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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CAPELA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATE II

melgaçodomonteàribeira, 02.10.21

233 - Coriscadas.JPG

 coriscadas  castro laboreiro

(continuação)

 

Esta seria a versão que associa esta família à origem do culto da Senhora de Monserrate neste recanto serrano. A outra refere-se a uma mãe que foi confrontada com a infelicidade de dar vida a dois filhos surdos de nascença. Primeiro um, depois outro, os meninos iam-se desenvolvendo com toda a normalidade, fortes, bonitos como estrelas, sem o menor sinal que apontasse para um qualquer problema ou defeito. Quando o segundo nasceu, já o mais velho corria pela casa e pelo pátio ou a eira onde a avó tomava dele enquanto a mãe tratava dos seus muitos afazeres. Começaram a estranhar o facto de o menino não falar, já a voz do povo se ouvia para lamentar a sorte do rapazinho. A dúvida e o temor de terem um mudinho em casa tomaram a mãe e a avó mas nem uma nem outra ousavam dizer em voz alta o que lhes entristecia a alma. Continuaram a esperar, de um dia para o outro a criança ia desatar a língua e começava a falar, garantia a tia Lomba, entendida em casos de beta, espinhela caída e outras maleitas daqueles tempos. Só quando o segundo menino reproduziu o padrão do mais velho é que a evidência se impos à mãe pela voz do doutor: eram surdos e porque eram surdos eram mudos e a ciência ao seu alcance não podia nada por eles, tinha de ter paciência, pior seria se nascessem sem um braço ou uma perna.

A mãe não se rendeu à impotência do médico: a ciência não a podia ajudar, Nossa Senhora, que também era mãe, intercederia por ela junto de Deus. Era tão grande a sua fé que começou logo a diligenciar para arranjar trabalho na ramboia para juntar o dinheiro necessário para pagar a promessa: se os seus filhinhos ouvissem e fossem capazes de falar, mandaria levantar uma capela em honra de Nossa Senhora. Não chega até hoje eco de que houvesse dois mudos por aquelas bandas, por isso é de crer que as crianças se aventuraram na comunicação verbal fora de tempo. Também não se sabe se essa capacidade tardia se deveu à interferência da Mãe de Deus para adoçar a vida da mãe dos meninos ou se estes eram dotados simplesmente de um ritmo próprio fora do comum.

Foi esta mãe ou pai que mandaram edificar a capela? Escolhido o local, seguiu-se o apelo ao pároco da terra para diligenciar no sentido da aquisição da imagem de culto. Porque os contactos com a Galiza eram mais fáceis e habituais, parece que a busca da imagem se terá realizado no país vizinho, em Ourense ou Santiago ou lá para Madrid ou mais longe até. Porque foi adquirida a efígie da Senhora de Monserrate e não qualquer outra ultrapassa o entendimento do narrador e dos interlocutores que levantaram este véu. É claro, isso sim, que enquanto a obra da capelinha decorria, ficou a santa ao cuidado do pároco, em sua casa, aguardando a cerimónia pública da sua bênção e a entrega à que ficaria a ser a sua casa. Também se conta que a santinha esteve escondida, pois chegou a Portugal clandestinamente e temia-se que fosse feita prisioneira como se de um refugiado se tratasse. A capela foi construída em terreno baldio, perto da aldeia, e a sua diminuta dimensão tem a ver com a singularidade da sua origem: obra de uma família de fracos recursos. De fracos recursos e de muita fé e, em guisa de conclusão vem-nos à memória um provérbio muitas vezes ouvido: o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.

 

                                                                        Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Junho de 2015

CAPELA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATE I

melgaçodomonteàribeira, 25.09.21

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QUANDO DEUS QUER

 

Quando Deus quer e o homem tem fé e sentido de gratidão, podem nascer as obras mais surpreendentes. É o caso da capelinha da Senhora de Monserrate, assim mesmo capelinha, porque surgiu muito pequena, talvez em consonância com a carteira de quem a encomendou. Chegaram-me duas versões, ambas belas e ambas como tributo ao amor, a Deus e sua Mãe, que fizeram o milagre, à família do homem ou da mulher de fé que confiaram nos desígnios do Criador. As duas versões da origem da capelinha são verosímeis, outras poderá haver, o povo é profícuo em acrescentar pontos ao que se conta, e como os que poderiam dar testemunho estão em vias de desaparecer, ficamo-nos por aqui.

Eis a história de um pai que muito sofreu para criar os sete filhos com que a Natureza o presenteou e à sua mulher. Foi há muito tempo, a data poderá precisar-se mas não faz falta para apreender o que importa. Um após outro, com alguns que não vingaram pelo meio, foram nascendo os sete filhos de um casal que vivia num lugarejo no planalto dos montes do Laboreiro, nos contrafortes da serra da Peneda. Todos homens. Ao fim do terceiro ou quarto, começou a instalar-se o desejo de que uma menina aparecesse para trazer o seu encanto à fratria que os pais não viam parar de crescer. A mãe deixava-se aconselhar por mulheres mais entendidas, que sabiam como fazer para conceber uma menina, atentando às luas, aos meses, à própria maneira de se entregar ao homem. Os conselhos de nada resultaram, até porque as crianças se instalavam no ninho materno sem que a vontade dos progenitores tivesse algum papel, a natureza e só a natureza é que mandava.

À medida que cresciam e ganhavam autonomia, os rapazes começaram a largar as saias da mãe, a asa protetora do pai. A terra era muito pobre, as courelas escassas para garantir os meios para uma subsistência digna a tanta boca. A pouco e pouco partiam, voltavam, tornavam a partir, como todos os homens empreendedores da terra. Alguns casaram e constituíram a sua família, alargando de modo significativo o núcleo da família de origem. Quando se juntavam na casa dos pais, apesar do número sempre a crescer, a mãe não se cansava de lembrar os tempos idos em que os sete filhos se sentavam à mesa e todos partilhavam o muito ou o pouco que havia para comer. Os tempos mudavam, noras e netos e netas contribuíam em número, descontração e alegria para transformar cada encontro numa festa, mas à medida que os anos passavam aumentava a nostalgia do casal em relação à ausência de um ou outro filho. Era bem receber notícias e saber que pelo Natal ou pela festa da Senhora dos Milagres os ausentes se fariam presentes, mas havia um vazio que permanecia.

