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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

PADRE, JOVEM E BEM PARECIDO

melgaçodomonteàribeira, 11.04.20

7 b - cemitério melgaço.JPG

cemitério de melgaço

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

VIII

O senhor padre Justino logo caiu no goto da população. Era natural da freguesia de Parada do Monte, um povoado perdido no meio das montanhas pertencente ao concelho de Melgaço. Logo que se ordenou foi pastorear uma paróquia serrana em Arcos de Valdevez. Em matéria de padres, a vila de Melgaço nos últimos tempos não fora feliz. O último desandara a fazer besteiras. Era jovem e bem parecido. Tinha atitudes arrogantes que não condiziam com a sua condição de sacerdote. Autoritário fazia valer a sua vontade: intransigente aceitava o que a vida lhe impunha. Empolgado com os ventos patrióticos auto-nomeou-se capelão do núcleo da Legião Portugal e comprou a farda no grau de oficial. Fumava exibindo bonita cigarreira de prata como ditava a moda dos dândis da época. Um seu irmão namorava e anunciou o casamento: a noiva era filha de um ex-padre. Não aceitou tal acontecimento e a sua revolta foi tremenda. Passou a viver em permanente estado de nervosismo. Durante uma novena, cercado dos rapazes do catecismo que eram obrigados a participar, enervou-se com os risos e cochichos que aquelas crianças trocavam entre si. Pegou um que lhe pareceu o responsável e às bofetadas levou o rapazinho pelo meio dos fiéis até à porta, pondo-o na rua. Uma mulher que lhe pareceu aquele rapaz ser um seu neto, protestou.

Na mesma hora, em altos gritos o padre mandou que a mulher se retirasse e ela obedeceu.

O irmão do padre casou. Na adega do amigo Tenente Perez para afogar a revolta, passou a tarde a beber. O vinho desceu fácil e fácil subiu à cabeça. Tinha ao final daquele dia o compromisso de encontrar a alma e acompanhar o funeral do Tino Garrilha. Amparado tentou fazer as leituras de praxe, as velas que ladeavam o caixão atrapalhavam-lhe a visão e a leitura saía gaguejada. Apagaram as velas. Durante o préstito cambaleou amparado por amigos. Foi um grande vexame! Mais vergonhosa ficou a situação quando o povo passou a comentar uma amizade exagerada com uma bonita rapariga. O arcebispo tomou conhecimento e transferiu o nervoso padre para outra freguesia.

Foi nomeado para paroquiar a vila de Melgaço, o senhor padre Justino Domingues, o inverso do anterior. Humilde em excesso, zeloso com as coisas de Deus, de figura franzina e sorriso acanhado. Despertou certa hilaridade no início ao cumprimentar as pessoas. Usava chapéu como mandava a etiqueta clerical, e como era canhoto, ao descobrir-se o impulso inicial era a mão esquerda adiantar-se, logo lhe ocorria que a norma ditava fosse a mão direita a tirar o chapéu. As duas mãos se embaralhavam e quase sempre tirava o chapéu com as duas mãos ao mesmo tempo. Na sua simplicidade revelou-se um sacerdote bondoso, empreendedor, de grande capacidade realizadora no aspecto espiritual e material. Transmitia carácter, nobreza e simplicidade em palavras e atitudes.

Quando de pronto aceitou a ideia de rapazes e raparigas de fazer a novena em intenção da saúde do Zeca do Aurélio, o senhor padre Justino ganhou a simpatia da juventude.

 

(continua)

 

                                                                Manuel Igrejas

 

                                   fica em casa

 

 

 

 

 

 

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