Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ESTRADA NOVA, MAS...

melgaçodomonteàribeira, 28.01.23

48 b2 - neve (3).jpeg

ACIDENTES NA ESTRADA NOVA DE CASTRO LABOREIRO

O autocarro que fazia a carreira para Castro Laboreiro a 25/1/1952 teve que ficar por Pomares, pois a neve era tanta que não havia hipótese de prosseguir. Apesar da estrada ser nova, já se reclamavam obras!

Escreveu-se no Notícias de Melgaço, nº 1019, de 30/3/1952: «Ainda está na memória de todos o grave desastre que sucedeu com a camioneta de José Albano Fernandes onde, além de muitos feridos e prejuízos materiais, houve duas mortes. Desde então mais alguns desastres se têm registado de menos importância, como ainda há bem pouco tempo o ocorrido com a camioneta de Abel Alves “Chimpa”, que só por um milagre não houve vítimas. E para evitar este estado de coisas daqui lembremos a conveniência de aproveitar a época de verão para concluir a pavimentação da referida estrada, pois que dias há no inverno que aquela importante povoação fica bloqueada e com as suas comunicações cortadas com o resto do concelho, o que lhe ocasiona graves prejuízos, ficando além disso sem assistência médica durante o tempo das grandes nevadas…»

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

p. 305

 

IN FINIBUS GALLECI

melgaçodomonteàribeira, 23.12.22

867 b celanova.jpg

IN FINIBUS GALLECIE 

A RECONQUISTA NO ACTUAL TERRITÓRIO PORTUGUÊS

O CONTEXTO DE UM PROCESSO DINÂMICO, 868 -1064

 

José Alexandre Ribeiro de Sousa

Tomamos como exemplo a expressão subtus monte. A mesma é reflexo da intensa militarização do espaço a Sul do Minho, concretamente nas regiões em torno do eixo Braga-Guimarães, junto dos caminhos de tradição romana, bem como, na região da Feira e nos acessos a Ponte de Lima, tudo vias de penetração das aceifas mouriscas em direcção ao Sul da actual região do Minho e fenómeno ainda parcialmente desconhecido quanto à sua dinâmica de implantação. Curiosamente, e para o território da actual Galiza, tal expressão poderá ser encontrada com alguma frequência, e para cronologias mais precoces, mas nunca com a intensidade revelada logo após as presúrias levadas a efeito no Portugal actual.

Não querendo individualizar nem particularizar casos concretos, não podemos deixar de assinalar, pela sua pertinência e aproximação à realidade encontrada por Carlos Alberto Ferreira de Almeida nos PMH (Portugalia Monumenta Histórica), o caso das propriedades do mosteiro de Celanova.

São inúmeros os documentos onde sobressai o monte Leporario (Castro Laboreiro), não pela sua elevação particular, pois o mesmo não se destaca na orografia dominante, mas por ter sido um espaço ordenador da região em seu redor, tal como refere São Rosendo quando relembra, em Setembro de 942, a fundação do mosteiro, “… construi monasterium ad calcem montis Leporarii, olim dictus Uillare nuper autem Cellenouenses nomine peribetur” e, numa doação de bens efectuada pelos seus pais em Janeiro de 941, “… in cuius nomine monasterium esse dinoscitur dicto Cellanoua, territorio uocabulo ad crepidinem montis Leporarii. Podemos igualmente aportar ouro exemplo, datado de Maio de 927, e referente a uma propriedade localizada na actual paróquia de Sorga (Ourense), não muito distante de Celanova, “… cuius baselica sita est in uilla que uocitant Sancto Petro, iuxta rivilum Sorica et sub monte Leporario.

