Sábado, 19 de Maio de 2018

DENÚNCIA CALUNIOSA

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PREFÁCIO

 

É lugar comum afirmar-se ter o homem dois patrimónios: moral e material.

Para quem seja, verdadeiramente, pessoa - e ser-se pessoa, no elevado e nobre sentido e significado do termo, é ter nítida consciência dos autenticos valores - ,a honra está infinitamente acima do património físico.

Eis uma verdade, infelizmente, que muita gente não compreende.

Quem mente para conseguir vantagens materiais de qualquer espécie: dinheiro ou libertar-se de concorrente, ou cevar ódio vesgo, a título de exemplo, não é, própriamente, pessoa.

Ao fazer isso aliena a qualidade mais nobre do ser humano para se identificar com o bruto.

Os burros batem-se para afastar concorrentes da cevada, servindo-se de dentes e patas.

Os cães, na disputa do osso, fazem-se luta de extermínio.

Pois bem:

Todo o homem que lança mão de quaisquer armas, as mais abjectas, como o são a calúnia e a mentira, mostra identificar-se com aqueles animais.

Como é grande a multidão dos bandidos e porque se tornaram relaxados, não podendo já esconder a torpeza dos seus actos, procuram, por lhes parecer justificação, intitular-se pessoas de carácter actualizado.

Há pessoas em quem se descobrem os característicos sinais da coleira, com que foram ou são presos pelo dono.

Houve, há e haverá sempre escravos, enquanto existirem homens à superfície da Terra, e se não operar profunda alteração nas consciências.

Vistas bem as coisas, a afirmativa de que o homem é livre não passa de figura de retórica.

Porém, hoje em dia, só é escravo quem nasceu para sê-lo.

Uma questão de qualidade.

Observando atentamente os agrupamentos humanos, somos, imediatamente, conduzidos a dividi-los em duas grandes categorias:

1 - os que nasceram para escravos ou desprovidos de personalidade; e

2 - os que nasceram para homens livres ou dotados de forte personalidade.

Prosseguindo no estudo, logo somos levados à conclusão de que é enorme o número daqueles e pequeno o destes.

E de que a existência dos escravos implica necessáriamente a dos tiranos.

Depressa assentamos que estes formam legião.

Depois disto, podíamos fazer classificação, trabalho de grande envergadura, a assumir proporções de tratado.

Não vamos, porém, tão longe.

Apenas consideraremos o tirano própriamente dito e o tiranete.

Os tiranetes formam enxame,

Peguemos em um tiranete, à sorte, o primeiro que apareça, e sujeitemo-lo a cuidadoso estudo analítico.

Averiguemos do ambiente familiar em que foi gerado, nasceu e cresceu, dos trabalhos a que se dedicou, numa palavra, de todo o seu passado.

Pequena será a demora em concluir ser ele de mau sangue, da pior educação, nado e criado em baixa atmosfera moral.

Mas, se alguma dúvida puder restar no nosso espírito, façamos a prova real, submetendo-o a exame físico, observando-lhe pescoço e costado.

É fatal: descobrimos-lhe sinais, mais ou menos disfarçados, mais ou menos antigos, da coleira.

E ficamos edificados: trata-se de antigo escravo.

Por mera questão de interesse puramente científico, já que se está com a mão na massa, observemos-lhe o lombo.

Descobrimos, pela certa, vestígios, mais ou menos remotos, mas bem característicos, dos estragos produzidos pelo fardo.

De posse de todo este material, sempre positivo e concludente, chegamos a esta verdade científica: o sujeito foi escravo.

É de notar que o analista ao proceder a todos estes trabalhos não foi capaz de descobrir o mais insignificante vestígio de chá em todo o passado do paciente.

Nem pitada!

A metamorfose da larva escravo para o insecto tiranete é uma questão de enriquecimento, conseguido à custa dos mais baixos processos, de todos os métodos.

Sobre enriquecimento, urge distinguir entre dois verbos diferentes: ganhar e juntar.

Ganhar supõe profissão, trabalho honrado. Lucro lícito; juntar supõe roubo, espoliação, expediente.

Ganhar é claridade; juntar, escuridão.

O primeiro significa morosidade; velocidade o segundo.

