Sábado, 30 de Março de 2019

MELGAÇO NA POESIA POPULAR

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rancho folclórico de paderne

 

 

        

         POESIA POPULAR

 

 

          Não quero amor do monte

          Nem tampouco da ribeira;

          Quero amor de Birtelo

          Por ser terra soalheira.

 

 

          A Cividade dos mouros

          Hei-de mandá-la doirar

          Com pontinhas de alfinetes

          Para o meu amor passear.

 

 

          Adeus vila de Melgaço,

          Feita de pedra morena,

          Que passeia dentro dela

          Quem me a mim dá tanta pena.

 

 

          Sou da terra de Melgaço,

          Meu retiro são os montes

          No dia que te não vejo

          Meus olhos são duas fontes.

 

 

          Ó raparigas do Minho,

          Que fazeis ao que ganhais?

          Trazeis os homens descalços,

          Nem uns sapatos lhes dais!

 

 

          Sou do Minho, sou do Minho,

          Também sou da Minhoteira,

          Sei usar a cortesia

          Como qualquer da ribeira

 

 

          Eu hei-de ir casar a Rouces,

          Que me deram por degredo,

          Terra de muitos ramalhos,

          Onde canta o cuco cedo.

 

 

                               I

 

          Desça o Monte, desça o Monte

          Desça o Monte p’rà Ribeira

          Ouve lá, ó cantador

          Chega-te p’rà minha beira

 

                                II

 

          Desça o Monte, desça o Monte,

          Desça o Monte p’rà Ribeira;

          Apareça o cantador

          Que aqui ‘stá a cantadeira

 

 

          Adeus, Ribeira do Minho,

          Só tu me arrastas paixão,

          Onde tenho os meus amores

          Na raiz do coração.

 

 

          Adeus, fraga da Peneda,

          Adeus, carvalhos tamém,

          Adeus castanheiros verdes,

          Até ao ano que vem!

 

 

          Vou-te dá-la despedida

          Por cima de uma cancela,

          Nunca cuidei de cantar

          Com semelhante t’ramela!

 

 

 

VASCONCELLOS, Leite de – Cancioneiro Popular Português (coordenado e com introdução de Maria Arminda Zaluar Nunes) Ed. Acta Universitatis Conimbrigensis-Universidade de Coimbra. Vol. I (1973), vol. II (1979), vol. III (1983).

 

Retirado de:

 

ACER – Associação Cultural e de Estudos Regionais

 

http://acer-pt.org/vmdacer/index.php?option=com_content&task=view&id=624&Itemid=65

 


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Sábado, 8 de Dezembro de 2018

O RESPONSO DO CONTRABANDISTA

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talha do mestre abel barrenhas igreja de santa maria da porta

 

O CONTRABANDO

O concelho de Melgaço encontra-se situado no extremo Norte de Portugal, entre o rio Minho e o rio Trancoso, que fazem de fronteira natural entre o Minho e a Galiza. A partir de Portelinha começa a demarcação da raia seca. A Sul o concelho fica delimitado pelos concelhos de Arcos de Valdevez e Monção.

Ao longo de toda a fronteira natural, para além de uma alfândega em S. Gregório e de uma delegação em S. Marcos, existiam de ambos os lados vários postos guarnecidos de guardas-fiscais e carabineiros, que tinham por missão fiscalizar a entrada de pessoas e bens. O que dificultava a acção dos prevaricadores da lei das fronteiras, dos chamados «contrabandistas».

O contrabando era uma actividade muito antiga, praticada pelas populações que viviam nas margens do rio Minho, do Trancoso e da raia seca na zona de Castro Laboreiro.

Contrabandear foi a única maneira encontrada pela maioria das gentes do Minho e da Galiza para ganhar uns escudos ou umas pesetas. Era, por assim dizer, a única porta de entrada, e saída, para o exterior, para nós e para eles.

A necessidade e o interesse por esta actividade eram mútuos. Era só praticá-la. Mas pela frente, além do obstáculo natural de atravessar o rio Minho, sobretudo no inverno, havia que ludibriar a vigilância continua dos Guardas-fiscais e dos Carabineiros.

O contrabando tanto ia para lá como vinha para cá, o factor dominante sendo o câmbio entre o escudo e a peseta.

