Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

TEMPOS MODERNOS

melgaçodomonteàribeira, 24.03.20

4 ac joão vilas.jpg

 

TEMPOS MODERNOS

 

Gigantes de papel, cópias balofas,

Olhai, gente bondosa, não toqueis!

 

As sombras dos heróis de falsa guerra,

Maltratam o saber dos cultos mestres,

Não toqueis!

Há perigo no tocar, tende cuidado!

Os gigantes de papel, estátuas balofas,

Trazem nódoa maculada… verborreia…

Figurinos do saber… e nada sabem…

Mui famintos do poder… e tudo podem.

 

DO SUBLIME AO GROTESCO

                  POESIAS

João Vilas

ANCORENSIS

2000

p.76

 

SARAMAGO 2

melgaçodomonteàribeira, 30.11.19

16954092_cQrBk.jpeg

 

As meninas de Castro Laboreiro II

 

Vai agora o viajante iniciar a grande subida para Castro Laboreiro. Melgaço está a uns trezentos metros de altitude. Castro Laboreiro anda pelos mil e cem. Vence-se este desnível em cerca de trinta quilómetros: não é íngreme a ascensão. Mas é inesquecível. Esta serra da Peneda não abunda em florestas. Há maciços de árvores, aqui, além, sobretudo próximo dos lugares habitados, mas na sua maior extensão é penedia extreme, mato de tojo e carrasqueira. Não faltam, claro está, nas terras ainda baixas, grandes espaços de cultivo, e nestes dias de fim de Outono a paisagem trabalhada pelos homens tem uma doçura que se diria feminina, em contraste com a serra ao fundo que vai encavalando montes sobre montes, qual mais áspero e bruto. Mas esta terra tem uma coisa numca vista que por muitos quilómetros intrigou o viajante, pouco experiente de andanças viajeiras, como logo se verá. Estava o Sol de maneira que batendo nas encostas distantes despedia brilhos, grandes placas luminosas, ofuscantes, e o viajante moía o juízo para saber o que aquilo era, se preciosos minérios assim revelados, se apenas o polido de lascas xistosas, ou se, imaginações fáceis, seriam as divindades da Terra a fazer sinais umas às outras para se esconderem dos olhares indiscretos.

Afinal, a resposta estava à beira da estrada por onde seguia. Pelas fendas das rochas ressumbrava água que, embora não correndo em fio ou em toalha, mantinha húmidas certas pedras, onde, dando o sol de jeito, se acendia um espelho. Nunca tal o viajante vira, e tendo decifrado o mistério foi gozando pelo caminho o atear das luzes, que depois se apagavam e ressurgiam à medida que a estrada fazia e desfazia curvas e portanto se alterava o ângulo de reflexão do Sol. Esta é uma terra grande e descampada, separam os montes grandes vales, aqui não podem os pastores gritar recados de encosta para encosta.

Castro Laboreiro chega sem avisar, numa volta da estrada. Há ali umas casas novas, e depois a vila com o seu trajo escuro de pedra velha. Bons de ver são os botaréus que amparam as paredes da igreja, restos românicos da antiga construção, e o castelo, nesta sua grande altura, com a única porta que lhe ficou, a do Sapo, alguma coisa daria o viajante, para saber a origem deste nome. Não requer grandes demoras a vila, ou requere-as enormes a quem tiver ambições de descoberta, ir, por exemplo, àquelas altas pedras, gigantes em ajuntamento, que ao longe se levantam. No céu, de puríssimo azul, atravessa um rasto branco de avião, recto e delgado: nada se ouve, apenas os olhos vão acompanhando o lento passar, enquanto, obstinadamente, as pedras se apertam mais umas contra as outras.

