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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 28

melgaçodomonteàribeira, 27.02.21

Retribuídos à unidade, cada homem tentava suportar o maior número de caixas. A cada viagem, a carga era de quatro, ou seja, pouco menos de cinquenta quilos. Alguns, desalentados, sustinham um fardo de cinco caixas durante as duas excursões iniciais. Submetiam-se a um desempenho titânico que os obrigava a singrar de noite por uma caleja e caminhos medonhos, cravejados de múltiplos perigos. Vergados pelo peso, restringidos pela reduzida largura dos carreiros, saltando muretes e com os olhos no chão – apenas discernível – para esquivarem qualquer tropeço no solo irregular, percorriam mais de seiscentos metros, ida e volta; o que perfazia perto de seis quilómetros, dos quais metade com uma carga de perto de cinquenta quilos às costas!  Dois ou três, os mais atléticos, desafiavam os limites completando uma dúzia de viagens.

Havia manhãs que, na subida da encosta, se viam bananas no chão. Contra o fim, um ou outro carregador, já esgotado, deixava cair uma caixa; por muita que fosse a sua solicitude, a escuridão não lhe consentia recuperar a plenitude do carregamento. As perdas eram fracas, comparativamente aos frutuosos ganhos resultantes do tráfico.

Estas caixas estropiadas, e mais uma ou duas cargas, eram outorgadas aos guardas portugueses e galegos com regularidade para provarem a conscienciosidade da obrigação de que estavam providos. Do lado galego eram adjudicadas por uma côdea pelo gerente do economato – espécie de cooperativa – do Pueblado, em Puente Barjas, regalia do pessoal da FENOSA que velava pelo bom andamento da barragem.

O Nelo e o Zeca traspassavam o regato a diário repetidas vezes, tanto por razões profissionais como para comprar algo ou, simplesmente, para desfrutar de um breve lapso de inadvertência junto dos amigos galegos. Consumiam os dias por ambos flancos do Trancoso. Viviam no limiar de dois mundos que julgavam propriedade deles.

Às vezes, falavam, não sem um grão de escárnio, da percepção e do receio que os forasteiros tinham da fronteira.

Devido à delimitação, coexistiam, irrefutavelmente, numa área neutra que lhes era intrínseca. O Trancoso, muito mais permeável que o Minho, apesar de fixar uma demarcação territorial, não refreava o trânsito de pessoas, de veniaga nem a materialização das ideologias, das sensibilidades e da comunhão entre povos que, apesar de fendidos, conservavam – além de bens – raízes entrelaçadas de ambas partes da arraia.

Uns minutos depois das dezassete espanolas, quando o Nelo entrou na loja, o Manolo e a mulher atendiam dois casais de visitantes portugueses. Uma parte do balcão estava repleta de caixas de doces, de latas de conservas, de especiarias e de pastas de chocolate.

O ar descontraído e lépido que o seu rosto espelhava, aprazeu logo ao dono da loja e especialmente à mulher, vítima colateral das suas noites de insónia e de pesadelos.

Na mão direita, trazia um saco plástico esverdeado. Discretamente, trocaram um olhar entendedor.

Os clientes presentes reconsideravam no que ainda tencionavam escolher, passeando vagarosamente o olhar cintilante pelas estantes metálicas. O Nelo julgou o momento tempestivo para abordar o patrão da loja.

— Manolo, posso-te deixar este saquito que é para a Marisa da estação? Disse-me que, se tivesse tempo, ainda o vinha buscar hoje, senão, amanhã de manhã. Não te importas de me fazer o favor ? – indagou inocentemente.

— De modo nenhum, homem. Não é favor nenhum – saiu de trás do balcão e pegou-lhe no saco.

Era o cenário consignado para quando estavam perante desconhecidos. Deixou a esposa ocupar-se dos turistas e encaminhou-se para a cozinha, contígua, com o precioso saco.

A loja nunca fora o seu hobby. Aturar gente que não tinha qualquer ideia do que queria, que ignorava o que lhe fazia falta, que gastava compulsivamente para edulcorar o frenesim, era um verdadeiro suplício para ele. A mulher já lhe chamara a atenção, observando que estavam ali para vender e, quanto mais, melhor.

Apartou a cortina que separava a cozinha do bar e informou a empregada:

— Rosa, se alguém me quer ver, não estou disponível.

— Está bem, Manolo.

Para a Rosa, estas palvras eram sinal de petate.

Instalou-se diante da pequena mesa da cozinha. Do interior do saco plástico, exumou duas caixas de sapatos. Livrou-as dos sólidos elásticos que retinham as tampas e abriu-as. Os seus olhos brilharam de regosijo ao contemplar o tão ambicionado recheio: maços compactos de notas de mil pesetas, o montante das duas derradeiras, operações ou seja, dez toneladas de bananas que já enfeitavam os mostruários de muitas frutarias portuguesas! Perfeitamente colocados, os maços acaparavam a superfície global das caixas, como se tivessem sido feitas à medida das notas de mil.

Entusiasmado, ficou estático uns segundos, encarando o dinheiro, como o sequioso que, por fim, desmascara a gota de água que o vai hidratar. A reacção foi imediata, apoderando-se dele uma agradável sensação de serenidade. Sacudiu a cabeça energicamente, como quem quer alijar-se de vez das arduidades que até ali o importunaram, e suspirou vigorosamente. Era outro homem. Impregnou o indicador direito numa esponja humidificada com água, e, escrupolosamente, empreendeu a contagem.

Havia raras niquices, como esta, em que se verificavam uns atrasos passageiros de maior ou menor amplidão nos emolumentos, mas para o Manolo era sempre um calvário.

Os mais ofensivos e acérrimos, além dos mais glutões, eram, incontestavelmente, os guardas civis do posto de Puente Barjas, que inspeccionavam o Trancoso. À mais pequena demora nas gratificações, rosnavam e até espavoriam audaciosamente o Manolo. O que, em parte, lhe simplificava grandemente a tarefa era o facto de o grossista de frutas viguês, que fornia a banana, ser possessão de dois primos da sua esposa.

 

Continua.

 

 

 

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foto: rui manuel fonseca/global imagens

 

“SINTO-ME UM CONTRABANDISTA”. MÉDICO ESPANHOL ATRAVESSA

FRONTEIRA CLANDESTINA PARA IR TRABALHAR

 

Ana Peixoto Fernandes

 

NAPOLEÓN SANCHEZ, MÉDICO CIRURGIÃO, RESIDENTE EM CELANOVA, NA GALIZA, A 40 QUILÓMETROS DA FRONTEIRA COM PORTUGAL, ATRAVESSA A PÉ, DE FORMA CLANDESTINA, TODOS OS DIAS DE MANHÃ, UMA PEQUENA PASSAGEM SOBRE O RIO TRANCOSO PARA IR TRABALHAR EM MELGAÇO.

 

Com a fronteira principal de S. Gregório-Ponte Barxas encerrada devido à pandemia, a estreita travessia metálica, escondida no meio da vegetação, na aldeia de Cristóval, é uma escapatória para evitar percursos longos. Por ali passavam noutros tempos contrabandistas e gente que ia a salto para França.

Foi “apanhado” pelo JN quando regressava a Espanha, pela velha ponte “dos moinhos do Araújo”. Trazia na mão um saco de pão comprado em Melgaço, como é hábito de muitos galegos. E assumiu, descontraído, que arrisca pelos trilhos do contrabando para poupar “uma hora e meia a mais de percurso”. “Venho todos os dias às seis da manhã, desde que fecharam a fronteira. Trago um carro até aqui, atravesso e tenho outro carro do outro lado”, descreve quem se diz sentir “praticamente um contrabandista”. “Voltamos à época antiga”, lamenta.

O médico, que trabalha há 20 anos em Melgaço, considera “ilógico” ter de fazer o percurso de Celanova até à ponte Tui-Valença para atravessar pelo único ponto autorizado de passagem 24 horas. “São mais 60 a 80 quilómetros. Trabalho (de tarde) em Espanha. Tenho de saltar a fronteira”, justifica. “Nós trabalhadores transfronteiriços, não fazemos nenhuma ilegalidade. Em teoria pode haver consequências, mas o que é que vamos fazer?”

Quem também não teme passar “a salto” é o presidente da junta de Cristóval, David Barbeitos, que critica o encerramento da primeira fronteira no extremo Norte de Portugal. “Aqui as pessoas passam a pé e eu próprio as levo ao sítio onde podem passar. Há muita gente que tem de passar para trabalhar”.

