Sábado, 22 de Setembro de 2018

MÃES DO MINHO

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“Mães do Minho”, de rosto sulcado pela ausência de afago, ficaram nas aldeias, no vazio das casas, abraçadas pelo xaile negro da despedida, carregando o árduo amanho da vida.

Eles, os maridos e os filhos, partiram. Levaram como bagagem, a certeza da incerteza de tudo.

“Mães do Minho”, um pelouro de referência humana, testemunho de uma época, de gerações, reflectidas na memória do tempo, que o próprio tempo jamais apagará. Um tempo cinzento, denso, sombrio. Pedaço de história. Um espaço cronológico e social, onde o êxodo migratório e a guerra colonial se situam, como realidade mártir, feita de dor e de saudade. Vivência de um tempo, numa região, em que as dificuldades económicas e a conjuntura política, aliciaram estes homens dignos, mas carentes de dignidade, a descobrir novos mundos.

Mais do que um louvor, uma homenagem. “Mães de Minho”, é um cântico de amor nunca esgotado, a essas Mães, Mulheres Mães, de sorriso adormecido, enquanto ateiam o amor, em cada gesto cálido e nobre, tocado pela aspereza do pão que o diabo amassou.

São estas, as nossas Mães, as “Mães do Minho”, de braços sempre enternecedoramente abertos, à espera do nosso regresso.

Elas serão, eternamente Mães.

 

Às “Mães do Minho”, deixo a minha grata admiração, pela sabedoria, pelo exemplo de intemporalidade espiritual, que nos legaram.

Ao autor, Tino Vale Costa, também eu, na condição de Mãe, abraço-o, por este tamanho sentir…

 

                                                                                  Adelaide Graça

 

 

Mães do Minho

 

Diamantino Vale Costa

 

Edição Câmara Municipal de Melgaço

 

2000

 


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Sábado, 6 de Fevereiro de 2016

FRONTEIRAS A SALTO

 

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primeiros metros dum país, primeiros metros da nossa terra

 

O escritor neo-realista Assis Esperança publicou, em 1963, o romance Fronteiras, cujo título denuncia o tema. Aventura e drama continuavam a misturar-se no forçado exílio para que arrastado o trabalhador do campo e da cidade, maioritariamente compelido a buscar em terra estranha as condições de vida que a pátria não lhe proporcionava. Na Europa, a França, Luxemburgo e Alemanha perfilavam-se como destinos procurados. A emigração clandestina, tentada a salto apesar do forte controle ditatorial salazarista, constituía o recurso de que grande parte se via forçada a servir-se. As redes e caminhos do contrabando ofereciam-se por todo lado. Do litoral ao interior do país, alimentava-os esmagadora procura de trabalho para mão de obra não especializada. No romance de Assis Esperança se confirma que os engajadores não paravam de recrutar «homens da Beira Litoral e do Alto Minho, os de Castro Laboreiro numa percentagem ainda tão razoável que (…) levava a pensar que naquela e, possivelmente noutras regiões serranas apenas acabariam por ficar algumas mulheres, os velhos e as crianças». A obra oferece a surpresa de ser uma mulher, e com alguma escolaridade, a protagonista que vai demandar trabalho além fronteiras.

 

Retirado de:

Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos

Universidade do Porto

 

http://books.google.pt

 


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Sábado, 14 de Novembro de 2015

CASTRO LABOREIRO HOJE III

 Castro Laboreiro, Portelinha - Relato de um ataque lupino  Por: Polen Alua

 

 

Recomeçar no interior

Se a maioria das pessoas foge de Castro Laboreiro por causa do desemprego e do isolamento, Vítor e Diana vieram para cá, há dois anos, em busca de uma vida melhor. Ou, pelo menos, diferente.

Ele é natural de Alcobaça, ela é do Porto e foi na Invicta que se conheceram. “Eu trabalho em azulejaria há 14 anos, mas, nos últimos tempos, o volume de trabalho estava a diminuir bastante”, começa Vítor. Até que conhece Diana, uma técnica de ilustração que nunca conseguiu emprego nem na sua área, nem em nenhuma outra.

Para este casal, é ilusória a ideia de que as oportunidades são um exclusivo das grandes cidades. “Temos a nossa pequena horta” afirma Vítor com orgulho. “E aqui aprendemos com as pessoas da terra a cultivá-la e a colher os frutos desse trabalho”, conclui Diana com entusiasmo.