Está quase a despedir-se, veio por causa do caminho, da grande serrania, destes altos pitões, e correndo agora em redor os olhos, já distraídos, dá com duas meninas que o miram, com sério rosto, suspendendo as atenções que davam a uma boneca de comprido vestido branco. São duas meninas como nunca se viram: estão em Castro Laboreiro e brincam à sombra de uma árvore, a mais nova tem o cabelo comprido e solto, a outra usa tranças com uns lacinhos vermelhos, e ambas fitam gravemente. Não sorriem quando olham a máquina fotgráfica, quando assim se mostra o rosto tão aberto, não é preciso sorrir. O viajante louva, em pensamento, as maravilhas da técnica: a memária, infiel, poderá renovar-se neste rectângulo colorido, reconstituir o mometo, saber que era de tecido escocês a saia, crespas as tranças, e as meias de lã, e o risco do cabelo ao meio, e, descoberta inesperada, que uma outra bonequita havia caído lá para trás, acenando com a mão, com pena de não ficar de corpo inteiro na fotografia. O destino nem sempre ordena mal as coisas. Para ver a Igreja da Nossa Senhora da Orada e as meninas de Castro Laboreiro, teve o viajante de andar cem quilómetros, números redondos: tenha agora coragem de protestar quem achar que não valeu a pena. E tome lá, como acrescento e contrapeso, os gigantes de pedra, o macaco de Melgaço, o avião no ar, os espelhos de água, e esta pequena ponte de pedra solta, só para gente pedestre e gado miúdo.

 

VIAGEM A PORTUGAL

José Saramago

Editorial Caminho

1995

pp. 83-85

 

 

Publicado por: https://edoc.site/viagem-a-portugal-pdf-free.html

SARAMAGO 1

melgaçodomonteàribeira, 23.11.19

250 - 1 viagem-a-portugal-jose-saramago.jpg

 

AS MENINAS DE CASTRO LABOREIRO I

 

Até Melgaço desfruta-se de uma paisagem agradável, mas que não sobressai particularmente sobre o que é comum encontrar no Minho. Qualquer destas bouças faria figura de preciosidade paisagística em terras menos avantajadas de mimos, mas aqui os olhos tornam-se exigentes, nem tudo os contenta. Melgaço é vila pequena e antiga, tem castelo, mais um para o catálogo do viajante, e a torre de menagem é coisa de tomo, avulta sobre o casario como o pai de todos. A torre está aberta, há uma escada de ferro, e lá dentro a escuridão é de respeito. Vai o viajante pé aqui, pé acolá, à espera que uma tábua se parta ou salte rato. Estes medos são naturais, nunca o viajante quis passar por herói, mas as tábuas são sólidas, e os ratos nada encontrariam aqui para trincar. Do alto da torre, o viajante percebe melhor a pequenez do castelo, decerto havia pouca gente na paisagem em aqueles antigos tempos. As ruas da parte velha da vila são estreitas e sonoras. Há um grande sossego. A igreja é bonita por fora, mas por dentro banalíssima: salve-se uma Santa Bárbara de boa estampa. O padre abriu a porta e foi-se às obras da sacristia. Cá fora, um sapateiro convidou o viajante a ver o macaco da porta lateral norte. O macaco não é um macaco, é um daqueles compósitos animais medievos, há quem veja nele um lobo, mas o sapateiro tem muito orgulho no bicho, é seu vizinho.

Logo adiante de Melgaço está Nossa Senhora da Orada. Fica aà beira do caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa e desatento passa por ela, e ai munha Nossa Senhora, onde estás tu? Esta igreja esta aqui desde 1245, estão feitos, e já muito ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjectivos, que são a peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste caso. Mas a igreja de Nossa Senhora da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui perdem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo da luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpano, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é. O viajante pergunta aos ares onde estão os álbuns de arte que mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e todas as Oradas que por esse país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir. O viajante vai mais longe: certos monumentos deveriam ser retirados do lugar onde se encontram e onde vão morrendo, e transportados pedra por pedra para grandes museus, edifícios dentro de edifícios, longe do sol natural e do vento, do frio e dos líquenes que corroem, mas preservados. Dir-lhe-ão que assim se embalsamariam as formas; responderá que assim se conservariam. Tantos cuidados de restauro com a fragilidade da pintura, e tão poucos com a debilidade da pedra.