 

Universidade de Lisboa

Faculdade de Letras

Departamento de História

Dissertação de Mestrado em História

Lisboa, Maio de 2016

 

PONTES CELTA E CAVA DA VELHA

melgaçodomonteàribeira, 03.12.22

826 b ponte nova cava da velha c l.bmp

ponte cava da velha

826 c Eassimseconstriumtrilho...CastroLaboreiro.jp

ponte celta

PONTES DE CASTRO LABOREIRO

O planalto de Castro Laboreiro, desde sempre, se revelou de grande importância na vida de diferentes civilizações como testemunham os vestígios e obras que se distribuem pela paisagem castreja como, por exemplo, os nichos de monumentos tumulares, ou, o conjunto de pontes em que, pelo menos, um efectivo de dez está, muito provavelmente, associado a civilizações tão distintas, como a celta, a romana e a medieval.

Pontes interligadas por eixos de comunicação ao exterior, muitos deles, boas amostras de uma rede complementar implementada possivelmente pelos romanos, que ligava o território castrejo à via Bracara Augusta – Astorga, que atravessa a área em investigação, sensivelmente entre Portela do Homem e o Torno.

Do conjunto das dez pontes castrejas, destacamos a classificada como monumento nacional, a ponte da Cava da Velha, ou, Nova, e a única em estilo celta em Portugal, a ponte Celta dos Portos.

Aquela, a ponte da Cava da Velha, muito próxima de um antigo castro, o da Cava da Velha, possivelmente um monumento romano que na Idade Média teria sido reconstruída, une as duas margens do rio Laboreiro, das quais emana uma calçada, aparentemente romana, que atravessa uma área isolada, coberta por vegetação, em que sobressaem as giestas.

A envergadura desta obra inserida numa área em que se torna evidente o isolamento, poder-se-á entender, se recuarmos à época romana, pelas legiões necessitarem de passagens resistentes a fim de garantirem deslocações rápidas e seguras.

Independentemente dos motivos que justificaram a respectiva construção, a arquitectura associada à austeridade do material que a constitui, o granito, confere-lhe uma majestosidade, que lhe permite integrar-se na paisagem como uma beleza e elegância únicas.

A ponte Celta dos Portos, a única em estilo celta do país, une as duas margens do ribeiro dos Portos, precisamente, nos Portos de Cima, das quais parte uma calçada aparentemente romana em direcção à Galiza, concretamente a Bande. De arquitectura simples, apresenta uma beleza rara e discretamente se integra numa paisagem, que é agreste, mas, simultaneamente, acolhedora.

Elementos de uma rede viária, cujas idades, apesar, de não serem, ainda, bem precisas, reportam-nos, sempre, a civilizações longínquas, o que nos permite colocar a hipótese de que Castro Laboreiro assumiria, nessas épocas, uma posição de hinterland no espaço peninsular.

 

LIMA INTERNACIONAL: PAISAGENS E ESPAÇOS DE FRONTEIRA

VOLUME I

Elza Maria Gonçalves Rodrigues de Carvalho

Tese de Doutoramento em Geografia

Ramo de Geografia Humana

Universidade do Minho

Instituto de Ciências Sociais

Julho de 2006

 

CASTRO LABOREIRO, VARÍOLA EM 1874

melgaçodomonteàribeira, 19.11.22

720 - 2 cavalos cast.jpg

OS “BRASILEIROS” E A ASSISTÊNCIA À SAÚDE.

O CASO DO ALTO MINHO DE OITOCENTOS.

 

Alexandra Esteves

 

Uma grave epidemia de varíola varreu a freguesia de Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, desde outubro de 1873, estendendo-se pelo ano de 1874. Em três meses vitimou uma centena de crianças. Em fevereiro de 1874, havia nesta localidade vinte e duas crianças infectadas, com idades compreendidas entre os oito meses e os doze anos de idade. No verão desse ano, a enfermidade atingiu novamente o concelho de Arcos de Valdevez, incidindo, especialmente, na freguesia de Jolda. Na mesma altura, em Outeiro, uma freguesia do concelho de Viana do Castelo, surgiam os primeiros casos. Procurava-se alertar as populações locais para a importência da higiene pessoal e da limpeza do espaço doméstico. Tudo em vão. Na ótica das autoridades, o motivo da proliferação da varíola estava na falta de limpeza e de condições de higiene das habitações. Segundo o subdelegado de saúde, de visita a Castro Laboreiro,

     a moléstia é contagiosa e epidémica, e difficil ou quazi impossível se torna a sua extincção, já porque as habitações estão fora de todas as condições higiénicas, porque a limpesa é nulla – dormem a bem dizer com os gados – já porque o seu instincto selvagem os faz ter horror à medicina e estão possuídos dúm fatalismo quasi invencível.

