Sábado, 9 de Fevereiro de 2019

ERA UMA VEZ...

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A INÊS NEGRA

LENDA DE MELGAÇO

Era uma vez…

 

… Antigamente, havia muitas lutas e batalhas entre Portugueses e Espanhóis, porque ambos queriam ser donos das melhores terras! Numa altura em que Melgaço pertencia a Espanha (Castela), travou-se uma dessas batalhas, em que dentro das muralhas estavam os soldados de Castela, a tentar proteger as terras, e fora das muralhas, os soldados Portugueses, que tentavam reconquistá-las!

Apesar de primeiro terem tentado chegar a acordo, para evitar conflitos, os Reis não se entenderam, e por isso o Rei de Portugal acabou por decidir atacar as muralhas! Mas entretanto, uma mulher, a quem chamavam de Arrenegada por ter preferido ficar do lado de Castela, encheu-se de orgulho e de coragem, e decidiu desafiar uma outra mulher, que vivia fora das muralhas, Inês Negra.

 

Inês era uma mulher do povo, que tinha abandonado Melgaço quando esta Vila se pôs ao lado do Rei de Castela. A Arrenegada desafiou Inês para uma luta entre as duas, e com a concordância dos dois Reis, ficou decidido que quem ganhasse, ficaria dono das terras de Melgaço!

 

No dia da luta entre Inês Negra e a Arrenegada, toda a gente veio assistir, cada um gritando pela sua favorita, como num jogo de futebol, em que cada um grita pelo seu clube! A luta foi forte, com armas, unhas e dentes, ora uma parecia ganhar vantagem, ora a outra, até que finalmente, se ouviu um forte grito… por breves momentos, ninguém conseguiu perceber o que estava a acontecer, até que a Arrenegada se levantou e fugiu para o castelo, escondendo as nódoas e o sangue com as suas mãos! Inês Negra venceu!

 

Com a vitória de Inês, os soldados castelhanos abandonaram as muralhas, praticamente sem oferecer resistência, e Melgaço voltou a ser de Portugal!

 

LENDAS ENCANTADAS DO VALE DO MINHO

LIVRO DE CONTOS TRADICIONAIS E ACTIVIDADES

Edição: Associação dos Municípios do Vale do Minho

2011

 www.valedominho.pt

 


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Sábado, 19 de Janeiro de 2019

ANTÓNIO IGREJAS, AS DAMAS E OS AZULEJOS

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antónio eduardo igrejas - 1998

 

ESPAÇO DAMISTA – 1994

(separata da Enciclopédia Damista do Dr. Sena Carneiro)

 

RETRATO DE FAMÍLIA

 

Nome: António Eduardo Igrejas

Nascimento: Melgaço

Data de Nascimento: 7-8-1920

Profissão: Artista Plástico

Estado Civil: Casado

Filhos: Um, do sexo feminino

Sigla: As três primeiras vogais - AEI

 

CURRÍCULO DAMISTA

 

Director Técnico: O Carola

Seccionista: Jornal Século Ilustrado

Seccionista: Revista Vamos Decifrar

Colaborador: Enciclopédia Damista

Colaborador: Jornal Estado de S. Paulo

 

Conseguimos, por acaso do destino, adquirir um quadro raro que permanece no Brasil. Estávamos nós à conversa quando saltou a notícia de que António Eduardo Igrejas viria brevemente a Portugal. Não podíamos perder a oportunidade de entrevistar esse senhor das Damas Clássicas que, com os seus quase oitenta anos, passou no seu país natal apenas a primeira metade da sua vida, já que a outra metade a tem vivido no Brasil. Quando menos esperávamos, Mário Diniz Vaz telefonou-nos a informar de que ele já havia chegado e havia seguido para Melgaço. Conseguimos descobrir o número de telefone e ligámos. Do outro lado do fio Eduardo Igrejas acedeu a encontrar-se connosco mal regressasse a Lisboa. E assim foi. Combinou-se um almoço em que também esteve presente, Carlos Ferrinho, igualmente a viver no país irmão.

 

Desde há muito que desejávamos conhecê-lo. Há quanto tempo não vinha a Portugal?

Antes do mais quero-lhe dizer que o fazia pessoa para a minha idade… Quanto à sua pergunta devo dizer-lhe que nos últimos seis anos vim até cá três vezes. Mas anteriormente estive práticamente quarenta anos sem pisar terras portuguesas.