Ganhar é percorrer caminho liso, para jamais chegar ou chegar tarde à meta: Fortuna; juntar é velocidade através de todos os caminhos, esmagando obstáculos, todos os obstáculos, até à Fortuna.

O junto é feito de lágrimas, sangue, traição, contrabando, fraude, mentira, espoliação e abuso.

Infelizmente, nos maus tempos que correm, ter significa valer.

E tiranete, linguísticamente, vem a significar novo rico.

Esta prestidigitação pela qual o escravo se volve tiranete mete batota.

Aqui é impossível afirmar-se não ter havido nisso trampa ninguna, como de ouve, a outros propósitos, aos espanhóis.

Nesta metamorfose há sempre trampa.

Muitíssima trampa.

 

DENÚNCIA CALUNIOSA

José Joaquim de Abreu

Edição do autor

1957

pp. 5-8

 


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Sábado, 21 de Abril de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS

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Certo dia, como se fora um qualquer lunático, passou-me pela cabeça continuar «Os Lusíadas», obra escrita por Luís Vaz de Camões no século XVI. Se ele, em circunstâncias assaz difíceis, sem a preciosa ajuda dos computadores e seus programas, sem livros de história ali à mão, sem dicionários, sem enciclopédias, sem nenhuma biblioteca de apoio. Conseguiu levar a cabo aquela imensa epopeia, aquele monumento literário, aquele alforge de saber e imaginação, também eu, ser humano como ele, poderia construir algo parecido. Acontece que génios como Camões só surgem no planeta de cem em cem mil anos; logo, teremos muito que esperar e desesperar. Os seus vastos conhecimentos, a sua capacidade de apreender tudo aquilo que o rodeava, as suas leituras da juventude, a sua vivência, a sua escrita empolgante, são irrepetíveis. Apesar de saber tudo isso, vou dar início a este louco empreendimento, sabendo de antemão que vai ser obra pequena, defeituosa, inacabada. A vida é assim, não se pode parar. Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco na prosa, Amália Rodrigues no fado, José Afonso na canção, Travassos, Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo no futebol, Livramento nos patins, Joaquim Agostinho no ciclismo, Carlos Lopes, Fernando Mamede, e Rosa Mota no atletismo, etc., foram figuras cimeiras na sua arte, na sua profissão. No entanto, outros artistas foram bons, ou aceitáveis, sem contudo atingir a perfeição dessas estrelas. «Parar é morrer», já diziam os nossos antepassados. Por isso, mãos à obra. A história de Portugal é riquíssima, há muita matéria-prima a explorar. Quem sabe se esta ousada iniciativa não irá estimular alguém com mais talento e saberes do que eu? Aguardemos.

 

Em mil e quinhentos sai do Restelo

A frota comandada por Cabral;

Os navios levam pão, chirelo,

Muita carne, conservada em sal…

Iam em busca de terras, dum selo,

Para a nobre causa de Portugal.

Descobriram, “por acaso”, o Brasil,

Rico de matas, ouro, rios mil.

 

………………..

 

Vou abraçar os meus velhos amigos,

Se é que ainda algum por lá mora;

Comerei com eles belos formigos,

O estonteante doce de amora;

Fumeiro, vinho, são ora inimigos,

Mas por eles nosso paladar chora.

Os anos destruíram nossa mente,

Oxalá dê fruto nossa semente.

 

 

OS NOVOS LUSÍADAS

(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

Janeiro 2018

pp.5, 29, 180

 

Joaquim A. Rocha edita o blogue Melgaço, Minha Terra

 

 

 


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Sábado, 24 de Março de 2018

UMA VISITA ÀS RUINAS DO REAL MOSTEIRO DE FIÃES

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PROEMIO

 

Um dia, folheando ao acaso o trabalhoso diccionario de Pinha Leal, intitulado Portugal Antigo e Moderno, n’elle deparei e li, este emocinante trecho:

»Leitor, se tens um coração portuguez, se a luz divina se não apagou totalmente em tua alma; se respeitas a memoria de teus passados – dos que te deram uma patria, um lar, uma família; e se algum dia viajares pelo Alto Minho, não deixes de visitar as tristes ruinas do Convento de Fiães; e alli, qual outro Mario, contempla respeitoso estes restos venerandos da fé e piedade do nossos maiores, e chora sobre as ruinas d’este testemunho de suas crenças inabalaveis.»

