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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MANJAR DOS REIS DO MOSTEIRO DE FIÃES

melgaçodomonteàribeira, 05.10.19

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MANJAR DOS REIS DO MOSTEIRO DE FIÃES

 

Este doce conventual, tipicamente natalício, foi criado pelos monges cistercienses do antigo Mosteiro de Fiães, situado no concelho de Melgaço, no extremo norte de Portugal.

Sendo um doce de origem conventual, não podiam faltar as gemas em abundância e a amêndoa. Trata-se de uma receita simples, que permite fazer o aproveitamento de arroz cozido, resultando num doce que é um verdadeiro manjar.

 

Ingredientes:

 

12 gemas

125 g de amêndoas moídas

125 g de arroz cozido

300 ml de água

500 g de açúcar

Raspa de limão q. b.

 

Confecção:

 

Leve o açúcar ao lume com a água e deixe ferver durante 2 minutos, até formar ponto de pasta (introduzindo uma colher, a calda corre facilmente, mas há uma pequena camada que adere).

Retire do lume e junte a amêndoa, o arroz escorrido e as gemas. Mexa bem.

Leve novamente ao lume para engrossar, mexendo sempre para não queimar.

Sirva o doce em taças ou numa travessa.

 

Se fizer esta receita, mande-nos a sua foto para o email docesregionais.mail@gmail.com e nós faremos a divulgação com a indicação da sua autoria.

 

 www.docesregionais.com/manjar-dos-reis-do.mosteiro-de-fiães/#more-7404

 

UMA VISITA ÀS RUINAS DO REAL MOSTEIRO DE FIÃES

melgaçodomonteàribeira, 24.03.18

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PROEMIO

 

Um dia, folheando ao acaso o trabalhoso diccionario de Pinha Leal, intitulado Portugal Antigo e Moderno, n’elle deparei e li, este emocinante trecho:

»Leitor, se tens um coração portuguez, se a luz divina se não apagou totalmente em tua alma; se respeitas a memoria de teus passados – dos que te deram uma patria, um lar, uma família; e se algum dia viajares pelo Alto Minho, não deixes de visitar as tristes ruinas do Convento de Fiães; e alli, qual outro Mario, contempla respeitoso estes restos venerandos da fé e piedade do nossos maiores, e chora sobre as ruinas d’este testemunho de suas crenças inabalaveis.»

  

Alli, onde o incenso se elevava dia e noite em perenne adoração ao omnipotente; onde a toda a hora se ouvia o plangente som do orgão, os cantos sagrados dos religiosos e do povo; alli, refugio predilecto dos que no mundo soffriam attribulações; alli finalmente a casa de Deus, em que a piedade tinha amontoado prodigios sobre prodigios de magnificencia, de fé, de caridade – que vemos hoje?

«Ruinas, devastação, silencio, horror!

«As silvas e os cardos invadem os marmores de suas aras santas.

«Os reptis immundos revolvem as ossadas venerandas de varões illustres.

«As aves nocturnas pairam sobre as abobadas, e fazem seus ninhos sobre os brincados capiteis de suas columnas dez vezes seculares.»

 

Surprehendido com esta suggestiva linguagem, que tocava tão directamente a minha sentimentalidade, - fiz logo, um voto de ir a Fiães, se algum dia visitasse essa zona previlegiada do meu paiz, - por muitos chamada: - O jardim de Portugal.

Iria, não para imitar o proscripto Mario, que sobre as ruinas fumegantes da cidade phenicia, chorava os extremos a que a oratoria implacavel de Catão, a tinha reduzido; - mas, para traduzir n’essas desmoronadas pedras, - uma pagina da historia do passado.

 

UMA VISITA ÀS RUINAS

DO

REAL MOSTEIRO DE FIÃES

Guilh. Oliveira

Livraria Ferreira

1903

pp. 7-9

 

 

UMA DOAÇÃO NO SÉCULO XII

melgaçodomonteàribeira, 21.06.14

 

Ruínas - Convento de Fiães

 

DOAÇÃO DE AFONSO PAIS E OUTROS AO MOSTEIRO DE FIÃES EM 1157

 

 

   No extremo Norte de Portugal, a raiar com Espanha, assenta a velha freguesia de Fiães na encosta do Pomedelo ou Pernidelo.

   Do seu antiquíssimo e célebre Mosteiro, sobranceiro à vila de Melgaço, resta a Igreja Paroquial em estado muito precário de conservação e um montão de ruínas, entre as quais, para cúmulo da desgraça (ó Céus!...) se construíram há anos currais de gado.

   Não vou hoje historiar o passado glorioso desse importantíssimo Mosteiro de Beneditinos que cedo receberam a reforma de Cister, mas apenas dar a conhecer o documento que traçou os limites que a freguesia ainda conserva passado oito séculos.

   Afirma-se que o Mosteiro foi fundado pelo ano de 851 e depois arruinado. Ao certo não consegui saber ainda da sua origem.

