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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 33

melgaçodomonteàribeira, 08.05.21

 

Antes de o sono a entorpecer, depreendeu que o Manolo sabia o que dizia: «Água mole em pedra dura tanto dá até que fura». O Fernando, ainda que lhe desagradasse, ia ter de talhar os sarrafos do outro lado do alpendre. A casa era sua, a decisão pertencia-lhe, e ele devia capitular sem protestar. Por fim, depois da profecia do Manolo lhe ter poluído o cérebro incansavelmente, exausta, ficou a ronquejar.

Na cama ao lado, a mãe, olhos oclusos, rezava de modo insensível. Baloiçada pelo espalhafato da padaria, peregrinava espiritualmente e, com os lábios, mimava «Pais Nossos» e «Avés Marias» vezes sem fim. Só depois da porta metálica do forno crepitar com persistência, é que a sucessão das orações se abreviou. Ficou serena, descansada.

A Otília teve um sono buliçoso. Por volta das sete e meia já estava de pé. A mãe repousava, respirando pausadamente. Preparou uma malga de descafeinado, mas não foi ao forno buscar o cacete fresquinho como costumava fazer. A noite não fora igual às outras e o dia tampouco o seria. Impulsivamente, já o tinha decidido, tal era o seu temperamento. Sentia-se irrequieta, nervosa, com pouco apetite. Depois de vazar a malga, foi à sala de jantar; com um movimento ríspido da mão, abduziu a pequena cortina azul escuro da janela situada por cima da porta da padaria. O telheiro estava mesmo em frente. Voltou para a cozinha. Sabia que era cedo para o Fernando fragmentar as ripas, contudo, o soído da porta encorajava-a fatalmente a dar uma olhadela através da janela.

Tinham transcorrido trinta minutos das nove quando os tímpanos lhe comunicaram formalmente que o Fernando dera a primeira machadada. Acorreu para a janela como uma louca, descerrou-a com balbúrdia e gritou ao padeiro:

— Fernando, não te quero ver mais decepar lenha aqui! Leva a lenha para detrás do telheiro e corta-a lá, anda! Não vês as rachas que me fazes na parede da casa?  Inclinada sobre o parapeito, de braço esticado, indicava-lhe o sítio das insignificantes fendas.

O Fernando nunca deixava de ripostar às suas exprobrações, mas, naquela manhã, embora surpreendido, guindou a cabeça lentamente na direcção da janela, esboçou um fingimento de riso e disse-lhe:

— De que me estás a falar, Otília? 

— Não vês as gretas que me fazes na parede? – recomeçou, irada.

O padeiro continuou a olhar para ela sem entrever.

A intimação atroadora de uma das patroas do forno galgara a estrada e ateara a atenção do Manolo. Com calma, saiu da loja e foi até à berma. Ali ficou, mirando com regalo a progressão da algarada que elaborara. Um sorriso malicioso e folião alumbrava-lhe o rosto trigueiro, e um fulgor de capitólio bailava-lhe nos olhos.

— Então não vês que é por causa das ripas que batem na parede, ou és tonto, Fernando? – insistiu, histérica.

O jovem homem, que conhecia bem os excessos da tia, endireitou-se, coçou as cerradas barbas fulvas e, com ar de cepticismo, ripostou:

— Tu não estás bem, mulher! Cuidas que são as ripas que fazem as fissuras? Quem te meteu na cabeça uma absurdidade destas? Isso é superficial, Otília. É o resultado do bom trabalho que te fizeram os alvenéis. Vira-te contra eles.

A elucidação, por mais apodíctica que fosse, não a persuadiria porque, quando algo se apropriava da sua mente, o resto era subsidiário.

O Manolo, desapercebido dos dois beligerantes, interveio. A intriga desenrolava-se maravilhosamente, melhor do que ele poderia supor.

— Não faças caso do que ele diz, Otília! É um patife, um calaceiro que não dá um passo sem gemer! Fia-te nele e vais ver como ficas sem casa, mulher!

Estas palavras bastaram para que a ingénua criatura se pusesse a disparatar e a agitar como uma alienada. Também foram a indução para que o padeiro, sem sequer desviar os olhos, percebesse quem era o instigador do delírio da tia.

— Vai pra detrás do telheiro trinchar a lenha, desgraçado, anda! Não me estragues a casinha que me arruinei para refazê-la! – e, de mãos unidas, levantou o olhar para o céu, como quem suplica Deus.

O padeiro perdeu a paciência.

— Estás doida varrida, Otília! Posso ser um desgraçado, mas tu és a pessoa mais crédula e pateta com quem deparei; és mais inocente do que a minha filha que não tem dois anos.

Fitou o dono da loja que, da outra banda da estrada, se empenhava em dominar o riso, e abanou a cabeça num gesto de impotência. Em seguida, virou-se para a tia e disse-lhe:

— A culpa não é tua, é daquele mangante – parasita – que, em vez de tratar da sua vida e deixar os outros em paz, escorcha a cabeça aos velhos! – disse, indigitando o Manolo.

A Otília, sem que transparecesse, melindrou-se. Era o seu ponto fraco. Velha, ela? Havia-as com muitos mais anos do que ela que ainda cavavam a terra e executavam afazeres como quando tinham cinquenta anos. Ela não o fazia por estar gasta, mas por ser sobejamente autónoma no capítulo peculiar. Embora magoada, conservou-se muda.

O padeiro, friamente, pousou uma ripa no cepo, elevou o machado e, antes de o deixar cair por cima, fixou a tia, simulando um ar de mau.

— Importuna-me com os teus desvarios, Otília, e vais ver que te deito mesmo a casa abaixo! – ameaçou – Vai, vai, que está a tua mãe a chamar por ti, mulher.

Foi uma conflagração.

— Ai meu Deus! Este homem está tolinho! Vai-me desgraçar! Vai abater a minha rica casinha sem eu lhe ter feito nada!

Contrariada, ao mesmo tempo que o amaldiçoava em voz alta, propeliu o batente da janela com violência. O Manolo já se tinha sumido.

— Por que te pões assim, mulher? Precisas de berrar? – censurou-a a mãe quando a viu pela porta do quarto.

— Ó minha mãe, não metas o bedelho nisto.

Uns minutos mais tarde, no café, foi o patrão quem acolheu o Fernando e o seu ajudante; em silêncio, confeccionou-lhes as sandes. Pôs o prato com os bocadillos diante deles e ousou:

— Conho, Fernando, que aconteceu contigo e a Otília? Eu ouvi-a vociferar e resolvi assanhá-la ainda mais. Como se pôs, Dios mio!

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 32

melgaçodomonteàribeira, 24.04.21

Assim, uma noite, puseram em prática um jeu de rôle: no bar, a Maribel interpretava o seu papel; na garagem, o Nelo, o do Manolo; e o Zeca, o de carregador. O Manolo implementou várias viagens com a sua carrinha Citroën 2CV, a velocidades discordantes. A cada volta a Maribel ia retardando o alerta. Ao cabo de três quartos de hora, deduziram que era razoável dar sinal quando os veículos alcançassem a casa do Pepe. O risco de a mulher se equivocar era nulo: naquele ponto, a estrada fazia uma curva de cento e oitenta graus e o feixe de luz devinha frontal. Tinham tempo para aviar dois, três ou, talvez, quatro carregadores, extinguir a electricidade e aferrolhar a porta.

Para muitos, o tempo era dinheiro; para o Manolo e os sócios também era prudência.

O que o obsidiava era a imprevisível aparição do jipe do tenente do posto de Puente Barjas.

A Otília e a mãe habitavam por cima do forno – assim designavam a padaria – e dormiam no mesmo quarto, mas em leitos individuais. Nos dias álgidos e húmidos de inverno, o calor proveniente do rés-do-chão chegava para terem uma temperatura pontual na casa: um calor conforme durante as horas mais frescas da noite e um calor ameno no restante do dia. No verão, residiam numa estufa.

Desde que ficara acamada, a provecta mulher via o tempo dissipar-se na solidão mais completa, dormitando de modo intermitente. A Otília, embora tomasse conta dela com a maior idoneidade, sentia-se incapaz de lhe fazer companhia duravelmente. Era como uma corrente de ar, um sopro. Exceptuando as situações inquietantes em que a sua presença era indispensável, pouco parava na casa.

Durante o dia, o apito revelador da carrinha do peixe – de segunda a sexta –, assim como o das locomotivas, que, consuetudinariamente, lhe provinham do outro lado do rio, representavam as referências predominantes da mãe. Se, por qualquer motivo, um comboio estivesse fora da hora, enquanto não distinguisse o seu rangido, não amortecia.