  

Alli, onde o incenso se elevava dia e noite em perenne adoração ao omnipotente; onde a toda a hora se ouvia o plangente som do orgão, os cantos sagrados dos religiosos e do povo; alli, refugio predilecto dos que no mundo soffriam attribulações; alli finalmente a casa de Deus, em que a piedade tinha amontoado prodigios sobre prodigios de magnificencia, de fé, de caridade – que vemos hoje?

«Ruinas, devastação, silencio, horror!

«As silvas e os cardos invadem os marmores de suas aras santas.

«Os reptis immundos revolvem as ossadas venerandas de varões illustres.

«As aves nocturnas pairam sobre as abobadas, e fazem seus ninhos sobre os brincados capiteis de suas columnas dez vezes seculares.»

 

Surprehendido com esta suggestiva linguagem, que tocava tão directamente a minha sentimentalidade, - fiz logo, um voto de ir a Fiães, se algum dia visitasse essa zona previlegiada do meu paiz, - por muitos chamada: - O jardim de Portugal.

Iria, não para imitar o proscripto Mario, que sobre as ruinas fumegantes da cidade phenicia, chorava os extremos a que a oratoria implacavel de Catão, a tinha reduzido; - mas, para traduzir n’essas desmoronadas pedras, - uma pagina da historia do passado.

 

UMA VISITA ÀS RUINAS

DO

REAL MOSTEIRO DE FIÃES

Guilh. Oliveira

Livraria Ferreira

1903

pp. 7-9

 

 


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Sábado, 23 de Dezembro de 2017

NOTÍCIAS DO REENCONTRO

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DIÁSPORA

 

Trazem a poeira longínqua das estradas

e a pressa de erguer a casa.

 

Trazem o suor das usines

e a solidão alta dos guindastes.

 

Trazem a memória de subir a corda

e cortam o pão com a mesma força

de quem vingasse um passado recente.

 

Eles são a esperança,

o peso da consciência,

a sombra de si próprios.

 

Em seu nome erguem-se as estátuas

honram-se os santos e

talvez um dia se proclamem os feriados.

 

Partem sempre depois de cada agosto

com o pintor das uvas.

 

E recomeçam.

 

 

NOTÍCIAS DO REENCONTRO

                 (Poemas)

Castro de Melgaço

Edição do autor

1991

 


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Sábado, 28 de Outubro de 2017

VIL PERSEGUIÇÃO A UM ADVOGADO POR UM DELEGADO DO M. PÚBLICO

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DURAS REALIDADES

 

Devido a vil e selvática perseguição que me moveu um incrível Delegado do Ministério Público foram terríveis em sofrimentos os três últimos anos, para mim e para os Meus.

Durante a desatinada perseguição fui vexado, depois preso, cometendo-se sórdidos e imperdoáveis abusos.

Minha Mulher, meu Filho, meu Irmão e meus Cunhados, com grande coragem e amizade, viveram intensamente os meus desgostos.

Minha saudosa Mãe, idosa, depois que soube da prisão, apenas me pediu que não mais repousasse, até perfeito esclarecimento do caso e castigo dos perseguidores.

Ela que tanto apreciava a conversa, nunca mais falou.

Seis horas antes da morte, fez extraordinários esforços para me dizer qualquer coisa.

Já não podia falar.

Percebi que me queria repetir a sua recomendação.

 

É do conhecimento de toda a gente que todos quantos trabalham na Justiça têm muitos inimigos.

O bandido nunca mais pode perdoar ao Advogado acusador e ao Juiz que o condenou.

Mais:

É sabido que quando o Advogado recebe procuração para qualquer causa, a parte contrária fica zangada.

Esta falta de compreensão é, infelizmente, quase geral.

Inimigos ocultos, a quem sómente a cobardia faz encolher as garras, vivem agachados.

Se encontram momento para, impunemente, cevar os seus instintos, surgem, então, rugidores.