A mulher viu-se tomada por uma febres que não lhe deram tréguas durante dias, caiu na cama e todos julgaram que era chegada a sua hora. O homem, seu confidente privilegiado, sentiu como sua a saudade da sua companheira, fez apelo à sua fé mais profunda, rogou pela recuperação da enferma e fez a promessa da sua vida: mandaria construir uma capela em honra de Nossa Senhora se juntasse os sete filhos na sua casa. Não se atrevia a juntar à promessa o voto de a mãe poder abraçá-los a todos em simultâneo antes de se entregar ao Criador, mas era esse o seu propósito mais firme, que guardava só para si, receoso que a partilha do mesmo desse azar ou que mostrassem pena dele.

Deus ou Nossa Senhora, ou os dois em conluio, atenderam as preces deste pai e marido extremoso, sem igual, e a sua cara-metade afugentou as sezões que a deixaram muito debilitada mas de pé. O susto de quase a terem perdido chegou aos filhos ausentes quando da doença que a acometeu e a vontade de responderem com a sua presença aos desejos dos pais fez caminho. Por ocasião da festa da Senhora dos Milagres, os sete irmãos marcaram presença na casa onde tinham nascido. Um deles só chegou ao pôr do sol, mesmo a tempo de ocupar o seu lugar à mesa do jantar. Coube-lhe a ele, por delegação do pai, a oração que antecedia a refeição. A que se seguiu foi o pai que a disse e logo de seguida anunciou que o seu maior desejo estava cumprido, as suas preces tinham chegado ao céu, só lhe restava pagar a promessa: construir a capelinha em honra de Nossa Senhora.

 

(continua)

O CONTACTO COM A NATUREZA

melgaçodomonteàribeira, 21.08.21

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“O CONTACTO COM A NATUREZA…”

 

A FORJA

Era Domingo de Páscoa. O pároco percorria os caminhos e entrava nas casas dos paroquianos para dar a beijar a sagrada Cruz. O séquito era constituído pelo sacristão levando o crusifixo, e mais dois ou três elementos para transportar o caldeiro da água benta, tocar a campainha, assinalando a passagem do acompanhamento. E ainda para recolherem as dádivas dos paroquianos. À entrada do lugar juntavam-se-lhe as crianças integrando o séquito de casa em casa, para saborear as várias guloseimas. Dada a extensão e dispersão dos lugares, o pároco dividia as visitas. O Domingo era destinado aos 5 lugares fixos e às brandas até ao Rodeiro, passando em casa deles, nas Coriscadas, a meio da tarde, no regresso e por isso, ele e a mãe, iam a casa dos avós, da parte da manhã.

Pouco antes da chegada do acompanhamento apareceu um rapaz vizinho, com ar triste, a perguntar à avó se podia ficar ali para beijar a cruz.

- Claro rapaz! – disse a avó Isabel.

Passado algum tempo ouviu-se a campainha e a algazarra das crianças no terreiro de S. Bento. A avó chamou toda a gente para irem à missa a celebrar na capela de S. Bento. No final dirigiu-se rapidamente para casa, onde estava uma mesa posta, com a melhor toalha de linho e vários doces, incluindo o tradicional pan leve, e uma garrafa de vinho fino.

O Padre, vestido com uma opa branca e o barrete de quatro bicos, entrou aspergindo água benta para benzer a casa e o sacristão deu o crucifixo a beijar às pessoas, ajoelhadas ao redor da mesa, começando pelo chefe da casa. Terminada a ronda, o padre e a comitiva foram convidados a provar os doces, enquanto o avô entregava a um dos acompanhantes uma garrafa de Porto e alguns ovos para o senhor abade. Alegando ter de percorrer um longo caminho, o padre provou um bocado de pan leve, desejou uma Santa Páscoa e saiu, acompanhado dos seus acólitos, enquanto as crianças engoliam alguma coisa à pressa e corriam para a casa seguinte, exactamente a do rapaz. Como ele não se mexia o Manuel perguntou-lhe:

- Não vais a tua casa beijar a Cruz?

- O Padre não vai a minha casa! – respondeu o garoto com tristeza.

- Porquê? – perguntou, intrigado.

- Não sei! – respondeu, encolhendo os ombros.

Ele e a mãe almoçaram com os avós e os primos e depois foram para casa deles, onde a meio da tarde iria passar a Cruz. Durante o caminho perguntou à mãe:

- Ó mai o Padre não vai a casa do José, porquê?

- Porque o pai e a mai não são casados. São amigados.

- Mas o senhor abade, no catecismo, diz que todos somos irmãos e filhos de Deus!

- Pois é meu filho, mas depois somos tratados de maneira diferente. Isso tem a ver com o padre e não com Deus. Nem o filho deles queria baptizar!

Não disse mais nada mas ficou a cismar sobre a razão de Deus tratar os filhos de forma diferente.

Uma manhã, em casa da avó, dirigia-se para o terreiro de S. Bento, quando reparou num papel pendurado na porta da capela. Falava em eleições para Presidente da República e num General Norton de Matos. Não percebeu muito bem porque dizia mal de Salazar, cujo retrato estava pendurado na Escola, por trás da secretária da professora, e foi perguntar ao tio.

- Ó tio, já viu o papel na porta da capela?

- Já. Vai haver eleições para Presidente da República. Neste momento o Presidente é Carmona mas quem manda em Portugal é Salazar. Há muitos portugueses contra ele e querem mudar os do Governo. Por isso decidiram apresentar o general Norton de Matos, que é contra Salazar, para Presidente da República. Esse papel é para informar as pessoas.

