Sábado, 15 de Dezembro de 2018

MELGACENSES NA I GRANDE GUERRA (E EM OUTRAS GUERRAS DO SÉCULO XX)

lilo-valter.jpg

Foi há pouco mais de cem anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914. Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço partiram para a Flandres mais de setenta homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com catorze homens, Penso com doze homens e Vila, com catorze homens, são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos – à data do embarque – idades entre vinte e dois e vinte e sete anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais e sargentos que eram um pouco mais velhos.

 

MELGACENSES NA I GRANDE GUERRA

(E EM OUTRAS GUERRAS DO SÉCULO XX)

Valter Alves

Joaquim A. Rocha

Edição de Autores

Melgaço 2018

 

VALTER ALVES. Filho de Anselmo Alves (1937-1990), funcionário da Repartição de Finanças de Melgaço, e de Elisa Maria Afonso (1938-1993), doméstica. Neto paterno de Francisco Alves e de Maria Teresa Alves; neto materno de Manuel Gaspar Afonso e de Albertina dos Anjos Sérvio. Nasceu em São Paio de Melgaço a 25/4/76. Estudou na escola primária de São Paio e na então escola C+S de Melgaço até aos dezassete anos de idade; depois, devido à morte dos pais, seguiu para Cinfães do Douro, para casa do seu irmão, onde permaneceu até 2002. Licenciou-se em Geografia (Ramo Educacional), na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É Pós Graduado em Gestão dos Riscos Naturais. Em 2018 morava em Vila Nova de Gaia e era professor de Geografia na Escola Básica e Secundária de Lousada Norte. Casou em 2003 com Carla Alves.Paralelamente à atividade docente, desenvolve investigação histórica, cujo produto tem sido publicado no blogue – Melgaço, entre o Minho e a Serra -, onde divulga notícias históricas, e outras estórias sobre o concelho de Melgaço. Pai de Luís Pedro Alves.

                                

JOAQUIM AGOSTINHO DA ROCHA nasceu em Cevide, Cristóval, Melgaço, onde residiu até aos seis anos de idade. Depois foi para a Vila de Melgaço, terra de sua mãe, Maria Leonor da Rocha. Permaneceu ali até aos vinte anos, altura em que ingressou no serviço militar. Cumpriu cerca de um ano na “Metrópole” e quase dois anos na Guiné-Bissau. Em finais de 1967 regressa e fixa a sua residência em Lisboa. Em finais de 2000 transfere-se para Braga, onde ainda vive. Quanto a estudos: saiu de Melgaço com a 4ª classe mais dois anos do Curso Elementar de Estudos Agrícolas, portanto com a equivalência à sexta classe, ou 2º ano dos liceus. Na capital do país fez o Curso Comercial e o Curso Complementar de Contabilidade e Gestão de Empresas (Técnico de Contas). Fez depois algumas disciplinas no Liceu e Ano Propedêutico, permitindo-lhe ingressar na Faculdade de Letras, onde completou o 2º ano do Curso de Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses). Devido a incompatibilidades de horários, completpu o Curso na Universidade Autónoma de Lisboa (Luís de Camões) com a média de 16 valores. Quanto a empregos: foi empregado de escritório, contabilista, bancário, bibliotecário, professor… Dedica-se atualmente ao estudo da História e Cultura de Melgaço, e também ao estudo da Genealogia, ou seja, à biografia dos melgacenses em geral.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:29
link do post | comentar | favorito
Sábado, 8 de Dezembro de 2018

O RESPONSO DO CONTRABANDISTA

39 c2 -talha do mestre abel barrenhas.jpg

talha do mestre abel barrenhas igreja de santa maria da porta

 

O CONTRABANDO

O concelho de Melgaço encontra-se situado no extremo Norte de Portugal, entre o rio Minho e o rio Trancoso, que fazem de fronteira natural entre o Minho e a Galiza. A partir de Portelinha começa a demarcação da raia seca. A Sul o concelho fica delimitado pelos concelhos de Arcos de Valdevez e Monção.

Ao longo de toda a fronteira natural, para além de uma alfândega em S. Gregório e de uma delegação em S. Marcos, existiam de ambos os lados vários postos guarnecidos de guardas-fiscais e carabineiros, que tinham por missão fiscalizar a entrada de pessoas e bens. O que dificultava a acção dos prevaricadores da lei das fronteiras, dos chamados «contrabandistas».