Estes factores ambientais enquadravam o seu inflexível relógio circadiano e serviam de charneira entre o pôr do sol e a noite; com esta derradeira é que verdadeiramente começava o dia para ela. Só ela lhe oferecia a presença efectiva e afectiva da filha, as suas palavras e a sua orelha.

Mas tão ponderoso como a convivência da filha, era o alvoroço da padaria, pelo qual se regia. Acostumara-se aos seus ruídos específicos, familiares havia muito: ao seu cheiro, ao gemido reiterativo da amassadeira, ao chiar e ao bater da porta do forno; ao provecto e enfarinhado transístor, que tanto brotava uma música incompreensível como uma palração anfigúrica, ao gargalhadear ruidoso causado pelos chistes dos dois trabalhadores, vindos indistintamente de baixo... Fizera do forno o seu segundo marco, o seu sol nocturno. Ao genuíno, havia muito que não o avistava, ressentindo apenas, ao fim da tarde, o calor da sua radiação anemizada através da janela.

A sonoridade flácida que derivava de baixo e atingia os seus ouvidos ainda eficazes, divergia demasiado da do seu tempo. A imaginação, artífice sem tabiques dos resquícios e das pegadas memoriais, tem um enorme potencial para ajustar desejos ou instantes memoráveis, por muito disformes que sejam; a Concepción, invocando os retalhos mais salientes e deslumbrantes da sua vida, projectava-se mais de meio século atrás. Ainda que se desdiga, o passado é sempre o mais atractivo, o mais inebriante, mormente quando o futuro pssou a ser o presente. Ainda não se deslembrara de que a padaria fora a obra do marido e dela.

Estas conjunturas, talvez imperceptíveis para os que mais sofriam de derrelicção, formavam uma milagrosa revivificação. Graças a elas, ainda discernia o frágil fio de vida que, dia-a-dia, irreparavelmente, se ia constringindo nas suas entranhas, mas ao qual se agarrava com um entusiasmo implacável, raivoso. Esta atmosfera folclórica ritmava e revigorava as noitadas da sua vegetativa cenestesia; fazia com que adormecesse a altas horas da madrugada.

Como neste mundo para dar o merecido valor a algo é imprescindível vivenciar a sua adversidade, o domingo era uma execração inequívoca para ela. Privada do cláxon infatigável da carrinha do peixe e do tumulto do forno, tinha de se confortar com o silvo dos poucos comboios que nesse dia circulavam, e postulava a Virgen para que a têmpera aleatória da filha mostrasse a boa cara. 

Se nenhuma das doenças que a carcomiam intimamente a entravasse, tagarelava obstinadamente todos os dias com ela. Velha, doente, num grau héctico crítico, a voz não denunciava a sua natureza nem a longeva idade.

A Otília, bem disposta na maior parte das vezes, narrava-lhe, com prazer e minúcia, o desenvolvimento dos acontecimentos polimorfos em andamento e as novas do dia; quando fatigada ou cateada, egoistamente, repudiava-a. Quando se dava o caso, a desditosa anciã, cujo mental por momentos oscilava, monologava, encarnando as duas figuras.

Fosse como fosse, as suas pálpebras poucas vezes se juntavam antes de identificar a frequência das colisões da porta do forno, sinal de que o Fernando enfornava as primeiras barras de pan – cacetes.

Naquela noite, a Otília descreveu explicitamente à mãe a preocupação que se apossara dela e lhe inquietava o pobre espírito. Crescera nela a apreensão pela rica casinha, na qual ambas tinham nascido e, decisivamente, expirariam.

— Ó mulher – questionou a Concepción –, como podes crer que nos vai botar a casa abaixo com paus? É impossível!

Conversaram, conversaram, sem interrupção. Às vezes, cada qual por seu lado, expressavam-se numa total simultaneidade.

A Otília não se achava ingénua ao ponto de acreditar que o choque das ripas, uma vez por outra, findasse por lhe deitar a casa abaixo. A verdade é que já havia muitos anos que, diariamente, rachavam a lenha ali. Já não se recordava, mas afigurava-se-lhe que os sarrafos nunca tinham sido dilacerados noutro lado.

A tarde foi correndo e a Otília não cessou de magicar. Contra o fim, não contendo mais a florescente exaltação, prospectou minuciosamente a parede da casa e ratificou a existência de umas fissuras esparsas. «Pequenas, é certo, mas é assim que tudo começa», pensou, atribulada, relembrando as palavras do Manolo. A pancada das ripas talvez não lhe derrubasse a casa, mas não tinha a menor dúvida de que lha danificava pouco a pouco.

 

Continua.

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 31

melgaçodomonteàribeira, 10.04.21

Preferiu vilipendiar o rapaz. Molhou o bico na tigela. Ao reparar no Nelo, rememorou-se de um acontecimento insólito. Interpelou-o.

— Nelo, sabes com quem embati anteontem no meu campo junto do regato? Essa pessoa disse-me que estava à tua espera. Admito que fiquei abismado. Tem-me saído da cabeça, mas agora quero saber se não me mentiu.

— Que estava à minha espera para quê?

O Virgílio sorria. O episódio ia interessá-los.

— O indivíduo afirmou-me que adquirira um televisor em São Gregório e que vigilava a tua vinda.

— Ah! – quase clamou o Nelo, arrebatado – Não vos relatara essa! – adiu, dirigindo-se ao Zeca e ao Manolo – Foi o Barqueiro, esse filho da mãe!

— O Barqueiro? – redisseram, cépticos, os dois homens.

— Foi o Barqueiro, sim senhor! – certificou o Nelo, triunfante, desnudando o incisivo de ouro – Quem havia de dizer, heim?

O espanto do Manolo e do Zeca era eloquente.

— Como lidara com o bicho – prosseguiu o Virgílio –, quando me disse isso, pensei que se estava a armar em malandro. Mas não, falou como se fosse coisa costumeira nele e normal para mim.

A alcunha de Barqueiro herdara-a do pai, bateleiro entre Arbo e o cais de S. Marcos, no Peso. Depois do serviço militar cumprido, concorreu para a Guarda Civil e foi seleccionado. Com menos de trinta anos fora enviado para o posto de Crecente, cujos membros vigiavam os camiões de bananas.

Incorruptível resoluto, durante os dezoito meses que ali policiou intricou, com tendencioso alento, o trabalho aos contrabandistas e aos colegas da Benemérita. No dia que foi transferido para o Ferrol, os colegas e os passadores da zona experimentaram um tremendo sentimento de alívio.

— Quando a Teté – Teresa, mulher do João-João – me disse para quem era o televisor, pensei que estava a brincar comigo – esclareceu o Nelo –, mas não. Ainda ponderei se devia levar-lha, mas... Já me olvidara desse traste, carambas!

— O cabrón! – bradou o Manolo – Nem os pés aqui pôs o malandro! O que nos fez sofrer esse gaxo! Quantas vezes me apeteceu dar-lhe uma paliza – tareia!

— E digo-vos mais: tenho a certeza de que o televisor não era para um amigo, mas para ele. O tipo rebaixou-se o menos que pôde. Mas também lhe mamei duzentas pesetas por ser ele. Quando lhas pedi, retrucou-me que a Teté lhe dissera que já.... Não o deixei ir mais além e intimidei-o, dizendo-lhe que, se quisesse levar a televisão, tinha de me cagar duzentas pesetas. Tirou imediatamente duas notas do bolso. Foi para lhe fazer pagar uma ínfima parte das que nos fez passar enquanto aqui esteve.

— Como é que um sacana destes muda ao cabo de tantos anos? – admirou-se o Zeca.

—  Zeca, custou-lhe, mas aprendeu. Foi o que viu aqui e no porto do Ferrol que o revirou. Ainda não notaste que, com o tempo, até os mais renitentes persuado? Sou um género de missionário do contrabando, pá – respondeu-lhe o Nelo.

Esgargalharam-se, radiantes.

Naquela noite, quando o Manolo trancou as portas da loja e do café, já decorriam uns minutos das vinte e duas e trinta.

Orientou-se para a ponte e fincou-se uns minutos no guarda-corpo. A barragem, sublimemente ilumidada, sobressaía da obscuridade envolvente. Alçou os olhos e dissecou os contornos imprecisos da igreja de San Miguel de Desteriz, sobranceira à represa. Rogava a ajuda do santo. Este ritual imarcescível predispunha-o para o trabalho perigoso e opressivo que o esperava.

