- Pois se é só para beber, tens o bar. Aqui é a sala de jantar ou não deste por ela? Não comes nada? O Cerdeira, sem se intimidar e sem, todavia, o mirar, deu uma passa no cigarro e, sussurrou enlanguescido:

- Eu, não, mas o meu cão sim – e apontou para debaixo da mesa.

Uma toalha de pano branca, salvaguardada por uma de plástico hialina, encobria as mesas e, em parte, ocultava-lhes os pés. O Manco teve de recuar e inclinar-se vagamente para poder ver por debaixo da mesa. De facto, um pequeno cão rafeiro regalava-se serenamente com o conteúdo dum prato.

Desta vez o sangue ferveu-lhe nas veias e acidulou. A mala hostia fez com que a bronquite crónica se manifestasse com a consagrada tosse produtiva e lhe anelasse a respiração. Dar uma iguaria cozinhada pela Vicenta, um manjar fresco e saboroso, feito na hora, a um cão, como se não fosse assaz bom para ele? Alguma vez pressentiria uma coisa destas? Era um desafio, uma agressão petulante. Talvez estivesse louco, como se dizia, mas isso não lhe dava o direito de insultar a sua comida e a sua mulher. Era coisa que nunca permitiria. Sem claramente se aperceber, estendeu o braço, cravou os densos e imponentes dedos da única mão no pescoço encolhido e bojudo do Cerdeira. Com metade da língua fora da boca, o estarrecimento era patente nas suas feições. O Manco, olhos arregalados pela cólera e avermelhados pelo álcool, clamou, esborrifando-o:

- Me cago en tu puta madre, maricón! Se não te agrada a minha comida, ninguém te força a pores cá os pés. Agora vires humilhar-me à minha casa, isso não! Comigo não brincas, hijo de puta! Sei que estás louco, mas eu estou-o mais do que tu, sabes?

O pobre demente sentia-se como o veado a quem o leão crava as fortes mandíbulas de imprevisto na garganta e, sem saber contra quê ou quem, não para de estrebuchar.

- Sais imediatamente da minha casa com o teu cão e não voltas a pôr aqui os pés. Percebeste-me, percebeste-me bem? – invectivou.

A interrogação foi um berro tão forte que, apesar do alarido vigente, as pessoas presentes na sala, assustadas, voltaram-se para assistir à cena.

Com um gesto seco, sacou-o da cadeira como se fosse uma caixa de cervejas, atraiu-o a si e projectou-o brutalmente contra a mesa desocupada que estava por detrás. A cena durou uns segundos. Desta vez, o estrondo originado ouviu-se no bar e algumas cabeças assomaram por cima da porta vaivém.

Sem revelar qualquer oposição, contenção ou mesmo fúria, o louco de Quintela deitou as mãos à cadeira que o acompanhara e, sem piar, pôs-se de pé. Com a mão, limpou o cuspo aspergido pela cara. Deu uma rápida visada ao adversário, como quem reconhece e aceita a sua superioridade, e dirigiu-se para o bar. O rafeiro, alheio à ocorrência, não interrompera a refeição; escoltou-o, portanto, com o osso de uma costeleta entre os dentes.

Pela reacção, ficara fortemente emocionado com a força excepcional, atípica do mastodonte que era o Manco. O Cerdeira, com o físico de estivador, sinzelado durante anos no porto de Vigo, se aflorasse a mais pequena chance, não deixaria de reagir da maneira mais violenta e inesperada. No fundo, o Sérgio, verdadeiro nome do Manco, fascinava-o; era uma massa que devia ser muito difícil de fazer vacilar, quanto mais derruir. Não ignorava, decerto, a sua supremacia, mas a avidez de o incitar para se aferir prevalecera, puxando-o a dar a comida ao cão.

O Manel, satisfeito, presenciava a zaragata com infinito prazer. Sorriu, com ironia, afixando os dentes podres, quando se afastou para passar o Cerdeira. Já tivera uns ligeiros aborrecimentos com ele quando trabalhara em Quintela.

- Que barulho foi este?

Desta vez, a Vicenta chegara atrasada e não pudera utilizar as suas capacidades de conciliadora. O Manco não contestou. Levantou a mesa e pôs as cadeiras à sua volta. A sua expressão repercutia o grosseirismo do gesto do Quintela. Propeliu as portas vaivém e penetrou no movimentado bar, não dando importância aos olhares de admiração e de respeito, com que o congratulavam os clientes.

- Foi uma boa lição que deste a esse bastardo, Sérgio – confessou-lhe o Manel, arreganhando a tacha e dando-lhe umas palmadinhas amigáveis nas costas.

Direccionou-se para de trás do balcão, pegou na garrafa de branco que deixara por cima do móvel do tabaco, e verteu o conteúdo no copo. Ficou meio. Dobrou-se, estirou a mão por baixo do balcão e recolheu outra.

Esse estúpido, esse apoucado do Cerdeira, com a sua louquice, exacerbara-o desmedidamente. Via-se condenado a beber mais do que de costume para sossegar a mala hostia que o invadira.

 

XII

No bar, por volta da meia-noite, o Benito do Capela juntou-se ao Manel; era um pobre diabo, companheiro e colega de trabalho ocasional quando lhe apetecia vergar o rinhão. Era precisamente o que mais pasmava o Manel: trabalhava quando queria, mas andava sempre bêbado. Quando o denegriam, comentava: «Vós viveis como se fosseis eternos, mas eu vivo como se cada dia fosse uma vida». Entendiam-se bem.

- Se tivesses vindo uns minutos mais cedo, cumprimentavas o teu amigo Cerdeira – brincou o Manel.

Mais ou menos da idade deste, era morgado e vivia com o pai, perto dali.

Também andava permanentemente de boina na cabeça, mas não pelo mesmo motivo que o Manel. Nunca tirara a boina em público, mesmo para coçar a cabeça. Escondia uma calvície precoce. A última vez que fora a Ourense renovar o bilhete de identidade, constrangeram-no a desguarnecer a cabeça para o medirem. Apavorado, indagou duas vezes, ante a perplexidade dos funcionários, se não podiam fazer de outro modo. Um moço da Notária que ali se encontrava detalhou, mais tarde, o que viu. O sucesso não tardou a entrar nos ouvidos da maioria dos malandros da região, entre os quais o Cerdeira. Uma tarde, no bar do Manolo, valendo-se do seu vantajoso físico, aliviou-o da boina, pondo-lhe a calva à vista. O Benito, paralisado pelo medo e pelas gargalhadas dos presentes, imprecou-o em silêncio e, a partir daí, fugia dele como da peste. Tinha um receio surreal do Loco de Quintela.

Era um grande pescador, dotado de amplos conhecimentos apenas superados pelos do Adriano. Como este, aprendera a compreender o rio muito antes da barragem vir a adulterar a região e impedir os peixes migradores de se deslocalizarem livremente.

Estava de bom humor. Àquela hora, naturalmente, tinham ambos a caldeira bem quente. Beberam umas chiquitas (tigelas) e o Manel, já meio nebuloso, contou-lhe a tareia que o Manco deu ao Cerdeira. Riram, radiosos. O ambiente do bar escalara e chegara ao cúmulo. Os cubalivres e as tigelas – maioritariamente – faziam chover uma hilaridade desenfreada. O Manco surgia, apreciava o ambiente, dava uma olhada nas notas que acolchoavam a gaveta e, encantado, prosseguia a sua ronda depois de ver o cu a outro copo de branco.

À uma da manhã, saíram e foram para a tienda do Biquitos, cem metros acima. Este brioso comerciante, pai do Chino, estivera expatriado mais de 20 anos no Brasil, onde conheceu a Glória. Pequena, gordinha e olhos puxados, parecia uma esquimó. O filho devia o epíteto à fisionomia legada da mãe.

Na sua cozinha, situada entre a especiaria e a sala de jantar, a Glória acomodava, até altas horas da noite, uns deliciosos pratos tabernais.

A sua especialidade eram os miúdos. Contudo, as bochechas de vitela, marinadas em vinho tinto com certos condimentos, representavam o pitéu mais solicitado. Tiraram muita clientela ao Manco porque, além da mulher cozinhar bem, praticavam uns preços honestos. Nos últimos dez anos de estadia nos subúrbios da cidade carioca, tinham explorado um pequeno restaurante o que os impregnou da simpatia, da alegria e dos gracejos representativos do povo brasileiro. Questão índole, eram a antítese da «Casa Manco».

O Manco, intratável, dizia aos clientes que lhe eram fiéis que a Glória cuspia no óleo para saber se estava quente. E terminava a frase com um expressivo «Me cago en Dios!».

Encomendaram duas doses de orelhas de porco cozidas, polvilhadas com uma pitada de pimento picante, nas quais se notava, todavia, uma leve ponta de sal. Comeram com sofreguidão, ao mesmo tempo que despejavam garrafas e motejavam. Era uma noite de regabofe, das que os dois adoravam quando o quadro era favorável.

- O outro dia – disse-lhe o Benito, hílare – o Seba (diminutivo de Sebastião) pediu-me para lhe ir arrancar as batatas dos dois campos que tem depois da ponte, do lado de cima da curva, sabes?