Um grande e humaníssimo Juiz de Direito, o saudoso Doutor Eduardo Marques Correia Simões, arrebatado pela morte no melhor da sua vida e carreira tinha condenado um bandido numa pena insignificante.

Quando este soube do seu falecimento, atreveu-se a bolsar infâmias contra o grande e bondoso Magistrado, calando-se logo, por ser obrigado a fazê-lo.

Cobardias deste quilate são vulgaridade.

 

Há poucos meses, no decurso de um julgamento em Tribunal de Lisboa, um Advogado foi acometido de súbita e fulminante doença.

Quando a parte contrária se apercebeu de que tinha morrido, despejou esta frase: »Bem feito».

Eu, Advogado nesta Comarca há muitos anos, tenho, como não podia deixar de ser, quem me deteste.

E não são, apenas, aqueles, a quem um dia, no cumprimento do dever profissional tivesse atacado.

Além desses há a horda dos invejosos, a pulular neste meio.

E o ódio que assenta as suas raízes na inveja é feroz.

Logo que se soube da minha prisão, deslocou-se para junto de minha casa um mulherão disforme, autêntico saco de fezes, postando-se, na ponta dos pés - uns pés fenomenais -, para ver sair minha mulher, mostrando satânica alegria na caraça hedionda.

 

Mas nem tudo é mau neste mundo.

Afinal, toda a moeda tem o seu reverso.

O vulcão, que faz cuspir a porcaria da lava, descobre, tantas vezes, preciosidades sem valor, que a Terra esconde no seu seio.

Assim nos grandes infortúnios surgem os Amigos de todas as horas, tão bons como nossos irmãos; aparecem as almas bem formadas, que expontânea e veementemente se revoltam contra as infâmias; pessoas de relações cortadas connosco tomam atitudes reveladoras de carácteres de eleição.

Se não fora o mal irreparável que os grandes infortúnios causam à vida dos Nossos e também à nossa, cifravam-se, afinal, num bem.

Ficamos a ver mais claro nesta coisa escura que é a vida social.

 

VIL PERSEGUIÇÃO A UM ADVOGADO POR UM DELEGADO DO M. PÚBLICO

 

José Joaquim de Abreu

Edição do Autor

1955

pp. 5-7

 

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dr. josé joaquim de abreu 

 


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Sábado, 21 de Outubro de 2017

UM DE CAÇADEIRA E OUTRO DE CACETE

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CORREIO DE MELGAÇO Nº 149, DE 16/5/1915

 

Um meliante qualquer, de Paderne, do qual não se sabe o nome, que trabalha há tempos em Espanha, roubou, a 14/5/1915, a Manuel José Fernandes, proprietário de Alvaredo, um redeiro, que aquele cidadão tinha a secar perto do rio Minho. Preso, com o objecto roubado, foi conduzido a esta Vila por dois cabos de polícia, daquela freguesia, um armado com espingarda caçadeira e o outro munido de um bom cacete. O atrevido gatuno, porém, ao chegar a Galvão de Cima, perto da Vila, deu ás de Vila Diogo, deixando os representantes da autoridade de cara… à banda! O cabo da polícia que trazia a arma caçadeira ainda deu ao gatilho por duas vezes, mas… cruel decepção! a arma era velha e para maior infelicidade estava descarregada, não podendo fazer fogo sobre o gatuno que – auxiliado pelas rijas gâmbias – atravessou campos e o regato de Prado, pondo-se em bom lugar. Os seus perseguidores ainda tentaram procurá-lo pelos campos de centeio, mas em vão o fizeram, pois não o viram mais. Resolveram então vir contar o caso ao administrador do concelho e fazer-lhe entrega da rede roubada, que o meliante tinha deixado como recordação.

 

 

CORREIO DE MELGAÇO, 14/12/1916

 

Na noite de quinta-feira, 14/12/1916, foram lançadas duas bombas, uma à porta da estação telégrafo-postal e administração do concelho, outra à porta de casa da residência do administrador do concelho.

Foi, sob prisão, à administração do concelho, Manuel José Fernandes, por se suspeitar que estivesse ligado ao atentado de 14/12/1916 contra o administrador Joaquim de Sousa Alves; voltou para casa horas depois.