- As pessoas estão contra Salazar porquê?

- Porque mantém Portugal na miséria e como um País atrasado. Não vês esses desgraçados a trabalharem na estrada? Mal ganham para comer uma posta de bacalhau salgado com pão e um copo de vinho. E a nossa vida é igual. Não temos médico e muitas pessoas morrem por não poderem ser tratadas a tempo. Para todos os lugares só existia a Escola da Vila. Por isso há muita gente a não saber ler nem escrever. O povo juntou-se e com muito sacrifício construiu a Escola onde tu andas e ofereceu-a ao Estado, mas só ao fim de alguns anos colocaram uma regente a ensinar. Não há electricidade nem estradas. Quando tentamos ir para outro país, onde se ganha mais, somos presos, como o teu pai e outros. Além disso as pessoas não podem falar. Se disserem mal do Governo podem ter problemas. Quem manda é o regedor, os guardas e o padre. Informam o governo de tudo.

A professora, na escola, dizia outra coisa e contou isso ao tio.

- Claro, os professores dependem do Estado e não podem contar a verdade, senão mudam-nos de local ou deixam de poder ensinar. Mas vai abrindo os olhos e aprende em não acreditar em todas as conversas deles!

Ficou intrigado mas o assunto foi esquecendo. O papel desapareceu no dia seguinte e alguns meses mais tarde a professora disse que Salazar continuava a mandar em Portugal.

O contacto com a natureza e o enfrentar dos desafios no seu dia a dia desenvolvia, no castrejo, um espírito de liberdade, avesso à imposição de qualquer norma exterior à comunidade.

Os de fora eram olhados com desconfiança e apelidados de pelicas ou peilans. A sociedade regia-se pelas suas próprias normas ancestrais. As ligações com os vizinhos galegos eram privilegiadas e consideradas naturais. Os esquemas arquitectados pelo poder para vincar a importância da fronteira separadora apenas obrigava a ter algumas cautelas, mas nunca conseguiram romper as ligações de solidariedade ou de interesses e cooperação entre os dois lados.

 

O Pegureiro e o Lobo

estórias de castro laboreiro

Manuel Domingues

NEPML

pp. 63 – 66

 

O TOJO MAIADO

melgaçodomonteàribeira, 26.06.21

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O BIVAQUE DOS FASCISTAS

 

Desde o princípio do mundo talvez, diz uma das atuais terra-tenentes desses “andengues”, que os portugueses possuíam propriedades do lado de lá da fronteira. Eram campos de pasto, de feno, carvalheiras, “uzeirais”, tojais, que pouca valia deviam ter para os galegos mas que eram explorados e mantidos por portugueses. Todos os três meses iam a Crespos pagar as “pagas”, o que até dava jeito pois a viagem servia também para comprar a melhor preço bacalhau, azeite, chocolate, farinha triga, toucinho branco até, quando o caseiro se esgotava. Estava-se ainda longe do final do século XX quando acabaram com essa contribuição, por insignificante que deveria ser para o erário público do país vizinho. Com os aumentos de impostos que se sofrem nos dias que correm e o descalabro financeiro que a televisão mostra também na Espanha, há quem tema pelas “pagas” sejam repostas, mas em multiplicado. Outros pensam de modo diferente receando antes uma expropriação justificada pela falta de uso da terra. A ver vamos, o que o futuro reserva a esta realidade local é incerto e poderá até eternizar-se tal como está.

Por fracos que fossem os proventos daquelas propriedades, os seus donos exploraram-nas até quase ao virar do milénio. Depois aconteceu-lhes o mesmo que aos terrenos em Portugal: foram sendo progressivamente votados ao abandono, não restando hoje quaisquer das atividades tradicionais que foram o ganhapão de gerações e gerações, antes das reformas e pensões com que quase todos são contemplados. Essa pequena fonte de recursos de além fronteira só conta hoje na memória saudosista e em raras conversas dos antigos, muitos dos atuais e futuros proprietários nem será capaz de localizar os seus prados.

No decurso da guerra civil espanhola e mais tarde, durante e para além da segunda guerra mundial, o controlo do vaivém entre os dois países era efetivo: pessoas e animais tinham de andar munidos da respetiva identificação. As “guias” davam razão do que cada proprietário possuía, terras e cabeças de gado, bem como cães e carros de bois. Não havia contemplações para quem não cumprisse, não era permitido levar um animal a mais e quem prevaricasse ficava sujeito a punição que podia ser o impedimento de atravessar a fronteira, de ver os animais retidos, de pagar uma multa ou, em casos extremos, de se ver conduzido para um posto da guardia civil. Não brincavam em serviço os carabineiros dos idos anos trinta, quarenta e cinquenta.

Durante esse período de razia de vidas humanas os portugueses da raia não podiam atravessar a fronteira antes do nascer do sol ou depois de o mesmo se ter posto. Estava-lhe igualmente interdito o trânsito com dinheiro nos bolsos, não fosse algum “celerado” refugiado beneficiar da ajuda dos portugueses. Os falangistas, que, como é sabido, prolongaram a sua atividade de guerrilha muito para além do término da guerra civil, eram presença assídua nos caminhos trilhados pelos castrejos, entre os marcos um e vinte e tal. Eram agressivos e mais papistas do que o papa, quer dizer, chegavam a ser mais controladores e violentos do que a guardia civil. O povo temia mais os bivaques amarelos do que os próprios carabineiros e, sobretudo as mulheres que temiam pela sua honra, fugiam de encontros com eles.

