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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.01.20

P1090625 Américo Rodrigues e unha testemuña da v

    américo rodrigues e uma testemunha da vida arraiana em melgaço na época das ditaduras

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

 Américo Rodrigues (1)

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

A freguesia montanhosa é rodeada a norte, nascente e sudeste pela Galiza – várias comarcas – perfazendo a raia seca entre Minho e Lima, traçada desde o marco 2 ao 53. No sul da freguesia, a fronteira é riscada pelo rio Laboreiro, desde Mareco ao sul do Ribeiro de Baixo. Pela sua situação geográfica, nos anos trinta, o contrabando era a principal indústria local. Em 1936 existiam três postos de Guarda Fiscal (GF): Portelinha (saída da freguesia em direcção a Melgaço), Vila (central) e Ameijoeira, junto ao marco 52 e 53. Fora da freguesia, bem perto, o posto de Alcobaça.

Nos anos 70, nas inverneiras, os caminhos eram empedrados e a luz era de candeia. À época, minha avó materna tinha teto de colmo. Era normal os vizinhos juntarem-se à troula (2) para matar o tempo invernal nas noites mais longas. Depois da ceia castreja (3), os contos nos escanos, junto ao lume, eram para todos os gostos. Ocupavam o palco brilhantes narradoras, nascidas nos primórdios do século XX. O guião histórico e cultural era sempre riquíssimo. É verdade, nestas terras altas, discorrendo sobre assuntos do terrunho, as mulheres sempre foram mais sábias que os homens, condenados desde tenra idade às agruras da emigração. A guerra civil de Espanha (1936-1939) por vezes vinha à baila. Os “roxos” (4), sem saber na verdade quem eram, os falangistas ou Francisco Franco, que tinha o nome do meu avô paterno – Francisco Rodrigues falecido numa pedreira de Paris em 1933 -, começaram a fazer parte do meu léxico.

Os dois esconderijos de refugiados mais próximos do lugar do Barreiro, a Gruta dos Refugiados do Piorneiro (na verdade dois sítios), e a Lapa da Ponte Cimeira, em frente ao monte da Fraga, eram referências obrigatórias. Alguns vizinhos, principalmente rapazes novos, tinham levado comida aos galegos que estiveram nesses locais. No Piorneiro estiveram homens fortemente armados. Chegaram a fazer um carro de vacas para particular. Quem não faltava também, nesses passos nostálgicos, eram os escapados que acolheu a vizinha da minha criação, Isabel Domingues, a tia Carvalha, também Valenciana, no Barreiro e em Queimadelo, lugar onde a tia Monteira também os recebia. Estes desesperados muitas vezes ajudavam na economia do lar, com víveres ou dinheiro. Contribuir com trabalho braçal era raro pela excessiva mão de obra (5) existente naquele período e pela pobreza dos sítios.

Eu imaginava a gabada beleza da professora Eudosia Lorenzo Diz, “a Maestra”, denunciada de forma covarde e aprisionada a 17 de maio de 1938, juntamente com os seus progenitores, pelo chefe da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, de 1933 a 1945) do Peso, acompanhado de guardas do Posto de Portelinha, no lugar do Rodeiro, onde  ensinara as primeiras letras às crianças que a procuraram, na casa de António Domingos Rendeiro.

Salvou-se milagrosamente e rumou a Marrocos, via Lisboa, em 10 de agosto de 1938. Tinha chegado a Castro Laboreiro em 20 de julho de 1936.

Rosaura Rodriguez Rodriguez, refugiada, apesar da jovialidade, já tinha quase 80 anos, morava numa casinha feita pelos vizinhos no lugar de Açureira, a 200 metros da minha escola primária de inverno. Era de Bouzadrago, aldeia galega que dista poucos quilómetros. Optara por ficar para sempre no lado português. Desaparecida a loja permanente do tio Bernardo no lugar, quando os vizinhos subiam às Brandas esta mulher, aparentemente singela, ficava sozinha, rodeada de carvalheiras durante muitos meses. Sem medo algum, dava que cismar aos mais novos, era uma vida de mistério e coragem.

Fascinou-me sempre o episódio da morte violenta do guarda fiscal na taberna da Macheta, Vila de Castro Laboreiro. É verdade que fui educado a desconfiar de guardas mas, seria correcto os contadores da tragédia não condenarem o crime de forma inequívoca? O atirador teve poiso em Várzea Travessa, Barreiro (casa da tia Carvalha) e Ribeiro de Cima, suspeitava-se que era um oficial importante da aviação, apresentava-se de forma impecável, fato e gabardina, muito educado, tinha escola, diziam os castrejos que com ele privaram. Era conhecido por Manolo, o Dente de Ouro. Depois do trágico acidente foi confrontado pelas autoridades no Ribeiro de Cima. O perfil, desaparecer sem deixar rasto, e o acontecimento brutal e decisivo que colocou as autoridades definitivamente no encalço dos refugiados, ficou para sempre na memória da freguesia.

Os galegos que prenderam no Bago de Baixo foram fuzilados. A guarda cercou o lugar e foram encontrados na côrte das vacas na casa dos Negritos. Estavam na moreia do estrume (6), roçado no monte e destinado à cama dos animais. Usaram estacas de ferro para os procurar e fazê-los sair.