Este comentário peca por um certo facilitismo na tentativa de justificar a propagação da varíola, ao atribuir à rudeza das gentes a recusa das recomendações e dos tratamentos prescritos pela medicina. Consideramos que essa resistência, designadamente à aplicação da vacina, resultava, em larga medida, do isolomento em que viviam as populações de zonas montanhosas, alimentado pela ausência de vias de comunicação. Por outro lado, há que atender à função da casa na economia do Alto Minho no século XIX e até à segunda metade do século XX. A sua configuração implicava o desenvolvimento de diferentes formas de sociabilidade e de aproveitamento do espaço interior e da sua relação com o exterior. O conceito de casa tinha um sentido mais lato e abrangente para as gentes do campo do que para os moradores nas sedes do concelho. Para estes, as habitações eram sobretudo espaços de consumo e fruição, embora, circunstancialmente, fossem utilizadas como locais de trabalho. No campo, funcionavam, simultaneamente, como espaços de produção e de consumo, em consequência da estreita conexão de base sinalagmática entre a terra e a casa: os residentes na casa trabalhavam as propriedades que a integravam, e estas garantiam-lhes a subsistência. Sendo um instrumento para amanhar a terra, a casa rural surge mais virada para o exterior, composta pela eira e anexos agrícolas, onde coabitavam o homem e o animal, numa partilha promíscua da espacialidade doméstica.

 

www.academia.edu

 

S. ROSENDO E CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 24.09.22

812 b rosendo_de_celanova_45_01.jpg

rosendo de celanova

 

CASTRO LABOREIRO – DA PROTO-HISTÓRIA À FORMAÇÃO DE PORTUGAL

 

A Reconquista cristã é o processo que desencadeia a formação das primeiras monarquias do Norte peninsular, que por sua vez darão origem ao reino de Portugal. As referências às origens administrativas de Castro Laboreiro são escassas, no entanto um documento de 1007 do Mosteiro de Celanova refere Vitiza (séc. VIII-IX) enquanto conde deste território. Vitiza rebelou-se contra o rei Afonso III das Astúrias (866-910), mas foi derrotado pelo Conde D. Hermenegildo (842-912), parte das forças Galegas, que por este ato foi colocado na regência do território de Castro Laboreiro. Segundo a lenda, só na regência de seu neto São Rosendo (907-977) é que o local de implantação do atual castelo será alterado. A lenda diz que além do castelo, S. Rosendo (neto de Hermenegildo Guterres), terá também fundado a atual Vila e Igreja Paroquial. Esta lenda poderá ter algum fundo de verdade uma vez que S. Rosendo é o fundador do mosteiro de Celanova, e que o dito mosteiro exerceu intensa influência religiosa e política sobre este território, guardando até documentação específica de Castro Laboreiro nos seus arquivos. S. Rosendo foi uma figura incontornável para a Galiza, mas também para o Alto Minho. Foi bispo de Dume e administrou a Sé de Santiago de Compostela que, como se sabe, tinha relações de proximidade com a Arquidiocese de Braga, também ela influente no espaço geográfico do Alto Minho. No ano de 955, D. Ordonho III, rei de Leão, nomeia São Rosendo como bispo de Mondonhedo e administrador de Santiago de Compostela, governador do Val del Limia, o qual procurou dotar a região norte de Portugal e a Galiza de fortificações que impedissem as investidas dos Árabes e Normandos.

O castelo de Castro Laboreiro terá sido uma destas fortificações, pois também encontramos nas lendas históricas locais referências a S. Rosendo como sendo fundador desta fortificação. O novo regime administrativo que se avizinhava no horizonte, o sistema feudal e senhorial, foi de certo modo responsável pela decadência das grandes monarquias primitivas do Norte peninsular. Contudo, apesar das constantes transformações políticas do território, as comunidades locais, nomeadamente as de montanha, menos privilegiadas em todos os sentidos, não deixaram de contrair sobre si mesmas os seus sistemas arcaicos de sobrevivência e solidariedade coletiva, prevalecendo os vínculos de parentesco.