Um dia saía, asinha, Isabel da Barreira para ir guiar a água a um campo de feno na Galiza. Encontrou à saída do lugar um comerciante de gado pronto a pagar-lhe ali mesmo um vitelo que lhe tinha comprado. Isabel precisava do dinheiro, não o recebendo no momento ficava sem saber quando o veria, pelo que resolveu arriscar e seguir para a raia com ele. Guardou-o bem escondido junto ao seio, debaixo do corpete, longe do salvaconduto, com sorte não ia ter maus encontros. Apressou-se a chegar ao seu destino, abriu as “tolas” e certificou-se que a água tinha caminho aberto até ao fundo do campo. Sentou-se um momento para espraiar o olhar sobre a propriedade, tão bonita, tão limpa, tão bem murada, pena que ficasse tão longe do eido. Olhou para o portal de saída e o seu coração começou a bater em ritmo acelerado: um bivaque amarelo escondia-se mesmo ao lado do ponto de saída. Desviou a vista, como a esconjurar a presença do inimigo. Voltou a olhar e lá estava o chapéu amarelo a abanar para um lado e outro. Diabo de homem, porque não se mostrava? Devia estar com más intenções, queria apanhá-la de surpresa, maldito! O dia declinava e Isabel sem coragem de se pôr a caminho. Dali a pouco tudo seria pior, o sol estava quase a cair para lá da Cabeça do Pito. Sol posto e ela ali no prado, encurralada, seria a sua desgraça!

Estava neste indeciso e temeroso cismar quando ouviu um melodioso assobio. Vinha do lado da Corga da Gândara. Pronto, outro maldito que se ia reunir ao que a espiava, escondido, o cobarde, só o bivaque amarelo a indiciar a sua presença. A força que a mantinha pregada ao chão aumentou e o medo tomou o lugar do receio, a barriga a revolver-se-lhe toda. Começava a encomendar-se à Senhora dos Aflitos e eis que ouve chamarem por ela. Reconheceu logo a voz de Domingos, seu vizinho e compadre e levantou-se como uma flecha, atravessou o campo a correr, descurando onde punha os pés, o que menos lhe importava era os socos cheios de água, queria o amparo da companhia. Fez-lhe sinal para parar, alcançou-o e segredou-lhe que tinham companhia. Estava enganada, acabara de se cruzar com eles no sentido contrário, baixavam para Lapela.

Aproximaram-se do ponto fatídico onde o biltre se escondia e Isabel riu-se em voz alta do seu próprio medo: o que ela tinha tomado por um bivaque amarelo à sua espreita não passava de um grande tojo maiado abanando ao vento. Nem se aborreceu com os chistes do Domingos nem se apressaram a chegar ao marco três antes do pôr do sol, se os falangistas se dirigiam para o lugar de Lapela tinham tempo de regressar com calma e fazer da caminhada um momento de partilha.

O medo de se confrontar com os fascistas e ser maltratada até a fizera esquecer-se do dinheiro guardado na quentura do seio, só à noite, ao desapertar o colete, antes de se deitar, é que encontrou as notas que o Cerdeirinha lhe tinha dado à tarde.

 

                                                              Olinda Carvalho

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Abril de 2015

GUERRA CIVIL DE ESPANHA - REFUGIADOS EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 06.03.21

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BREVE ESTUDO ETNOGRÁFICO SOBRE O NÚCLEO FAMILIAR TRADICIONAL DE CASTRO LABOREIRO

 

DEPOIMENTOS SOBRE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA (1936-1939)

 

19/08/2014, Rodeiro

Houve um “casal” (não de matrimónio) que se refugiou no Rodeiro, numa casa que hoje se encontra em ruínas, ao lado de uma outra com uma “alminha” numa das paredes exteriores, no caminho que vai para o forno comunitário, em direcção às cascatas. Este senhor conta que a Guarda sabia da localização deste casal e um dia, a cavalo, dois guardas pararam em frente a esta casa e perguntaram pelo paradeiro destes refugiados. Como a resposta dos habitantes foi muda ou incerta, os dois guardas ataram as mãos de uma senhora de idade com uma corda e lentamente puxaram-na para que viesse a pé atrás dos cavalos, e os “refugiados” vendo isto expuseram-se. A verdade é que uns dos guardas enamorou-se pela rapariga refugiada e casou com ela. Ainda hoje estão casados e por vezes visitam o Rodeiro.

 

10/09/2014, Portelinha

A D. Maria José Fernandes, falecida, habitante de Portelinha, guardou um segredo no tempo da Guerra Civil Espanhola. Houve um médico galego que se refugiou em Castro Laboreiro nessa altura. O local de seu refúgio foi o moinho das Coriscadas, que pertencia à sua irmã, “que morreu com 96 anos”. Os familiares deste médico levavam-lhe comida e livros. “Durante o dia saía, e à noite pernoitava no moinho”. Mas este médico foi encontrado pelas autoridades e levado novamente para Espanha. “O montão de livros que ele deixou lá!”

 

Diana Carvalho

Mestranda em História e Património

ABELTERIVM

Volume III

Maio 2017

 

 

FORNOS COMUNITÁRIOS EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 23.01.21

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foto de a voz de melgaço

OS FORNOS DE CASTRO LABOREIRO

Em todo este rol de documentação histórica, encontramos apenas três referências a fornos antes do século XX. Duas das referências de fornos de pão estão no fundo documental do Cartório Notarial de Castro Laboreiro (1777-1855). Uma no livro de 1823-1837, com a seguinte referência: “(…) aí tem (…) lamasqueira (…) que dá com o forno de pão” (…). A outra referência, no livro de 1843-1846, “(…) o forno velho, tojal (…) eira e palheiro, anta (…)”, cujas confrontações são a nascente com José Alves e a ponte com um caminho público. Se a palavra “lamasqueira”, da primeira referência, for de carácter toponímico, poderá querer aludir ao atual lugar da Ramisqueira. Se assim for, podemos confirmar que existe forno de pão nesse lugar. Este forno, segundo o sr. Eduardo Afonso, herdeiro e seu proprietário atual, sempre foi privado. Acrescentou que dele se serviam todos os vizinhos que no Inverno se mudavam para aquela inverneira, uma vez que um outro forno da Ramisqueira, dito de tradição comunitária, segundo o mesmo testemunho, tinha ruído ou fora demolido. Quando consultámos as matrizes prediais e urbanas na repartição de finanças de Melgaço, o forno da Ramisqueira que atualmente se pode ver, não está registado sob nenhuma tutela. Contudo o forna está implantado num terreno particular, que pertence ao sr. Eduardo Afonso e família.

