Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A GUERRA EM PORTUGAL NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA

melgaçodomonteàribeira, 16.07.22

873 b guerra.jpg

A GUERRA EM PORTUGAL

 

O autor da «Crónica dos Sete Reis» (redigida nos inícios do século XV) não viu qualquer inconveniente em integrá-las (as bastidas) na descrição que fez do cerco e tomada de Silves por D. Sancho I (em 1189) ou do cerco de Alcácer do Sal pelos Cruzados (em 1217). É, pois, com naturalidade que reconhecemos a sua presença em várias das operações de cerco de maior envergadura relatadas por Fernão Lopes como tendo tido lugar em Portugal nas últimas décadas de Trezentos; designadamente em Guimarães (no sítio de 1385), em Chaves (no ano seguinte) e em Melgaço (1388). Ao descrever este último assédio, o cronista brinda-nos, aliás, com uma notável descrição do aspecto e envergadura destas impressionantes máquinas de guerra:

«(…) Em esto nam quedauão de deribar madeira e acarretal-la que el-Rey mandaua trazer pera fazer duas escallas e huma bastida, pera mouer todo juntamente e pousar sobre o muro. E como foy laurada, fezeram as rodas do carro pera a bastida; em que auya em grosso per testa em dous palmos, e de roda e roda do carro em ancho treze colados, e em alto, des homde se começaua per çima dos carros, avia treze barças e mea. E em ella avya tres sobrados, pera hirem homeens darmas e beesteiros, juntos ou apartados como vyssem que conpria; o qual sobrado primeiro hya madeirado de pontões bem grossos e estrados de bastos canyços, pera amdarem per cima; e auya derador cemto e xxxvj. Pontões. E a parte de tras ficaua aberta, em que hião escadas dalçapam, per que aviam de subir. Per esta guyssa o segumdo sobrado, que avya derador cemto e xxiiij. Pontões, e o terçeiro cento e xxx., e escadas dalçapaão de huum ao outro. E em çima deste sobrado outro pequeno com cento e xxviij.º meyos pontões derador, em que hiam tres mjl pedras de maão, que mamdaram apanhar aas regateiras; e no segundo sobrado xv. trebolhas gramdes, cheas de vinagre pera deytar ao fogo se lho lançassem. E esta bastida leuaua diante seis gramdes canyços, forados da carqueya, e xxiiij. Coyros de bois verdes, pregados sobre ella por goarda do fogo e dos troons.».

Esta descrição de Fernão Lopes, para além de nos dar uma noção muito exacta da configuração das «bastidas» utilizadas na poliorcética portuguesa dos finais do século XIV, permite-nos também perceber que a utilização destas máquinas de guerra, isto é, a sua aproximação aos muros da praça sitiada, era feita em conjugação com as escadas a que anteriormente nos referimos. Essa abordagem conjunta devia imprimir ao assédio uma tonalidade bastante espectacular; em Melgaço, o monarca mandou até buscar a rainha, para que ela pudesse presenciar o «dia do combato», o qual se desenrolou da seguinte forma: (…) Mamdou el-Rey que abalasse a bastida com os seus corregimentos contra a villa, como tinhaão hordenado; e moueo com força de gente, pero foy bem dezoyto barças; desy moueo huma alla, e depois a outra, e esteueram ambas de fronte do muro arredada huma da outra. E tiraran-lhe sete troons, que lhe não fezeram dapno. Depois moueram outra vez e foy bem rijamente; e chegou-sse tanto a villa que punhaão huum pee no muro dentro e outro na escalla. Sobio muyta companha e o Pryol primeyro que todos; e mandoe el-Rey que tirasem afora. (…) Entam se fez prestes pera mandar combater; e mandou dez homeens darmas e besteiros que sobysem no mais alto sobrado, honde hiam as pedras de maão. E moueo todo juntamente as escalas pera poussar e a bastida em que hião os homens darmas e besteiros. E da bastida sayam homens com grossos paaos que acostauaão ao muro; e poseram muytos deles, e ficauam de fumdo enparados. E pero de çima lhe lançauão pedras gramdes e fogo, nam lhes enpeçia nada. E tirauam de fundo alguns cantos, afora outra pedra, de guyssa que os de dentro entemderam que não avia em eles consselho, posto que trabalhassem por se deffemder. E fezeram-no saber a el-Rey que lhes mamdase falar».

