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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOPRANO À MINHOTA I

17.08.19, melgaçodomonteàribeira

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A história exclusiva de Abel Rodrigues, o emigrante de Melgaço cujo restaurante em Newark terá servido para a máfia nova-iorquina lavar 400 milhões de dólares.

 

Alexandre Soares, em Newark (artigo publicado na Visão 1130, de 30 de outubro 2014)

Quinta feira, 6 de Novembro de 2014

 

Na madrugada de 21 de Outubro, perto das seis da manhã, Abel Rodrigues acordou com o som da campainha. Na sua casa em Bridgewater, no estado de Nova Jérsia, Estados Unidos, abriu a porta e, ainda no escuro, descobriu sete agentes da polícia armados. A mulher já estava do seu lado quando lhe leram os direitos, mas os filhos, um casal de nove e onze anos, dormiam. O casal ouviu a lista de crimes de que o português era acusado: falsa declaração de rendimentos, troca ilegal de cheques, extorsão, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Abel foi algemado e levado para o carro-patrulha enquanto tentava tranquilizar a mulher. Três anos e meio depois do início, chegava ao fim a operação Punho Cerrado, que envolvera quatro agências especializadas e cerca de 35 agentes. Com o fim da investigação, chegava também o fim do sonho americano do emigrante minhoto. Uma história digna da premiada série Os Sopranos, cuja ação se passa também no Garden State.

Abel não foi surpreendido. Vizinhos, clientes e antigos funcionários dizem que o português já esperava este dia desde que, em dezembro de 2012, a polícia foi ao seu restaurante Portucale, em Newark, e levou computadores, caixas registadoras e documentos. Com a voz tranquila, Abel mostrou escrituras e contratos. Insistiu que a sua atividade era legal. A polícia discordou e ele passou a esperar o seu regresso. Mas nunca imaginou que, quando o momento chegasse, seria acusado de associação criminosa com os Genovese, a família mais poderosa da máfia de Nova York.

 

De São Paio aos cheques no Rio Douro

Abel acabou na prisão de Morris County lado a lado com Charles Tuzzo, de 80 anos, e Vito Alberti, 55, dois membros dos Genovese. Encontrou também Domenick Puccillo, 56, o seu parceiro de negócios e Manuel Rodriguez, 49, que o tinha apresentado a Puccillo anos antes. No mesmo dia, a procuradoria de Nova Jérsia deu uma conferência de imprensa anunciando os detalhes da operação. “A nossa mensagem para a máfia é: enquanto existirem, vamos continuar a enviar-vos para a prisão”, avisou o procurador John J. Hoffman, minutos antes de libertar as fotos de Rodrigues e dos outros acusados. A notícia atravessou logo o Atlântico. Jornalistas foram bater à porta da mãe de Abel, de 83 anos, que vive sozinha em Melgaço, e perguntaram-lhe pelo filho mafioso. O minhoto acredita que, se o pai ainda fosse vivo, teria morrido nesse momento.

Abel nasceu no lugar de Real, em São Paio, há 52 anos. Começou a trabalhar ainda criança, ajudando o pai na lavoura. As duas irmãs emigraram para França e, pouco depois, também ele abandonou o País. Emigrou para Punto Fijo, na Venezuela, com 20 anos. Um colega da construção falou-lhe dos EUA, dizendo que se ganhava bom dinheiro. Em outubro de 1983, Abel chegava ao bairro de Ironbound, em Newark, onde se concentra parte da comunidade portuguesa. Arranjou trabalho na construção, mas a obra parou meses depois devido ao inverno. Acabou como empregado de balcão do Rio Douro, um café português, na Elm Street.

Foi neste local que trocou o primeiro cheque. Por ordem do patrão, recebia cheques de emigrantes indocumentados, que não podiam ter conta de banco, e de pessoas que não tinham dinheiro na conta para cobrir o salário dessa semana. Embora ilegal, era uma atividade comum. Dezenas de estabelecimentos no bairro faziam o mesmo.

 

As comissões e o negócio com don Puccillo

Em 1987, um bar de espanhóis chamado Escorial, do outro lado da rua, foi posto à venda. Abel comprou-o por 88 mil dólares (69 mil euros). No início, tinha apenas um funcionário, e abria das sete da manhã às três do dia seguinte. Dormiu muitas noites na cave, para aproveitar cada hora de sono. Continuou a trocar cheques, a maioria a galegos. Quando alguém lá chegava e só pedia para trocar o cheque, fazia-os esperar e beber algumas cervejas, para dar lucro à casa. Só começou a cobrar comissão depois de receber vários cheques sem cobertura. A comissão não era fixa e variava entre um e três por cento. A atividade, lucrativa, manteve-se durante anos.

Em 2007, os bancos mudaram os seus protocolos. Começaram a recusar trocar cheques endereçados a terceiros, sobretudo quando eram elevados. Foi nessa altura que o italiano Manuel Rodriguez apareceu no bar, perguntando a Abel se ainda estava no negócio. Os dois homens já se conheciam, porque Manuel era dono de outro bar da cidade, o Guitar Bar. Abel partilhou as suas dificuldades e o homem respondeu que tinha uma solução. Podia apresentá-lo a Domenick Puccillo, que tinha um negócio licenciado de troca de cheques, e muito, muito dinheiro. Abel aceitou a ajuda. Assinou um contrato com Puccillo, o mesmo que viria a mostrar à polícia, anos depois, quando lhe inspecionaram o restaurante. O mesmo contrato que lhe disseram que não era válido.

Puccillo tinha ligações à máfia, mas Rodrigues pode nunca o ter sabido. Um dirigente da polícia de Newark garante que a máfia teve uma presença forte na cidade durante décadas, mas que a sua influência é hoje reduzida. Existe em áreas como o porto comercial e em negócios como o lixo e máquinas de jogo. Raras vezes a sua presença se traduz em episódios de violência. Além disso, tem uma organização hierarquizada, em que um nível não contacta com o outro. Mesmo assim, terá Abel imaginado como é que os sócios tinham acesso a quantias tão elevadas? Terá perguntado pela origem do dinheiro que transacionava?

Com Puccillo na retaguarda, o negócio do português cresceu. Abel montou um escritório nas traseiras e destacou alguns funcionários para lidar com estes clientes. Às suas mãos começaram a chegar cheques de 100 mil dólares. Segundo a acusação, o empresário trocava estes valores sem pedir identificação ou manter registo da transação, permitindo aos clientes escapar ao escrutínio do estado. Empresas de construção brasileiras e portuguesas recorriam ao serviço, assim como negócios que recolhiam cheques menores e depois os trocavam em conjunto no Portucale. A operação tornou-se um negócio de milhões.