Júlio Medela, refugiado da Lobeira casou no lugar de Formarigo, os filhos frequentaram a escola e os bailes casadoiros com os nossos pais.

Contavam-se fatias de assaltos violentos a lojas galegas nos anos 40, realizados por alguns escapados. Os atracadores usavam armas de guerra. O Rizo e Enrique, o Médico, eram nomes famosos.

Na minha criação, estas e outras referências a nomes, profissões, locais e episódios, ainda abundavam por toda a freguesia.

A Guerra Civil de Espanha de alguma maneira fez parte da minha meninice. Há muito que o tema me fascina, anda na minha cabeça, algumas vezes pensei em escrever sobre o assunto, mas tinha algum receio, porque me faltavam dados e, principalmente não valorava convenientemente a temática.

 

(1) Docente de informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

(2) Serão nocturno de convívio.

(3) Jantar.

(4) Alguém politicamente das esquerdas.

(5) Centenas de homens que emigravam normalmente para Espanha e França estavam junto à família.

(6) Em Castro, mato constituído de tojos, carqueijas, etc.

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO

Nº 10

2018

pp. 168-172

 

HOMENAGEM A PEPE VELO EM MELGAÇO

 

P1090611 Presentación do acto.JPG

 apresentação do evento

 

P1090618 Momento do descubrimento do  monolito.JPG

 descerrar do monolito

 

P1090632 Representante Deputación de Pontevedra.J

 representante deputación de pontevedra

 

P1090634 Representante Cámara de Melgaço.JPG

 representante câmara municipal de melgaço

 

P1090621 Xosé González Martínez (Asociación Lo

 xosé gonzález martínez - asociación lois peña novo

 

P1090627 Antonio Piñeiro,  estudoso de Pepe Velo

 antonio piñeiro estudoso de pepe velo e traballa na casa do concello de celanova

 

P1090649 Público en xeral o día da inauguración

fotos cedidas pelo senhor xosé garcia 

 

A PÁGINA ON-LINE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO, PORTAL MUNICIPAL DE MELGAÇO, NÃO DEDICOU UMA ÚNICA LETRA A ESTE EVENTO QUE FOI PATROCINADO PELA PRÓPRIA CÂMARA.

RUA DOS REMÉDIOS

melgaçodomonteàribeira, 04.01.20

1 ac 2 25 abril 115 - política de 1974 em melgaç

De facto, o esconderijo era aceitável. Emitir a um nível inferior ao pavimento da rua sem grandes hipóteses de montar a antena no exterior podia não resultar em qualidade, mas valia a pena experimentar.

A comunicação com Ponta Delgada foi importante, tendo obtido a informação que iriam ser infiltrados dois agentes do SOE que falavam espanhol… um para o norte e outro para o sul do continente, que falavam colaborar estreitamente com ele no comando das operações e composição de células. As coordenadas do terreno onde iriam ser lançados de paraquedas foram dadas pelos serviços portugueses, sendo os agentes e respetivo equipamento apoiados a norte em Castro Laboreiro pelos “argentinos” e no sul por ex-membros da PVDE e da Legião já contactados pelo agente E. Os lançamentos eram efetuados por aviões vindos das Canárias e dos Açores, onde já se encontravam os operacionais. Dependendo das condições meteorológicas estudadas pelos respetivos departamentos militares, se fossem benéficas e coincidissem com noite de lua favorável ao voo à baixa altitude do qual eram lançados as missões eram realizadas. Na véspera do lançamento a BBC emitiria a senha Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui.

Passaram vários dias, ouvindo a emissão da BBC em português. Relatos de manobras militares, do esforço dos homens e mulheres do Reino Unido em colaborar com as vitórias de Churchill e contrainformação negra sobre os países do Eixo. Alguma música… Nada sobre Yupanqui. Eduardo sabia a ansiedade que os dias de espera provocavam nos operacionais e nos que os iriam receber no solo. Tudo dependia das condições meteorológicas. Até que Fernando Pessa depois de descrever os últimos desenvolvimentos da guerra… e agora Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui. Oiçam esta voz maravilhosa… Até amanhã.

Estava dada a ordem. Eduardo não sabia quem eram os “argentinos” nem o agente E, mas tinha a certeza de que amanhã seriam lançados reforços no norte e sul. Estávamos no final de abril e em 2 meses estava montado o embrião da guerrilha em Portugal continental.

Entretanto em abril o Terceiro Reich no dia 6 bombardeou a cidade de Belgrado que se rendeu 6 dias depois. No Norte de África na Líbia Italiana começou a Batalha de Tobruk entre as forças das Potências do Eixo contra os Aliados maioritariamente constituídos por tropas Australianas. Erwin Rommel começou a investida do Afrika Korps. O Estado Independente da Croácia foi proclamado em 10 de abril de 1941 e foi reconhecido de imediato pela Alemanha e Itália.