Deu meia volta e, cautelosamente, desceu as escadas que conduziam à ala direita do andar inferior, onde se encontravam os quartos de dormir, mas não parou; contornou a casa e introduziu-se na garagem por uma pequena porta lateral.

Estava, realmente, uma noite propiciatória para contrabandear. O luar, frouxo, idealizava as circunstâncias para os rapazes evoluirem furtivamente, e era suficiente para se guiarem; o estrépido do caudal do regato e do rio, mais protuberante à noite, cobriria o bulício abafado da marcha, do estalido dos galhos pisados, das colisões fortuitas e das imprecações.

As dez toneladas de bananas não tardariam em falar português.

No exíguo eucaliptal diante do caminho de acesso à garagem, o Zeca e os carregadores, electrizados, mas animosos, expectavam. O Nelo já tinha posicionado sobre o regato a escada e, por cima desta, a tábua larga do mesmo cumprimento, unindo a sua leira à do Virgílio. Os carregadores podiam passar facilmente, com toda confiança e seguridade.

A Maribel não abandonara o café, mergulhado na opacidade; abancara diante da vidraça, ao lado da primeira das duas janelas do lado direito do bar. Para amenizar a nervosidade, a sobreexcitação, esparralhara um montão de saquinhas de pipocas por cima da mesa. Com o usitado cabo de enxada entre as pernas, estava pronta para seroar.

Dali, entre as trevas circundantes, vislumbrava a luz dos faróis dos veículos que desciam para a Frieira. Desde que um transpunha o café do Julian, uns metros antes da curva onde se situava a loja do Abel, os raios luminosos brilhavam com intensidade. Esbordoando com pujança duas vezes no solo de lajes com o cabo de madeira, alertava os que por baixo se apressavam. Neste caso, o Zeca partia instantaneamente para o eucaliptal avisar e imobilizar os carregadores que viessem à carga; o Manolo apagava a luz e entrincheirava-se com quem lá se encontrasse. Só depois de novo sinal, três pancadas leves, o Manolo desaferrolhava a porta, imitava um miado e o trabalho retomava o seu curso expedito.

Para a Maribel diferenciar um automóvel, tinha que este chegar à altura do comércio, o que quebrava significativamente a cadência durante as transferências. Visto o tempo ser uma componente fulcral do petate, o Manolo matutou seriamente no problema. Para ele, só se podia ganhar uns minutos na recta que principiava diante da loja do Abel – depois da Maribel ver a luz pela primeira vez – e finalizava cerca de quatrocentos metros mais abaixo, junto da casa do Pepe. Para desenvencilhar o inconveniente, chegou à conclusão de que era preferível fazer uns testes.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 30

melgaçodomonteàribeira, 27.03.21

Na soleira da porta apareceu a silhueta do Virgílio. Ficou uns segundos a estudar a sala e os ocupantes, seus conhecidos.  Achegou-se ao balcão e pediu um branco à Rosa. A rapariga, nas últimas semanas, andava ligeiramente desnorteada: apaixonara-se por um dos carregadores, um belo e robusto rapaz dos que jogavam à sueca.

O Virgílio, pouco mais de sessenta anos, embora pequeno, era um homem com estigmas de ter sido musculoso; construíra-se amanhando inesgotavelmente as courelas que possuía diante da casa e vogando para superar a corrente do rio. O tom acinzentado do rosto era o fruto do amor extremo que nutria pela tigela de blanco. Homem caloroso, amável e divertido, comprazia-se na companhia de toda a gente. Quando se tratava de galhofa, acrescentava com irremissibilidade uma camada hilária, atentando cuidadosamente aos confins e às pessoas.

Empurrado pelas lastimosas singularidades dos tempos a renunciar à sua região de nascença, um lugar do concelho de Monção, expusera-se, como muitos antes dele, e permutara de país. Os portugueses – como todos os povos em geral –, evidenciavam um afecto divino à terra mãe; sensatamente, quando tinham de abdicar dela sem paradeiro certo, muitos permaneciam o mais cerca da pátria, desde que desencantassem um contexto que conviesse e recoltassem uns tostões.

«Eu – lembrava o Virgílio –, depois de saltar o regato, entrei na primeira casa que vi. Calhou ser uma loja, e então perguntei se lhes fazia falta alguém para trabalhar. Redarguiram-me que talvez; ali empaquei. Mais tarde, casei-me com a filha do proprietário da loja.» Assim resumia o princípio da sua vida, brincando. Todo ele era um mar de morosidade. Aquela parcela fremente da vida inserira-se alegremente no seu âmago.

Naquele tempo, não tendo sido eregida a ponte que agora cangava os dois limbos das aldeias, os destemidos, quando necessitavam de ir apanhar o comboio ou visitar parentes, gozavam dos préstimos de bateleiros; os hidrófobos utilizavam a ponte férrea que se situava a cerca de quinze quilómetros dali, entre Cortegada e Filgueira. As povoações da Frieira e de Filgueira eram os pontos de partida e de chegada dos emigrantes galegos da zona, assim como dos portugueses do concelho de Melgaço.

Havia, também, que ter em conta os laços atávicos que ligavam aquele segmento da Galiza e todo o extremo norte de Portugal. Uma multidão inverificável de pessoas das duas nacionalidades – com predominância de portugueses na Galiza – , reunidas pelo matrimónio, estavam disseminadas pelas duas regiões, o que comportava, durante o ano, algumas viagens nos dois sentidos.

Na Frieira, a batela era muito requisitada. O barqueiro e a respectiva batela estavam no embarcadouro duma ou outra orla, atentos à aparição de usuários. Mediante o pago de umas módicas pesetas, as pessoas eram transladadas de margem em poucos minutos. A embarcação também dava para despachar toda classe de produtos e de mercadorias.

O sogro do Virgílio era dos poucos que tinham uma concessão para explorar a batela determinados dias por mês. Com efeito, este cobiçado recurso era repartido por mais do que um. Foi dos que vogaram escabrosamente durante anos, arrostando muitas vezes os limites do bom senso para favorecer a vida a milhares de almas. Foi, pois, com coerência que, uns dez anos depois de ter casado com a sua filha primogénita, o Virgílio, encantado, substituiu o idoso sogro já extenuado como marinheiro de água doce.

Apesar do trabalho das jeiras, cansativo, e do da batela, temerário, era feliz. O batel assegurava-lhe um apreciável dinheirinho que se adicionava ao encaixado na modesta tienda, assunto da sua esposa.

Foi, indubitavelmente, o único habitante da aldeia para quem a notícia da construção da ponte foi uma tragédia. A inauguração assinou a morte da mercearia, da batela e das receitas imanentes. O caminho do Porto de Bergote – que ainda não fora cimentado – foi rapidamente esquecido; caminho que, desde sempre, fora o passadouro imperioso para quem tivesse de atrevessar o rio; caminho que fora uma fonte de clientela para a sua modesta loja, sita a dois passos do embarcadouro. Tornou-se, exclusivamente, um caminho frequentado por alguns pescadores e, à noite, pelos contrabandistas. Junto da moderna ponte, a loja do Santiago açambarcara a globalidade da freguesia.

Presentemente, o Virgílio permitia aos carregadores do Manolo a travessia das suas leiras que confinavam com o regato. Corredor recatado, encurtava-lhes sensivelmente o percurso, poupando-lhes um tempo relevante. Como não podia deixar de ser, este obséquio era-lhe generosamente ressarcido pelos cessionários.

— Ó minha Rozinha, parece-me que andas um pouco distraída – queixou-se.

— Ai que tonta! Esqueci-me de ti, Virgílio.

O ambiente era de festa. Estalaram os clamores dos jogadores de sueca. O Virgílio abeirou-se da mesa.

— Que mal jogas, pá! – lamentou-se um deles.

— Esse não conhece as cartas – subscreveu o Virgílio só para avivar.

O rapaz em causa não gostou nada do comentário e, com ar sobranceiro, contestou:

— Você que sabe, Virgílio? No seu tempo ainda não se jogava à sueca! 

Se havia um comportamento pelo qual o Virgílio tinha uma feroz aversão e o revoltava, era este: a rejeição, o desprezo que os jovens têm pela geração anterior, concebendo-a sempre como obsoleta e papalva, comparada à deles.