- Hã – hã grunhiu o Manel com a boca cheia.

Depois de uma ténue pausa, concatenou, risonho:

Então, perguntei-lhe quem as tinha plantado.

«Foi o Rique», disse-me.

- Sabes o que lhe respondi?

E deu uma gargalhada sonora.

- Que fosse pedir ao Rique, que sabia onde elas estavam! Se visses a cara que me fez!

Encostavam-se à parede, batiam com os punhos por cima da mesa ao mesmo tempo que gargalhadeavam.

Por volta das três da madrugada, saíram da mesa e do estabelecimento do Biquitos com dificuldade, atirando-se pela estrada abaixo a cantar em coro:

 

DE LA SIERRA MORENA

VIENEN BAJANDO

UN PAR DE OJITOS NEGROS

CIELITO LINDO DE CONTRABANDO.

 

AY,AY,AY, CANTA Y NO LLORES

PORQUE CANTANDO SE ALEGRAN

CIELITO LINDO LOS CORAZONES

 

Encostados a um automóvel, o Padre e o Chino fumavam um porro (charro) quando eles desfilaram claudicando. Apenas deviam estremar sombras.

- Que puta de cacetada levam! – admirou-se o Chino.

O Padre, enojado, cuspiu para o lado, como lhe tinha feito o pai.

O Chino, que tinha dado uma boa passa no charro, tossiu e acrescentou meio rouco:

 

Os promotores, que, naturalmente, eram os melhor servidos, esses, mostravam-se bastante discretos na abundância de bens locais. Mas os rumores de que possuíam propriedades aqui e ali, até em Espanha, à beira-mar, não deixavam lugar a dúvidas rapidamente. A jactância, beatitude profunda dos abastados, é uma das fraquezas mais traiçoeiras do ser humano; é uma faca à double tranchant. Os raros que tiveram o infortúnio de cair na reda da Justiça ficaram nus.

 

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 david de carvalho

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FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 34

melgaçodomonteàribeira, 22.05.21

 

O padeiro deitou a mão à sande de presunto. O pão, saído do forno, achatou-se sob a pressão dos dedos. Antes de dar a primeira dentada, encarou-o de esguelha e delineou um sorriso levemente cáustico.

— Não desperdiças uma, Oliva – o Fernando denominou sempre o Manolo pelo seu segundo nome. é novidade para ti, e, quando quero, também sei tecer encrencas.

— Eu não tenho nada que ver com o ocorrido, Fernando. Apenas piquei a Otília para me divertir um pouco. Sabes como sou. Confias em mim, ou não?

O rosto traía os dizeres aos quais o Fernando não dava qualquer crédito, evidentemente.

—  Confio em ti de olhos fechados, Oliva. 

Com efeito, as relações e a concórdia entre eles eram um tanto eufónicas. O Manolo tinha uns dez anos mais. O primeiro contacto selou uma sincera afinidade que se foi reforçando gradualmente. Eram integramente semelhantes. A propensão e o esmero congénitos pelo humor sociável, espontâneo e bucólico, cimentou uma indestrutível condescendência.

Nenhum desconhecia que a irrisão é uma propriedade detentora de carinho e irrigada  de fraternização. Em geral, graceja-se meramente com as pessoas amigas. Reinavam com admirável maneabilidade, sem subentendidos, sem iniquidade nem indelicadezas.

— Sei que não me estás a levar a sério, Fernando. Não é mentira nenhuma  que adoro pilheriar, mas com a Otília há muito que deixei de o fazer. Limito-me a umas facécias ligeiras. É uma peste incontrolável, bem o sabes.

— Não perseveres com a tua ladainha, Oliva, senão vou a Puente Barjas informar o teu amigo tenente que tens a garagem repleta de bananas. Ó Rosa – implorou –, tira-mo daqui antes que desatine.

O Manolo deu uma gargalhada e escapuliu para a loja.

À noite, a Otília não foi capaz de controlar a exasperação que a facécia da casa lhe provocara. Suspicaz, anatematizou sucessivas vezes a casmurrice do Fernando.

Na padaria, o sobrinho desenfornava os primeiros cacetes e ainda ela e a mãe não tinham posto fim ao litígio. A conversa era cativante. Para o padeiro e o seu jovem ajudante, que as escutavam, foi um jocoso divertimento. De vez em quando, interceptavam umas palavras sem, todavia, apanharem o fio da discussão.

O Fernando não duvidava do teor nem da essência do que estava a ser debatido por cima deles. Não pôde disfarçar uma desbordante risada de real conivência ao lembrar-se do autor da  trapaça. «A possibilidade de uma irracionalidade ser aceitável e defrontada como uma contingência, é indiscutível, desde que a pessoa concernida presuma que lesa o seu bem-estar », pensou.

 

 

A estrada diante da Casa Manco estava saturada de automóveis aparcados desordenadamente nas valetas e, em alguns sítios, em campos e terrenos baldios.

A orquestra que animava o baile naquela noite não diferia em nada da maioria das que a tinham antecedido: desafinada, iterativa e barulhenta. Estava incluída no lote das que cobravam os cachês mais abordáveis. As mais notáveis deixaram de ali actuar desde que o Manco não honrara pecuniariamente o contrato com uma delas, argumentando que o número de entradas não fora satisfatório.

De todos modos, o mérito das orquestas não tinha a mais pequena influência para grande parte das parelhas, que apenas reclamavam uma exultação erótica leviana. Aos olhos da sociedade, a música era o meio que autorizava os jovens a apertar-se e a excitar-se abertamente nos braços uns dos outros. A falsa permissividade da sociedade favorizava paixões ardentes que incrementavam neles, e faziam com que a abrasão os consumisse profundamente; obrigava muitos a dissimularem-se em lugares recônditos para poderem asfixiar esse ardor, desafiando as contradições sociais e violando as suas proibições aberrantes.

Depois de duas ou mais horas em liminares lascivas, os casais mais exaltados, incontinentes desertavam o salão para se refrescarem com uma bebida ou para dar um passeiozinho. Passo a passo, caminhavam pela estrada semi caliginosa. Palravam, recreavam, caçoavam e riam com doçura. De repente, desapareciam, como ingurgitados pela escuridão que envolvia os campos ladeiros da Casa Manco.

Só não escapavam ao olhar perspicaz do Padre e do seu comparsa. Quando a onda gerada pela ganza os exortava, a partir de certa hora, arrastavam os pés à saída do salão de bailes; escrutavam cuidadosamente as parelhas que davam mostra de forte frenesim. Os moços deleitavam-se com estes casalinhos inflamados.

Com absoluta discrição, perseguiam imediatamente o casal mais passional. Além de o meio não ter segredos para eles, moviam-se como felinos. A sua presença foi descoberta escassas vezes. Silenciosos, contemplavam-nos. Quando consideravam que a coisa se acelerava e os gemidos anunciam um fim iminente, lançavam-lhes torrões e caroços de couves e, com un apito que traziam no bolso, improvisavam um charivari. Os amorosos, caóticos, aterrados e, em especial, inibidos, erguiam-se precipitadamente e evaporavam-se. Algumas meninas tinham abandonado as calcinhas no sítio, um trofeu que os rapazes coleccionavam. Os sacanas, ledos, curtiam uma de riso infindável.

Uma sublime latada bem verde, sob a qual faziam grelhados ao abrigo do sol, protegia a entrada da Casa Manco. No domingo à noite, como era usual, apareceu o Manel. O filho e o Chino, os miolos bem enfumados, estavam sentados num dos dois longos bancos de madeira ali colocados. O pai do rapaz ainda estava a meio pau, apesar de já ter mais vinho do que sangue nas veias. Como o Manco, por comer muito suportava bem o álcool. Qualquer prediria que estava sóbrio. Portanto, como todos os domingos, subira a S. Gregório e visitara as tascas das Pachecas, da Tia Antónia, do Camilo e os cafés Seixo e Coelho. O número de tigelas esvaziadas era incalculável.

O Padre não tinha qualquer dúvida quanto à sua comparência no Manco; era uma etapa do seu périplo dominical. Odiava-o tanto que só a sua vista indispunha-o. O Chino dera por ela e receava que, um dia, o colega fizesse uma asneira.

— Ó rapaz – apostrofou o Manel abruptamente–, a tua irmã anda no baile?

Ficou irritado. Hesitou uns segundos em desdenhá-lo ou replicar. Para quê saber dela se não se falavam?

— Se anda, não a vi; e se a tivesse visto também não to dizia – balbuciou secamente.

Curvou-se, apoiou os braços nas coxas e entrelaçou os dedos das mãos, como quem despede o abelhudo.

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 33

melgaçodomonteàribeira, 08.05.21

 

Antes de o sono a entorpecer, depreendeu que o Manolo sabia o que dizia: «Água mole em pedra dura tanto dá até que fura». O Fernando, ainda que lhe desagradasse, ia ter de talhar os sarrafos do outro lado do alpendre. A casa era sua, a decisão pertencia-lhe, e ele devia capitular sem protestar. Por fim, depois da profecia do Manolo lhe ter poluído o cérebro incansavelmente, exausta, ficou a ronquejar.