“Que abram a fronteira de S. Gregório-Ponte Barxas. Deixem-nos transitar. Parece que temos aqui um muro de Berlim”, acrescentou David Barbeitos.

 

Jornal de Notícias

23/02/2021

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 27

melgaçodomonteàribeira, 13.02.21

                                                                                                                           

Muitos naturais da raia, e que nela estanciavam, eram naturalmente atraídos por este tipo de vida, como os habitantes da costa eram geralmente arrastados pela vida do mar. Tivera e tinha o tráfico tão vivaz, tangível que finara por se arraigar nele e no seu dia-a-dia, da cabeça aos pés; foi-o incorporando até ficar submisso. Do nascer ao pôr-do-sol, tudo nele era contrabando. Transformara-se numa compulsão que o fazia subsistir mental, fisica e socialmente.

Na época em que o café Sical ainda primava na integralidade da raia lusa, o Nelo enfrentou sérias dificuldades financeiras depois de lhe assaltarem a garagem apinhada de café. O João-João, a quem o petate pertencia, exigiu-lhe o seu valor. Agravado, fez uma estadia em França a fim de reembolsar a dívida. Foram uns tempos atormentadores, pois estava afeito à atracção exercida pela peripécia e à predilecção descomedida pela euforia que o risco lhe desencadeava.

Cevide ficara sem alma. Sem ele não era nada. O Nelo simbolizava Cevide, era Cevide, era o fragmento imprescindível ao lugar.

Logo que amealhou o mandatório, regressou à terra. Foi com indescritível satisfacção que os habitantes das duas margens o viram de novo cavaloar jovialmente pelos campos que flanqueavam o rio Trancoso com matute  às costas, um olho aruspicino em cada um dos lados do regato.

Proporcionalmente, dizia que o contrabando já não era mais que um lazer, que uma brincadeira. As transacções organizadas e por atacado, como presentemente as da banana – embora fosse uma ocupação que não depreciava –, não era o petate que mais o satisfazia. O que mais afeiçoava, o que lhe enchia a espinha de dopamina e lhe proporcionava um gozo paroxísmico era o pessoal, aquele que lhe possibilitava brincar ao gato e ao rato com os guardas fiscais e os guardas civis. Prezava infringir e ludibriar as autoridades. Comummente, nesta categoria de contrabando, trazia a veniaga para a sua casa. Uma factura sumária, caso fosse fiscalizado pelo trajecto, comprovava a sua conformidade. Depois, era só espreitar o momento mais oportuno para ir ao outro lado.

Quando os guardas fiscais se achavam no largo de Cevide e o viam com mais um artigo qualquer às costas, diziam-lhe gracejando:

— A tua casa, Nelo, deve ser um museu!

E todos gargalhadeavam.                         

O cinzento da farda dos guardas portugueses e o verde escuro da dos espanhóis – as cores preeminentes do seu diário – faziam-no flipar: detestava os que as portavam, mas não duvidava que, sem eles, não haveria emoção nem felicidade. No dia mais do que verosímil em que este contrabando desvanecesse, o Nelo encarquilharia, murcharia e acabaria por exalar. Não teve tempo de ver o abandono que, pacatamente, se hospedava.

Viúvo, partilhava a vida com um filho deficiente motor, consequência de um acidente de moto quando tinha apenas vinte anos. O rapaz mitigava constantemente nele a angústia e a acrimónia que a sua condição lhe instilava, ocasionando-lhe imensas e reiteradas amarguras.

O contrabando, com as suas translações coercivas, compromissos e eventos, era concomitantemente aproveitado por ele como a exclusiva e cordial diversão que lhe afuguentava as pulsões e as mais  nefastas elucubrações. E, evidentemente, o café do Manolo era o local pertinente para se espairecer e, por vezes, entre amigos, desvencilhar o riso coibido, coisa que, com os anos, se desabituara de fazer.

Havia muito que o axiomático ofício social desempenhado pelos pequenos cafés – considerados populares – era manifesto e perpetuado. O do Manolo era uma ilustração palpável: tanto funcionava como fórum, confessionário, ringue, banco e, quando emergia uma alma caritativa com vocação e eupatia para escutar, servia de consultório de psicanálise ou psicoterapia.

As caixas de bananas eram encaminhadas da casa do Manolo para a garagem que abrangia a totalidade do rés-do-chão da casa do Nelo, em Cevide. Em geral, eram transportadas prudentemente o mais rápido possível naquela noite ou na seguinte para as variadas e remotas afectações a sul do país. Se por acaso surgisse um óbice, e o petate tivesse de continuar armazenado até que se apresentasse uma ocasião congruente, o resultado incorrido podia ser catastrófico.

O Nelo era o mandatário do promotor e coordenador das redes que actuavam no Trancoso, o Mário da Corga, de cujas encomendas estava pendente o resto da organização da Frieira. Conferia as caixas que levavam para a sua adega, registava quem as trasladava e encarregava-se da remuneração dos guardas fiscais, o reconhecimento pelos bons serviços prestados. O comandante dos agentes de fiscalização do concelho de Melgaço, um tenente da região, apodado Tampa de Mala, e tido como o maior papador com o qual os contrabandistas alguma vez negociaram, discutia pessoalmente o seu estipêndio com o capo. O que não o impediu de um dia vir com a esposa fornecer-se à loja do Manolo e arriscar um acréscimo, emitindo quando pagava: «Isto até devia ser uma dádiva, pois somos praticamente da mesma família, não é verdade ?» O Manolo, que já o vira em Cevide fazer o figurante, respondeu-lhe cruamente: «Que eu saiba, caballero, não tenho família em Portugal». Não reviu.

O Nelo tinha como cúmplice o Zeca, dos Casais. Mais ou menos da mesma idade, um pouco mais pequeno que ele, bigode à tasqueiro, tinha uma forte fama de mulherengo.

Como todos os jovens fronteiriços, a terra e o petate eram os seus singulares afazeres. Ambicioso, vendo que aquilo não era futuro para ele, logo que pôde deu o salto para França. Ao cabo de uma vintena de anos, serviu-se de um insignificante acidente do trabalho para voltar definitivamente à terra. As confortáveis economias que se constituíra e a ridícula pensão faziam dele um homem livre.  

Hoje em dia, o contrabando, além dos benefícios mais do que profícuos que lhe garantiam uma existência correctíssima, propiciava-lhe uma vida alegre, aventureira e enlevada, apesar da periculosidade; o antípode do que aguentara do outro lado dos Pirenéus. A despeito de experiente, não totalizava, todavia, o quarto das horas de serviço contabilizadas pelo Nelo.

Contava as caixas de bananas que saíam da garagem do Manolo – a quantidade arrolada ali tinha de coincidir com a das recepcionadas pelo Nelo –, incumbia-se de angariar os carregadores e do embolso correspondente, uma vez ultimada a transição.

 

Continua.

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 26 PRO. DR. JOSÉ MARQUES

melgaçodomonteàribeira, 30.01.21

                                                                                                                    

As mãos alapadas por debaixo do avental, como se segurassem a barriga, manifestavam a curiosidade no rosto. Pelos olhos meios cerrados, sinal de concentração, reflectiam velozmente.

— Foram os carabineiros! – desabafaram as duas conjuntamente.

Até mil novecentos e quarenta, ano em que se fez a sua integração na Guardia Civil, as fronteiras e as costas espanholas eram controladas por uma antiga corporação armada, denominada Cuerpo de Carabineros. Os anciãos, que têm uma relutância específica  em prescindir dos hábitos, perseveravam e nomeavam os actuais guardas civis carabineiros.

Tácito até ali, foi o Sebastião que replicou um pouco inimistado, como se a acusação das duas mulheres fosse absurda, inútil:

— Quem queríeis que fosse? Ora esta!

— Santa Mãe! Temo o pior. Estas coisas põe-me fora de mim. – foi a vez da Tinita – E se soubessem o mal que me faz vê-los na igreja, minhas queridas!

Ninguém adiantou a mínima pressuposição, mas, mentalmente, imaginavam o que infalivelmente acontecera. Comovidos, o olhar inexpressivo, ficaram mudos uns segundos. Marcavam a solidariedade para com o malfadado estranho.