O atual forno das Eiras pode ser aquele que é mencionado na segunda referência, pois é considerado antigo, não havendo, no enquanto, memória da sua construção. Está implantado entre vários terrenos particulares, e a sua entrada confronta a poente com um caminho público e a nascente confronta-se com a casa de um particular, correspondendo à descrição do “forno velho”. Porém, a população desta branda diz que o forno não tem proprietários, sendo, por isso, comunitário. Tudo parece indicar que assim é, sobretudo pelas suas dimensões, mas ficam por apurar alguns detalhes relativos aos antigos proprietários, que pudessem confirmar a antiga tutela do forno. Este também não se encontra inscrito nas matrizes prediais e urbanas consultadas. A terceira referência encontrada no século XIX, está num livro de atas de vereação da década de 40. No livro de atas de vereação da extinta Câmara Municipal de Castro Laboreiro de 1842 a 1849, está então uma referência ao forno do Lugar das Cainheiras, em 31 de Maio de 1844, a propósito da nomeação de um “goarda rural daquele lugar fazendo cumprir por todos os moradores daquele lugar”, a “vigilância e bom funcionamento”, “de todas as fontes, fornos, caminhos e mais obras públicas daquele lugar.” – este excerto demonstra que todos os elementos nomeados são de uso comum, aliás, “público”. Apesar do excerto da fonte nos indicar uma pluralidade de fornos, atualmente o lugar das Cainheiras dispõe apenas de um forno que se diz ser comunitário. Além da bibliografia e fontes mencionadas não foram encontradas mais referências a fornos anteriores aos finais do século XX que nos levassem a tirar conclusões determinantes relativamente à natureza administrativa dos fornos de pão de Castro Laboreiro que não fosse de ordem principalmente comunitária. Todavia existe uma panóplia de documentação medieval e moderna, que se encontra dispersa e por estudar, não havendo possibilidade nem habilidade até ao momento de a reunir e descodificar, mas onde se poderão encontrar informações específicas quanto ao passado tutelar destes bens de produção.

 

CASTRO LABOREIRO – DO PÃO DA TERRA AOS FORNOS COMUNITÁRIOS

Uma proposta de mediação patrimonial

Diana Alexandra Simões Carvalho

Dissertação do Mestrado em História e Património

Ramo de Mediação Patrimonial

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

2017

pp. 60-61

 

video de diana carvalho

 

 

FORNOS COMUNITÁRIOS EM CASTRO LABOREIRO E LAMAS DE MOURO

melgaçodomonteàribeira, 30.06.20

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forno comunitário em ameijoeira, castro laboreiro

 

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

 

As referências mais antigas ao cultivo do centeio, consumo de pão e sua função de pagamento, na região de Castro Laboreiro, até agora encontradas, encontram-se nos seguintes forais, que o Padre Manuel Pintor refere na sua Obra Histórica I:

Foral de D. Sancho I – “Quando fosse a Castro Laboreiro o rei recebia de cada casa 2 pães e a sua taleiga de cevada. Não satisfaziam impostos, a não ser 5 dinheiros de cada casa por cada um dos crimes nefandos.”

Foral de Afonso III (Segundo a reforma de D. Manuel I) – “Segundo se vê da reforma, não pagavam os 2 pães de centeio e a taleiga de cevada porque o Rei não ia lá, e só quando fosse em pessoa é que deviam pagar.”

Mais tarde, os Tombos de 1538, 1551 e 1565, reúnem várias referências ao centeio e ao pão, como pagamento à igreja e aos comendadores, pelas herdades, por exemplo – “E logo os ditos homens bons fizeram pergunta a Ines Fajão molher viúva que herdades trazia da dita Comenda e logo ella disse pelo juramento que lhe tinhão dado que não trazia outra cousa somente a herdade da Pereira que está à porta da igreja. E que pagava della quando tem pão huma fanega” – além de referências a moinhos, indicando talvez a existência de equipamentos de cozedura de grande dimensão que pudessem dar resposta às quantidades exigidas para pagamentos e para o consumo do povo.

Em 1758, é feito um inquérito aos párocos, respondendo o de Castro Laboreiro da seguinte forma: “Ao décimo quinto artigo respondo que os frutos que os moradores desta terra recolhem em cada hum ano com abundância hé somente centeio.” – demonstrando a continuidade da longa tradição do cultivo do centeio e da sua relevância para a alimentação, sendo esta terra difícil de arar e cultivar outros alimentos. O pároco nunca refere a existência de fornos, apenas de moinhos e outras estruturas.

Finalmente, a primeira referência encontrada nos livros de actas disponíveis no arquivo municipal de Melgaço, da ex-Câmara Municipal de Castro Laboreiro, sobre fornos comunitários, é sobre o forno do lugar das Cainheiras a propósito da nomeação de um “goarda rural daquele lugar fazendo cumprir por todos os moradores daquele lugar” “a vigilância e bom funcionamento” ”de todas as fontes, fornos, caminhos e mais obras públicas daquele lugar” – este excerto demonstra que todos os elementos nomeados são de uso comum, aliás, “público”, o que leva a concluir que no século XIX (pelo menos) já existia a noção de forno comunitário segundo os parâmetros que hoje se conhecem. Cem anos mais tarde encontra-se uma nova referência a um grande alargamento feito no lugar de Assureira, na Acta de 6 de Novembro de 1983. Todos os testemunhos orais recolhidos referem a causa da demolição desse forno por necessidade de alargamento da entrada deste lugar. Só aparece uma nova referência directa a fornos comunitários em 1993, na Acta de 6 de Junho do mesmo ano, a propósito da reparação do forno comunitário da Portelinha.

Após esta data aparecem várias referências a outros fornos no âmbito das duas freguesias, sendo que a última data de 1 de Junho de 2013.

