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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOPRANO À MINHOTA II

24.08.19, melgaçodomonteàribeira

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Benfiquista e bom patrão

Foi no bar que Abel conheceu Diene Amorim, uma brasileira com quem tem dois filhos. Hoje o casal vive em Bridgewater, numa casa de 315 metros quadrados que comprou há nove anos por 655 mil dólares (cerca de 517 mil euros), mas durante anos viveu num apartamento modesto por cima do restaurante. Os dois vestem-se bem, embora discretos. Abel conduz um AudiA4 com oito anos e Diene uma carrinha Volvo. Os filhos frequentam uma escola pública e vão todos os fins de semana à catequese na igreja portuguesa de Nossa Senhora de Fátima. Os vizinhos dizem que o casal é boa gente. Todas as manhãs, Abel estaciona no parque do Portucale, que transformou em restaurante em 2011. As obras terão custado centenas de milhares de dólares, mas o português comentou com conhecidos que apenas o tinha feito para cumprir um desejo da mulher. Antigos funcionários dizem que é o melhor patrão que tiveram, que paga sempre a horas e ajuda quando têm muito movimento. Prefere estar no escritório, mas vem para a sala quando joga o Benfica, de que é adepto ferrenho e pelo qual chegou a ir a Portugal para acompanhar jogos importantes. Terá este homem, que ninguém critica, sabido que estava a movimentar dinheiro da máfia através de esquemas ilegais do jogo, agiotagem e tráfico de droga? Terá descoberto a origem do dinheiro e sido proibido de abandonar o negócio? Ou sabia de tudo e preferiu continuar a lucrar?

Um ano depois de assinar contrato com Puccillo, a sua companheira comprou um serviço de troca de cheques, na zona norte da cidade. Abel nunca contratou esta empresa, continuando a preferir os serviços do italiano. Num dia fraco, movimentava entre 20 a 50 mil dólares. Nos dias bons, chegava a 400 mil. O dinheiro ficava pouco tempo no restaurante. Assim que chegava, o português agarrava no telefone e em minutos chegavam homens de Mercedes, que saiam de envelope na mão.

No bairro circulava todo o tipo de rumores. Nunca se falou em máfia, mas muitos comentavam que algo ilícito se passava entre aquelas paredes. Especulava-se que Diene tinha comprado o negócio em North Newark para encobrir irregularidades, mas a brasileira nunca foi acusada. Durante anos, todos os boatos se desvaneceram, nunca se concretizando numa queixa às autoridades. Entretanto, o negócio continuava a crescer.

 

Malas de dinheiro e assédio policial

O dinheiro era entregue a Abel, todos os dias, por funcionários de Puccillo. Alguns clientes recordam o momento da entrega, quando um carro de cor escura estacionava junto à porta, os funcionários pediam aos clientes que ninguém saísse, um homem entrava com uma mala, dirigia-se ao escritório na cave e saía. Tudo acontecia em segundos. A operação aconteceu centenas de vezes, durante anos, sem qualquer falha. Até à manhã de 19 de Maio de 2011.

Nessa data, um ex-polícia saiu do carro e dirigiu-se para o Portucale segurando uma mala. No caminho, alguém disparou. O homem estava armado e respondeu. Foi atingido de novo e caiu de joelhos. Nesse momento, um segundo assaltante disparou, atingindo-o no queixo. O homem acabou no passeio junto à entrada de uma loja de bebidas. Um dos assaltantes fugiu, o outro agarrou na mala, entrou num carro e conduziu umas dezenas de metros. Devido aos ferimentos, chocou contra um semáforo. Quando a polícia chegou, estava a perder a consciência e a mala continuava no carro. No interior, a polícia descobriu 400 mil dólares. Em minutos, o local estava cheio de agentes. No mesmo dia, Abel começou a ser investigado.

Polícias à paisana visitaram o restaurante. O português foi seguido e as suas comunicações podem ter estado sobre escuta. Convencido que estava protegido pelo contrato que tinha assinado com Puccillo, continuou a trocar cheques durante mais de um ano e meio. Só em dezembro de 2012, quando a polícia o interrogou, é que contratou um advogado, o reputadíssimo especialista em crimes económicos Michael Critchley, e fechou atividade. Tinham-se passado 25 anos desde que tinha trocado o primeiro cheque.

Segundo a acusação, em três anos e meio, Abel ajudou a lavar 400 milhões de dólares, perto de 315 milhões de euros, e cobrado comissões de nove milhões. Dos três por cento que cobrava, guardava um por cento. O resto do dinheiro pertencia a Puccillo, que ficaria com uma parte e dava outra a Rodriguez, Tuzzo e Alberti. Pelos crimes de que é acusado, Abel arrisca uma pena de 20 anos.

 

Pesadelos e registos em Elm Street

Nos últimos anos investiu com sucesso no imobiliário. Na semana passada, as autoridades congelaram as suas contas bancárias, o edifício do restaurante, dois prédios na mesma rua e a casa da família. Mas o empresário terá, pelo menos, outro prédio e dois parques de estacionamento em Elm Street, um segundo bar em Newark e um restaurante na Florida, que poderão estar no nome de outras pessoas e empresas.

Em 2013, por saber que estava a ser investigado, mudou algumas propriedades de nome. De acordo com os registos fiscais do condado de Essex, consultados pela VISÃO, o prédio no número 127 da Elm Street, por exemplo, passou a 21 de junho para o nome de uma empresa com o nome Union Street Realty, pelo preço de 400 mil dólares (um valor 80 mil dólares abaixo do que Rodrigues tinha pago em 2004). A Union Street Realty tem sede no número 129, a morada do restaurante Portucale. No mesmo dia, Rodrigues vendeu a esta empresa o prédio do número 125 por 500 mil dólares (menos 50 mil euros do que o valor pago em 2004).

Quando Abel foi detido, o juiz definiu uma caução de 400 mil dólares. No dia seguinte, a companheira entregou 40 mil dólares e uma garantia de 360 mil para o libertar. Esteve preso menos de 48 horas. Em liberdade, garante que apenas trocou cheques e nunca se envolveu com a máfia. Na quinta de manhã, 23, estava de volta ao Portucale, que não chegou a fechar, anunciando sempre em cartazes a festa que, esta sexta-feira, 31, vai encher o espaço para celebrar o Dia das Bruxas. Abel continuou a viajar depois de saber que estava a ser investigado. Este verão, passou 6 semanas em Portugal com a mulher e os filhos. Além de Melgaço e da mãe, visitou amigos de norte a sul. Foi a quarta viagem desde 2012 e também esteve no Brasil. Podia ter fugido a qualquer momento. Qualquer especialista o teria aconselhado a pedir cidadania norte-americana, para evitar a deportação caso seja condenado, mas o emigrante também decidiu não o fazer. Abel quer enfrentar a justiça. Está convencido de que o seu sonho americano não terminou.

 

Da Visão online em 11/11/14