«Este paduano – parvo em jargão castrejo – não sabe que a vida de todo ente é compartimentada.», pensou com consternação. «Cada qual muda várias vezes de carruagem; passando da infância para a adolescência, a juventude, a idade adulta e a velhice, o comboio acarreta-nos para o mesmo fim. Não entende que a nova geração é, em grande parte, esculturada, doutrinada e inspirada, ainda que de modo inconsciente, pela precedente, como os artistas são influenciados pelos precursores. Julgam que a juventude é imorredoura!», insurgia-se às vezes. «Não imaginam que, por muito distintas que as gerações sejam, muitos jovens ouvirão, mais tarde, da boca dos filhos, as mesmas objecções que hoje fazem aos idosos. É na velhice que todas as gerações se encontram. A única disparidade entre um velho e um novo é que o velho já foi novo, enquanto que o novo não sabe se algum dia será velho.»

 

Continua.

 

 

JÁ LÁ VAI UM ANO

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 29

melgaçodomonteàribeira, 13.03.21

 

Era um sossego indefinido ter com que pagar aqueles incomplacentes, insaciáveis da Benemérita. Acalmá-los-ia mais uns tempos. O contacto do posto de Puente Barjas, exagitado havia uns dias, compareceria, sem dúvida, ao anoitecer, a fim de reivindicar a gratificação de todos os colaboradores. Nos períodos ordinários, era ele que o prevenia com antecedência se podiam trabalhar. A luz verde para aquela noite estava subordinada aos pagamentos em suspenso.

Sendo as bananas vendidas no mercado português, e, por conseguinte, saldadas em escudos, a complexidade traduzia-se na conversão em pesetas da substancial quantia necessária para solver os honorários do ramo espanhol da associação: o abastecedor da fazenda, os guardas civis e o Manolo.

Mesmo este, apesar das somas serem incomparáveis, defrontava-se, por vezes, com algumas contrariedades para cambiar os escudos que os clientes portugueses despendiam no seu minimercado.

A palpável rareza da moeda espanhola – e de outras nacionalidades – em Portugal era causada por uma balança comercial extremamente deficitária. As interrogações do pós-25 de Abril, a independência das colónias, o regresso dos portugueses nelas implantados e o rebuliço político-financeiro tiveram como repercussão, entre outras, a descida evolutiva do escudo e uma viva redução da tradicional frequentação de turistas estrangeiros, indústria que, havia muito, representava a fonte dominante de divisas.

À vista da conjunção destes factores, o Estado, a fim de asseverar as incontornáveis e férteis importações – além dos créditos dos organismos internacionais –, fazia tudo para monopolizar as moedas dos países preponderantes – repatriadas pela diáspora – que os bancos detinham, jungindo os portugueses que aspiravam sair do país, fosse qual fosse o intuito, a drásticas restrições.

Os contrabandistas recolhiam o grosso dos fundos nas lojas que fervilhavam em algumas vilas da margem portuguesa do rio Minho – entre São Gregório e Caminha – nas quais muitos turistas espanhóis se desfaziam das tão aneladas pesetas quotidianamente. Valença, nesse campo, excelia.

Estes mercadores, além do provento da venda, ainda lucravam com o câmbio. Quando os nossos vizinhos faziam compras nas suas lojas, liquidavam com pesetas; cupidamente, os lojistas menosprezavam o seu valor oficial e convertiam o importe das aquisições em sua vantagem, aumentando o valor oficial do escudo em relação à moeda espanhola; granjeavam, deste modo, mais pesetas. Quando as vendiam aos contrabandistas ou a quem tivesse de se distanciar da raia – onde o escudo não era aceite – faziam exactamente o cálculo inverso: desvalorizavam a peseta para obterem mais escudos.

Inevitavelmente, o mercado negro eclodiu. Muitos emigrantes, em vez de trocarem as economias nos bancos, vendiam-nas a alguns particulares que tinham vestido o capote de agiotas e, obviamente, lhes ofereciam melhores condições.

O Manolo findou o cômputo. A importância, como sempre, estava correcta, mas, como diz o refrão, «as boas contas fazem os bons amigos». Ergueu-se e foi à loja. Refluiu com três grandes envelopes. Tirou um papel do bolso das calças, desdobrou-o e pô-lo por cima da mesa. Nele estava orçado e apontado o quinhão relativo a cada um: a sua alíquota – que englobava o dinheiro avançado para pagar aos carregadores as duas últimas transferências –, a do Zeca, a dos guardas civis e a dos fornecedores. Recheou os três invólucros de molhos de notas, depositou-os com o dinheiro remanescente nas caixas e fechou-as à chave no baixo do armário castanho que mobilava a cozinha. O espectro e a obsessão, que havia quase duas semanas o minavam, seriam sub-rogados pelo contentamento, pela consolação e a afoiteza de que tanto carecia.

Afastou a cortina que o cortava do bar e foi encostar-se à máquina de café, diante do Nelo e do Zeca. Estes, como estipulava o protocolo, aguardavam que ele revisasse e homologasse a respeitável cifra que lhe fora confiada. Saboreavam o segundo botellin – cerveja mini –, dialogando e afinando em voz baixa, os detalhes do traslado que, enfim, se realizaria naquela noite.

A uma das mesas, quatro dos carregadores invariáveis jogavam à sueca. De pé,  outros dois curtiam o espectáculo. Todos faziam por vir cedo a fim de serem os primeiros a iniciar o trabalho e ter, dessa forma, a probabilidade de efectuar mais viagens do que os outros.

O Zeca procurava de modo incessante mobilizar o maior número de homens que podia. Para os contrabandistas, um número superior de elementos era vantajoso: pelo mesmo preço, a mercadoria mudava de terra com maior rapidez, sendo menor a ameaça de uma emboscada. Em contrapartida, para os carregadores, a ganância diminuía significativamente, visto consumarem menos viagens.

Para escambar de país cinco toneladas de bananas, a equipa usual compunha-se de cerca de doze indivíduos, não resistindo alguns a dez viagens. O Zeca percorrera os lugares dos Casais, São Gregório, Cristóval e Paços para recrutar uma enxurrada de carregadores, já que para as dez toneladas daquela noite era capital o dobro de homens.

As rodadas de cervejas sucediam-se a bom ritmo. Os portadores eram, em maioria, bebedores eméritos, de tal modo que não apreendiam como, certos dias, efectivavam a dezena ou a dúzia de viagens. O Manolo bem intentava moderá-los, mas as tentativas revelavam-se infrutíferas. Um deles, o Lapa, que bebia somente aguardente, de manhã à noite, era o mais impressionante. Pequeno, escanifrado, cambaleava, mas, quando se aproximava a hora, confirmava, sem hesitar, que a ilusão é bem uma caricatura da realidade. Com sarcasmo, dizia que era o peso do frete que o mantinha firme.

O que ganhavam em poucas horas dilapidavam-no em bebidas e sandes durante os dias que precediam a próxima noite de carradas.

Os outros, mais aforradores e comedidos, acercavam-se pouco antes da hora concertada. Dois dos que carregavam regularmente tinham completado os estudos secundários. Filhos de famílias humildes, a enxada, como aos outros, consolidara os bíceps braquiais, enrijecido o dorso, a resistência. Na impossibilidade de conseguirem um emprego na região – e dificilmente fora –, tinham de sujeitar-se àquele expediente desgastante e perigoso para usufruir de uma indepêndência minimal.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 28

melgaçodomonteàribeira, 27.02.21

Retribuídos à unidade, cada homem tentava suportar o maior número de caixas. A cada viagem, a carga era de quatro, ou seja, pouco menos de cinquenta quilos. Alguns, desalentados, sustinham um fardo de cinco caixas durante as duas excursões iniciais. Submetiam-se a um desempenho titânico que os obrigava a singrar de noite por uma caleja e caminhos medonhos, cravejados de múltiplos perigos. Vergados pelo peso, restringidos pela reduzida largura dos carreiros, saltando muretes e com os olhos no chão – apenas discernível – para esquivarem qualquer tropeço no solo irregular, percorriam mais de seiscentos metros, ida e volta; o que perfazia perto de seis quilómetros, dos quais metade com uma carga de perto de cinquenta quilos às costas!  Dois ou três, os mais atléticos, desafiavam os limites completando uma dúzia de viagens.

Havia manhãs que, na subida da encosta, se viam bananas no chão. Contra o fim, um ou outro carregador, já esgotado, deixava cair uma caixa; por muita que fosse a sua solicitude, a escuridão não lhe consentia recuperar a plenitude do carregamento. As perdas eram fracas, comparativamente aos frutuosos ganhos resultantes do tráfico.