E ter filhos? Na resposta, multiplicam-se dúvidas e receios. A isso não é alheia a falta de serviços essenciais de saúde nas proximidades. Diana aponta culpas “ao Governo e ao poder local, que lavaram as mãos em relação ao que faz mais falta no interior”. Mas também reconhece que “sem crianças não há evolução, sem evolução não há necessidade de serviços essenciais e sem serviços essenciais não há população”.

 

À beira do fim?

O ciclo vicioso é difícil de ser estancado e está em linha com a tendência dos últimos 20 anos. Castro Laboreiro perdeu mais de mil habitantes nesse período. “Uns porque morreram, outros porque emigraram e já não voltam”, lamenta Elisabete Sousa.

Se o êxodo a que se tem assistido não for travado ou compensado com gente nova, “daqui por vinte anos, os velhos já morreram”. Restarão as casas de granito e os campos abandonados. Depois disso, quem virá para Castro Laboreiro? “Ninguém”.

 

Publicado por:

www.rr.sapo.pt

 


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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2015

CASTRO LABOREIRO HOJE II

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Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

CTT na Junta e escola a 16 quilómetros

Há pouco mais de um ano, Castro Laboreiro quase perdia o posto dos CTT. Em protesto, a população cortou a única estrada que liga a freguesia à sede do concelho. A estação acabou mesmo por fechar, mas os serviços foram transferidos para um balcão na junta de freguesia, que funciona três horas por dia. É lá que se fazem os pagamentos das contas, que se recebem as reformas. Isso e pouco mais.

Crianças, nem vê-las. Elisabete Sousa, funcionária do posto de turismo e Secretária da Junta de Freguesia, explica: “As poucas que temos aqui são obrigadas a ir à escola em Pomares”. Desde o ano 2000 que o Ministério da Educação decidiu que Castro Laboreiro não tinha crianças em número suficiente para frequentar as seis escolas espalhadas pelo extenso território da freguesia.

Francelina é proprietária de um dos restaurantes de Castro Laboreiro e tem duas filhas na escola em Pomares. Todos os dias, sujeitam-se a mais de 30 quilómetros de estrada, entre ida e volta. No Inverno, “a preocupação é muito maior”, diz. É que a neve bloqueia a estrada “e o autocarro não arrisca vir por aí acima para vir buscar as crianças”. A solução? “Ou vai lá o meu marido levá-las de propósito ou, então, não vão às aulas”.

A todos os transtornos, acrescenta-se o cansaço das filhas que “saem de casa muito cedo de manhã e só regressam já noite cerrada”. Ficam, muitas vezes, “tão exaustas que nem conseguem fazer os trabalhos de casa”.

Do jardim-de-infância ao quarto ano de escolaridade, é a Pomares que todos vão parar. De lá, os miúdos migram para Melgaço. Depois, chega a hora da universidade. Adultos para se fixar na terra? “Infelizmente, não”, responde Elisabete, com o sorriso amargo de quem antecipa o definhar da terra que a viu nascer.

Vão resistindo os negócios do turismo e da restauração, o principal cartão-de-visita desta zona que beneficia da envolvente do Parque Nacional Peneda-Gerês, mas que se debate com défices que, não sendo tão prioritários como os serviços essenciais, condicionam o dia-a-dia de quem cá vive ou visita a aldeia.

 

Sem telemóveis nem multibanco

Das três operadoras móveis nacionais, só duas funcionam mais ou menos bem e não em toda a freguesia. E o multibanco “só em Melgaço”, diz Fernando, dono de um hotel que também é restaurante e café. Este empresário de hotelaria diz que o estabelecimento “até nem trabalha mal”, mas “nota-se uma quebra no poder de compra” dos clientes, “que são, sobretudo, os espanhóis e os portugueses que viajam com cada vez menos dinheiro”.

É aqui que a crise entra na conversa. Fernando procura empregados para trabalhar na recepção e no serviço à mesa. “Fala-se tanto de desemprego e eu não encontro ninguém que queira trabalhar. Alguma coisa não bate certo”.

Vítor também entra na conversa. É cliente habitual e amigo do dono do hotel. Sempre que pode, vem de Salvaterra de Magos a Castro Laboreiro. É um amante da fotografia, da beleza natural e dos trilhos para as caminhadas. “Por isso, aqui juntei o útil ao agradável. Pena é que as nossas autoridades não estejam atentas ao potencial inesgotável de Castro Laboreiro”.