 

E em que sítio específico vive?

Vivo no Estado de S. Paulo e moro num bairro que embora localizado numa área suburbana, se torna muito agradável por ser habitado por imensos portugueses. Uns foram chamando os outros e tornou-se numa grande comunidade.

 

Pode-se saber o que o levou a abandonar Portugal e em que data o fez?

Havia abandonado Melgaço, aos vinte e sete anos de idade, com rumo a Lisboa onde permaneci sete anos. Mas também não era fácil viver na capital e as dificuldades económicas eram grandes. O meu irmão, um artista de pintura sobre azulejo, já vivia no Brasil e convidou-me a ir trabalhar com ele. Decidi mudar de vida e aceitei o desafio. Parti em Novembro de 1954. Sempre adorei o desenho e a pintura e facilmente aprendi a arte.

 

O que sente ao visitar o País onde nasceu e a cidade onde residiu?

Estar em Portugal é sempre agradável e Lisboa recorda-me tempos em que frequentava o Nacional e o Martinho. Nessa altura jogava todos os dias as Damas Clássicas e entrei em vários torneios. Devo confessar que me perdia com o jogo que para mim constituía um verdadeiro vício. A família era prejudicada com isso e quando fui para o Brasil prometi a mim mesmo nunca mais entrar em competição, pensando mesmo em abandonar a modalidade. Mas o micróbio das Damas é inexorável e continuei a jogar por correspondência e a enviar trabalhos para a Enciclopédia Damista. Colaboro nesta revista desde 1971.

 

A propósito da sua colaboração com a Enciclopédia Damista recordo alguns comentários que refletem uma crítica muito dura. Talvez mesmo destrutiva…

Reconheço que sou um pouco temperamental. Mas sempre que critiquei alguém foi visando o damista e não o indivíduo. Certas pessoas pensam saber tudo sobre Damas. E sai disparate.

 

Quando e como se iniciou a sua paixão pelas Damas?

Comecei a jogar com apenas seis anos de idade. Tal como outros entrevistados também eu fui estimulado pelo meu pai a jogar as Damas. Mas comigo aconteceu pela negativa. No dia em que ganhei fui reprimido… Mas o prazer de exercitar o raciocínio foi mais forte.

 

E actualmente o que faz no Brasil, damisticamente falando?

É uma história que começou há quase trinta anos. Desde 1955 que me havia dedicado ao problemismo quando, em 1970, fui contactado por Carlos Ferrinho, um português natural de Monção. Ele tinha sido convidado como responsável da secção de Damas Brasileiras do jornal O Estado de S. Paulo, para substituir Bakumenko, um exilado russo que acabara de falecer. Ferrinho percorreu uma imensidão de quilómetros propositadamente para me conhecer e… convencer a ajudá-lo na área do problemismo. Acabei por aceitar o convite e cá ando! Tenho colaborado o mais que posso e orgulho-me de ter contribuído para a enorme evolução que o problema teve em todo o Brasil. Adaptei imensos temas às Damas Brasileiras e, juntamente com Ferrinho, fui fundador da Associação de Problemistas de Damas. Fizemos mesmo uma Revista artesanal que se denominava APD.

 

Dada a sua idade, depreendo que se encontra reformado.

Reformado, só do jogo prático. Continuo a trabalhar normalmente na pintura sobre azulejo. Gosto de pintura colorida que é mais alegre do que a clássica, a azul e branco. Sabe, o povo brasileiro é um povo alegre e aprecia mais as cores multifacetadas. Olhe, pode observar através desta fotografia um recente quadro meu, intitulado A Sagrada Família.

 

Embora afastado, acompanha a nossa actividade. Quem é para si o melhor jogador?

Para mim, o melhor jogador é aquele que utiliza mais o raciocínio. A memória, só, não chega. Não basta dizer que determinada posição é conhecida como empatada. É necessário saber empatá-la. E os títulos nem sempre são boa bitola. Não é o resultado de dois ou três Torneios que definem um campeão.

 

Que projectos damísticos tem para o futuro?

