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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CERCO E CONQUISTA DA PRAÇA DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 15.10.22

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CRONICA DEL REY D. JOAÕ O I

 

CERCA EL REY A VILLA DE MELGAÇO: SUA ENTREGA, E SAHIDA DOS CASTELHANOS

 

Estando el Rey na Cidade do Porto, veio a elle, hum embaixador chamado Ambrosio de Marinis, enviado por Antimoto Adorno, Duque de Genova e dos anciaõs daquella comunidade, per que mandavaõ pedir a el Rey a valia das mercadorias das naos genovezas, que faraõ tomadas no tempo do cerco de Lisboa. Sobre o que el Rey deu boa resposta, sem o remeter aos officiaes da fazenda, como agora se faz; e o que montava nellas, que eraõ sesenta mil dobras de ouro, lhe mandou logo el Rey pagar; com que o embaixador foi mui contente.

Nesse mesmo tempo partio el Rey para Braga, onde fez Cortes sobre cousas do Estado do Reyno, e partio para Melgaço cinco legoas acima de Tuy, e meia legoa do Minho, Villa do Reyno bem cercada, que estava por Castella. El Rey chegou a ella no mez de Janeiro de 1388 com seu campo, em que hiaõ D. Pedro de Castro, o Prior do Hospital, e João Fernandez Pacheco, e outros, que seriaõ por todos mil e quinhentas lanças, e muita gente de pé. Os de dentro, que estavaõ por defensaõ da Villa, eraõ Alvaro Paez de Soto Mayor, e Diogo Preto, e Ximeno, com trezentos homens de armas, e outros tantos homens de pé escudados. El Rey assentou seu arraial, e começou a combater com todo genero de artificios, e engenhos, a que chamavaõ trons, com que atiravaõ grandes pedras; a que tambem os de dentro respondiaõ com outras: e alli ouve muitas escaramuças. E vendo os de dentro tão grande bastida, que el Rey mandou fazer de muitos sobrados, em que hiaõ os bésteiros, a qual se movia por carros, e engenhos, sendo mui alta, e de grande largura, receando que a Villa podesse ser entrada, mandaraõ dizer a Joaõ Fernandez Pacheco lhe fosse falar; e el Rey o mandou: e chegando á barbacaã, e Alvaro Paes ao muro, falaraõ de vagar e não se concertaraõ sobre a entrega da Villa. Nesse dia ouve huma escaramuça mais para ver, que as que até alli eraõ passadas; porque duas molheres bravas, huma do arraial, e outra da Villa, se desafiaraõ, e vieraõ aos cabellos: e por fim venceo a do arraial, como mais costumada a andar na guerra.

