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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AO F.A.I.J.

melgaçodomonteàribeira, 19.09.20

73 a2 - garrilha, faij (gú), carriço, antónio c

 1ª fila - garrilha, tónio carteiro, loca 2ª fila - gú (faij) e carriço atrás - alfredo alfaiate

 

In  Mente!

 

Tam cedo, Augusto Igrejas, nos deixaste

Neste mundo, mais órfãos e mais pobres…!!!

Nessa triste bagagem arrastaste

Tantos e tantos versos mais que nobres…!!!

 

Vê lá, meu caro amigo, se descobres

O teu santo caminho que encetaste!!!

E que essa terra fria que tu cobres

Seja mais quente e leve que pensaste!!!

 

Um ano que passou, e com saudade,

Todos, hoje, te querem recordar

Com alma e coração! Santa Verdade!!!

 

E contigo, nós, vamos logo estar!

E, vós, jovens?... Coragem e vontade!

Que o F.A.I.J. algo terá para vos dar…!

 

Uma Vida Entre Poesia

José Maria Rodrigues (José Serrano)

Câmara Municipal de Melgaço

2007

p. 99

(F. A. I. J. - Francisco Augusto Igrejas Júnior)

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 16

melgaçodomonteàribeira, 12.09.20

 

— É uma lástima – desabafou o Manco, afectando desolação ao mesmo tempo que fazia uma curta pausa, questão de o embaralhar e intrigar ainda mais.

Encantado por saber que ia viver um momento de deleite, de vingança mágica, antes que o homem objectasse, proferiu com espontaneidade:

— Sabe por que é pena?

Desconcertado pela incoerência da pergunta, e querendo dar prova de gentileza e de servilismo, o representante oscilou a cabeça negativamente e confidenciou com pudicícia:

— Para lhe ser franco, não sei, caro senhor.

— Pois é muito simples. Também vou ser sincero consigo. Quando era miúdo, uma época que, afortunadamente, não conheceu, na minha família a fome era tanta que, muitas vezes, até pedras éramos capazes de roer se não houvesse outra coisa mais mole. Nunca se desperdiçou um grama de tudo o que se pudesse ingurgitar, nunca, ouviu? Ainda que fosse mal-cheiroso ou que tivesse bichos! Foi assim que, desde pequenino, entre outras coisas, me afiz a comer côdeas de queijo nas quais já se tinham desenvolvido larvas. O mais engraçado é que, pouco a pouco, acabei por ficar doido por estes animais.

O viajante, apavorado pelas palavras do Manco, quase cessara de respirar e fixava-o de olhos bugalhudos. «Introduzi-me na casa de um desequilibrado mental, de um doente ou o homem não estará a falar a sério?», disse para si.

O Manco, convencido da incidência que as suas palavras produziam nele, jubilava. Voltou a tossicar, secamente, desta vez.

E, pretextando surpresa, disse:

— Não me diga que nunca teve a ledice de provar – cochicou.

Com a regozijante intenção de lhe dar a estocada postrema, insistiu:

— Como disse inicialmente, devorava queijo com larvas. Claro que, tirando a família, ninguém sabia. Um dia, já era eu dono desta casa, tive a visita de um amigo de infância que, depois de viver mais de trinta anos no México, se instalou em Santiago. Relembrando os tempos de grande pobreza, inopinadamente, disse-me que, em muitos países da América do Sul, comer vermes, formigas, minhocas, gafanhotos e outras coisas semelhantes fazia parte da cultura culinária dessas populações. Eu, que, envergonhado, comia bichos ao abrigo dos olhares alheios, compreendi afinal que não era extravagância nenhuma. E deu-me a receita para preparar as larvas à mexicana. Que maravilha, meu amigo! É um prato primoroso, pode crer-me. A partir daí, deixei de comer queijo; só os vermes que nele se formam é que têm importância para mim. É o meu péché mignon, um petisco especial, uma glutonaria da qual nem o mais requintado caviar iraniano me faria renunciar. Desde então, este amigo traz-me com frequência de Santiago um punhado de colegas composto por uma clientela de gourmets. Tudo gente reputada, fiel e que me dá o privilégio de a satisfazer. Nem pode imaginar o regalo que os vermes cozinhados  pela Vicenta lhes propicia. Só visto.

Fez uma pausa, antes de prosseguir:

— Mas fique ciente de uma coisa: nem todos os queijos geram bichos da mesma dimensão, rigidez, paladar e espécie. As moscas, engenhosas, escolhem os queijos mais nutritícios para as larvas. Não são parvas! E aí é que está a chatice. A coisa não é tão elementar como se pensa. Além disso, a fineza do queijo sem a individualidade da mosca, ou vice-versa, nunca dará uma categoria de larvas opulentas e suculentas. Contudo, como é a minha única paixão, vou tentando aperfeiçoar-me para conseguir os melhores espécimes. Por isso, quando o interroguei, a sua atitude foi justa, pois desconhece inteiramente estes costumes culinários.

Vibrou de prazer, embora o rosto e o olhar perdurassem estáticos. Sentia-se melhor, enlevado consigo próprio. Porém, a garrafa de branco, obsessivamente, foliava-lhe na cabeça. À mala hóstia primitiva sucedera uma paz sádica. Quando o indesejável fosse embora, sabia que mesmo a bebida ia ter um sabor diferente, bonificado.

Nestes casos, o que lhe aprazia eram as díspares alterações fisionómicas dos viajantes. Quanto mais estupor e incredulidade acusasse o rosto, maior era a instigação para elucubrar o chiste. Moldou o grande e denso traseiro por cima da cansada cadeira, que deu por ela crepitando instantaneamente, e, cauteloso, estudou o jovem caixeiro-viajante: ficou com a percepção de que a pele do seu rosto estava encolhida como a de um Shar Pei, formando um dominó de ressentimento e de sanha.

Não restava absolutamente nada do homem gracioso e inexorável que, havia uns escassos minutos se tinha sentado diante dele. Bruscamente, levantou-se. A tensão, forte, era manifesta. Sem articular uma palavra, desandou em direcção da porta a grandes passadas. Nem se dera ao trabalho de inserir o catálogo no attaché case. O infeliz representante, sem dúvida, já anatematizara o Manco.

— Se um dia desejar, será com a maior satisfação que lhe dou a provar as minhas larvas – lançou-lhe.

Desprendeu uma nádega da cadeira e, arrastadamente, facilitou a fuga dum ruidoso bufo, contra o qual havia alguns momentos batalhava. O alívio foi momentâneo e distensor. «Pantomineiros!», exclamou enojado. E deu uma gargalhada estrondeante que, inevitavelmente, fez vibrar os tímpanos do desafortunado viajante, já lesionados pelo artifício do Manco.

Que ficaria a pensar dele? Que era um alienado? Um bárbaro ou um maníaco? Tanto lhe dava. Era como era e estava-se a cagar para quem o desaprovasse.