Em 13 de abril o Império do Japão e a União Soviética assinaram o Pacto de Não Agressão nipónico-soviético. Perante a invasão alemã da Grécia que começou em 6 de abril o Primeiro-ministro grego Alexandros Koryzis suicidou-se no dia 18 quando Atenas ia ser ocupada. Três dias depois 230.000 soldados gregos renderam-se. O exército alemão ocupou a capital Atenas, em 27 de abril, avançando para a costa sul da Grécia anexada no dia 30 de abril com a captura de 7000 soldados das forças do Reino Unido, da Austrália e Nova Zelândia. A Grécia foi ocupada por forças militares da Alemanha, Itália e Bulgária. O Governo grego refugiou-se em Creta com o apoio de Aliados e uma feroz resistência civil.

Eduardo mantinha contactos regulares com Ponta Delgada e Londres, fornecendo informações sobre as atividades no terreno e recebendo instruções. Já o fazia de casa. A próxima e arriscada missão era a realização de duas reuniões em separado com os dois agentes SOE recentemente introduzidos em Portugal, que se deslocaram a Lisboa, uma vinda de Vila Real de Santo António e um outro do Minho, concretamente de Castro Laboreiro. Qualquer falha nestas reuniões comprometia a implementação da Resistência portuguesa. O facto de ser uma agente que chefiava a região sul não preocupava Eduardo. Tinha feito a preparação do SOE com algumas mulheres que se mostravam bem aguerridas e competentes. As reuniões seriam em dias diferentes e individualmente com cada um deles. Os locais também diferentes.

pp.193-195

 

RUA DOS REMÉDIOS

Fernando dos Santos

Edições Vieira da Silva

1ª Edição

2019

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Melgaço, do monte à ribeira à conversa com o autor

Mmr – Num livro em que a história se mistura com a ficção onde podemos situar Castro Laboreiro?  Ficção ou história?

FdS – O papel das gentes de Castro Laboreiro no apoio aos refugiados da Guerra Civil de Espanha foi bem efectiva e nada ficcional. Exaustos e perseguidos encontram aqui (contra as ordens de Salazar) o bálsamo da sobrevivência. Alguém conseguiu para eles passaportes falsos da Argentina. Por isso eram conhecidos por “argentinos”.

Mnr – Qual o contributo da gente de Castro Laboreiro na Guerra Civil Espanhola?

FdS – O povo português ajuda sempre os necessitados. Seguramente havia em Castro Laboreiro quem não visse com bons olhos os republicanos espanhóis e em contraste quem os apoiasse à revelia do status salazarista. Mas já alguém viu um natural de Castro Laboreiro recusar alimento ou guarida a quem sofre?

 

 

GUERRILHA ANTIFRANQUISTA EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 07.12.19

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CREACIÓN  DE LA PRIMERA GUERRILLA ANTIFRANQUISTA EN GALICIA

 

En el año 1939 en fecha indeterminada llegó a Castro Laboreiro (Portugal) un tal Manolo llamado popularmente “Dente de Ouro”, por esse detalle físico. Vivió en Varzea Travesa y en Ribeiro (Portugal), Era muy hábil y capitaneaba a todos los huidos españoles de la zona (declaraciones de Saturnino Darriba y Luisiño).

Realizaba frecuentes viajes a Lisboa y Oporto.

En una ficha informe del SIG (servicio de información de la Guardia Civil) de Septiembre del año 1943 fue identificado como José Rodríguez Páramo de Doade, La policía española lo confirmó por las mismas fechas como Armando Pompilio Fdz Gonzalez vecino de Ourense,

Román Alonso Santos escribe… (Una persona tan significativa en la conformación del grupo guerrillero en la zona fronteriza hispano-portuguesa logró despistar al servicio de información de la Guardia Civil (SIG) y a la Policía Española. Es preciso añadir además su habilidad para salir físicamente íntegro de las situaciones comprometidas).

El nombre de Manolo utilizado en Castro Laboreiro (Portugal) por Victor García García “el Brasileño” era uno de tantos que utilizó a lo largo de su vida clandestina: Antonio, o “Brasileiro”, Estanillo, Manuel Brasleiro, Antonio Ortiz Risso, Manuel García, Antonio García… Com la llegada de Manolo (Dente de Ouro), se impuso un nuevo paradigma de funcionamiento entre los huidos asentado en una clara definición política de la situación. Según la declaración de Pepe do Quarto propuso unirse a todos los refugiados de la zona para protegerse y ayudarse mutuamente porque no estaban ocultos en Castro por bandidos sino por su idoelogía política de izquierdas y por haberse manifestado de palabra y acción a favor de la República y del Frente Popular. No nos consta, escribe Román Alonso pero dado que Manolo era una persona inteligente y culta pudo talvez explicarles que en aquel instante estaban “erizados” los montes de toda España com miles de guerrilleros que traían de cabeza a Franco.

Asi creó “el Brasileño” el primer grupo guerrillero organizado de toda a Galícia localizado en el suroeste Ourensan. Según Luisiño acampaba fundamentalmente en Castro (Portugal) y tenían bastante armamento. También opina José Bernardo que usaban armas cortas de fuego.

Mención especial merece el recuerdo Rosa la “africana” vecina  de Ribeiro de Cima que tenía varios hijos ya mozos y su casa era habitualmente frecuentada por los guerrilleros. Rosaura Rodríguez declararía en uno de los muchos interrogatorios que sufrió, que los tres hijos mayores de la “africana” acompañaban frecuentemente a Manolo Dente de Ouro.