Na cama ao lado, a mãe, olhos oclusos, rezava de modo insensível. Baloiçada pelo espalhafato da padaria, peregrinava espiritualmente e, com os lábios, mimava «Pais Nossos» e «Avés Marias» vezes sem fim. Só depois da porta metálica do forno crepitar com persistência, é que a sucessão das orações se abreviou. Ficou serena, descansada.

A Otília teve um sono buliçoso. Por volta das sete e meia já estava de pé. A mãe repousava, respirando pausadamente. Preparou uma malga de descafeinado, mas não foi ao forno buscar o cacete fresquinho como costumava fazer. A noite não fora igual às outras e o dia tampouco o seria. Impulsivamente, já o tinha decidido, tal era o seu temperamento. Sentia-se irrequieta, nervosa, com pouco apetite. Depois de vazar a malga, foi à sala de jantar; com um movimento ríspido da mão, abduziu a pequena cortina azul escuro da janela situada por cima da porta da padaria. O telheiro estava mesmo em frente. Voltou para a cozinha. Sabia que era cedo para o Fernando fragmentar as ripas, contudo, o soído da porta encorajava-a fatalmente a dar uma olhadela através da janela.

Tinham transcorrido trinta minutos das nove quando os tímpanos lhe comunicaram formalmente que o Fernando dera a primeira machadada. Acorreu para a janela como uma louca, descerrou-a com balbúrdia e gritou ao padeiro:

— Fernando, não te quero ver mais decepar lenha aqui! Leva a lenha para detrás do telheiro e corta-a lá, anda! Não vês as rachas que me fazes na parede da casa?  Inclinada sobre o parapeito, de braço esticado, indicava-lhe o sítio das insignificantes fendas.

O Fernando nunca deixava de ripostar às suas exprobrações, mas, naquela manhã, embora surpreendido, guindou a cabeça lentamente na direcção da janela, esboçou um fingimento de riso e disse-lhe:

— De que me estás a falar, Otília? 

— Não vês as gretas que me fazes na parede? – recomeçou, irada.

O padeiro continuou a olhar para ela sem entrever.

A intimação atroadora de uma das patroas do forno galgara a estrada e ateara a atenção do Manolo. Com calma, saiu da loja e foi até à berma. Ali ficou, mirando com regalo a progressão da algarada que elaborara. Um sorriso malicioso e folião alumbrava-lhe o rosto trigueiro, e um fulgor de capitólio bailava-lhe nos olhos.

— Então não vês que é por causa das ripas que batem na parede, ou és tonto, Fernando? – insistiu, histérica.

O jovem homem, que conhecia bem os excessos da tia, endireitou-se, coçou as cerradas barbas fulvas e, com ar de cepticismo, ripostou:

— Tu não estás bem, mulher! Cuidas que são as ripas que fazem as fissuras? Quem te meteu na cabeça uma absurdidade destas? Isso é superficial, Otília. É o resultado do bom trabalho que te fizeram os alvenéis. Vira-te contra eles.

A elucidação, por mais apodíctica que fosse, não a persuadiria porque, quando algo se apropriava da sua mente, o resto era subsidiário.

O Manolo, desapercebido dos dois beligerantes, interveio. A intriga desenrolava-se maravilhosamente, melhor do que ele poderia supor.

— Não faças caso do que ele diz, Otília! É um patife, um calaceiro que não dá um passo sem gemer! Fia-te nele e vais ver como ficas sem casa, mulher!

Estas palavras bastaram para que a ingénua criatura se pusesse a disparatar e a agitar como uma alienada. Também foram a indução para que o padeiro, sem sequer desviar os olhos, percebesse quem era o instigador do delírio da tia.

— Vai pra detrás do telheiro trinchar a lenha, desgraçado, anda! Não me estragues a casinha que me arruinei para refazê-la! – e, de mãos unidas, levantou o olhar para o céu, como quem suplica Deus.

O padeiro perdeu a paciência.

— Estás doida varrida, Otília! Posso ser um desgraçado, mas tu és a pessoa mais crédula e pateta com quem deparei; és mais inocente do que a minha filha que não tem dois anos.

Fitou o dono da loja que, da outra banda da estrada, se empenhava em dominar o riso, e abanou a cabeça num gesto de impotência. Em seguida, virou-se para a tia e disse-lhe:

— A culpa não é tua, é daquele mangante – parasita – que, em vez de tratar da sua vida e deixar os outros em paz, escorcha a cabeça aos velhos! – disse, indigitando o Manolo.

A Otília, sem que transparecesse, melindrou-se. Era o seu ponto fraco. Velha, ela? Havia-as com muitos mais anos do que ela que ainda cavavam a terra e executavam afazeres como quando tinham cinquenta anos. Ela não o fazia por estar gasta, mas por ser sobejamente autónoma no capítulo peculiar. Embora magoada, conservou-se muda.

O padeiro, friamente, pousou uma ripa no cepo, elevou o machado e, antes de o deixar cair por cima, fixou a tia, simulando um ar de mau.

— Importuna-me com os teus desvarios, Otília, e vais ver que te deito mesmo a casa abaixo! – ameaçou – Vai, vai, que está a tua mãe a chamar por ti, mulher.

Foi uma conflagração.

— Ai meu Deus! Este homem está tolinho! Vai-me desgraçar! Vai abater a minha rica casinha sem eu lhe ter feito nada!

Contrariada, ao mesmo tempo que o amaldiçoava em voz alta, propeliu o batente da janela com violência. O Manolo já se tinha sumido.

— Por que te pões assim, mulher? Precisas de berrar? – censurou-a a mãe quando a viu pela porta do quarto.

— Ó minha mãe, não metas o bedelho nisto.

Uns minutos mais tarde, no café, foi o patrão quem acolheu o Fernando e o seu ajudante; em silêncio, confeccionou-lhes as sandes. Pôs o prato com os bocadillos diante deles e ousou:

— Conho, Fernando, que aconteceu contigo e a Otília? Eu ouvi-a vociferar e resolvi assanhá-la ainda mais. Como se pôs, Dios mio!

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 32

melgaçodomonteàribeira, 24.04.21

Assim, uma noite, puseram em prática um jeu de rôle: no bar, a Maribel interpretava o seu papel; na garagem, o Nelo, o do Manolo; e o Zeca, o de carregador. O Manolo implementou várias viagens com a sua carrinha Citroën 2CV, a velocidades discordantes. A cada volta a Maribel ia retardando o alerta. Ao cabo de três quartos de hora, deduziram que era razoável dar sinal quando os veículos alcançassem a casa do Pepe. O risco de a mulher se equivocar era nulo: naquele ponto, a estrada fazia uma curva de cento e oitenta graus e o feixe de luz devinha frontal. Tinham tempo para aviar dois, três ou, talvez, quatro carregadores, extinguir a electricidade e aferrolhar a porta.

Para muitos, o tempo era dinheiro; para o Manolo e os sócios também era prudência.

O que o obsidiava era a imprevisível aparição do jipe do tenente do posto de Puente Barjas.

A Otília e a mãe habitavam por cima do forno – assim designavam a padaria – e dormiam no mesmo quarto, mas em leitos individuais. Nos dias álgidos e húmidos de inverno, o calor proveniente do rés-do-chão chegava para terem uma temperatura pontual na casa: um calor conforme durante as horas mais frescas da noite e um calor ameno no restante do dia. No verão, residiam numa estufa.

Desde que ficara acamada, a provecta mulher via o tempo dissipar-se na solidão mais completa, dormitando de modo intermitente. A Otília, embora tomasse conta dela com a maior idoneidade, sentia-se incapaz de lhe fazer companhia duravelmente. Era como uma corrente de ar, um sopro. Exceptuando as situações inquietantes em que a sua presença era indispensável, pouco parava na casa.

Durante o dia, o apito revelador da carrinha do peixe – de segunda a sexta –, assim como o das locomotivas, que, consuetudinariamente, lhe provinham do outro lado do rio, representavam as referências predominantes da mãe. Se, por qualquer motivo, um comboio estivesse fora da hora, enquanto não distinguisse o seu rangido, não amortecia.

Estes factores ambientais enquadravam o seu inflexível relógio circadiano e serviam de charneira entre o pôr do sol e a noite; com esta derradeira é que verdadeiramente começava o dia para ela. Só ela lhe oferecia a presença efectiva e afectiva da filha, as suas palavras e a sua orelha.

Mas tão ponderoso como a convivência da filha, era o alvoroço da padaria, pelo qual se regia. Acostumara-se aos seus ruídos específicos, familiares havia muito: ao seu cheiro, ao gemido reiterativo da amassadeira, ao chiar e ao bater da porta do forno; ao provecto e enfarinhado transístor, que tanto brotava uma música incompreensível como uma palração anfigúrica, ao gargalhadear ruidoso causado pelos chistes dos dois trabalhadores, vindos indistintamente de baixo... Fizera do forno o seu segundo marco, o seu sol nocturno. Ao genuíno, havia muito que não o avistava, ressentindo apenas, ao fim da tarde, o calor da sua radiação anemizada através da janela.