Talvez dentro de uns dias, de umas semanas ou de uns meses deparassem com mais um cadáver irreconhecível, a jusante do rio. O número destes clandestinos anónimos – oriundos das antigas colónias portuguesas, em geral –, impudentemente assassinados e atirados para as águas do troço internacianal do rio Minho, variava de ano para ano, tendo decrescido radicalmente desde a Revolução dos Cravos. Uns eram colhidos vários quilómetros depois da barragem, outros, pouco antes da foz do Minho; uns eram distinguidos a flutuar, outros, nos areais, restituídos à terra pelas águas do rio, tanto na margem portuguesa como na espanhola. Estes mártires da pobreza, antes de serem lançados ao rio, eram despojados de tudo: do parco dinheiro e ouro e de qualquer documento ou objecto que os pudesse identificar.

Como se nunca tivessem resfolgado, sonhado e existido, estes incógnitos banidos deixavam famílias num pirronismo demente, a vegetar, agarrando-se a um sebastianismo epocal. 

Habitualmente em mau estado – segundo o tempo macerado na água –, eram sepultados na freguesia portuguesa ou galega onde tinham naufragado.

— O castigo é descomedido, desumano para quem quer ganhar a vida a fim de matar a fome aos seus – disse a Otília.

— Estas coisa são muito tristes, muito injustas – opinou a Maruja.

— Só Deus pode ser indulgente com estes renegados! – adjurou a Tinita.

Tinham matéria para conjecturar durante dias. Eram como eram, mas, nestes casos, falavam essencialmente para que a consciência não se silenciasse e não se acostumasse a estes episódios sinistros.

 

 

Para o Manolo, a noite transformou-se em martírio. Não cessou de dar voltas e mais voltas; foi uma noite em branco. Quando um automóvel abrandava diante da sua casa, sobressaltava, escutava e aprontava-se para que umas fortes pancadas fizessem abalar a porta. A efígie dos guardas civis esquadrinhando a garagem afligiu-o uma grande parte da noite. Por volta das quatro da manhã chegou a furgoneta do Fernando e só depois, já prostrado, dormiu um pouco.

Durante o dia, não pôde sofrear nem camuflar um irrequietismo silencioso que teimava em corroê-lo psiquicamente. Enquanto o impasse que o angustiava havia uns dias não fosse solucionado, não conheceria a impavidez, a confiança e o repouso que tanto almejava.

Às seis e meia da tarde, o Nelo e o Zeca, os seus sequazes do lado português, ainda não tinham dado sinal, o que ampliou particularmente a sua ansiedade. No negócio das bananas ou como homems tinha criado estreitas e sólidas relações com os dois, apesar de ser bastante mais novo.

O Nelo era de S. Gregório, mas vivia em Cevide, terra da esposa. Ainda moço, principiara a laborar como passador patenteado para o Relâmpago, o proprietário do comércio dominante em São Gregório, que aprovisionava o Branquinho de Sical e outras mercadorias. O café saía de noite da praia de Cevide na batela do Nelo, e viajava até à ourela galega do Minho, para debaixo da mansão da família Gomes, precisamente. O número de toneladas que assim transitaram morrera na memória. Actualmente, era uma neta, filha do Maia, e o marido, o João-João, que estavam à frente do estabelecimento e para os quais ainda fazia uns passes periodicamente.

De estatura média, cabelo castanho claro, embora o crânio já estivesse um pouco desprovido, tinha cinquenta anos passados, mas uma compleição viripotente e uma agilidade felina. Estes qualificativos não eram mais do que a decorrência das viagens incalculáveis que executara ao longo dos anos monte abaixo, de São Gregório à Frieira, com objectos de calibre diverso ao lombo – televisores, faqueiros, alambiques, esmagadoras...

Os comerciantes de S. Gregório faziam, digamos, dois tipos de contrabando. O primeiro consistia em pôr do lado de lá  pelos criados – cada negociante tinha os seus –, a uma hora combinada com os clientes espanhóis, as compras sujeitas a direitos aduaneiros. A isenção do pagamento de tributo na alfânfega espanhola fazia com que qualquer objecto portugues fosse sempre rendoso para os nossos vizinhos. O segundo era planejado, encoberto, opaco e atingia dimensões extraordinárias. Como o que se contrabandeava dependia da demanda, as lojas de S. Gregório tinham anexos e aposentos unicamente acessíveis extrinsecamente, onde abundava tudo o que era proibido e reclamado pelos consumidores espanhóis.

Claro que, esporadicamente, as autoridades locais irrompiam numa ou noutra loja e vistoriavam-na de cima a baixo; simples inspecções infecundas. Os guardas fiscais e os funcionários da alfândega eram, em grande parte, nativos e todos os comerciantes tinham entre eles informadores. Mal o ruído de uma razia a um estabelecimento definido era percebido na aduana, o dono concernido era oficiosamente advertido e tudo o que fosse embaraçoso, removido sem demora.

O Nelo já era contrabandista quando veio ao mundo. «Não basta querê-lo para o ser», dizia. De facto, o homem dispunha das qualidades chave: era inteligente, astucioso, corajoso e engenhoso.

 

Continua.

 

 

MELGAÇO ESTÁ MAIS POBRE.

MORREU O PROF. DR. JOSÉ MARQUES.

12/08/1937

29/1/2021

DESCANSA EM PAZ, PROFESSOR

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FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 25

melgaçodomonteàribeira, 16.01.21

 

A Otília e a Maruja foram percorrendo a ponte pausadamente. Conversavam com animosidade, mas não desviavam os olhos da curva pela qual podia sobrevir a qualquer altura o jipe dos guardas civis. A juridisção deles incluía metade da ponte. Desceram a maciça escadaria metálica e, pachorrentamente, como se passeassem, calcorrearam o caminho paralelo à via férrea. Este atalho, lamacento quando chovia, terminava junto da passagem de nível, depois da estação. Exteriormente, nada denotava o refolho dos quilos de café. Visivelmente, eram as mesmas com ou sem eles.

Pousados no primeiro degrau dos três que contava a tienda, avistaram a Tinita e o marido, o Sebastião. Dum saco de lona, iam extraindo umas magníficas cebolas que entrançavam, formando grandes réstias.

A Tinita era uma septuagenária muito bondosa e devota. Era patroa de uma loja de roupas e de calçado. Como não puderam ter filhos, quatro anos atrás, optaram por adoptar a Lurdes, filha de um casal português que albergavam, o Manuel e a Augusta. A miúda ainda não  andava. A Tinita e o Sebastião cuidavam dela como se fosse uma princesa. Cada dia, enroupavam-na com novos indumentos. Olhavam para a garota como para uma deusa.

Pouco depois da adopção, a Augusta ficou novamente grávida. O segundo parto deu vida a outra menina, a quem puseram o nome de Maria. No sub-rés-do-chão, onde os alojavam – a antiga adega –, o solo era de terra, sem divisões, e os ratos, os ocupantes lídimos, flanavam indiferentemente. A pequena Maria foi crescendo e definhando no meio de tanta esterqueira, de tanta incúria, de tanta miséria, sem saber que a rapariga que vivia por cima era sua irmã. Na casa, as rixas sucediam-se diante da garota, a quem a míngua e a adiaforia esponjavam as lágrimas e o temor. Pétrea, apática a estes alaridos constantes, divertia-se com os ratos.

Quando se viam a distância, a Lurdes, ingenuamente, vexava-a dizendo-lhe que se vestia com farrapos, que não se lavava, que não tinha sapatos, que era muito magra... Intrincada diante de tanta pompa, a Maria não falava, interiorizava tudo. O olhar vítreo, fusco, cruciante, deprecava auxílio, bondade, amor, tudo o que a irmã tinha em demasia.

A Tinita obstou as duas crianças de conviverem, de se falarem, enterrando o elo de irmandade que as unia. A despeito de contundir princípios cristãos humanamente irremissíveis, assistia como o crente mais expurgado e com alegria à missa dominical na companhia da filha e do marido.

O Manuel, além de abécula, era um alcoólico incurável; a mulher e a filha assemelhavam-se a camponeses medievais. Apenas saíam da casa para ir à água ao lado oposto da casa.

A palermice não inibiu o pai das raparigas de desvendar na incapacidade da Tinita – e no desgosto que daí escoava – uma forma de a espoliar facilmente de umas pesetas, a fim de cevar a sua intemperança inveterada e fomentar as suas alienações iteradas. Oportunista, prestes a tudo, de vez em quando, chantageava-a, intimidando-a de desapossá-la da filha.