  1. Afonso Henriques (1139-1185) toma Castro Laboreiro, em 1141 ou 1144. A tomada deste território pelo primeiro rei está testemunhada num documento do mosteiro de Paderne (Melgaço), que Carlos Alberto Ferreira de Almeida explica da seguinte forma:

“O rei D. Afonso Henriques conduziu pessoalmente uma ofensiva que visava retomar, e retomou o Castelo de Castro Laboreiro, tendo recebido da abadessa do Convento de Paderne (Melgaço), mulas e mantimentos para esta empresa. Tudo aconteceu porque no decurso das muitas escaramuças entre portucalenses e leoneses, em 1141, Afonso Henriques havia invadido a Terra de Toronho, território fronteiriço à linha do Minho e que tinha Tuy como principal ponto de referência, ação bélica que conduziu a invasão do Minho e à subsequente tomada do Castelo de Castro Laboreiro, à data, uma estrutura roqueira assente sobre os escombros de uma velha povoação da Idade do Ferro”.

Deverá ter concedido foral a Castro Laboreiro nesta altura, no entanto este tema tem sido alvo de discussão e debate, dado que o foral está desaparecido, bem como outros documentos do cartulário de Fiães da mesma época, mas é repetidamente invocado. O mesmo problema ecoa relativamente ao foral de Melgaço, concedido por D. Afonso Henriques. D. Sancho I (1185-1211) debate-se por assegurar as fronteiras do Minho, mas perde o domínio sobre os castelos de Melgaço e Valença. Durante este período sabe-se que o Castelo de Castro Laboreiro se manteve do lado português, sobrevivendo às hostilidades entre D. Sancho I e Fernando II de Leão, nas fronteiras do Norte (Minho e Trás-os-Montes). D. Sancho I, concede novo foral a Castro Laboreiro, também desparecido.

 

CASTRO LABOREIRO – DO PÃO DA TERRA

AOS

FORNOS COMUNITÁRIOS

Uma proposta de mediação patrimonial

DIANA ALEXANDRA SIMÕES CARVALHO

Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em História e Património

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Maio de 2017

pp. 35-37

FÁBRICA DE CHOCOLATE EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 27.08.22