Na zona de Melgaço, em maior ou menor escala, fez-se contrabando de tudo: galinhas, ovos, café, sabão, peças de pano, alfinetes, agulhas, pedras de isqueiro, estanho, volfrâmio, gado, porcos, bacalhau, bananas, azeite, meadas de arame, arados, sulfato, máquinas de sulfatar, etc.

Após a guerra civil 1936/39, a Espanha estava necessitada de tudo. Quase todas as famílias andavam no contrabando, embora sabendo que corriam riscos.

As autoridades de um lado e do outro, lá iam facilitando, embora de vez em quando para tapar os olhos, faziam algumas apreensões. Tinha que ser, não podia passar tudo. Só que às vezes pagava o justo pelo pecador.

Houve muitas pessoas que começaram a contrabandear uns quilos de café e depois chegaram a encher mais que um vagão do comboio só de uma vez.

Para isso, foi necessário construir armazéns próximos da fronteira, comprar camiões, fazer barcos, comprar mulas e até fazer caminhos e estradas para chegar próximo da fronteira.

Recrutavam homens nos cafés e nas tabernas para carregar as cargas de mercadoria, que era transportada ás costas através dos campos e dos montes, saltando valados, corgas e ribeiras, para não serem vistos pelas autoridades.

Em S. Gregório, houve uma sociedade que levava os camiões de café até aos Casais e a Cevide. Depois era só atravessar o rio em barcos e carregar os vagões do comboio do outro lado.

O café era colocado ao pé da linha do comboio, jogo combinado com o chefe da estação da Frieira, que fazia o sinal vermelho e, em poucos minutos, o comboio ficava carregado e seguia o seu destino.

Na zona de Castro Laboreiro, as mulas é que transportavam as cargas do contrabando através dos montes e das serras.

No rio Minho, os pequenos contrabandistas não tinham barcos. Passavam o contrabando em pequenas batelas ou gamelas de madeira muito frágeis, pondo em risco a própria vida. Morreram várias pessoas por afogamento.

 Quando não tinham barco ou batela, em pontos estreitos do rio cordeavam o contrabando em pequenas quantidades.

No rio Trancoso, passava-se o mesmo durante o inverno. Observei várias vezes junto dos moinhos do Recobo, em frente à porta do moinho do «Zé Moreno» e dos herdeiros, as pessoas a cordear cestas de ovos e outros artigos. O galego que trazia a corda para cordear os ovos chamava-se sr. Júlio Reinales. Em criança, lembra-me de ir a casa dele, à Aldeia do Souto, com minha avó Josefina e com Pureza da Marga. Também levei muitas dúzias de ovos. Quando o rio estava bom, passávamos junto ao moinho da tia Joaquina, ou do Alberto. Entretanto, acabou a rambóia dos ovos. O contrabando que durou até à entrada de Portugal na Comunidade Europeia foi o do café e de outros produtos.

Na parte de cima da igreja, houve dois homens que desde sempre fizeram contrabando sozinhos e que depois com homens por conta deles contrabandearam muito café. Chamavam-se eles o Nelo da Ozinga e o Zê Moreno já falecidos. Estes dois homens eram dos mais arrojados para contrabandear. Chegaram a passar o rio Trancoso a tralhão (tudo a eito), como eles diziam. Para fugir aos guardas-fiscais e aos carabineiros levavam o contrabando a Deva, a Trado e onde calhava, para ganhar a vida. Apanharam muitos sustos, suadelas e molhadelas, debaixo da chuva e do frio. Era muito dura a vida de contrabandista.

Cristóval sempre foi um ponto de passagem de contrabando. A Galiza após a guerra civil de Espanha estava carenciada de tudo.

Todos os comerciantes da zona faziam muito negócio com os galegos. Chegava-se a fazer fila indiana pelos carreiros de dia e de noite.

Ainda me lembra de os galegos entrarem para a casa Branca por um portão pequeno que dá acesso para a Corga da Marga. Saíam por ali carregados com cargas de contrabando. Outras vezes desciam as cargas com uma corda para o campo do Corno da tia Maria (Charameca). Faziam tudo para fugir e enganar os guardas-fiscais. Já lá vão mais de 50 anos. Ainda o falecido sr. Manuel Martinho morava lá.

Outro senhor que também vendia e levava contrabando aos galegos era o sr. António (do Orfo), que após ter regressado do Brasil montou uma loja na casa que actualmente pertence ao sr. Armando (Videira). A maioria das pessoas foi pelo mundo à procura da fortuna, este senhor também foi, regressou e veio fazer fortuna na sua terra.