Fernando concorda. Diz que o turismo em Portugal está viciado por lugares comuns. “No nosso país, o turismo é todo canalizado para as zonas mais evoluídas, como o Algarve. Nós, os pequenos, acabamos sempre esquecidos”. Ou quase sempre. “Aqui só se lembram de nós quando é para pagar os impostos”, desabafa.

 

(continua)

 

 


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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2015

EMIGRAÇÃO & CONTRABANDO

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A FRONTEIRA COMO DESTINO

 

Melgaço traz consigo as marcas da emigração. O seu lastro prolongar-se-á, certamente, por longos anos. Ficou para perdurar e não há modo de o ignorar. Os nossos avós foram pioneiros na emigração para os países da Europa, designadamente para França. Quando o País acordou para este fado, já os melgacenses trabalhavam, há vários anos, para além dos Pirenéus. Primeiro, os do monte, logo os da ribeira. O êxodo foi de tal ordem que, em poucas décadas, a população concelhia diminuiu para quase metade (55%). Se o censo de 1960 registava 18 211 residentes, estes resumiam-se, no censo de 2001, a 9 996, ou seja, menos 8 215 habitantes em 41 anos. A envergadura do movimento avoluma-se ainda mais se recordarmos que, durante esse período, Melgaço, principalmente no que respeita às freguesias da ribeira, acolheu importantes contingentes de pessoas provenientes de concelhos mais ou menos vizinhos. A maioria veio suprir a carência de mão-de-obra provocada, precisamente, pelo vazio aberto pela emigração. Acorreram, sobretudo, caseiros para viabilizar as “quintas”, mas também “artistas” para a construção civil, comerciantes, empresários, empregados, funcionários… Esta afluência, que diversificou a origem geográfica dos melgacenses, assevera-se, aliás, uma das marcas indirectas da emigração.

Mas a emigração, no nosso concelho, não se distinguiu apenas por ter sido mais precoce e mais intensa do que nos demais. Apresenta outra característica que a individualiza: manifesta-se bastante elevada a proporção de emigrantes que regressam à terra natal, mormente entre aqueles que, mais antigos, pertencem à chamada  “primeira geração”. Terminada a lide no estrangeiro, demandaram as origens. A dimensão deste movimento expressa-se, de forma imediata, no envelhecimento da população, um dos mais pronunciados da Região Norte. O censo de 2001, registava, no concelho de Melgaço, uma relação de três idosos (pessoas com 65 ou mais anos) para cada jovem (até aos 14 anos). O triplo do País, quase o quádruplo da Região Norte! No caso das freguesias da Gave, Castro Laboreiro, Fiães e Cousso, este número ultrapassa os seis idosos por cada jovem! A intensidade da emigração, a saída dos mais jovens, a esperança de vida e a taxa de mortalidade são variáveis que não chegam para explicar a razão por que, em matéria de envelhecimento da população, Melgaço ultrapassa, por exemplo, a maior parte dos concelhos de Trás-os-Montes. A diferença radica, provavelmente, numa maior incidência do regresso, normalmente em idade avançada, dos emigrantes melgacenses. Os resultados de um inquérito aos idosos das freguesias do Alto Mouro, promovido em 2003 no âmbito da Rede Social, ilustram esta realidade: 90% dos homens com mais de sessenta anos foram emigrantes, o que nos dá uma ideia do impacto da emigração e do alcance do regresso. Trata-se de mais uma marca da emigração, a acrescentar a outras, tais como a distorção do ciclo anual de actividades, a efervescência do Verão e a letargia do Inverno, o desequilíbrio da estrutura produtiva, a propensão para o consumo, a renovação da paisagem ou a mudança dos hábitos e dos valores locais.

Para além da emigração, o presente livro contempla, também, o fenómeno do contrabando, outra actividade vinculada à fronteira, que, na sua ambivalência, ora se ergue como obstáculo, ora se oferece como oportunidade. Em Melgaço, o contrabando é uma tradição que remonta a tempos longínquos que nem a memória enxerga. Café, minério, metais preciosos, gado, marisco, electrodomésticos, tabaco, entre outros produtos, sucederam-se na travessia furtiva da fronteira pela mão de pequenas redes informais assentes na família e na vizinhança, mas também de organizações relativamente complexas. Ao contrabando de mercadorias, talvez se deva acrescentar uma outra “passagem clandestina”, a de homens e de mulheres rumo a destinos mais promissores.