23 c2 - castro labSans titre f - Cópia.bmp

CARABEL

Falar dos “Carabel”, alcunha da família castreja Alves, é falar de chocolate. A 26/4/1908 Domingos António Alves “Carabel” (1866-1919), funda (com seu irmão Germano) a Fábrica de Chocolates Carabéis, (nesse edifício está instalado o Núcleo Museológico de C. L.), cuja firma era “Domingos António Alves & Cª”. Antes daquela data correra meio mundo no trabalho de pedreiro. Como era assaz curioso, aprendeu a fazer chocolate numa das terras por onde andou. Domingos António morre em 1919 e a fábrica é encerrada temporariamente, porque dos três filhos que tinha só um estava com ele, o Abílio (1896-1956), mas este teve que ir para Valença cumprir o serviço militar. Nessa Vila minhota andou a mirar o que ali se fazia quanto ao fabrico desse excelente produto e segundo parece conseguiu obter algumas receitas preciosas, que aperfeiçoaria depois. No regresso reabriu a fábrica e chamou o irmão Germano (1898-?), que estava no Brasil, para seu sócio. Penso que também o outro irmão, José António, fazia parte da sociedade (Este José António foi para o Brasil em 1928 e nunca mais voltou a Melgaço). A firma passou a ser “Chocolates Carabéis & Sucessores” e a marca “À Espanhola” rapidamente ganhou fama. Como não havia electricidade na freguesia, e o carvão onerava os custos, solicitam aos Serviços Hidráulicos autorização para construir um barracão junto do regato para assim poderem aproveitar a força motriz da água. Apesar de ser no fim do mundo, sem nenhuma estrada, apenas caminhos ruins, foi um êxito! O sucesso foi tanto que em 1927 abriram uma filial em S. Julião, Vila de Melgaço (na casa que pertencia à esposa do Germano), onde o Abílio, solteiro, se meteu, aí por volta de 1947, com a empregada, “Palina”, cuja história se contará noutro lado. Os irmãos, além do fabrico do chocolate, tinham o negócio de caixões e de tamancos, miudezas e fazendas. Eram comerciantes natos. A publicidade faziam-na através do jornal “A Neve”, por eles criado em 1920, o qual duraria pouco tempo. O director era o jovem professor, Abílio Domingues (1900-1978). O Germano viera solteiro do Brasil, com 21 anos de idade, e foi graças ao chocolate que conquistou a mulher com quem casou em Dezembro 1920. Ela, pouco mais velha do que ele, já viúva, e com uma filha pequenita, fora nesse ano à festa da Peneda e na volta lembrou-se de comprar algumas tabletes de chocolate para oferecer aos familiares. Dirigiu-se à banca dos manos “Carabel”, a fim de as adquirir, mas só lhes restavam duas. O Germano prontificou-se de imediato a ir a casa da bela Aurora levá-las na semana seguinte. Apaixonaram-se e deram o nó. Ficou viúvo em 1936. Não assistiu à morte da esposa, pois encontrava-se na Pára a tratar de negócios. Tiveram dois filhos: Maria Teresa, nascida em 1921, e Germano Henrique. Eles levavam o negócio muito a sério. No NM 460, de 3/9/1939, lê-se: «até ao próxima dia 10/9/1939 será posto à venda o afamado chocolate de Castro no seu depositário em Melgaço, Sr. Artur Teixeira». No NM 782, de 7/7/1946, lê-se: «Vês agora aquele velho moinho com um barracão à beira? É a fábrica de chocolates dos “Carabéis”, que tanta fama ganharam, tanta que até a estrada quis passar ali à beirinha para lhe facilitar as comunicações. Segundo me informaram, esteve primitivamente instalada lá para baixo da Ponte Velha, de sociedade com o falecido “Gertrudes”». E no NM 785, de 4/8/1946, continua: «O Abílio Carabel aparece-me lá (na romaria de S. Bento do Cando) com uma graciosa oferta: uma pasta de chocolate, como lembrança pelas referências feitas à sua fábrica de chocolates. Explicou-me como foram os princípios do fabrico, de que não pude tomar a devida anotação, porque uma imprevista zaragata veio separar-nos». (B. Ribeiro de Castro). No NM 905, de 17/7/1949, publicou-se um anúncio interessante: «PRODUTOS – A UNIÃO – Fábrica de Chocolates e Moagem Carabéis, Sucessores – S. Julião – Melgaço – Além dos já conhecidos e afamados “chocolates Carabéis” brevemente apresentará aos seus clientes e amigos mais três produtos da sua especialidade. 1 – Café Belém – gostoso até mesmo sem açúcar. 2 – Cevada S. Julião – em pacotes e avulso. 3 – Cascarilha moída – “El Gaitero”». Esta família, em 1955, tinha as suas propriedades de Castro à venda.

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

pp. 105-106

 

O ADMINISTRADOR DO CONCELHO DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 20.08.22

782 - 2 _castro-laboreiro.jpg

ENTRE O CRIME E A CADEIA: VIOLÊNCIA E MARGINALIDADE NO ALTO MINHO (1732-1870)

 

Alexandra Esteves

A actuação das autoridades nem sempre era condizente com o cargo que ocupavam, sendo diversas vezes acusadas de desleixo e arbitrariedade, o que, no caso dos administradores dos concelhos, acarretava sérias repercussões no domínio da conflituosidade quotidiana, porque uma das suas atribuições era precisamente zelar pela ordem e tranquilidade pública. Eram muitas as vozes que, na sociedade civil, nos jornais e até nas estruturas do poder, se faziam ouvir para denunciar e condenar os comportamentos impróprios de alguns desses agentes da autoridade. São vários os episódios que atestam esta realidade e que contríbuiam para a emergência de uma conflituosidade espontânea, mas também para alimentar uma revolta latente contra as instituições do poder, cujos representantes, pela sua conduta, não ajudavam a dignificar.*