Contou-me muita vez minha avó Joaquina que sr. António (do Ofro), quando regressou do Brasil, ao chegar a S. Gregório, deixou ficar a mala e depois mandou um senhor conhecido (pelo Nacho) buscá-la; quando este chegou ao lugar da Porta, disse: «a mala do sr. António (do Ofro) pesava muito, deve trazer muito dinheiro».

Quando abriram a mala, tiveram uma surpresa: o dinheiro eram pedras. Tinha sido ele que, por malandrice, enchera a mala com pedras.

Naquele tempo os brasileiros tinham a fama de ter muito dinheiro, só que neste caso nem fama nem proveito.

No entanto, com a sua loja fez fortuna na sua terra. É assim a sorte, por vezes está mais perto do que pensamos.

Dizia-me a minha avó muitas vezes: «estás a ver, a ser rico custa muito, mas ser riquíssimo não custa nada, um dinheiro ganha outro».

Muitas vezes tenho pensado nisto, eu era criança, para mim parecia-me um conto de fadas, mas, passados estes anos todos, penso para comigo mesmo: “Como é que uma pessoa que não sabia ler sabia que o dinheiro ganhava dinheiro”. Hoje todos nós sabemos isso, naquele tempo nem todas as pessoas pensavam assim.

Além do contrabando, o sr. António (do Ofro) dedicava-se também ao câmbio de moeda. O senhor a quem ele confiou algumas destas tarefas chamava-se Aniceto Pires, e deslocava-se muito longe a levar e trazer moeda, bem como contrabando.

Ainda fui algumas vezes com ele levar meadas de arame, arados, sulfato e máquinas de sulfatar.

Normalmente, íamos de manhã cedo. Antes de sair, o Niceto rezava os responsos de Santo António. Se não se enganasse a rezar, dizia que tudo ia correr bem, se, por acaso, se enganava dizia que era melhor não ir, que ia correr mal. Se mesmo assim ia trocava constantemente de caminho ou carreiro.

 

Era este responso que ele e muita gente rezavam:

 

Santo António de Lisboa                        E três vezes chamou

Em Lisboa nasceste                                António! António! António!

Em Pádua morreste.                                E  três coisas te pediu,

No púlpito que o Senhor pregou            Que o perdido fosse achado,

Também vós pregaste                             O esquecido lembrado

Indo pelo caminho                                  E o morto ressuscitado.

Perdeste o breviário

Jesus Cristo vo-lo encontrou

                                                   Maria de Jesus Marques – Pousadas

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

             José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 130, 131, 132

 


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Sábado, 5 de Maio de 2018

HOMENAGEM A ÓSCAR MARINHO

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taberna da ti maria do sabino

 

UM FILATELISTA MELGACENSE

 

Boticas, 26 Nov. (Lusa) – Um selo de 100 mil réis de 1853, avaliado em 770 mil euros, é uma das principais atracções da Iberex – XV Exposição Filatélica Luso-Espanhola, patente em Boticas até domingo.

O coleccionador Óscar Marinho começou a juntar selos aos 15 anos e hoje, com 70 anos, mostra com orgulho a sua colecção de selos clássicos portugueses, onde se insere o de 100 réis da época de D. Maria II.

“A minha colecção não tem preço. É impagável” afirmou à Lusa o filatelista de Melgaço.

Dos muitos selos que guarda num lugar que recusa revelar, Óscar Marinho gosta de expor a colecção de selos primitivos, feitos entre 1853 a 1870, os que diz terem sido os primeiros selos portugueses.

“Trata-se de selos em relevo que eram feitos um a um, não há um selo igual a outro e a cada diferença chama-se um cunho”, explicou.

Óscar Marinho começou a coleccionar selos depois de ter tido um acidente em que partiu a clavícula.

“Fui a um endireita, que havia em Melgaço, que coleccionava selos. Para não chorar deu-me uma quantidade de selos e a partir daí não parei”, salientou.

Diz ter adquirido selos em leilões, trocas com colegas e até em feiras no estrangeiro e é também lá fora, em países como França, Itália ou Espanha, que gosta de mostrar as suas “relíquias”.

 

Retirado de:

 

Collectus – Loja de colecções

 

http://coleccionar-collectus.blogspot.com/2007_11_01_archive.html

 

 

GAZETILHA

 

O ESPADA

 

Ao Óscar Marinho

No tribunal de Vimioso:

 

Chegou à nossa Vila, já de noite,

uma coisa mal jeitosa e de cor preta,

que a dar-lhe nome talvez ninguém se afoite,

e chamar-lhe automóvel, isso era peta.