   Sabe-se de certeza que ele floresceu no século XII, sendo atribuída à generosidade de Afonso Pais a sua restauração. De facto quem folhear o livro das datas do referido Mosteiro, existente no Arquivo Distrital de Braga, encontra muitas doações feitas por Afonso Pais.

   Há porém um documento importante para a História do Mosteiro de Fiães que não encontrei no livro das datas.

   Às minhas mãos veio uma cópia antiga. Trata-se da doação ao Mosteiro do território que constitui a freguesia actual e que foi couto noutras eras. Nas inquirições de Afonso III alegaram o D. Abade, os frades e o sacristão que o Mosteiro tinha couto delimitado por padrões (marcos de pedra) e que o tinham por doação de fidalgos, mas sem carta de El-Rei.

   Com o fac-símile do pergaminho em questão, apresento aos leitores a sua leitura corrente e tradução.

 

 

      Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e em honra da beata Maria sempre Virgem e de todos os santos. Eu Afonso Pais juntamente com meus irmãos e irmãs Pedro Pais, Egas Pais, Fernando Pais, Garcia Pais, Gudina Pais, Hónega Pais, Mór Pais, Maria Pais, Hónega Mendes, Mór Mendes. Eu Oroana com meus filhos Pedro Nunes, João Gomes, Álvaro Sarracines juntamente com meus irmãos e minhas irmãs. Eu Pedro Bauzoi juntamente com meus irmãos. Eu Nuno Dias juntamente com meus irmãos e minhas irmãs. Eu Pedro Peres com meus irmãos e minhas irmãs. Eu Paio Peres, Guilherme Peres. Eu Rodrigo Goterres com meus irmãos. Eu Ferrão Ventre com meus irmãos. Gonçalo Peres com seus irmãos. Fernando Nunes com seus irmãos. Pedro Soares com seus irmãos. Fernando Nunes com seus irmãos. Pedro Nunes com seus irmãos. Fazemos documento de segurança daquele monte que se chama Fenais, que nós resolvemos por vontade própria doar aos servos de Deus, Abade João e sua congregação, tanto aos presentes como aos que depois deles vierem e aí perseverarem na santa vida beneditina; possuam-no para sempre por direito de herança por nossa doação, pelas nossas almas e pelas almas de nossos pais, porque é breve a nossa vida. Estabelecemos-lhe limites a principiar em Penha de Ervilha, depois por Costa Má, até Curro de Loba, partindo pelo rio Doma, pelo vale Gaão, depois pelo outeiro da Aveleira, a seguir pelo coto da Aguieira e depois desde o Vidual até Penha de Ervilha e fechou. Nós acima nomeados damos esta herança para exercer o culto de Deus enquanto houver um homem que o faça. Se for retirada do culto de Deus cada um receba o seu quinhão. Se vier alguém ou viermos nós, tanto da nossa família como de estranhos, que queira violar esta nossa doação, seja excomungado e condenado perpetuamente como Judas traidor do Senhor.

   Por estes limites que mencionamos concedemos (o monte) àquele Mosteiro que está situado no referido monte de Santa Maria. Nenhuma autoridade nem homem algum se atreva a arrotear ou lavrar (neste monte) sem ordens dos mesmos frades. Eis a pena que nós estabelecemos e outorgamos: restitua a mesma herança em dobro ou com suas melhorias e dois mil soldos para a Congregação. Reinando em Portugal o Rei Afonso com a sua mulher a Rainha Mafalda. Vigário particular do Rei Gonçalo de Sousa. Na Sé de Tui o bispo Isidoro. Senhor de Valadares Sueiro Aires. Era de 1195 no dia que é 14º das calendas de Setembro (19 de Agosto de 1157). Nós como acima dissemos a vós Abade João com vossos Frades nesta escritura se segurança por nossas mãos roboramos.

   Como testemunhas Sueiro, João, Pedro, Fernando, Munho. Pelo notário Pedro.

 

   A tradução é livre, porquanto há expressões más de traduzir à letra e o latim é defeituosíssimo.

   Da expressão mons fenales, Montes Fenais (que produzem feno) deve vir a palavra Fiães, embora se pretenda que ela vem de Fiam, medida antiga.

   Os limites traçados neste documento são os actuais. Penha de Ervilha redundou em Par d’Ervilha. (Par é contracção de pêra, pedra).

   «Curro de Loba» é hoje de Lobo. O rio Doma que aparece várias vezes no livro das datas chamou-se depois Várzeas e hoje tem o nome de Trancoso. Frente a S. Gregório ainda há na Galiza Puente Barjas, Ponte das Várzeas. Vale Gaão deve ser o monte Gonle, perto de Pousafoles.

   Os restantes nomes ainda existem.

   Riba de Mouro (Monção), 26-6-47

 

                                                                                      Bernardo Pintor

 

Obra Histórica

Padre Manuel António Bernardo Pintor

Edição do Rotary Club de Monção

2005

pp. 19-23