Se citan en esta primera partida guerrillera entre otros los nombres de Paramo, Ramón Yáñez, Rosario Rodríguez Rodríguez, Gabriel Hernández González con Saturnino Darriba, O Rizo y otros valientes luchadores antifranquistas que sería prolijo delatar. O Rizo pese a ser el más nuevo del grupo, o Luisiño le percebía como uma especie de lugarteniente de Manolo Dente de Ouro, el jefe indiscutible.

Un refugiado gallego de izquierda, fue detenido por la policía portuguesa en Alvaredo (Melgaso) y entregado a la española. Interrogado por esta acerca del número de demócratas españoles huidos de la represión franquista y existentes en los pueblos y montes portugueses limítrofes, confesó que eran unos trescientos, armados para su defensa com fusiles Máuzer y pistolas ametralladoras, suministradas en gran medida por la mediación y ayuda financiera de Manolo Dente de Ouro.

 

                                                           Victor Garcia Jr, su hijo

 

 

Retirado de: Víctor García G. Estanillo el Brasileño

http://blocs.tinet.cat/lt/blog/victor-garcia-g.-estanillo-el-brasileno

 

SARAMAGO 2

melgaçodomonteàribeira, 30.11.19

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As meninas de Castro Laboreiro II

 

Vai agora o viajante iniciar a grande subida para Castro Laboreiro. Melgaço está a uns trezentos metros de altitude. Castro Laboreiro anda pelos mil e cem. Vence-se este desnível em cerca de trinta quilómetros: não é íngreme a ascensão. Mas é inesquecível. Esta serra da Peneda não abunda em florestas. Há maciços de árvores, aqui, além, sobretudo próximo dos lugares habitados, mas na sua maior extensão é penedia extreme, mato de tojo e carrasqueira. Não faltam, claro está, nas terras ainda baixas, grandes espaços de cultivo, e nestes dias de fim de Outono a paisagem trabalhada pelos homens tem uma doçura que se diria feminina, em contraste com a serra ao fundo que vai encavalando montes sobre montes, qual mais áspero e bruto. Mas esta terra tem uma coisa numca vista que por muitos quilómetros intrigou o viajante, pouco experiente de andanças viajeiras, como logo se verá. Estava o Sol de maneira que batendo nas encostas distantes despedia brilhos, grandes placas luminosas, ofuscantes, e o viajante moía o juízo para saber o que aquilo era, se preciosos minérios assim revelados, se apenas o polido de lascas xistosas, ou se, imaginações fáceis, seriam as divindades da Terra a fazer sinais umas às outras para se esconderem dos olhares indiscretos.

Afinal, a resposta estava à beira da estrada por onde seguia. Pelas fendas das rochas ressumbrava água que, embora não correndo em fio ou em toalha, mantinha húmidas certas pedras, onde, dando o sol de jeito, se acendia um espelho. Nunca tal o viajante vira, e tendo decifrado o mistério foi gozando pelo caminho o atear das luzes, que depois se apagavam e ressurgiam à medida que a estrada fazia e desfazia curvas e portanto se alterava o ângulo de reflexão do Sol. Esta é uma terra grande e descampada, separam os montes grandes vales, aqui não podem os pastores gritar recados de encosta para encosta.

Castro Laboreiro chega sem avisar, numa volta da estrada. Há ali umas casas novas, e depois a vila com o seu trajo escuro de pedra velha. Bons de ver são os botaréus que amparam as paredes da igreja, restos românicos da antiga construção, e o castelo, nesta sua grande altura, com a única porta que lhe ficou, a do Sapo, alguma coisa daria o viajante, para saber a origem deste nome. Não requer grandes demoras a vila, ou requere-as enormes a quem tiver ambições de descoberta, ir, por exemplo, àquelas altas pedras, gigantes em ajuntamento, que ao longe se levantam. No céu, de puríssimo azul, atravessa um rasto branco de avião, recto e delgado: nada se ouve, apenas os olhos vão acompanhando o lento passar, enquanto, obstinadamente, as pedras se apertam mais umas contra as outras.

Está quase a despedir-se, veio por causa do caminho, da grande serrania, destes altos pitões, e correndo agora em redor os olhos, já distraídos, dá com duas meninas que o miram, com sério rosto, suspendendo as atenções que davam a uma boneca de comprido vestido branco. São duas meninas como nunca se viram: estão em Castro Laboreiro e brincam à sombra de uma árvore, a mais nova tem o cabelo comprido e solto, a outra usa tranças com uns lacinhos vermelhos, e ambas fitam gravemente. Não sorriem quando olham a máquina fotgráfica, quando assim se mostra o rosto tão aberto, não é preciso sorrir. O viajante louva, em pensamento, as maravilhas da técnica: a memária, infiel, poderá renovar-se neste rectângulo colorido, reconstituir o mometo, saber que era de tecido escocês a saia, crespas as tranças, e as meias de lã, e o risco do cabelo ao meio, e, descoberta inesperada, que uma outra bonequita havia caído lá para trás, acenando com a mão, com pena de não ficar de corpo inteiro na fotografia. O destino nem sempre ordena mal as coisas. Para ver a Igreja da Nossa Senhora da Orada e as meninas de Castro Laboreiro, teve o viajante de andar cem quilómetros, números redondos: tenha agora coragem de protestar quem achar que não valeu a pena. E tome lá, como acrescento e contrapeso, os gigantes de pedra, o macaco de Melgaço, o avião no ar, os espelhos de água, e esta pequena ponte de pedra solta, só para gente pedestre e gado miúdo.