 

O dono, uma pessoa respeitável,

chegou à nossa terra tão vaidoso,

que nem guiando o melhor descapotável

que jamais viu o velho Vimioso.

 

E andou por estas ruas, coisa rara,

roncando como aqui nunca se viu,

essa peça de museu, que talvez cara,

quis ir a Castro um dia e… não subiu.

 

P’ra vir do Vimioso aqui ao Minho,

levou-lhe quinze dias, sempre a andar,

parou algumas vezes no caminho,

porque a bronquite fazia-o sufucar.

 

O Óscar, me contou, com graça, até,

algumas peripécias, do caminho;

andaram mais de seis léguas a pé,

p’ra não cansar o pobre coitadinho.

 

Na ida, sentiu-se a coisa mais cansada,

efeitos da velhice e da distância…

e viu-a toda a gente, então pasmada,

seguir p’ra Vimioso, na ambulância.

 

E chamaram-lhe o «Espada do Doutor»

a esse traste que agora já não anda…

que a mim mais me pareceu ser um tractor

retirado das brragens de Miranda.

 

Os meus mais respeitosos cumprimentos,

a quem me encomendou este sermão.

mas, se por isso vou passar tormentos,

direi de novo que aquilo é um carrão.

 

                                                                                                                      31/7/960

 

POESIA POPULAR

Francisco Augusto Igrejas

Câmara Municipal de Melgaço 6

1989

pp. 81-82

 

Óscar Marinho deixou-nos neste ano de 2018.

Descansa em paz meu amigo.

 

 

 


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Sábado, 9 de Dezembro de 2017

UM PINTOR DO BARRAL

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O PINTOR DO BARRAL

 

Foi uma pessoa bem conhecida pelos trabalhos que deixou em todas as freguesias do nosso concelho.

Seu nome de baptismo era Justino José Gomes, e seu nome popular era o de Pintor do Barral, pela actividade profissional que exercia e pelo lugar de nascimento.

Nasceu em 12 de Dezembro de 1879 e faleceu em 15 de Dezembro de 1965. Casou com Constança da Conceição Afonso, e do casal houve sete filhos: 4 rapazes e 3 raparigas.

Os rapazes cultivaram a profissão do pai: pintor. Dos quatro – Américo, Álvaro, Edmundo e Bento só o último é vivo.

Justino José Gomes era um auto-didacta. Não frequentou nenhum curso. Os filhos aprenderam com o pai.

Justino José Gomes deixou obra em todas as igrejas e capelas do nosso concelho: pinturas e douramentos. Daí lhe veio a designação de Pintor do Barral.

Como outros artistas da nossa terra, Justino José Gomes destacou-se pelas suas qualidades inatas de artista, que cultivou e aprimorou no decorrer do tempo.

A fama deste artista – pintor ultrapassou os limites do Concelho de Melgaço. Chegou à cidade do Porto onde deixou trabalho valioso.

Mário refere o artista nesta efeméride:

«Em 18 de Julho de 1899, foi entronizada na Matriz da nossa Vila a linda imagem do Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem foi encomendada em Braga e adquirida por subscrição pública. O elegante e perfeito altar onde a mesma se acha foi feito há precisamente vinte e cinco anos por um exímio artífice de Riba de Mouro, cujo nome agora me não ocorre, sendo a pintura da autoria do consagrado Mestre sr. Justino Gomes, do Pontilhão».

 

P.e Júlio Apresenta : Mário

P.e Júlio Vaz

Edição: Autor

1996

p. 294

 


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Sábado, 14 de Outubro de 2017

MESTRE MORAIS

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MANUEL RODRIGUES DE MORAIS

 

Conhecido e admirado na nossa terra como «Mestre Morais», Manuel Rodrigues de Morais era um amante da música: aprendeu-a, cultivou-a, amou-a, e deixou discípulos e admiradores.

Nos grandes acontecimentos locais, fossem festivos, fossem lutuosos, estamos a ver a Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, a desfilar garbosa ou em passo cadenciado em marchas fúnebres com que se associava às lágrimas de familiares que choravam os seus, ou dos amigos que sentiam a perda de alguém que estimavam.

