Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO RADICAL

melgaçodomonteàribeira, 06.04.24

mr.jpg

foto: melgaço radical

MELGAÇO DOS DESPORTOS RADICAIS PARA PAIS E FILHOS

Mariana Falcão Santos

Lá em cima, entre a fusão de azul do céu e verde das plantas, distingue-se o caudal do rio Minho. De um lado Espanha e do outro Portugal. Ao fundo, vê-se uma das barragens espanholas que controla o leito do rio e aquele que marca o ponto número 1 das terras lusitanas. É um romantismo, claro que é, mas há uma certa solenidade na ideia de “aquele” ser o ponto número 1, ali começar Portugal. Desde o início do Planalto que a fronteira é feita pelo Trancoso que ali nasce e desce até ao rio Minho (até Cevide, junto a S. Gregório), na freguesia de Cristóval. E é por isso que nos esforçamos para do cimo da montanha apurar a vista e procurar as referências que Paulo Faria nos vai dando. É ali.

Rio abaixo, o caudal do Minho vem servir de pano de fundo para as mais variadas atividades náuticas e parece ter sido feito (depois das devidas alterações pela mão humana) a pensar nos amantes da adrenalina aquática.

O rafting, desporto do qual Melgaço é capital ibérica, deu os seus primeiros passos no início dos anos 90 e foi ganhando cada vez maior popularidade. Atualmente, a oferta de atividades é diversificada mas o rafting, que consiste na descida de rios dentro de um barco insuflável, está no topo da tabela de desportos náuticos mais procurados na zona, junto com a canoagem, o paddle e o canyoning.

Se muitos vêm esta atividade como algo direcionado para adolescentes que gostam da adrenalina, a experiência de Paulo com a Melgaço WhiteWater diz-lhe o contrário. “Somos essencialmente procurados por portugueses, especialmente por famílias com filhos mais novos. Acontece muitas vezes termos miúdos muito felizes com a experiência e pais e mães apavorados de medo”, conta a sorrir.

O truque é, acima de tudo, garantir sempre a segurança e trabalhar com aqueles que percebem do assunto e se sentem como peixe dentro de água, passando a redundância. O rio Minho convida a tudo isto. As condições do rio e a sua classificação baixa tornam as práticas mais seguras e flexíveis, diminuindo o risco e o perigo. Aqui, atividades como o rafting são feitas para todas as idades e gostos, e podem até decorrer à luz das estrelas, numa das três descidas noturnas do rio que a Melgaço WhiteWater organiza anualmente, nos meses de verão.

Em terra, o nosso passeio chegou ao fim na Igreja de Fiães, sítio onde os monges terminavam as suas caminhadas. Na fachada, um tronco oco desgastado pela idade serve de amuleto a quem por ali se casa. O mosteiro já não está lá. Restam as ruínas e a Igreja que ainda hoje serve o povo de Fiães.

Voltamos a colocar os pés em solo de alcatrão com a certeza de que esta é uma experiência que não se esquece.

SAPO 24

24.sapo.pt

918 b Digitalizar0014.jpg

 

UM PASSEIO POR MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 16.03.24

917 b 73-convento-de-fiaes-218.jpg

AQUI AVISTA-SE O PONTO Nº 1 DE PORTUGAL. ATÉ LÁ, VAI SER SEMPRE A SUBIR E DEPOIS SEMPRE A DESCER, MAS O QUE IMPORTA MESMO É O CAMINHO

Mariana Falcão Santos - texto

10 ago 2020

É na capital do rafting que um passeio de UMM pela montanha nos ajuda a perceber melhor o que é que torna a terra mais a norte de Portugal tão especial. Entre caminhos vertiginosos e as paisagens pintadas de verde banhadas pelo Minho, as surpresas que Melgaço tem guardadas não são só para os que têm sangue na guelra.

O convite inicial prometia um passeio de moto4, pelas montanhas da vila de Melgaço. Um contratempo logístico mudou o meio de transporte para um modelo de todo-o-terreno que ficou conhecido nos anos 80, um UMM. À priori, já sabíamos que nos esperava uma viagem por terreno atribulado.