Fora uma nova vítima da sua ridícula tramóia e não seria decerto a última. Merecera. Eles é que pediam. Já se obliterara do dia que, pela primeira vez, pregara esta partida nem como excogitara a cena dos bichos.

Pôs-se de pé, levou a garrafa vazia para de trás do balcão do bar e deitou a mão a uma cheia. Deu meia volta, pousou o posterior na cadeira e a garrafa no lugar da outra. Com o toco, apertou-a contra a axila e, com a perícia que contraíra ao longo dos anos, foi enroscando o saca-rolhas que residia no seu bolso. Em seguida, prendeu a garrafa entre os joelhos e excarcerou o líquido amigo, sem o qual a sua vida não teria sentido. Encheu o copo daquele vinho branco sem vida, dormente, que mais se assemelhava a urina opaca, e esvaziou-o febrilmente. O organismo gratificou-o liberando-lhe emanações benfeitoras. Do maço de tabaco que tinha no bolso da camisa, extraiu um Ducados – marca de cigarros – e acendeu-o. Deu duas longas passas que lhe incharam os pulmões obnubilados. A inoportuna interrupção do caixeiro-viajante perturbara-o tanto que esquecera o pitillo. Mas isso já fazia parte do passado.

 

Continua.

 

EVA MARIA É O NOME DA MINHA NETA

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 15

melgaçodomonteàribeira, 29.08.20

 

A mente, saturada de vapores de álcool, afigurava-se-lhe deperecida, despregada do tronco. Procurou decantar as ideias enfezadas que rodopiavam no seu cérebro, mas este, penado, reagiu confusamente. Não tinha desejo nem forças para guindar a cabeça. Raramente, e apenas com finalidade devidamente firmada, o vinham arreliar durante um momento tão íntimo como aquele.

— Não há ninguém?

Desta vez a voz derivava de cerca, mais explícita, mais distinta. A ressonância desaparecera, substituída por umas pancadas secas, insistentes e inconfortáveis, sendo-lhe, todavia, impossível demarcar a proveniência. Sentiu uns adejos temíveis nos tímpanos.

Na sala lôbrega, junto do balcão, mantinha-se um homem sorridente, de uma trintena de anos, solicitamente trajado e engravatado, com uma volumosa pasta preta de couro na mão.  

O Manco, enfurecido, levantou a cabeça abruptamente e, sem abrir os olhos, berrou:

Me cago en Dios! Quem me vem enfadar a esta hora?

Assustado pelo grito estentóreo, e talvez ainda mais por aquele impressionante vulto cabalístico que distinguiu ao fundo do bar, o indivíduo relutou uns segundos antes de recitar num tom musical e bajulador:

— António Perez Gallardo, representante da fábrica de queijos Lacta Casales, da Ortigueira, A Coruña, para o servir, caro senhor.

Estupefacto, o Manco, perante tal prolação, descolou as pálpebras parcialmente; sem pronunciar uma palavra ou fazer qualquer movimento, olhou, para o jovem que se acercara da sua mesa e o agraciava com uma cativante expressão comercial.

Era uma première. Nunca um caixeiro-viajante o apostrofara manifestando-se com este maneirismo mercantil. Não lhe agradou mesmo nada. Esta arenga tinha um timbre incrivelmente efeminado para o seu gosto. Apeteceu-lhe expelir o tipo do bar. Alguém lhe telefonara para o informar que o Manco precisava de queijo? Que maneiras eram estas? Odiava que o assediassem, que o perseguissem! Era ele quem decidia! Que descaro, que arrogância havia que ter para desterrar uma pessoa dum adorável sono reparador! E isto para tentar vender-lhe produtos similares aos que ele comprava, havia muito, a outro provedor do qual estava plenamente satisfeito!

Joder, tio! – improperou com desacato. 

Reticente, engoliu em seco e ficou uns segundos a deliberar sobre o comportamento a adoptar. Por fim, resolveu conter-se. Taciturno e firme, pressionou as maxilas.

— Dá-me licença, caro senhor? – perguntou-lhe o profissional, desdenhando a careta inenarrável e inquietante em que o carão do Manco se metamorfoseara.

Não era a amabilidade ilusória do homem que enganaria o Manco.

O caixeiro-viajante deduziu que a sua quietação era uma acreditação. Sem aguardar pelo seu agrément – que não sabia se teria – colheu a segunda cadeira e sentou-se, risonho, diante dele, o attaché-case preto por cima dos joelhos. O proprietário do estabelecimento, descontente, arrulhou, resignado.

A estes cantamanhanas antevia-lhes os procedimentos comerciais e os métodos de comunicação. Visitas de representantes stressados como este tivera várias dezenas; eram um pesadelo. Ainda que vivamente contrariado, esforçou-se para aguentar a estopada do indivíduo sem extravagar. Fitava-o, mas não o via.

No entanto, para lhe significar o seu frenesim, remoeu a língua com barulho na boca mirrada, indício de que a ressaca não tivera tempo de se esbanjar. A subida do vinho branco é tão fulgurante como a queda é lenta; a diferença é que a primeira é atractiva, álacre e tebaica, enquanto que a segunda é subversiva e, por conseguinte, desagradável e encolerizante.

Desinibido, o polido viajante minuciou-lhe o que fazia a especificidade das criações propostas pela fábrica que personificava. Realçou as excelentes virtudes da nutrição que as vacas – a quintessência de raças – tosavam nos amplos campos de pastagens verdejantes, perto do mar; vizinhança que, aliada às admiráveis condições climáticas de que a região usufruía, conferia uma deliciosa eflorescência salina ao leite. Fez um breve hiato para observar o primeiro efeito sobre o cliente.

O Manco tinha o semblante duma cariátide. Não mexia nem descravava os olhos do caixeiro-viajante. Permitiu-lhe desenrolar o palavreado à vontade, movendo com com subtileza a cabeça periodicamente, como se a conversa lhe interessasse.

Se o homem soubesse quanto gostaria de ir buscar uma garrafa de branco por detrás do balcão! Controlava-se porque mais uns minutos e livrava-se do desavergonhado intruso de uma vez por todas.

O viajante, implacável, mencionou o tempo de refinação; exaltou, em seguida, as suas dominantes e traços gustativos, olfativas e texturais, tamanhos e peso. Sobrepôs-se a amostra fotográfica dos produtos para os quais o Manco, grosseiramente, fingiu olhar. O extremoso viajante terminou a perfeita hipotipose sublinhando os controlos higiénicos regulares de que as modernas instalações, assim como todos os produtos nobres nelas elaborados, eram objecto.

O homem emudeceu. Finalizara a lábia sem um lapso, um erro e uma expressão oral irrepreensível. As feições afáveis persistiam. Persuadido, sem dúvida, do resultado da sua convincente dissertação, intentava desmascarar-lhe vestígios da sua adesão.