Estas caixas estropiadas, e mais uma ou duas cargas, eram outorgadas aos guardas portugueses e galegos com regularidade para provarem a conscienciosidade da obrigação de que estavam providos. Do lado galego eram adjudicadas por uma côdea pelo gerente do economato – espécie de cooperativa – do Pueblado, em Puente Barjas, regalia do pessoal da FENOSA que velava pelo bom andamento da barragem.

O Nelo e o Zeca traspassavam o regato a diário repetidas vezes, tanto por razões profissionais como para comprar algo ou, simplesmente, para desfrutar de um breve lapso de inadvertência junto dos amigos galegos. Consumiam os dias por ambos flancos do Trancoso. Viviam no limiar de dois mundos que julgavam propriedade deles.

Às vezes, falavam, não sem um grão de escárnio, da percepção e do receio que os forasteiros tinham da fronteira.

Devido à delimitação, coexistiam, irrefutavelmente, numa área neutra que lhes era intrínseca. O Trancoso, muito mais permeável que o Minho, apesar de fixar uma demarcação territorial, não refreava o trânsito de pessoas, de veniaga nem a materialização das ideologias, das sensibilidades e da comunhão entre povos que, apesar de fendidos, conservavam – além de bens – raízes entrelaçadas de ambas partes da arraia.

Uns minutos depois das dezassete espanolas, quando o Nelo entrou na loja, o Manolo e a mulher atendiam dois casais de visitantes portugueses. Uma parte do balcão estava repleta de caixas de doces, de latas de conservas, de especiarias e de pastas de chocolate.

O ar descontraído e lépido que o seu rosto espelhava, aprazeu logo ao dono da loja e especialmente à mulher, vítima colateral das suas noites de insónia e de pesadelos.

Na mão direita, trazia um saco plástico esverdeado. Discretamente, trocaram um olhar entendedor.

Os clientes presentes reconsideravam no que ainda tencionavam escolher, passeando vagarosamente o olhar cintilante pelas estantes metálicas. O Nelo julgou o momento tempestivo para abordar o patrão da loja.

— Manolo, posso-te deixar este saquito que é para a Marisa da estação? Disse-me que, se tivesse tempo, ainda o vinha buscar hoje, senão, amanhã de manhã. Não te importas de me fazer o favor ? – indagou inocentemente.

— De modo nenhum, homem. Não é favor nenhum – saiu de trás do balcão e pegou-lhe no saco.

Era o cenário consignado para quando estavam perante desconhecidos. Deixou a esposa ocupar-se dos turistas e encaminhou-se para a cozinha, contígua, com o precioso saco.

A loja nunca fora o seu hobby. Aturar gente que não tinha qualquer ideia do que queria, que ignorava o que lhe fazia falta, que gastava compulsivamente para edulcorar o frenesim, era um verdadeiro suplício para ele. A mulher já lhe chamara a atenção, observando que estavam ali para vender e, quanto mais, melhor.

Apartou a cortina que separava a cozinha do bar e informou a empregada:

— Rosa, se alguém me quer ver, não estou disponível.

— Está bem, Manolo.

Para a Rosa, estas palvras eram sinal de petate.

Instalou-se diante da pequena mesa da cozinha. Do interior do saco plástico, exumou duas caixas de sapatos. Livrou-as dos sólidos elásticos que retinham as tampas e abriu-as. Os seus olhos brilharam de regosijo ao contemplar o tão ambicionado recheio: maços compactos de notas de mil pesetas, o montante das duas derradeiras, operações ou seja, dez toneladas de bananas que já enfeitavam os mostruários de muitas frutarias portuguesas! Perfeitamente colocados, os maços acaparavam a superfície global das caixas, como se tivessem sido feitas à medida das notas de mil.

Entusiasmado, ficou estático uns segundos, encarando o dinheiro, como o sequioso que, por fim, desmascara a gota de água que o vai hidratar. A reacção foi imediata, apoderando-se dele uma agradável sensação de serenidade. Sacudiu a cabeça energicamente, como quem quer alijar-se de vez das arduidades que até ali o importunaram, e suspirou vigorosamente. Era outro homem. Impregnou o indicador direito numa esponja humidificada com água, e, escrupolosamente, empreendeu a contagem.

Havia raras niquices, como esta, em que se verificavam uns atrasos passageiros de maior ou menor amplidão nos emolumentos, mas para o Manolo era sempre um calvário.

Os mais ofensivos e acérrimos, além dos mais glutões, eram, incontestavelmente, os guardas civis do posto de Puente Barjas, que inspeccionavam o Trancoso. À mais pequena demora nas gratificações, rosnavam e até espavoriam audaciosamente o Manolo. O que, em parte, lhe simplificava grandemente a tarefa era o facto de o grossista de frutas viguês, que fornia a banana, ser possessão de dois primos da sua esposa.

 

Continua.

 

 

 

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foto: rui manuel fonseca/global imagens

 

“SINTO-ME UM CONTRABANDISTA”. MÉDICO ESPANHOL ATRAVESSA

FRONTEIRA CLANDESTINA PARA IR TRABALHAR

 

Ana Peixoto Fernandes

 

NAPOLEÓN SANCHEZ, MÉDICO CIRURGIÃO, RESIDENTE EM CELANOVA, NA GALIZA, A 40 QUILÓMETROS DA FRONTEIRA COM PORTUGAL, ATRAVESSA A PÉ, DE FORMA CLANDESTINA, TODOS OS DIAS DE MANHÃ, UMA PEQUENA PASSAGEM SOBRE O RIO TRANCOSO PARA IR TRABALHAR EM MELGAÇO.

 

Com a fronteira principal de S. Gregório-Ponte Barxas encerrada devido à pandemia, a estreita travessia metálica, escondida no meio da vegetação, na aldeia de Cristóval, é uma escapatória para evitar percursos longos. Por ali passavam noutros tempos contrabandistas e gente que ia a salto para França.

Foi “apanhado” pelo JN quando regressava a Espanha, pela velha ponte “dos moinhos do Araújo”. Trazia na mão um saco de pão comprado em Melgaço, como é hábito de muitos galegos. E assumiu, descontraído, que arrisca pelos trilhos do contrabando para poupar “uma hora e meia a mais de percurso”. “Venho todos os dias às seis da manhã, desde que fecharam a fronteira. Trago um carro até aqui, atravesso e tenho outro carro do outro lado”, descreve quem se diz sentir “praticamente um contrabandista”. “Voltamos à época antiga”, lamenta.

O médico, que trabalha há 20 anos em Melgaço, considera “ilógico” ter de fazer o percurso de Celanova até à ponte Tui-Valença para atravessar pelo único ponto autorizado de passagem 24 horas. “São mais 60 a 80 quilómetros. Trabalho (de tarde) em Espanha. Tenho de saltar a fronteira”, justifica. “Nós trabalhadores transfronteiriços, não fazemos nenhuma ilegalidade. Em teoria pode haver consequências, mas o que é que vamos fazer?”

Quem também não teme passar “a salto” é o presidente da junta de Cristóval, David Barbeitos, que critica o encerramento da primeira fronteira no extremo Norte de Portugal. “Aqui as pessoas passam a pé e eu próprio as levo ao sítio onde podem passar. Há muita gente que tem de passar para trabalhar”.

“Que abram a fronteira de S. Gregório-Ponte Barxas. Deixem-nos transitar. Parece que temos aqui um muro de Berlim”, acrescentou David Barbeitos.

 

Jornal de Notícias

23/02/2021

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 27

melgaçodomonteàribeira, 13.02.21

                                                                                                                           

Muitos naturais da raia, e que nela estanciavam, eram naturalmente atraídos por este tipo de vida, como os habitantes da costa eram geralmente arrastados pela vida do mar. Tivera e tinha o tráfico tão vivaz, tangível que finara por se arraigar nele e no seu dia-a-dia, da cabeça aos pés; foi-o incorporando até ficar submisso. Do nascer ao pôr-do-sol, tudo nele era contrabando. Transformara-se numa compulsão que o fazia subsistir mental, fisica e socialmente.

Na época em que o café Sical ainda primava na integralidade da raia lusa, o Nelo enfrentou sérias dificuldades financeiras depois de lhe assaltarem a garagem apinhada de café. O João-João, a quem o petate pertencia, exigiu-lhe o seu valor. Agravado, fez uma estadia em França a fim de reembolsar a dívida. Foram uns tempos atormentadores, pois estava afeito à atracção exercida pela peripécia e à predilecção descomedida pela euforia que o risco lhe desencadeava.