Figurava no rol das pessoas que não nasceram para beber. O álcool, verdadeira pernície, subjugava-o, enraivecia-o, desfigurava-o, conspurcava-o. Como todos os fracos, nos quais a dependência se refugia sem esforço, o seu amanhã era uma contingência. No início, bebia para se embriagar; depois, para se furtar à ressaca.

Fazia da vida das pessoas do lado direito do Minho um inferno. Quando o álcool o inundava, desassisava. Então, a altas horas da madrugada, ia para diante das casas dos habitantes, espertando-os com vitupérias, alusões paradoxais inimagináveis, passíveis de arrepiar o ser mais abjeto.

Uma noite, durante uma das suas alucinações etílicas, dando de conta que um comboio se acercava, pulou para a via-férrea gesticulando e rugindo. Foi arremessado violentamente pela locomotiva para a beira da via.

Apesar das inúmeras contusões e das fracturas suficientemente críticas, restabeleceu-se em poucas semanas. Não tardou em recomeçar os seus desvairos.

Nas aldeias, as pessoas ressentiam as depredações provocadas à volta delas pela calamidade que representava o álcool. A escassez e a dureza do trabalho, as circunstâncias de vida peníveis e desesperantes faziam delas pessoas complacentes.

Também lhe perdoavam porque quando estava num estado normal, não deixava de ser um indivíduo deferente e serviçal.

Tanto o Manuel como o Manel Grande – e muitos mais naquela parte da raia – vieram preencher o vazio deixado pelos galegos emigrados. Entre Cevide e Vila Real de Santo António eram milhares.

Como era de supor, as duas mulheres fizeram uma alta para parolar e, preventivamente, deitar uma olhada à ponte. Todas as precauções eram poucas para frustrar as astúcias dos guardas civis.

— Carambas, Tinita, que boas cebolas tivestes! E tantas! – constatou a Otília perplexa.

— Graças a Deus, mulher. Foi um ano bom – retorquiu a Tinita – Ides de passeio, não?

— Vamos à estação ver o Firmo – foi a vez da Maruja.

A Tinita, como os outros habitantes, estava a par do porquê destas visitas bisadas. Pousou as cebolas já trançadas no regaço. A sua cara reverberava intriga e suspeição. Depois de espreitar com fugacidade para um e outro lado do caminho, demandou em voz baixa:

— Quando vínheis pela ponte não apercebestes umas pingas de sangue no passeio, antes de chegar às escadas?

As duas mulheres, pasmadas pela nova, entreolharam-se e abanaram negativamente a cabeça.

— E não ouvistes uns tiros por volta das quatro da madrugada?

Cada vez mais confusas e alarmadas, deram, por sua vez, uma olhadela em redor e avizinharam-se mais da Tinita e do marido.

— Pois olhai, estava despertada quando senti dois tiros. Virei imediatamente a cara para o despertador, por isso vos digo que eram quatro da madrugada. De manha, já não me recordava. O Sebastião, como sabeis, vai lá acima regar mal o sol nasce e, quando veio, disse-me que havia pingas de sangue frescas antes das escadas. Foi então que os tiros ressoaram na minha cabeça. Fiz logo a ligação.

— Não nos digas, mulher! – exclamaram a Otília e a Maruja.

 

Continua.

 

 

SUSPENSAS MISSAS EM MELGAÇO DEVIDO AO AUMENTO DE CASOS DE COVID-19

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 23

melgaçodomonteàribeira, 19.12.20

 

Era evidente que ninguém poderia desarraigar a exploração dos pobres, a voracidade dos grandes, nem os maus tratamentos e as atrocidades com que estes contêm a fúria dos indigentes e dos justos. Ninguém mudaria o ser humano, mas obcecava-o o múnus imperioso de defender acções nobres e valores sem os quais o homem deixa de ser homem, e a vida societal se torna insuportável. Envolver-se-ia com os que faziam tudo para salvar o mundo. Não queria nem podia deixar que prosseguissem a sua transfiguração, o que, com o tempo, acarretaria a sua destruição.

A irmã do Padre, a Fátima, era uma moça bonita, bem feita, mas atrevidamente ególatra. Ela e o rapaz alimentavam, porém, uma carasterística semelhante: uma ociosidade inata. As esperanças da rapariga eram bastante mais determinadas. Vivia para ela, para a sua imagem, para que olhassem para ela, para se ver no olhar dos outros.  As raras moedas que a mãe lhe dava, ou que ocasionalmente tinha o ensejo de lhe surripilhar, utilizava-as na aquisição de produtos de beleza corriqueiros, na compra de fotonovelas e de revistas glamour. Era neste universo constelado que se projectava. Via-se, oniricamente, no lugar das vedetas fotogénicas rodeadas por belos e ricos homens, que desencantava naquelas páginas.

Dera os primeiros traços de lápis de maquilhagem, de modo esquemático, com quatorze anos apenas, alcançando sem delonga um nível de competência que, confrontado com o que se via naqueles lugares, animara em algumas adultas uma emulação explícita.

O pai, quando o álcool o submergia e lhe fazia surgir os sentimentos antagónicos que por ela fora condensando, injuriava-a e taxava-a de macaca.

A falta de meios, que a moça deplorava melancolicamente, não a deixavam granjear os trajes e a parafernália atinente, capital para se exibir como gostaria, pondo em evidência e valorizando o escultural corpo que ela acatava como um inestimável património.

Revoltada contra a mesquinheza, o hilotismo e a ataraxia vanguardista dos pais – outra afinidade com o irmão –, o seu fomento monomaníaco eram os rapazes que manobrava com um menoscabo e uma faculdade inerentes. Dos múltiplos jovens que a requestavam incessantemente, apenas seleccionava os mais abastados, os que tinham a capacidade de lhe saciar os desejos pelo medíocre e desfasado fausto que ali podia obter. Em troca, brindava-os com uns abreviados momentos de luxúria onanista. Os mancebos, lenificados, honravam-lhe as exigências.

Enfastiado de a ver preguiçar desinteressadamente, o Manel ordenou-lhe que se empenhasse em lograr um lugar de doméstica, cargo inesgotável e sensivelmente bem remunerado. A discussão depravou em conflito e, desde então, rejeitavam-se. Esse incidente impeliu a mãe, vigilante e contemporizadora, que já reparara na vida estéril e nos sonhos da filha, a pôr-se do seu lado. Sem negligenciar a delicadeza e as incertezas dos seus anseios, meditou maduramente na heurística mais eficiente para que a rapariga desfruísse das suas aspirações meretrícias.

A Gracinda sabia que uma mulher bonita, bem feita e creditada de uma galante eloquência predispunha das potencialidades indefectíveis para deslumbrar um homem opulento ou aburguesado, respirar e florescer pacientemente às expensas do seu rendimento ou da sua fortuna. Compreendera, graças ao seu empirismo, que o amor e a moralidade não eram mais do que um derivativo de luxo ao qual só os ricos concediam, e que só os louvavam depois de os terem pisado em nome da cobiça.

Por ter um precedente na família, depreendera que a probabilidade de a filha um dia rastrear um tecnocrata e conquistar um futuro irreprochável não era de desprezar. Fora a façanha cumprida por uma tia sua que, depois de se encabrestar alguns anos a uma vida dúbia em Lisboa, triunfara desposando um misterioso desconhecido com uma atribuição de relevo na companhia Electricidade de Portugal.

Para isso, a jovem filha, inábil, precisava de alguém imbuído do apurado savoir-faire basilar a uma fêmea; de alguém que lhe professasse e incutisse as técnicas lúbricas, os gestos, a desteridade, as maneiras; ou seja, o conjunto dos conhecimentos libidinosos determinantes que metamorfoseiam uma mulher atraente e irresistível numa decocção adictiva pela qual nenhum homem se embaraça em vender a alma ao diabo.

Explicou meticulosamente à filha a estratégia que urdira e, um dia, pediu-lhe que a acompanhasse. Recomendá-la-ia ao Dom Gulian, popularizado por Capitão, pessoa endinheirada, a quem fazia umas horas de limpeza por semana. Já lhe tinha tocado no assuntos do jeito mais subtil e aceitável. Era o homem idóneo para educá-la na arte da sedução, a constituinte crucial. Capitão de fragata reformado depois de quarenta anos de serviço, levava uma vida fosca desde que a esposa, a Dona Carmen, mulher de uma pulcritude inefável, fora levada repentinamente por uma doença insanável. Havia cinco anos. 