A secção do Estado de S. Paulo tem sido um êxito e colaborou decisivamente na divulgação do Problema, no que respeita às características, concepção e nomenclatura. Há muita gente interessada pois a grande parte dos estados brasileiros é maior do que Portugal. Continuarei sempre às ordens do amigo Ferrinho, enquanto desejar a minha colaboração. Sei que Espaço Damísta o vai entrevistar, o que acho muito acertado, pois ele é uma autoridade, em Damas Brasileiras e Internacionais, principalmente no campo das Regras e da Arbitragem.

 

Espera, como a maioria dos emigrantes, voltar um dia a Portugal?

Não me considero um verdadeiro emigrante. Este, normalmente, parte para o estrangeiro com o objectivo de juntar algum dinheiro e regressar para fazer uma moradia, montar um negócio, reformar-se. Eu fui viver para o Brasil e não penso regressar. Bem vê, tudo o que tenho está lá; a casa, o trabalho, a família. O meu mundo está onde estão estas coisas.

 

Para saber mais sobre Damas http://tresedama.blogspot.fr

 

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casa de macau - tijuca - br

 

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vila isabel - br

 


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Sábado, 1 de Dezembro de 2018

DOS MUSEUS DE MELGAÇO

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museu do contrabando

 

A MEMÓRIA COMO PATRIMÓNIO: DA NARRATIVA À IMAGEM

 

  O município de Melgaço, em alternativa à criação de um único espaço museológico, tem optado pela criação de uma rede de pequenos museus. O núcleo museológico da Torre de Menagem e as Ruínas Arqueológicas da Praça da República têm, também eles, uma evidente conotação histórica, mas o «Espaço Memória e Fronteira» é o único que procura fazer uma ponte com o presente, isto é, que procura dar sentido e conteúdo à memória colectiva através da construção de uma narrativa em que a comunidade pode e deve rever-se. A junção do contrabando e da emigração no mesmo espaço físico e em semelhantes balizas expressivas faz por isso todo o sentido. Não só pela permeabilidade entre as duas actividades – em lugares de fronteira a emigração incrementa-se não tanto pela diminuição do contrabando mas pelas transformações internas da actividade – mas também porque congregam tópicos discursivos convergentes. As ideias de travessia, de clandestinidade, de enfrentamento dos perigos e da luta pela sobrevivência e melhoria das condições de vida para a família, contam-se entre esses tópicos.

 

Luís Cunha

Universidade do Minho, CRIA

2010

 


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Sábado, 20 de Outubro de 2018

MELGAÇO MEMÓRIA DOS TEMPOS PASSADO E PRESENTE

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A partir de Dezembro de 1982 e até princípios do século XXI, o ímpeto empreendedor que impulsionou o crescimento de Melgaço, foi verdadeiramente notável, pioneiro e arrojado a vários níveis.

Num enorme salto qualitativo para a modernidade, Melgaço posicionou-se à frente do seu tempo e, em muitos aspectos, à frente dos demais concelhos portugueses, em geral, e dos do Alto Minho em particular.

Ontem como hoje, o Município tem sabido acompanhar a contemporaneidade de discursos, abrindo portas à divulgação e projecção dos mais diversos eventos e criando equipamentos de grande qualidade para a fruição sócio cultural.

Muito do seu património edificado, acumulando vivências diversas e remotas na origem, readaptou-se e readapta-se às funcionalidades do tempo presente.

Como destino turístico, estadia de lazer ou local de negócios ou desporto, o diário de visita a Melgaço escreve-se com entusiasmo em qualquer época do ano.

As suas acessibilidades, as potencialidades de desenvolvimento e investimento; a exuberância das suas festas, sejam do Alvarinho e do Fumeiro ou da Cultura, respectivamente em Abril e Agosto de cada ano; o comércio, as unidades hoteleiras e de restauração; os eventos desportivos – com destaque para as diversificadas e polivalentes valências do seu Complexo Desportivo e de Lazer/Centro de Estágios de Melgaço e para o desporto aventura – organização da prestigiada Associação do Melgaço Radical – são motores propulsores do crescer social, económico e cultural do Município.

Talvez por isso, Melgaço foi considerado, entre 2004 e 2006, pelo Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, “um dos Municípios portugueses com maior qualidade de vida”. O inquérito, levado a cabo por uma equipa sob a responsabilidade do Geógrafo Doutor João Ferrão, analisou o desenvolvimento de Portugal através de 75 indicadores:

Ambientais,

Demográficos,

Sociais,

Culturais,

E económicos.