 

A GUERRA EM PORTUGAL NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA

João Gouveia Monteiro

Editorial Notícias

1ª Edição

Novembro 1998

pp. 349, 350

CRÓNICA DEL REY D. JOÃO O I

melgaçodomonteàribeira, 07.05.22

804 b sec xvi cast melg.jpg

vila de melgaço por duarte d'armas - sec. xvi

CRONICA DEL REY D. JOAÕ O I

 

CAPITULO LXXIII

 

CERCA EL REY A VILLA DE MELGAÇO: SUA ENTREGA, E SAHIDA DOS CASTELHANOS

 

Estando el rey na Cidade do Porto, veio a elle hum embaixador chamado Ambrosio de Marinis, enviado por Antimoto Adorno Duque de Genova, e dos anciaõs daquela comunidade, per que mandavaõ pedir a el Rey a valia das mercadorias das naos Genovezas, que foraõ tomadas no tempo do cerco de Lisboa. Sobre o que el Rey deu boa reposta, sem o remeter aos officiaes da Fazenda, como agora se faz: e o que montava nellas, que eraõ setenta mil dobras de ouro, lhe mandou logo el Rey pagar; com que o embaixador foi mui contente.

Nesse mesmo tempo partio el Rey para Braga, onde fez Cortes sobre cousas do Estado do Reyno, e partio para Melgaço sinco legoas acima de Tuy, e meia legoa do Minho, Villa do Reyno bem cercada, que estava por Castella. El Rey chegou a ella no mez de Janeiro de 1388 com seu campo, em que hiaõ D. Pedro de Castro, o Prior do Hospital, e Joaõ Fernandez Pacheco, e outros, que seriaõ por todos mil e quinhentas lanças, e muita gente de pé. Os de dentro, que estavaõ por defensaõ da Villa, eraõ Alvaro Paes de Soto Mayor, e Diego Preto, e Xemeno, com trezentos homens de armas, e outros tantos homens de pé escudados. El Rey assentou seu arraial e começou a combater com todo o genero de artifícios, e engenhos, a que chamavaõ trons, com que atiravaõ grandes pedras; a que tambem os de dentro respondiaõ com outras: e assi ouve muitas escaramuças. E vendo os de dentro huma taõ grande bastida, que el Rey mandou fazer de muitos sobrados, em que hiaõ os besteiros, a qual se movia por carros, e engenhos, sendo mui alta, e de grande largura, receando que a Villa podesse ser entrada, mandaraõ dizer a Joaõ Fernandez Pacheco lhe fosse falar; e el Rey o mandou: e chegando á barbacaã, e Alvaro Paes ao muro, falaraõ de vagar, e naõ se concertaraõ sobre a entrega da Villa. Nesse dia ouve huma escaramuça mais para ver, que as que até alli eraõ passadas; porque duas molheres bravas, huma do arraial, e outra da Villa, se desafiaraõ, e vieraõ aos cabelos: e por fim venceo a do arraial, como mais costumada a andar na guerra.