Cevide ficara sem alma. Sem ele não era nada. O Nelo simbolizava Cevide, era Cevide, era o fragmento imprescindível ao lugar.

Logo que amealhou o mandatório, regressou à terra. Foi com indescritível satisfacção que os habitantes das duas margens o viram de novo cavaloar jovialmente pelos campos que flanqueavam o rio Trancoso com matute  às costas, um olho aruspicino em cada um dos lados do regato.

Proporcionalmente, dizia que o contrabando já não era mais que um lazer, que uma brincadeira. As transacções organizadas e por atacado, como presentemente as da banana – embora fosse uma ocupação que não depreciava –, não era o petate que mais o satisfazia. O que mais afeiçoava, o que lhe enchia a espinha de dopamina e lhe proporcionava um gozo paroxísmico era o pessoal, aquele que lhe possibilitava brincar ao gato e ao rato com os guardas fiscais e os guardas civis. Prezava infringir e ludibriar as autoridades. Comummente, nesta categoria de contrabando, trazia a veniaga para a sua casa. Uma factura sumária, caso fosse fiscalizado pelo trajecto, comprovava a sua conformidade. Depois, era só espreitar o momento mais oportuno para ir ao outro lado.

Quando os guardas fiscais se achavam no largo de Cevide e o viam com mais um artigo qualquer às costas, diziam-lhe gracejando:

— A tua casa, Nelo, deve ser um museu!

E todos gargalhadeavam.                         

O cinzento da farda dos guardas portugueses e o verde escuro da dos espanhóis – as cores preeminentes do seu diário – faziam-no flipar: detestava os que as portavam, mas não duvidava que, sem eles, não haveria emoção nem felicidade. No dia mais do que verosímil em que este contrabando desvanecesse, o Nelo encarquilharia, murcharia e acabaria por exalar. Não teve tempo de ver o abandono que, pacatamente, se hospedava.

Viúvo, partilhava a vida com um filho deficiente motor, consequência de um acidente de moto quando tinha apenas vinte anos. O rapaz mitigava constantemente nele a angústia e a acrimónia que a sua condição lhe instilava, ocasionando-lhe imensas e reiteradas amarguras.

O contrabando, com as suas translações coercivas, compromissos e eventos, era concomitantemente aproveitado por ele como a exclusiva e cordial diversão que lhe afuguentava as pulsões e as mais  nefastas elucubrações. E, evidentemente, o café do Manolo era o local pertinente para se espairecer e, por vezes, entre amigos, desvencilhar o riso coibido, coisa que, com os anos, se desabituara de fazer.

Havia muito que o axiomático ofício social desempenhado pelos pequenos cafés – considerados populares – era manifesto e perpetuado. O do Manolo era uma ilustração palpável: tanto funcionava como fórum, confessionário, ringue, banco e, quando emergia uma alma caritativa com vocação e eupatia para escutar, servia de consultório de psicanálise ou psicoterapia.

As caixas de bananas eram encaminhadas da casa do Manolo para a garagem que abrangia a totalidade do rés-do-chão da casa do Nelo, em Cevide. Em geral, eram transportadas prudentemente o mais rápido possível naquela noite ou na seguinte para as variadas e remotas afectações a sul do país. Se por acaso surgisse um óbice, e o petate tivesse de continuar armazenado até que se apresentasse uma ocasião congruente, o resultado incorrido podia ser catastrófico.

O Nelo era o mandatário do promotor e coordenador das redes que actuavam no Trancoso, o Mário da Corga, de cujas encomendas estava pendente o resto da organização da Frieira. Conferia as caixas que levavam para a sua adega, registava quem as trasladava e encarregava-se da remuneração dos guardas fiscais, o reconhecimento pelos bons serviços prestados. O comandante dos agentes de fiscalização do concelho de Melgaço, um tenente da região, apodado Tampa de Mala, e tido como o maior papador com o qual os contrabandistas alguma vez negociaram, discutia pessoalmente o seu estipêndio com o capo. O que não o impediu de um dia vir com a esposa fornecer-se à loja do Manolo e arriscar um acréscimo, emitindo quando pagava: «Isto até devia ser uma dádiva, pois somos praticamente da mesma família, não é verdade ?» O Manolo, que já o vira em Cevide fazer o figurante, respondeu-lhe cruamente: «Que eu saiba, caballero, não tenho família em Portugal». Não reviu.

O Nelo tinha como cúmplice o Zeca, dos Casais. Mais ou menos da mesma idade, um pouco mais pequeno que ele, bigode à tasqueiro, tinha uma forte fama de mulherengo.

Como todos os jovens fronteiriços, a terra e o petate eram os seus singulares afazeres. Ambicioso, vendo que aquilo não era futuro para ele, logo que pôde deu o salto para França. Ao cabo de uma vintena de anos, serviu-se de um insignificante acidente do trabalho para voltar definitivamente à terra. As confortáveis economias que se constituíra e a ridícula pensão faziam dele um homem livre.  

Hoje em dia, o contrabando, além dos benefícios mais do que profícuos que lhe garantiam uma existência correctíssima, propiciava-lhe uma vida alegre, aventureira e enlevada, apesar da periculosidade; o antípode do que aguentara do outro lado dos Pirenéus. A despeito de experiente, não totalizava, todavia, o quarto das horas de serviço contabilizadas pelo Nelo.

Contava as caixas de bananas que saíam da garagem do Manolo – a quantidade arrolada ali tinha de coincidir com a das recepcionadas pelo Nelo –, incumbia-se de angariar os carregadores e do embolso correspondente, uma vez ultimada a transição.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 26 PRO. DR. JOSÉ MARQUES

melgaçodomonteàribeira, 30.01.21

                                                                                                                    

As mãos alapadas por debaixo do avental, como se segurassem a barriga, manifestavam a curiosidade no rosto. Pelos olhos meios cerrados, sinal de concentração, reflectiam velozmente.

— Foram os carabineiros! – desabafaram as duas conjuntamente.

Até mil novecentos e quarenta, ano em que se fez a sua integração na Guardia Civil, as fronteiras e as costas espanholas eram controladas por uma antiga corporação armada, denominada Cuerpo de Carabineros. Os anciãos, que têm uma relutância específica  em prescindir dos hábitos, perseveravam e nomeavam os actuais guardas civis carabineiros.

Tácito até ali, foi o Sebastião que replicou um pouco inimistado, como se a acusação das duas mulheres fosse absurda, inútil:

— Quem queríeis que fosse? Ora esta!

— Santa Mãe! Temo o pior. Estas coisas põe-me fora de mim. – foi a vez da Tinita – E se soubessem o mal que me faz vê-los na igreja, minhas queridas!

Ninguém adiantou a mínima pressuposição, mas, mentalmente, imaginavam o que infalivelmente acontecera. Comovidos, o olhar inexpressivo, ficaram mudos uns segundos. Marcavam a solidariedade para com o malfadado estranho.

Talvez dentro de uns dias, de umas semanas ou de uns meses deparassem com mais um cadáver irreconhecível, a jusante do rio. O número destes clandestinos anónimos – oriundos das antigas colónias portuguesas, em geral –, impudentemente assassinados e atirados para as águas do troço internacianal do rio Minho, variava de ano para ano, tendo decrescido radicalmente desde a Revolução dos Cravos. Uns eram colhidos vários quilómetros depois da barragem, outros, pouco antes da foz do Minho; uns eram distinguidos a flutuar, outros, nos areais, restituídos à terra pelas águas do rio, tanto na margem portuguesa como na espanhola. Estes mártires da pobreza, antes de serem lançados ao rio, eram despojados de tudo: do parco dinheiro e ouro e de qualquer documento ou objecto que os pudesse identificar.

Como se nunca tivessem resfolgado, sonhado e existido, estes incógnitos banidos deixavam famílias num pirronismo demente, a vegetar, agarrando-se a um sebastianismo epocal. 

Habitualmente em mau estado – segundo o tempo macerado na água –, eram sepultados na freguesia portuguesa ou galega onde tinham naufragado.

— O castigo é descomedido, desumano para quem quer ganhar a vida a fim de matar a fome aos seus – disse a Otília.

— Estas coisa são muito tristes, muito injustas – opinou a Maruja.

— Só Deus pode ser indulgente com estes renegados! – adjurou a Tinita.

Tinham matéria para conjecturar durante dias. Eram como eram, mas, nestes casos, falavam essencialmente para que a consciência não se silenciasse e não se acostumasse a estes episódios sinistros.

