Sábado, 17 de Março de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VI

 

 

Continuação do post do 03 de março de 2018.

 

 

Com os anos, aprendera a arrogar-se daquele recanto, a viver ali. Agora suspeitava de que não se conformaria com uma mudança. Era o seu buraco, o seu ninho. Morava em Espanha e via Portugal da sua casa; de ambos lados do Trancoso falava-se uma língua gémea, e as pessoas não destoavam.

No verão, era um rincão feérico, refrescante; no inverno, para as pessoas que como ele compadeciam ligeiramente de reumatismo, a humidade – acrescida pela que a barragem estancava – acabava por ser inconciliável, ruinosa. «Na vida tudo tem o seu revés; não se pode ter só o lado bom.», desabafava com acrimónia.

Uma vez diante da casa, em vez de escorar a sacha à parede, dependurou-a na parreira, a umbela nos dias de forte sol. Premunia-se assim contra a encurvadura do cabo que o tempo, insensivelmente, lhe faria incorrer; a humectação, por seu lado, fazia com que o cabo da sachola aderisse idealmente à parte férrea. O Manel era muito avisado.

Com o préstimo dum pé, abriu, com vigor, a porta do que outrora fizera as vezes de palheiro e de arrecadação para um carro de vacas e distintos apetrechos para a lavoura. A madeira da armação e da porta da casa, apesar do tempo enxuto e ameno das semanas precedentes, ainda se dilatava.

Entrou na cozinha que, por norma, estava deserta. Além desta, o rés-do-chão do pequeno pardieiro era composto por uma minúscula dependência que funcionava como sala de jantar nos dias de festa ocasionais. De baixo da mesa retirou um banco já meio desgastado pelo seu traseiro e sentou-se. Não havia outro, os demais assentos eram cadeiras. Não se sentia à vontade numa cadeira. Desde criança, as suas nádegas afeiçoaram-se aos bancos toscos, fabricados pelo pai com a madeira das árvores das terras que cultivavam. Aquele, fizera-o ele.

Deixou deslizar um repousante uf de acalmia, de complacência enquanto passeava o olhar lasso pela cozinha. A casa era velha, surrada e insalubre, mas havia muito que transluzia uma conivência absconsa entre ele e aqueles escombros remendados. Fora tudo feito por ele, pelas suas mãos calosas, pela sua força animalesca. Mesmo o primeiro andar, e isso era uma sobranceria que não ocultava a ninguém.

Estava bem. Fora um dia cansativo, um dia de faina como os outros, mas tranquilo, e isso agradava-lhe. Nascera para esta vida.

Alertada pelo ruído da abertura brusca da porta, a Gracinda resvalou com languidez e em silêncio os degraus da escada de madeira em espiral, o acesso aos três ínfimos quartos de dormir, que absorviam o primeiro piso. Intencionalmente, eternizava a descida. Ao fim do dia, quando o travesso marido penetrava no lar, velava em abordá-lo com minuciosa circunspecção; aferia o seu humor, a fim de se eximir do perigo de expressar a palavra indevida que o quizilasse bruscamente de modo irracional.

Pequena, franzina, o cabelo trançado, enrolado e preso na nuca, uns olhos pequenos e vivazes, tinha uma certa graça, mas aparentava não ter qualquer prestância. Portanto, era uma mulher com genica da qual emanava uma energia imparável e uma solidez incrível, tanto compleicional como moral. De tempos a outros, quando a chamavam a ela e ao marido para arrancar batatas ou sachar milho, manejava, de modo pretensioso, uma sachola da mesma polegada que a dele. O Manel, para a acompanhar e resistir ao seu ritmo endiabrado sem perder a face diante dos outros jornaleiros, devia duplicar os esforços. Desforrava-se publicamente da falocracia do homem.

Congratulava-se, com toda a legitimidade, que fora graças à sua volição e ao seu afinco que fizeram as economias correspondentes para adquirir o casebre em que residiam. Actualmente, o marido satisfazia-se em entregar-lhe dois terços do salário do dia, guardando a sobra para cuidar da sua fraqueza dipsomaníaca.

A Gracinda, apesar de fazer uns biscatos todos os dias, tinha necessariamente de ser muito parcimoniosa em tudo: na alimentação, na electricidade e, em especial, no vestuário. Embora limpa, trajava sempre a mesma roupa: uns dias com uma, outros, com outra e, ao domingo, com a mais engalanada. O mesmo acontecia com o marido. Os filhos, jeunesse oblige, eram bem mais impertinentes.

O Manel, ciumento como um leão, condenara-a, desde que se tinham amigado, a vestir calças quotidianamente: não admitia que lhe mirassem as pernas. Demasiado perfeitas e excitantes, captariam, a seu ver, olhares devassos; era uma criação da qual tutelava o monopólio visual.

Para os usos recorrentes da terra – omitindo as adolescentes e as vintaneiras mais emancipadas –, esta conduta feminina não era nada bem vista pelas sexagenárias e septuagenárias, que eram a maioria na aldeia. Contudo, o tempo, inebriante e indulgente, foi empreendendo uma estagnante cura homeopática, fazendo com que até as mais escandalizadas se vergassem àquele modelo de trajo.

A Gracinda falava pelos cotovelos. Em geral, a verborreia é vista por muitos como uma anomalia, um descabimento, mas, na Frieira, para sua grande alegria, não; provava que a pessoa era extrovertida e se agregava sem demora à vida do lugar.

 «O silêncio é a única coisa de ouro que deixa as mulheres insensíveis.», dizia o Manel. Com ele, havia muito que a Gracinda se resignara a reter a língua, mas com os da paróquia tagarelava de tal forma que, por vezes, baralhada, interrompia-se por já não saber de que estava a falar.

— Vens um bocado mais tarde do que nos outros dias. Vejo que tiveste muito que fazer. – arriscou, com prudência.

«Mais uma!», pensou, agastado. Sem olhar para ela, bufou de novo e, em tom agreste, retrucou:

— Só fiz o que tinha que fazer. Nem mais nem menos.

— E agora estás cheio de fome e de sede, não é? A terra seca-te a garganta. – ironizou, um nada solicitante.

O Manel optou por não replicar, embora lhe aprazesse mandá-la calar-se. Fruira de um dia simpático, estava extenuado e não queria estragar a noite de descanso. Sentia-se com pouco ou nenhum ânimo para polemicar. Com malacia e martelando bem as sílabas, retorquiu:

— Vejo que não se te pode esconder nada, Gracinda.

Quando o Manel era prosódico, a mulher não duvidava de que o melhor era fazer de conta e pôr um ponto final ao breve litígio. Desolada, deu meia volta e lamentou-se subtilmente. O diálogo não podia aviltar-se. À medida que as dissimilitudes entre eles floresciam, os dias assemelhavam-se proporcionalmente.

 

Continua.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:32
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