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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

POLVO, TRADIÇÃO NATALÍCIA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 23.12.21

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fronteira e pide

 

A HISTÓRIA DA GENTE QUE DESAFIOU SALAZAR

PARA TER POLVO NO NATAL

 

É uma história de contrabando. De um tesouro que vinha da Galiza. Conta-nos a edição on-line da Notícias Magazine que, em tempos, Salazar tentou travar esta tradição para proteger a frota bacalhoeira. No entanto, o povo do Vale do Minho sempre arranjou maneira de fazer chegar ao prato este manjar que vinha lá de cima.

À Notícias Magazine, Albertino Gonçalves, professor de Sociologia na Universidade do Minho, referiu mesmo que o bacalhau da consoada não é, uma tradição assim tão antiga. No final dos anos trinta, depois da Guerra Civil Espanhola e de uma tremenda escassez de alimentos nos dois lados da fronteira, o Estado Novo quis ordenar o abastecimento alimentar do país para travar a fome. “Salazar definiu zonas e produtos: cereais no Alentejo, sardinha nos portos pesqueiros, hortícolas e frutícolas no Oeste. E investiu seriamente na frota bacalhoeira, capaz de trazer das águas frias do Norte um ingrediente barato e altamente duradouro”, disse o investigador. “Nessas contas, o polvo, que vinha essencialmente de Espanha, não tinha lugar”.

 

MELGAÇO DESAFIAVA O ESTADO NOVO

 

O bacalhau nascia da vontade política, mas o Município mais a norte de Portugal teimava em resistir ao menu imposto pelo fascismo. Na maioria das vezes, conta-se, foi o jogo do gato e do rato. Avelino Fernandes, 69 anos, era guarda-fiscal em S. Gregório, freguesia de Melgaço. “Em novembro e dezembro já se sabia que aumentava o contrabando de polvo. Éramos 32 guardas e reforçávamos a vigilância nesta altura”, conta à Notícias Magazine.

Muitos deles eram homens da terra e na maior parte dos casos fechavam os olhos à passagem do repasto natalício. “O problema era a PIDE, que andava sempre em cima de nós para controlarmos o polvo. Eram maus como as cobras, eram capazes de deixar uma família sem ceia na consoada para cumprir aquilo que o Salazar queria”, contou. A sua memória preferida de quase quatro décadas naquele ofício foi o dia em que prenderam os agentes da polícia política, em Abril de 1974.

António Domingues, 84 anos, concorda. Era apalpador na alfândega, revistava os homens que passavam pelo posto fronteiriço, vindos da Galiza. “As pessoas arranjavam mil e uma maneiras de disfarçar a entrada de mercadoria. Traziam coletes encostados ao corpo, camadas falsas de roupa, tudo o que se conseguisse imaginar. Mas, na altura do Natal, não precisava de tocar em ninguém. Se trazia polvo, eu topava-o pelo cheiro”, recordou.

Há em Melgaço um museu chamado Memória e Fronteira onde se presta homenagem às décadas em que a passagem para Espanha era atividade furtiva. Ao contrabando, mas também à emigração. Os arquivos das apreensões pela Guarda Fiscal estão ali guardados – e basta olhar para os registos para perceber como o polvo era importação da quadra.

“Quando chegava a altura do polvo tínhamos de ter cuidados redobrados, por causa do cheiro que largava”, conta agora numa cumeada frente ao rio. Era por ali que passavam o produto e o escondiam em covas no chão. “Mas não podia ficar muitos dias, senão a Guarda dava por ele”, contou à Notícias Magazine, Amadeu Pereira, de 83 anos. O molusco era contrabando em movimento constante.

A passagem fazia-se entre as duas e três da manhã, “horas em que até as pedras dormem”. Cada pessoa com 40 quilos de polvo seco atados por um cordel, e às vezes eram mais de uma vintena a tentar cruzar o rio.

“Tínhamos uma barca afundada com uma pedra, que puxávamos por uma corda para trazer o produto para Portugal. O primeiro passava sempre sem carga, não fosse a Guarda estar à espreita. Se fosse apanhado gritava que andava ali raposa e voltávamos todos para o mato. Se estivesse livre, atirava três pedras para a água a anunciar que o caminho estava livre. Era o sinal”. O caminho para ir buscar o polvo era longo, 30 quilómetros pelo meio do mato, que na estrada podiam ser apanhados pela Guardia Civil. Só andávamos de noite, e sempre em silêncio. De dia dormíamos no meio do bosque”. O abastecimento fazia-se no armazém de um antigo merceeiro galego, no lugar do Couto.

Nas aldeias de Melgaço, hoje toda a gente conta a mesma história. O polvo chegava seco e pendurava-se atrás da porta. Dois dias antes do Natal juntava-se o mulherio nas fontes e mergulhava-se na água. Depois, era agarrá-lo pela cabeça e batê-lo numa pedra, pelo menos cinquenta vezes.

 

Rádio Vale do Minho

5 Dezembro, 2018

E COMO ATRAVESSAR O TRANCOSO OU BARXAS EM DEZEMBRO PARA IR COMPRAR O POLVO?

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