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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, COLONIZADORES EM 1700 - 1800

melgaçodomonteàribeira, 27.06.20

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OS PRIMEIROS COLONIZADORES PORTUGUESES NO CEARÁ 1700 - 1800

 

Aqueles que se aventuraram na empresa do Ceará eram ao mesmo tempo conquistadores, povoadores e colonizadores. Alguns, aventureiros apenas, mas, a maior parte, indivíduos com uma meta, uma vontade de engrandecer a pátria portuguesa e reviver os heroísmos dos primeiros penetradores do solo brasileiro. Carregavam no sangue a herança dos velhos troncos avoengos, a par de uma fé ardente, tanto no fervor da prática religiosa como na crença de que estavam dando um testemunho de tenacidade e firmeza.

 

ALVES, António Manuel

Nasceu em Melgaço

Casou em Sobral, 1758

Entrelaçou com a família de Pires Chaves

 

MELGAÇO, José Rodrigues

Nasceu em Melgaço

Casou em Amontada

Fixou-se em Uruburetama

Entrelaçou com a família de Pereira de Azevedo

 

PONTES, Gregório Alves

Nasceu em Melgaço

Casou em segundas núpcias em Fortaleza, 1775

Entrelaçou de primeiras núpcias com a família Pires

 

 

Retirado de:

 

OS PRIMEIROS COLONIZADORES PORTUGUESES NO CEARÁ 1700 – 1800

 

http://www.angelfire.com/linux/genealogiacearense/index_povoadores.html

 

 

ENTREVISTA A UM EX-EMIGRANTE DA VILA DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 26.10.13

 

Estacionamento na Avenida da Vila em Agosto



OS EFEITOS DO VAIVÉM DA EMIGRAÇÃO CONTINENTAL:

UM ESTUDO DE CASO EM MELGAÇO

 

Joaquim Filipe Peres de Castro

Universidade Fernando Pessoa

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Porto, 2008

 

O objecto de estudo é a emigração melgacense desde meados do século XX e as diferenças socioculturais entre os melgacenses com experiências emigratórias e os residentes, as quais resultam num conflito agonístico entre ambos os grupos. (…)

 

ENTREVISTA

 

Nome: (…) António (…)

Idade: 63 anos

Género: Masculino

Profissão: Reformado

País (s) de acolhimento: Bélgica, Espanha

 

Inv.: Emigrou para onde?

A: Em 1966 fui para Bruxelas. ‘tive na Bélgica, Barcelona e, nos últimos dez anos, em Paris. Quer que lhe mostre um guia de Barcelona?

Inv: Sim, sim. É, de facto, a melhor cidade para viver…

Inv: Que idade é que tem?

A: 63

(mostra um guia da cidade de Barcelona)

Inv: Emigrou porquê?

A: A vida, aqui, continuava igual, fui para a tropa em Janeiro de 63, fui para a Guiné. Três anos, vinte e cinco meses, depois, vim para cá. E isto ainda continuava na mesma, o Salazar ainda ‘tava no posto dele. E ‘tive uma oportunidade de ir para a Bélgica. E aproveitei. Fui para lá.

Inv: E a guerra colonial não o influenciou em nada, até porque esteve lá?

A: ‘Tive na Guiné vinte e cinco meses, em 63 e foi o pior. A guerra ‘tava no auge.

Inv: E o regime fascista também o influenciou a emigrar?

A: Ah, também, aqui, no concelho de Melgaço não tinham muita força, não havia muita PIDE. Eu, não sofri. Mas, moralmente, foi uma das coisas que também. Se o golpe de Estado tivesse sido, logo, que eu vim da Guiné nunca tinha saído do meu país. Eu, nunca tive intenções de sair do meu país, a prova disso é que fui à tropa. E tive 37 meses de tropa. Mas, depois de vir, vi que isto continuava igual. E disse: “isto, aqui, não, continuava tudo igual.”

Inv: E porque não foi para as ex-colónias?

A: ‘Tava farto, de colónias ‘tava eu farto, aqui, foi tremendo, as condições em que se vivia eram tremendas. Então, houve uma oportunidade por intermédio do meu padrinho, o João do Hilário, eu, eu trabalhava na agência. Tive um ano sabático, de 65 a 66, tinha lá um grande amigo que tenho ainda, ainda ‘tá lá, em Bruxelas, na Grand Place, em Bruxelas.

Inv: E como imaginava a Bélgica?

A: A primeira vez que cheguei lá, não tinha nem ideia, era outro mundo, falando socialmente, democraticamente…

Inv: A língua?

A: A língua era mais o francês, flamengo também aprendi algumas palavras, para poder trabalhar. Depois, aprendi a falar francês, trabalhava no grande restaurante, lindíssimo, D. Manuel, em Bruxelas, depois inscrevi-me num curso, um ano e tal, para poder trabalhar na Hotelaria. Lá aprendi a trabalhar, lá eram todos profissionais. Havia, havia dois chefes de sala…

Inv: E nunca foi discriminado?

A: Não, nunca, em nenhum sitio.

Inv: E a integração no trabalho foi difícil, foi fácil?

A: Não, porque eu fui para pessoal amigo, tratavam-me como se fosse uma pessoa da casa, um familiar. E colegas, havia espanhóis, belgas, italianos, marroquinos, aquilo era uma babel. E, então, nunca me senti descriminado. Em Barcelona ainda menos. Em Paris não, não. ‘Tive a trabalhar numa grande empresa, na Alcatel, dez anos, de 86 até há quatro anos porque me propuseram a pré-reforma.

Inv: E, aqui, nunca foi descriminado por ser emigrante?

A: A mim não, nunca ninguém se atreveu, mas, eu, ouvia cá essas histórias. Isso é uma estupidez. Emigrantes há, em todo o lado.