Melgaço entrou no século XXI para todo este compromisso de enlaces e pontos de interesse que fazem o engrandecimento e projecção, cada vez mais merecido, da região.

 

MELGAÇO memória dos tempos passado e presente 

J Marques Rocha

Edição do Autor

Patrocínio Câmara Municipal de Melgaço 

2007

 


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Sábado, 22 de Setembro de 2018

MÃES DO MINHO

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“Mães do Minho”, de rosto sulcado pela ausência de afago, ficaram nas aldeias, no vazio das casas, abraçadas pelo xaile negro da despedida, carregando o árduo amanho da vida.

Eles, os maridos e os filhos, partiram. Levaram como bagagem, a certeza da incerteza de tudo.

“Mães do Minho”, um pelouro de referência humana, testemunho de uma época, de gerações, reflectidas na memória do tempo, que o próprio tempo jamais apagará. Um tempo cinzento, denso, sombrio. Pedaço de história. Um espaço cronológico e social, onde o êxodo migratório e a guerra colonial se situam, como realidade mártir, feita de dor e de saudade. Vivência de um tempo, numa região, em que as dificuldades económicas e a conjuntura política, aliciaram estes homens dignos, mas carentes de dignidade, a descobrir novos mundos.

Mais do que um louvor, uma homenagem. “Mães de Minho”, é um cântico de amor nunca esgotado, a essas Mães, Mulheres Mães, de sorriso adormecido, enquanto ateiam o amor, em cada gesto cálido e nobre, tocado pela aspereza do pão que o diabo amassou.

São estas, as nossas Mães, as “Mães do Minho”, de braços sempre enternecedoramente abertos, à espera do nosso regresso.

Elas serão, eternamente Mães.

 

Às “Mães do Minho”, deixo a minha grata admiração, pela sabedoria, pelo exemplo de intemporalidade espiritual, que nos legaram.

Ao autor, Tino Vale Costa, também eu, na condição de Mãe, abraço-o, por este tamanho sentir…

 

                                                                                  Adelaide Graça

 

 

Mães do Minho

 

Diamantino Vale Costa

 

Edição Câmara Municipal de Melgaço

 

2000

 


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Sábado, 14 de Julho de 2018

O CRUZEIRO DE MELGAÇO

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cruzeiro de são julião

 

CRUZEIROS

 

 

No pequeno alfoz da sua freguesia quatro cruzeiros houve outrora Melgaço e embora alguns tenham sido mudados de local, ainda hoje todos se conservam erectos à veneração dos fiéis. Um, e é o principal por mais lindo, mais trabalhado e mais artístico, tem a forma do Piedade, pois numa das faces da cruz está esculpida a imagem de Cristo crucificado e na outra a de Nossa Senhora com o filho morto deitado no regaço. Representa o descimento da cruz. A coluna esbelta, elegante, está lavrada com alguns primores de arte e na base tem esculpida a figura da morte, representada por caveira humana.

Ignora-se infelizmente o nome do artista lavrante e o do quem lhe encomendou ou pagou o primoroso trabalho, pois no referido monumento nem a mais escassa informação se colhe. Em 1779 estava erguido no Campo da Feira de Fora, junto de uma morada de casas, cuja escadaria exterior dificultava a passagem das procissões à sua volta. Depois foi mudado para o Campo da Feira de Dentro e ficou mais ou menos no centro do largo.

Daqui o transferiu a junta de paróquia em 1867 para o adro da capela de São Julião, onde ainda hoje se conserva exposto à veneração de todos os fiéis, tendo sido declarado há anos monumento nacional. É este o cruzeiro da vila.

Assim foi conhecido sempre e ainda hoje essa designação tem e lhe pertence. Vem de longe, do século XVII, se é que não foi trabalhado nos fins do século XVI por qualquer daqueles artistas trazidos à terra pelo juiz de fora Gil Gonçalves Leitão para fazerem muitas coisas aqui não havidas e talvez nem sonhadas.