A escolha da emigração e do contrabando para tema deste livro não podia ter sido mais pertinente e oportuna. Sintoniza-se, designadamente, com o desígnio local de promover um espaço museológico e de animação dedicado à “memória da fronteira”. Em Melgaço, tem vindo a ressurgir uma auspiciosa actividade cultural, um sobressalto decisivo para a construção da identidade do concelho e para o estímulo da sua vontade criadora. Boa parte da responsabilidade deste impulso anímico cabe às gerações mais jovens, a que pertencem o autor, Joaquim Castro, e o colaborador, Abel Marques. Pulsa-lhes nas veias a história da terra natal. A sua escrita é reflexiva, movida pelo entusiasmo e pela curiosidade, num misto de rigor e inconformismo. Disposição que não lhes tolda, todavia, o olhar, que se quer pautado por uma abordagem de cariz científico. Tiveram, nomeadamente, a sensibilidade de investigar o nosso “legado histórico” privilegiando fontes de ancoragem local: os jornais Notícias de Melgaço e A Voz de Melgaço, o jornalista melgacense N. Rocha e a memória de conterrâneos. Um dos capítulos mais interessantes do livro consiste, aliás, num relato de vida. Sabendo-se que “cada pessoa que morre é uma biblioteca inteira que arde”, urge programar e intensificar esta recolha de testemunhos e de histórias de vida para uma valorização previdente do património local.

Encarando a cultura actual como um rio que corre na “sombra dos dias velozes”, exposto, portanto, à vertigem do esquecimento, esta obra revisita o passado, procurando convocar “a vida intensa de outrora”. Não o faz, porém, com o propósito de uma contemplação saudosa. Procura-se, antes, que a memória concorra para dar corpo ao presente e alma ao futuro. Nesta perspectiva, o estudo é movido por um duplo ímpeto de apego e de inquietação.

Abre o livro com cinco citações, uma, por sinal, do poeta espanhol António Machado. Não resisto a transcrever o poema na íntegra:

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se há de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estrellas en la mar.

Se é certo que “caminhando, não há caminho, o caminho faz-se a andar”, não é mesmo verdade que convém, de vez em quando, olhar para trás para reconsiderar a “senda que nunca mais se há-de voltar a pisar”. Indispensáveis são, ainda, as “estrelas” para nos orientar. Como constata Walter Benjamim “estamos condenados a avançar com os olhos postos no retrovisor”.

São gratas as obras que, como esta, indagam as pegadas e sondam as estrelas do nosso devir colectivo. Ouvir, fotografar, revolver, contar e escrever o concelho de Melgaço, apresentar, sem exageros ou artifícios, a terra, as gentes e a história é, no meu entender, quanto baste para lhe prestar homenagem.

 

                                                                     Albertino Gonçalves

 

 


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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

VIDA DE RICO, MORTE DE POBRE

 

 

   Dinheiro e mais dinheiro. A movimentação de homens, carroças e sacos no armazém de Adolfo Vieira, por detrás do actual Palácio da Justiça de Monção, significava mais uns contos largos a amealhar ao seu já milionário pecúlio. Os negócios, legais ou ilegais, terão feito dele um dos indivíduos da vila. A acreditar nas histórias de amantes, filhos e de alguns que o conheceram, Adolfo não era do género de correr riscos, andar a saltar de um lado para o outro da fronteira. Raramente conduzia a carroça até à pesqueira do rio.

   Não. O contrabandista sempre terá preferido o recanto do seu armazém para gerir a actividade. Ali recebia e pagava. Apenas algumas vezes ia ao Porto, onde mantinha contactos com os bancos.

   Mas Adolfo Vieira era um esbanjador por excelência. Ninguém lhe conhece uma nega a quem lhe pedia emprestado ou dado. O resto era para as mulheres, que o levariam à ruína. Sem fundo de maneio, o contrabandista, então a deixar o negócio, emigrou para Bologne, perto de Paris, França, em finais da década de 50. Lá, trabalhou como recepcionista e foi doméstico em casa de uma família que alugava quartos.

   Voltou a Monção alguns anos mais tarde. Sem dinheiro. Pouco depois sofria uma trombose que o deixava parcialmente paralítico, para morrer em Março de 1970, com 68 anos. Na miséria.

 

(continua)



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ESPAÇO MEMORIA E FRONTEIRA

 

 

UN VIAJE A LA MEMORIA DEL CONTRABANDO

 

Melgaço cuenta con uno de los pocos museos que hay en la península dedicado a esta actividad

 

Marisol Oliva – 24/08/2009

 

El Museo de la Memoria y la Frontera, en la localidad portuguesa de Melgaço, permite al visitante viajar al tiempo em el que la raia era cruzada por miles de personas dedicadas al tráfico ilegal de mercancías. El espacio recoge también la emigración en el régimen salazarista.

