Sábado, 21 de Abril de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS

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Certo dia, como se fora um qualquer lunático, passou-me pela cabeça continuar «Os Lusíadas», obra escrita por Luís Vaz de Camões no século XVI. Se ele, em circunstâncias assaz difíceis, sem a preciosa ajuda dos computadores e seus programas, sem livros de história ali à mão, sem dicionários, sem enciclopédias, sem nenhuma biblioteca de apoio. Conseguiu levar a cabo aquela imensa epopeia, aquele monumento literário, aquele alforge de saber e imaginação, também eu, ser humano como ele, poderia construir algo parecido. Acontece que génios como Camões só surgem no planeta de cem em cem mil anos; logo, teremos muito que esperar e desesperar. Os seus vastos conhecimentos, a sua capacidade de apreender tudo aquilo que o rodeava, as suas leituras da juventude, a sua vivência, a sua escrita empolgante, são irrepetíveis. Apesar de saber tudo isso, vou dar início a este louco empreendimento, sabendo de antemão que vai ser obra pequena, defeituosa, inacabada. A vida é assim, não se pode parar. Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco na prosa, Amália Rodrigues no fado, José Afonso na canção, Travassos, Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo no futebol, Livramento nos patins, Joaquim Agostinho no ciclismo, Carlos Lopes, Fernando Mamede, e Rosa Mota no atletismo, etc., foram figuras cimeiras na sua arte, na sua profissão. No entanto, outros artistas foram bons, ou aceitáveis, sem contudo atingir a perfeição dessas estrelas. «Parar é morrer», já diziam os nossos antepassados. Por isso, mãos à obra. A história de Portugal é riquíssima, há muita matéria-prima a explorar. Quem sabe se esta ousada iniciativa não irá estimular alguém com mais talento e saberes do que eu? Aguardemos.

 

Em mil e quinhentos sai do Restelo

A frota comandada por Cabral;

Os navios levam pão, chirelo,

Muita carne, conservada em sal…

Iam em busca de terras, dum selo,

Para a nobre causa de Portugal.

Descobriram, “por acaso”, o Brasil,

Rico de matas, ouro, rios mil.

 

………………..

 

Vou abraçar os meus velhos amigos,

Se é que ainda algum por lá mora;

Comerei com eles belos formigos,

O estonteante doce de amora;

Fumeiro, vinho, são ora inimigos,

Mas por eles nosso paladar chora.

Os anos destruíram nossa mente,

Oxalá dê fruto nossa semente.

 

 

OS NOVOS LUSÍADAS

(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

Janeiro 2018

pp.5, 29, 180

 

Joaquim A. Rocha edita o blogue Melgaço, Minha Terra

 

 

 


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Sábado, 25 de Novembro de 2017

MANJARES DA NOSSA TERRA

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INTRODUÇÃO À ARTE CULINÁRIA DO CONCELHO DE MELGAÇO

 

 

Ao procurar confiar ao papel algumas despretensiosas palavras acerca das mais importantes iguarias, tradicionalmente usadas pelas nobres gentes que, desde recuados tempos, constituem a população do mui notável e ilustre berço de Inês Negra, a Heroína, sem ascendência conhecida que, no Sagrado Altar da Pátria, ofertou a sua própria vida, não posso deixar de me embalar pelas canções ternas que as águas puras e cristalinas vão cantarolando através das encostas, dos vales e vergeis.

É uma região de extrema beleza, desde a variedade das suas paisagens, únicas no mundo até à multiplicidade da tonalidade das suas cores. É um canteiro de flores regado pelas águas frias da serra, onde vicejam o rosmaninho, o jasmim, o alecrim, a urze, a giesta, o piorro e o lírio silvestre do campo. Enfeitiçado pelo encanto das suas lindas serras, pela amenidade do clima, o Melgacense aqui se fixou e nunca mais abandonou o rincão que lhe serviu de berço. Como todos os povos, cuja origem se esconde com o segredo do tempo, a sua primitiva e frugal alimentação iniciou-se com a caça e a pesca, bem como a existência de várias plantas, arbustos e árvores que os abasteciam e lhes garantiam a sua rudimentar subsistência.

Devido à falta de conhecimentos pormenorizados de condimentos e maneiras de preparar as suas frugais refeições, tanto as carnes como os peixes eram assados nos braseiros e a seguir utilizados e acompanhados com castanha e bolotas do reble, a servirem-lhes de pão.

Com a evolução lenta dos tempos, estes caçadores e pescadores domesticaram todos os animais de grande porte, que povoavam a selva e transformaram-nos em auxiliares maravilhosos, quer na alimentação e vestuário, quer no trabalho do amanho, custoso, da terra-mãe.