*(…)

Vejam-se as acusações que, em 1836, o governador civil comunicou à câmara municipal sobre a actuação do administrador do concelho de Castro Laboreiro, que já tinham motivado várias queixas por parte dos habitantes daquela localidade: “(…) alguns dos mesmos feitos como he passar passaportes aos estrangeiros que se querem refugiar neste reino, e outros que entrão com contrabando, e mesmo aos indivíduos deste concelho que continuam a ir aos ganhos, para as províncias de Trás-os-Montes, passando-lhe umas guias em lugar de passaportes, em papel branco, levando-lhe por cada huma cento e vinte, vindo a receber a F. N. grande prejuízo, na falta de sello, escrivando tanto os passaportes como as guias como secretário, asignando como administrador, como tãobem, em hum dos dias do mês de Abril próximo passado, nomeou hum secretário da sua fação, e chamou os livros de todas as confrarias desta freguesia e concelho, e tomou os contos das mesmas confrarias, levando por cada uma coatrocentos e oitenta reis, nomeando por si próprio e sem combinação desta municipalidade, comissários e cabos de polícia, botando fintas aos habitantes deste concelho, para pagar aquém lhe vá levar e buscar os officios ao correio, isto alem de outros factos que delles podem resultar funestas consequências, factos estes que as leis da nação determinão (…)”.

 

http://academia.edu

CONTRABANDO DE CAFÉ EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 04.06.22

828 b crasteja 1907.jpg

castreja - 1907

CONTRABANDO EM CASTRO LABOREIRO

 

Comecemos pelo tabaco e com o exemplo de Castro Laboreiro, precisamente para o período dos finais dos anos sessenta e durante toda a década de setenta, época identificada por um movimento intenso em direcção a Espanha.

Transportado para a costa em pequenos barcos, que em autêntica cabotagem, o distribuíam pelo litoral e, em situações particulares, nas próprias margens do rio Minho. Uma vez recolhido nos camiões, que circulavam em vias pouco frequentadas, em terra batida, transpunham Melgaço, para através do vale do Trancoso atingirem Castro Laboreiro, onde as mulas o transportavam a vários sítios da fronteira em direcção a Espanha.

Se o comércio do tabaco adquiriu notoriedade, nomeadamente, no planalto castrejo, o movimento de maior impacto teria sido, sem sombra para dúvidas, o relacionado com a transacção do café, cuja importação, desde sempre, foi dificultada pelas autoridades espanholas.

Embora o fluxo fosse intenso e sensivelmente constante, a travessia do limiar político era efectuado, sempre a pé, em pequenas quantidades, pois o cheiro activo que exarava traía o processo mais suis generis utilizado pelo transportador.

Mas, quando na década de sessenta a torrefacção passou a efectuar-se em localidades espanholas, como Ourense, iniciou-se um novo ciclo, em virtude do café em cru, ou seja, não torrificado, não exarar cheiro e, portanto, ser muito mais fácil iludir as autoridades fiscais.

Este facto coincide com o aumento da produção em Angola e a abertura de novos acessos, principalmente em Espanha, pelo que, se por um lado, os “passadores” a título individual proliferaram, por outro, implementaram-se novos esquemas, com o predomínio dos “patrões locais”, que em coordenação com os principais gestores sediados em Lisboa e em Ourense, faziam chegar à fronteira camiões de grande porte carregados com toneladas do produto, que se armazenava, enquanto se aguardava pelos momentos mais oportunos para que grupos de homens, lusos e espanhóis, a pé, fizessem o seu transporte, através da fronteira em direcção ao país vizinho.