 

 

Para o Manolo, a noite transformou-se em martírio. Não cessou de dar voltas e mais voltas; foi uma noite em branco. Quando um automóvel abrandava diante da sua casa, sobressaltava, escutava e aprontava-se para que umas fortes pancadas fizessem abalar a porta. A efígie dos guardas civis esquadrinhando a garagem afligiu-o uma grande parte da noite. Por volta das quatro da manhã chegou a furgoneta do Fernando e só depois, já prostrado, dormiu um pouco.

Durante o dia, não pôde sofrear nem camuflar um irrequietismo silencioso que teimava em corroê-lo psiquicamente. Enquanto o impasse que o angustiava havia uns dias não fosse solucionado, não conheceria a impavidez, a confiança e o repouso que tanto almejava.

Às seis e meia da tarde, o Nelo e o Zeca, os seus sequazes do lado português, ainda não tinham dado sinal, o que ampliou particularmente a sua ansiedade. No negócio das bananas ou como homems tinha criado estreitas e sólidas relações com os dois, apesar de ser bastante mais novo.

O Nelo era de S. Gregório, mas vivia em Cevide, terra da esposa. Ainda moço, principiara a laborar como passador patenteado para o Relâmpago, o proprietário do comércio dominante em São Gregório, que aprovisionava o Branquinho de Sical e outras mercadorias. O café saía de noite da praia de Cevide na batela do Nelo, e viajava até à ourela galega do Minho, para debaixo da mansão da família Gomes, precisamente. O número de toneladas que assim transitaram morrera na memória. Actualmente, era uma neta, filha do Maia, e o marido, o João-João, que estavam à frente do estabelecimento e para os quais ainda fazia uns passes periodicamente.

De estatura média, cabelo castanho claro, embora o crânio já estivesse um pouco desprovido, tinha cinquenta anos passados, mas uma compleição viripotente e uma agilidade felina. Estes qualificativos não eram mais do que a decorrência das viagens incalculáveis que executara ao longo dos anos monte abaixo, de São Gregório à Frieira, com objectos de calibre diverso ao lombo – televisores, faqueiros, alambiques, esmagadoras...

Os comerciantes de S. Gregório faziam, digamos, dois tipos de contrabando. O primeiro consistia em pôr do lado de lá  pelos criados – cada negociante tinha os seus –, a uma hora combinada com os clientes espanhóis, as compras sujeitas a direitos aduaneiros. A isenção do pagamento de tributo na alfânfega espanhola fazia com que qualquer objecto portugues fosse sempre rendoso para os nossos vizinhos. O segundo era planejado, encoberto, opaco e atingia dimensões extraordinárias. Como o que se contrabandeava dependia da demanda, as lojas de S. Gregório tinham anexos e aposentos unicamente acessíveis extrinsecamente, onde abundava tudo o que era proibido e reclamado pelos consumidores espanhóis.

Claro que, esporadicamente, as autoridades locais irrompiam numa ou noutra loja e vistoriavam-na de cima a baixo; simples inspecções infecundas. Os guardas fiscais e os funcionários da alfândega eram, em grande parte, nativos e todos os comerciantes tinham entre eles informadores. Mal o ruído de uma razia a um estabelecimento definido era percebido na aduana, o dono concernido era oficiosamente advertido e tudo o que fosse embaraçoso, removido sem demora.

O Nelo já era contrabandista quando veio ao mundo. «Não basta querê-lo para o ser», dizia. De facto, o homem dispunha das qualidades chave: era inteligente, astucioso, corajoso e engenhoso.

 

Continua.

 

 

MELGAÇO ESTÁ MAIS POBRE.

MORREU O PROF. DR. JOSÉ MARQUES.

12/08/1937

29/1/2021

DESCANSA EM PAZ, PROFESSOR

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FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 25

melgaçodomonteàribeira, 16.01.21

 

A Otília e a Maruja foram percorrendo a ponte pausadamente. Conversavam com animosidade, mas não desviavam os olhos da curva pela qual podia sobrevir a qualquer altura o jipe dos guardas civis. A juridisção deles incluía metade da ponte. Desceram a maciça escadaria metálica e, pachorrentamente, como se passeassem, calcorrearam o caminho paralelo à via férrea. Este atalho, lamacento quando chovia, terminava junto da passagem de nível, depois da estação. Exteriormente, nada denotava o refolho dos quilos de café. Visivelmente, eram as mesmas com ou sem eles.

Pousados no primeiro degrau dos três que contava a tienda, avistaram a Tinita e o marido, o Sebastião. Dum saco de lona, iam extraindo umas magníficas cebolas que entrançavam, formando grandes réstias.

A Tinita era uma septuagenária muito bondosa e devota. Era patroa de uma loja de roupas e de calçado. Como não puderam ter filhos, quatro anos atrás, optaram por adoptar a Lurdes, filha de um casal português que albergavam, o Manuel e a Augusta. A miúda ainda não  andava. A Tinita e o Sebastião cuidavam dela como se fosse uma princesa. Cada dia, enroupavam-na com novos indumentos. Olhavam para a garota como para uma deusa.

Pouco depois da adopção, a Augusta ficou novamente grávida. O segundo parto deu vida a outra menina, a quem puseram o nome de Maria. No sub-rés-do-chão, onde os alojavam – a antiga adega –, o solo era de terra, sem divisões, e os ratos, os ocupantes lídimos, flanavam indiferentemente. A pequena Maria foi crescendo e definhando no meio de tanta esterqueira, de tanta incúria, de tanta miséria, sem saber que a rapariga que vivia por cima era sua irmã. Na casa, as rixas sucediam-se diante da garota, a quem a míngua e a adiaforia esponjavam as lágrimas e o temor. Pétrea, apática a estes alaridos constantes, divertia-se com os ratos.

Quando se viam a distância, a Lurdes, ingenuamente, vexava-a dizendo-lhe que se vestia com farrapos, que não se lavava, que não tinha sapatos, que era muito magra... Intrincada diante de tanta pompa, a Maria não falava, interiorizava tudo. O olhar vítreo, fusco, cruciante, deprecava auxílio, bondade, amor, tudo o que a irmã tinha em demasia.

A Tinita obstou as duas crianças de conviverem, de se falarem, enterrando o elo de irmandade que as unia. A despeito de contundir princípios cristãos humanamente irremissíveis, assistia como o crente mais expurgado e com alegria à missa dominical na companhia da filha e do marido.

O Manuel, além de abécula, era um alcoólico incurável; a mulher e a filha assemelhavam-se a camponeses medievais. Apenas saíam da casa para ir à água ao lado oposto da casa.

A palermice não inibiu o pai das raparigas de desvendar na incapacidade da Tinita – e no desgosto que daí escoava – uma forma de a espoliar facilmente de umas pesetas, a fim de cevar a sua intemperança inveterada e fomentar as suas alienações iteradas. Oportunista, prestes a tudo, de vez em quando, chantageava-a, intimidando-a de desapossá-la da filha.

Figurava no rol das pessoas que não nasceram para beber. O álcool, verdadeira pernície, subjugava-o, enraivecia-o, desfigurava-o, conspurcava-o. Como todos os fracos, nos quais a dependência se refugia sem esforço, o seu amanhã era uma contingência. No início, bebia para se embriagar; depois, para se furtar à ressaca.

Fazia da vida das pessoas do lado direito do Minho um inferno. Quando o álcool o inundava, desassisava. Então, a altas horas da madrugada, ia para diante das casas dos habitantes, espertando-os com vitupérias, alusões paradoxais inimagináveis, passíveis de arrepiar o ser mais abjeto.

Uma noite, durante uma das suas alucinações etílicas, dando de conta que um comboio se acercava, pulou para a via-férrea gesticulando e rugindo. Foi arremessado violentamente pela locomotiva para a beira da via.

Apesar das inúmeras contusões e das fracturas suficientemente críticas, restabeleceu-se em poucas semanas. Não tardou em recomeçar os seus desvairos.

Nas aldeias, as pessoas ressentiam as depredações provocadas à volta delas pela calamidade que representava o álcool. A escassez e a dureza do trabalho, as circunstâncias de vida peníveis e desesperantes faziam delas pessoas complacentes.

Também lhe perdoavam porque quando estava num estado normal, não deixava de ser um indivíduo deferente e serviçal.

Tanto o Manuel como o Manel Grande – e muitos mais naquela parte da raia – vieram preencher o vazio deixado pelos galegos emigrados. Entre Cevide e Vila Real de Santo António eram milhares.