 

VIAGEM A PORTUGAL

José Saramago

Editorial Caminho

1995

pp. 83-85

 

 

Publicado por: https://edoc.site/viagem-a-portugal-pdf-free.html

SARAMAGO 1

melgaçodomonteàribeira, 23.11.19

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AS MENINAS DE CASTRO LABOREIRO I

 

Até Melgaço desfruta-se de uma paisagem agradável, mas que não sobressai particularmente sobre o que é comum encontrar no Minho. Qualquer destas bouças faria figura de preciosidade paisagística em terras menos avantajadas de mimos, mas aqui os olhos tornam-se exigentes, nem tudo os contenta. Melgaço é vila pequena e antiga, tem castelo, mais um para o catálogo do viajante, e a torre de menagem é coisa de tomo, avulta sobre o casario como o pai de todos. A torre está aberta, há uma escada de ferro, e lá dentro a escuridão é de respeito. Vai o viajante pé aqui, pé acolá, à espera que uma tábua se parta ou salte rato. Estes medos são naturais, nunca o viajante quis passar por herói, mas as tábuas são sólidas, e os ratos nada encontrariam aqui para trincar. Do alto da torre, o viajante percebe melhor a pequenez do castelo, decerto havia pouca gente na paisagem em aqueles antigos tempos. As ruas da parte velha da vila são estreitas e sonoras. Há um grande sossego. A igreja é bonita por fora, mas por dentro banalíssima: salve-se uma Santa Bárbara de boa estampa. O padre abriu a porta e foi-se às obras da sacristia. Cá fora, um sapateiro convidou o viajante a ver o macaco da porta lateral norte. O macaco não é um macaco, é um daqueles compósitos animais medievos, há quem veja nele um lobo, mas o sapateiro tem muito orgulho no bicho, é seu vizinho.

Logo adiante de Melgaço está Nossa Senhora da Orada. Fica aà beira do caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa e desatento passa por ela, e ai munha Nossa Senhora, onde estás tu? Esta igreja esta aqui desde 1245, estão feitos, e já muito ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjectivos, que são a peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste caso. Mas a igreja de Nossa Senhora da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui perdem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo da luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpano, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é. O viajante pergunta aos ares onde estão os álbuns de arte que mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e todas as Oradas que por esse país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir. O viajante vai mais longe: certos monumentos deveriam ser retirados do lugar onde se encontram e onde vão morrendo, e transportados pedra por pedra para grandes museus, edifícios dentro de edifícios, longe do sol natural e do vento, do frio e dos líquenes que corroem, mas preservados. Dir-lhe-ão que assim se embalsamariam as formas; responderá que assim se conservariam. Tantos cuidados de restauro com a fragilidade da pintura, e tão poucos com a debilidade da pedra.

De Nossa Senhora da Orada, o viajante só escreverá mais isto: viram-na os seus olhos. Como viram, do outro lado da estrada, um rústico cruzeiro, com um Cristo cabeçudo, homenzinho crucificado sem nada de divino, que apetece ajudar naquele injusto transe.

 

VIAGEM A PORTUGAL

José Saramago

Editorial Caminho

1995

pp. 82, 83

 

Publicado por: https://edoc.site/viagem-a-portugal-pdf-free.html

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 3

melgaçodomonteàribeira, 09.11.19

181 - mamoa penagache.jpg

 

(continuação)

 

3

 

As gentes do Louriçal, outro lugar também raiano mas um pouco mais distante, têm a sua própria versão da cruz e também esta é relatada como fruto da mais pura verdade, embora ninguém a possa confirmar. Aconteceu em pleno inverno, já mais noite do que dia, quando um grupo de contrabandistas foi surpreendido por uma trovoada inesperada, mas temível, até porque naquela parte do planalto não há árvores e as pessoas temem atrair os raios. Chovia copiosamente água e neve à mistura e os relâmpagos sucediam-se ininterruptamente, o ribombar dos trovões mesmo por cima deles. Os três companheiros conheciam a lapa nos cotos de Penagache e apressaram-se a acolher-se no local, embora não muito confiantes, podia ser reduto de alguma fera. Também não sabiam exatamente onde ficava a entrada da gruta, mas, nem de propósito, o clarão de um relâmpago guiou-os para lá. Continuou a tempestade e eles deixaram-se ficar, mas o frio tomava-lhes conta do corpo e da alma, ensopados que estavam e sem possibilidade de acender uma simples fogueira para se aquecerem e espantarem o desconforto e a escuridão. Fome não tinham nem teriam, até porque um deles tinha o bornal cheio de pastas de chocolate encomendadas pela tendeira. O cansaço foi mais forte do que o frio e acabaram por adormecer. Devem ter passado algumas horas e quando já estavam todos acordados estranharam a falta de luz, já devia ser dia. Procuraram adaptação ao espaço e ao tempo, mas a desorientação era total, acabando por descobrir que a entrada da gruta estava completamente tapada por neve, por isso lhes não chegava a luz do dia. Estavam enregelados, um tremia como varas verdes, ardia em febre, os outros dois mal conseguiam mexer os dedos das mãos e dos pés. Não servia de nada gritar por socorro, este nunca lhes chegaria, mesmo que dessem o alerta da sua falta e os fossem procurar ao monte, jamais os encontrariam naquele buraco. Perderam a noção do tempo e acabaram por desistir de alcançar a saída, sem forças para lutar pela vida. Acabaram por ser encontrados pelos cães de caça que participaram nas buscas alguns dias mais tarde: uma cadela muito boa que servia de pisteira e conhecia as tocas todas do planalto não saiu da entrada da gruta enquanto os homens não abriram uma entrada. Um dos rapazes estava morto, os outros dois completamente gelados e perto de perder a vida, os dedos das mãos negros e inertes. A um tiveram de lhe cortar três da mão direita e o outro perdeu um bocado do nariz. Salvaram-se por pouco. A cruz será, pois, a homenagem ao que não resistiu.