 

 

Retirado de:

                  Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                  Volume I

                  Joaquim A. Rocha

                  Edição do autor

                  2009

                  p.227

 

Joaquim A. Rocha é o editor do blog Melgaço, Minha Terra

 

 


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Sábado, 30 de Setembro de 2017

O MOSTEIRO DE S. SALVADOR DE PADERNE

 

 

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Quando, há um ano, se procedia à inventariação e catalogação dum acervo precioso de documentos avulsos dos séculos XVII e XVIII existentes na Secção de Manuscritos do Arquivo Distrital de Braga, descobrimos, num maço de prazos de casas sitas em Ponte de Lima, uma «Carta de Sentença» de 1627 e relativa à demanda que opôs, como autor, o Mosteiro de S. Salvador de Paderne ao réu Gregório de Mogueimas Fajardo, senhor da Quinta de Pontiselas e descendente do «primeiro comendatário de Paderne», segundo Felgueiras Gaio.

Testemunho inédito desta demanda até agora ignorada, o documento descoberto possui também outras informações relevantes, que justificam plenamente a sua análise e que podem ser incluídas em três grupos: no primeiro estão os dados de carácter económico envolvidos na descrição do valor e natureza da renda causadora do litígio; no segundo temos as referências à localização e origem das Casas da Quinta de Pontiselas, que ainda hoje existem apesar das grandes alterações sofridas e que constituem na sua singeleza uma peça valiosa do património arquitectónico melgacense e no terceiro encontram-se os nomes, os quais serviram de ponto de partida ao esboço genealógico da família do réu.

Seguindo a peugada dos teóricos da «História Nova» convém defender o uso, no âmbito da historiografia nacional, da análise globalizante dos documentos, que consiste em extrair das fontes a trama de relações, problemas e referências aí contida.

 


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Sábado, 2 de Setembro de 2017

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

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Ao escolher este tema para o meu primeiro caderno sobre a história e arte das magníficas Pontes que ligam as margens do rio Laboreiro e seus Afluentes, o meu coração de Castrejo bateu mais apressadamente do que é normal: pois tomei uma tremenda responsabilidade perante os meus conterrâneos, quando resolvi soletrar algumas das mais belas páginas do seu rico património histórico e artístico, cujas folhas, constituídas por duro granito da região, continuam a desafiar o tempo e cujas idades se medem por 20 e 8 séculos respectivamente. Apesar da sua já longa existência guardam na sua própria estrutura a mesma grandeza do passado. Por elas passaram os Castrejos de, há já 2.000 anos, e ainda hoje as utilizam para transporem os volumosos cursos de água, no inverno, e os caudais límpidos no Verão. Situada numa grande bacia hidrográfica, esta vetusta freguesia conserva no seu longínquo passado lindas e numerosas pontes que a ligam às civilizações Celta, Romana e Medieval. Embora a sua maior parte haja sido classificada pelo Instituto Português do Património da Cultura, umas como Monumentos Nacionais e outras como Imóveis de Interesse Público, estou certo de que vale a pena descrevê-las em todos os seus pormenores, fazendo o levantamento fotográfico da cada uma, especificando o estilo utilizado na sua construção, com as medidas precisas de altura, comprimento e largura, as vias de comunicação que ligavam e o tempo aproximado da sua construção. É uma tarefa bastante custosa para mim, mas faço-o com o máximo interesse e carinho; pois estas obras de arte e história fazem parte do povo, de quem nasci, e cujo curriculum vitae constitui para mim motivo de orgulho. Os meus defeitos, as suas virtudes estão intimamente ligados ao meu carácter, à minha personalidade. São raízes de um passado, que não volta. Pelo estudo dos seus históricos Monumentos podemos facilmente aquilatar a grandeza e antiguidade da sua civilização. Esperançado em que este meu despretensioso trabalho concorra para um conhecimento mais completo e profundo das antiguidades de Castro Laboreiro, das suas paisagens e das suas gentes, vou iniciar o meu trabalho.