De Nossa Senhora da Orada, o viajante só escreverá mais isto: viram-na os seus olhos. Como viram, do outro lado da estrada, um rústico cruzeiro, com um Cristo cabeçudo, homenzinho crucificado sem nada de divino, que apetece ajudar naquele injusto transe.

 

VIAGEM A PORTUGAL

José Saramago

Editorial Caminho

1995

pp. 82, 83

 

Publicado por: https://edoc.site/viagem-a-portugal-pdf-free.html

 

PORTUGAL DE PERTO

melgaçodomonteàribeira, 14.09.19

651 - port perto.jpg

 

Os últimos dias da minha viagem foram de solidão invernal. Era já fim de Novembro de 2010 e poucas pessoas habitavam quer a zona da serra da Peneda quer o planalto, em Lamas de Mouro ou Castro Laboreiro. Quando alcancei o Santuário de Nossa Senhora da Peneda às cinco da tarde, vindo do Soajo, não encontrei ninguém. O hotel ao lado do Santuário fechara para remodelação. À porta da igreja, uma vaca pastava pachorrenta, só incomodada mais tarde por uma cadela que teimou em me acompanhar.

Em Lamas de Mouro e depois em Castro Laboreiro, um vento gélido fustigava a montanha e havia quem já previsse neve para o fim-de-semana seguinte. Na manhã do meu último dia de viagem, escolhi uma estrada estreita assente em território português mas virada para a Galiza para chegar a Cevide, a última etapa. Lembro-me que ainda suportei pedras de granizo e chuva muito fria. Era domingo e os altifalantes da Igreja de Cristóval emitiam indiferentes a missa para os dois lados da fronteira.

Ironia do destino, em Cevide, freguesia de São Gregório (*) e concelho de Melgaço, terminei a viagem a conversar com antigos contrabandistas, um português e outro galego, amigos de longa data. Recordaram a passagem de bananas, café e arroz ainda nos anos de 1980. O fim da actividade ditou a desertificação do local, mais uma terra marcada pela emigração. «Isto aqui morreu, aqui não há futuro…», desabafava o ex-contrabandista Manolo, em Frieira, do outro lado da fronteira. Na ponte internacional, Mário Olímpio, meu anfitrião em Cevide, apontava para o meio do rio Minho: «Estás a ver, ali mesmo no meio do rio? Ali é a linha de fronteira.»

 

(*S. Gregório não é freguesia. Cevide e S. Gregório pertencem à freguesia de Cristóval)

 

 

VIVER O MINHO

melgaçodomonteàribeira, 10.08.19

68 d2 - viver minho  vegé.jpg

 

O que mais me impressionou, no Minho, foi este relevo extraordinário, composto por montes bem delineados, cobertos de vegetação luxuriante onde, a cada curva da estrada, vos espera um rosto que vos sorri de modo diferente e vos convida a prosseguir a visita com cada vez mais curiosidade e paixão.

O acolhimento, a vida sadia e simples mas simultaneamente dura dos Minhotos, fizeram com que eu sentisse necessidade de partilhar convosco todo este néctar cultural e humano de uma das mais antigas regiões de Portugal.

Tal como eu, descobri ao longo do meu itinerário, todo o calor do Minho.

 

O autor

 

 

VIVER O MINHO

HISTÓRICO – ARTESANATO – GASTRONOMIA

 

Autor: VéGé

 

Edição: autor

 

1992

 

MELGAÇO AMIGO

melgaçodomonteàribeira, 22.06.19

1 - 149 - viagens francisco c fernandes.jpg

MELGAÇO

 

Melgaço é aquele abraço

Sem fronteiras,

Que desliza por vinhedos,

Fragas e ribeiras,

Acenando à Galiza

E sussurrando ao Minho seus segredos…!

 

Vem, Amigo,

Sentir porque choram de frio

As margens do rio em pleno inverno!

