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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

EMIGRAÇÃO E CONTRABANDO

melgaçodomonteàribeira, 09.01.21

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A VIAGEM

Como excelente jornalista que era, o Sr. Rocha N. (1965) decide empreender a viagem até Paris com os emigrantes que partiam de Melgaço.

A empresa ‘Viagem Lugan’, sediada em Madrid, na rua Dr. Fleming – notem a ironia histórica – trabalha também em Ourense. Na referida cidade, executava o transporte dos emigrantes (documentados) para França. Partia primeiro de Ourense, deslocava-se até à vila de Melgaço e depois prosseguia viagem até Paris.

Anteriormente era o Sr. Peres – co-herói do livro escrito por Rocha – que conduzia os emigrantes até Ourense no seu velho chevrolet. Entretanto, um empreendedor melgacense tornou possível a partida directa de Melgaço, pelo preço de 650 escudos. “Foi, pois, a 11 de Maio de 1963 que se publicou a notícia sobre o estabelecimento da carreira entre Melgaço e Paris.” (Rocha, N., 1965, p.55)

O Sr. Rocha empreendeu a viagem como jornalista, concebendo um magnífico, senão exemplar, trabalho científico de campo.

Embarcou, em Melgaço, junto de mais 28 passageiros, dois deles clandestinos. O primeiro trajecto era de Melgaço a Ourense, a viagem desenrolou-se por más e péssimas estradas de montanha.

Os emigrantes dispunham para seu gáudio de um farnel: chouriço, frango, presunto e vinho verde. O vinho do Porto e o tabaco eram, por vezes, cobiçados e apreendidos pelas autoridades espanholas.

Na fronteira portuguesa, as autoridades não poupavam esforços para evitar o surto migratório e desconfiavam dos passaportes dos turistas, pois, estes eram usualmente usados para dar o salto. As artimanhas forjadas passavam, por exemplo, pelos passaportes falsos; a fotografia do titular era arrancada e substituída pela do emigrante clandestino.

Na cidade galega de Ourense, a camioneta portuguesa dava lugar a uma espanhola. Eram, então, verificados todos os passaportes:

“Nos primeiros tempos a camioneta seguia guardada por elementos da polícia espanhola, armados de metralhadoras, para impedirem o ingresso de clandestinos. Na verdade, durante a noite passavam a fronteira na clandestinidade e apanhavam depois a camioneta em território espanhol para seguirem destino a Paris.” (idem, 1965, p.67)

A viagem prosseguia o seu penoso trilho, dirigindo-se para França. Deveria para tal atravessar a fronteira em Dancharineia, nos Pirenéus, uma vez que a fronteira de Hendaye se encontrava misteriosamente encerrada aos emigrantes.

Em paisagem de alta montanha a camioneta, por vezes, não arrancava. Os passageiros eram, então, obrigados a empurrar o veículo.

A viagem decorria sem interrupções, não havia justificações para tal! Por vezes, alguns retardados acabavam abandonados em terras desconhecidas e demasiado distantes para as suas posses, aquando de simplesmente darem vazão às suas necessidades básicas. Usualmente, o emigrante apenas trazia consigo algum dinheiro e o contacto, o qual constituía a rede social de apoio – e muito receio e esperança.

Entre Melgaço e Paris, decorriam 96 horas de intensa e penosa viagem. O tratamento facultado pelos motoristas, os quais conduziam duas noites e dois dias sem dormir – algo heróico, mas homicida – era, no geral, desumano. Limitavam-se ao brusco: ‘Oh, tu!’, revelando o valor simbólico da carga que conduziam.

Para ter acesso ao trabalho, em França, era necessário dispor da famosa carta verde, a qual era fornecida pelas autoridades francesas, permitindo que os portugueses ali trabalhassem legalmente.

Como referimos acima, no interior da camioneta encontravam-se dois clandestinos, um deles logrou os seus objectivos, o outro, ou melhor, a outra foi prontamente retida, em Espanha.