A sonoridade flácida que derivava de baixo e atingia os seus ouvidos ainda eficazes, divergia demasiado da do seu tempo. A imaginação, artífice sem tabiques dos resquícios e das pegadas memoriais, tem um enorme potencial para ajustar desejos ou instantes memoráveis, por muito disformes que sejam; a Concepción, invocando os retalhos mais salientes e deslumbrantes da sua vida, projectava-se mais de meio século atrás. Ainda que se desdiga, o passado é sempre o mais atractivo, o mais inebriante, mormente quando o futuro pssou a ser o presente. Ainda não se deslembrara de que a padaria fora a obra do marido e dela.

Estas conjunturas, talvez imperceptíveis para os que mais sofriam de derrelicção, formavam uma milagrosa revivificação. Graças a elas, ainda discernia o frágil fio de vida que, dia-a-dia, irreparavelmente, se ia constringindo nas suas entranhas, mas ao qual se agarrava com um entusiasmo implacável, raivoso. Esta atmosfera folclórica ritmava e revigorava as noitadas da sua vegetativa cenestesia; fazia com que adormecesse a altas horas da madrugada.

Como neste mundo para dar o merecido valor a algo é imprescindível vivenciar a sua adversidade, o domingo era uma execração inequívoca para ela. Privada do cláxon infatigável da carrinha do peixe e do tumulto do forno, tinha de se confortar com o silvo dos poucos comboios que nesse dia circulavam, e postulava a Virgen para que a têmpera aleatória da filha mostrasse a boa cara. 

Se nenhuma das doenças que a carcomiam intimamente a entravasse, tagarelava obstinadamente todos os dias com ela. Velha, doente, num grau héctico crítico, a voz não denunciava a sua natureza nem a longeva idade.

A Otília, bem disposta na maior parte das vezes, narrava-lhe, com prazer e minúcia, o desenvolvimento dos acontecimentos polimorfos em andamento e as novas do dia; quando fatigada ou cateada, egoistamente, repudiava-a. Quando se dava o caso, a desditosa anciã, cujo mental por momentos oscilava, monologava, encarnando as duas figuras.

Fosse como fosse, as suas pálpebras poucas vezes se juntavam antes de identificar a frequência das colisões da porta do forno, sinal de que o Fernando enfornava as primeiras barras de pan – cacetes.

Naquela noite, a Otília descreveu explicitamente à mãe a preocupação que se apossara dela e lhe inquietava o pobre espírito. Crescera nela a apreensão pela rica casinha, na qual ambas tinham nascido e, decisivamente, expirariam.

— Ó mulher – questionou a Concepción –, como podes crer que nos vai botar a casa abaixo com paus? É impossível!

Conversaram, conversaram, sem interrupção. Às vezes, cada qual por seu lado, expressavam-se numa total simultaneidade.

A Otília não se achava ingénua ao ponto de acreditar que o choque das ripas, uma vez por outra, findasse por lhe deitar a casa abaixo. A verdade é que já havia muitos anos que, diariamente, rachavam a lenha ali. Já não se recordava, mas afigurava-se-lhe que os sarrafos nunca tinham sido dilacerados noutro lado.

A tarde foi correndo e a Otília não cessou de magicar. Contra o fim, não contendo mais a florescente exaltação, prospectou minuciosamente a parede da casa e ratificou a existência de umas fissuras esparsas. «Pequenas, é certo, mas é assim que tudo começa», pensou, atribulada, relembrando as palavras do Manolo. A pancada das ripas talvez não lhe derrubasse a casa, mas não tinha a menor dúvida de que lha danificava pouco a pouco.

 

Continua.

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 31

melgaçodomonteàribeira, 10.04.21

Preferiu vilipendiar o rapaz. Molhou o bico na tigela. Ao reparar no Nelo, rememorou-se de um acontecimento insólito. Interpelou-o.

— Nelo, sabes com quem embati anteontem no meu campo junto do regato? Essa pessoa disse-me que estava à tua espera. Admito que fiquei abismado. Tem-me saído da cabeça, mas agora quero saber se não me mentiu.

— Que estava à minha espera para quê?

O Virgílio sorria. O episódio ia interessá-los.

— O indivíduo afirmou-me que adquirira um televisor em São Gregório e que vigilava a tua vinda.

— Ah! – quase clamou o Nelo, arrebatado – Não vos relatara essa! – adiu, dirigindo-se ao Zeca e ao Manolo – Foi o Barqueiro, esse filho da mãe!

— O Barqueiro? – redisseram, cépticos, os dois homens.

— Foi o Barqueiro, sim senhor! – certificou o Nelo, triunfante, desnudando o incisivo de ouro – Quem havia de dizer, heim?

O espanto do Manolo e do Zeca era eloquente.

— Como lidara com o bicho – prosseguiu o Virgílio –, quando me disse isso, pensei que se estava a armar em malandro. Mas não, falou como se fosse coisa costumeira nele e normal para mim.

A alcunha de Barqueiro herdara-a do pai, bateleiro entre Arbo e o cais de S. Marcos, no Peso. Depois do serviço militar cumprido, concorreu para a Guarda Civil e foi seleccionado. Com menos de trinta anos fora enviado para o posto de Crecente, cujos membros vigiavam os camiões de bananas.

Incorruptível resoluto, durante os dezoito meses que ali policiou intricou, com tendencioso alento, o trabalho aos contrabandistas e aos colegas da Benemérita. No dia que foi transferido para o Ferrol, os colegas e os passadores da zona experimentaram um tremendo sentimento de alívio.

— Quando a Teté – Teresa, mulher do João-João – me disse para quem era o televisor, pensei que estava a brincar comigo – esclareceu o Nelo –, mas não. Ainda ponderei se devia levar-lha, mas... Já me olvidara desse traste, carambas!

— O cabrón! – bradou o Manolo – Nem os pés aqui pôs o malandro! O que nos fez sofrer esse gaxo! Quantas vezes me apeteceu dar-lhe uma paliza – tareia!

— E digo-vos mais: tenho a certeza de que o televisor não era para um amigo, mas para ele. O tipo rebaixou-se o menos que pôde. Mas também lhe mamei duzentas pesetas por ser ele. Quando lhas pedi, retrucou-me que a Teté lhe dissera que já.... Não o deixei ir mais além e intimidei-o, dizendo-lhe que, se quisesse levar a televisão, tinha de me cagar duzentas pesetas. Tirou imediatamente duas notas do bolso. Foi para lhe fazer pagar uma ínfima parte das que nos fez passar enquanto aqui esteve.

— Como é que um sacana destes muda ao cabo de tantos anos? – admirou-se o Zeca.

—  Zeca, custou-lhe, mas aprendeu. Foi o que viu aqui e no porto do Ferrol que o revirou. Ainda não notaste que, com o tempo, até os mais renitentes persuado? Sou um género de missionário do contrabando, pá – respondeu-lhe o Nelo.

Esgargalharam-se, radiantes.

Naquela noite, quando o Manolo trancou as portas da loja e do café, já decorriam uns minutos das vinte e duas e trinta.

Orientou-se para a ponte e fincou-se uns minutos no guarda-corpo. A barragem, sublimemente ilumidada, sobressaía da obscuridade envolvente. Alçou os olhos e dissecou os contornos imprecisos da igreja de San Miguel de Desteriz, sobranceira à represa. Rogava a ajuda do santo. Este ritual imarcescível predispunha-o para o trabalho perigoso e opressivo que o esperava.

Deu meia volta e, cautelosamente, desceu as escadas que conduziam à ala direita do andar inferior, onde se encontravam os quartos de dormir, mas não parou; contornou a casa e introduziu-se na garagem por uma pequena porta lateral.

Estava, realmente, uma noite propiciatória para contrabandear. O luar, frouxo, idealizava as circunstâncias para os rapazes evoluirem furtivamente, e era suficiente para se guiarem; o estrépido do caudal do regato e do rio, mais protuberante à noite, cobriria o bulício abafado da marcha, do estalido dos galhos pisados, das colisões fortuitas e das imprecações.

As dez toneladas de bananas não tardariam em falar português.

No exíguo eucaliptal diante do caminho de acesso à garagem, o Zeca e os carregadores, electrizados, mas animosos, expectavam. O Nelo já tinha posicionado sobre o regato a escada e, por cima desta, a tábua larga do mesmo cumprimento, unindo a sua leira à do Virgílio. Os carregadores podiam passar facilmente, com toda confiança e seguridade.

A Maribel não abandonara o café, mergulhado na opacidade; abancara diante da vidraça, ao lado da primeira das duas janelas do lado direito do bar. Para amenizar a nervosidade, a sobreexcitação, esparralhara um montão de saquinhas de pipocas por cima da mesa. Com o usitado cabo de enxada entre as pernas, estava pronta para seroar.