 

                                                                                           Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Março 2015

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 2

melgaçodomonteàribeira, 02.11.19

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monte de penagache por teresalaloba

 

(continuação)

 

2

 

Outra versão que corre lá pelo mesmo pueblo raiano e que já devia ter história bem antes da existência da cruz, por isso será do domínio da fantasia, acha o narrador, tem a ver com a existência de uma gruta debaixo dos cotos de Penagache. Todos os avós contavam que ali, como noutros lugares semelhantes, se encontrava escondido um grande tesouro. As moedas de ouro e prata, as pedras preciosas e as joias eram tantas que uma pessoa sozinha não seria capaz de os tirar de lá, por isso a procura do tesouro seria uma tarefa de equipa. Uma noite, saíram três amigos que se davam como irmãos para tentarem a sua sorte na gruta. Não lhes faltava ousadia, mas a noite sempre arrefece o ânimo, tanta coisa pode sair das sombras, tantas almas penadas escolhem os lugares mais recônditos para cobrarem pelos seus pecados, o melhor era manterem-se bem juntos, até porque a lanterna alumiava pouco e a fraca luz faz fraca a forte gente.

Ter-se-ão introduzido na gruta de que conheciam a entrada e os perigos associados ao seu interior, o que terão encontrado ninguém o sabe ao certo, mas o que foi do domínio público foi a desavença ocorrida lá mesmo, nas entranhas da terra, debaixo dos cotos de Penagache. Dois dos pesquisadores do tesouro agarraram-se ao mesmo cordão, cada um puxando para seu lado no fito de levar a melhor sobre o outro. Uma rajada de vento, surgida sem se perceber como, apagou a lanterna e deixou-os na maior escuridão. Enquanto os dois que se gladiavam pela corrente de ouro continuavam a sua peleja, o terceiro, borrado de medo, conseguiu alcançar a entrada da gruta e saiu à procura do céu estrelado e do luar. Respirando a plenos pulmões, aproveitou para exortar os outros a pararem, mas não deu conta de mais nada, não via, não ouvia, ninguém dava qualquer sinal. A solidão era tão pesada como o medo do escuro que o fizera abandonar a cova, pelo que meteu os pés ao caminho e correu para casa, tropeçando aqui, caindo, levantando-se, retomando o regresso ao convívio dos seus. No dia seguinte foi à procura dos amigos, mas não estavam em casa. E no outro também não. Só quando a ausência se tornou intrigante é que teve coragem de contar a façanha em que se tinham metido. Meia dúzia de homens empreenderam a caminhada até aos cotos de Penagache, o rapaz com eles para os orientar na entrada da lapa. Deram com os dois caídos no chão, um com uma navalha espetada na garganta, o outro com a cabeça empapada em sangue, parecia ter batido numa pedra e ali ficara. O primeiro estava morto, o segundo moribundo, quase inaudíveis as palavras que conseguia balbuciar.

Do tesouro não havia sinal e não fora a dor verdadeira que emanava do sobrevivente daquela aventura ninguém acreditaria nele. Ainda houve quem quisesse culpá-lo da morte dos dois amigos, mas o estado de catatonia em que ficou, incapaz de dizer coisa com coisa, autoflagelando-se e sem sentido de orientação livraram-no da justiça. A família dos finados para dignificar o lugar de partida de almas arrancadas ao corpo contrariando a lei natural da vida.

 

(continua)

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 1

melgaçodomonteàribeira, 26.10.19

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A CRUZ DE PENAGACHE

(uma história, três versões)

 

1

 

Os mais antigos falam dela como de algo quase imaterial, inacessível, mas com uma presença na memória que a passagem do tempo não diminui. Poucos a viram, mas o que testemunharam e sobretudo ouviram não dá para esquecer os arrepios que o desconhecido provoca quando algo inexplicável se nos impõe e lembra a fragilidade de que somos feitos, como a vida é um presente que nos dão mas também nos podem tirar, sem respeito nenhum pela condição de filhos de Deus, que a todos cria da mesma maneira, iguais. Os mais novos, desafiando a distância e os maus caminhos, singram, planalto fora, nas motas que o dinheiro e a vaidade de parecer, de ter o que os outros têm, e se possível ainda melhor (a inveja é um mal geral), chegam lá e detêm-se a espiolhar tudo, com um vagar que os anciãos não tinham. Não têm fardos à espera para fazer chegar a um qualquer destino, do lado de lá ou de cá da raia, os negócios que por ali ainda se fazem estão facilitados e têm subtilezas que afastam os que têm alguns escrúpulos. Também não têm afazeres no eido, o ócio é nos dias que correm a ocupação principal de uma juventude mais ou menos letrada que vive a expensas da família até terem cabelos brancos.