E isto se avança porque este cruzeiro estava situado no Coto da Pedreira, que era monte baldio pertencente à Câmara do termo, ali à entrada das Carvalhiças, e outro cruzeiro assim não havia. De mais a mais quando em 1703 Frei Domingos Gomes de Abreu quis erguer uma capela em honra de Nossa Senhora da Pastoriza escreveu em requerimento estas palavras, aliás com aparência de serem descabidas ao intento: «…quer este fazer-lhe a capela no Coto da Pedreira desta freguesia por ser lugar público onde costumam irem os clamores desta vila não havendo neste lugar mais do que uma cruz…»

Mas esta cruz era o cruzeiro da vila. Quem o diz nesse processo organizado na Mitra bracarense são os sucessivos párocos da vila então no uso do múnus de cura de almas: o P. João Dias dos Santos e o P. António Soares Falcão.

Aquele fá-lo por estas palavras: «…Digo que ao sítio vamos com as ladainhas aonde está o Cruzeiro desta vila fora da muralha…»

E este assim o diz: «Pretende o instituidor edificar a capela de que fez promessa no sítio chamado o Coto da Pedreira, que fica extra muros desta vila, onde está um cruzeiro ao qual vão em procissão nas ladainhas…»

Ora como a capela da Nossa Senhora da Pastoriza ocupou o sítio do Cruzeiro e as obras da construção, por circunstâncias várias, só vieram a fazer-se entre 1725 e 1727 esta obra nova acabou por impor a mudança do cruzeiro. Foi, possivelmente, por esta época que o Cruzeiro da vila veio das Carvalhiças para o local assinalado por documentos conhecidos, mas muito mais recentes: o Campo da Feira de Fora.

 

Publicado em NM de 18/3/1956

 

Obras Completas: Augusto César Esteves

Nas páginas do Notícias de Melgaço

Volume I Tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2003

pp. 551, 552

 


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Sábado, 30 de Junho de 2018

CAPELA DA NOSSA SENHORA DA ORADA

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A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ORADA

 

(NOTÍCIA HISTÓRICA)

 

Nos derradeiros anos do século XI, quando percorria em longas jornadas de instrução e de posse as terras do seu condado de Portugal, D. Henrique de Borgonha, o mais antigo obreiro da nossa nacionalidade, encontrou êrma e quási totalmente arrasada a povoação que depois devia renascer com o nome de Melgaço. Expulsos os moiros – que o ímpeto irresistível dos sucessores de Plágio continuamente rechaçava para o sul da Província – nenhum novo núcleo de população ali criara raízes; e até o castelo comarcão, que se dizia ter sido construído pelos invasores árabes sôbre os alicerces de um castro romano, apenas negrejava no seu morro como ruína quási informe.

Necessitando de concentrar tôda a atenção e tôda a actividade em emprêsas de maior vulto, o Conde D. Henrique não curou de repovoar aquêles sítios agrestes, que então podia julgar livres de qualquer perigo ou ameaça grave; ordenou apenas que a decrépita fortaleza mourisca fôsse benificiada com as necessárias obras de consolidação, a-fim-de assegurar, como cumpria, a defesa da terra, no caso de lá chegar, em dias futuros, alguma das temerosas contendas que desde os primeiros tempos da Reconquista perturbavam de quando em quando a vida política da Espanha cristã.

Assim esquecido, senão inteiramente abandonado, jazeu ali, durante muitos anos ainda, o alto e áspero chão onde hoje se vê a vila de Melgaço. Depois do falecimento de seu marido, a raínha D, Tareja – sempre atormentada, como êle, por grandes trabalhos de ambição – nada fêz também para remediar ou minorar tam imprudente desamparo; por isso, nem o castelo, a-pesar dos “repairos” com que o Conde D. Henrique firmara as suas muralhas centenárias, logrou afrontar sem renovados danos a incessante e traiçoeira guerra do tempo. Por seu turno, D. Afonso Henriques, só ao cabo de 30 anos de reinado, em 1170, atentou na conveniência de prover de boa e basta gente aquêle recanto da terra hereditária, destinado a converter-se, pela sua situação, em um dos mais úteis baluartes de defesa do novo reino; mas, pronto em remediar o mal que tam tarde havia reconhecido, logo remiu com decisão e acêrto êsse pecado de imprevidência. Pouco depois, os primeiros colonos para ali enviados por ordem régia davam princípio à sua obscura obra de progresso nacional e social. Ao mesmo tempo, para lhes incutir maior fé na própria segurança e na segurança das suas searas, outras providências foram tomadas; e em breve, na terra extrema que ao norte sobranceava o rio, a possante fortaleza sarracena, ampliada e robustecida, reocupava firmemente o seu lugar de sentinela raiana.  A póvoa portuguesa de Melgaço tinha finalmente nascido.