Era de porte austero e solene, e sabia ensinar os seus colaboradores musicais.

Mestre Morais deu glória à sua terra e levou o nome de Melgaço a terras longínquas de Portugal.

Manuel Rodrigues de Morais, filho de João Lúcio de Rodrigues de Morais e de Maria Basteiro, nasceu em Golães, Paderne, no ano de 1890.

Até aos 18 anos, frequentou a Casa Maria Pia, em Lisboa, onde aprendeu música e tirou o curso comercial e com essa idade ingressou, voluntário, no Exército, chegando, como músico, ao posto de sargento. Mais tarde foi para a Marinha de Guerra, sendo promovido a 1º sargento.

Quando a marinha homenageou Gago Coutinho e Sacadura Cabral, foi ao Brasil.

Em serviço, esteve, durante alguns anos, em Lourenço Marques e ainda na América do Norte.

Tirou o curso de violino no Conservatório de Música.

Reformou-se e regressou a Melgaço, tendo vivido até à morte no lugar de Bacelos, em Paderne.

Na terra natal, deu à mesma o concurso do seu talento e do seu amor bairrista: refundou, ensaiou, e regeu a Banda dos Bombeiros Voluntários, que tanta glória deu à nossa terra e muito concorreu para a formação musical de verdadeiros artistas.

O resto da vida passou-o na sua casa de Bacelos, onde faleceu a 3 de Maio de 1971, e donde assistiu desgostoso à morte da sua querida Banda, lamentando-se do abandono a que a Direcção dos Bombeiros a votara e, ainda, do desrespeito e da indisciplina de alguns músicos.

 

P.e Júlio Apresenta: Mário

P.e Júlio Vaz

Edição do Autor

1996

pp. 295-296

 


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Sábado, 27 de Maio de 2017

DE AQUÍ NOM PASSAM - RELATO DE UM CASTREJO

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ribeiro de baixo, castro laboreiro

 

                     

A FALA GALEGO-PORTUGUESA

DA BAIXA LIMIA

E CASTRO LABOREIRO

 

Integrado no Projecto para a declaraçom de Património da

Humanidade da Cultura Imaterial Galego-Portuguesa

 

 

I.E.S. AQUIS QUERQUERNIS

BANDE – OURENSE

 

José Manuel Gonçáles Ribeira

 

 

 

OS FUGIDOS

 

Recolha gravada em 07/05/2003

Sexo: Home

Idade: 78 anos

Lugar: Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

   - … e entom estuverom …… numha ocasion um… era eu rapá novinho .. porque as autoridades portuguesas tinham que os prender… tamém… eram mandados polo governo para os arremeter à Espanha. E um que era d’A Ilha botou-se ao rio… niste rio… a fugir-lhe aos portugueses e atravessou o rio e fugiu pró outro lado… um espanhol fugido. I… e bueno… i outros, tú vês acolá aquela carbalheira daquel monte, estuverom ali seis meses numha lapa debaixo de umha fraga, chamámos-lhes nós umha lapa, debaixo dumha fraga, hai ali umha fraga grande e estuverom alí fugidos… Ouuh! E talvez até perto do ano, alí fugidos, claro, eles tinham que comprar a comidinha pra comer, mas tuverom que estar alí para fugir às autoridades, compreendes?... é por eso que che eu digo que aquí passarom (…)… mui mal cando a guerra… e passámo-la nós tamém!!... que era eu pequenotinho havía que, chegado o caso, andar cumhas zoquinhos de pau e correas, de inverno

   - sei, sei como som…

   - o caramba… aquilo… bueno… olha… porque tudo que pudesse passar prá Espanha, ia prá Espanha, claro, tinha uma miséria moito grande porque a guerra durou para aí dous anos

   - dous anos e meio…

   - ou isso…

   - … case três…

   - bueno i… nom havia lá que comer… entóm o milhinho ía para lá, entendes?... o milhinho ía para lá… e aqui nom havia…pronto!... porque ao ir para lá, falhava aqui, compeendes?, aquilo alí foi uma miséria, já che digo, se for, se a gente vai a contare… bom… depois, bom…(………….)e eu… cando prenderom os espanhois prenderon-os alí, e o caminho vem por ali e vinha um caminhinho porque prá baixo e asi aquí nesta voltinha foi onde se juntou o povo…, a capelinha está ali abaixo e tocou-se o sino, tú sabes o que é o sino?... juntou-se aquí e eu tamém tinha um tio que era tamém destes que nom eram, nom tinha medo e assim que ouviu a campana véu para aí para arriba de… Eu tinha uma mãe… e as autoridades espanholas aqui!... (…) e pararon aquí nesta voltinha,… eu tinha uma mãe que se pôs à frente das autoridades espanholas e dixo “de aquí nom passam!”… e eles côas espingardas: “que a mato!” mas é que eles nom podiam disparar para os portugueses… compreendes