 

FORNOS COMUNITÁRIOS DE CASTRO LABOREIRO E LAMAS DE MOURO (MELGAÇO)

Diana de Carvalho

Município de Alter do Chão

Maio, 2015

 

 

CASTRO LABOREIRO E O FORAL DE AFONSO HENRIQUES

melgaçodomonteàribeira, 19.05.20

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De todos é sobejamente conhecida a personalidade guerreira do primeiro Afonso, que, na ânsia desmedida de consolidação da autonomia e alargamento dos limites do Condado Portucalense herdado de seu pai, rebelou-se contra a própria mãe, teve os mouros do sul a ferro e fogo e aguentou acesas escaramuças com os nossos vizinhos galegos – S. Mamede, Cerneja, Valdevez, Ourique, Santarém, Lisboa, Alcácer, Galiza…

Numa das suas inconstantes investidas contra Galiza conquistou às armas de Leão o castelo de Castro Laboreiro, como consta da carta de couto outorgada à abadessa do mosteiro de Paderne, Elvira Sarracine. O monarca concede o dito couto ao cenóbio em compensação do tributo de dez éguas com suas crias, trinta moios de vinho, um cavalo avaliado em quinhentos soldos e cem moedas de ouro, que a dita abadessa lhe tinha prestado durante o assédio da fortaleza.

À data deste monumento – 16 de Abril de 1141 – já o castelo de Laboreiro sofria novamente por Portugal e tudo leva a crer que foi efémero o estear da bandeira alheia na sua torre de menagem, pois, se é verídica a indução do ilustre investigador, tenente-coronel Augusto Botelho da Costa Veiga, a perda de Castro Laboreiro derivou de uma contra-ofensiva galega lançada por Fernando Eanes, no Inverno de 1140,, durante a ausência temporária de Afonso Henriques.

Se o relato desta carta de couto é demasiado seco na apresentação das operações aguerridas em volta do baluarte dos montes Laboreiro, é o único, e outros documentos se não conhecem. Existe, no entanto, um, menos comentado, que poderia ser da maior utilidade para aclarar o intrincado da questão, se não estivesse hoje praticamente delido pela erosão dos séculos. Trata-se de um documento epigráfico que, durante séculos a fio, integrou os muros robustos do castelo. De acordo com a leitura que lhe dá o incansável magistrado Luís Figueiredo da Guerra, testificaria a sua conquista ainda no decurso do ano 1140, ajustando-lhe o monarca Conquistador avultadas obras de restauro no ano de 1145, completadas pelo seu filho – D. Sancho I:

“D. Afonso Henriques conquistou em 1140 o castelo aos espanhóis, reparando-o em 1145, mas D. Sancho I completou a obra, como memora a inscrição que lá existe”

Na ânsia de ver de perto esse monumento, contactei o P. Aníbal Rodrigues, pároco de Castro Laboreiro, que me indicou uma pedra no adro da igreja paroquial, supostamente a referida epígrafe ou parte dela, que, segundo informação do mesmo, para ali foi carreada aquando das obras de restauro do castelo, levadas a cabo sob o comando da Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais – Zona Norte. Apesar do acesso fácil, foi-me o préstimo minguado porque não consegui identificar, com firmeza, um único caracter, apenas alguns sulcos bastante apagados parecem inculcar a veracidade e antiguidade da epígrafe.

Esta inscrição já tinha chamado a atenção de José Leite de Vasconcelos que, estando no ano de 1904 a veranear nas Águas do Peso, se dirigiu a Castro Laboreiro, não dispensando uma visita ao vetusto castelo, onde deparou com a inscrição. Também um correspondente de A Neve, individual periódico publicado em Castro Laboreiro, presta informações de algum interesse, nomeadamente, a existência de mais do que uma pedra epigrafada, a dificuldade de leitura e o seu estado de abandono do topo sul, junto da gruta natural formada pelos dois penedos que juntam as extremidades, e que o autor, erradamente, identifica com a capela de Santa Bárbara.

A conservação deste monumento deve-se ao esmero do arquitecto Roberto Leão, conforme o mesmo refere no artº 23º de um extenso relatório. De 16 de Agosto de 1981, dirigido ao Director dos Monumentos Nacionais do Norte, onde denuncia certos atropelos nas obras de restauro desta fortaleza:

“Felizmente, em 1974 foram retiradas por nós e depositadas na igreja, duas pedras e um fragmento, com inscrições históricas, do séc. XII, entregues à guarda do Pároco e onde se encontram, o que evitou serem possivelmente aplicadas em alteamento de muralhas ou partidas para enchimentos”

A verdade é que, dada a condição do documento, nenhum dos autores, à excepção de Figueiredo da Guerra, se atreveu a uma leitura ou qualquer achega. Por incrível que pareça, essa leitura parece aproximar-se bastante das deduções cronológicas de Botelho da Veiga e dos singelos factos que temos vindo a referir, nomeadamente, a atenção dispensada por D. Sancho I a Castro Laboreiro.

 

O FORAL DE D. AFONSO HENRIQUES A CASTRO LABOREIRO.

“ÁDITO” PARA O DEBATE.

José Domingues

Porto, 2003

http://www.academia.edu/3470740/O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro. Adito para o debate

jdominguesul@hotmail.com

 

ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.01.20

P1090625 Américo Rodrigues e unha testemuña da v

    américo rodrigues e uma testemunha da vida arraiana em melgaço na época das ditaduras

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

 Américo Rodrigues (1)

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

A freguesia montanhosa é rodeada a norte, nascente e sudeste pela Galiza – várias comarcas – perfazendo a raia seca entre Minho e Lima, traçada desde o marco 2 ao 53. No sul da freguesia, a fronteira é riscada pelo rio Laboreiro, desde Mareco ao sul do Ribeiro de Baixo. Pela sua situação geográfica, nos anos trinta, o contrabando era a principal indústria local. Em 1936 existiam três postos de Guarda Fiscal (GF): Portelinha (saída da freguesia em direcção a Melgaço), Vila (central) e Ameijoeira, junto ao marco 52 e 53. Fora da freguesia, bem perto, o posto de Alcobaça.