Dali, entre as trevas circundantes, vislumbrava a luz dos faróis dos veículos que desciam para a Frieira. Desde que um transpunha o café do Julian, uns metros antes da curva onde se situava a loja do Abel, os raios luminosos brilhavam com intensidade. Esbordoando com pujança duas vezes no solo de lajes com o cabo de madeira, alertava os que por baixo se apressavam. Neste caso, o Zeca partia instantaneamente para o eucaliptal avisar e imobilizar os carregadores que viessem à carga; o Manolo apagava a luz e entrincheirava-se com quem lá se encontrasse. Só depois de novo sinal, três pancadas leves, o Manolo desaferrolhava a porta, imitava um miado e o trabalho retomava o seu curso expedito.

Para a Maribel diferenciar um automóvel, tinha que este chegar à altura do comércio, o que quebrava significativamente a cadência durante as transferências. Visto o tempo ser uma componente fulcral do petate, o Manolo matutou seriamente no problema. Para ele, só se podia ganhar uns minutos na recta que principiava diante da loja do Abel – depois da Maribel ver a luz pela primeira vez – e finalizava cerca de quatrocentos metros mais abaixo, junto da casa do Pepe. Para desenvencilhar o inconveniente, chegou à conclusão de que era preferível fazer uns testes.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 30

melgaçodomonteàribeira, 27.03.21

Na soleira da porta apareceu a silhueta do Virgílio. Ficou uns segundos a estudar a sala e os ocupantes, seus conhecidos.  Achegou-se ao balcão e pediu um branco à Rosa. A rapariga, nas últimas semanas, andava ligeiramente desnorteada: apaixonara-se por um dos carregadores, um belo e robusto rapaz dos que jogavam à sueca.

O Virgílio, pouco mais de sessenta anos, embora pequeno, era um homem com estigmas de ter sido musculoso; construíra-se amanhando inesgotavelmente as courelas que possuía diante da casa e vogando para superar a corrente do rio. O tom acinzentado do rosto era o fruto do amor extremo que nutria pela tigela de blanco. Homem caloroso, amável e divertido, comprazia-se na companhia de toda a gente. Quando se tratava de galhofa, acrescentava com irremissibilidade uma camada hilária, atentando cuidadosamente aos confins e às pessoas.

Empurrado pelas lastimosas singularidades dos tempos a renunciar à sua região de nascença, um lugar do concelho de Monção, expusera-se, como muitos antes dele, e permutara de país. Os portugueses – como todos os povos em geral –, evidenciavam um afecto divino à terra mãe; sensatamente, quando tinham de abdicar dela sem paradeiro certo, muitos permaneciam o mais cerca da pátria, desde que desencantassem um contexto que conviesse e recoltassem uns tostões.

«Eu – lembrava o Virgílio –, depois de saltar o regato, entrei na primeira casa que vi. Calhou ser uma loja, e então perguntei se lhes fazia falta alguém para trabalhar. Redarguiram-me que talvez; ali empaquei. Mais tarde, casei-me com a filha do proprietário da loja.» Assim resumia o princípio da sua vida, brincando. Todo ele era um mar de morosidade. Aquela parcela fremente da vida inserira-se alegremente no seu âmago.

Naquele tempo, não tendo sido eregida a ponte que agora cangava os dois limbos das aldeias, os destemidos, quando necessitavam de ir apanhar o comboio ou visitar parentes, gozavam dos préstimos de bateleiros; os hidrófobos utilizavam a ponte férrea que se situava a cerca de quinze quilómetros dali, entre Cortegada e Filgueira. As povoações da Frieira e de Filgueira eram os pontos de partida e de chegada dos emigrantes galegos da zona, assim como dos portugueses do concelho de Melgaço.

Havia, também, que ter em conta os laços atávicos que ligavam aquele segmento da Galiza e todo o extremo norte de Portugal. Uma multidão inverificável de pessoas das duas nacionalidades – com predominância de portugueses na Galiza – , reunidas pelo matrimónio, estavam disseminadas pelas duas regiões, o que comportava, durante o ano, algumas viagens nos dois sentidos.

Na Frieira, a batela era muito requisitada. O barqueiro e a respectiva batela estavam no embarcadouro duma ou outra orla, atentos à aparição de usuários. Mediante o pago de umas módicas pesetas, as pessoas eram transladadas de margem em poucos minutos. A embarcação também dava para despachar toda classe de produtos e de mercadorias.

O sogro do Virgílio era dos poucos que tinham uma concessão para explorar a batela determinados dias por mês. Com efeito, este cobiçado recurso era repartido por mais do que um. Foi dos que vogaram escabrosamente durante anos, arrostando muitas vezes os limites do bom senso para favorecer a vida a milhares de almas. Foi, pois, com coerência que, uns dez anos depois de ter casado com a sua filha primogénita, o Virgílio, encantado, substituiu o idoso sogro já extenuado como marinheiro de água doce.

Apesar do trabalho das jeiras, cansativo, e do da batela, temerário, era feliz. O batel assegurava-lhe um apreciável dinheirinho que se adicionava ao encaixado na modesta tienda, assunto da sua esposa.

Foi, indubitavelmente, o único habitante da aldeia para quem a notícia da construção da ponte foi uma tragédia. A inauguração assinou a morte da mercearia, da batela e das receitas imanentes. O caminho do Porto de Bergote – que ainda não fora cimentado – foi rapidamente esquecido; caminho que, desde sempre, fora o passadouro imperioso para quem tivesse de atrevessar o rio; caminho que fora uma fonte de clientela para a sua modesta loja, sita a dois passos do embarcadouro. Tornou-se, exclusivamente, um caminho frequentado por alguns pescadores e, à noite, pelos contrabandistas. Junto da moderna ponte, a loja do Santiago açambarcara a globalidade da freguesia.

Presentemente, o Virgílio permitia aos carregadores do Manolo a travessia das suas leiras que confinavam com o regato. Corredor recatado, encurtava-lhes sensivelmente o percurso, poupando-lhes um tempo relevante. Como não podia deixar de ser, este obséquio era-lhe generosamente ressarcido pelos cessionários.

— Ó minha Rozinha, parece-me que andas um pouco distraída – queixou-se.

— Ai que tonta! Esqueci-me de ti, Virgílio.

O ambiente era de festa. Estalaram os clamores dos jogadores de sueca. O Virgílio abeirou-se da mesa.

— Que mal jogas, pá! – lamentou-se um deles.

— Esse não conhece as cartas – subscreveu o Virgílio só para avivar.

O rapaz em causa não gostou nada do comentário e, com ar sobranceiro, contestou:

— Você que sabe, Virgílio? No seu tempo ainda não se jogava à sueca! 

Se havia um comportamento pelo qual o Virgílio tinha uma feroz aversão e o revoltava, era este: a rejeição, o desprezo que os jovens têm pela geração anterior, concebendo-a sempre como obsoleta e papalva, comparada à deles.

«Este paduano – parvo em jargão castrejo – não sabe que a vida de todo ente é compartimentada.», pensou com consternação. «Cada qual muda várias vezes de carruagem; passando da infância para a adolescência, a juventude, a idade adulta e a velhice, o comboio acarreta-nos para o mesmo fim. Não entende que a nova geração é, em grande parte, esculturada, doutrinada e inspirada, ainda que de modo inconsciente, pela precedente, como os artistas são influenciados pelos precursores. Julgam que a juventude é imorredoura!», insurgia-se às vezes. «Não imaginam que, por muito distintas que as gerações sejam, muitos jovens ouvirão, mais tarde, da boca dos filhos, as mesmas objecções que hoje fazem aos idosos. É na velhice que todas as gerações se encontram. A única disparidade entre um velho e um novo é que o velho já foi novo, enquanto que o novo não sabe se algum dia será velho.»

 

Continua.

 

 

JÁ LÁ VAI UM ANO

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 29

melgaçodomonteàribeira, 13.03.21

 

Era um sossego indefinido ter com que pagar aqueles incomplacentes, insaciáveis da Benemérita. Acalmá-los-ia mais uns tempos. O contacto do posto de Puente Barjas, exagitado havia uns dias, compareceria, sem dúvida, ao anoitecer, a fim de reivindicar a gratificação de todos os colaboradores. Nos períodos ordinários, era ele que o prevenia com antecedência se podiam trabalhar. A luz verde para aquela noite estava subordinada aos pagamentos em suspenso.

Sendo as bananas vendidas no mercado português, e, por conseguinte, saldadas em escudos, a complexidade traduzia-se na conversão em pesetas da substancial quantia necessária para solver os honorários do ramo espanhol da associação: o abastecedor da fazenda, os guardas civis e o Manolo.

Mesmo este, apesar das somas serem incomparáveis, defrontava-se, por vezes, com algumas contrariedades para cambiar os escudos que os clientes portugueses despendiam no seu minimercado.

A palpável rareza da moeda espanhola – e de outras nacionalidades – em Portugal era causada por uma balança comercial extremamente deficitária. As interrogações do pós-25 de Abril, a independência das colónias, o regresso dos portugueses nelas implantados e o rebuliço político-financeiro tiveram como repercussão, entre outras, a descida evolutiva do escudo e uma viva redução da tradicional frequentação de turistas estrangeiros, indústria que, havia muito, representava a fonte dominante de divisas.