O Manco manteve-se imóvel uns segundos, deixando o silêncio desestabilizá-lo. Duas rugas, sinónimo de ambiguidade, esculpiram-se na testa do representante. Para testá-lo, o anfitrião deu uma tossidela cavernosa, como se quisesse desobstruir o gorgomilo para falar, e humedeceu os lábios com a ponta da língua alvacenta. As rugas faciais do visitante distenderam-se ao mesmo tempo que o bem-estar o invadia. A intuição garantia-lhe que a sua démarche ia ter uma saída favorável.

Sobrestimava-se, e essa análise presuntuosa comprazia imenso ao Manco que pensava: «É quando menos se prevê que a coisa mais dói». Com o ar sério e normal que até ali fora capaz de desvendar, indagou:

— Dos queijos que o senhor me sugere, qual deles atrai mais as moscas?

A questão insensata petrificou o visitante. Ofendido, adoptou um ar digno e esquiçou um gesto de repulsa, negando resolutamente com a cabeça.

— Nenhum. Isso é coisa impensável, caro senhor. Os nossos queijos são de uma qualidade extra, sublime, sem falar da frescura incomparável e inigualável. Depois de encetados pode mesmo conservá-los ao ar livre uma semana.

 

Continua.

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 14

melgaçodomonteàribeira, 15.08.20

 

Nascera a Casa Manco, cuja popularidade se difundiria rapidamente.

A partir do ano mil novecentos e sessenta e oito, a vaga de emigração principiou a enfraquecer vagamente, sem todavia deixar de ser uma forte fonte de rendimentos. A efervescência económica originada pela construcção da barragem fazia levedar os proventos do seu negócio. Mais tarde, a ponte forneceu-lhe um novo filão de receitas adicionais. Sem jamais o ter agoirado, em dez anos o Manco transformou-se num homem pecunioso.

Optou, então, por empregar parte do augusto pecúlio na compra de uns magníficos campos adjacentes, no lugar da Agra, perto da junção da estrada Ponte Barxas-Ourense e da que descia para A Frieira.

No maior, fez erigir o que ele denominou, não sem prosápia, o Chalé Manco, uma linda casa com rés-do-chão e primeiro andar, para mais tarde ele e a Vicenta lá acabarem os dias. Nos remanescentes, plantou um sem-fim de árvores frutíferas. Uns anos mais tarde, todos falavam do vergel do Manco; era o mais completo e exótico da região.

Porém, o seu chalé não foi rematado sem sérios distúrbios. Os trabalhadores portugueses com os quais tinha negociado a execução da obra, depois de tormentosas altercações, queixaram-se à guarda civil por ele não ter honrado a totalidade dos pagamentos estabelecidos. Foi tempo perdido. Sem documentação que os habilitasse a trabalhar em Espanha, o comandante recomendou-lhes que negligenciassem a tramóia e não voltassem a cair noutra. Procedendo assim, o tenente da Benemérita – nome dado à Guardia Civil pelos serviços ministrados à população no século XIX – também poupou o Manco por recorrer à mão de obra estrangeira não declarada, deliberação que lhe abria as portas da Casa Manco.

Presentemente, já meio enfastiado e entediado, contentava-se em realizar bailes – reuniões dançantes, dizia, salientando a nuance. Aos domingos, do fim da tarde até altas horas da madrugada, amontoava-se ali a juventude da zona, assim como alguns portugueses.

Os galegos, como muitos outros povos, com um copo a mais são perturbadores e desordeiros. Todavia, nos dias de sarau, as zaragatas eram marginais. Os casos, esporádicos, afloravam, logicamente, quando os espíritos estavam escaldados e amblíopes.

A esposa, um tronco de couve a quem ele obedecia cegamente, murmuravam os alcoviteiros locais, tivera de aprender a brincar ao bombeiro.

Alguém que protestasse, fosse qual fosse a causa, ou vociferasse por se atrasarem em atendê-lo, era repreendido descaradamente com severidade. Podia até ser motivo para que o Manco ressentisse o reparo como um ultraje e incitasse illico o impertinente a ir empachar-se para outro lado, prevenindo-o cinicamente: «Agora, nem que me baixasses as calças te servia, cabrón

Nestas declinações, sem a intervenção pronta e habilidosa da Vicenta, a ameaça de que a controvérsia se alastrasse precipitadamente e findasse à hóstia era flagrante. Alguns jovens imprudentes, pensando que a sua debilidade os avantajava, tinham saído do seu estabelecimento fortemente aturdidos.

O génio rabugento que se apossara dele incentivava-o com regularidade a acometer alguns indivíduos por razões muitas vezes mais do que duvidosas, impertinência que o obrigara a sentar o cu no mocho – ir a tribunal – mais de uma vez.

Todos os dias, depois de almoçar copiosamente em família, sentava-se a uma das duas mesas do bar e entrava num estado tórpido, pré-letárgico, tanto físico como mental. Em silêncio, continuava a beber até ser aspirado, como por magia, pela tranquilidade feltrada, abstracta e opiácea de Hipnos, da qual, infalivelmente, emergia cerca de uma hora mais tarde.

A vida era-lhe insípida, inerte, agnóstica: elanguescia-o. Amigos não tinha, apenas conhecimentos. O vinho branco, o seu acólito, a sua amizade pagã desviava-o durante as situações instáveis, das águas do rio. Imergia-se nas lágrimas dos bagos, o paredão que conseguia retê-lo no seu mundo austero. Sempre disponível, afagava-o e mostrava-lhe, através dos seus vapores, uns raios de sol, embora lívidos e insulsos. Concorria para amortecer e equilibrar a fervorosa, a insuperável ira que, de modo impiedoso, fora prosperando nele e lhe despeçava o moral e a vida, desde que aquele malvado camião despejara parte da carga por cima dele. Se não fosse a carneirada, a barragem e a ponte, havia muito que o Manco não era deste mundo.

Na verdade, ninguém podia asseverar categoricamente que o Manco se embebedava, no sentido literal que ali as pessoas atribuíam correntemente à palavra; ninguém o vira alguma vez cambalear.

Homem condicionado pelo ânimo e pela atmosfera, arpoado pelo infortúnio, abusava do álcool, sem dúvida, mas comia bem e apenas bebia até um dado pique que poucas vezes excedia.

O mês de março estava a chegar ao fim. A mulher e as duas filhas andavam azafamadas nos campos: plantavam batatas, couves, tomates, ervilhas, cebolas, alfaces, feijões, cocos, alhos...

Naquela tarde insolada, encontrava-se, mais uma vez, desamparado no estreito e obscuro bar, ao lado da porta vaivém que o separava da sala do restaurante. Sentado diante da pequena mesa, a manga da camisa do braço órfão pendente, e a cabeça assentada sobre o ressaltado peito, degustava a descida fleumática das pálpebras defessas pela bebida. Por cima da mesa, uma garrafa e um copo, vazios. Era a hora da sesta, da primeira viagem do dia.