Nesse meio tempo chegou a Rainha a Monçaõ, tres legoas de Melgaço: vinhaõ com ella o doctor Joaõ das Regras, Joaõ Affonso de Sanctarem, e outros cavalleiros: dahi se veio ao Mosteiro de Feaes, huma legoa de Melgaço. Ao arraial chegou o Conde D. Gonçalo, e Joaõ Rodriguez Pereira; e escaramuçaraõ os do Conde com os da Villa, e foraõ feridos de ambas as partes, e nenhum morto. A aquelle tempo veio recado a el Rey que a villa de Salvaterra, que lhe deu D. Pedro de Castro, hum tabaliaõ do logar, e dous homens de armas a deraõ a Payo Sorodea. El Rey mandou logo lá o Prior D. Alvaro Gonçalvez com muita gente, mas naõ aproveitaraõ nada: e querendo el Rey mudar o artificio da bastida para prosseguir o combate de Melgaço, mandou chamar a Rainha, para que a viesse ver como se entregava. E a huma segunda feira, que eraõ tres dias de Março, depois de comer, mandou el Rey que abalasse a bastida com seus engenhos contra a Villa, e se moveo com grande força de gente, e andou dezoito braças. Após ella moveo huma ala, e despois outra e estiveraõ ambas arredadas do muro. Despois moveraõ a bastida outra vez, e foi bem: e chegou tanto á Villa, que punhaõ hum pé dentro do muro, e outro na escada; e sobio muita gente do Prior primeiro que todos, e mandou el Rey que se retirassem a fóra. Entaõ se fez prestes para mandar combater, e mandou a dez homens de armas que sobissem no mais alto sobrado, onde hiaõ as pedras de maõ, e moveo tudo juntamente, as escadas, e a bastida, em que hiaõ os homens de armas, e bésteiros. Da bastida sairaõ homens com grossos paos, que acostavaõ ao muro, e punhaõ tantos delles, que ficavaõ emparados os debaixo das pedras, e fogo, que de cima do muro lançavaõ; mas os de baixo lançavaõ muitas pedras aos de dentro, por naõ terem defensaõ. E enfadados os da Villa, mandaraõ outra vez pedir a el Rey lhes mandasse falar; e tornou lá a isso o Prior, naõ querendo el Rey consentir em avença alguma, sendo cousa que aos outros lugares concedia benignamente; mas queria tomalos por força, para se vingar de algumas palavras descortezes, que contra elle tinhaõ dito: e sobre isso ouve altercação entre el Rey, e os seus. Joaõ Rodriguez de Sá disse a el Rey, que lhe parecia bem fazerlhe partido, pois o cometiaõ; porque, tomandoos por força, lhe podiaõ matar algum homem, com que fosse anojado. El Rey lhe disse com ira, que quem tivesse medo, naõ entrasse na escala. Eu, senhor, disse Joaõ Rodriguez de Sá, naõ no tenho, se dizeis isso por mim: mas cuido que nunca me conheceste por tal. Nem eu (disse el Rey) o digo por vós; mas digoo, porque os tenho já por rendidos. A gente miúda, com dezejo de roubar, queriaõ  que perseverasse até tomar a Villa por força. Os nobres estavaõ por Joaõ Rodriguez. Em fim el Rey consentio na entrega a partido; e tornou lá o Prior, o qual assentou com elles, depois de muita razoes, que dessem a Villa, e o castello, e elles sahissem em calsas, e gibões sem outra cousa. Desta maneira foi dada a Villa de Melgaço, avendo cincoenta e tres dias que estava cercada. Dada a Villa por esta maneira, correo nova polo arraial que todos os cercados aviaõ de sahir despidos com suas varas nas maõs. Os moços, sem lho alguem mandar, ouvindo aquillo, foraõ colher varas, e cada hum trouxe o seu feixe, e pozeraõse á porta da Villa, para, quando os cercados sahissem, lhas meterem nas maõs a cada hum. Nisto, primeiro que todos, sahio hum mancebo pouco mais de vinte anos, e chegou onde el Rey estava: e, posto de joelhos diante delle, disse que elle era hum fidalgo, que viera áquelle logar per servir a el Rey seu senhor, cujo vassalo era: e por sua desaventura, sendo aquellas as primeiras armas, que tomara para o servir, via que lhe era forçado perdelas, segundo o que com os da Villa sua Alteza tinha tratado, que era a cousa de maior tristeza para elle de quantas lhe poderaõ acontecer, naõ por a perda das armas, que sua valia era pouca, mas porque lhe parecia que já com outras naõ averia nenhum bom acontecimento, se aquellas, que primeiro vestira, as perdesse de tal maneira. Por tanto lhe pedia por mercê lhas mandasse tornar: e quereria Deos que ainda lhe fizesse com ellas tal serviço, salva a honra de el Rey seu senhor, e sua lealdade: com que as ouvesse nelle por bem empregadas. El Rey, em que avia muita humanidade, e cavalaria, vendo a boa indole daquele mancebo, mandou que suas armas lhe fossem tornadas; e naõ se achando, lhe dessem quaes elle escolhesse: e assi só elle sahio armado. Ao outro dia foraõ lançados todos fora despidos em calsas, e em gibões: e os moços, naõ entrando aquillo no partido, metiaõlhe a cada hum sua vara na maõ, e elles as tomavaõ; e alguns por graça diziaõ aos que lhas davaõ: Rogote que me dês huma bem direita, e boa. Assi ouve el Rey a Villa, e o castello, de que deu a Alcaidaria a Joaõ Rodriguez de Sá: e partindo com a Rainha, tornou a Monçaõ.

 

CRONICAS DEL REY DOM JOAÕ DE GLORIOSA MEMORIA, O I

POR DUARTE NUNES DE LEAÕ

LISBOA

Na offic. de JOZE’ DE AQUINO BULHOENS

Anno M. DCC. LXXX

FILIPA DE LENCASTRE

melgaçodomonteàribeira, 28.11.15

224 - filipa.jpg

 

 

MELGAÇO, 3 DE MARÇO DE 1388

 

Ricardo, o escudeiro do rei, estava à porta do castelo porque D. João lhe ordenara que ficasse ali a ver chegar a rainha e lhe indicasse para onde devia seguir.