Das rês miúda fizeram as vezeiras que se apascentavam nas excelentes ervas, misturadas de carquejas, quirejas, tojo, urzes, rosmaninho e variedade indefinida de plantas, dando à carne de cabrito um sabor extraordinário, devido à alimentação primorosa, que utilizam.

Assim uma das mais célebres iguarias do nosso concelho é, sem a menor dúvida, o cabrito assado ou guisado. Para conservar as suas deliciosas qualidades, deve ser assado no forno de cozer o pão e não nas cozinhas de ferro, gás botano ou electricidade. Pela alta qualidade de suas carnes é um prato indispensável em todos os almoços desta localidade.

Outra iguaria de igual valor nutritivo e de sabor delicioso é o presunto de Castro Laboreiro e de Fiães, utilizado frio, partido em finas lascas, fritado ou cozido, acompanhado sempre da deliciosa batata de Castro Laboreiro e do seu pão centeio, cozido nos célebres fornos comunitários desta linda e histórica freguesia.

Qual o motivo deste presunto ser o mais saboroso e melhor deste País? Em primeiro lugar tem um papel importante o clima, no qual o porco é criado e a sua alimentação, constituída pela farinha centeia e deliciosa batata desta região castreja. Concorrem também para esta excelente qualidade o frio intenso, que se faz sentir nestas elevadas paisagens e o fumo da giesta, do piorno e da urze, com o qual é curado e fumado.

Não esgotei o que pretendia dizer. Oxalá que as preciosas receitas da Culinária Melgacense, agora pela primeira vez reunidas num Caderno do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Melgaço, possa concorrer para o melhor conhecimento desta linda terra e torná-la mais visitada, são os meus ardentes votos.

 

Castro Laboreiro, 17 de Junho de 1986

(Padre Aníbal Rodrigues)

 

 

MANJARES DA NOSSA TERRA

 

Autor: vários

 

Edição: Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 4

             Serviços Culturais

             CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

1987

 


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Sábado, 10 de Dezembro de 2016

CASTRO LABOREIRO E O CINEMA

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CASTRO LABOREIRO

UN DOCUMENTAL DE RICARDO COSTA, 1979

 

Xulio Medela

“Há mais poesia num grão de realidade do que no cérebro dos poetas"

Marcel Mauss

 

As terras arraianas do Laboreiro son eterna fonte de inspiración fílmica. De Lobos da serra a Viagem ao princípio do mundo, pasando pola mítica A cruz de ferro, non é estraño que Ricardo Costa tivese reparado neste universo para crear aquí un dos catro filmes que produciu para a serie da RTP O homem montañes.

Doutor en letras pola Universidade de Lisboa, e depois dunha primeira etapa como editor e investigador de textos sociolóxicos, Ricardo Costa logo se tornou realizador, guionista e produtor, inseríndose plenamente no movemento denominado ‘Novo Cinema Português’, sendo un dos máximos representantes do subxénero coñecido como ‘docuficción’ ou ‘etnoficción’ inspirado directamente pola obra do antropólogo francês Marcel Mauss e do etnocineasta Jean Rouch.

Castro Laboreiro foi proxectado publicamente, se cadra pola primeira vez, nas xornadas que cada agosto organiza o Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Montes Laboreiro. Cunha duración de 85’, Costa articula o filme en tres partes: “Inverneiras”, “Transumâncias” e “Brandas”, que reflicten con exactitude (ainda que con certo manierismo, no estilo de António Jorge Dias en Vilarinho das Furnas) o modus vivendi e operandi dunha comunidade en dificilísimo equilíbrio cunha hostil contorna natural, sendo a emigración a consecuencia lóxica desa constante perda de equilíbrio en favor da ‘montaña’ e en detrimento do ‘homem’.

Ricardo Costa realiza unha obra non exenta dun fondo sentido poético, mesmo con momentos de abstracción. Coñecedor da obra de Mauss, o filme aparece ‘impregnado’ de sentido etic, en que a expresión pura, científica e núa da realidade prima sobre calquera intención ou propósito, mesmo o de ‘preservar’ un modo de vida condenado á extinción irremediable. De aí a extrema calidade desta obra.

Este filme, cheo de encanto, é unha marabillosa xoia que resulta da loita entre cinema directo e tentativa ficcional. Recomendamos encarecidamente o seu visionado e agradecemos aos xerentes do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro a súa laboriosa e complicada localización e recuperación e a oportunidade que tivemos de poder gozar dun produto cultural trás do que había tanto tempo que andabamos.

 

Retirado de:

 www.academia.edu/6875499/_Montes_Laboreiro_Palmilhando_uma_raia_carregada_de_séculos

 


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