A Deolinda sabia que os marinheiros sulcavam o mundo e tinham uma mulher em todos os portos onde atracavam; eram, pois, homens exercitados. Para muitos destes marujos, que engelhavam durante meses rodeados de tocos sem verem uma fenda no horizonte, o sexo assumia um estatuto de destreza admirável; para os oficiais, era óbvio que se reduzia a uma arte. Como capitão e com a sua classe de pessoa estudada, a Gracinda estava persuadida de que o Don Gulian se apropriava das mulheres mais garbosas e versadas dos bordéis que, sem dúvida, visitara.                     

Não foi preciso porfiar com a filha para que subscrevesse a sua proposta. A moça faria tudo para conseguir os meios com que incrementar os seus fantasmas.

 

As duas velhotas estavam sentadas nos degraus de acesso a um dos passeios laterais da ponte. Exacerbadas, já não sabiam quanto tempo havia que esperavam. As suas nádegas, apesar de carnudas, lamuriavam-se do peso egrégio que sustentavam, forçando-as frequentemente a modificar de posição. Um lenço preto na cabeça abrigava-as dos raios solares, tórridos àquela hora da tarde.

Aparentemente remansadas, conversavam. Porém, apenas iludiam os cândidos: espiavam os guardas civis estacionados na outra extremidade da pontede. Como dois tralhotos, não arredavam a vista do jipe, com discrição, ao mesmo tempo que palravam. Eram mulheres de muita experiência neste exercício. A vista e a audição, os dois sentidos imperativos requeridos para estas azáfamas, tinham-nos em alerta contínua.

 

Continua.

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 22

melgaçodomonteàribeira, 05.12.20

 

O Manel e a Deolinda viveram perto de seis meses na raia, o que, graças à ajuda de fronteiriços com os quais tinham tecido vínculos de cordialidade, lhes deu tempo para coordenarem a mudança de margem com fiabilidade. Em outubro, mês da festa da Virgem do Rosário na Notária, uma aldeia a meio caminho entre Puente Barjas e a Frieira, e que, em parte, se enxergava de S. Gregório, deram o salto.

Como era natural, foi dos lugares arraianos que saíram ilegalmente os primeiros emigrantes. Em S. Gregório, a família que não tivesse um familiar expatriado era insólita. Por esta razão, o emblemático sofrimento – tanto físico como moral – dos inumeráveis desgraçados que, com regularidade, viam desfilar no lugar, recordava-lhes o suplício afrontado por parentes ou amigos e exortava-os à benignidade. Precavidos por preceito, o olhar dos raianos era intenso, perfurante, mas lotado da mais casta complacência.

As singelas particularidades apelativas dos raianos faziam-lhes refulgir a  imediação,  a proximidade, diferenciando-os dos outros; faziam deles uma população delirante que descurava as portas e não fazia distinção entre o dentro e o fora. Para este povo inconformista, a fronteira era uma mera barreira diáfana, um garante das identidades, um espaço onde se esbarrava com a alteridade; era uma aldraba que encorajava à partilha, à hospitalidade, ao cosmopolitismo; era um traço de união espaçando pessoas que coabitavam em terras unidas pelo mesmo ar, pelos mesmos cursos de água, e que se singularizavam instintivamente entre si.

As fronteiras, inobstante preconceitos fanados, não desirmanavam; acicatavam as pessoas à coexistência, a descortinar-se. A raia constituía um território arrebatador onde o estrangeiro era sempre o vizinho.

O Manel e a Deolinda tinham dois filhos: uma rapariga com pouco mais de dezanove anos e um rapaz mais novo doze meses. Do rapaz, o Manel procurara fazer um padre. Afirmava que estes auferiam de um emprego decente, cómodo e bem retribuído; que usufruíam de um alojamento honorável e que mulheres não lhes faltavam. Isto, sem referir a categórica preeminência da qual não se privavam para tirar partido da sociedade. Mencionava, ainda, que, no fim da vida, eram amimalhados em estruturas com os convenientes serviços canónicos que lhes favorizavam uma cessação adequada, etérea, estritamente divina.

Não obstante a virulenta hostilidade do rapaz, o Manel, consciente de lhe lavrar o futuro, ficando ao mesmo tempo com menos um estômago a providenciar, deliberou interná-lo no Seminario Mayor Divino Maestro, em Orense. Tinha doze anos e não findara os estudos primários! A estadia durou perto de quatro longos anos – para o rapaz – ao cabo dos quais, para grande consternação dos pais, foi expulso. Os motivos eram lacónicos: incompatibilidade com a instrução religiosa, ou seja, falta de vocação, diversos percalços, pugnacidade, encadeamento de escapadas e, o mais grave, amedrontara seriamente os seus preceptores avivando um incêndio no enorme dormitório do seminário.

Era tido por pacóvio, faccioso e, coisa que nunca ofuscura, revelava uma índole infusa pelos estupefacientes. Chamava-se António, mas a alcunha de Padre colou-se-lhe logicamente à pele.

As grandes orelhas – proeminente herança do genitor – retinham-lhe diante dos olhos uns óculos cujas lentes esverdeadas e espessas, incrustadas numa grosseira armação preta de plástico, lhe imprimiam um equívoco ar de pateta. Inalteravelmente vestido de negro, a única repercussão que a instituição religiosa operara sobre o adolescente, vagueava por ali, sozinho, ou na companhia do único amigo, um moço da sua idade sobrenomeado Chino. Recalcitrante declarado contra os regimes instituídos, a coercividade, o arbitrário e a ascendência, era, segundo toda aparência, um absoluto iconoclasta. No seu imo, enraizara uma insubmissão surda.

Desde que, para seu grande refolgo, fora compelido a abdicar da carreira espiritual, despendia grande parte dos dias deambulando como um eremita pelas bordas do rio e do regato. Era o seu domínio, a sua religiosidade, o seu paraíso. Tudo lhe estimulava o congénito desvelo juvenil: as desconcertantes configurações dos rochedos, autênticas obras de arte; os troncos e os montes de detritos caseiros que se sucediam sem interrupção nos dias de chuvadas, vindos sabe-se lá de onde e que ali encalhavam caoticamente; e os sorvedouros do rio e o tumulto do regato que o alienavam misticamente. Estas enternecedoras bagatelas agregava-as com a amorável errância, indiferença e a beatitude que a ganza lhe facultava. Ao inverso da maioria dos habitantes – que a sofriam –, a solidão, sua companheira, fazia-o devanear.

Como outros rapazes que abominavam a escolaridade, boicotara, pontualmente e com a conivente acatalepsia dos desmazelados pais, as aulas. Este desdém – uma revelação precoce – incentivara-lhe a descoberta de lugares esconsos e ideais para fantasiar e planar; deslindara-lhe as importantes exuberâncias prolíficas que povoavam essas paragens semi-selvagens.

Trabalho, como a gente o concebia, era uma palavra que desestimava, que execrava. «Andar a efectuar tarefas desagradáveis às ordens de outros e a sacrificar-me a uma vida desastrosa como a que toda a gente aqui levou e leva ? Não, não quero passar ao lado da vida.» Tinha o desígnio resoluto de ser o protagonista do seu porvir longe daquela gente, ainda que fosse como um pedinte repelente.  

Enquanto o não pudesse arrostar, contrafazia-o, o que desatava o motejo da gente, dominantemente insciente.

Apesar do seu embrião contestatário, aquiescia episodicamente em trabalhar como servente nas obras ou em dar uma mão a um vendedor de mobílias da Notária quando este tinha de proceder a entregas. Estes miúdos serviços contribuíam para  a sua independência, para participar moderadamente nas despesas da casa – o que lhe preservava a paz social – e financiar a sua amatividade pelo haxixe.

Aguardava, fleumaticamente, pela mili – serviço militar –, o que ocorreria quando completasse os vinte anos. Depois, a pé e à boleia, peregrinaria pela terra onde viera ao mundo, pelo seu país, pelo seu Reino. Aplicar-se-ia para se embeber prontamente e com ardor dos fantásticos contrastes que faziam da Espanha – que tanto o cativava – um mosaico flavescente de etnias, culturas, línguas, tradições, crenças e panoramas matizados. Sem deslembrar, todavia, o que verdadeiramente o trabalhava: as entranhadas posições anticonformistas.