O contrabando era uma actividade muito antiga, praticada pelas populações que viviam nas margens do rio Minho, do Trancoso e da raia seca na zona de Castro Laboreiro.

Contrabandear foi a única maneira encontrada pela maioria das gentes do Minho e da Galiza para ganhar uns escudos ou umas pesetas. Era, por assim dizer, a única porta de entrada, e saída, para o exterior, para nós e para eles.

A necessidade e o interesse por esta actividade eram mútuos. Era só praticá-la. Mas pela frente, além do obstáculo natural de atravessar o rio Minho, sobretudo no inverno, havia que ludibriar a vigilância continua dos Guardas-fiscais e dos Carabineiros.

O contrabando tanto ia para lá como vinha para cá, o factor dominante sendo o câmbio entre o escudo e a peseta.

Na zona de Melgaço, em maior ou menor escala, fez-se contrabando de tudo: galinhas, ovos, café, sabão, peças de pano, alfinetes, agulhas, pedras de isqueiro, estanho, volfrâmio, gado, porcos, bacalhau, bananas, azeite, meadas de arame, arados, sulfato, máquinas de sulfatar, etc.

Após a guerra civil 1936/39, a Espanha estava necessitada de tudo. Quase todas as famílias andavam no contrabando, embora sabendo que corriam riscos.

As autoridades de um lado e do outro, lá iam facilitando, embora de vez em quando para tapar os olhos, faziam algumas apreensões. Tinha que ser, não podia passar tudo. Só que às vezes pagava o justo pelo pecador.

Houve muitas pessoas que começaram a contrabandear uns quilos de café e depois chegaram a encher mais que um vagão do comboio só de uma vez.

Para isso, foi necessário construir armazéns próximos da fronteira, comprar camiões, fazer barcos, comprar mulas e até fazer caminhos e estradas para chegar próximo da fronteira.

Recrutavam homens nos cafés e nas tabernas para carregar as cargas de mercadoria, que era transportada ás costas através dos campos e dos montes, saltando valados, corgas e ribeiras, para não serem vistos pelas autoridades.

Em S. Gregório, houve uma sociedade que levava os camiões de café até aos Casais e a Cevide. Depois era só atravessar o rio em barcos e carregar os vagões do comboio do outro lado.

O café era colocado ao pé da linha do comboio, jogo combinado com o chefe da estação da Frieira, que fazia o sinal vermelho e, em poucos minutos, o comboio ficava carregado e seguia o seu destino.

Na zona de Castro Laboreiro, as mulas é que transportavam as cargas do contrabando através dos montes e das serras.

No rio Minho, os pequenos contrabandistas não tinham barcos. Passavam o contrabando em pequenas batelas ou gamelas de madeira muito frágeis, pondo em risco a própria vida. Morreram várias pessoas por afogamento.

 Quando não tinham barco ou batela, em pontos estreitos do rio cordeavam o contrabando em pequenas quantidades.

No rio Trancoso, passava-se o mesmo durante o inverno. Observei várias vezes junto dos moinhos do Recobo, em frente à porta do moinho do «Zé Moreno» e dos herdeiros, as pessoas a cordear cestas de ovos e outros artigos. O galego que trazia a corda para cordear os ovos chamava-se sr. Júlio Reinales. Em criança, lembra-me de ir a casa dele, à Aldeia do Souto, com minha avó Josefina e com Pureza da Marga. Também levei muitas dúzias de ovos. Quando o rio estava bom, passávamos junto ao moinho da tia Joaquina, ou do Alberto. Entretanto, acabou a rambóia dos ovos. O contrabando que durou até à entrada de Portugal na Comunidade Europeia foi o do café e de outros produtos.

Na parte de cima da igreja, houve dois homens que desde sempre fizeram contrabando sozinhos e que depois com homens por conta deles contrabandearam muito café. Chamavam-se eles o Nelo da Ozinga e o Zê Moreno já falecidos. Estes dois homens eram dos mais arrojados para contrabandear. Chegaram a passar o rio Trancoso a tralhão (tudo a eito), como eles diziam. Para fugir aos guardas-fiscais e aos carabineiros levavam o contrabando a Deva, a Trado e onde calhava, para ganhar a vida. Apanharam muitos sustos, suadelas e molhadelas, debaixo da chuva e do frio. Era muito dura a vida de contrabandista.

