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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O CERCO A MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 23.12.23

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A GUERRA EM MELGAÇO

(…) A grande prova da eficiência dos engenhos de torsão e contrapeso utilizados na guerra de cerco portuguesa dos finais do século XIV, apresenta-a Fernão Lopes ao descrever o cerco de Melgaço, no primeiro trimestre de 1388:

nove dias após o início do assédio, e «tendo jaa os da villa lamçadas lx. pedras de troons, que nam fezerão porem dapno, mandou el-Rey armar huum enjenho açima da ponte da villa. E logo esa quarta feyra lançou cimquo pedras, e tres foram dentro no logar e duas deram no muro. E respomderan-lhe de dentro com doze pedras de troons, que nenhuum dapno fezeram. A quynta feira lançou o enjenho xxv. pedras; das quaees deram xvj. no muro e duas em dous caramanchões que foram logo deribados. E as noue cahiram dentro na villa, que fezeram gram perda em cassas que deribarão».

O cerco de Melgaço terminaria com a rendição da praça aos 53.º dia, e o balanço da artilharia utilizada não podia ser mais expressivo:

«(…) temdo lançadas da villa de dentro ao arayal cento e xx. pedras de troons, que nenhuum nojo fezeraão, e do arayal a villa trezemtos e xxxvj., que danaram gram parte della».

 p. 354

(…)

Um caso de alguma maneira aparentado – porque oriundo da mesma matriz supersticiosa e mágico-protectora – é descrito por Fernão Lopes e tem como cenário a rendição de Melgaço às mãos de D. João I, em Março de 1388. (…), a preitesia acordada com os minhotos previa que os sitiados abandonassem a praça simplesmente em gibão; ora, acrescenta Fernão Lopes que um escudeiro fidalgo de D. Juan I, homem mancebo dos seus 20 anos, veio então pedir ao monarca português que o autorizasse a preservar as suas armas – que eram as primeiras que tinha – ,não pelo respectivo valor, mas «porque me parece que jaa com outras nam poderia aver nenhuum boom aquecimento se estas em tal guyssa perdesse».

 p. 464

 

A GUERRA EM PORTUGAL NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA

João Gouveia Monteiro

Editorial Notícias

1ª Edição

Novembro de 1998

MELGAÇO EM FERNÃO LOPES

melgaçodomonteàribeira, 15.04.23

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Parece que, nesta altura, já a experiência da guerra ensinara os combatentes a fabricar excelentes escadas para assaltar muros. Ao narrar o cerco feito por D. João I a Melgaço, em 1388, Fernão Lopes faz-nos uma notável descrição da estrutura desses aparelhos: diz o cronista que o monarca «mamdou mais fazer duas escallas, que leuaua cada huuma quatro rodas e os eixos de ferro bem grosos, e sobre ellas seis traues altas como esteyos, aconpanhadas doutros paaos pera se manterem, nam todas de huuma altura, segumdo compriam; e em cada huuma duas polles de guymdar, que guymdauão doze cabres grosos de linho canaue, e tres dobaduras detras pera guymdarem e dous gramdes cabrestantes como de naao. E hia cada huma escalla pregada de tauoas grossas sobre quatro paaos, compridos como pontões, em que avya de longo quorenta e oyto colados e em ancho noue, e çimqoenta degraaos de meyos pontões e canyços, e coyros de vaca verdes nos logares homde comprião, pera hirem na bastida cada hum de sua parte».

 

A GUERRA EM PORTUGAL NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA

João Gouveia Monteiro

Editorial Notícias

1ª Edição

Novembro de 1998

p. 348

A GUERRA EM PORTUGAL NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA

melgaçodomonteàribeira, 16.07.22

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A GUERRA EM PORTUGAL

 