 

Castro Laboreiro, 10 de Julho de 1984

 

Padre Aníbal Rodrigues

 

 

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

 

Autor: Padre Aníbal Rodrigues

 

Edição: Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 2

             CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

1985

 


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Sábado, 5 de Agosto de 2017

VERTIGENS

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    (…)

    E aí, de novo, entronca sem dúvida a ideia de “circulação”, desde os sentimentos, repete-se, à estrutura mobilizante de coisas, produtos e mercadorias, da fábrica que se perfila no horizonte económico possuído e a desenvolver (a tinturaria de Sérgio), às relações entre personagens donde nunca está ausente o factor económico, mais ou menos condicionante (à excepção da personagem João Parra) das suas vidas.

    (…)

    Nos seus esforços de “integração” ou adaptação a um quotidiano banal de onde não sabe bem como sair, mas adquirindo sobre isso a firme noção de querer sair e ter de sair, a fuga pelo devaneio desemboca sem consumação no incesto latente, potencial porque sempre sufocado e escamoteado mas que dir-se-ia quase desejado, numa cena (das mais poderosas do livro) em que a dimensão onírica da escrita e da sua descrição fazem surgir um dos mais impressivos e fortes momentos de todo o romance.

    (…)

 

                                                                                                                                    (do Prefácio)

 

 

Vertigens

 

Manuel Beites

 

Edições Triunvirato

 

2005

 


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Sábado, 15 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA I

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O PRIMEIRO RETRATO

 

Um dia o pai escreveu a dizer que não viria a casa tão cedo. Embora já tivesse os documentos em ordem era necessário aproveitar o tempo, porque as coisas estavam a correr bem. Por isso gostaria de ter uma fotografia do filho, para andar com ela na carteira.

O Manuel perguntou à mãe aonde se tirava o retrato.

- Em Melgaço – respondeu. Nos dias de feira aparece na Vila um que tira retratos à “la minuta”, mas ao fim de pouco tempo ficam apagados. Por isso, só o Pires em Melgaço é de confiança.

- E quando podemos ir? – perguntou.

- Talvez no mês de Maio, porque os dias são grandes e dão para ir e voltar com sol.

- E por onde vamos?

- Alguns vão a pé, pela estrada em construção, até Lamas e depois apanham uma camioneta, mas às vezes é preciso esperar muito tempo antes de aparecer alguma. Outros, ao chegarem ao fundo das Lobagueiras, viram para a Alcobaça e seguem o caminho antigo, pelo Outeiro da Loba. Embora ruim, é quase metade da distância e há muitas sombras. Vou falar com a filha do tio Albano e se nos juntarmos três ou quatro ela pode levar a mula, aproveitando para trazer coisas necessárias à loja do pai. Quando te sentires cansado podes montar a cavalo.

- Está bem, mai. Antes quero ir pelo caminho porque não gosto de me encafuar na caixa da camioneta, debaixo do toldo, no meio dos pipotes e dos animais, cheio de calor e sem ver nada.

- Então vou combinar com ela o dia e falar com as irmãs Pinheiro, porque há tempo falaram em irmos todas. Depois trata-se do problema dos animais.

A viagem tinha de ser cuidadosamente preparada, porque estando um dia inteiro fora de casa era necessário informar a pegureira para abrir a porta da côrte e juntar a rez ao rebanho colectivo que iria pastorear. Ao fim da tarde, no regresso, teria de recolher os animais e fechar a porta.

Por outro lado, as vacas não podiam ficar encerradas todo o dia. Falaria com a tia Calças para as levar a pastar com as dela. Quanto aos restantes animais deixava-lhes comida para o dia todo.

Entretanto as duas irmãs confirmaram a ida e em conjunto acordaram o dia, combinando a saída para muito cedo, a fim de evitar a força do calor, sobretudo por causa das crianças.

Na véspera, à noite, a mãe preparou a merenda com presunto, peixe frito, chouriço e pão centeio, juntando uma bota com água, colocando tudo numa cestinha de vime.

Ainda de noite, a mãe acordou-o porque tinha de se vestir. A muito custo conseguiu levantar-se, lavou-se e, ajudado pela mãe, vestiu a roupa nova. Em seguida comeram o almorço, feito de papas de pão e batatas cozidas no molho dos torresmos fritos e bem tostados, espalhando um cheiro apetitoso. Apesar da hora madrugadora, a mãe recomendou-lhe para comer também o caldo de leite, pois só deveriam voltar a comer cerca das 9 horas, quando já tivessem percorrido grande parte do caminho.