‘El contrabando unió durante siglos los pueblos de la frontera y se convertió en una forma de economía que les ayudaba a sobrevivir en zonas aisladas y sin apenas recursos, salvo la emigración’, explica Angelina Esteves, responsable de los servicios culturales de la Cámara de Melgaço, donde desde hace dos años funciona el primer museo de Portugal.

En sus salas se puede hacer un recorrido por la historia de esta actividad en la que café, cobre y tabaco se fueron alternando para ‘ayudar en las economías familiares’. Entre los objetos que se pueden ver se encuentra un uniforme de la Guardia Fiscal portuguesa, la misma que peinaba las sierras del Alto Minho buscando a los que desafiaban los caminos.

El visitante puede escuchar en la sala voces que narran sus proprias historias. El objetivo, según explica Angelina Esteves ‘es hacer un documental en el que los protagonistas cuenten sus recuerdos, tanto de contrabando como emigración’............

 

Retirado do jornal La Region

 

http://www.laregion.es/noticia/100586

 


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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

MAIS OUI

 

Dia de feira em Melgaço

 

 

— Mais oui, d'acord!

— Eh bien sur!

— E a Ivette?

— Ficou furiosa, n'est ce pas, Luis?

— Ah bien sur, nam?

— Porra, então esse filho da p*ta não viu que se ia foder?

Sentado na esplanada do adro da Igreja Matriz, santificada a Santa Maria da Porta padroeira da Vila de Melgaço, assim designada por ali ao lado se situar uma das antigas portas de entrada para a praça fortificada, bem no coração da vila, recordo os versos de Ferlinghetti: Passo os dias á porta do café do Mike...  O relógio na torre da Igreja abala-me os tímpanos com o pooouuummm do ferro a bater no bronze do sino. São três da tarde, á meia-noite será pior. O céu cinzento, um calor abafado e um vendaval de vozes que impõe o silêncio.

— Pero que és mui guuapaa!

— Adonde quedou a nai?

— Foi a buscar o viño.

— Nosotros bamonos a igrexa.

É só uma família galega que passa.

— ...da-se, esse gajo num tem olhos?

— Mira coño, que guapa!

— À tout à l'heure!

— Onde comemos hoje mai?

— Em nossa casa, bien sur, nom...

Brum...brum... um carro, matricula francesa, desce a Rua Direita. Transito só para moradores, diz o sinal. Durante este mês ele também é morador.

— Oi Ilídio, não vai na praça, não?

Cumprimento o primo Manuel, há cinquenta anos no Brasil. Desde 1965 que não vê Melgaço. Mora no Rio, trabalha em pintura sobre azulejo com vários trabalhos oferecidos a instituições melgacenses. Passou com seu trabalho na tv num programa cultural e intercâmbio musical com grandes nomes portugueses e brasileiros. Tem uma página no jornal A Voz de Melgaço, onde dá conta da movimentação de melgacenses e suas iniciativas, principalmente no Rio. É o meu confidente e principal apoio em relação ao Melgaço antigo.

Poouummm, passou meia-hora, ás quatro volta a tocar.

Um amigo senta-se e logo salta a bola, grande remate e... é mais um golo do FC Porto. As cores auis e brancas ganharam a noite passada para a Liga dos Campeões Europeus e o resto é conversa. Quem não é portista é mouro e é bom que hoje não se aproxime.

Ouve-se um solo de trompete; bombos e pratos marcam o ritmo. Uma charanga galega dirige-se para nós. Acabada a musica é hora de molhar a garganta... Não demora a fazerem um circulo e a gaita de foles a gemer uma muiñera. Estão a pagar o vinho que beberam.

— Fernando, traz uma água e uma cerveja.

A água é para mim... Uma figura sobre andas, vestes encarnadas e negras aparece de uma ruela. Para o Padre, que acabara de chegar, ela representa uma feiticeira. Á porta da Igreja debato com o Padre a importância das feiticeiras na medicina da Idade Média argumentando forte com a ajuda de Jules Michelet. Não entramos no Santo Oficio, e ainda bem, senão a minha cotação junto do representante de Cristo na vila, descia para valores negativos e não seria do agrado de minha mãe, que aos 84 anos faz parte do coro da Igreja. Anda cansada, porque Agosto é o mês de casamentos e baptisados e o coro está a ser muito solicitado.