Intrépido, deixava a porta escancarada, mas, nunca se sabe, na gaveta nem uma perra – peseta – ficava. No entanto, qualquer podia entrar e apoderar-se sem grande trabalho de uma ou mais garrafas das que tinha em evidência no bar. Hipótese que descartava totalmente; o medo que inspirava desencorajava qualquer um. Aliás, as pessoas, em grande maioria, eram íntegras e trabalhadoras.

De repente, uma voz ecóica que lhe pareceu vir de longe extirpou-o dos braços hipnagógicos de Morfeu, nos quais se aninhara.

— Não há ninguém ?

 

Continua.

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 13

melgaçodomonteàribeira, 01.08.20

 

Em geral, os problemas eram esparsos. A maioria dos próximos integrara a sua tendência inesperada, a sua cegueira e sabia diferenciar os bons dos maus auspícios. 

Depois de casado, e com quatro filhos, manteve-se com os pais numa casa de aspecto andrajoso, a quatrocentos metros, em linha recta, da Frieira da orla esquerda do Minho, até estes falecerem. A taberna que os pais tinham explorado no rés-do-chão – a única que havia entre a Notária e o rio – foi o que deu à família as precípuas perras – dinheiro – para adquirir o que não arrancavam dos campos. Com o que nestes recoltavam, a agnação subsistiu com entraves, mas suplantou o pauperismo generalizado, e a descendência amadureceu jovialmente.

Uns meses antes do falecimento da sogra – o sogro e os pais já os tinham deixado –, a vida sorriu-lhe. Os anos sessenta tinham dado os primeiros passos. A construção da barragem materializava-se.

As gigantescas degradações materiais e as inumeráveis perdas humanas da Segunda Grande Guerra tinham desencadeado grandes vagas de emigração dos países circunvizinhos mais carecidos, entre os quais Portugal. Esta emigração era vista com permissividade pelo governo salazarista pois enviava umas divisas indispensáveis que remediavam a inópia florescente da camada mais carecida. A eclosão da guerra no ultramar em 1961 – daí em diante, e até aos quarenta e cinco anos, todo homem necessitava de uma autorização militar para sair do país legalmente – deu um impulso ciclópico à emigração portuguesa. Neste fluxo foi muito adolescente.

O Manco tinha pouco mais de quarenta anos. Esta conjunção acalorou-o a associar-se com o cunhado, tenente da guarda civil e marido da sua única irmã, que prestava serviço no posto fronteiriço de Irun, País Basco.

Milhares de portugueses, dos quais uns ambicionavam suplementar a carência incurável, outros, desertar a ininteligível guerra do ultramar, e outros, ainda, escapar às duas cominações, acederam aos países que lhes alimentavam a cenestesia da existência de uma vida melhor, livre, trespassando o rio Bidassoa. O seu ténue percurso internacional – uma dezena de quilómetros –, que delimita a Espanha da França, constituía uma balaustrada acessível, confrontado às veredas intrincadas dos respeitáveis e temerários Pirenéus.

Nesses tempos, um número confortável de espanhóis residentes na zona fronteiriça de Irun passavam todos os dias a fronteira para ir trabalhar em território francês. De madrugada, uma enxurrada de operários, de pessoal hoteleiro, de empregadas domésticas e de trabalhadores de sectores diversos desfilavam pela ponte internacional; imperturbáveis, palravam e brandiam, sem parar, o passaporte bem alto diante dos funcionários.

Alguns oficiais subalternos, como o cunhado do Manco, e um sem-fim de inferiores organizaram um sistema mafioso do qual todos beneficiavam chorudamente. Parasitavam a corrida matinal dos trabalhadores, intercalando entre eles os carneiros – nome da gíria contrabandista que designava os candidatos à emigração – transportados pelos intermediários. Era a estes que os passadores da zona do rio Trancoso entregavam os pretendentes à emigração recrutados pelos angariadores. No caso do cunhado do Manco, eram veiculados pela Vicenta, a esposa, mulher desapiedada questão negócios, e dois ajudantes, visto a configuração ser aleatória.

Arvorando a capa de um passaporte espanhol – em seguida recuperada – com meia dúzia de folhas em branco no interior, muitos portugueses atingiram deste modo o solo francês nos dias em que os funcionários hispánicos peitados estavam de serviço.

Mas, como toda comodidade tem o seu custo, os que quisessem gozar desta passagem de primeira classe deviam desembolsar uma soma consequente.                     

Outros, economicamente mais abstémios, afrontavam, de noite, as autoridades e o Bidassoa num barquito que o passador trazia dobrado sob o braço. O calibre do brinquedo, insuflado à beira do rio, quando não havia qualquer percalço, apenas possibilitava o enbarque de cinco pessoas, incluindo o passador. Duas pequenas espátulas de madeira serviam de remos.  

Os emigrantes portugueses apanhados no território espanhol sem carimbo de entrada – os clandestinos – sofriam repercussões tremendas. Escoltados até à fronteira lusa mais perto da sua terra, eram entregues aos agentes da PIDE, a polícia cujos funcionários se encarregavam das fronteiras, da emigração, dos passaportes e de todos os que se opunham ao regime. Infligiam-lhes, automaticamente, uma onerosa punição carceral por saída ilegítima do país e tiranizavam-nos para os fazer escarrar o nome do ou dos passadores e remontar a fileira. Intento árduo pois os membros das redes usavam pseudónimos.

Os postulantes à imigração não desprezavam os perigos imponderáveis a que se expunham, mas os desideratos eram tão pesados que não os esmoreciam. Uma vez na outra margem do Bidassoa, em Hendaye, com ou sem passaporte, eram recebidos com toda a atenção, visto o país estar em plena expansão económica. Os portugueses, homens de braços viris, aclimatados à rudeza, de modo geral ignaros, prestadios e católicos, eram uma bênção.

E, para melhor os proteger da ditadura franquista, não lhes outorgavam permisso de residência nos quatro departamentos que faziam fronteira com Espanha.

A casa do Manco estava num estado de deterioração adiantado. O andar superior, integralmente de madeira – material secular predominante no primeiro andar nas casas galegas por ser mais quente e barato do que a pedra –, putrefazia-se e dissociava-se aos poucos. Só os fundos, justamente edificados com robusto granito, permaneciam direitos e reutilizáveis. Mas a antiguidade não era apenas sua, pois as partilhas ainda não tinham sido feitas com a irmã. Esta, desde que casara, nunca mais regressara à Frieira. Era tempo de construir uma moradia aceitável. Não eram os meios que lhe escasseavam.

Comprou as metades da irmã, ficando com as ruínas da casa e com os dois vastos campos em declive, do outro lado da estrada.

Alugou uma casa no lugar, mandou derrubar a velha habitação, conservando todavia a pedra das paredes do rés-do-chão e construiu outra de grande envergadura. No andar térreo, equipou um salão grandioso para a organização de bailes, jantares de casamentos e de batizados; montou um bar galego típico, um restaurante, a cozinha respectiva e os sanitários adequados a cada uma das funções, fasto supremo naquela época para a localidade. No primeiro andar, alojamentos espaçosos para toda a família.