Diminuindo de certo modo a importância de alguns dêstes factos, uma versão corrente, abonada por certas memórias monásticas, persuade entretanto que já em tam remota era se erguia a curta distância do castelo, entre outras construções de grande antiguidade, a Igreja da Nossa Senhora da Orada. Ignorava-se a data da sua fundação e o nome do fundador. Edificada no tempo em que a moral cristã começava a moderar os costumes bárbaros dos visigodos, havia resistido como que por milagre (dizia-se) aos maus tratos da natureza e dos homens, durante o período da dominação árabe – acrescentando-se ainda que depois disso, no reinado de D. Ramiro II de Leão, fôra anexada a um pequeno mosteiro de monges bentos mais ou menos sujeitos à grande casa conventual que anteriormente obtivera para a mesma Ordem a doação de tôda a vizinha terra de Fiãis.

Segundo a tradição que guarda lembrança de tais sucessos, aquêle mosteiro-vassalo, secularizado por motivos que se desconhecem nos longínquos anos do gôverno de D. Tareja, convertera-se afinal (juntamente com a cêrca e outras terras contíguas) em uma simples propriedade particular – que, adquirida pouco depois pelos Templários, dêles recebera o nome de Quinta dos Cavaleiros que lhe é conferido nos documentos do século XII. Se com efeito assim aconteceu, pode afirmar-se que foi da aguerrida milícia do Templo, visto que, volvidos alguns lustros, já a chamada Quinta dos Cavaleiros pertencia in totum a uma dama de grandes haveres, a Condessa D. Frolhe, que no ano de 1166, por meio de uma escritura de doação, a entregou de novo, e com outro nome – o de Quinta da Orada – aos monges negros de Fiãis.

Porque não foi incluída a Igreja nessa doação, a que se podem atribuir em verdade intuitos idênticos aos de um vulgar legado pio? Por não ter existido de-facto, o suposto Convento da Orada? Por se haver estabelecido qualquer distinção entre êste e o templo da Virgem, através de tantas alternativas de posse? Finalmente, por se achar em completa ruína (e, portanto, sem valor) a vélha casa de oração? Ignora-se. Cumpre notar, em todo o caso, que D. Afonso Henriques, ordenando pouco depois, em 1170, a reconstrução do desmembrado edifício, sancionou implìcitamente a inclusão do edifício no rol dos bens da Coroa.

 

BOLETIM DA DIRECÇÃO GERAL DOS EDIFÍCIOS E MONUMENTOS NACIONAIS

 

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ORADA

Nº 19

Março de 1940

pp. 5-8

 


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Sábado, 19 de Maio de 2018

DENÚNCIA CALUNIOSA

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PREFÁCIO

 

É lugar comum afirmar-se ter o homem dois patrimónios: moral e material.

Para quem seja, verdadeiramente, pessoa - e ser-se pessoa, no elevado e nobre sentido e significado do termo, é ter nítida consciência dos autenticos valores - ,a honra está infinitamente acima do património físico.

Eis uma verdade, infelizmente, que muita gente não compreende.

Quem mente para conseguir vantagens materiais de qualquer espécie: dinheiro ou libertar-se de concorrente, ou cevar ódio vesgo, a título de exemplo, não é, própriamente, pessoa.

Ao fazer isso aliena a qualidade mais nobre do ser humano para se identificar com o bruto.

Os burros batem-se para afastar concorrentes da cevada, servindo-se de dentes e patas.

Os cães, na disputa do osso, fazem-se luta de extermínio.

Pois bem:

Todo o homem que lança mão de quaisquer armas, as mais abjectas, como o são a calúnia e a mentira, mostra identificar-se com aqueles animais.

Como é grande a multidão dos bandidos e porque se tornaram relaxados, não podendo já esconder a torpeza dos seus actos, procuram, por lhes parecer justificação, intitular-se pessoas de carácter actualizado.

Há pessoas em quem se descobrem os característicos sinais da coleira, com que foram ou são presos pelo dono.

Houve, há e haverá sempre escravos, enquanto existirem homens à superfície da Terra, e se não operar profunda alteração nas consciências.