Cristóval sempre foi um ponto de passagem de contrabando. A Galiza após a guerra civil de Espanha estava carenciada de tudo.

Todos os comerciantes da zona faziam muito negócio com os galegos. Chegava-se a fazer fila indiana pelos carreiros de dia e de noite.

Ainda me lembra de os galegos entrarem para a casa Branca por um portão pequeno que dá acesso para a Corga da Marga. Saíam por ali carregados com cargas de contrabando. Outras vezes desciam as cargas com uma corda para o campo do Corno da tia Maria (Charameca). Faziam tudo para fugir e enganar os guardas-fiscais. Já lá vão mais de 50 anos. Ainda o falecido sr. Manuel Martinho morava lá.

Outro senhor que também vendia e levava contrabando aos galegos era o sr. António (do Orfo), que após ter regressado do Brasil montou uma loja na casa que actualmente pertence ao sr. Armando (Videira). A maioria das pessoas foi pelo mundo à procura da fortuna, este senhor também foi, regressou e veio fazer fortuna na sua terra.

Contou-me muita vez minha avó Joaquina que sr. António (do Ofro), quando regressou do Brasil, ao chegar a S. Gregório, deixou ficar a mala e depois mandou um senhor conhecido (pelo Nacho) buscá-la; quando este chegou ao lugar da Porta, disse: «a mala do sr. António (do Ofro) pesava muito, deve trazer muito dinheiro».

Quando abriram a mala, tiveram uma surpresa: o dinheiro eram pedras. Tinha sido ele que, por malandrice, enchera a mala com pedras.

Naquele tempo os brasileiros tinham a fama de ter muito dinheiro, só que neste caso nem fama nem proveito.

No entanto, com a sua loja fez fortuna na sua terra. É assim a sorte, por vezes está mais perto do que pensamos.

Dizia-me a minha avó muitas vezes: «estás a ver, a ser rico custa muito, mas ser riquíssimo não custa nada, um dinheiro ganha outro».

Muitas vezes tenho pensado nisto, eu era criança, para mim parecia-me um conto de fadas, mas, passados estes anos todos, penso para comigo mesmo: “Como é que uma pessoa que não sabia ler sabia que o dinheiro ganhava dinheiro”. Hoje todos nós sabemos isso, naquele tempo nem todas as pessoas pensavam assim.

Além do contrabando, o sr. António (do Ofro) dedicava-se também ao câmbio de moeda. O senhor a quem ele confiou algumas destas tarefas chamava-se Aniceto Pires, e deslocava-se muito longe a levar e trazer moeda, bem como contrabando.

Ainda fui algumas vezes com ele levar meadas de arame, arados, sulfato e máquinas de sulfatar.

Normalmente, íamos de manhã cedo. Antes de sair, o Niceto rezava os responsos de Santo António. Se não se enganasse a rezar, dizia que tudo ia correr bem, se, por acaso, se enganava dizia que era melhor não ir, que ia correr mal. Se mesmo assim ia trocava constantemente de caminho ou carreiro.

 

Era este responso que ele e muita gente rezavam:

 

Santo António de Lisboa                        E três vezes chamou

Em Lisboa nasceste                                António! António! António!

Em Pádua morreste.                                E  três coisas te pediu,

No púlpito que o Senhor pregou            Que o perdido fosse achado,

Também vós pregaste                             O esquecido lembrado

Indo pelo caminho                                  E o morto ressuscitado.

Perdeste o breviário

Jesus Cristo vo-lo encontrou

                                                   Maria de Jesus Marques – Pousadas

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

             José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 130, 131, 132

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:33
link do post | comentar | favorito
Sábado, 1 de Dezembro de 2018

DOS MUSEUS DE MELGAÇO

25 c2 - museu contrabando.jpg

museu do contrabando

 

A MEMÓRIA COMO PATRIMÓNIO: DA NARRATIVA À IMAGEM

 