 

Emigração & Contrabando

Joaquim de Castro e Abel Marques

Edição do Autor 2003

pp. 92,93

video de Município de Melgaço

 

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raposa em castro laboreiro - foto norberto esteves - notícias ao minuto

 

 

AO NELO, IN MEMORIAM III

melgaçodomonteàribeira, 31.10.20

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Chegaram a França de noite, seguindo a linha de comboio de longe, por sorte ainda tinham as lanternas. Pararam debaixo de um viaduto para passarem a noite, aconchegaram-se uns nos outros. Antes de adormecerem, a conversa girou entre as saudades de casa, maldições aos passadores gatunos, a bela panela de sopa com que o senhor Xosé lhes aquecera o corpo e a alma antes de correr com eles, o que fazer nos dias seguintes, como chegar a Paris. Já era dia alto quando se fizeram ao caminho, esperando encontrar indicações na estrada, uma venda para comprar pão. O mais afoito era o Alberto e foi ele que se aventurou a ir às compras. Voltou com uma peça para cada um, era a ração do dia. Caminhavam depressa, sempre em direção a Bordeaux. Estavam exaustos e deram com uma estação de comboio. Tentavam apanhá-lo? Era um risco, mas se tivessem sorte… valia a pena esperar pela noite e entretanto dois deles podiam ir ver se arranjavam comida. O Zé e o Nelo ofereceram-se. Fartaram-se de andar e não lhes ocorria nenhuma ideia. Sentaram-se à entrada de um portão, desanimados, passado pouco tempo surgiu um homem e um cão, que começou a rosnar-lhes. Não entendiam o que o homem lhes dizia, mas entenderam que deviam sair dali. O Nelo falou com o cão, os animais eram todos seus amigos, aquele começou a ladrar-lhe, parecia que os estava a expulsar. E eles obedeceram. Pararam num estaminé, vários camiões à porta. Entraram e vinte olhos em cima deles. Entender o que lhes diziam, nem patavina. Queriam comer e disseram com gestos o que a língua não conseguia, apontando para as sandes que estavam à vista, pediram cinco, os dedos de uma mão. As pesetas que puseram em cima do balcão não pareciam interessar ao dono do café, acabando por retirar as que quis, os rapazes não controlavam nada. A cena continuou, cada vez mais insólita, com um homenzarrão a dirigir-se-lhes, só entendiam Paris, saiu com eles, mostrou-lhes um camião, Paris, Paris e mais nada. Largaram-no e desataram a fugir, de volta para os companheiros. O Nelo e o Zé atropelavam-se a contar o episódio, se calhar estava a oferecer-se para os levar, intuía o Alberto. Voltaram ao café, o camião tinha partido.

Andaram nestas andanças por mais uns dias, a dormir onde calhava, alimentados a pão e água e umas maças que tinham ficado como refugo nas árvores, a fugir de cães que lhes ladravam como se fossem salteadores, a ver portas que se lhes fechavam na cara. Pareciam maltrapilhos quando se abeiraram da grande cidade. Para se protegerem da chuva que os trespassava até aos ossos escolheram um abrigo de autocarros e aí se deixaram ficar, famintos, sem dinheiro, sujos e rotos, metiam nojo aos cães, na expressão do Nelo. Foi aí que até a comida que a mãe dava aos porcos lhe acudiu à ideia para matar a fome. Já nem falavam uns com os outros, todo o diálogo era interior, solitário, repleto de saudades e lágrimas escondidas, todos se sentiam no maior desamparo, nenhum queria ser o primeiro a dar parte de fraco.

Durante a noite, o Tono começou a tossir sem parar, a dizer coisas estranhas. O Berto pôs-lhe a mão na testa, ardia em febre. Tremia como varas verdes, doía-lhe muito o peito, tinha dificuldade em respirar. Tinham de fazer algo. Até ali, tinham procurado afastar-se da polícia, mas, no estado a que tinham chegado, mais pobres do que os pobres que andavam a pedir de porta em porta na terra deles, com o Tono incapaz de se mexer, a delirar, parecia que tinha gatos no peito, deviam entregar-se, que fosse o que Deus quisesse.

Na esquadra da polícia, tomaram banho, vestiram roupas lavadas, comeram até querer. Menos o Tono, que levaram de imediato para o hospital. Pareciam animais assustados, encolhidos, encostados uns aos outros, buscando algum conforto na proximidade física. Chegou um intérprete, explicaram que iam ter com familiares a Paris, tinham sido roubados, o Nelo desatou a chorar, incapaz de continuar. Tomaram-lhe o papel quase desfeito da mão, iam verificar, não se preocupassem, nada de mal lhes iria acontecer. Levaram-nos para uma camarata, deram-lhes cama para descansar, quando acordassem veriam tudo menos negro.