Continua.

 

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CASTRO LABOREIRO - 4/12/20 - 1º nevão  foto JN

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 21

melgaçodomonteàribeira, 21.11.20

 

Esta, precavida por natureza, inconformada e suspicaz, não mexia; mas, por meio do silêncio que observava, dava mostras de ter inevitável propensão para ceder. A lata de cola-cao, a mãe e tudo mais, tinham saído da sua mente.  

O Manolo arrumou a última lata que tinha nas mãos, voltou-se e, antes de pegar noutras, preveniu pateticamente:

— A ver se nos pomos de acordo, Otília. Acredita se quiseres. Eu não ganho nada com isso, mas sabes muito bem que água mole em pedra dura tanto dá até que fura. Sou amigo do Fernando, não é nenhum segredo para ti, mas, antes, já o era teu. Andaste comigo no colo, ou crês que me esqueci?

Na cara da Otília desenhou-se um sorriso maternal.

O negociante serviu-se da afectividade da mulher, a sua falha.

—Agora, faz o que te der na gana, o que te agradar, mas não venhas dizer-me dentro de uns anos que não te avisei. Isto fica entre nós, já sabes.

E retomou o seu trabalho. Dissera tudo e era desnecessário expandir-se mais.

A mulher não fez o menor movimento. A sua cabeça encontrava-se repleta de turbilhões, cujas espirais eram, decerto, tão grandes e fortes como as que sublevavam os rochedos do rio.

— Bem, vou-me – disse subitamente.

Deu meia-volta e orientou-se para a porta.

— Otília! E o Cola Cao para a tua mãe?

O braço meio levantado, mostrava-lhe uma lata amarela com tampa vermelha.

— Visto o tempo que aqui perdeste, agora é que vais ter de suportá-la! – e riu com infinda alegria, aquela alegria melosa e expansiva que lhe esguichava com constância pelos poros desde que retornara à sublime aldeia natal.

Por detrás da cortina da cozinha saiu a Rosa que o informou:

   — Veio um rapaz de Cevide dizer que o Nelo e o Zeca só vêm amanhã à tarde, às seis e meia.

Foi como se uma foice lhe abscindisse o peito. O riso esvaneceu-se e as feições endureceram. Constatava o que pressentira: a obrigação de procrastinar a transferência da banana para a noite seguinte. Era inelutável, apesar dos riscos demenciais a que se sujeitava. No caso de uma rusga inesperada – embora pouco provável –, o Manolo nunca poderia justificar a presença do amontoamento astronómico de bananas na sua garagem. Ia passar mais vinte e quatro horas horríveis, angustiantes.

 

O Manel era da Boalhosa, Ponte de Lima. Os pais, caseiros de nascença, cultivavam as terras de um fidalgo despótico. O Manel, os três irmãos e as duas irmãs começaram, pois, a trabalhar na agricultura mal deram os primeiros passos. Acantoados numa casa imunda, sem água nem electricidade, sobreviviam em condições animalescas, mourejando do nascer ao pôr do sol.

A Deolinda era de Porto Bom, Ponte da Barca. Também se iniciou na lavoura com os pais, jornaleiros, quando ainda era uma criança. Mas, no parecer do Manel, eram ricos porque viviam na própria casa, apesar de mísera.

Conheceram-se quando ela passou a fazer parte do rancho folclórico de Santo Estevão da Boalhosa, onde ele fascinava pela fluência de bailador. Foi o coup de foudre entre o atlético moçoilo e a raparigota. A ciumeira infernal que este apego engendrou em algumas dançarinas, assim como a inópia que os alagava, acabaram por ser ominosas. Decidiram enjeitar aquela vida e ir aventurar-se para Espanha. Uns dias mais tarde, os pertences como bagagem, aterraram em S. Gregório. Corria o ano 1956 e tinham dezoito anos.

Nessa altura, o lugar gozava de uma animação espantosa; era uma pequena vila campestre turbulenta e possivelmente um dos poucos lugares portugueses com médico e farmácia. Tinha dois cafés e um sem número de tascas, três comércios preponderantes e o dobro de pequenas lojas. Quase todos vendiam de tudo: mercearias, ferragens, tecidos, roupas, louças, talheres, utensílios para a lavoura... e, pouco depois do 25 de abril, tabaco americano e revistas pornográficas. Claro que as lojinhas não dispunham do mesmo sortimento que as três imperantes e célebres. Tudo isto destinado, predominantemente, a uma clientela espanhola. O tempo e as ocorrências sucessivas dizimaram as pequenas lojas, deixando a exclusividade às outras.

A actividade entusiástica do lugar era imputável à alfândega flamejante que trouxera consigo uma multitude de funcionários: aduaneiros, polícias da PIDE e guardas-fiscais. Apenas o doutor da alfândega, o chefe dos polícas da PIDE e o seu impedido tinham direito a um alojamente no recinto da aduana. Os agentes da PIDE e os guardas-fiscais solteiros, vindos de lugares longínquos para guarnecer o défice de funcionários da terra, hospedavam-se nas casas dos autóctones; os que tinham formado família alugavam moradias vetustas, pois os ordenados eram modestos. Os gastos correntes desta gente faziam viver uma parte notável da população.

Induzidos por pessoas da aldeia, que viam neles a incandescência rompante da juventude, o Manel e a Deolinda passaram uns tempos de aclimatação na aldeia fronteiriça, esperando pelo momento propício para mudar de  lado com segurança. Este procedimento era muito empregado pelos do corno de baixo – de fora – para ganharem a confiança das autoridades, omnipresentes e sempre atentas aos rostos ignotos. As chances de os alóctones passarem despercebidos na raia eram muito poucas. Durante uns meses, trabalharam à jorna na lavoura e moraram numa lapa, uma mina dessecada que acondicionaram para dormir e cozinhar.

Nos dias das festividades das aldeias galegas mais próximas de S. Gregório – A Frieira, A Notária, Puente Barjas e Padrenda –, havia uma nítida tolerância por parte das autoridades de ambos países. Qualquer podia passar pelo regato sem o menor constrangimento. Os mais jovens, cujo alvo eram as formosas chavalas – moças –, valiam-se, ao mesmo tempo, da facilidade para adquirir jeans, ténis e beber umas Coca-Colas, artigos americanos muito cobiçados inexistentes em Portugal. Os mais comilões aproveitavam-se dessa condescendência para se arroubarem com algumas das insignes tapas espanholas: pulpo, callos – polvo, tripas –, carne ó caldeiro ou calamares a la romana.

 

Continua.

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 20

melgaçodomonteàribeira, 07.11.20

 

Num comércio como o do Manolo, radicado numa aldeia despovoada como aquela e a menos de duzentos metros da raia, era incontestável que os camiões de bananas que ali eram descarregados semanalmente só podiam ser para contrabandear.

Sozinho na loja, assobiando brandamente, ia tirando de caixas de papelão produtos enlatados que colocava nas prateleiras atinentes, por detrás do balcão. Para ele, era a maneira mais sensata de distrair harmoniosamente os pensamentos, de serenar um pouco a cabeça e, paralelamente, de avançar o trabalho.

— Dá-me uma lata de Cola Cao – mistura achocolatada  –, anda, que não há quem ature a minha mãe.

Não sentira entrar a Otília. Como quase todas as jubiladas da aldeia andava de pantufas na rua. Usualmente, um ruído quase imperceptível alertava-o. Não gostou.

Por vezes, a premência do negócio da banana apoderava-se dele e despojava-o de sensibilidades portanto cruciais.

Virou-se, sisudo, e, encarando-a, ripostou:

— Achas que se fosse rico estava aqui a suportar gente reles como tu, Otília?

— Percebeste muito bem o que quiz dizer, anda! –  replicou

Não concluía uma frase sem acrescentar anda, desde que pudesse inseri-lo. Era um tique pouco mais novo do que ela.

— E a tua mãe merenda? Os velhos são mesmo como a canalha! Aposto contigo, Otília, que és mulher para seres mais idosa do que a tua mãe antes de ela morrer.

Sem perceber o seu propósito derrisório, riu e, num tom meditativo, disse:

— Ai sim... Quem me dera... Anda!

   O Manolo colocou por cima do balcão de vidro dois frascos de compota que tinha nas mãos. Com ar enigmático, questionou :

— Sabes que o Fernando todas as manhã parte a lenha para aquecer o forno.