O autor da «Crónica dos Sete Reis» (redigida nos inícios do século XV) não viu qualquer inconveniente em integrá-las (as bastidas) na descrição que fez do cerco e tomada de Silves por D. Sancho I (em 1189) ou do cerco de Alcácer do Sal pelos Cruzados (em 1217). É, pois, com naturalidade que reconhecemos a sua presença em várias das operações de cerco de maior envergadura relatadas por Fernão Lopes como tendo tido lugar em Portugal nas últimas décadas de Trezentos; designadamente em Guimarães (no sítio de 1385), em Chaves (no ano seguinte) e em Melgaço (1388). Ao descrever este último assédio, o cronista brinda-nos, aliás, com uma notável descrição do aspecto e envergadura destas impressionantes máquinas de guerra:

«(…) Em esto nam quedauão de deribar madeira e acarretal-la que el-Rey mandaua trazer pera fazer duas escallas e huma bastida, pera mouer todo juntamente e pousar sobre o muro. E como foy laurada, fezeram as rodas do carro pera a bastida; em que auya em grosso per testa em dous palmos, e de roda e roda do carro em ancho treze colados, e em alto, des homde se começaua per çima dos carros, avia treze barças e mea. E em ella avya tres sobrados, pera hirem homeens darmas e beesteiros, juntos ou apartados como vyssem que conpria; o qual sobrado primeiro hya madeirado de pontões bem grossos e estrados de bastos canyços, pera amdarem per cima; e auya derador cemto e xxxvj. Pontões. E a parte de tras ficaua aberta, em que hião escadas dalçapam, per que aviam de subir. Per esta guyssa o segumdo sobrado, que avya derador cemto e xxiiij. Pontões, e o terçeiro cento e xxx., e escadas dalçapaão de huum ao outro. E em çima deste sobrado outro pequeno com cento e xxviij.º meyos pontões derador, em que hiam tres mjl pedras de maão, que mamdaram apanhar aas regateiras; e no segundo sobrado xv. trebolhas gramdes, cheas de vinagre pera deytar ao fogo se lho lançassem. E esta bastida leuaua diante seis gramdes canyços, forados da carqueya, e xxiiij. Coyros de bois verdes, pregados sobre ella por goarda do fogo e dos troons.».

Esta descrição de Fernão Lopes, para além de nos dar uma noção muito exacta da configuração das «bastidas» utilizadas na poliorcética portuguesa dos finais do século XIV, permite-nos também perceber que a utilização destas máquinas de guerra, isto é, a sua aproximação aos muros da praça sitiada, era feita em conjugação com as escadas a que anteriormente nos referimos. Essa abordagem conjunta devia imprimir ao assédio uma tonalidade bastante espectacular; em Melgaço, o monarca mandou até buscar a rainha, para que ela pudesse presenciar o «dia do combato», o qual se desenrolou da seguinte forma: (…) Mamdou el-Rey que abalasse a bastida com os seus corregimentos contra a villa, como tinhaão hordenado; e moueo com força de gente, pero foy bem dezoyto barças; desy moueo huma alla, e depois a outra, e esteueram ambas de fronte do muro arredada huma da outra. E tiraran-lhe sete troons, que lhe não fezeram dapno. Depois moueram outra vez e foy bem rijamente; e chegou-sse tanto a villa que punhaão huum pee no muro dentro e outro na escalla. Sobio muyta companha e o Pryol primeyro que todos; e mandoe el-Rey que tirasem afora. (…) Entam se fez prestes pera mandar combater; e mandou dez homeens darmas e besteiros que sobysem no mais alto sobrado, honde hiam as pedras de maão. E moueo todo juntamente as escalas pera poussar e a bastida em que hião os homens darmas e besteiros. E da bastida sayam homens com grossos paaos que acostauaão ao muro; e poseram muytos deles, e ficauam de fumdo enparados. E pero de çima lhe lançauão pedras gramdes e fogo, nam lhes enpeçia nada. E tirauam de fundo alguns cantos, afora outra pedra, de guyssa que os de dentro entemderam que não avia em eles consselho, posto que trabalhassem por se deffemder. E fezeram-no saber a el-Rey que lhes mamdase falar».

 

A GUERRA EM PORTUGAL NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA

João Gouveia Monteiro

Editorial Notícias

1ª Edição

Novembro 1998

pp. 349, 350