O tio Jaime confirmou que esperava os rapazes, partiria para Bordeaux tomar conta do caso na mesma tarde. No dia seguinte, apresentou-se na esquadra, identificou o sobrinho e os outros, responsabilizava-se por todos, pelo que estava no hospital também. Antes de partir, foram visitá-lo, o tio Jaime e o companheiro deram a morada, o nome do chefe, a empresa onde trabalhavam, quando o rapaz estivesse bem da pneumonia iriam busca-lo.

Três semanas de pesadelo, praticamente desde que saíram de casa até ao encontro com o tio Jaime, numa esquadra de polícia às portas de Bordeus, foi quanto durou a viagem dos jovens para a terra da promissão. Ainda não tinham entrado na idade adulta e já tinham provado até ao âmago a fome, o frio, o medo, a desconfiança. Ficavam vacinados contra a maldade dos homens, mas ganharam confiança na polícia e na bondade das instituições do país que os acolhia para lhes proporcionar uma vida melhor.

 

                                                                        Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Novembro de 2014

 

 

 

 

 

 

 

AO NELO, IN MEMORIAM II

melgaçodomonteàribeira, 17.10.20

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Estava um frio de rachar, que nem sentiam devido ao ritmo acelerado da marcha. O dia avançava, as nuvens prometiam borrasca e o caminho de ferro nem vê-lo. Deixaram os caminhos batidos, meteram por atalhos, saltaram muros, afastando-se das aldeias e das casas isoladas que iam aparecendo com regularidade. O Paco sempre à frente, os rapazes seguindo-o e sentindo que não era por ali, que algo não estava a correr como devia, demoraram a interroga-lo. Já faltava pouco, era só mais uma carvalheira, depois de um ribeiro onde havia um moinho. Este veio ao encontro deles, mesmo a tempo de os abrigar de um temporal medonho. Ficariam ali, não poderiam continuar debaixo de tanta chuva, não conseguiriam apanhar o comboio, ele ia procurar comida, voltava logo. Cansados, estendidos como puderam na exiguidade do espaço, caíram nos braços de Morfeu. O primeiro a acordar foi o Nelo. Estava tão escuro que não enxergava nada, abriu a porta para confirmar que era noite cerrada e continuava a chover. Acordou os outros, perguntou as horas ao Berto, o único que tinha relógio, herdado do avô paterno. Era quase meia noite. O filho da mãe do Paco não tinha voltado, tê-los-ia abandonado? Cheios de fome, partilharam os restos que encontraram no fundo dos sacos, as castanhas, nada de substancial. O medo tomava conta de todos, primeiro e durante um certo tempo em silêncio, depois à mistura com pragas e pedidos de ajuda a Deus, Nosso Senhor, à Senhora de Fátima. Tinham de esperar pela manhã, o melhor era continuarem a dormir, pelo menos descansavam e enganavam a fome. O Nelo não conseguia, só pensava em ser apanhado pela guarda, recambiado para Portugal e acabar por ir parar à Angola.

Raiava o dia quando ouviram passos. Devia ser o Paco, o magano tinha passado a noite no bem bom. Abriram a porta de rompante e deram de caras com um estranho, velhote, magricelas, um bigode que lhe tapava metade da cara, carregando um saco. O espanto foi de parte a parte, mas foi o idoso que falou, queria saber quem eram, o que faziam no seu moinho. Incrédulos, os rapazes ficaram sem voz. À insistência do mais velho respondeu o Alberto, que se tinham abrigado da chuva, esperavam um companheiro para partir, para lhes ensinar o caminho, era o Paco, tê-lo-ia visto? Pacos havia muitos na Galiza, era o nome do caudilho. Eram portugueses, a caminho de França? Não havia nenhum lugar ali perto, só duas casas, a dele e a da sua mãe, o tal Paco, se é que existia, abandonara-os. Havia muitos Pacos a enganar pobres como eles. Depois de pôr o milho a moer, punha-os no caminho para o comboio. Contaram-lhe do assalto, estavam sem dinheiro para comprar comida, tinham fome, mas não podiam voltar para trás. Por mais fortes que quisessem parecer, não podiam evitar as lágrimas.