 

Continua.

 

 

 

 

 

MIL E DUZENTAS MISSAS

melgaçodomonteàribeira, 28.07.20

75 casa da serra.jpg

casa da serra - prado

DIOGO MANUEL DE SOUSA GOUVEIA E GAMA (P.e)

 

Nasceu em Prado aos 8 de Fevereiro de 1714 e como seguiu a carreira eclesiástica, seus pais lhe fizeram o património em 19 de Agosto de 1735. Dez anos depois saiu da casa paterna para a freguesia da Bela no termo de Monção, que paroquiou como vigário e como vigário também paroquiou depois a freguesia de Santiago de Penso. Pelo testemunho escrito a seu pedido a 7 de Maio de 1783 apura-se ter sido este padre o reformador da fortuna da Casa da Serra, pois com o dinheiro de seu bolso particular pagou as dívidas dos pais, readquiriu os bens alienados por seus antepassados em horas amargas, melhorou os bens vinculados fazendo o canastro de pedra, o lagar e a respectiva casa, tomou a iniciativa de comprar outros bens e de nenhum deles nem mesmo do seu património recebeu rendimentos tempo algum.

De resto tudo quanto conseguiu agenciar na vida, o deixou ao seu irmão morgado,

«atendendo ás muitas obrigaçoins que devia a seu irmão Luís Caetano de Sousa Gama Cappittão Mayor deste termo e affecto e amor que lhe tinha por aspirar sempre a honra que herdara de seus Pays e conserva-la, acção que elle testador sempre dezejou em toda a sua vida e por lhe pedir seu Pay e Senhor no ultimo da sua vida que o amparasse para que não deslustrasse o seu nascimento e como sempre lhe foi obediente e amigo leal comprazendo em tudo com a sua vontade...»

pois o instituiu seu herdeiro universal.

O P.e Diogo Manuel e outros colegas formaram certa mesa do Santuário da Senhora da Peneda e como depois julgaram má a sua administração, este mesário teve de pagar de seu bolso o correspondente à sua quota parte de prejuízos dados àquela confraria.

E como a doença o não deixou exercer a provedoria da Santa Casa nem fazer a função dos Passos, por indicação sua comprou-se uma túnica e o respectivo cordão para a imagem mais comovente da Misericórdia,

«cuja túnica e cordão será obrigado o seu irmão Luis Caetano de Souza e Gama e sua Irmã Donna Joanna e seu genro Caetano Joze de Abreu a levarem a dita túnica e cordão nesse mesmo dia e mandarem cantar huma missa ao Senhor dos Passos por alma delle testador».

Vê-se ainda no referido testamento: a alma deste padre foi sufragada com quatrocentas missas rezadas no convento de Pastoriza e mais oitocentas repartidas pelos padres do termo.

 

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 635-636

 

 

O DRAMA DE ALVAREDO ou O CRIME DE MELGAÇO II

melgaçodomonteàribeira, 25.07.20

237 - Alvaredo.JPG

 alvaredo

(continuação)

Piedade adorava o seu Alfredo. Quando forem presos, há de jurar-lhe que nunca o abandonará. Mais novo quinze anos do que ela, era um rapaz destemido, habituado a abrir caboucos e muitas vezes obrigado a alargar o campo de ação pela força das circunstâncias, significando esta a falta de dinheiro, por dispêndio excessivo em jogo e vinho, embora deste último não haja notícia de exageros, apesar do tempo que passava nas tabernas, com os seus companheiros, alguns de anos, outros mais recentes. Eram eles: António Fernandes, de 29 e nove anos e de alcunha o Guerra, Santiago Rey y Lopez, de 37, António da Fonseca pinto, de 35, João Esteves, de 24, e Romão Lousada de 24 ou 25.

Alfredo Gomes, de 23 anos, nascido em Monção, não se saía mal, normalmente, quer dizer, nunca fora preso por roubar, tal como Maria da Piedade que não faria do roubo a sua ocupação principal, até ao malfadado dia em que um assalto deu para o torto e a polícia se revelou bastante eficiente. O namorado ganhara a sua coroa de glória num assalto na vizinha Espanha, do qual escapara por um triz, e isso dera-lhe confiança para continuar tivesse ou não trabalho na construção civil.

Ele e o Romão Louzada, um espanhol de Pontevedra, participaram, entre 1887 e 1889, num assalto a casa de um padre, no lado de lá da fronteira. Foram experimentar a ligação ferroviária à província de Salamanca, provavelmente, depois de trabalharem nas obras entre Barca de Alva e La Fregeneda, troço inaugurado em dezembro de 1887, mas quando apanharam o comboio já iam com o propósito do roubo. Eles e outros mais, desconhece-se quantos, uma vez que a coisa correu bem.

Assaltaram-lhe a casa à noite, a horas mortas. O padre espanhol ainda resistiu, não querendo dizer onde guardava o dinheiro. Mas não lhe serviu de nada, ao ver-se atado, deitado num colchão de palha a que os ladrões largaram fogo, logo se prontificou a revelar o esconderijo. Os meliantes extinguiram as chamas, agarraram no dinheiro e fugiram. O Romão, ligeiramente ferido, escondeu o roubo nas ceroulas e chegou bem a Lisboa, o Alfredo passou um momento de tensão quando, na estação da fronteira espanhola, o consideraram suspeito. Livrou-se, dizendo ser “limpiador do comboio e começando a fingir que o limpava”, contou “A Vanguarda”.

 

Deita-se fogo à casa e recebe-se o seguro

 

A dada altura, no mês de junho, João Esteves soube que uma sua tia de Monção, governanta em casa do reitor da freguesia de Troviscoso, recebera um conto de réis de herança, e desafiou os amigos cabouqueiros. “Não acham que seria um golpe real apanhar-mos aquele dinheiro? Alem disso o reitor também possui pé de meia. De uma cajadada matam-se dois coelhos. Que dizem?” Como o golpe de Salamanca dera uma boa maquia, Romão e Alfredo pensaram que não seria má ideia roubar outro sacerdote, já que estes possuíam sempre alguma riqueza. Doas depois, a 25 de junho, reuniram-se de novo, desta feita em casa de Alfredo e de Maria da Piedade, para acertar o que fazer.

Enquanto os homens andavam nesta combinação, Maria da Piedade engendrava outra maneira de ganhar não apenas uns cobres, mas uma boa maquia. Para isso, nada melhor do que fazer o que já ouvira que outros tinham feito com resultados positivos. Dirá depois que o espanhol Santiago é que a incentivou. “Podemos ganhar bastante com isso”, ter-lhe-á dito mais tarde. Pouco tempo depois, ela, que “nunca mais tinha pensado no assunto” desde que Alfredo recusara a ideia, correu a segurar a casa por 500$000 réis.