Neste meio tempo chegou a Rainha a Monçaõ, tres legoas de Melgaço: vinhaõ com ella o Doctor Joaõ das Regras, Joaõ Affonso de Sanctarem e outros cavaleiros: dahi se veio ao Mosteiro de Feaes, huma legoa de Melgaço. Ao arraial chegou o Conde D. Gonçalo, e Joaõ Rodriguez Pereira; e escaramuçaraõ os do Conde com os da Villa, e foraõ feridos de ambas as partes, e nenhum morto. A aquelle tempo veio recado a el Rey que a Villa de Salvaterra, que lhe deu D. Pedro de Castro, hum tabeliaõ do lugar, e dous homens de armas a deraõ a Payo Sorodea. El Rey mandou logo lá o prior D. Alvaro Gonçalvez com muita gente, mas naõ aproveitaraõ nada: e querendo el Rey mudar o artificio da bastida para proseguir o combate de Melgaço, mandou chamar a Rainha, para que a viesse ver como se entregava. E a huma segunda feira, que eraõ tres dias de Março, despois de comer, mandou el Rey que abalasse a bastida com seus engenhos contra a Villa, e se moveo com grande força de gente, e andou dezoito braças. Após ella moveo huma ala, e despois outra, e estiveraõ ambas arredadas do muro. Despois moveraõ a bastida outra vez, e foi bem: e chegou tanto á Villa, que punhaõ hum pé dentro do muro, e outro na escada; e sobio muita gente do Prior primeiro que todos, e mandou el Rey que se retirassem a fóra. Entaõ se fez prestes para mandar combater, e mandou a dez homens de armas que sobissem no mais alto sobrado, onde hiaõ as pedras de maõ, e moveo tudo juntamente, as escadas, e a bastida, em que hiaõ os homens de armas, e besteiros. Da bastida sahiraõ homens com grossos paos, que acostavaõ ao muro, e punhaõ tantos delles, que ficavaõ emparados os debaixo das pedras, e fogo, que de cima do muro lançavaõ; mas os de baixo lançavaõ muitas pedras aos de dentro, por naõ terem defensaõ, E enfadados os da Villa, mandaraõ outra vez pedir a el Rey lhes mandasse falar; e tornou lá a isso o Prior, naõ querendo el Rey consentir em avença alguma, sendo cousa que aos outros lugares concedia benignamente; mas queria tomalos por força, para se vingar de algumas palavras descorteses, que contra elle tinhaõ dito; e sobre isso ouve altercaçaõ entre el Rey e os seus. Joaõ Rodriguez de Sa, disse a el Rey, que lhe parecia bem fazerlhe partido, pois o cometiaõ; porque, tomandoos por força,, lhe podiaõ matar algum homem, com que fosse anojado. El Rey lhe disse com ira, que quem tivesse medo, naõ entrasse na escala. Eu, senhor, disse Joaõ Rodriguez de Sá, naõ no tenho, se dizeis isso por mim: mas cuido que nunca me conhecestes por tal. Nem eu (disse el Rey) o digo por vós; mas digoo, porque os tenho já por rendidos. A gente miuda, com dezejo de roubar, queriaõ que perseverasse até tomar a Villa por força. Os nobres estavaõ por Joaõ Rodriguez. Em fim el Rey consentio na entrega a partido; e tornou lá o Prior, o qual assentou com elles, despois de muitas razoes, que dessem a Villa, e o Castello, e eles saissem em calsas, e giboes, sem outra cousa. Desta maneira foi dada a Villa de Melgaço, avendo sincoenta e tres dias que estava cercada. Dada a Villa por esta maneira, correo nova polo arraial que todos os cercados aviaõ de sahir, despidos com suas varas nas maõs. Os moços, sem lho alguem mandar, ouvindo aquillo, foraõ colher varas, e cada hum trouxe seu feixe, e pozeraõse á porta da Villa, para, quando os cercados sahissem, lhas meterem nas maõs a cada hum. Nisto, primeiro que todos, sahio hum mancebo pouco mais de vinte annos, e chegou onde el Rey estava: e, posto de joelhos diante delle, disse que elle era hum fidalgo, que viera áquelle lugar per servir a el Rey seu senhor, cujo vassallo era: e por sua desaventura, sendo aquellas as primeiras armas, que tomara para o servir, via que lhe era forçado perdelas, segundo o que com os da Villa sua Alteza tinha tratado, que era a cousa de maior tristeza para elle de quantas lhe poderaõ acontecer, naõ pela perda das armas, que sua valia era pouca, mas porque lhe parecia que já com outras naõ averia nenhum bom acontecimento, se aquellas, que primeiro vestira, as perdesse de tal maneira. Por tanto lhe pedia por mercê lhas mandasse tornar: e quereria Deos que ainda lhe fizesse com ellas tal serviço, salva a honra del Rey seu senhor, e sua lealdade com que as ouvesse delle por bem empregadas. El Rey, em que avia muita humanidade, e cavallaria, vendo a boa indole daquelle mancebo, mandou que suas armas lhe fossem tornadas; e naõ se achando, lhe dessem quaes elle escolhesse: e assi só elle sahio armado. Ao outro dia foraõ lançados todos fóra despidos em calsas, e em giboes: e os moços, naõ entrando aquillo no partido, metiaõlhe a cada hum sua vara na maõ, e elles as tomavaõ; e alguns por graça diziaõ aos que lhas davaõ: Rogote que me dês huma bem direita, e boa. Assi ouve el Rey a Villa, e o castello, de que deu a Alcaidaria a Joaõ Rodriguez de Sá: e partindo com a Rainha, tornou a Monçaõ.

 

CRONICAS DEL REY DOM JOAÕ DE GLORIOSA MEMORIA O I

RODRIGO DA CUNHA

M.DCC.LXXX

 

https://books.google.pt

 

A HEROÍNA DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 03.11.18

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IGNEZ NEGRA

 

E já depois da batalha, estando os nossos cercando ainda a praça de Melgaço, que presenciam os dois exércitos? nada menos do que uma pequenina amostra do combate dos Horacios e Curiacios. Grande arruido soa num dos pontos da muralha. Destaca-se, do lado inimigo, uma intrépida Castelhana; do outro, uma Portugueza valorosa. As mútuas injúrias sibilam de uma para a outra como rajadas de vento; e os punhos, depois de se levantarem como imprecações tremendas, arremessam-se para diante, como se no aéreo espaço cada uma supusesse já despedaçar a contrária. As línguas já não tem mais injúrias para despedir nem os braços mais ameaças. O repto para virem às mãos rompe afinal como supremo anseio. Correm então para o meio do campo. Não são duas mulheres, são duas fúrias. Tem por espectadores, que as excitam, os soldados de ambos os campos; e as duas feras, primeiro com as armas, depois corpo a corpo, enovelam-se aos murros, arrancam mutuamente os cabelos na sua raiva furiosa, até que a inimiga, heróica mas vencida, é forçada a ceder a palma à nossa Ignez Negra, a popular combatente de Melgaço.