“Não via um destes há anos” foi uma das primeiras frases dita pela nossa equipa. Quem nos ia conduzir montanha acima era Paulo Faria responsável pela Melgaço Whitewater, uma das empresas que se dedica à dinamização de atividades outdoor na zona. Professor na Escola Superior de Desporto e Lazer e formado em Desportos da Natureza, há três anos que se dedica a apresentar as potencialidades da vila a quem tem curiosidade de conhecer.

Esperava-nos um percurso de média montanha e campo, com início no centro histórico de Melgaço. A vila tem uma área envolvente superior a 230 quilómetros quadrados e conta com cerca de 9 mil habitantes. Em anos normais, por esta altura, muitos portugueses, muitos espanhóis – que Espanha é já ali – mas também de outras paragens. Visitantes que ali chegam atraídos por um binómio que casa na perfeição: uma imensa natureza a explorar e um vinho que dá nome à rota da região. Como dirá o nosso guia, Paulo Faria, “vir a Melgaço e não beber Alvarinho é como ir a Roma mas não ver o Papa” – mas isso são outras histórias.

A viagem começou com a promessa de que, passando o cliché, o que veríamos ao chegar ao destino valeria a pena – mesmo que o percurso fosse atribulado. Mas, até chegar ao destino, a história de Melgaço começou a ser contada ainda em estradas de alcatrão. Lá fora, à medida que íamos saindo em direção à periferia da vila, as casas, alinhadas numa disposição pouco orientada, eram maioritariamente constituídas por pedra, e, como em qualquer ambiente rural, havia uma história daquelas que passa de boca em boca que o ajudava a explicar.

Em tempos, ali, em Melgaço, houve um mosteiro, o Mosteiro de Santa Maria de Fiães, onde residiam monges. Os mais antigos da terra contam que o monumento foi destruído por populares que posteriormente utilizaram as pedras do mosteiro para fazer as suas próprias casas. Mas até chegarmos ao local que serviu de casa a muitos devotos, esperava-nos um caminho de terra pela zona montanhosa. Já lá vamos.

Dos dois lados da estrada, vegetação de tons inimagináveis de verde tapa-nos qualquer tipo de visão. Não são precisos muitos minutos para percebermos que neste trilho de média montanha em UMM uma das premissas é acreditar. Acreditar que apesar de uma mata densa que pouco ou nada faz adivinhar haver caminho, ele existe – e se vale a pena!

Ajuda muito ter alguém que conhece as montanhas de Melgaço como a palma da mão. Não é por acaso que Paulo Faria faz o que faz e tem a empresa que tem, mesmo que também haja quem opte por explorar caminhos íngremes e apertados de forma autodidata – o que nem sempre corre bem.

O percurso pode ser feito de três formas: Moto4, Buggy ou UMM, consoante o nível de adrenalina, conforto e autonomia procurado, mas a última opção é a mais confortável na hora de passar entre lençóis de mato que se atravessam pelos caminhos e que apenas são abertos com a perícia de um condutor experiente ao volante de um “bicho” que é dotado para estas missões.

Os trilhos que hoje em dia servem para passeios turísticos foram noutros tempos os sítios mais procurados de passagem de contrabando entre Espanha e Portugal. Ladeados pelo rio Minho, eram os atalhos que atravessavam a montanha. “Há várias povoações, especialmente na zona perto do rio que se formaram devido às trocas entre países e contrabando. Somos uma zona de contrabandistas e não temos problema nenhum em dizê-lo”.

O contrabando é uma marca desta terra, não uma cicatriz. As gentes e os locais fizeram a sua história – e as suas famílias em muitos casos – nessas vidas em que a troca de produtos, então ilegal, de um lado e do outro da fronteira, era parte do dia-a-dia. De Espanha traziam bananas e chocolate, de Portugal havia quem levasse sabão e café. Do cimo de um dos muitos miradouros encontrados pelo caminho conseguimos ver que há alguns percursos alternativos que a vegetação farta não consegue esconder – o que indica que por ali passaram e continuam a passar pessoas entre um lado e outro.

sapo.pt

917 c 1-226B-2.jpg