O velho, de seu nome Antenor Cardeu, podiam tratá-lo por Cardeu, condoeu-se dos rapazes. Não havia perigo de serem apanhados por aquelas bandas, mas sem bilhetes nem dinheiro para o comboio não via como seguiriam viagem. Serviu-os de pão à descrição e preparou-lhes água de unto com ovos, até parecia que estavam em casa. Podiam aceitar ou não, era com eles, mas perto havia uma serração, seguramente arranjariam lá trabalho. Não sabiam como agradecer, seguiram para o “pueblo”. O Alberto não se queria expor, tinha algum dinheiro escondido, mas não dava para todos, queria seguir, mas não se queria sozinho. Ficava escondido, à espera de informações, se arranjassem uns dias de trabalho para ganharem para a passagem, ele juntava-se a eles depois, mas que estivessem atentos a ver se havia guardas por perto, e queriam ser pagos no fim de cada dia, era melhor não confiar nos galegos.

Trabalho para quatro ou cinco? Claro que sim, sobretudo se de braços fortes para arrastar os toros de árvore, para os descascar, para empilhar as achas. Acertaram-se, não queriam saber de horários, quanto mais trabalhassem, melhor. A madeireira ficava junto da linha do comboio, muita da madeira saía dali pelos carris. Os rapazes concertaram-se para se esconderem no meio da lenha e viajarem escondidos, era só estudarem os horários e o destino dos comboios. Quase não comiam para poupar dinheiro, dormiam nos fundos da serração, o capataz tinha bom coração, não fez perguntas quando apareceu o quinto elemento, deu-lhes uns cobertores velhos para se taparem. Uma noite apareceu lá, com um caldeirão de caldo, para aquecerem o bandulho. O Nelo ainda se lembra de tudo o que tinha aquela sopa, que lhe soube pela vida, melhor do que o que a sua mãe fazia e com que os tinha criado a ele e aos irmãos. O senhor Xosé disse-lhes que tinham de partir logo, havia uns bufos por ali, ouvira uns zunzuns, os passadores estavam de olho aberto, o patrão não queria problemas, se os encontrassem sobrava para todos, incluso para ele. Com o coração nas mãos, agradeceram e despediram-se, os poucos pesos que tinham ganho dariam para comer uns dias.

Arriscaram num comboio de mercadorias, passava devagar, muito lento, não custou nada saltar para cima. Levá-los-ia até à Hendaia, mas tinham de sair antes da fronteira e atravessar a pé. Do lado de lá havia menos perigo de serem presos, os franceses eram menos maus que os castelhanos. Estes conselhos ou instruções, vejam-se como se quiser, saíram da boca de Xosé, desejava-lhes boa sorte, na França talvez encontrassem algum trabalho no campo, deviam sair das grandes estradas, não dar nas vistas. “Adiós, coño”, já estava a ficar sentimental.

 

(continua)

 

 

AO NELO, IN MEMORIAN I

melgaçodomonteàribeira, 03.10.20

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 lançamento do livro de olinda de carvalho - e agora, luisa

A SALTO

Ao Nelo, in memoriam

 

Desde que se meteu ao caminho, naquela noite escura e fria de um outono invernoso, a sua vida tomaria um rumo que faria dele um homem diferente. Os seus companheiros tornar-se-iam irmãos, as vicissitudes por que passaram aproximaram-nos como se tivessem nascido do mesmo ventre, foi como se os filhos de sua mãe passassem de quatro para oito. A salto para França, em mil novecentos e sessenta e seis. Para fugir a uma servidão que podia mais do que a entrega sem restrições de alguns anos de vida, era um risco para a vida. Quando o edital com os nomes dos mancebos para ir à inspeção aparecia afixado na porta da igreja, era o momento de dar o salto. A decisão de deixar a terra e se recusar a cumprir o serviço militar nem foi sua, mas aceitou-a como natural, era comum à esmagadora maioria dos rapazes em idade de servir o país. Portugal do Minho a Timor era fácil de decorar mas difícil de entender por crianças que viviam livres, arriscar a vida por essa Pátria abstrata não estava no seu horizonte. Os que não conseguiam fugir a esse destino por meios legais, que os havia, arriscavam a fuga numa viagem clandestina que, muitas vezes, raiava os limites da sobrevivência. Pelo menos, esta foi a perceção que o Nelo passava, sempre que o assunto vinha à baila.

A despedida foi cheia de muitas lágrimas, muitas recomendações, muitas saudades antecipadas, que seria da sua mãe com mais um filho de abalada, sem mais dois braços fortes para a aliviar? Parecia ao Nelo que mais do que a partida da sua pessoa, era a falta do que ele deixaria de fazer que a mãe lamentava. E não se atrevia a deixar que uma lágrima sequer se soltasse, seria a nascente de um rio caudaloso que era preciso conter, um homem não chora.