Vistas bem as coisas, a afirmativa de que o homem é livre não passa de figura de retórica.

Porém, hoje em dia, só é escravo quem nasceu para sê-lo.

Uma questão de qualidade.

Observando atentamente os agrupamentos humanos, somos, imediatamente, conduzidos a dividi-los em duas grandes categorias:

1 - os que nasceram para escravos ou desprovidos de personalidade; e

2 - os que nasceram para homens livres ou dotados de forte personalidade.

Prosseguindo no estudo, logo somos levados à conclusão de que é enorme o número daqueles e pequeno o destes.

E de que a existência dos escravos implica necessáriamente a dos tiranos.

Depressa assentamos que estes formam legião.

Depois disto, podíamos fazer classificação, trabalho de grande envergadura, a assumir proporções de tratado.

Não vamos, porém, tão longe.

Apenas consideraremos o tirano própriamente dito e o tiranete.

Os tiranetes formam enxame,

Peguemos em um tiranete, à sorte, o primeiro que apareça, e sujeitemo-lo a cuidadoso estudo analítico.

Averiguemos do ambiente familiar em que foi gerado, nasceu e cresceu, dos trabalhos a que se dedicou, numa palavra, de todo o seu passado.

Pequena será a demora em concluir ser ele de mau sangue, da pior educação, nado e criado em baixa atmosfera moral.

Mas, se alguma dúvida puder restar no nosso espírito, façamos a prova real, submetendo-o a exame físico, observando-lhe pescoço e costado.

É fatal: descobrimos-lhe sinais, mais ou menos disfarçados, mais ou menos antigos, da coleira.

E ficamos edificados: trata-se de antigo escravo.

Por mera questão de interesse puramente científico, já que se está com a mão na massa, observemos-lhe o lombo.

Descobrimos, pela certa, vestígios, mais ou menos remotos, mas bem característicos, dos estragos produzidos pelo fardo.

De posse de todo este material, sempre positivo e concludente, chegamos a esta verdade científica: o sujeito foi escravo.

É de notar que o analista ao proceder a todos estes trabalhos não foi capaz de descobrir o mais insignificante vestígio de chá em todo o passado do paciente.

Nem pitada!

A metamorfose da larva escravo para o insecto tiranete é uma questão de enriquecimento, conseguido à custa dos mais baixos processos, de todos os métodos.

Sobre enriquecimento, urge distinguir entre dois verbos diferentes: ganhar e juntar.

Ganhar supõe profissão, trabalho honrado. Lucro lícito; juntar supõe roubo, espoliação, expediente.

Ganhar é claridade; juntar, escuridão.

O primeiro significa morosidade; velocidade o segundo.

Ganhar é percorrer caminho liso, para jamais chegar ou chegar tarde à meta: Fortuna; juntar é velocidade através de todos os caminhos, esmagando obstáculos, todos os obstáculos, até à Fortuna.

O junto é feito de lágrimas, sangue, traição, contrabando, fraude, mentira, espoliação e abuso.

Infelizmente, nos maus tempos que correm, ter significa valer.

E tiranete, linguísticamente, vem a significar novo rico.

Esta prestidigitação pela qual o escravo se volve tiranete mete batota.

Aqui é impossível afirmar-se não ter havido nisso trampa ninguna, como de ouve, a outros propósitos, aos espanhóis.

Nesta metamorfose há sempre trampa.

Muitíssima trampa.

 

DENÚNCIA CALUNIOSA

José Joaquim de Abreu

Edição do autor

1957

pp. 5-8

 


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Sábado, 21 de Abril de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS

