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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

EXPLOSÃO NO CASTELO DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.11.20

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 castelo de castro laboreiro

 

Em termos administrativos, muito representados pelo que foi deixado na historiografia do seu castelo e igreja paroquial, Castro Laboreiro mantém-se português até ao domínio dos Filipes, passando para domínio espanhol com a perda da independência no século XVI. Durante este período principia-se a sua decadência. O novo alcaide espanhol do castelo de Castro Laboreiro descreve a fortaleza como estando povoada de “gralhas”. Embora a data da restauração da independência de Portugal seja dezembro de 1640, Castro Laboreiro só se reintegra no território português em 1666, durante a Guerra da Restauração. Em 1659, a destruição de parte do castelo de Castro Laboreiro debilitou as defesas do lugar. Este facto está descrito num documento da Torre do Tombo, livro nº 51, folha 5:

 

Aos dezoito dias de novembro de 1659, que foi uma terça-feira, às nove horas da manhã, caiu um raio na Torre do Castelo que servia de armazém de pólvora e fez a maior ruína que se sabe, pois da Torre e mais partes acessórias não ficou pedra sobre pedra e deste grande prodígio se vê claramente ser grande castigo do céu que Deus mandou para castigar pecadores que dentro deste Castelo estavam nesta grande desventura se viram grandes milagres. O primeiro a escapar foi o Governador Gaspar de Faria com a sua mulher e mais família, estando na parte mais arriscada, pois aí removeu a muralha da Torre; as suas casas as fez em pedaços e aí estavam e aí escapou com mais segurança e castigou o que na Ermida não podia ficar pedra sobre pedra, pois caiu toda a Torre sobre ela e ficou Nossa Senhora dos Remédios aí me recolhi, sem cobertura, sem água, ficando debaixo toda a máquina. Terceiro Milagre; - Foi que escapou um Escrivão do Governador debaixo desta ruína, sem avaria e são. Nesta desventura morreram – Gaspar Lima de Castro, Escrivão das Décimas e Sisas e Treslados; e um mulato seu criado, por esse nome Marcos, natural de Tangil e um miúdo, criado do Governador, por nome de Gaspar de Medela e dois soldados”.

 

Diana Alexandra Simões Carvalho

Castro Laboreiro – Do Pão da Terra Aos Fornos Comunitários

Uma proposta de mediação patrimonial

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Maio de 2017

 

 

 

 

CASTELO DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 12.07.14

 

Porta do Sapo – Desenho do livro Melgaço Estância Termal

 

CASTELO DE CASTRO LABOREIRO

 

HISTÓRIA

 

Antecedentes

A região foi ocupada desde a pré-história, conforme o demonstram os monumentos megalíticos abundantes no planalto a nordeste de Castro Laboreiro.

Embora não haja informações históricas abundantes, a ocupação deste sítio parece ligar-se ao traçado das diversas estradas romanas que aqui possuíam pontes para a travessia dos rios da região (ribeiro do Barreiro, o rio Laboreiro, o rio Cainheiras, o rio do Porto Seco e outros). Pinho Leal, afirma ser mais certo que o castelo seja atribuível aos romanos. (“Portugal Antigo e Moderno”, 1873)

O castelo medieval

À época da Reconquista cristã da Península Ibérica, Afonso III de Leão (848-910) doou o domínio de Laboreiro, na primeira metade do século X, ao conde D. Hermenegildo, avô de São Rosendo, por este ter vencido Witiza, um chefe local que se havia revoltado. Durante o domínio do conde, o castro existente (e que lhe deu o nome) terá sido adaptado a castelo, voltando, posteriormente, ao domínio muçulmano.

Em 1140, D. Afonso Henriques, futuro Afonso I de Portugal (1143-1185) conquistou a povoação de Laboreiro aos Leoneses, fazendo reparar a sua defesa (1145), (Guerra, 1926:672) que passava a integrar a linha fronteiriça dos domínios de Portugal. Embora se desconheçam os detalhes dessa defesa, ela estaria concluída, conforme inscrição epigráfica, sob o reinado de Sancho I de Portugal (1185-1211). No início do reinado de Afonso II de Portugal (1211-1223) foi arrasado quando da invasão por tropas do reino de Leão (1212).