O negócio do café envolveu a grande maioria dos limianos de raia, pelo que desde as mulheres e homens galegos e lusos, a título individual, ou, debaixo de ordens do “patrão”, aos donos de tendas, que acompanhavam as suas mulas e os seus homens, quer até aos marcos da fronteira, quer até aos comércios, ou, então, aos bandos de homens oriundos de Xinzo de Limia e Celanova que, durante anos, a pé, transportaram muitos milhares de toneladas, incrementando-se, assim, um fluxo que se iniciava na região de Lisboa, para terminar nas torrefacções espanholas, ou, talvez melhor, no consumidor individual.

 

LIMA INTERNACIONAL: PAISAGENS E ESPAÇOS DE FRONTEIRA

Volume I

Elza Maria Gonçalves Rodrigues de Carvalho

Tese de Doutoramento em Geografia

Ramo de Geografia Humana

Universidade do Minho

Instituto de Ciências Sociais

Julho de 2006

 

ECONOMIA FAMILIAR E ESTRATÉGIA DE CASAMENTO EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 12.03.22

846 b 004.jpg

A freguesia de Castro Laboreiro, pelo seu assentamento em pequenos núcleos aldeados ou lugares, pode encontrar discordância em ser considerada uma comunidade. Para os efeitos destas notas é forçoso que a freguesia seja encarada como uma totalidade social, económica, cultural e até biologicamente homogénea e suficientemente estruturada em torno à ideia comummente partilhada da sua singularidade histórica no conjunto dos outros povos em redor. São indicadores bastantes deste pressuposto os casamentos com um elevado grau de endogamia local; a teia de parentescos que abraça quase totalmente a freguesia; as características genotípicas dos seus habitantes e o seu modo de vida, o seu equipamento tecnológico igual como iguais são as soluções achadas na resolução de problemas comuns de trabalho, produção e riqueza.

 

ECONOMIA FAMILIAR E ESTRATÉGIA DE CASAMENTO EM CASTRO LABOREIRO

Luís Polanah

Separata de “O distrito de Braga”

Vol. IV, 2º Série (VIII)

 

Braga

1979

 

 

IMG_5742.JPG

meu amigo, irmão, toni

lá nos encontraremos!

(ver post anterior)

 

GALIZA E CASTRO LABOREIRO - UMA TERRA SOLIDÁRIA

melgaçodomonteàribeira, 30.12.21

451 - 2 Ameijoeira.JPG

 ameijoeira 

 

ACTAS DO I CONGRESO DA MEMORIA – NARÓN 2003

 

No primeiro semestre de guerra civil, o número de refuxiados españois na freguesía de Castro Laboreiro, se bem de xeito non estable, acadou, según testemuñas orais, unha cifra entre catrocentas ou oitocentas persoas, cifra que debeu convertirse nunha preocupación, especialmente para os falanxistas da zona que coñecían á perfección o territorio e mantiñan vínculos de intimidade com moitas das familias dos refuxiados, preocupación que finalmente acabarían asumindo las forzas represivas portuguesas, moi especialmente a PVDE.

Assim comenzarían as batidas polas serras, polas brandas e polas inverneiras, na procura dos refuxiados. Os comandantes dos postos, especialmente o de Castro Laboreiro reciben periodicamente ordes de manter unha rigorosa e persistente vixilancia. Algúns días despois amplíanse as ordes, que sinalan que se faga unha limpeza completa de tódolos estranxeiros indocumentados, malia que o número de fuxidos vai medrando ós poucos.

A PVDE sabe da presencia en Castro Laboreiro de varios refuxiados na inverneira de Cainheiras, no lugarfixo de Portelinha, etc. Os falanxistas españois introducíronse en territorio portugués com asiduidade desde as primeiras datas de sublevación, mesmo obrigando a intervención da Comandancia Militar de Ourense que se viu na necesidade de castigar preventivamente a eses elementos incontrolados.