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Certo dia, como se fora um qualquer lunático, passou-me pela cabeça continuar «Os Lusíadas», obra escrita por Luís Vaz de Camões no século XVI. Se ele, em circunstâncias assaz difíceis, sem a preciosa ajuda dos computadores e seus programas, sem livros de história ali à mão, sem dicionários, sem enciclopédias, sem nenhuma biblioteca de apoio. Conseguiu levar a cabo aquela imensa epopeia, aquele monumento literário, aquele alforge de saber e imaginação, também eu, ser humano como ele, poderia construir algo parecido. Acontece que génios como Camões só surgem no planeta de cem em cem mil anos; logo, teremos muito que esperar e desesperar. Os seus vastos conhecimentos, a sua capacidade de apreender tudo aquilo que o rodeava, as suas leituras da juventude, a sua vivência, a sua escrita empolgante, são irrepetíveis. Apesar de saber tudo isso, vou dar início a este louco empreendimento, sabendo de antemão que vai ser obra pequena, defeituosa, inacabada. A vida é assim, não se pode parar. Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco na prosa, Amália Rodrigues no fado, José Afonso na canção, Travassos, Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo no futebol, Livramento nos patins, Joaquim Agostinho no ciclismo, Carlos Lopes, Fernando Mamede, e Rosa Mota no atletismo, etc., foram figuras cimeiras na sua arte, na sua profissão. No entanto, outros artistas foram bons, ou aceitáveis, sem contudo atingir a perfeição dessas estrelas. «Parar é morrer», já diziam os nossos antepassados. Por isso, mãos à obra. A história de Portugal é riquíssima, há muita matéria-prima a explorar. Quem sabe se esta ousada iniciativa não irá estimular alguém com mais talento e saberes do que eu? Aguardemos.

 

Em mil e quinhentos sai do Restelo

A frota comandada por Cabral;

Os navios levam pão, chirelo,

Muita carne, conservada em sal…

Iam em busca de terras, dum selo,

Para a nobre causa de Portugal.

Descobriram, “por acaso”, o Brasil,

Rico de matas, ouro, rios mil.

 

………………..

 

Vou abraçar os meus velhos amigos,

Se é que ainda algum por lá mora;

Comerei com eles belos formigos,

O estonteante doce de amora;

Fumeiro, vinho, são ora inimigos,

Mas por eles nosso paladar chora.

Os anos destruíram nossa mente,

Oxalá dê fruto nossa semente.

 

 

OS NOVOS LUSÍADAS

(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

Janeiro 2018

pp.5, 29, 180

 

Joaquim A. Rocha edita o blogue Melgaço, Minha Terra

 

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:10
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Sábado, 24 de Março de 2018

UMA VISITA ÀS RUINAS DO REAL MOSTEIRO DE FIÃES

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PROEMIO

 

Um dia, folheando ao acaso o trabalhoso diccionario de Pinha Leal, intitulado Portugal Antigo e Moderno, n’elle deparei e li, este emocinante trecho:

»Leitor, se tens um coração portuguez, se a luz divina se não apagou totalmente em tua alma; se respeitas a memoria de teus passados – dos que te deram uma patria, um lar, uma família; e se algum dia viajares pelo Alto Minho, não deixes de visitar as tristes ruinas do Convento de Fiães; e alli, qual outro Mario, contempla respeitoso estes restos venerandos da fé e piedade do nossos maiores, e chora sobre as ruinas d’este testemunho de suas crenças inabalaveis.»

  

Alli, onde o incenso se elevava dia e noite em perenne adoração ao omnipotente; onde a toda a hora se ouvia o plangente som do orgão, os cantos sagrados dos religiosos e do povo; alli, refugio predilecto dos que no mundo soffriam attribulações; alli finalmente a casa de Deus, em que a piedade tinha amontoado prodigios sobre prodigios de magnificencia, de fé, de caridade – que vemos hoje?

«Ruinas, devastação, silencio, horror!

«As silvas e os cardos invadem os marmores de suas aras santas.

«Os reptis immundos revolvem as ossadas venerandas de varões illustres.

«As aves nocturnas pairam sobre as abobadas, e fazem seus ninhos sobre os brincados capiteis de suas columnas dez vezes seculares.»

 

Surprehendido com esta suggestiva linguagem, que tocava tão directamente a minha sentimentalidade, - fiz logo, um voto de ir a Fiães, se algum dia visitasse essa zona previlegiada do meu paiz, - por muitos chamada: - O jardim de Portugal.

Iria, não para imitar o proscripto Mario, que sobre as ruinas fumegantes da cidade phenicia, chorava os extremos a que a oratoria implacavel de Catão, a tinha reduzido; - mas, para traduzir n’essas desmoronadas pedras, - uma pagina da historia do passado.

 

UMA VISITA ÀS RUINAS

DO

REAL MOSTEIRO DE FIÃES

Guilh. Oliveira

Livraria Ferreira

1903

pp. 7-9

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:12
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