   - …

   - ooh… ai que nom!, … nom podiam!... e o remedio foi deixa-los, mas depois é quando eles andarom a atirar tiros para cá, eles… é por isso que che eu digo

 

Ler o trabalho completo em:

 

http://www.agal-gz.org/pdf/falabaixalimia.pdf


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Sábado, 24 de Dezembro de 2016

É NATAL

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BOAS FESTAS   

 

 


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Sábado, 13 de Fevereiro de 2016

LENDAS DO VALE DO MINHO

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O Vale do Minho é um espaço de forte identidade cultural, com características muito próprias e particulares, subjacentes à riqueza do seu património (arqueológico, edificado, gastronómico e etnográfico), e a um tipo de vivência que referencia e cataloga a sua população.

Estamos perante uma região detentora de produtos culturais de excelência, reconhecida pela sua tradição em festas e romarias, pelo folclore e artesanato e por uma elevada qualidade de vida.

No cerne desta riqueza cultural destaca-se o património lendário da Vale do Minho, o qual tem vindo a sofrer ao longo do tempo um tratamento menos adequado, de deturpações e perdas permanentes e irremediáveis.

Perante a necessidade de recuperar este legado histórico de valor e variedade notáveis emergiu uma vontade colectiva de garantir a sua preservação e continuidade através das gerações mais novas.

Neste contexto, a Associação de Municípios do Vale do Minho assumiu este desfio e, no âmbito do projecto “Promoção e Gestão da Imagem do Vale do Minho”, co-financiado pela Medida 1.4. – Valorização e Promoção Regional e Local – da ON/Operação Regional Norte, promoveu o levantamento das lendas do Vale do Minho.

Esta tarefa, que implicou um criterioso trabalho de pesquisa e de estudo da região, foi desenvolvida e concretizada pelo Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa.

Como resultado, considerou-se oportuno e enriquecedor proceder à edição da presente monografia que retratasse o Mundo Lendário da Vale do Minho, surgindo como uma narração de qualidade do património oral desta região e um meio de sustentar e garantir a sua preservação e divulgação junto de todos os que evidenciem curiosidade por este testemunho da cultura popular das gentes do Vale do Minho.

 

Valença, Maio de 2002

 

O Conselho de Administração da Associação de Municípios do Vale do Minho

 

 

Lendas do Vale do Minho

Álvaro Campelo

Edição Associação de Municípios do Vale do Minho

2002

 


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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

O FANTÁSTICO EM CASTRO LABOREIRO

 

Foto retirada de fugitivo.skyrok.com

 

 

A JOVEM ENCANTADA

 

   Vivia no lugar de Quinjo, em Castro Laboreiro, uma princesa que tinha sido encantada sob a forma de uma serpente, e que trazia uma flor presa na boca.

   Era esta princesa fabulosamente rica e estava disposta a dividir a sua riqueza com quem a desencantasse. Como ia de 100 em 100 anos à feira de Entrimo, em Espanha, altura em que recuperava a sua forma humana, lá contou como deveria proceder a pessoa que estivesse disposta a desencantá-la: ir ao lugar de Quinjo e dar um beijo à flor que ela, já na forma de cobra, trazia na boca.

   Se os séculos foram passando sem que aparecesse alguém suficientemente corajoso para realizar tal façanha, nem por isso se pode dizer que o tempo tenha apagado nos homens a crença no tesouro escondido ou tenha esmorecido a fé na sua recuperação, mesmo que para tal se tivesse que cumprir o ritual prescrito pela lenda. A cobiça era sentimento mais forte que a repugnância e o medo, sem contar ainda que a astúcia humana é de tal forma atrevida e pretensiosa que, só por si, consegue dar, a quem dela resolva largar mão, uma coragem inicial que na maioria dos casos, se não é condição de sucesso, é pelo menos de chegada à última etapa possível.