 

Descobrir a natureza em pranto,

Naquelas almas serranas

Vestidas de negro, imaculadas de branco!

 

Partilhar do gesto fraterno.

Quando a Serra desce às portas da Ribeira

Para abraçar a Vila em dia de feira!

 

Escutar a Canção do Emigrante,

Na hora longa da partida

E num curto instante de chegada!

 

Percorrer as pedras da velha calçada,

De Fiães a Castro Laboreiro,

De Paderne até à Orada!...

 

Melgaço… feito de pedra morena,

Torre de Menagem

Legenda da coragem de Inês Negra!...

 

Mais, muito mais.

Do que mil e uni matizes

Pintados em paisagem natural,

Melgaço, Amigo,

É luta, caminho raízes.

Pedaço deste nosso Portugal!

 

Retirado de: VIAGENS

Francisco José Carneiro Fernandes

ANCORENSIS – Cooperativa de Ensino, C. R. L.

Vila Praia de Âncora

2000

 

NÉCTAR DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 08.06.19

37 d2 - ultimo acto em lisboa.jpg

 

TRIBUTO AO ALVARINHO SOALHEIRO

 

- Teremos futebolistas leitores – disse ela, com uma gargalhada profunda, baixa, provavelmente causada por fumar Marlboro, mas que, raios, me fez encher o peito e arrepiar a espinha. Comemos o caranguejo, bebemos mais cerveja e falámos de livros, filmes, actores, celebridades, droga, fama, sucesso e eu mandei vir uma lagosta grelhada e Luísa disse que pagava um vinho verde Soalheiro Alvarinho 96, que foi o mais brioso de quantos verdes eu tinha bebido na vida. Mandámos vir outra garrafa e bebemo-la em golos faiscantes, e duas horas e meia depois de termos chegado saímos do ar condicionado para as ruas quentes e vazias, sem trânsito, sem gente, com as árvores ainda mergulhadas no silêncio da sesta.

 

Último Acto em Lisboa

Robert Wilson

Edição Gradiva

2000

p. 314

 

ESTÁ NA HORA DO REGRESSO A CASA

melgaçodomonteàribeira, 23.03.19

48 a2 - antigo escudo da vila, desaparecido.jpg

antigo escudo de melgaço

 

ACHADOS

 

Não sabendo eu explicar a razão pela qual os arqueólogos portugueses, ou outros, nunca se interessaram por Melgaço, à excepção da freguesia de Castro Laboreiro, que nos últimos anos tem sido palco de investigações nesse domínio, não quero contudo deixar de lado o assunto. E a verdade, apesar dessa ausência, aqui e ali ao acaso, vão aparecendo objectos de antanho, os quais logo desaparecem como por bruxedo!

Escreveu Figueiredo da Guerra no “Correio de Melgaço” nº 31 de 5/1/1913: Da idade do bronze apareceram em (Novembro de) 1906, na Carpinteira, S. Paio, em esconderijo subterrâneo (quando se arrancava um pinheiro numa bouça), cinco machados de cobre, tipo morgeano (…), que nós classificamos como modelo grande do Minho. Da mão do nosso amigo Serafim Neves, onde os vimos, passaram ao Dr. José Leite, indo aumentar a colecção oficial de Lisboa.

No adro da igreja do mosteiro de Paderne existia desde tempo imemoriais uma curiosa lápide ornamentada; os paroquianos admiravam o par, representado toscamente, e o comentavam a seu modo. Era nada menos que um cipo luso-romano agora lajeando o pavimento, e tendo na parte superior um nicho com duas figuras, homem e mulher, dando as mãos; no rectângulo inferior e também abaixo dele, a inscrição, que diz: «Fulana, de cem anos, e seu companheiro Valus, filho de Arda, de 50 anos, aqui estão sepultados. O companheiro Pento mandou fazer este monumento.» Este padrão, tão cobiçado pelo Director do Museu Etnográfico de Belém, acabou por seguir para lá em 1906.)