Fitou-o e abanou a cabeça afirmativamente, dizendo:

— Estou tão habituada que não lhe ligo. Por que me perguntas uma coisa destas? – questionou, não entenderndo aonde ele queria chegar.

— Pois, olha, vou dizer-te algo que te diz respeito e que vai ficar entre nós. Vê lá se depois me vais atraiçoar e me fazes passar por uma má-língua – avisou o Manolo, olhando para a porta como se temesse ser ouvido.

— Ai, eu alguma vez te atraiçoei, Manolo? Alguma vez te causei preocupações? –inquiriu com indignação, todavia insuficiente para lhe eliminar dos olhos a forte curiosidade interesseira.

A maneira como ela se tinha expressado dera-lhe vontade de rir. Bisbilhoteira como ela, havia poucas. Quando saía da casa, se abalroasse na estrada com alguma das suas comadres a quem a pressa não privava de tagarelar, sentanvam-se prontamente onde quer que fosse e palravam regiamente.

Falavam da noite que tinham passado, de fulana que, diziam, andava amigada com sicrano, do intempestido falecimento de alguém, das colheitas, dos pequenos acontecimentos domésticos, das mudas do dia, do tempo que iriam ter, dos novos horários das missas, das doenças de que padeciam – muitas eram umbráticas... Todas diziam ter as piores e, por vezes, a conversação azedava. Linguajavam de tudo, o que, parcialmente, lhes embelezava a desolada existência. Era dos frívolos sujeitos dum leque planturoso – dos quais os citados faziam parte –, sustido unicamente pelas vicissitudes do dia-a-dia, que tratavam quotidianamente.

As entorses eram acidentais e, como não podia deixar de ser, celebradas dignamente. A irregularidade do caso, da situação e a sua acuidade faziam com que as conversações se prorrogassem indefinidamente, até lhe darem todas as voltas admissíveis e exaustarem o assunto.

O Manolo dava-se bem com ela desde criança. Quando era pequenino, ia, contente, comprar o pão à padaria, e ela metia-se com ele. Exasperava-o designando-o por Chíchio, o nome do irmão retardado, como se o confundisse. Ele, que já tinha a semente da velhacaria em germinação, respondia-lhe enervado:

— Eu sou o Manolo! Já estou farto de lho dizer! Você está mais tola do que o meu irmão porque ele ainda sabe que eu não sou ele!

Então, ela ria com agrado, fazia-lhe umas festas na cabeça com carinho e dava-lhe um can – moeda de 25 cêntimos –, que o catraio iria converter em dois ou três rebuçados na loja do Santiago. Estava longe de presumir que aquele miúdo seria, anos mais tarde, o dono dessa mesma loja.

— Ouve, eu resolvera não te dizer nada, mulher. As semanas corriam, hesitava, mas hoje tenho de to dizer, senão rebento! Sabes por quê? Porque cada vez que vejo o Fernando cortar a lenha, o coração abre-se-me e cogito: «Por este andar, a bater todos os dias com as ripas contra a casa da Otília, vai acabar por lha deitar abaixo!»  Francamente, é como se a casa fosse minha. Juro-te, Otília, que é verdade.

Calou-se e ficou a olhar para ela, convicto, expectando a sua reacção. O tom fora alarmante, dramático. A mulher, ar ponderado e prudente, as mãos ocultas por debaixo do avental preto, como toda a sua vestimenta, escrutou-o com cuidado, como se quisesse entrever o que se passava na cabeça do comerciante. Suspeitava. Já a levara muitas vezes de paleio. A predisposição do Manolo para a chalaça e o divertimento diminuíam a eventualidade de discernir se falava ou não a sério. Instalaram-se uns lestos segundos de mutismo. O rosto da Otília, pirrónico, foi-se transformando lenta e timidamente até se converter num simulacro de sorriso.  Sempre a olhar para ele, que se mantinha silencioso e imóvil, murmurou com visível apreensão e voz enrouquecida:

— Tu estás a brincar comigo...

O Manolo, aparentando um contratempo, pegou de novo em meia dúzia de latas de conserva de frutas e de legumes; lenta e silenciosamente, foi-as depositando nas prateleiras metálicas. Eram necessários uns segundos para que, na cabeça da Otília, a desconfiança fosse varrida pela verosimilhança. Tinha a certeza de que estava a vencer o desafio. Saboreava, de antemão, a marotice que estava a pôr em marcha. Devia fazer daquele último instante uma mistura de ironia e de piedade, de desafio e de súplica. O tempo encarregar-se-ia de incrementar com celeridade na cabeça pueril da Otilia o que ele nela semeara.

 

Continua.

 

 

 

 

 

AO NELO, IN MEMORIAM III

melgaçodomonteàribeira, 31.10.20

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Chegaram a França de noite, seguindo a linha de comboio de longe, por sorte ainda tinham as lanternas. Pararam debaixo de um viaduto para passarem a noite, aconchegaram-se uns nos outros. Antes de adormecerem, a conversa girou entre as saudades de casa, maldições aos passadores gatunos, a bela panela de sopa com que o senhor Xosé lhes aquecera o corpo e a alma antes de correr com eles, o que fazer nos dias seguintes, como chegar a Paris. Já era dia alto quando se fizeram ao caminho, esperando encontrar indicações na estrada, uma venda para comprar pão. O mais afoito era o Alberto e foi ele que se aventurou a ir às compras. Voltou com uma peça para cada um, era a ração do dia. Caminhavam depressa, sempre em direção a Bordeaux. Estavam exaustos e deram com uma estação de comboio. Tentavam apanhá-lo? Era um risco, mas se tivessem sorte… valia a pena esperar pela noite e entretanto dois deles podiam ir ver se arranjavam comida. O Zé e o Nelo ofereceram-se. Fartaram-se de andar e não lhes ocorria nenhuma ideia. Sentaram-se à entrada de um portão, desanimados, passado pouco tempo surgiu um homem e um cão, que começou a rosnar-lhes. Não entendiam o que o homem lhes dizia, mas entenderam que deviam sair dali. O Nelo falou com o cão, os animais eram todos seus amigos, aquele começou a ladrar-lhe, parecia que os estava a expulsar. E eles obedeceram. Pararam num estaminé, vários camiões à porta. Entraram e vinte olhos em cima deles. Entender o que lhes diziam, nem patavina. Queriam comer e disseram com gestos o que a língua não conseguia, apontando para as sandes que estavam à vista, pediram cinco, os dedos de uma mão. As pesetas que puseram em cima do balcão não pareciam interessar ao dono do café, acabando por retirar as que quis, os rapazes não controlavam nada. A cena continuou, cada vez mais insólita, com um homenzarrão a dirigir-se-lhes, só entendiam Paris, saiu com eles, mostrou-lhes um camião, Paris, Paris e mais nada. Largaram-no e desataram a fugir, de volta para os companheiros. O Nelo e o Zé atropelavam-se a contar o episódio, se calhar estava a oferecer-se para os levar, intuía o Alberto. Voltaram ao café, o camião tinha partido.

Andaram nestas andanças por mais uns dias, a dormir onde calhava, alimentados a pão e água e umas maças que tinham ficado como refugo nas árvores, a fugir de cães que lhes ladravam como se fossem salteadores, a ver portas que se lhes fechavam na cara. Pareciam maltrapilhos quando se abeiraram da grande cidade. Para se protegerem da chuva que os trespassava até aos ossos escolheram um abrigo de autocarros e aí se deixaram ficar, famintos, sem dinheiro, sujos e rotos, metiam nojo aos cães, na expressão do Nelo. Foi aí que até a comida que a mãe dava aos porcos lhe acudiu à ideia para matar a fome. Já nem falavam uns com os outros, todo o diálogo era interior, solitário, repleto de saudades e lágrimas escondidas, todos se sentiam no maior desamparo, nenhum queria ser o primeiro a dar parte de fraco.

Durante a noite, o Tono começou a tossir sem parar, a dizer coisas estranhas. O Berto pôs-lhe a mão na testa, ardia em febre. Tremia como varas verdes, doía-lhe muito o peito, tinha dificuldade em respirar. Tinham de fazer algo. Até ali, tinham procurado afastar-se da polícia, mas, no estado a que tinham chegado, mais pobres do que os pobres que andavam a pedir de porta em porta na terra deles, com o Tono incapaz de se mexer, a delirar, parecia que tinha gatos no peito, deviam entregar-se, que fosse o que Deus quisesse.