À vista da conjunção destes factores, o Estado, a fim de asseverar as incontornáveis e férteis importações – além dos créditos dos organismos internacionais –, fazia tudo para monopolizar as moedas dos países preponderantes – repatriadas pela diáspora – que os bancos detinham, jungindo os portugueses que aspiravam sair do país, fosse qual fosse o intuito, a drásticas restrições.

Os contrabandistas recolhiam o grosso dos fundos nas lojas que fervilhavam em algumas vilas da margem portuguesa do rio Minho – entre São Gregório e Caminha – nas quais muitos turistas espanhóis se desfaziam das tão aneladas pesetas quotidianamente. Valença, nesse campo, excelia.

Estes mercadores, além do provento da venda, ainda lucravam com o câmbio. Quando os nossos vizinhos faziam compras nas suas lojas, liquidavam com pesetas; cupidamente, os lojistas menosprezavam o seu valor oficial e convertiam o importe das aquisições em sua vantagem, aumentando o valor oficial do escudo em relação à moeda espanhola; granjeavam, deste modo, mais pesetas. Quando as vendiam aos contrabandistas ou a quem tivesse de se distanciar da raia – onde o escudo não era aceite – faziam exactamente o cálculo inverso: desvalorizavam a peseta para obterem mais escudos.

Inevitavelmente, o mercado negro eclodiu. Muitos emigrantes, em vez de trocarem as economias nos bancos, vendiam-nas a alguns particulares que tinham vestido o capote de agiotas e, obviamente, lhes ofereciam melhores condições.

O Manolo findou o cômputo. A importância, como sempre, estava correcta, mas, como diz o refrão, «as boas contas fazem os bons amigos». Ergueu-se e foi à loja. Refluiu com três grandes envelopes. Tirou um papel do bolso das calças, desdobrou-o e pô-lo por cima da mesa. Nele estava orçado e apontado o quinhão relativo a cada um: a sua alíquota – que englobava o dinheiro avançado para pagar aos carregadores as duas últimas transferências –, a do Zeca, a dos guardas civis e a dos fornecedores. Recheou os três invólucros de molhos de notas, depositou-os com o dinheiro remanescente nas caixas e fechou-as à chave no baixo do armário castanho que mobilava a cozinha. O espectro e a obsessão, que havia quase duas semanas o minavam, seriam sub-rogados pelo contentamento, pela consolação e a afoiteza de que tanto carecia.

Afastou a cortina que o cortava do bar e foi encostar-se à máquina de café, diante do Nelo e do Zeca. Estes, como estipulava o protocolo, aguardavam que ele revisasse e homologasse a respeitável cifra que lhe fora confiada. Saboreavam o segundo botellin – cerveja mini –, dialogando e afinando em voz baixa, os detalhes do traslado que, enfim, se realizaria naquela noite.

A uma das mesas, quatro dos carregadores invariáveis jogavam à sueca. De pé,  outros dois curtiam o espectáculo. Todos faziam por vir cedo a fim de serem os primeiros a iniciar o trabalho e ter, dessa forma, a probabilidade de efectuar mais viagens do que os outros.

O Zeca procurava de modo incessante mobilizar o maior número de homens que podia. Para os contrabandistas, um número superior de elementos era vantajoso: pelo mesmo preço, a mercadoria mudava de terra com maior rapidez, sendo menor a ameaça de uma emboscada. Em contrapartida, para os carregadores, a ganância diminuía significativamente, visto consumarem menos viagens.

Para escambar de país cinco toneladas de bananas, a equipa usual compunha-se de cerca de doze indivíduos, não resistindo alguns a dez viagens. O Zeca percorrera os lugares dos Casais, São Gregório, Cristóval e Paços para recrutar uma enxurrada de carregadores, já que para as dez toneladas daquela noite era capital o dobro de homens.

As rodadas de cervejas sucediam-se a bom ritmo. Os portadores eram, em maioria, bebedores eméritos, de tal modo que não apreendiam como, certos dias, efectivavam a dezena ou a dúzia de viagens. O Manolo bem intentava moderá-los, mas as tentativas revelavam-se infrutíferas. Um deles, o Lapa, que bebia somente aguardente, de manhã à noite, era o mais impressionante. Pequeno, escanifrado, cambaleava, mas, quando se aproximava a hora, confirmava, sem hesitar, que a ilusão é bem uma caricatura da realidade. Com sarcasmo, dizia que era o peso do frete que o mantinha firme.

O que ganhavam em poucas horas dilapidavam-no em bebidas e sandes durante os dias que precediam a próxima noite de carradas.

Os outros, mais aforradores e comedidos, acercavam-se pouco antes da hora concertada. Dois dos que carregavam regularmente tinham completado os estudos secundários. Filhos de famílias humildes, a enxada, como aos outros, consolidara os bíceps braquiais, enrijecido o dorso, a resistência. Na impossibilidade de conseguirem um emprego na região – e dificilmente fora –, tinham de sujeitar-se àquele expediente desgastante e perigoso para usufruir de uma indepêndência minimal.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 28

melgaçodomonteàribeira, 27.02.21

Retribuídos à unidade, cada homem tentava suportar o maior número de caixas. A cada viagem, a carga era de quatro, ou seja, pouco menos de cinquenta quilos. Alguns, desalentados, sustinham um fardo de cinco caixas durante as duas excursões iniciais. Submetiam-se a um desempenho titânico que os obrigava a singrar de noite por uma caleja e caminhos medonhos, cravejados de múltiplos perigos. Vergados pelo peso, restringidos pela reduzida largura dos carreiros, saltando muretes e com os olhos no chão – apenas discernível – para esquivarem qualquer tropeço no solo irregular, percorriam mais de seiscentos metros, ida e volta; o que perfazia perto de seis quilómetros, dos quais metade com uma carga de perto de cinquenta quilos às costas!  Dois ou três, os mais atléticos, desafiavam os limites completando uma dúzia de viagens.

Havia manhãs que, na subida da encosta, se viam bananas no chão. Contra o fim, um ou outro carregador, já esgotado, deixava cair uma caixa; por muita que fosse a sua solicitude, a escuridão não lhe consentia recuperar a plenitude do carregamento. As perdas eram fracas, comparativamente aos frutuosos ganhos resultantes do tráfico.

Estas caixas estropiadas, e mais uma ou duas cargas, eram outorgadas aos guardas portugueses e galegos com regularidade para provarem a conscienciosidade da obrigação de que estavam providos. Do lado galego eram adjudicadas por uma côdea pelo gerente do economato – espécie de cooperativa – do Pueblado, em Puente Barjas, regalia do pessoal da FENOSA que velava pelo bom andamento da barragem.

O Nelo e o Zeca traspassavam o regato a diário repetidas vezes, tanto por razões profissionais como para comprar algo ou, simplesmente, para desfrutar de um breve lapso de inadvertência junto dos amigos galegos. Consumiam os dias por ambos flancos do Trancoso. Viviam no limiar de dois mundos que julgavam propriedade deles.

Às vezes, falavam, não sem um grão de escárnio, da percepção e do receio que os forasteiros tinham da fronteira.

Devido à delimitação, coexistiam, irrefutavelmente, numa área neutra que lhes era intrínseca. O Trancoso, muito mais permeável que o Minho, apesar de fixar uma demarcação territorial, não refreava o trânsito de pessoas, de veniaga nem a materialização das ideologias, das sensibilidades e da comunhão entre povos que, apesar de fendidos, conservavam – além de bens – raízes entrelaçadas de ambas partes da arraia.

Uns minutos depois das dezassete espanolas, quando o Nelo entrou na loja, o Manolo e a mulher atendiam dois casais de visitantes portugueses. Uma parte do balcão estava repleta de caixas de doces, de latas de conservas, de especiarias e de pastas de chocolate.

O ar descontraído e lépido que o seu rosto espelhava, aprazeu logo ao dono da loja e especialmente à mulher, vítima colateral das suas noites de insónia e de pesadelos.

Na mão direita, trazia um saco plástico esverdeado. Discretamente, trocaram um olhar entendedor.

Os clientes presentes reconsideravam no que ainda tencionavam escolher, passeando vagarosamente o olhar cintilante pelas estantes metálicas. O Nelo julgou o momento tempestivo para abordar o patrão da loja.

— Manolo, posso-te deixar este saquito que é para a Marisa da estação? Disse-me que, se tivesse tempo, ainda o vinha buscar hoje, senão, amanhã de manhã. Não te importas de me fazer o favor ? – indagou inocentemente.

— De modo nenhum, homem. Não é favor nenhum – saiu de trás do balcão e pegou-lhe no saco.

Era o cenário consignado para quando estavam perante desconhecidos. Deixou a esposa ocupar-se dos turistas e encaminhou-se para a cozinha, contígua, com o precioso saco.

A loja nunca fora o seu hobby. Aturar gente que não tinha qualquer ideia do que queria, que ignorava o que lhe fazia falta, que gastava compulsivamente para edulcorar o frenesim, era um verdadeiro suplício para ele. A mulher já lhe chamara a atenção, observando que estavam ali para vender e, quanto mais, melhor.