Escondendo de Alfredo aquilo que preparava, Maria da Piedade foi combinando com Santiago como iriam dar o golpe à companhia de seguros. Na madrugada de 26 de junho, estando já acertada a ida para norte, faltando apenas decidir o dia, os dois cúmplices mudaram todo o recheio para casa do espanhol. De seguida, esfarelaram um colchão, espalharam a palha pelo solo, regaram-na com aguardente e pegaram-lhe fogo. A casa, localizada ao lado da igreja, ardeu completamente. “Para se avaliar bem a força da amante do Alfredo, basta dizer que ela se dirigiu à esquadra próxima, e pediu a dois polícias que lhe servissem de testemunhas para receber o dinheiro do seguro!”, observou Luíz Silva.

 

(continua)

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 12

melgaçodomonteàribeira, 18.07.20

 

Já um pouco curvado para diante e arrastando os pés, o septuagenário desceu com cuidado o reduzido declive que havia entre a estrada e o prédio do Manolo.

Foi quando os dois agricultores, esgotados pela espera ilimitada, acharam que, no fim de contas, era melhor concluir a expectativa. Impulsivamente, abandonaram o bar, perseverando, todavia, com o maior alarido, em rejeitar-se a culpa do absentismo do taxista.

Um deles entrechocou-se com o senhor Ângelo, indelicadeza a que foi insensível. Penetrou no café e cumprimentou os presentes com a cortesia costumeira. Abeirou-se do balcão, deu aos ombros, puxou pelas golas e deu dois saltinhos, obviamente.

O Manolo acolheu-o com o entusiasmo usual.

— Senhor Ângelo, então que tal o tempo pela estação?

Não replicou. Com a característica equanimidade que toda a gente lhe reconhecia, exigiu:

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Que diz, senhor Ângelo?

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Quem foi para o campo?

— Na... não... bran... bran... branco! – repetiu, levemente incomodado.

— Que diz, senhor Ângelo? Não o ouço. Fale mais alto, carambas!

Impaciente, suspirou e sacudiu a cabeça com firmeza em sinal de agastamento e de lassidão. Arranjou o capote à pressa esticando as golas, deu os saltinhos e arremeteu de novo.

— Po... po... po... põe mum... mum... muuun bran... bran... branco! – empenhou-se, quezilado.

O gaguejo enfatizara-se com a aflição, e o seu rosto purpurara, tanta fora a instância.

Para reprimir o riso que estava prestes a deflagrar, o Fernando simulou contemplar o regato e o lugar de Cevide, do lado português, observáveis do janelo do fundo do salão do café. Era, também, para dar mais credibilidade à chocarrice.

— Ah! Um branco? – exclamou finalmente o Manolo – Já podia ter dito há mais tempo, senhor Ângelo! – e deu um dos seus singulares risos – Eu pensei que me dizia que andava manco, já viu? Ai meu Deus!

Agarrou na caneca e baixou-se diante do pipote de vinho branco que confinava com o de tinto.

Foi a altura apropriada para o padeiro delivrar a forte pressão que o sufocava e dar azo à pândega. Era a primeira vez que participava a uma brincadeira implicando o senhor Ângelo. Intrometeu-se amavelmente na conversa.

— Este, senhor Ângelo, já perdeu o juízo e agora está a ficar mouco. Mete pena! É tão novo!  Há quem diga que foi por isso que o correram da França. Não me estranharia nada.

O homem ignorou as suas palavras, como se fosse pusilânime. Nem um célere olhar de solicitude se dignou conceder ao panificador. Ergueu um braço e buliu duas vezes a mão entreaberta diante da testa, como quem quer dissuadir um insecto desenvolto e importuno. Era a sua modalidade. Desta forma, mostrava implicitamente – a quem tinha faculdade para tal – que interpretara o chiste, que este não o estimulava nada e, sobretudo, que não era nenhum títere. 

Para coroar o painel, e sem piar, acomodou o capote, desfraldou-lhe as lapelas e deu os saltinhos compatíveis.

No olhar irónico do dono do café reluzia um afecto real. Meneando a caneca como se fosse um ioiô, a fim de fazer espumar o líquido, encheu a tigela que pousara diante dele. Estava tão acostumado que, uma vez a tigela cheia, não ficava praticamente nada da quantidade de vinho retirada do pipote.

Deglutiu a primeira tigela de uma golada e a segunda de duas. Despejou o recheio do porta-moedas – que abria em forma de vulva – sobre o balcão, destacou umas quantas  moedas e saiu, silencioso, como se não tivesse estado no bar. Viria umas quatro vezes mais durante o dia.

O Fernado sentiu-se embasbacado. Intimamente, admitiu que o homem tinha a sua personalidade. Não era sem razão que todos o tratavam por senhor.

— Já viste, Fernando? Esta gente põe-me louco! – bradou o Manolo.

 

 

O Manco era seguramente a pessoa mais conhecida da Frieira, indubitavelmente a mais temida e, incontestavelmente, a mais amaldiçoada. Hercúleo e titânico – mais de um metro e oitenta e cinco e uns bons cento e dez quilos –, tinha uma força assombrosa e, ademais, um temperamento de suíno.

Ninguém sabia a razão por que tinha o cognome de manco pois, na realide, era maneta. Segundo rumores, o drama dera-se uma tarde, no centro da cidade de Orense, havia bastantes anos. O que ainda não era Manco estava na esquina de duas ruas à espera de uma oportunidade para atravessar com confiança. Subitamente, um velho camião atulhado de canos de cerâmica para o saneamento, vindo de uma transversal, largou parte da carga diante dele e doutros. Acordou no hospital. Os estragos foram plurais, mas o dano irreversível deu-se no braço esquerdo, triturado pelos tubos maciços. Do úmero, os médicos apenas foram susceptíveis de lhe preservar um toco com cerca de uma dezena de centímetros.

Desgraça que, pouco mais tarde, o não impossibilitava de manipular uma enxada ou uma pá e de trabalhar, ocasionalmente, como qualquer indivíduo consumado.

O traumatismo engendrado pela deficiência fora o inodoro fermento que fizera com que, passo a passo, medrasse nele um carácter irascível e provocador que, por vezes, alcançava proporções excessivas e preocupantes. A mínima adversidade era vista por ele como um opróbrio, uma vexação e mesmo como um insulto.

As pessoas, com os seus aforismos e as suas paródias ásperas, justificavam a sua força excepcional afirmando que a do braço perdido fora herdada pelo outro. O caso é que onde deitasse a mão nem Cristo lha abria, diziam.

Fumava como as primeiras locomotivas e bebia vinho branco como um tudesco. Quando estava de mala hóstia – mal disposto –, coisa mais amiudada do que o contrário, era mais idóneo evitá-lo ou abordá-lo apenas se o caso fosse francamente imperioso.

 

Continua.