Na esquadra da polícia, tomaram banho, vestiram roupas lavadas, comeram até querer. Menos o Tono, que levaram de imediato para o hospital. Pareciam animais assustados, encolhidos, encostados uns aos outros, buscando algum conforto na proximidade física. Chegou um intérprete, explicaram que iam ter com familiares a Paris, tinham sido roubados, o Nelo desatou a chorar, incapaz de continuar. Tomaram-lhe o papel quase desfeito da mão, iam verificar, não se preocupassem, nada de mal lhes iria acontecer. Levaram-nos para uma camarata, deram-lhes cama para descansar, quando acordassem veriam tudo menos negro.

O tio Jaime confirmou que esperava os rapazes, partiria para Bordeaux tomar conta do caso na mesma tarde. No dia seguinte, apresentou-se na esquadra, identificou o sobrinho e os outros, responsabilizava-se por todos, pelo que estava no hospital também. Antes de partir, foram visitá-lo, o tio Jaime e o companheiro deram a morada, o nome do chefe, a empresa onde trabalhavam, quando o rapaz estivesse bem da pneumonia iriam busca-lo.

Três semanas de pesadelo, praticamente desde que saíram de casa até ao encontro com o tio Jaime, numa esquadra de polícia às portas de Bordeus, foi quanto durou a viagem dos jovens para a terra da promissão. Ainda não tinham entrado na idade adulta e já tinham provado até ao âmago a fome, o frio, o medo, a desconfiança. Ficavam vacinados contra a maldade dos homens, mas ganharam confiança na polícia e na bondade das instituições do país que os acolhia para lhes proporcionar uma vida melhor.

 

                                                                        Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Novembro de 2014

 

 

 

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 19

melgaçodomonteàribeira, 24.10.20

 

Na parte traseira do prédio do Manolo, deslizava um caminho recentemente cimentado que perecia num exíguo largo salvaguardado por umas alminhas cujo santo desvanecera sem ninguém já saber quando. Dali até ao rio, através de uma calçada de extensas pedras puídas pelo homem e pela natureza, atingia-se o que, desde sempre, fora um embarcadouro: o Porto de Bergote. Ao lado, o regato Trancoso e o rio Minho acoplavam-se, formando ângulos rectos entre os dois países.

Para descarregar as caixas de bananas ao abrigo de olhares barulhentos, o Manolo fizera instalar uma grande porta de ferro basculante do lado direito do rés-do-chão, lado que ficava a uma vintena de metros da estrada principal. Os camiões Pegaso dos anos 60 chegavam lastrados, desciam com a máxima prudência o caminho de marcha atrás e adrentavam metade do veículo nos enormes os fundos. Foi o que se verificou nesse dia a meio da tarde: o camião foi aliviado num ápice das cinco toneladas de bananas vindas de Vigo.

Embora houvesse contrabando nos dois sentidos, o fluxo foi sempre superior no sentido Portugal-Espanha, mas havia uns anos que Espanha ganhava terreno. Toneladas de peixe, gambas e camarão entravam diariamente em Portugal cursando os dois rios; manadas de gado bovino, do vitelo à vaca, assim como automóveis roubados em França atravessavam a raia seca na região de Castro Laboreiro.

Depois de enterrado o fascismo, o governo português estava – mais uma vez – ante uma complicada e embaraçadora penúria de divisas. Vitais para as imprescindíveis importações, decidiu, pois, anexar determinadas mercadorias às já catalogadas – consideradas acessórias – como produtos de luxo e taxá-las como tal. Entre os produtos dispensáveis, figurava, pois, a banana; os portugueses teriam de se consolar com a magra colheita das da Madeira e dos Açores, cuja inflação, forçosamente, disparou. Esta anódina medida foi o suficiente para desencadear, imediatamente, um sulfuroso contrabando do exótico fruto de Espanha para Portugal.

A banana vinha das ilhas Canárias, territórios insulares espanhóis, e entrava pelo porto de Vigo. Dali, era encaminhada pelos grossistas em camiões de média tonelagem e distribuída pelos passadouros. Entre a Frieira e Caminha, galgava o Minho em batelas; da foz do Trancoso até A-Da-Velha, galgava o insignificante regato às costas de carregadores. Em Cristóval, decorrente do trajecto, havia quem utilizasse uma mula.

Nestes dois cursos de água desproporcionados, que formavam fronteiras naturais, havia séculos que o contrabando estava programado; era uma componente social e económica inata. As redes, as zonas e a logística utilizadas eram, na generalidade, as mesmas, fosse qual fosse o produto contrabandeado. Apenas comutavam os contrabandistas.

Correntemente, por razões organizacionais e securitárias, as bananas eram  levadas ao lombo na mesma noite da Frieira para Cevide por jovens musculosos e de uma resistência inoxidável, de onde saíam nessa noite ou no dia seguinte para vários pontos do país.

Porém, havia uns dias que um sério obstáculo perdurava. Para o Manolo e os seus associados era insolucionável, fazendo com que, do lado espanhol, a garantia de protecção  fosse ambígua. A solução do óbice só podia vir de Portugal. A  transferência  das dez toneladas de bananas para território português naquela noite era incerta.

O nervosismo e a contrariedade que nos dias crónicos de manivérsia se apossavam  do Manolo eram perceptíveis pelos íntimos.

Apenas dois guardas civis do posto de Puente Barjas, província de Ourense, os que vigiavam o tramo do rio Trancoso, não se deixavam estipendiar. O tenente andaluz que os comandava havia pouco tinha, como estes seus subordinados conscienciosos, inconcussos, uma profunda lealdade ao cargo; como eles, lutava, para não sucumbir à sedutora e dificilmente reprimível atracção da opulência que o dinheiro lhe permitiria; como eles, resistia ferronha e obstinadamente a todas as proposições de cooperação, por mais estimulantes que fossem; como eles, batalhava para proteger a sua probidade, a sua honra.

No entanto, os dois guardas civis não representavam um estorvo significativo para os passadores. Com resguardo, eram obliquamente quadrilhados em permanência pelos pervertidos que lhes desmanchavam uniformemente qualquer intento íntegro de neutralizar ou, ainda que fosse, contrariar os contrabandistas.

Era uma postura clássica e característica, tanto do comandante como dos guardas civis. Os recém-chegados necessitavam de uma etapa para se adaptarem, apesar de haver sempre um ou outro renitente.

Por este motivo, quando havia um imperativo que realmente necessitasse a esterilização do tenente, recorriam a intermediários, pessoas influentes, o escol da região que, directa ou indirectamente, estavam conectados com os chefes das redes. Estas benemerências convidavam amigavelmente o oficial subalterno para jantar um dia preciso num restaurante gastronómico arredado da raia, com o único intuito de o terem localizado enquanto que a mercadoria mudava de país. Era um convite que o tenente não podia recusar devido ao influente peso dos requerentes no microcosmo local. A categoria da guloseima também simbolizava um opimo engodo. Ninguém tinha quaisquer dúvidas de que brevemente o oficial teria duas contas bancárias, sendo uma bastante mais choruda do que a outra, como todos os que o tinham precedido. Eram trabalhados pouco a pouco e, inconscientemente, findavam por colaborar com os candongueiros. Até àquele dia, não houve excepções.

Todavia, não eram apenas os guardas civis que fiscalizavam a zona do regato que comiam. Do outro lado da ponte, os que dependiam do posto de Crecente, província de Pontevedra, vigiavam a faixa internacional do rio Minho até ao limite de Arbo; rapidamente se aperceberam do vaivém dos Pegasos e do trabalho de  formiga entre a loja do Manolo e a casa do Nelo, em Cevide. Exigiram, pois, parte do bolo para continuarem a ignorar o atacadista de frutas, assim como o destinatário, o Manolo.

Todos os veículos que transportassem qualquer tipo de mercadorias e fossem vistoriados a uma demarcada distância da fronteira, o condutor – segundo a lei – era obrigado a certificar a procedência e a comunicar o nome e morada do destinatário, apresentando a factura atinente; por sua vez, o receptor, estando situado no interior do espaço contíguo à linha fronteiriça, tinha a imposiçao de anunciar às autoridades fronteiriças locais a veniaga com antecedência, quando esta ultrapassava uma quota definida.

 

Continua.