Trabalham 11 meses, são jovens, carros de gama alta, vem para casar na Igreja da sua aldeia... encravada na serra, soalheira e verde, mas onde não serão enterrados. Falam francês com as copines da sua aldeia uma delas irá ser sua mulher.

Foguetes rebentam no ar. Não é na vila, sabe-se lá em que lugar é a festa. Muitos santos padroeiros tem o concelho, todos venerados e festejados. Ou será a festa do reencontro? Será que os Santos nasceram todos no mesmo mês?

Ando uns metros e paro no cimo da Praça da Republica que hoje e sempre será o Terreiro, a praça dos papa-café. Carros e mais carros, Mercedes e BM's com musica a rebentar. Um parou no meio da rua para que o condutor trocasse beijinhos com uma copine sentada na esplanada. A sinfonia de buzinas mistura-se com o som tecno. Atravessar o Terreiro está fora de questão, a confusão é total. Descanso um pouco junto ao Parque na Alameda Inês Negra. Os rouxinóis no escorrega seguem o exemplo dos pais, a lingua francesa é predominante. Falo a um ou outro conhecido, as muletas obrigam a repetir a ladainha da enfermidade. Desisti de dizer o que se passa com o meu pé, agora a resposta é, a praticar desportos radicais. De todos recebo um sorriso, está maluquinho, e votos de melhoras que eu prontamente agradeço. A Assossiação Melgaço Radical já é bem conhecida no meio. As descidas dos rios Minho e Mouro, afluente do Minho que nasce nas nossas serras, slide, rapel, caminhadas, está felizmente em crescendo. Passo pela esplanada da Alameda mas não paro. Descanso junto da estátua de Inês e logo atravesso a porta das muralhas. O Solar do Alvarinho fica para trás, não apetece estar fechado. Todos detestam este calor, não venha por aí uma trovoada que só faz estragos. E se for de escaravana nada se salva.

No adro da Igreja sento-me a matar a sede. Água, na terra do vinho, eu só bebo água. Aparece um amigo, logo outro, o calor diminui e eles saltam da toca. Discute-se a noite, levanto-me e vou para casa. A noite não se discute, vive-se. Depois do jantar, uma volta de carro pela serra de Fiães, para apreciar a panorâmica da vila. O Castelo tudo domina. Melgaço é belo. Um mau encontro a seguir. Um filhote de raposa atravessa a estrada e o choque é inevitável. Fugiu mas não sei se sobriverá, a pancada foi forte. Descemos para a Vila, estacionamento não há mas parece deserta. A noite está fria mas no largo da Câmara o calor é muito. Centenas gritam, saltam e dançam com o som dum grupo galego. De seguida será a vez dum grupo da terra.

Sentamo-nos numa barraca, logo chegou costela assada, broa e vinho tinto. O grupo aumentou, a conversa é de loucos, o sino bate as cinco da manhã.

Vou dormir porque mais logo há festa e eu vou estar sentado na esplanada do adro da Igreja. 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:24
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AS MULHERES DE VIRTUDES

 

 

Ao vento uivante não escapa frincha para entrar e faz redopios dançantes com o fumo de bosta a arder que a urze já acabou há muito! O nevão foi rijo e o comer para os animais não sobeja. Lacrimejante devido ao fumo da lareira onde coze um caldo de farinha e uma folha de couve meia comida pelo gelo, Adelina deita contas à vida.

O Manel está p'ras Franças, esteve na matança e só volta p'ras sementeiras não manda dinheiro há dois meses, dos filhos, do Toino sabe que junta do Nelo já sabe menos. E que falta ela sente naqueles dias passados recolhida no casebre que partilha, pode-se dizer, com as duas vacas da família. Nem uma noticia pelos vizinhos, uma folha escrita que daria ao prior p'ra ler.

Pegou na roca e começou a fiar, uma capa nova que esta já precisa de descanso.

Com a Primavera há que levar o rebenho p'ra branda, onde há pasto e o ar é mais fresco. A mudança não custa que os haveres são poucos.

Mas as preocupações são muitas, de França nem tidas nem achadas, nem o Zé do Ribeiro que trabalha no mesmo cjhantier não sabe nada q'eles se mudaram. Já falara qu'a Ti Zefa dos Poldros e a unica coisa que ela lhe deu foi p'ras dores de barriga cada vez mais fortes:

— Toma duas vezes por dia q'isso passa, são só nervos.

Adelina nota que à sua passagem se sussurra e ai coitadinha... ao fim da missa é assaltada pelo molherio sedento de mexericos.