Muito antes do romper do dia as quatro mulheres e as duas crianças estavam a caminho de Picotim, em direcção a Portelinha e daí rumo a Alcobaça seguindo o leito da estrada em fase adiantada da construção. Já tinham ultrapassado aquele lugar quando o sol nasceu.

Olhava com alguma curiosidade para o vale do rio Trancoso que nascia em Portelinha e, demarcando a fronteira com a Galiza, corria encosta abaixo até lançar-se no Rio Minho. Uma névoa azulada deixava ver algumas povoações espalhadas ao longo das encostas. Do lado português a configuração do terreno limitava o campo de visão, só deixando aperceber as aldeias quando já estavam muito próximos, enquanto na encosta espanhola o declive era menos acentuado e permitia alcanças as povoações distribuídas ao longo da mesma, com telhados e paredes de tijolo de cores desbotadas.

Iam descendo e reparava nas mudanças da vegetação. Além das giestas e silvas, começaram a aparecer muitos pinheiros e castanheiros, em vez dos carvalhos e vidos, únicas árvores grandes abundantes em Castro.

A determinada altura do trajecto, depois de abandonarem o vale do rio fronteiriço, surgiu à sua frente uma paisagem diferente. A encosta apresentava-se escalonada em patamares de verdura. O primeiro, formado pelas latadas das videiras, continuava a um nível mais baixo, pelos campos de milho, hoetas e batatais, ladesdos por tufos de pinheiros e várias árvores de fruto, que formavam o terceiro nível. De vez em quando o relógio de uma torre batia as horas. Mais abaixo avistava-se um conjunto grande de casas à volta do castelo, com uma torre, e cercado por um cordão espesso de nevoeiro. Era Melgaço! Por cima daquele rolo, aparecia outra encosta verdejante e também pejada de casas. Escondido pelo nevoeiro cerrado corria o Rio Minho, marcando a fronteira e por isso a encosta em frente era galega, explicou a mãe.

A curta distância até Melgaço, sempre a descer, foi percorrida em pouco tempo por caminhos atravessados de cobertos de videiras amarradas a postes de pedra e arames, formando as latadas. Finalmente, entraram em Melgaço! O caminho com mais de três léguas fora percorrido em menos de quatro horas.

Dirigiram-se a uma conhecida onde iriam comer porque dispunha de um quintal para guardar a mula enquanto tratavam dos assuntos objecto da sua deslocação à Vila. Aproveitaram para descansar um pouco e compor as roupas das crianças em total desalinho devido à longa viagem. O Manuel transpirava por todos os lados, trazia a camisa branca encharcada.

A mãe ajudou-o a lavar-se e penteou-lhe o cabelo rebelde, amaciando-o com um pouco de água com açúcar. Já com melhor aspecto dirigiram-se ao atelier do Pires onde teve de submeter-se a novos retoques, determinados pelo fotógrafo.

- Ó senhor Pires, este é o primeiro retrato do rapaz, para mandar para França. Veja se fica em condições! – recomendou a mãe.

- Muito bem. Vamos então tratar disso. Bom…Bom…Chegate aqui. Começamos por colocar esta gravata. Fica melhor, não? Perguntou à mãe. Agora vais subir para aquele banquinho O Pires olhou através da máquina e concluiu faltar mais um acerto.

- Segura neste ramo – disse, entregando-lhe um galho de cameleira. Endireita as costas e olha para aquele canto por cima da máquina. Quando eu disser fazes um sorriso.

Apesar do esforço o artista não conseguiu fazè-lo sorrir. O cansaço da viagem e o pouco à vontade, juntamente com o calor, não ajudavam a aparência de uma satisfação não sentida. Ao fim de várias tentativas o Pires disparou a máquina.

Seguiram-se outras fotografias e ainda uma de conjunto entre os companheiros de viagem. As fotografias estariam prontas por volta das duas da tarde. Saíram para fazer as compras e depois almoçarem. Na rua, afrontado pelo calor, admitiu nunca ter imaginado que tirar um retrato fosse tão complicado!

 

(continua)

 


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