   Foi assim que um dia, levados pela cobiça e apoiados na astúcia, um grupo de homens tentaram desencantar a princesa. Se o pensaram, logo programaram a aventura, animados pelo facto de um deles conhecer os segredos do livro de S. Cipriano, que ajudaria a tomar o tesouro escondido e defendido pela serpente.

   Havia contudo uma dificuldade que a todos transtornava, e que não viam meios de a superar. Como ganhar coragem para beijar a serpente? Lembraram-se então os nossos heróis de um cego que havia no lugar e que, pelo facto de não ver, não sentiria repugnância em praticar o acto. Bastante instado, mas sem saber bem ao que ia, o pobre lá anuiu a juntar-se-lhes. Reunido o grupo no local certo, no dia e hora combinados, resolveu o animador da proeza, na intenção talvez de melhor avivar os pormenores da façanha, puxar do livro e ler a lenda aos companheiros no próprio cenário onde se iria desenrolar o drama. A um dado passo da leitura, porém, fez-se ouvir um barulho medonho que, repercutindo-se pelas fragas adiante, parecia querer fendê-las para delas fazer sair a figura de um monstro.

   Nem se interrogaram a respeito do estranho fenómeno: gasta a última reserva de coragem, hei-los numa corrida doida, galgando e descendo penedos, na ânsia de alcançar a segurança do lugar onde habitavam que, estranho ao facto, recuperava no sono a energia gasta num dia de luta árdua.

   Sozinho no lugar do Quinjo, ficou o cego, desprotegido de tudo e de todos, e completamente amedrontado. Valeu-lhe o bordão, seu único apoio e guia, para descobrir forma de chegar a chão seguro e sossegado. E chegou, passados uns dias a Pereira, uma pequena povoação espanhola, que lhe deu guarida.

   Depois de conhecida a aventura no lugar, nunca mais ninguém daqueles lugares pensou em repetir a proeza.

   Em tempos mais recentes, um jovem, ao saber, por um pastor, da existência da serpente, logo se lembrou da sua terrível história de amor. A mãe da sua namorada contrariava muito seriamente o namoro e afeição que a filha mantinha com ele, facto que os obrigava a encontrarem-se às escondidas por entre as penedias. Não tardou muito que a mãe desse com o esconderijo dos namorados e, desesperada com a desobediência da filha, lhe lançasse esta maldição:

   « Que de futuro andes de rastos como as cobras no alto do Quinjo. »

   Passados dias, desapareceu a rapariga sem deixar rasto!

   Associando os factos, não restaram dúvidas ao rapaz de que se tratava da namorada que cumpria o fado a que fora condenada pela mãe. A confirmá-lo, lá estava a flor que ele lhe oferecera e que ela, numa atitude garrida, trazia entre os dentes no momento em que recebera a maldição.

   Desesperado pela triste sorte da jovem e também pela sua infelicidade, subiu ao monte e perguntou à serpente quais as possibilidades que havia de lhe quebrar o encanto. Respondeu-lhe esta que bastaria que ele, rapaz, tivesse a coragem de a beijar na boca. Mas, cautela, se à terceira tentativa o não conseguisse, redobraria o seu encanto e não mais podia trazê-la à vida e ao seu amor.

   Voltou o rapaz mais tarde, acompanhado com gente amiga, para realizar o desencanto: porém, na altura em que se aproximou da serpente, esta lançou tais silvos e contorceu-se de tal maneira que pôs em fuga todos os que presenciavam a cena. Não desistiu o namorado e, na segunda tentativa, fez-se acompanhar de um padre para ajudar o ritual com as suas rezas, e, esquecido do que havia acontecido aos outros seus conterrâneos, de um ceguinho que, pelo facto de não ver, poderia substitui-lo no acto de beijar a serpente com menos repugnância. Repetiu-se a cena anterior e tanto o padre como o cego fugiram desaustinados.

    Entendeu o rapaz que teria que ser ele sozinho, e sem a ajuda ou apoio de ninguém, mas amparado pelo amor que nutria pela jovem, a cumprir o feito. Enchendo-se de coragem, aproximou-se da serpente e, sem dificuldade de maior, deu-lhe o beijo, recebendo em troca nos seus braços a namorada. Regressaram felizes a Ribeiro de Baixo, seu lugar de nascimento, e casaram mais tarde na vila.

 

Retirado de:

Lendas do Vale do Minho

Álvaro Campelo

Associação de Municípios do Vale do Minho

2002

 

www.lendarium.org

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 08:09
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