Inv: E por que é que acha que os daqui picavam os emigrantes?

A: Há várias explicações. Duas ou três explicações. Em primeiro, quando saímos daqui não tinham…

Inv: Até porque os residentes e os emigrantes separavam-se, havia um café dos emigrantes ou que era frequentado quase só por residentes.

A: Sim, havia. Mas, eu, não, eu, tinha aqui amigos. Oh, Joaquim, essa gente, em primeiro, o dinheiro subiu-lhes à cabeça, vinham para aqui nos anos 60, vinham para os cafés, aqui, nunca tinham tido isto, foram para França e o dinheiro a entrar em força, claro, trabalhavam como negros, em condições infra humanas eu, fui visitar o famoso bidonville de Champigny com o meu primo, Zé Pessoa. Eu, tinha férias e fomos a Paris, íamos visitar os amigos de cá, e aquilo era… barracas e contentores, alguns eram mesmo no chantier, em condições infra humanas mesmo. Aqui, começaram a ter uma certa rejeição, uma certa crítica, nem todos faziam isso, mas muitos vinham com os bolsos cheios de dinheiro, não serviam a cerveja a copo nem nada, era logo muitas garrafas de cerveja: “ponha aqui”. Era aquela prepotência que, eu, e amigos meus, nunca fomos assim.

Inv: Eram mais os do monte?

A: Sim, essa malta nova, os daqui também faziam isso, mas era menos, à parte de um ou outro que saía fora da norma. E a aversão talvez venha um pouco daí. Aquelas críticas, era um pouco isso. Depois, era o nível cultural. Eu, dizia, nem todos fazem assim, aqueles que tem esse comportamento, põe-se de parte e acabou. És tu que escolhes os teus amigos e as tuas relações.

Inv: Mas, havia isso…

A: Havia, havia uma certa rejeição, mas era mais por isso, alguns, uma quantidade deles, vá, vinham com aquela prepotência, traziam uma quantidade de dinheiro. O dinheiro que muitas vezes é um problema. Eu, uma vez ou duas ‘tive que meter os pontos nos is a um ou dois. E foi um nunca mais. Não ‘tive problemas nenhuns. Via que, eu, não era, não tinham nada a dizer. Digo as coisas, na medida do possível, o mais correctamente possível e nunca aconteceu nada.

Inv: E nunca sentiu, aquela coisa da ambiguidade: em França, somos portugueses e,  aqui, somos franceses.

A: Não, nunca senti, Portugal era a minha terra, ia a Lisboa, ao Porto, ouvia certos comentários, mas, prontos, eram só comentários.

Inv: Mas, acha, que os daqui tinham razões para dizer que todos os emigrantes eram uns convencidos e arrogantes?

A: Alguns sim, algumas coisas sim, justificavam-se porque eles… Essas pessoas fazerem essas coisas, eu, culpo um pouco a ignorância e a falta de escolaridade dessas pessoas. A maioria é tudo analfabetos, eu, e muitos amigos de cá só tínhamos a 4ª classe. Eu, fiz o curso de noite na escola comercial do Porto, não acabei, não tirei o diploma, pois, fui para a tropa. Aqui, andei na escola de agricultura com o… Uma das razões que tinham essas pessoas, eu, não diria ódio, ódio é uma palavra muito forte, mas aquela aversão, inveja?, alguns também seria por inveja. Mas, os daqui da vila, com a 4ª classe, não pudemos ir estudar para baixo, pagar um quarto, os estudos nessa época eram muito caros. Hoje, é diferente, eu, tenho três filhos e ‘tão todos licenciados, o meu filho é economista, trabalha no…, a minha filha é de relações internacionais. E olha que pouco gastei com eles, eu vivia nas aforas de Paris, tinha casa. O governo, lá, em França, ajuda mais… E a Becas (Bolsas) que têm, ajudam. E até tinha duas bolsas, uma a nível nacional e outra regional. E não era pouco, para eles…

Inv: Eu sou de privadas… E adquiriu formas de estar e de viver, nos sítios onde esteve?

A: Adaptei-me sempre nos sítios para onde ia, mas cuidado, sem perder a minha identidade de português.

Inv: Mas, quais é que adquiriu?

A: Hoje, tenho a dupla nacionalidade, a portuguesa e a espanhola. Tenho passaporte espanhol, desde 73 ou 74, um ano depois de casar. Jurei a constituição espanhola… Fui para Paris como espanhol, ajudou. Tenho a segurança social, tenho os direitos todos, os meus filhos têm os direitos todos. Cobro uma pensão de viuvez, aqui, não há, em França também não. Foi o Filipe Gonzalez que fez isso, foi a primeira vez que, eu, votei. Nós, aqui, é que não há maneira. Basta ir, aqui, ao Porrinho (concelho vizinho da Galiza) e ver aquela indústria, aqui, tão perto. Eu, tenho também um certo carinho por Espanha.

Inv: E França?

A: Também, mas mais Bruxelas, é uma alegria ir ver as ruazinhas do centro, é lá que têm o restaurante. Há uns dias fizeram uma reportagem a partir de lá. Passaram muitas personalidades, políticos, actores, olha, um Simões, o Eusébio, o Torres, o Coluna, falei com essa malta toda. Falei com o Pelé como estou a falar agora. A Amália Rodrigues que foi duas vezes ao Olímpia ao Casino de Paris. Paris é um espectáculo. Eu, agora, é que, eu, conheço Paris. Eu, vou fazer uma revisão ao hospital, tenho tempo. Já está… Explica-me o que andas a fazer. Depois falamos mais.

 

 

http://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/1060/2/joaquimcastro.pdf