Tem é qu'ir á bruxa... coitadinha tanto tempo sem notícias... o melhor é ir á bruxa... as terras p'ra trabalhar... á bruxa...

O sono no catre de madeira foi agitado... a bruxa... a bruxa... Levantou-se ainda madrugada, acendeu o lume e foi olhar-se no espelho. E s'ele tiver outra? Comeu uma côdea de pão e pôs-se a caminho da casa da Ti Zefa.

— Entra mulher que parece que viste o demónio!

— Antes visse... Ó Ti Zefa, e s'ele tem outra na França e os filhos num querem dizer?

 — E como queres tu qu'eu saiba mulher de Deus, eu curo males num sou adbinha! Vai á bruxa se queres saber.

Adelina não tarda a saber que há um taxista na vila que a leva direitinha á bruxa mas primeiro há que passar no banco que a bruxa é na Galiza. Com dinheiro na saca vai direita ao Fifi por informação do homem do banco, e convidada a entrar senta-se atrás e diz ao que vai.

— Á bruxa á Galiza?...

— Tenho com que pagar se é esse o problema.

— Não, não, é que é um bocado tarde e já não a encontro em casa, tenho que a procurar...                 

E assim começou uma amena cavaqueira onde Adelina desafiou os seus temores, identificação esperanças e outras coisas que a conversa proporciona. E o Fifi que já tinha levado a mulher do capador da aldeia ao lado da dela e ficou fina...

— Se ficou... quem a viu toda tolhidinha...

— Olhe, senhora Adelina, vamos parar aqui a comer qualquer coisa que já são horas.

Taberna modesta mas de bons cheiros, Fifi sentou Adelina numa mesa do canto mais afastado e foi encomendar o jantar - já sou conhecido! Quando Fifi voltou trazia atrás a empregada com pratos fumegantes.

— Bá a comer todo qu'inda ai mais.

E Fifi atirou-se a um cozido galego como se fora a sua ultima refeição. Adelina de olhos baixos mal tocava na comida apesar dos incentivos do Fifi.

— Coma senhora Adelina, qu'eu inda num trouxe ninguem que num fosse curado p'ra casa.

Meia hora depois Fifi pára o carro na berma da estrada e desaparece por um carreiro coberto por uma latada de uvas. Adelina torce o lenço e reza, funga, pensa nos seus e na vida que a espera se ficar só.Tempo infinito quando Fifi regressa.

— A canalha foi chamá-la, anda a sachar milho, já não demora. Senhora Adelina acalme-se, são só uns minutos.

— Ai senhor Fifi é esta alição que não me larga... apertasse-me o coração...

— Num se aflija, Dona Maruxa aí vem.

Sem uma palavra seguiram em fila até uma poprta que já fora azul, encravada no meio de grossas pedras. Fifi despede-se com um até logo, fico no carro e enquanto elas entram contornou a casa e abriu a porta da adega..

Adelina entrou numa saleta pequena com uma mesa ao centro e duas cadeiras. Num canto um altar com Cristo crucificado, outros santos menores e cartões, cartas e outros papéis. Dona Maruxa sdentando-se e fazendo sinal a Adelina para fazer o mesmo, apontou o altar.

— São Graças recebidas.

E de seguida passou a uma lengalenga, com Sinal da Cruz e outras bençãos. Quando parou, pegou nas mãos de Idalina, benzeu-as e recomeçou a ladainha. Começou a falar, sempre com o olhar longe da visitante a cabeça a rodar e um ar que Adelina nunca tinha visto. E começou a falar... e Adelina ouvia de boca aberta aquela mulher a relatar todos os seus problemas... até os de França.

— Tens alguma coisa contigo que seja dele que me possas deixar?

— Num senhora, só este fio qu'era da mai dele...

— Num serve porque já foi usado por ti, tena que em trazer uma coisa só dele. Mas tem fé em Nosso Senhor que eu vou rezar por ti.

Fifi, com três tigelas no buxo dormitava sentado ao volante quando Adelina chegou. Sentou-se no banco de trás, hirta, olhos lacrimejantes.

— Atão – perguntou Fifi

— Temos que cá voltar.

— E quando, Dona Maruxa, não disse?

— Voltamos amanhã.

Fifi conduz com cautela que as estradas são más e vai divagando sobre isto e aquilo até Dona Maruxa. Que a vai ajudar isso garante ele, e...

— Ela levou-lhe dinheiro?

— Num senhor, até quis deixar o fio q'era da mai do Manel e ela num quis...