No “Arqueólogo Português”, volume XII, 1907, o Dr. José Leite de Vasconcelos escreveu: «Junto da igreja de Paderne… existia… uma pedra lusitano-romana… ocupa hoje lugar de honra no Museu Etnológico…»

No Notícias de Melgaço, nº 224, de 4/3/1934, escreveram: «Numa propriedade ultimamente adquirida por Avelino Júlio Esteves, perto da nova avenida em construção, em volta das antigas muralhas desta Vila, e quando se procedia a um desaterro para a construção dum prédio, foram encontrados seis sarcófagos, abertos em Piçarra, saibro duro e espesso, calculando-se uma idade de 700 anos. Naquele local existiu em tempos uma capela, que foi demolida. O achado tem sido muito visitado por curiosos, inventando cada qual, a seu belo prazer, interessantes lendas, que a falta de espaço não nos permite reproduzir.»

Leite de Vasconcelos levou alguns desses achados, e ainda bem, para os museus da cidade, de outro modo ter-se-iam perdido. Na década do 90 do século XX, quando se rasgava a estrada Monção a Melgaço, os trabalhadores encontraram diversos objectos de longa idade. Os curiosos logo apareceram e levaram tudo que viram e tinha, do seu ponto de vista, algum valor comercial. (Sobre este assunto ver Jornal de Melgaço, nº 48, de Maio de 1994, Jornal de Melgaço, nº 55, de Janeiro de 1995, Voz de Melgaço nº 1054, de 1/7/1996, Jornal de Melgaço, nº 114, de Maio de 2000, jornal de Melgaço, nº 123, de Março de 2001).

 

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço I

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2009

pp. 22, 23

 

 

ALTO MINHO - ROTEIRO TURÍSTICO

melgaçodomonteàribeira, 16.03.19

1 - 33 d2 - alto minho.jpg

 

Um roteiro que traduz a riqueza da tradição e a doçura da paisagem

 

 

Viana do Castelo e seu termo, serpenteada por rios tranquilos, coroada por montanhas verdejantes e beijando o Oceano, é, cada vez mais, terra procurada para local de férias e sítio para encontrar sossego, sem esquecer, contudo, um novo ressurgir do tecido social e empresarial que empresta à vida do quotidiano mais certezas e garantia de um melhor futuro.

Conhecer a Região, apesar de tudo, não é fácil, porque as grandes vias de penetração só agora estão aparecendo, e a realidade encontra-se no santuário das povoações onde só chegam os mais curiosos ou os que se dedicam ao estudo dos problemas locais.

O Dr. Francisco Sampaio, é um desses homens, que a par de uma grande sensibilidade poética, de um fino recorte literário, conhece melhor do que ninguém, as gentes e a terra deste Alto Minho.

Aí o temos, neste Roteiro Turístico, calcorreando os vales, trepando os montes, desfolhando a memória das tradições ou ajudando-nos a saborear o rico «pitéu» que fazem da cozinha vianense um dos nossos motivos de orgulho.

Ao acompanhá-lo nesta redescoberta da nossa terra, encontramos novos motivos, novos recantos, novas belezas, e sempre a simpatia da sua gente, que, fidalgamente sabe receber, nem que seja para repartir o pedaço da «broa» ou a «malga» do caldo.

Agradecendo ao Dr. Francisco Sampaio mais este trabalho em prol da nossa terra, convido os leitores a saborearem este «naco» de prosa, e, se puderem, metam pés a caminho, quais novos peregrinos, em busca da paz e do sossego que encontrarão caldeados com o agreste e o belo da paisagem!...

 

Viana do Castelo, 11 de Outubro de 1990

 

     Governador Civil de Viana do Castelo

 

ALTO MINHO – Roteiro Turístico

Francisco Sampaio

Edição Região de Turismo do Alto Minho

1990

 

COROGRAFIA PORTUGUEZA - MELGAÇO MDCCVI

melgaçodomonteàribeira, 02.03.19

1 - 41 a2 - Corografia_Portuguesa.jpg

 

 

 

COROGRAFIA PORTUGUEZA, E DESCRIPÇAM DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAL

 

 S. Maria da Gave,

ou Gavia, he Vigairaria ´q apresenta o Reytor de Riba de Mouro, rende quarenta mil reis, & para o Commendador setenta mil reis: tem cento & trinta visinhos.