Apartou a cortina que separava a cozinha do bar e informou a empregada:

— Rosa, se alguém me quer ver, não estou disponível.

— Está bem, Manolo.

Para a Rosa, estas palvras eram sinal de petate.

Instalou-se diante da pequena mesa da cozinha. Do interior do saco plástico, exumou duas caixas de sapatos. Livrou-as dos sólidos elásticos que retinham as tampas e abriu-as. Os seus olhos brilharam de regosijo ao contemplar o tão ambicionado recheio: maços compactos de notas de mil pesetas, o montante das duas derradeiras, operações ou seja, dez toneladas de bananas que já enfeitavam os mostruários de muitas frutarias portuguesas! Perfeitamente colocados, os maços acaparavam a superfície global das caixas, como se tivessem sido feitas à medida das notas de mil.

Entusiasmado, ficou estático uns segundos, encarando o dinheiro, como o sequioso que, por fim, desmascara a gota de água que o vai hidratar. A reacção foi imediata, apoderando-se dele uma agradável sensação de serenidade. Sacudiu a cabeça energicamente, como quem quer alijar-se de vez das arduidades que até ali o importunaram, e suspirou vigorosamente. Era outro homem. Impregnou o indicador direito numa esponja humidificada com água, e, escrupolosamente, empreendeu a contagem.

Havia raras niquices, como esta, em que se verificavam uns atrasos passageiros de maior ou menor amplidão nos emolumentos, mas para o Manolo era sempre um calvário.

Os mais ofensivos e acérrimos, além dos mais glutões, eram, incontestavelmente, os guardas civis do posto de Puente Barjas, que inspeccionavam o Trancoso. À mais pequena demora nas gratificações, rosnavam e até espavoriam audaciosamente o Manolo. O que, em parte, lhe simplificava grandemente a tarefa era o facto de o grossista de frutas viguês, que fornia a banana, ser possessão de dois primos da sua esposa.

 

Continua.

 

 

 

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foto: rui manuel fonseca/global imagens

 

“SINTO-ME UM CONTRABANDISTA”. MÉDICO ESPANHOL ATRAVESSA

FRONTEIRA CLANDESTINA PARA IR TRABALHAR

 

Ana Peixoto Fernandes

 

NAPOLEÓN SANCHEZ, MÉDICO CIRURGIÃO, RESIDENTE EM CELANOVA, NA GALIZA, A 40 QUILÓMETROS DA FRONTEIRA COM PORTUGAL, ATRAVESSA A PÉ, DE FORMA CLANDESTINA, TODOS OS DIAS DE MANHÃ, UMA PEQUENA PASSAGEM SOBRE O RIO TRANCOSO PARA IR TRABALHAR EM MELGAÇO.

 

Com a fronteira principal de S. Gregório-Ponte Barxas encerrada devido à pandemia, a estreita travessia metálica, escondida no meio da vegetação, na aldeia de Cristóval, é uma escapatória para evitar percursos longos. Por ali passavam noutros tempos contrabandistas e gente que ia a salto para França.

Foi “apanhado” pelo JN quando regressava a Espanha, pela velha ponte “dos moinhos do Araújo”. Trazia na mão um saco de pão comprado em Melgaço, como é hábito de muitos galegos. E assumiu, descontraído, que arrisca pelos trilhos do contrabando para poupar “uma hora e meia a mais de percurso”. “Venho todos os dias às seis da manhã, desde que fecharam a fronteira. Trago um carro até aqui, atravesso e tenho outro carro do outro lado”, descreve quem se diz sentir “praticamente um contrabandista”. “Voltamos à época antiga”, lamenta.

O médico, que trabalha há 20 anos em Melgaço, considera “ilógico” ter de fazer o percurso de Celanova até à ponte Tui-Valença para atravessar pelo único ponto autorizado de passagem 24 horas. “São mais 60 a 80 quilómetros. Trabalho (de tarde) em Espanha. Tenho de saltar a fronteira”, justifica. “Nós trabalhadores transfronteiriços, não fazemos nenhuma ilegalidade. Em teoria pode haver consequências, mas o que é que vamos fazer?”

Quem também não teme passar “a salto” é o presidente da junta de Cristóval, David Barbeitos, que critica o encerramento da primeira fronteira no extremo Norte de Portugal. “Aqui as pessoas passam a pé e eu próprio as levo ao sítio onde podem passar. Há muita gente que tem de passar para trabalhar”.

“Que abram a fronteira de S. Gregório-Ponte Barxas. Deixem-nos transitar. Parece que temos aqui um muro de Berlim”, acrescentou David Barbeitos.

 

Jornal de Notícias

23/02/2021

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 13

melgaçodomonteàribeira, 01.08.20

 

Em geral, os problemas eram esparsos. A maioria dos próximos integrara a sua tendência inesperada, a sua cegueira e sabia diferenciar os bons dos maus auspícios. 

Depois de casado, e com quatro filhos, manteve-se com os pais numa casa de aspecto andrajoso, a quatrocentos metros, em linha recta, da Frieira da orla esquerda do Minho, até estes falecerem. A taberna que os pais tinham explorado no rés-do-chão – a única que havia entre a Notária e o rio – foi o que deu à família as precípuas perras – dinheiro – para adquirir o que não arrancavam dos campos. Com o que nestes recoltavam, a agnação subsistiu com entraves, mas suplantou o pauperismo generalizado, e a descendência amadureceu jovialmente.

Uns meses antes do falecimento da sogra – o sogro e os pais já os tinham deixado –, a vida sorriu-lhe. Os anos sessenta tinham dado os primeiros passos. A construção da barragem materializava-se.

As gigantescas degradações materiais e as inumeráveis perdas humanas da Segunda Grande Guerra tinham desencadeado grandes vagas de emigração dos países circunvizinhos mais carecidos, entre os quais Portugal. Esta emigração era vista com permissividade pelo governo salazarista pois enviava umas divisas indispensáveis que remediavam a inópia florescente da camada mais carecida. A eclosão da guerra no ultramar em 1961 – daí em diante, e até aos quarenta e cinco anos, todo homem necessitava de uma autorização militar para sair do país legalmente – deu um impulso ciclópico à emigração portuguesa. Neste fluxo foi muito adolescente.

O Manco tinha pouco mais de quarenta anos. Esta conjunção acalorou-o a associar-se com o cunhado, tenente da guarda civil e marido da sua única irmã, que prestava serviço no posto fronteiriço de Irun, País Basco.

Milhares de portugueses, dos quais uns ambicionavam suplementar a carência incurável, outros, desertar a ininteligível guerra do ultramar, e outros, ainda, escapar às duas cominações, acederam aos países que lhes alimentavam a cenestesia da existência de uma vida melhor, livre, trespassando o rio Bidassoa. O seu ténue percurso internacional – uma dezena de quilómetros –, que delimita a Espanha da França, constituía uma balaustrada acessível, confrontado às veredas intrincadas dos respeitáveis e temerários Pirenéus.

Nesses tempos, um número confortável de espanhóis residentes na zona fronteiriça de Irun passavam todos os dias a fronteira para ir trabalhar em território francês. De madrugada, uma enxurrada de operários, de pessoal hoteleiro, de empregadas domésticas e de trabalhadores de sectores diversos desfilavam pela ponte internacional; imperturbáveis, palravam e brandiam, sem parar, o passaporte bem alto diante dos funcionários.

Alguns oficiais subalternos, como o cunhado do Manco, e um sem-fim de inferiores organizaram um sistema mafioso do qual todos beneficiavam chorudamente. Parasitavam a corrida matinal dos trabalhadores, intercalando entre eles os carneiros – nome da gíria contrabandista que designava os candidatos à emigração – transportados pelos intermediários. Era a estes que os passadores da zona do rio Trancoso entregavam os pretendentes à emigração recrutados pelos angariadores. No caso do cunhado do Manco, eram veiculados pela Vicenta, a esposa, mulher desapiedada questão negócios, e dois ajudantes, visto a configuração ser aleatória.

Arvorando a capa de um passaporte espanhol – em seguida recuperada – com meia dúzia de folhas em branco no interior, muitos portugueses atingiram deste modo o solo francês nos dias em que os funcionários hispánicos peitados estavam de serviço.

Mas, como toda comodidade tem o seu custo, os que quisessem gozar desta passagem de primeira classe deviam desembolsar uma soma consequente.                     

Outros, economicamente mais abstémios, afrontavam, de noite, as autoridades e o Bidassoa num barquito que o passador trazia dobrado sob o braço. O calibre do brinquedo, insuflado à beira do rio, quando não havia qualquer percalço, apenas possibilitava o enbarque de cinco pessoas, incluindo o passador. Duas pequenas espátulas de madeira serviam de remos.  