— É uma santa mulher... podia estar rica se quisesse...

A viagem continuou até perto da casa de Adelina.

— Ficamos aqui. Canto é?

— Um conto de reis... e amanhã?

— Ás sete que tenho que tratar do gado. Até manhã se Deus quiser.

— Até manhã.

Fifi assobia enquanto desce a estrada da serra em direcção á vila. Um conto, amanhã outro e sem precisar de ter pressa em fazer o telefonema para Dona Maruxa saber os males que atormentam as clientes, pode bem ir beber uma tigela ao Biqueira que o dia está ganho.

Adelina começou a rebuscar a rebuscar a roupa que Manel deixou, era tudo farrapos, até que encontrou o lenço bordado que ela lhe tinha oferecido quando ele a pediu em namoro. Só ele o tocou depois que ela lho metera no bolso da samarra já lá vão tantos anos. Sorriu contente consigo própria, a salvação estava ali. Ainda cantarolava quando foi tratar dio gado. A névoa levantava quando Fifi buzinou. Não foi preciso segunda que Adelina sorridente já afria a porta a seu lado. Os bons dias foram dados com um:

— Sim senhora, o que Dona Maruxa fez num sei mas que está com melhor cara lá isso está.

— Sinto-me melhor sim senhora senhor Fifi, olhe qu'á muito tempo qu'eu num dormia tam bem.

E a viagem decorreu já numa conversa mais aberta de quase vizinhos, nem pararam para matar o bicho. Com o aproximar da fronteira Adelina começou a ficar murcha, as certezas a tornarem-se mais fracas. Quando o carro parou junto ao carreiro, Adelina saltou lesta e dirigiu-se para a porta de Dona Maruxa que se abriu ainda ela não tinha batido.

— Buenas filha mia, anda, anda...

A saleta estava envolta num fumo suave, as velas no altar estavam acesas. Adelina pousou o lenço sobre a mesa mesmo antes que Dona Maruxa falasse. Olheram-se nos olhos e Dona Maruxa benzeu o lenço e começou a ladainha da véspera. Uma corrente de ar sacudiu a chama das velas e Dona Maruxa benzeu Adelina.

— Que o senhor te proteja fillha mia que em breve terás novas do teu homem.

Adelina levantou-se, corada, boca entreaberta, sem conseguir dizer palavra.

— Quando saíres deixa qualquer coisa no vaso á entrada, servirá para quem nada tem.

Á vista de notas de mil pesetas, separou cuidadosamente cinco notas de conto de réis que deixou escapar entre os dedos com um sorriso. O Manel e os rapazes estão bem e logo darão noticias. A viagem de volta foi num instantinho que decorreu, mesmo com a paragem em duas tabernas, uma galega a outra portuguesa para Fifi dar um recado.

Quando se levantou de manhãzinha para começar a tratar do gado Adelina soprava para afastar o ar gelado e cantarolava... e cantarolava ainda quando se enrroscou nas mantas junto ao borralho. Dias passaram... até que a Bia da Micas da mercearia apareceu afogueada – até parece que foges do Demo – e lhe entregou uma carta, uma carta com aqueles selos que ela conhecia tão bem! Abraçou e beijou Bia quase até ao sufoco e largou a correr p'ra casa do padre.

— Senhor Prior... senhor Prior... é carta senhor Prior!

Com os gritos de Adelina o padre Timóteo pousa o breviário e abre a porta da rua:

— Que se passa mulher, estás possessa? que gritaria é esta?

— Carta... carta senhor Prior e do meu Manel, eu sei, eu sei...

— Ora vamos lá ver... é do Manuel sim senhor...

— E que diz ele? os rapazes?

— Deixa-me ler porra, tem paciência que quem escreveu não escreve melhor qu'o Manuel nem os rapazes que tu teimaste que não podiam ir á escola p'ra tratar do gado...

— Que diz ele?

— Olha, estão a trabalhar noutro sitio e eles são os unicos portugueses, os outros são todos algerianos ou marrocans e só agora arranjou quem escrevesse. Já foi pôr o dinheiro que poupou na banca e espera que tu e os animais estejam bem. Os rapazes mandam-te abraços e ainda te vem dar uma mão nas sementeiras. Se demorar a escrever é porque continuam sózinhos no meio dos arabes.

As lágrimas corriam pela face de Idalina que agarrada á mão do padre a enchia de beijos. E por dentro gritava:

— Obrigada Dona Maruxa.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 18:39
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