Nos anos 70, nas inverneiras, os caminhos eram empedrados e a luz era de candeia. À época, minha avó materna tinha teto de colmo. Era normal os vizinhos juntarem-se à troula (2) para matar o tempo invernal nas noites mais longas. Depois da ceia castreja (3), os contos nos escanos, junto ao lume, eram para todos os gostos. Ocupavam o palco brilhantes narradoras, nascidas nos primórdios do século XX. O guião histórico e cultural era sempre riquíssimo. É verdade, nestas terras altas, discorrendo sobre assuntos do terrunho, as mulheres sempre foram mais sábias que os homens, condenados desde tenra idade às agruras da emigração. A guerra civil de Espanha (1936-1939) por vezes vinha à baila. Os “roxos” (4), sem saber na verdade quem eram, os falangistas ou Francisco Franco, que tinha o nome do meu avô paterno – Francisco Rodrigues falecido numa pedreira de Paris em 1933 -, começaram a fazer parte do meu léxico.

Os dois esconderijos de refugiados mais próximos do lugar do Barreiro, a Gruta dos Refugiados do Piorneiro (na verdade dois sítios), e a Lapa da Ponte Cimeira, em frente ao monte da Fraga, eram referências obrigatórias. Alguns vizinhos, principalmente rapazes novos, tinham levado comida aos galegos que estiveram nesses locais. No Piorneiro estiveram homens fortemente armados. Chegaram a fazer um carro de vacas para particular. Quem não faltava também, nesses passos nostálgicos, eram os escapados que acolheu a vizinha da minha criação, Isabel Domingues, a tia Carvalha, também Valenciana, no Barreiro e em Queimadelo, lugar onde a tia Monteira também os recebia. Estes desesperados muitas vezes ajudavam na economia do lar, com víveres ou dinheiro. Contribuir com trabalho braçal era raro pela excessiva mão de obra (5) existente naquele período e pela pobreza dos sítios.

Eu imaginava a gabada beleza da professora Eudosia Lorenzo Diz, “a Maestra”, denunciada de forma covarde e aprisionada a 17 de maio de 1938, juntamente com os seus progenitores, pelo chefe da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, de 1933 a 1945) do Peso, acompanhado de guardas do Posto de Portelinha, no lugar do Rodeiro, onde  ensinara as primeiras letras às crianças que a procuraram, na casa de António Domingos Rendeiro.

Salvou-se milagrosamente e rumou a Marrocos, via Lisboa, em 10 de agosto de 1938. Tinha chegado a Castro Laboreiro em 20 de julho de 1936.

Rosaura Rodriguez Rodriguez, refugiada, apesar da jovialidade, já tinha quase 80 anos, morava numa casinha feita pelos vizinhos no lugar de Açureira, a 200 metros da minha escola primária de inverno. Era de Bouzadrago, aldeia galega que dista poucos quilómetros. Optara por ficar para sempre no lado português. Desaparecida a loja permanente do tio Bernardo no lugar, quando os vizinhos subiam às Brandas esta mulher, aparentemente singela, ficava sozinha, rodeada de carvalheiras durante muitos meses. Sem medo algum, dava que cismar aos mais novos, era uma vida de mistério e coragem.

Fascinou-me sempre o episódio da morte violenta do guarda fiscal na taberna da Macheta, Vila de Castro Laboreiro. É verdade que fui educado a desconfiar de guardas mas, seria correcto os contadores da tragédia não condenarem o crime de forma inequívoca? O atirador teve poiso em Várzea Travessa, Barreiro (casa da tia Carvalha) e Ribeiro de Cima, suspeitava-se que era um oficial importante da aviação, apresentava-se de forma impecável, fato e gabardina, muito educado, tinha escola, diziam os castrejos que com ele privaram. Era conhecido por Manolo, o Dente de Ouro. Depois do trágico acidente foi confrontado pelas autoridades no Ribeiro de Cima. O perfil, desaparecer sem deixar rasto, e o acontecimento brutal e decisivo que colocou as autoridades definitivamente no encalço dos refugiados, ficou para sempre na memória da freguesia.

Os galegos que prenderam no Bago de Baixo foram fuzilados. A guarda cercou o lugar e foram encontrados na côrte das vacas na casa dos Negritos. Estavam na moreia do estrume (6), roçado no monte e destinado à cama dos animais. Usaram estacas de ferro para os procurar e fazê-los sair.

Júlio Medela, refugiado da Lobeira casou no lugar de Formarigo, os filhos frequentaram a escola e os bailes casadoiros com os nossos pais.

Contavam-se fatias de assaltos violentos a lojas galegas nos anos 40, realizados por alguns escapados. Os atracadores usavam armas de guerra. O Rizo e Enrique, o Médico, eram nomes famosos.

Na minha criação, estas e outras referências a nomes, profissões, locais e episódios, ainda abundavam por toda a freguesia.

A Guerra Civil de Espanha de alguma maneira fez parte da minha meninice. Há muito que o tema me fascina, anda na minha cabeça, algumas vezes pensei em escrever sobre o assunto, mas tinha algum receio, porque me faltavam dados e, principalmente não valorava convenientemente a temática.

 

(1) Docente de informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

(2) Serão nocturno de convívio.

(3) Jantar.

(4) Alguém politicamente das esquerdas.

(5) Centenas de homens que emigravam normalmente para Espanha e França estavam junto à família.

(6) Em Castro, mato constituído de tojos, carqueijas, etc.