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 11

melgaçodomonteàribeira, 04.07.20

 

 

Nessa manhã, exaustos, depois de mais uma madrugada uniforme em que tinham o sentimento de serem os raros sobreviventes do lugarejo, transpuseram a estrada e empurraram a porta do familiar café. Os rostos, assolados pelo trabalho ininterrupto e opressivo, denunciavam o cansaço compilado durante a noite. A roupa, vetusta, suja e enfarinhada, dava-lhes uma triste aparência de foragidos.

O panificador e o jovem ajudante fincaram-se no extenso balcão, estenderam os cacetes recém-cozidos à Rosa e pediram as habituais sandes: hoje seriam de presunto. Concertavam-se anteriormente e concordavam sempre em comer ambos o mesmo acompanhamento.

A uma das mesas do café, uma parelha de camponeses de certa idade querelava-se incompreensivelmente, increpando-se mutuamente. Segundo a Rosa, havia mais de uma hora que esperavam pelo improvável aparecimento de um taxista que se comprometera a conduzi-los a Padrenda; contavam regularizar um problema importante no ayuntamiento – junta de freguesia.

— Quantos cacetes quereis hoje, Rosa ?

— Eu sei lá! Olha, traz oito, como ontem; depois, se precisarmos de mais, vê-se.

O padeiro fez um gesto da cabeça, o ajudante sumiu-se e regressou decorridos dois minutos com os oito cacetes.

Quando sobrava pão, depois de feita a repartição pela esposa do Fernando, confiavam a chave da padaria à Otília que, com todo gosto, se incumbia de corresponderer às eventuais demandas da clientela. Era o ensejo para uma hipotética conversa.

— Onde anda o sorna – o Manolo ? Diz-lhe que a mulher despertou e quer o café.

A moça riu. Tinha uma repulsão ínsita pela patroa. Portanto, esta considerava-a mais como uma colaboradora do que como uma criada.

Quando o marido se deslocava a Ourense por exigências comerciais, a Maribel, uma vez por outra, acompanhava-o e, diligentemente, percorria uma ou duas galerias –centros comerciais. Nunca menosprezava a empregada. Carinhosamente, brindava-a com uma peça de roupa interior, uma camisa qualquer, um tecido para fazer uma saia ou um vestido, um perfume de qualidade...

— Estás doido ! Ela não o quer. Quem ligaria a um homem como ele ? – e deu uma risada – Anda no outro lado a pôr um pouco de ordem nas mercadorias – confessou por fim.

Naquele instante, saiu ele de trás da cortina da cozinha, excitado.

— Vai-te embora, Rosa! Vem aí o senhor Ângelo. Vamos gracejar um pouco. Vais ver como o enervo – disse ao Fernando.

No país onde os desconhecidos se tuteavam, fosse qual fosse a idade duns e doutros, o Ângelo, ferroviário reformado, era a irregularidade notável. Fazia parte dos raros homens da Frieira a quem todos tratavam, invariavelmente, por senhor.

Tanto no verão como no inverno, exibia orgulhosamente pelas costas, quase como um troféu, um grosso capote castanho com o logótipo da companhia estampado no lado esquerdo. A cabeça, que abanava continuamente, trazia-a resguardada pela típica boina galega. Tartamudeava e articulava muito baixinho. Era, além disso, homem duns tiques pasmosos, excêntricos, mas cómicos: dava aos ombros repetidas vezes, tirava pela gola direita do capote com a sinistra, e vice-versa; depois, alçava o pé sestro ligeiramente, imitado imediatamente pelo direito. Era uma coreografia incontestável.

Segundo constava, estes gestos eram a sequela de um ritual que praticara sem restrição durante a vida que trabalhara nas linhas galegas da RENFE – caminhos de ferro espanhóis. Para não perturbar a trâfego, os trabalhos nas vias são efectuados de noite, maioritariamente; ora o senhor Ângelo fora capataz – chefiara uma equipa de dez trabalhadores – e, como é logico, não se movia muito. Durante as noitadas invernais, para que o frio não se assenhoreasse dele, supõe-se que operava estes meneios centenas de vezes, cadência que, com o tempo, acabara por se tornar mecânica e incontrolável.

Ademais destas digressões, soliloquiava imperceptivelmente de modo constante. Nunca falava com quem quer que fosse, nem nada o interessava ou comovia. Limitava-se a saudar as pessoas com um respeituoso aceno de cabeça sem nunca suspender a sua deambulação ramerraneira, como se fizesse tudo para se fundir no meio, dar a impressão de ser invisível.

Morava do outro lado da ponte, numa casinhola, a dois passos da estação dos caminhos de ferro, como não podia deixar de ser.

Matrimoniara-se com uma costureira, mulher muito interesseira, egoísta, cujo ódio que afeiçoava se lhe via na cara engelhada: a Henriqueta. Só se entendia  com as mais linguareiras da aldeia. Dizia-se que nada podia subtrair-se aos seus olhos de fuinha. Despudorada como poucas, tinha livretas em todos os comércios da zona, nomeadamente nos que vendiam tecidos. Os credores, apesar de a acossarem, viam-se na incapacidade de cobrar as dívidas que lhe foram consentindo acumular.

Tanto na Frieira da margem direita como na da esquerda, já ninguém se recordava de quando o senhor Ângel e a Henriqueta tinham sido vistos juntos ou a falar em público pela última vez. O domicílio era o único espaço que ainda os achegava corporalmente. Os ralhos, pontuais e ríspidos, eram a discussão exclusiva entre eles de que os vizinhos depositavam.

Ao senhor Ângel, nem todos os dias o blanco – vinho branco – lhe instilava a disposição satisfatória para digerir a maldade e as insinuações biliosas da mulher. Quando a discórdia rompia e percebia que a sua metade não tardaria em ultrapassar a linha exacerbante que ele lhe autorizava, ajeitava a boina na cabeça, deitava o capote pelas costas e, mais uma vez, fazia a mímica crónica; dava uma vista ao relógio de bolso e, se lhe desse tempo, encaminhava-se para o pequeno bar de As Neves, três casas acima da dele. Abancava ali e bebia umas chiquitas – tigelas – enquanto pacientava pelo comboio.

Podendo viajar gratuitamente, como todos os aposentados da RENFE, era o epílogo preferido para estas peripécias glaciais. Entrava no primeiro comboio que ali fizesse uma alta, sem se alarmar com o paradeiro, e só reintegrava o domicílio no outro dia, conforme a inclinação. Os diversos amigos, ex-ferroviários ainda vivos, tinham a porta sempre aberta para ele. Havia anos que trocara a companhia da mulher pela do vinho branco e dos camaradas, muito mais acomodatícios e sociáveis do que a ominosa mulher.

 

Continua.