  O município de Melgaço, em alternativa à criação de um único espaço museológico, tem optado pela criação de uma rede de pequenos museus. O núcleo museológico da Torre de Menagem e as Ruínas Arqueológicas da Praça da República têm, também eles, uma evidente conotação histórica, mas o «Espaço Memória e Fronteira» é o único que procura fazer uma ponte com o presente, isto é, que procura dar sentido e conteúdo à memória colectiva através da construção de uma narrativa em que a comunidade pode e deve rever-se. A junção do contrabando e da emigração no mesmo espaço físico e em semelhantes balizas expressivas faz por isso todo o sentido. Não só pela permeabilidade entre as duas actividades – em lugares de fronteira a emigração incrementa-se não tanto pela diminuição do contrabando mas pelas transformações internas da actividade – mas também porque congregam tópicos discursivos convergentes. As ideias de travessia, de clandestinidade, de enfrentamento dos perigos e da luta pela sobrevivência e melhoria das condições de vida para a família, contam-se entre esses tópicos.

 

Luís Cunha

Universidade do Minho, CRIA

2010

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:23
link do post | comentar | favorito
Sábado, 17 de Novembro de 2018

DO SUBLIME AO GROTESCO

770 - 1 joão vilas.jpg

 

NOITE FECHADA

 

Noite densa povoa horizontes

Regresso à pacatez da minha cela…

Inspiro-me de novo à luz da vela

E sonho com vales assombrados;

Bebo água que jorra das nascentes,

E ganho mais abrigo nas correntes;

Desço pelos negros altos montes…

Desapareço…

Sinto passos, vejo cães enfeitiçados;

Salto rios, salto abismos, salto pontes…

E adormeço.

 

 

DO SUBLIME AO GROTESCO

                     Poesias

João Vilas

Ancorensis – Cooperativa de Ensino, C.R.L.

Vila Praia de Âncora

2000

p. 20

 

JOÃO MANUEL VILAS nasceu em Melgaço, na freguesia da Vila, em 25/11/1960. Licenciado em Humanísticas, pela Faculdade Filosofia de Braga, é professor de Português na Ancorensis – Cooperativa de Ensino, desde o ano lectivo 1987/88, depois de ter passado por outras escolas: Preparatória de Caldas de Vizela, Secundária de Arcozelo (Barcelos) e Santa Maria Maior (Viana do Castelo).

Há muitos anos que desenvolve o seu gosto pessoal na área do Teatro e da Poesia, tendo participado em inúmeros espectáculos – como actor e animador – e em Momentos de Poesia, dinamizando e declamando.

Co-responsável da Revista Letras de Âncora (Ancorensis – Coop. De Ensino), desde a primeira publicação.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:04
link do post | comentar | favorito
Sábado, 15 de Setembro de 2018

PARADA DO MONTE

37 a2 - vestuário parada monte.bmp

vestuário de parada do monte

 

PARADA DO MONTE

 

Num edifício construído de raiz e dotado das condições necessárias, poder-se-iam guardar exemplares dos instrumentos utilizados no fabrico da lã (sarilho, dobadoura, carda, urdidor, tear, etc.), as alfaias, os carros de transporte, as louças e mobiliário, as peças de trajo antigo, as mantas e bordados, utensílios do pastor, a croça, etc., etc. A não ser feita esta recolha com urgência, em pouco tempo nada restará dos elementos materiais de uma cultura com características próprias revelando um viver marcado pelo trabalho do campo e o pastoreio na serra envolvente.

Entre esses elementos destaca-se o trajo antigo.

Parada do Monte, no vestuário, procurou adaptar-se às condicionantes do clima pela utilização de fibras naturais que lhe proporcionavam a maior resistência aos frios rigorosos e humidade. As cores em tons escuros exemplificam a necessidade de absorver calor quando o corpo estava em repouso ou deslocando-se lentamente, enquanto que as camisas brancas do trabalho ajudavam a reflectir a incidência da luz solar minimizando o efeito térmico sobre o tronco.

As mulheres de Parada vestiam uma saia comprida, camisa branca com mangas, colete e corpete. No tempo frio agasalhavam-se com a ‘curbata’, género de xaile que depois de cruzado sobre o peito se atava nas costas. Sobre a cabeça e ombros colocavam o ‘mandil’ feito em tecido de lã que, em tamanho mais pequeno, servia de avental. Normalmente cobriam a cabeça com um “lenço chinês” ou de murino. Nas pernas usavam meias simples, não rendadas e calçavam ‘soques’ com cobertura em couro fixa por tachas à base em pau. Em tempo de chuva cobriam os joelhos e pernas com polainas em burel ou em couro.