S. Mamede de Parada do Monte,

Vigairaria da mesma apresentaçaõ, que rende ao todo quarenta mil reis, & para o Commendador sessenta & seis mil reis, tem cento & cincoenta visinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he mui procurado para cubertas de camas de Lavradores, ou criados, & ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores; he mui branco, grosso & macio. Nestas montanhas em `q ha muita caça & veaçaõ, houve antigamente hum Couto, a que chamavaõ Val de Poldros, o qual fez, marcou & defendeo Payo Rodrigues de Araujo, de que possue parte seu sexto neto Manoel de Araujo de Caldas, Sargento mór de Valladares, inda que atenuando em parte das grandes regalias que tinha.

S. João de Lamas de Mouro,

he Abbadia do Ordinario, rende quarenta mil reis, tem quarenta visinhos, que saõ privilegiados de Malta pela Commenda de Távora, a que pagaõ muito foro, não sendo a terra por roim capaz de tanto. Dizem que algum tempo foy esta Igreja de Templarios, & delles, quando se extinguiraõ, passou aos Maltezes. O como sahio delles para o Ordinario nam alcançamos, que naquelles tempos os mais dos contratos erão verbaes. Aqui nasce o rio Mouro, nome que tomou daquelle poderoso, ou regulo, de que já fallamos, & que neste monte tinha sua coutada de recreação para caçar. O rio inda que pequeno, dá saborosas trutas, & se engrossa  com o da Mendeira, que pouco abaixo lhe entra.

 

   Santiago de Penso,

Vigairaria do Mosteiro de Paderne com dez mil reis, ao todo oitenta mil reis, & para os Frades cento & dezoito mil reis, tem duzentos visinhos. Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possue Felippe de Araujo de Caldas, Cavalleiro do Habito de Christo, Capitaõ mór, & Monteiro mór de Valladares; tomou este nome de huma Capella antiga deste Santo Cipriano, que alli está; he tradição foy templo da Gentilidade dedicado a Júpiter: o sitio he funebre, & desacomodado no meyo de hum campo com pouca veneraçaõ, & menos o fora a naõ ser advogado das cezoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem alli termendo, & voltaõ saõs.

 

 

Couto de Paderne

 