E assim, pelo correr dos tempos, sempre que o estrangeiro ocupou o nosso território, viu-se a Mulher Portugueza, aqui, além, reagir como protesto vivo em nome do seu sexo, gentil nas salas, meigo nos lares, mas ainda mais furioso do que o nosso quando o ímpeto de qualquer paixão lhe referve na alma.

 

Retirado de:

Fuul text of A mulher em Portugal

Dom António da Costa

Companhia Nacional Editora

Largo do Conde Barão 50

Lisboa 

1892

 

MELGAÇO E D. JOÃO I

melgaçodomonteàribeira, 15.07.17

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XVI Centenário da Tomada do Castelo de Melgaço

 

 

A CAMPANHA DE D. JOÃO I CONTRA AS FORTALEZAS DA REGIÃO DE ENTRE-DOURO-E-MINHO

 

 

                                                  Por: HUMBERTO BAQUERO MORENO

 ……………..

 

A derradeira campanha de D. João I contra um reduto acastelado de Entre-Douro-e-Minho deu-se em Fevereiro de 1388. Depois duma longa permanência em Braga, desde 11 de Setembro de 1387 até ao termo de Janeiro do ano seguinte, «assaaz afadiguado da guerra», empreendeu o ataque a Melgaço, cujo arraial perdurou até meados de Março do referido ano.

A vila era «cerquada sem arraballde, de bom muro e forte castello». O exército real era formado por mil e quinhentos lanceiros e «muita gemte de pee». A defesa do lugar pertencia a Álvaro Pais de Sotomaior e Diogo Preto Exemeno, acompanhados por trezentos homens de armas e muitos «pioees escudados». As escaramuças iniciais provocaram alguns mortos e feridos. No dia 3 de Março de 1388 foi erguida a bastida para o ataque final. Após um cerco que durou cinquenta e três dias chegou-se a acordo entre ambas as partes. Assentou-se deste modo na entrega do castelo e da vila a D. João I, estabelecendo-se «que todos aviam de sair em gibõees, com senhas varas nas mãos». A alcaidaria do castelo foi entregue a João Rodrigues de Sá, partindo então o rei para Monção, onde se encontrava D. Filipa de Lencastre. Daqui retornaram a Ponte de Lima, encontrando-se nesta vila em 27 de Março desse mesmo ano.

 Numa síntese final temos que as campanhas de D. João I resultaram duma forte organização militar, em que não raro os atacantes dispuseram da colaboração de alguns sitiados favoráveis a causa do recém-eleito monarca. Sublinhe-se a acentuada supremacia das forças leais ao rei português a par duma ausência de auxílio por parte do monarca castelhano, a que se poderá acrescentar a circunstância das populações aderirem com relativa facilidade a causa do fundador da dinastia de Avis. O poderio militar de D. João I associado a uma certa desmoralização das guarnições militares dos castelos ajuda a explicar a feitura de acordos que se traduziam na rendição dos sitiados, situações que aliás se repetiu em todos os casos, após assédios mais ou menos demorados e dependentes do início de negociações.

 

Retirado de:

REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS

Humberto Baquero Moreno

A Campanha de D. João I

pp. 56-57

 

http://www.ler.letras.up.pt

 

ALCAIADARIAS DE MELGAÇO E CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 22.10.16

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Martim Vasques da Cunha, sr do morgado de Táboa, alcaide mor de Lamego (D. Fernando 1410), casado com Violante Lopes Pacheco. Pais de:

 

   Vasco Martins da Cunha, sr das villas de Pinheiro, Angeja, Bemposta e Alcaide mor de Melgaço e Castro Laboreiro nos reinados de D. Pedro I e D. Fernando; foi um dos que se nomearam conselheiros de D. João I e se achou na eleição deste Rei nas Cortes de Coimbra. Casado com Beatriz Lopes de Albergaria.

 

- História e Genealogia -

 

   «Vasco Martins da Cunha, o Velho, bisneto do lendário Martim Vasques da Cunha 7º senhor da honra do julgado da Tábua, 5º senhor da terra de Cunha, confirmado por D. Pedro I em 1357 que também lhe deu Angeja, Pinheiro, Pereira, Bemposta e Castanheira, assim como as alcaiadarias de Melgaço, Castro Laboreiro e Lisboa. Casou 2 vezes (D. Beatriz Lopes e Albergaria e D. Teresa de Albuquerque). 1º filho: Martim Vasques da Cunha, que passou a Castela (conde de Valência de Campos 1397);  2º filho: Estêvão. 3º filho: Vasco Martins da Cunha, o Moço, sobre quem caiu a sucessão, por ausência de Estêvão».

 

Retirado de:

 http://archiver.rootsweb.ancestry.com/th/read/PORTUGAL/2000-10/0973033366