Para fazer as meias empregava-se agulhas de ferro com a extremidade em ‘aspita’ (barbela), pequeno gancho golpeado de forma a poder puxar o fio (de lã ou de algodão) e assim obter a malha.

 O homem usava calças feitas no tear, camisa em linho, colete e casaco. Protegia-se também com polainas e calçava sapatos cardados quando havia festas e tamancos no trabalho. Para o pastoreio e no Inverno cobria-se com a croça em junco.

 

 

PARADA DO MONTE, História e Património

Antero Leite

Mª Antónia Cardoso Leite

 

http://acer-pt.org

 

 

DAVID DE CARVALHO (30-11-1955 – 10-9-2018)

 

 

David de Carvalho nasceu em Parada do Monte.

Em Melgaço fundou o conjunto Gaudeamus.

Era colaborador do blog Melgaço, do Monte à Ribeira.

Era editor do blog Melgaço do Passado e do Presente.

Mais uma grande perda da cultura melgacense.

 

Um dia lá nos encontraremos irmão.

 

Eu.JPG

david de carvalho

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:30
link do post | comentar | favorito
Sábado, 2 de Junho de 2018

O CHOCOLATE DA NOIVA

33 b2 - igreja facho cristóval.JPG

igreja do facho  cristóval

 

O CARVALHO DA IGREJA

 

Não posso deixar de falar sobre o Carvalho da Igreja que se encontrava à margem de estrada naquele pequeno recinto onde hoje se encontra o fontanário.

Não me lembre de ter visto outro carvalho de porte igual ou semelhante. Devia ter mais de um metro de diâmetro.

Era neste secular carvalho, que se encontrava à margem da estrada, que se afixavam os avisos. Fazia de vitrina informativa local.

Tal como nós, as árvores também têm o seu ciclo de vida, também morrem. Apenas como ponto de referência para muitos encontros.

Há cerca de cinquenta anos, quando os namorados resolviam casar, iam ter com o padre para dar andamento aos papéis para o seu casamento.

O padre, cumprindo todas as formalidades, dava início ao processo do casamento. Na posse de todos os dados de identificação dos nubentes, durante duas ou três semanas, na missa dominical, tornava público o casamento dos nubentes. Simultaneamente, advertia os ouvintes que caso tivessem conhecimento de algum motivo fundamentado que levasse ao impedimento do casamento tinham o dever moral de o informar.

Além disso, era afixado aviso na porta da igreja ou no dito «Carvalho». Após tornado público, o casamento dos nubentes passava a ser notícia local. A partir daí, era costume as pessoas dizerem, fulano e fulana, é verdade que vão casar, já têm «os banhos a correr na igreja». Se, durante o período que decorriam os banhos, não surgisse nenhum impedimento fundamentado, o casamento realizava-se, caso contrário era impedido.

O motivo mais fundamentado eram as queixas de outra rapariga dizendo ter sido enganada pelo nubente. Ou então acusando a nubente de má conduta moral, não reunindo condições de dignidade para ser uma mulher casada.

Entre outros motivos, eram estes os mais fortes, aqueles que normalmente levavam a Santa Igreja ao impedimento de alguns casamentos.

Acerca dos casamentos que outrora se realizavam nas nossas aldeias não posso deixar de realçar uma tradição muito antiga que se perdeu no tempo.

Há cinquenta anos atrás, até meados do século XX, a boda do casamento era feita na casa dos pais da noiva para todos os convidados, hoje em dia os banquetes são feitos em restaurantes.

Quando corria a notícia que uma rapariga ia casar, as pessoas perguntavam-lhe:

- Então vais-nos dar o chocolate?

À qual a suposta noiva respondia afirmativamente ou não.

Assim para manter uma prática muito antiga, era costume na dia da boda de manhã, ao pequeno almoço, dar chocolate acompanhado com doces a todos os convivas. Para os não convidados do lugar e vizinhos mais próximos, as cozinheiras e suas ajudantes transportavam na mão cafeteiras com chocolate e doces numa cesta ou açafate, fazendo a distribuição porta a porta.

Assim se vão perdendo a pouco e pouco as tradições e costumes das nossas aldeias.