   Saõ Salvador de Paderne,

Mosteiro de Conegos Regrantes de Santo Agostinho, tomou o nome de sua fundadora a Condeça Dona Paterna, viúva do Conde de Tuy Dom Hermenegildo, que aqui tinhaõ grandiosa quinta, & muitas aldeãs, a qual vendose livre das obrigaçoens conjugaes fez este Mosteiro para nelle se recolher com quatro filhas, acabou-o no anno de 1130. & em seis de Agosto, dia da Transfiguração do Senhor, Dom Payo Bispo de Tuy o dedicou ao Salvador, lançando no mesmo dia à Condeça, filhas, & companheiras o habito de Conegas Agostinhas, de que antigamente tivemos muitos, & hoje só hum Mosteiro tem este Reino em Chellas meya legoa distante de Lisboa: logo lhe meteo para Capellaens, & Confessores sete Clerigos, os quaes no anno de 1138. se fizeraõ Regulares, & a Abbadessa Dona Paterna lhes mandou fazer para a parte do Sul hum claustro com cellas, em que vivessem, ficando as Freyras para o Norte, & o Mosteiro Duplex. Faleceo a Condeça Abbadessa em seis de Janeiro de 1140. & foi sepultada em hum arco da parte de fóra da banda do Evangelho da Capella, que hoje he Sacristia dos Clerigos, aonde se vè sua figura de Conega obrada de meyo relevo sobre o tumulo, & junto de si na mesma sepultura outro de homem armado com huma espada da maõ para o pé; presumimos ser do Conde seu marido, que com ella estará alli enterrado: sucedeo-lhe no cargo de Abadessa sua filha Dona Elvira, a quem ElRey Dom Affonso Henriques fez doação do Couto de Paderne, & da jurisdição civil no anno de 1141. & nella diz lha fazia pelos bons serviços, que lhe fizera, quando elle estava sobre o Casttelo de Castro Laboreyro, a quem tinha cercado, mandandolhe mantimentos, & alguns cavallos, entre elles hum muito fermoso, & jaezado ricamente para sua pessoa. Não se sabe em que tempo se devidirão as Freyras dos Frades, mas acha-se que no anno de 1231. vivião aqui só estes, ou raçoeiros, a quem governava Dom João Pires, que derrubou a Igreja antiga, por ser pequena para os muitos freguezes, que tinhão crescido, & fazendoa novamente, a acabou no de 1264. & he a que existe. Deste foy tam affecto ElRey Dom Affonso o Terceiro, que lhe fez algumas doaçoens, confirmandolhe o Couto no anno de 1248. Em seis de Agosto de 1264. a sagrou Dom Gil Pires de Cerveira (não Egídio, como dizem outros) Bispo de Tuy, ficandolhe o mesmo orago do Salvador. Tem Prior triennal com sete, ou oito Relegiosos, & hum Cura secular com sete mil reis, ao tode setenta mil reis, & para os Frades com as annexas, que se seguem, & Paços, & sabidos perto de tres mil cruzados, de que pagão pensoens: tem quatrocentos & trinta visinhos. Passou este Mosteiro a Commendadores, & nelle o forão sucessivamete dous, ou tres fidalgos do apellido de Mongueymes, & Fajardos, que sendo Gallegos, deixàraõ muita sucessaõ em Portugal, entre ella se acha nesta freguesia a da

Quinta de Pontezellas , que elles fundàraõ, & a possuiu o Capitão Pedro Falcão, por ser casado com filha herdeira de Diogo Ortiz de Tavora, filho de Gregorio Mogueymes Fajardo. O ultimo Commendatario perpetuo, a quem o Chronista dos Conegos Regrantes chama Prior, foy Diogo de Alarcão, por cujo falecimento, permitindo-o ElRey Dom Sebastião, se unio a Santa Cruz de Coimbra no anno de 1594. por Bullas do Papa Clemente Oitavo, com condição, que sempre nelle ficassem Religiosos, que rezassem no Coro os Officios Divinos, & prégassem ao povo, & Clerigos Curas, que administrassem os Sacramentos, razão porque deixàraõ como estava, & foy seu primeiro Prior triennal Dom Nicolao dos Santos. He Couto no civel, & as Freguesias, que se seguem com Juiz ordinario, que faz o Prior, & todos os Officiaes; vem Tabeliães de Valladares escreverlhe hum anno, outros dous no seguinte: o Prior he Ouvidor, no crime, & Orfaõs os de Valladares, & assim o Enqueredor, & Contador; tem duas Companhias, de que o Prior he Capitaõ mór.

S. Thomé do Couço,

Curado annual do Mosteiro de Paderne, rende vinte & cinco mil reis, & para os Frades quarenta mil reis: tem cento & vinte visinhos.

 

   Nossa Senhora de Cubalhão,

Curado do mesmo Mosteiro, rende trinta mil reis, & para os Frades sessenta mil reis: tem oitenta visinhos. Esta Imagem de Nossa Senhora he de pedra, & mui milagrosa. Ha aqui um sitio, a que chamão o Castro, que mostra ser fortificação antiga dos Romanos. Estas duas Freguesias são do mesmo Couto.

P. Antonio Carvalho da Costa

Na officina de VALENTIM DA COSTA DESLANDES

Impressor de sua Magestade, & à sua custa impresso.

Com todas as licenças necessarias. Anno M. DCC. VI.

 

 Retirado de: http://books.google