Son moitas as notificacións das policías portuguesas sobre a presencia de “refugiados comunistas espanhóis” entre a fronteira de Amenjoeira e Castro Laboreiro: o grupo formado por Manolo, O Dente de Ouro e o , Ramón Yañez Pereira, O Médico, que se movían por toda a freguesía de Castro Laboreiro, xunto coa amante deste último, Rosa Alves, A Africana, veciña de Ribeiro de Baixo, e nai de catro contrabandistas; fuxidos perseguidos insistentemente pola policía portuguesa e considerados peligrosos como o comunista de Bande, Lelisindo Lopez Pazos e José Alemany; outros fuxidos menos significados como José de Sousa, O Gaiteiro, natural de Pereira (Entrimo), etc. Naquela extensa área que vai desde Alcobaça ata Ribeiro de Baixo estableceuse unha persistente vixilancia, que, sen embargo, resultaba demasiado ampla e difícil de controlar polos obstáculos naturais e a facilidade de refuxios, a meirande deles furnas ou grutas, que topaban os fuxidos na serra cando eran perseguidos.

Desde os postos de Portelinha e Castro Laboreiro tratouse de localizar e capturar ó refuxiado Pepe Trabazos, protexido por unha cidadá portuguesa residente na branda de Qeimadelo, quen coa chegada do inverno trasládase a inverneira no val de Pereira, mentres o seu protexido mantense arriba na branda. A policía portuguesa sigue organizando batidas, algúns dos refuxiados preocupan más ca outros. Ás veces son grupos de sete ou oito policías. Os primeiros dias de decembro de 1936 o tenente de infantería Fernando José Lopes destina un grupo de homes ós postos da serra e a Ribeiro de Baixo para averiguar sobre a “capitana dos refuxiados españois” daquela poboación, a devandita Rosa Alves. Nos dous Ribeiros, de Cima e de Baixo, lugares fixos, lévase tempo notando a presión policial. A PVDE captura a Rosa Alvas, A Africana o 26 de outubro de 1937, moi popular no val de Pereira e con familia na aldea arraiana galega de Olelas, fronte do lugarfixo de Várzea. A comunicación secular entre os dous Ribeiros e as aldeas entrimeñas de Bouzadrago e Pereira tiñan fomentado a creación de roteiros vinculados ó contrabando, empregados polos familiares dos escapados para abastecelos de comida e roupa, evitando ser controlados polos carabineiros españois ou pola guarda fiscal portuguesa.

En Lamas de Mouro a policía ten constancia tamén da presencia de refuxiados antifranquistas. Algúns deles optan por vestir elegantemente porque lles permite alixeirar certa presión das forzas represivas, aínda que prefiren ir armados por se se vem na obriga de defenderse.

Na branda de Seara, doutro lado da Pena de Anamán, hai varios refuxiados españois, entre eles Manuel Fernández González, O Curto, acollido na casa da súa amante. Sospeitando da persión das forzas represivas, pernocta nunhas fragas próximas. Algúns habitantes destas serras son reincidentes en agachar refuxiados españois na serra, polo que se vem sometidos frecuentemente a rexistros nas súas vivendas. Nessa mesma branda está agachada unha familia enteira. Como todos, esperan documentación para internarse ó centro do país, pero resúltales complexo porque Eudosia Lorenzo Diz, de vintecinco anos, quen antes do golpe militar era mestra en San Ginés no concello limítrofe de Lobeira, ten un fillo. Para non levantar sospeitas viste o traxe de típico de castrexa. Ademais, movese cos seus pais: Agustín Lorenzo, un home de cincuenta anos, que sofre as inclemencias dunha hernia, e Basilisa Diz, cinco anos máis nova e que ten un sinal característico na faciana. Outras testemuñas, conseguidas pola policía tras interrogar os veciños, sitúaos na inverneira de Entalada ou na branda de Rodeiro; outras din que están nos lugaresfixos de Ribeiro, quizais na inverneira de alagoa ou nas brandas dos Portos. En realidade, ó integrarse coa poboación local acompáñanos nas súas migracións anuais, e as veces, ante a abafante presión policial e dos confidentes, saltan a algunha aldea galega, como Cabanelas, onde tamém consiguen acocho.

 

Ler mais em: www.memoriahistoncademocratica.org

Entre brandas e inverneiras: refuxiados e guerra civil na fronteira entre Ourense e Portugal

Ángel Rodríguez Gallardo

HOJE COMO ONTEM - SOLIDÁRIOS