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

              José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 57, 58

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:12
link do post | comentar | favorito
Sábado, 5 de Maio de 2018

HOMENAGEM A ÓSCAR MARINHO

10 b2 - maria do sabino.jpg

taberna da ti maria do sabino

 

UM FILATELISTA MELGACENSE

 

Boticas, 26 Nov. (Lusa) – Um selo de 100 mil réis de 1853, avaliado em 770 mil euros, é uma das principais atracções da Iberex – XV Exposição Filatélica Luso-Espanhola, patente em Boticas até domingo.

O coleccionador Óscar Marinho começou a juntar selos aos 15 anos e hoje, com 70 anos, mostra com orgulho a sua colecção de selos clássicos portugueses, onde se insere o de 100 réis da época de D. Maria II.

“A minha colecção não tem preço. É impagável” afirmou à Lusa o filatelista de Melgaço.

Dos muitos selos que guarda num lugar que recusa revelar, Óscar Marinho gosta de expor a colecção de selos primitivos, feitos entre 1853 a 1870, os que diz terem sido os primeiros selos portugueses.

“Trata-se de selos em relevo que eram feitos um a um, não há um selo igual a outro e a cada diferença chama-se um cunho”, explicou.

Óscar Marinho começou a coleccionar selos depois de ter tido um acidente em que partiu a clavícula.

“Fui a um endireita, que havia em Melgaço, que coleccionava selos. Para não chorar deu-me uma quantidade de selos e a partir daí não parei”, salientou.

Diz ter adquirido selos em leilões, trocas com colegas e até em feiras no estrangeiro e é também lá fora, em países como França, Itália ou Espanha, que gosta de mostrar as suas “relíquias”.

 

Retirado de:

 

Collectus – Loja de colecções

 

http://coleccionar-collectus.blogspot.com/2007_11_01_archive.html

 

 

GAZETILHA

 

O ESPADA

 

Ao Óscar Marinho

No tribunal de Vimioso:

 

Chegou à nossa Vila, já de noite,

uma coisa mal jeitosa e de cor preta,

que a dar-lhe nome talvez ninguém se afoite,

e chamar-lhe automóvel, isso era peta.

 

O dono, uma pessoa respeitável,

chegou à nossa terra tão vaidoso,

que nem guiando o melhor descapotável

que jamais viu o velho Vimioso.

 

E andou por estas ruas, coisa rara,

roncando como aqui nunca se viu,

essa peça de museu, que talvez cara,

quis ir a Castro um dia e… não subiu.

 

P’ra vir do Vimioso aqui ao Minho,

levou-lhe quinze dias, sempre a andar,

parou algumas vezes no caminho,

porque a bronquite fazia-o sufucar.

 

O Óscar, me contou, com graça, até,

algumas peripécias, do caminho;

andaram mais de seis léguas a pé,

p’ra não cansar o pobre coitadinho.

 

Na ida, sentiu-se a coisa mais cansada,

efeitos da velhice e da distância…

e viu-a toda a gente, então pasmada,

seguir p’ra Vimioso, na ambulância.

 

E chamaram-lhe o «Espada do Doutor»

a esse traste que agora já não anda…

que a mim mais me pareceu ser um tractor

retirado das brragens de Miranda.

 

Os meus mais respeitosos cumprimentos,

a quem me encomendou este sermão.

mas, se por isso vou passar tormentos,

direi de novo que aquilo é um carrão.

 

                                                                                                                      31/7/960

 

POESIA POPULAR

Francisco Augusto Igrejas

Câmara Municipal de Melgaço 6

1989

pp. 81-82

 

Óscar Marinho deixou-nos neste ano de 2018.

Descansa em paz meu amigo.

 

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:24
link do post | comentar | favorito
Sábado, 23 de Setembro de 2017

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

62 c2 - r baixo melgaço.JPG

rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço   

                                               


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:12
link do post | comentar | favorito
Sábado, 26 de Agosto de 2017

UM ESCULTOR MELGACENSE

40 b2 - ines  acácio.jpg

 

 

ACÁCIO CAETANO DIAS

 

 

É natural de Prado, filho de Amadeu Maria Dias e de Maria Fernandes da Silva. Nasceu em 11 de Março de 1935.

Seu pai era um artesão, que trabalhava bem o latão e o cobre.