A povoação foi elevada a vila por carta de foral outorgada por Afonso III de Portugal (1248-1279) passada em Lisboa a 15 de Janeiro de 1271. Um dos seus privilégios, concedido por vários reis e séculos mais tarde confirmado por João V de Portugal (1706-1750), era o de não se recrutarem aqui soldados. Vila e sede de Concelho entre 1271 e 1855, Laboreiro foi pertença do condado de Barcelos até 1834, bem como comenda da Ordem de Cristo desde 1319. Sob o reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325), por volta de 1290 o castelo foi reconstruído, quando adquiriu a actual feição. Por esta época, a alcaidaria de Laboreiro e a de Melgaço encontravam-se unidas, a cargo da família Gomes de Abreu, de Merufe. Posteriormente, Fernando I de Portugal (1367-1383) doou esta alcaidaria a Estêvão Anes Marinho (1375), que pouco tempo a conservou. (Guerra, 1926:672)

No século XIV, após a conquista de Melgaço, João I de Portugal (1385-1433) pôs-lhe presídio, e utilizou Laboreiro como base para deter as incursões das forças castelhanas oriundas da Galiza. (Op. cit., p. 672)

Em 1441 o alcaide-mor de Melgaço e Laboreiro, Martim de Castro sob queixa de agravar os moradores daqueles lugares foi chamado à Corte, e não mais voltou a exercer esses cargos. (Op. cit., p. 672)

No reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), o castelo encontra-se figurado por Duarte de Armas, no seu “Livro das Fortalezas” (c. 1509), podendo-se observar as muralhas reforçadas por cinco torres de planta quadrangular. Ao centro, a torre de menagem, também de planta quadrangular, precedida por outra construção, com a cisterna a norte. Isolada, em plano inferior, a vila. Este soberano outorgou-lhe o Foral Novo, passado em Lisboa a 20 de Novembro de 1513, passando a denominar-se Castro Laboreiro.

Da Guerra da Restauração aos nossos dias

Durante a Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1668), o castelo recebeu guarnição escolhida (1643), dele partindo as forças portuguesas que dois anos depois (1645) saíram a talar os campos espanhóis, saqueando as povoações vizinhas. Em Maio de 1666 tropas espanholas sob o comando do Mestre de Campo General D. Baltasar de Rojas y Pantoja, conquistaram o castelo de surpresa, após quatro horas de batalha. Tendo deixado como Governador da praça D. Pedro Esteves Ricarte, este rendeu-se sem resistência a D. Francisco de Sousa, 5º conde do Prado, sendo acusado de se ter vendido aos interesses portugueses. (Op. cit., p. 673)

Findo o conflito, ao contrário do parecer do engenheiro militar Michel de L’Ècole, em 1671 Afonso VI de Portugal (1656-1683) decidiu conservar os castelos de Lapela e de Castro Laboreiro.

Com o fim da Guerra de Sucessão espanhola (1702-1713), com a paz de 1715 o castelo foi desguarnecido. (Op. cit., p. 673)

Nas “Memórias Paroquiais” (1758) encontra-se brevemente descrito: (Castro Laboreiro) Somente tem um castelo antiquíssimo e se acham as casas que dentro em si tem, adonde habitavam os soldados e o governador do mesmo, todas arruinadas e sem portas e também se acha arruinada parte da muralha do dito castelo”.

Ainda nesse século, entre 1766 e 1778, foi utilizado por José António Freire de Andrade, 2º conde de Bobadela, Governador das Armas da Província do Minho, para recolher homens e mulheres que se recusavam a apresentar os seus filhos recenseados para o serviço militar. Passaram por essa detenção cerca de 400 pessoas no período. Freire de Andrade encarregou do governo castrense a Manuel de Araújo Machado, o segundo do nome. (Guerra:1926:673)

Os últimos governadores do castelo pertenciam à casa da Amiosa, em Valadares, no concelho de Monção.

- Manuel de Araújo Machado, o Velho, enviuvou e professou no Convento Beneditino de Cela Nova, na Galiza, ainda no reinado de D. João V;

- Manuel de Araújo Machado, o Novo, sobrinho e genro do anterior, obteve despacho para governar Castro Laboreiro em 1746, com a patente de Sargento-mor de Infantaria, abandonando o cargo de Mestre Sala na Corte, gozando do novo cargo até falecer em 1779, aos 79 anos de idade. (Op. cit., p. 673)

No contexto da Guerra Peninsular, foi guarnecido e artilhado com quatro peças (1801). (Op. cit., p. 673) Com a paz, voltou a ser desguarnecido, iniciando-se o seu processo de abandono e ruína.

Encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto nº 33.587, publicado no Diário do Governo, I Série, nº 63, de 27 de Março de 1944.

Na década de 1970 foram promovidos trabalhos de prospecção arqueológica, que revelaram testemunhos de ocupação do período da Alta Idade Média.

Entre 1979 e 1981 tiveram lugar trabalhos de limpeza e consolidação do monumento.

Em 2005 a Câmara Municipal de Melgaço procedeu a obras de valorização do acesso ao castelo.

Actualmente subsistem alguns panos de muralha aparelhados e um portal de arco de volta perfeita, a chamada Porta do Sapo.

 

 

Ler mais:

              http://fortalezas.org