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 10

melgaçodomonteàribeira, 20.06.20

 

O posicionamento canalizador acaparado pelo bar e a loja fazia do Manolo o promotor prepotente. Adjudicara-se as praxes, as manias e as comédias das criaturas com as quais convivia e que admirava ternamente. Augurava o que lhes agradava e forcejava-se por responder aos seus ardores antes de os exprimirem. Uma palavra, um gesto ou um olhar bastava para o guiar. Tinha, também, desenvolvido uma clarividência inabitual para detectar o marasmo e as falhas dos habitantes, avivando-os e manuseando-os, depois, com um talento brilhante.

Nesse dia, como nos outros, o Manolo descerrou as portas dos seus comércios depois de ingerir as imutáveis sopas de café com leite. Eram sete e meia passadas.

Andava meditativo, ansioso, pois estava prevista a chegada de mais uma camioneta com cinco toneladas de bananas. Ir-se-iam reunir a outras cinco ainda entravadas na garagem. Portanto, uma incógnita infrangível, para a qual os seus acólitos ainda não tinham solução, perdurava, mas uma vez o processo engrenado, era-lhes inimaginável bloqueá-lo.

Este contrabando de bananas – bastante recente – era extremamente lucrativo e revigorava gradualmente a sua conta bancária e a dos seus comparsas.

Por volta das dez, saiu da loja. Paulatinamente, aproximou-se da estrada e verificou o lado da ponte e o oposto, como o oficial que controla a vanguarda. Com um prazer desmarcado, inalou o ar moderadamente frio e humectante da manhã, no qual discerniu  uma fracção do fumo que algumas chaminés da aldeia evacuavam.

Apesar de a primavera estar perto, a fresquidão teimava em implantar- se de noite. Enquanto os primeiros raios de sol não dissipassem o nevoeiro resultante da insondável massa de água estagnada pela barragem, as manhãs demoravam friascas.

Do outro lado da estrada, vivia a Otília, uma sexagenária avançada, viúva acolhedora, mimoseada por todos e muito picaresca.

Havia muitos anos que o pai, o Laranjeira, um português dos Casais – freguesia de Paços –, casara com uma espanhola e lhe fizera duas filhas e um filho. No rés-do-chão da obsoleta casa, fundara a única padaria existente num raio de dois quilómetros. No forno rudimentar a lenha, começara a cozer, com amor e devoção, um pão saboroso, extraordinário.

Os anos consumiram-se e o homem sucumbiu. Com o tempo, a padaria amodernou-se, mas a receita seguiu sendo a mesma, e o forno, a lenha, perpetuava a cozedura dum apetitoso pão cuja excelência pouco ou nada invejava ao das fornadas iniciais. Os de Cevide e dos Casais, lugar próximo do primeiro, comiam bolas e cacetes galegos. Quando vinham às compras à Frieira, alguns portugueses nunca se esqueciam desse afamado pão pastoril e estranhamente requintado.

Nos dias de hoje, a padaria era gerida por uma filha da irmã – também viúva –  e pelo marido, o Fernando. Diariamente, com a ajuda de um rapaz, tirava mais de trezentos cacetes e cinquenta bolas em cinco fornadas, durante os dias úteis. Ao sábado, labutavam até ao fim da tarde, pois era pão para dois dias. A esposa, numa carrinha 4L, encarregava-se da distribuição pelas aldeias e lugares circundantes.

A Otília vivia com a mãe, acamada havia uns anos. As consequências mentais – subestimadas – das fases delicadas e embaraçosas atravessadas, fizeram dela uma mulher desataviada, crédula e pueril; era o mais seguro e rápido condutor de atoardas.

Tinha os dois filhos arrumados e, questão dinheiro, sentia-se à vontade. Com cerca de sessenta e sete anos de idade, recebia o aluguer da sua parte do forno e duas pensões correctas para o meio: uma por ela e outra pela mãe. Marcada pela abstrusidade, a felonia e a lazeira, era de uma sobriedade estarrecedora. Para ela, o dinheiro contribuía para granjear o estrito necessário e não para saciar prazeres que ela julgava fúteis. 

O Manolo, supostamente apático, avistou o Fernando. Deteve-se a examiná-lo com o zelo do contrabandista. À porta do telheiro – um magistral cangalho –, distante três ou quatro metros da padaria, o jovem escaqueirava ripas de pinheiro meio secas com um machado. De uma ruma, ia recolhendo as compridas e afiladas fasquias que cortava em vários pedaços, mais ou menos símiles, por cima de um mortificado cepo. Amanhava estritamente a porção que aqueceria o forno a madrugada seguinte. Volta e meia, um dos fragmentos decepados era projectado pela lámina amolada do machado e embatia contra o muro da padaria, a casa da Otília.

Havia pouco que esta, com uma ponta de sarcasmo, já fizera notar ao padeiro que podia evitar aquela tarefa quotidianamente. Sacrificando três ou quatro horas uma tarde qualquer, teria lenha mais do que suficiente para toda a semana. O sobrinho, cuja juvenilidade animava a precindir dos seus conselhos, retorquiu que era ele e a mulher que determinavam cientemente a gestão da padaria. Como é óbvio, foi uma resposta que a melindrou e pôs a ruminar.

Habituada a decretar, prezava muito pouco o feitio resmungão e sedicioso do marido da sobrinha. Ingenuamente, espalhara pela povoação a ideia contrafeita de que o jovem não tinha por ela qualquer acatamento. Mas o Fernando era impermeável a estas atitudes disparatadas. A pobre mulher tinha sérios inconvenientes em fazer a distinção entre mando e deferência.

— Trabalha, carambas, não faças de conta, que a Lucita – a mulher do Fernado – não te paga para passares o tempo, seu malandro! – gritou o Manolo ao panificador, deixando estalar uma das suas gargalhadas simbólicas.

O padeiro olhou para ele de soslaio e esboçou um sorriso brincalhão.

— Vê-se bem quem trabalha, gandulo.

E prosseguiu a corveia, desinteressado.

O Manolo deu meia-volta e dirigiu-se novamente para a loja. O seu rosto exuberava de gáudio. Tinha-o na mão. Descobrira matéria maliciosa para o endiabrar e passar uns momentos festivos

Seis dias por semana – isentando o domingo –, entre as dez e as onze, depois de inseridos no forno os cacetes e as bolas finais, limpado a amassadeira e aprontado a lenha, o Fernando e o efebo ajudante iam desjejuar ao bar do Manolo.

Escolhiam dois cacetes da derradeira fornada, ainda tépidos; bem crocante para um, não muito cozido para o outro. Em seguida, a Rosa, segundo a apetência do dia, preparava-lhes com esmero, dois tonificantes bocadillos – sandes – de presunto, sardinhas de conserva, queijo, atum, ou chouriço Revilla. Cupidamente, os dois jovens aspergiam o casse-croûte com cerveja San Miguel fresquinha – três para o Fernando. «A cerveja, alegava quando lhe faziam qualquer reflexão, favorece a expulsão das partículas de farinha absorvidas.»   

 

Continua.