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO

Nº 10

2018

pp. 168-172

 

HOMENAGEM A PEPE VELO EM MELGAÇO

 

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 apresentação do evento

 

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 descerrar do monolito

 

P1090632 Representante Deputación de Pontevedra.J

 representante deputación de pontevedra

 

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 representante câmara municipal de melgaço

 

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 xosé gonzález martínez - asociación lois peña novo

 

P1090627 Antonio Piñeiro,  estudoso de Pepe Velo

 antonio piñeiro estudoso de pepe velo e traballa na casa do concello de celanova

 

P1090649 Público en xeral o día da inauguración

fotos cedidas pelo senhor xosé garcia 

 

A PÁGINA ON-LINE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO, PORTAL MUNICIPAL DE MELGAÇO, NÃO DEDICOU UMA ÚNICA LETRA A ESTE EVENTO QUE FOI PATROCINADO PELA PRÓPRIA CÂMARA.

RUA DOS REMÉDIOS

melgaçodomonteàribeira, 04.01.20

1 ac 2 25 abril 115 - política de 1974 em melgaç

De facto, o esconderijo era aceitável. Emitir a um nível inferior ao pavimento da rua sem grandes hipóteses de montar a antena no exterior podia não resultar em qualidade, mas valia a pena experimentar.

A comunicação com Ponta Delgada foi importante, tendo obtido a informação que iriam ser infiltrados dois agentes do SOE que falavam espanhol… um para o norte e outro para o sul do continente, que falavam colaborar estreitamente com ele no comando das operações e composição de células. As coordenadas do terreno onde iriam ser lançados de paraquedas foram dadas pelos serviços portugueses, sendo os agentes e respetivo equipamento apoiados a norte em Castro Laboreiro pelos “argentinos” e no sul por ex-membros da PVDE e da Legião já contactados pelo agente E. Os lançamentos eram efetuados por aviões vindos das Canárias e dos Açores, onde já se encontravam os operacionais. Dependendo das condições meteorológicas estudadas pelos respetivos departamentos militares, se fossem benéficas e coincidissem com noite de lua favorável ao voo à baixa altitude do qual eram lançados as missões eram realizadas. Na véspera do lançamento a BBC emitiria a senha Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui.

Passaram vários dias, ouvindo a emissão da BBC em português. Relatos de manobras militares, do esforço dos homens e mulheres do Reino Unido em colaborar com as vitórias de Churchill e contrainformação negra sobre os países do Eixo. Alguma música… Nada sobre Yupanqui. Eduardo sabia a ansiedade que os dias de espera provocavam nos operacionais e nos que os iriam receber no solo. Tudo dependia das condições meteorológicas. Até que Fernando Pessa depois de descrever os últimos desenvolvimentos da guerra… e agora Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui. Oiçam esta voz maravilhosa… Até amanhã.

Estava dada a ordem. Eduardo não sabia quem eram os “argentinos” nem o agente E, mas tinha a certeza de que amanhã seriam lançados reforços no norte e sul. Estávamos no final de abril e em 2 meses estava montado o embrião da guerrilha em Portugal continental.

Entretanto em abril o Terceiro Reich no dia 6 bombardeou a cidade de Belgrado que se rendeu 6 dias depois. No Norte de África na Líbia Italiana começou a Batalha de Tobruk entre as forças das Potências do Eixo contra os Aliados maioritariamente constituídos por tropas Australianas. Erwin Rommel começou a investida do Afrika Korps. O Estado Independente da Croácia foi proclamado em 10 de abril de 1941 e foi reconhecido de imediato pela Alemanha e Itália.

Em 13 de abril o Império do Japão e a União Soviética assinaram o Pacto de Não Agressão nipónico-soviético. Perante a invasão alemã da Grécia que começou em 6 de abril o Primeiro-ministro grego Alexandros Koryzis suicidou-se no dia 18 quando Atenas ia ser ocupada. Três dias depois 230.000 soldados gregos renderam-se. O exército alemão ocupou a capital Atenas, em 27 de abril, avançando para a costa sul da Grécia anexada no dia 30 de abril com a captura de 7000 soldados das forças do Reino Unido, da Austrália e Nova Zelândia. A Grécia foi ocupada por forças militares da Alemanha, Itália e Bulgária. O Governo grego refugiou-se em Creta com o apoio de Aliados e uma feroz resistência civil.

Eduardo mantinha contactos regulares com Ponta Delgada e Londres, fornecendo informações sobre as atividades no terreno e recebendo instruções. Já o fazia de casa. A próxima e arriscada missão era a realização de duas reuniões em separado com os dois agentes SOE recentemente introduzidos em Portugal, que se deslocaram a Lisboa, uma vinda de Vila Real de Santo António e um outro do Minho, concretamente de Castro Laboreiro. Qualquer falha nestas reuniões comprometia a implementação da Resistência portuguesa. O facto de ser uma agente que chefiava a região sul não preocupava Eduardo. Tinha feito a preparação do SOE com algumas mulheres que se mostravam bem aguerridas e competentes. As reuniões seriam em dias diferentes e individualmente com cada um deles. Os locais também diferentes.

pp.193-195

 

RUA DOS REMÉDIOS

Fernando dos Santos

Edições Vieira da Silva

1ª Edição

2019

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Melgaço, do monte à ribeira à conversa com o autor

Mmr – Num livro em que a história se mistura com a ficção onde podemos situar Castro Laboreiro?  Ficção ou história?

FdS – O papel das gentes de Castro Laboreiro no apoio aos refugiados da Guerra Civil de Espanha foi bem efectiva e nada ficcional. Exaustos e perseguidos encontram aqui (contra as ordens de Salazar) o bálsamo da sobrevivência. Alguém conseguiu para eles passaportes falsos da Argentina. Por isso eram conhecidos por “argentinos”.

Mnr – Qual o contributo da gente de Castro Laboreiro na Guerra Civil Espanhola?

FdS – O povo português ajuda sempre os necessitados. Seguramente havia em Castro Laboreiro quem não visse com bons olhos os republicanos espanhóis e em contraste quem os apoiasse à revelia do status salazarista. Mas já alguém viu um natural de Castro Laboreiro recusar alimento ou guarida a quem sofre?