Os archotes ardiam nas muralhas e em todas as casas rodeadas por elas, e apesar do frio da noite, ouvia-se o canto dos soldados vitoriosos: Melgaço tinha sido conquistada, e era agora portuguesa. João desforrava-se simbolicamente de Juan de Castela e de John of Gaunt, como se ao primeiro mandasse a mensagem de que faria incursões no seu território sempre que o entendesse, e ao outro que não precisava dos exércitos ingleses para nada.

Philippa pensou lembrar-lhe que fora ali que o pai estivera alojado, quando os habitantes e os soldados lhe tinham entregado a fortaleza de mão beijada, mas depois pensou que não fazia sentido defender o pai contra João. Partiu do mosteiro de Fiães para onde regressara passadas as festa natalícias, feliz e contente, a mão na barriga que continuava a crescer, e os cinco meses de gravidez já não tornavam possível esconder.

O banquete era servido na torre principal, mas as mesas estendiam-se pelo terreiro e até pelas ruas, que a população galega que naquele dia passara a portuguesa, achava por bem começar já a homenagear o seu novo rei, que o outro também lhe servira de pouco.

Quando Philippa, no seu vestido verde-escuro, uma tiara de ouro na cabeça, entrou na sala, todos lhe ergueram a caneca de vinho. O rei chamou-a para junto de si e pediu ao escudeiro Ricardo que lhe contasse a primeira batalha a que assistira. Logo uma em que tinham acabado vencedores.

Philippa esforçou-se por não rir, porque a descrição do miúdo, que tinha crescido centímetros sobre centímetros no último ano e a quem a puberdade esganiçara a voz, era no mínimo hilariante. O miúdo lembrava-lhe Henry, quando chegava dos torneios, e tropeçava nas próprias palavras, tal a vontade de num segundo resumir tudo o que acontecera em dias inteiros.

Mas os olhos perderam imediatamente o brilho de felicidade quando percebeu que Afonso estava do outro lado do pai, furioso pela sua presença.

- O que faz uma mulher na celebração de uma batalha? – perguntara o infante entre dentes. À fúria da chegada de Philippa, somava-se o desespero de El-Rei seu pai ter tido o desplante de pedir a um mero escudeiro o relato da conquista, quando tinha o filho à sua esquerda.

Fingindo não ter ouvido o comentário, Philippa estendeu a mão a Afonso, que a beijou de má vontade. Nada incomodada, a rainha perguntou:

- Já sei Afonso, que a tua coragem na tomada deste castelo foi digna da do teu pai.

O miúdo ficou petrificado. Não podia responder torto a quem lhe falava tão bem, e por outro lado a lisonja, como Philippa depressa descobriria, era uma arma que o vencia sempre. Olhou-a desconfiado, mas o pai, apanhando a «deixa», confirmou:

- Apesar de ter apenas onze anos, o Afonso lutou sozinho com um soldado castelhano (omitindo que Nuno Álvares estava a seu lado para o que desse e viesse) e acabou por lhe fazer saltar a espada da mão…

- Que voou pelos ares… e foi bater numa das ameias – continuou Afonso, excitado, esquecido da raiva e do ódio.

Philippa tinha um talento imenso para lidar com crianças, porque não esquecera ainda como era sentir-se mais pequeno, desprotegido e ignorado pelos adultos. Por isso foi encontrando formas de ir prolongando a conversa, até que o enteado se mudou para o seu lado e falou com ela a noite inteira. Esquecido, mas por momentos apenas, de que a criança que crescia dentro dela poderia ser o seu mais poderoso rival.

Melgaço era finalmente portuguesa e a comandá-la, o rei deixara João Rodrigues de Sá, aquele que mandara em seu lugar casar por procuração com Philippa. Quando se despediram, a rainha não resistiu a dizer-lhe que esperava que esta tarefa fosse mais fácil do que a outra, e ele com seu sorriso tímido e reservado, dobrara ligeiramente o joelho para lhe beijar a mão.

 

Filipa de Lencastre

A Rainha Que Mudou Portugal

Isabel Stilwell

A Esfera dos Livros

30ª Edição

Novembro 2014

PP. 318-320