Como era de supor, as duas mulheres fizeram uma alta para parolar e, preventivamente, deitar uma olhada à ponte. Todas as precauções eram poucas para frustrar as astúcias dos guardas civis.

— Carambas, Tinita, que boas cebolas tivestes! E tantas! – constatou a Otília perplexa.

— Graças a Deus, mulher. Foi um ano bom – retorquiu a Tinita – Ides de passeio, não?

— Vamos à estação ver o Firmo – foi a vez da Maruja.

A Tinita, como os outros habitantes, estava a par do porquê destas visitas bisadas. Pousou as cebolas já trançadas no regaço. A sua cara reverberava intriga e suspeição. Depois de espreitar com fugacidade para um e outro lado do caminho, demandou em voz baixa:

— Quando vínheis pela ponte não apercebestes umas pingas de sangue no passeio, antes de chegar às escadas?

As duas mulheres, pasmadas pela nova, entreolharam-se e abanaram negativamente a cabeça.

— E não ouvistes uns tiros por volta das quatro da madrugada?

Cada vez mais confusas e alarmadas, deram, por sua vez, uma olhadela em redor e avizinharam-se mais da Tinita e do marido.

— Pois olhai, estava despertada quando senti dois tiros. Virei imediatamente a cara para o despertador, por isso vos digo que eram quatro da madrugada. De manha, já não me recordava. O Sebastião, como sabeis, vai lá acima regar mal o sol nasce e, quando veio, disse-me que havia pingas de sangue frescas antes das escadas. Foi então que os tiros ressoaram na minha cabeça. Fiz logo a ligação.

— Não nos digas, mulher! – exclamaram a Otília e a Maruja.

 

Continua.

 

 

SUSPENSAS MISSAS EM MELGAÇO DEVIDO AO AUMENTO DE CASOS DE COVID-19

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 23

melgaçodomonteàribeira, 19.12.20

 

Era evidente que ninguém poderia desarraigar a exploração dos pobres, a voracidade dos grandes, nem os maus tratamentos e as atrocidades com que estes contêm a fúria dos indigentes e dos justos. Ninguém mudaria o ser humano, mas obcecava-o o múnus imperioso de defender acções nobres e valores sem os quais o homem deixa de ser homem, e a vida societal se torna insuportável. Envolver-se-ia com os que faziam tudo para salvar o mundo. Não queria nem podia deixar que prosseguissem a sua transfiguração, o que, com o tempo, acarretaria a sua destruição.

A irmã do Padre, a Fátima, era uma moça bonita, bem feita, mas atrevidamente ególatra. Ela e o rapaz alimentavam, porém, uma carasterística semelhante: uma ociosidade inata. As esperanças da rapariga eram bastante mais determinadas. Vivia para ela, para a sua imagem, para que olhassem para ela, para se ver no olhar dos outros.  As raras moedas que a mãe lhe dava, ou que ocasionalmente tinha o ensejo de lhe surripilhar, utilizava-as na aquisição de produtos de beleza corriqueiros, na compra de fotonovelas e de revistas glamour. Era neste universo constelado que se projectava. Via-se, oniricamente, no lugar das vedetas fotogénicas rodeadas por belos e ricos homens, que desencantava naquelas páginas.

Dera os primeiros traços de lápis de maquilhagem, de modo esquemático, com quatorze anos apenas, alcançando sem delonga um nível de competência que, confrontado com o que se via naqueles lugares, animara em algumas adultas uma emulação explícita.

O pai, quando o álcool o submergia e lhe fazia surgir os sentimentos antagónicos que por ela fora condensando, injuriava-a e taxava-a de macaca.

A falta de meios, que a moça deplorava melancolicamente, não a deixavam granjear os trajes e a parafernália atinente, capital para se exibir como gostaria, pondo em evidência e valorizando o escultural corpo que ela acatava como um inestimável património.

Revoltada contra a mesquinheza, o hilotismo e a ataraxia vanguardista dos pais – outra afinidade com o irmão –, o seu fomento monomaníaco eram os rapazes que manobrava com um menoscabo e uma faculdade inerentes. Dos múltiplos jovens que a requestavam incessantemente, apenas seleccionava os mais abastados, os que tinham a capacidade de lhe saciar os desejos pelo medíocre e desfasado fausto que ali podia obter. Em troca, brindava-os com uns abreviados momentos de luxúria onanista. Os mancebos, lenificados, honravam-lhe as exigências.

Enfastiado de a ver preguiçar desinteressadamente, o Manel ordenou-lhe que se empenhasse em lograr um lugar de doméstica, cargo inesgotável e sensivelmente bem remunerado. A discussão depravou em conflito e, desde então, rejeitavam-se. Esse incidente impeliu a mãe, vigilante e contemporizadora, que já reparara na vida estéril e nos sonhos da filha, a pôr-se do seu lado. Sem negligenciar a delicadeza e as incertezas dos seus anseios, meditou maduramente na heurística mais eficiente para que a rapariga desfruísse das suas aspirações meretrícias.

A Gracinda sabia que uma mulher bonita, bem feita e creditada de uma galante eloquência predispunha das potencialidades indefectíveis para deslumbrar um homem opulento ou aburguesado, respirar e florescer pacientemente às expensas do seu rendimento ou da sua fortuna. Compreendera, graças ao seu empirismo, que o amor e a moralidade não eram mais do que um derivativo de luxo ao qual só os ricos concediam, e que só os louvavam depois de os terem pisado em nome da cobiça.

Por ter um precedente na família, depreendera que a probabilidade de a filha um dia rastrear um tecnocrata e conquistar um futuro irreprochável não era de desprezar. Fora a façanha cumprida por uma tia sua que, depois de se encabrestar alguns anos a uma vida dúbia em Lisboa, triunfara desposando um misterioso desconhecido com uma atribuição de relevo na companhia Electricidade de Portugal.

Para isso, a jovem filha, inábil, precisava de alguém imbuído do apurado savoir-faire basilar a uma fêmea; de alguém que lhe professasse e incutisse as técnicas lúbricas, os gestos, a desteridade, as maneiras; ou seja, o conjunto dos conhecimentos libidinosos determinantes que metamorfoseiam uma mulher atraente e irresistível numa decocção adictiva pela qual nenhum homem se embaraça em vender a alma ao diabo.

Explicou meticulosamente à filha a estratégia que urdira e, um dia, pediu-lhe que a acompanhasse. Recomendá-la-ia ao Dom Gulian, popularizado por Capitão, pessoa endinheirada, a quem fazia umas horas de limpeza por semana. Já lhe tinha tocado no assuntos do jeito mais subtil e aceitável. Era o homem idóneo para educá-la na arte da sedução, a constituinte crucial. Capitão de fragata reformado depois de quarenta anos de serviço, levava uma vida fosca desde que a esposa, a Dona Carmen, mulher de uma pulcritude inefável, fora levada repentinamente por uma doença insanável. Havia cinco anos. 

A Deolinda sabia que os marinheiros sulcavam o mundo e tinham uma mulher em todos os portos onde atracavam; eram, pois, homens exercitados. Para muitos destes marujos, que engelhavam durante meses rodeados de tocos sem verem uma fenda no horizonte, o sexo assumia um estatuto de destreza admirável; para os oficiais, era óbvio que se reduzia a uma arte. Como capitão e com a sua classe de pessoa estudada, a Gracinda estava persuadida de que o Don Gulian se apropriava das mulheres mais garbosas e versadas dos bordéis que, sem dúvida, visitara.                     

Não foi preciso porfiar com a filha para que subscrevesse a sua proposta. A moça faria tudo para conseguir os meios com que incrementar os seus fantasmas.

 

As duas velhotas estavam sentadas nos degraus de acesso a um dos passeios laterais da ponte. Exacerbadas, já não sabiam quanto tempo havia que esperavam. As suas nádegas, apesar de carnudas, lamuriavam-se do peso egrégio que sustentavam, forçando-as frequentemente a modificar de posição. Um lenço preto na cabeça abrigava-as dos raios solares, tórridos àquela hora da tarde.

Aparentemente remansadas, conversavam. Porém, apenas iludiam os cândidos: espiavam os guardas civis estacionados na outra extremidade da pontede. Como dois tralhotos, não arredavam a vista do jipe, com discrição, ao mesmo tempo que palravam. Eram mulheres de muita experiência neste exercício. A vista e a audição, os dois sentidos imperativos requeridos para estas azáfamas, tinham-nos em alerta contínua.

 

Continua.