Estava escuro como breu, mas não tanto como o seu coração, quando os companheiros passaram a busca-lo e só a fraca luz das lanternas os impedia de andar ao pontapé às pedras, de mergulhar o pé numa das inúmeras poças que havia pelo caminho. O percurso da primeira etapa era bem conhecido, estavam todos habituados a calcorreá-lo nas viagens de contrabando useiras para um e outro lado da fronteira. Não temiam os carabineiros nem a guarda-fiscal, a carga era leve e o tempo frio convidava os homens da lei a ficar no remanso do lar. O passador largou-os à entrada do lugar combinado, outro tomou a sua vez, galego este.

Até à noite do segundo dia foi sempre a andar, já não aguentavam os pés, o Zé da Eira tinha os seus cheios de bolhas, partira com umas botas novas, para aguentar bem o caminho, viravam-se os calcantes contra ele. O primeiro revés deu-se aí: a comida seria por conta deles. Não sabendo onde se aviar e não querendo expor-se para não se denunciarem, aceitaram o que Paco lhes arranjou pelo dinheiro que quis. Dormiram que nem anjinhos até meio da noite, era tempo de “toca a marchar”, até ao povoado onde iam apanhar o comboio eram muitas horas. Ainda o dia não clareava, o Paco a incitá-los a avançar, como se estivesse conduzindo gado, foram surpreendidos por três indivíduos da cara tapada. Queriam o dinheiro. Depressa. Que esperavam? Era um assalto, não queriam ferir ninguém, só os pesos e os francos. O Nelo foi agarrado por um braço, uma garra a convidar à obediência, resistir seria pior. O guia ficou mudo e quedo, não pertencia àquele filme, foi o primeiro a entregar a carteira. Só o Alberto resistiu, levou um murro no nariz, ficou a sangrar e viu os bolsos serem-lhe virados do avesso.

A voz segura do galego fê-los tomar consciência do que se passara, tinham de se apressar, o comboio não esperava. Não tinham sido alertados para possíveis assaltos, como fariam para prosseguir sem dinheiro? Tinha de fazer algo, o trato era conduzi-los a salvo até ao caminho de ferro, entrega-los ao outro passador, já se tinham sentido ludibriados com a comida, agora era o dinheiro, afinal para que é que servia? Eram jovens inexperientes, não eram parvos, queriam comida e era para já, senão… Senão o quê? Ele também perdera o seu dinheiro, estavam todos no mesmo barco, tinham de deixar aquele caminho. Seguiram com esforço, a barriga a dar horas, o farnel preparado pelas mães forneceu as últimas côdeas, nada capaz de matar a fome. À entrada do casario onde o passador resolveu parar para arranjar comida entregaram o corpo ao descanso, encostados a grossos troncos de castanheiros debaixo dos quais se puseram a apanhar castanhas. Eram grandes e boas, mas não aquilo por que a barriga ansiava. Pelo sim, pelo não, algumas foram parar às sacolas, ao fundo dos bolsos. Umas cabras pastavam perto e um teve a ideia de as mungir. Estava habituado a fazê-lo no monte, sempre que o farnel se mostrava insuficiente ou para presentear a tia Isalina com leite para umas sopas. Era com esta estratégia que a velha lhe guardava o gado e ele ia ver a Berta. Não o fez, porque o Paco voltou com pão, chouriço e latas de sardinhas.

 

(continua)

 

A LUZ DE PEQUIM

melgaçodomonteàribeira, 22.08.20

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Uma homenagem discreta à cozinha burguesa do Porto: iscas de bacalhau com arroz de feijão, grelos com vitela cozida, favada, pescada frita, arroz de bacalhau, filetes de polvo, arroz de vitela com legumes, vinho de Freixo de Espada à Cinta, aguardente de Melgaço. Sim, Avelino Marques podia esperar. Da próxima vez iria ao Cozinha da Amélia comer arroz de vitela. E levaria Rosa com ele.

pp. 102

Depois, tudo isso desapareceu. Fardas da Mocidade Portuguesa. Programas de Sousa Veloso e Jorge Alves na televisão. Sapatos Campeão Português e gasosa espanhola La Casera. Brandy Domecq. Água mineral de Melgaço. Citroen Dyane. Citroen Mehari. Citroen 2CV. Ford Cortina. Ford Capri.

pp. 272

 

A LUZ DE PEQUIM

Francisco José Viegas

Edição: Porto Editora

1ª edi.: novembro 2019