Pelo registo na pedra que a encima, 1911 ou 1912, o escriba fala de ouvido, não há ninguém para dar testemunho nem da sua construção nem do porquê da mesma. Os mais antigos do lugar mais próximo do lado espanhol contam, esvaziada a chávena do café e a copa da aguardente, que ali mataram um português, um ajuste de contas para lavar a honra de uma irmã iludida e enganada. Não era muito comum, mas acontecia portugueses e galegos conviverem nos montes quando guardavam o gado e os rapazes frequentarem os bailes e festarolas de um e outro lado da fronteira. Um rapaz do Souto e uma rapariga de Santo Amaro conheceram-se numa romaria e os encontros passaram de ocasionais a procurados. A moça tomou-se de amores, pensou que era correspondida e o que tinha de acontecer aconteceu. Algum tempo decorrido tornou-se o namoro evidente, a rapariga não conseguia esconder a proeminência progressiva do ventre. Instada pelos irmãos a denunciar o oportunista, quis ela remediar, avisando o namorado que urgia assumir a sua responsabilidade. Aparentemente, o amor não o consumia e não estava pronto para ser homem, perdida a honra da moça, perdia ele a sua, abandonando-a, não estava sozinha no mundo, tinha muitos irmãos para a ajudarem a criar o filho.

Os três irmãos uniram-se para cobrar a desfeita, até um garoto ainda menor de idade tomou parte no desforço. Observaram as idas e vindas do bandalho pelos caminhos da serra e uma noite surpreenderam-no nas pedras de Penagache. A probabilidade de encontrarem alguém era mais do que mínima e, sem testemunhas, fizeram-no pagar a sua dívida com o bem mais precioso que tinha: a vida. Deixaram o corpo exposto ao tempo, sem qualquer resquício de respeito, abandonado no lugar onde foi encontrado em adiantado estado de decomposição. Foi identificado pela roupa e pelo anel que usava no dedo mindinho da mão direita. A família, amargurada por uma vida ceifada tão antes de tempo, mandou fazer uma cruz no alto da pedra na base da qual o tinham encontrado. Das razões que o teriam levado àquele fim não queriam saber, ou sabiam e calavam-se para não dar mais força às vozes viperinas do povo.

 

O GUERRILHEIRO EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.09.19

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INTENTO DE DETENCIÓN DE MANOLO (VICTOR GARCÍA “EL BRASILEÑO”) POR LA GUARDIA FISCAL PORTUGUESA

 

El intento de detención de Manolo (Dente de Ouro) es ya  leyenda popular.

La mayoría de gente de Pereira – Portugal, lo conocía. Aqui contamos la versión de Domingo Alonso (D.A.R.) una de las personas más próximas a los protagonistas en el territorio y personalmente.

El 2 de Mayo de 1943 por la noche, en Castro Laboreiro después de una cena conjunta en la que participaba Manolo, un guarda fiscal llamado Carlos intentó deternele. Al parecer hubo un diálogo previo:

“Señor Manolo, dese preso”.

“Déjeme en paz si no quiere tener problemas” le respondió.

El diálogo finalizó cuando, sintiéndose acosado Manolo, le disparó desde el bolso de la gabardina y le mató.

Huyó para Ribeiro de Cima, y se refugió en casa de Rosa Alves “La Africana”. Probablemente en este acidente participó también  “Enrique” (Ramón Yañez).

Estando en Ribeiro de Cima en casa de “La Africana”, Manolo fue cercado por unos veinticinco (25) guardias fiscales. Primero salió “Enrique” por un agujero hecho en la pared de la casa, com acuerdo previo de cubrir luego la salida de Manolo. No obstante “Enrique”, al verse acosado por los guardias, huyó. Salió luego Manolo por la puerta que daba al camino y gritó a los guardias:

“Dispararé al primero que se mueva!”.

“Oh, señor Manolo. Usted no debe hacer eso” respondió el jefe de los guardias.

La situación de la casa al lado del camino y la estrechez de éste, facilitó que probablemente Manolo les pudiese apuntar com sus armas a uno o a varios de ellos. Manolo se fue alejando sin que se atreviesen a dispararle.

José (J.A.P.) transmitía la creencia popular de que los guardias le tenían miedo.

Cuando ya estaba lejos abrieron fuego. Manolo huyó para siempre.

En la zona no se supo más de él, aunque su persona y sus hechos fueron recordados durante mucho tiempo y siguen vivos en la historia del lugar.