Como a vida económica em Melgaço era difícil, Acácio Caetano Dias procurou vencer essa hora difícil.

E conseguiu-o.

Aos 12 anos era «groom» no Grande Hotel do Peso e convidado por um hóspede, proprietário do Colégio Almeida Garrett, na cidade do Porto, vai para este colégio como ajudante de despenseiro, donde passa para a cozinha, sendo 2º cozinheiro.

Daqui voa para Lisboa e emprega-se nos Estaleiros da CUF, como apontador, passando a caldeireiro de cobre.

Como apontador, é admitido, em 1959, na agência de Cascais do Banco Nacional Ultramarino (BNU), onde, a seu pedido, passa a ser serralheiro e faz uma descoberta sensacional: inventa uma máquina de fechar correspondência e uma enfardadeira para enfardar papel velho. Recebeu um louvor.

Aproveitou as horas que o trabalho profissional lhe concedeu de descanso e fez os estudos indispensáveis com os quais foi colocado na Biblioteca, donde transitou para o Armazém de Móveis até à reforma em 1973.

A arte é a sua paixão. Dedica-se à escultura. Está presente com os seus trabalhos nas Feiras de Artesanato. E em tão boa hora que escultores de nomeada, como Lagoa Henriques, Soares Branco e Manuela Madureira, preferentemente, o estimularam, dando-lhe orientações que envolvem técnicas sofisticadas.

O apaixonado da arte, passa de aluno a mestre. E apresenta ao público as suas obras: expõe, em 1984, na Escola de Belas Artes, em Lisboa, e recebe uma menção honrosa; em 1985, na V Quinzena Cultural Bancária, no Hotel Altis, recebeu o 1º e 2º prémios de escultura; em 1988, na VII Quinzena Cultural Bancária, obtém menção honrosa; em 1990 na VIII Quinzena Cultural Bancária, no Palácio Foz, arrecadou o 2º prémio de escultura; recebeu em 1992 na IX Quinzena Cultural o 2º prémio de escultura; em 1993 na Artempresa I, promovida pelo Metropolitano de Lisboa, obtém o 1º prémio com o trabalho «Camilo Castelo Branco»; e o mesmo prémio alcançou-o em 1994 na X Quinzena Cultural Bancária, realizada no Palácio Foz.

Acácio Caetano Dias está presente como artista, na nossa terra, no Quartel dos Bombeiros Voluntários, com o «Bombeiro» de tamanho natural.

Suas obras venceram as fronteiras do País e encontram-se no estrangeiro: na França, na Arábia Saudita e na Alemanha, entre outras.

Faleceu em 7 de Março 2013.

 

P. Júlio Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do autor

1996

pp. 273, 274

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:25
link do post | comentar | favorito
Sábado, 20 de Maio de 2017

UM MELGACENSE NA RADIO BRASILEIRA

14 a2 - avenida (9).jpg

 

Eurico António Crispim da Silva, nasceu em Melgaço em 16 de Setembro de 1900, foi actor, director de cinema e dramaturgo luso-brasileiro, célebre autor de radionovelas durante a era do rádio.

Mudou-se para o Brasil em 1916, e em 1919 iniciou a carreira de actor com a peça “O Mártir do Calvário”, apresentada no teatro Carlos Gomes, sendo o autor Eduardo Garrido.

A mudança para o Rio de Janeiro dera-se por ter ali alguns amigos padeiros, mas logo Silva se interessa pelo meio artístico.

A primeira das 15 peças que escreveu estreou em 1932, pela companhia de Procópio Ferreira, para quem traduziu outras tantas.

Em 1930 transferiu-se para o rádio, actuando no programa Teatro em Casa da Rádio Nacional como actor e produtor.

Com a estreia da Televisão, é um dos redatores das novelas da Rede Tupi, onde escreveu Olhos que Amei.

No cinema foi roteirista parceiro de J. Rui em filmes como Não adianta chorar.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_Silva


publicado por melgaçodomonteàribeira às 11:47
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 9 seguidores

.Dezembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.links

.posts recentes

. MELGACENSES NA I GRANDE G...

. O RESPONSO DO CONTRABANDI...

. DOS MUSEUS DE MELGAÇO

. DO SUBLIME AO GROTESCO

. PARADA DO MONTE

.pesquisar

 

.tags

. todas as tags

.subscrever feeds