Os emigrantes portugueses apanhados no território espanhol sem carimbo de entrada – os clandestinos – sofriam repercussões tremendas. Escoltados até à fronteira lusa mais perto da sua terra, eram entregues aos agentes da PIDE, a polícia cujos funcionários se encarregavam das fronteiras, da emigração, dos passaportes e de todos os que se opunham ao regime. Infligiam-lhes, automaticamente, uma onerosa punição carceral por saída ilegítima do país e tiranizavam-nos para os fazer escarrar o nome do ou dos passadores e remontar a fileira. Intento árduo pois os membros das redes usavam pseudónimos.

Os postulantes à imigração não desprezavam os perigos imponderáveis a que se expunham, mas os desideratos eram tão pesados que não os esmoreciam. Uma vez na outra margem do Bidassoa, em Hendaye, com ou sem passaporte, eram recebidos com toda a atenção, visto o país estar em plena expansão económica. Os portugueses, homens de braços viris, aclimatados à rudeza, de modo geral ignaros, prestadios e católicos, eram uma bênção.

E, para melhor os proteger da ditadura franquista, não lhes outorgavam permisso de residência nos quatro departamentos que faziam fronteira com Espanha.

A casa do Manco estava num estado de deterioração adiantado. O andar superior, integralmente de madeira – material secular predominante no primeiro andar nas casas galegas por ser mais quente e barato do que a pedra –, putrefazia-se e dissociava-se aos poucos. Só os fundos, justamente edificados com robusto granito, permaneciam direitos e reutilizáveis. Mas a antiguidade não era apenas sua, pois as partilhas ainda não tinham sido feitas com a irmã. Esta, desde que casara, nunca mais regressara à Frieira. Era tempo de construir uma moradia aceitável. Não eram os meios que lhe escasseavam.

Comprou as metades da irmã, ficando com as ruínas da casa e com os dois vastos campos em declive, do outro lado da estrada.

Alugou uma casa no lugar, mandou derrubar a velha habitação, conservando todavia a pedra das paredes do rés-do-chão e construiu outra de grande envergadura. No andar térreo, equipou um salão grandioso para a organização de bailes, jantares de casamentos e de batizados; montou um bar galego típico, um restaurante, a cozinha respectiva e os sanitários adequados a cada uma das funções, fasto supremo naquela época para a localidade. No primeiro andar, alojamentos espaçosos para toda a família.

 

Continua.

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 10

melgaçodomonteàribeira, 20.06.20

 

O posicionamento canalizador acaparado pelo bar e a loja fazia do Manolo o promotor prepotente. Adjudicara-se as praxes, as manias e as comédias das criaturas com as quais convivia e que admirava ternamente. Augurava o que lhes agradava e forcejava-se por responder aos seus ardores antes de os exprimirem. Uma palavra, um gesto ou um olhar bastava para o guiar. Tinha, também, desenvolvido uma clarividência inabitual para detectar o marasmo e as falhas dos habitantes, avivando-os e manuseando-os, depois, com um talento brilhante.

Nesse dia, como nos outros, o Manolo descerrou as portas dos seus comércios depois de ingerir as imutáveis sopas de café com leite. Eram sete e meia passadas.

Andava meditativo, ansioso, pois estava prevista a chegada de mais uma camioneta com cinco toneladas de bananas. Ir-se-iam reunir a outras cinco ainda entravadas na garagem. Portanto, uma incógnita infrangível, para a qual os seus acólitos ainda não tinham solução, perdurava, mas uma vez o processo engrenado, era-lhes inimaginável bloqueá-lo.

Este contrabando de bananas – bastante recente – era extremamente lucrativo e revigorava gradualmente a sua conta bancária e a dos seus comparsas.

Por volta das dez, saiu da loja. Paulatinamente, aproximou-se da estrada e verificou o lado da ponte e o oposto, como o oficial que controla a vanguarda. Com um prazer desmarcado, inalou o ar moderadamente frio e humectante da manhã, no qual discerniu  uma fracção do fumo que algumas chaminés da aldeia evacuavam.

Apesar de a primavera estar perto, a fresquidão teimava em implantar- se de noite. Enquanto os primeiros raios de sol não dissipassem o nevoeiro resultante da insondável massa de água estagnada pela barragem, as manhãs demoravam friascas.

Do outro lado da estrada, vivia a Otília, uma sexagenária avançada, viúva acolhedora, mimoseada por todos e muito picaresca.

Havia muitos anos que o pai, o Laranjeira, um português dos Casais – freguesia de Paços –, casara com uma espanhola e lhe fizera duas filhas e um filho. No rés-do-chão da obsoleta casa, fundara a única padaria existente num raio de dois quilómetros. No forno rudimentar a lenha, começara a cozer, com amor e devoção, um pão saboroso, extraordinário.

Os anos consumiram-se e o homem sucumbiu. Com o tempo, a padaria amodernou-se, mas a receita seguiu sendo a mesma, e o forno, a lenha, perpetuava a cozedura dum apetitoso pão cuja excelência pouco ou nada invejava ao das fornadas iniciais. Os de Cevide e dos Casais, lugar próximo do primeiro, comiam bolas e cacetes galegos. Quando vinham às compras à Frieira, alguns portugueses nunca se esqueciam desse afamado pão pastoril e estranhamente requintado.

Nos dias de hoje, a padaria era gerida por uma filha da irmã – também viúva –  e pelo marido, o Fernando. Diariamente, com a ajuda de um rapaz, tirava mais de trezentos cacetes e cinquenta bolas em cinco fornadas, durante os dias úteis. Ao sábado, labutavam até ao fim da tarde, pois era pão para dois dias. A esposa, numa carrinha 4L, encarregava-se da distribuição pelas aldeias e lugares circundantes.

A Otília vivia com a mãe, acamada havia uns anos. As consequências mentais – subestimadas – das fases delicadas e embaraçosas atravessadas, fizeram dela uma mulher desataviada, crédula e pueril; era o mais seguro e rápido condutor de atoardas.

Tinha os dois filhos arrumados e, questão dinheiro, sentia-se à vontade. Com cerca de sessenta e sete anos de idade, recebia o aluguer da sua parte do forno e duas pensões correctas para o meio: uma por ela e outra pela mãe. Marcada pela abstrusidade, a felonia e a lazeira, era de uma sobriedade estarrecedora. Para ela, o dinheiro contribuía para granjear o estrito necessário e não para saciar prazeres que ela julgava fúteis. 

O Manolo, supostamente apático, avistou o Fernando. Deteve-se a examiná-lo com o zelo do contrabandista. À porta do telheiro – um magistral cangalho –, distante três ou quatro metros da padaria, o jovem escaqueirava ripas de pinheiro meio secas com um machado. De uma ruma, ia recolhendo as compridas e afiladas fasquias que cortava em vários pedaços, mais ou menos símiles, por cima de um mortificado cepo. Amanhava estritamente a porção que aqueceria o forno a madrugada seguinte. Volta e meia, um dos fragmentos decepados era projectado pela lámina amolada do machado e embatia contra o muro da padaria, a casa da Otília.

Havia pouco que esta, com uma ponta de sarcasmo, já fizera notar ao padeiro que podia evitar aquela tarefa quotidianamente. Sacrificando três ou quatro horas uma tarde qualquer, teria lenha mais do que suficiente para toda a semana. O sobrinho, cuja juvenilidade animava a precindir dos seus conselhos, retorquiu que era ele e a mulher que determinavam cientemente a gestão da padaria. Como é óbvio, foi uma resposta que a melindrou e pôs a ruminar.

Habituada a decretar, prezava muito pouco o feitio resmungão e sedicioso do marido da sobrinha. Ingenuamente, espalhara pela povoação a ideia contrafeita de que o jovem não tinha por ela qualquer acatamento. Mas o Fernando era impermeável a estas atitudes disparatadas. A pobre mulher tinha sérios inconvenientes em fazer a distinção entre mando e deferência.

— Trabalha, carambas, não faças de conta, que a Lucita – a mulher do Fernado – não te paga para passares o tempo, seu malandro! – gritou o Manolo ao panificador, deixando estalar uma das suas gargalhadas simbólicas.

O padeiro olhou para ele de soslaio e esboçou um sorriso brincalhão.

— Vê-se bem quem trabalha, gandulo.

E prosseguiu a corveia, desinteressado.

O Manolo deu meia-volta e dirigiu-se novamente para a loja. O seu rosto exuberava de gáudio. Tinha-o na mão. Descobrira matéria maliciosa para o endiabrar e passar uns momentos festivos

Seis dias por semana – isentando o domingo –, entre as dez e as onze, depois de inseridos no forno os cacetes e as bolas finais, limpado a amassadeira e aprontado a lenha, o Fernando e o efebo ajudante iam desjejuar ao bar do Manolo.

Escolhiam dois cacetes da derradeira fornada, ainda tépidos; bem crocante para um, não muito cozido para o outro. Em seguida, a Rosa, segundo a apetência do dia, preparava-lhes com esmero, dois tonificantes bocadillos – sandes – de presunto, sardinhas de conserva, queijo, atum, ou chouriço Revilla. Cupidamente, os dois jovens aspergiam o casse-croûte com cerveja San Miguel fresquinha – três para o Fernando. «A cerveja, alegava quando lhe faziam qualquer reflexão, favorece a expulsão das partículas de farinha absorvidas.»   

 

Continua.