 

Retirado de: Víctor García G. Estanillo el Brasileño

http://blocs.tinet.cat/lt/blog/victor-garcia-g.-estanillo-el-brasileno

 

UM CONCURSO DE CÃES DE CASTRO EM 1971 I

melgaçodomonteàribeira, 11.05.19

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concurso de 1971

 

EM CASTRO LABOREIRO

TERRA DE EMIGRANTES E CÃES FAMOSOS

 

Melgaço foi o local de encontro de pessoas de Lisboa, do Porto e de Viana que iria superintender no concurso. Depois de almoçadas, ei-las pela estrada acima, na subida de uma trintena de quilómetros. Quando os juízes e demais comitiva lá chegaram já os concorrentes aguardavam impacientemente a chegada daqueles que iriam ditar a sorte dos seus exemplares. Para os menos avisados no assunto, como o repórter, logo ressaltaram vários pormenores que chamaram a sua atenção.

O certame realizava-se na «artéria» principal da povoação – Largo do Eirado – mesmo defronte da igreja (cuja primeira pedra remonta de há mais de oito séculos) e à porta das principais autoridades da terra: abade, presidente da junta e regedor.

Pois para além da circunstância do concurso se realizar na via pública (a fazer lembrar uma «passarelle» em plena Praça da Liberdade…), pormenor que igualmente nos despertou a curiosidade foi o facto dos exemplares se apresentarem como que «descalços» e as donas de avental à cinta e lenço pela cabeça.

Com efeito, no Estoril, no Porto e em Lisboa, estávamos habituados a ver desfilar no ringue exemplares cuidadosamente tratados e o sexo feminino primar pela elegância, vestindo pelo último figurino, de tal modo que o assistente menos dado à canicultura não sabe que mais admirar, se o garbo de o cão concorrente ou a distinção de quem o conduz pela trela. Pois em Castro Laboreiro os cães eram presos por nagalhos e cordas, raramente por coleira. Puxados e não exibidos por gente «fardada», de tamancos ou de botas, por mulheres «uniformizadas» de preto. De preto porque ali predomina o luto, de tal forma que até se diz que em Castro Laboreiro as mulheres dão viúvas de homens vivos.

 

Terra onde não há pobres

Disse-nos o pároco da freguesia, Rev. Padre Aníbal Rodrigues: «A emigração aqui é habitual. É tão antiga como a própria terra. O homem de Castro Laboreiro nunca se sujeitou a um nível baixo. Foi sempre sua ambição ganhar muito.»

Por isso, aquela freguesia é uma comunidade de mulheres. Mulheres que, durante a ausência do pai, do marido, dos filhos, se vestem, dos pés à cabeça, de negro. É tradição de há longa data. Só quando os «homes» regressam as vestes escuras dão lugar a outras de cor garrida.

Prosseguiu o nosso interlocutor: «Primeiramente os homens de Castro Laboreiro emigraram para todo o país. Depois, a grande atracção foi a Espanha e agora a França. Mas hoje não há terra onde não haja gente nossa: Brasil, Argentina, México, Taiti, Turquia, Gibraltar, Estados Unidos, Holanda, Austrália, Paquistão. Em toda a parte. Os nossos operários são altamente especializados em betão armado. De tal modo conceituados que, quando do rebentamento de diques na Holanda, foram para lá especialmente contratados. Outro exemplo elucidativo da categoria da nossa mão-de-obra: nas bases americanas na Turquia há gente daqui.»

 

«Castro Laboreiro»: Raça que teve os dias contados

O cão da raça «Castro Laboreiro» é um extraordinário cão de pastor «ai de quem toque no gado!» e cão polícia. Mas deixemos o padre Aníbal Rodrigues, personalidade altamente credenciada na matéria, falar sobre aquela raça: «É um cão excepcional, quer em faro, quer em inteligência em valentia e docilidade. Como companhia, também não há melhor. É duma fidelidade a toda a prova. Tem um sentido de justiça que impressiona. Se o dono o castigar sem razão o animal nunca mais lhe liga, pois o cão de Castro Laboreiro tem grande aversão à injustiça».

Pois esta tão «sui generis» raça nacional, que o Exército presentemente utiliza como cães-polícia (ainda há pouco recrutou 50 naquelas paragens) e desperta o interesse dos canicultores de todo o país, esteve em vias de desaparecer, tal como acontece presentemente com o «Serra da Estrela». A raça, através dos tempos, foi-se degenerando pelo cruzamento com outras espécies. Foi então que desde há 17 anos, em Castro Laboreiro – o solar da raça – vêm sendo realizados concursos, promovidos pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, em estrita colaboração e com o apoio técnico do Clube Português de Canicultura com sede em Lisboa, (entidade que no nosso país superintende na canicultura nacional) exactamente com a finalidade de fomentar e preservar aquela variedade.

Dizia-nos o Dr. Teodósio Marques Antunes, Intendente Pecuário de Viana, que no primeiro concurso estiveram presentes apenas 9 animais e desses só 2 eram exemplares mais ou menos característicos. «Tudo o resto era uma salada russa».

 

«Como a ti»

Coisa esquisita também, que chamou a nossa atenção, é o nome que aquela gente põe aos seus cães.

Quando alguém pergunta o seu nome, a resposta é do género: «Que lhe diga ele», «Não se diz», «Pergunta-lhe», «Como a ti», etc.

 

(continua)