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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O TOJO MAIADO

melgaçodomonteàribeira, 26.06.21

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O BIVAQUE DOS FASCISTAS

 

Desde o princípio do mundo talvez, diz uma das atuais terra-tenentes desses “andengues”, que os portugueses possuíam propriedades do lado de lá da fronteira. Eram campos de pasto, de feno, carvalheiras, “uzeirais”, tojais, que pouca valia deviam ter para os galegos mas que eram explorados e mantidos por portugueses. Todos os três meses iam a Crespos pagar as “pagas”, o que até dava jeito pois a viagem servia também para comprar a melhor preço bacalhau, azeite, chocolate, farinha triga, toucinho branco até, quando o caseiro se esgotava. Estava-se ainda longe do final do século XX quando acabaram com essa contribuição, por insignificante que deveria ser para o erário público do país vizinho. Com os aumentos de impostos que se sofrem nos dias que correm e o descalabro financeiro que a televisão mostra também na Espanha, há quem tema pelas “pagas” sejam repostas, mas em multiplicado. Outros pensam de modo diferente receando antes uma expropriação justificada pela falta de uso da terra. A ver vamos, o que o futuro reserva a esta realidade local é incerto e poderá até eternizar-se tal como está.

Por fracos que fossem os proventos daquelas propriedades, os seus donos exploraram-nas até quase ao virar do milénio. Depois aconteceu-lhes o mesmo que aos terrenos em Portugal: foram sendo progressivamente votados ao abandono, não restando hoje quaisquer das atividades tradicionais que foram o ganhapão de gerações e gerações, antes das reformas e pensões com que quase todos são contemplados. Essa pequena fonte de recursos de além fronteira só conta hoje na memória saudosista e em raras conversas dos antigos, muitos dos atuais e futuros proprietários nem será capaz de localizar os seus prados.

No decurso da guerra civil espanhola e mais tarde, durante e para além da segunda guerra mundial, o controlo do vaivém entre os dois países era efetivo: pessoas e animais tinham de andar munidos da respetiva identificação. As “guias” davam razão do que cada proprietário possuía, terras e cabeças de gado, bem como cães e carros de bois. Não havia contemplações para quem não cumprisse, não era permitido levar um animal a mais e quem prevaricasse ficava sujeito a punição que podia ser o impedimento de atravessar a fronteira, de ver os animais retidos, de pagar uma multa ou, em casos extremos, de se ver conduzido para um posto da guardia civil. Não brincavam em serviço os carabineiros dos idos anos trinta, quarenta e cinquenta.

Durante esse período de razia de vidas humanas os portugueses da raia não podiam atravessar a fronteira antes do nascer do sol ou depois de o mesmo se ter posto. Estava-lhe igualmente interdito o trânsito com dinheiro nos bolsos, não fosse algum “celerado” refugiado beneficiar da ajuda dos portugueses. Os falangistas, que, como é sabido, prolongaram a sua atividade de guerrilha muito para além do término da guerra civil, eram presença assídua nos caminhos trilhados pelos castrejos, entre os marcos um e vinte e tal. Eram agressivos e mais papistas do que o papa, quer dizer, chegavam a ser mais controladores e violentos do que a guardia civil. O povo temia mais os bivaques amarelos do que os próprios carabineiros e, sobretudo as mulheres que temiam pela sua honra, fugiam de encontros com eles.

Um dia saía, asinha, Isabel da Barreira para ir guiar a água a um campo de feno na Galiza. Encontrou à saída do lugar um comerciante de gado pronto a pagar-lhe ali mesmo um vitelo que lhe tinha comprado. Isabel precisava do dinheiro, não o recebendo no momento ficava sem saber quando o veria, pelo que resolveu arriscar e seguir para a raia com ele. Guardou-o bem escondido junto ao seio, debaixo do corpete, longe do salvaconduto, com sorte não ia ter maus encontros. Apressou-se a chegar ao seu destino, abriu as “tolas” e certificou-se que a água tinha caminho aberto até ao fundo do campo. Sentou-se um momento para espraiar o olhar sobre a propriedade, tão bonita, tão limpa, tão bem murada, pena que ficasse tão longe do eido. Olhou para o portal de saída e o seu coração começou a bater em ritmo acelerado: um bivaque amarelo escondia-se mesmo ao lado do ponto de saída. Desviou a vista, como a esconjurar a presença do inimigo. Voltou a olhar e lá estava o chapéu amarelo a abanar para um lado e outro. Diabo de homem, porque não se mostrava? Devia estar com más intenções, queria apanhá-la de surpresa, maldito! O dia declinava e Isabel sem coragem de se pôr a caminho. Dali a pouco tudo seria pior, o sol estava quase a cair para lá da Cabeça do Pito. Sol posto e ela ali no prado, encurralada, seria a sua desgraça!

Estava neste indeciso e temeroso cismar quando ouviu um melodioso assobio. Vinha do lado da Corga da Gândara. Pronto, outro maldito que se ia reunir ao que a espiava, escondido, o cobarde, só o bivaque amarelo a indiciar a sua presença. A força que a mantinha pregada ao chão aumentou e o medo tomou o lugar do receio, a barriga a revolver-se-lhe toda. Começava a encomendar-se à Senhora dos Aflitos e eis que ouve chamarem por ela. Reconheceu logo a voz de Domingos, seu vizinho e compadre e levantou-se como uma flecha, atravessou o campo a correr, descurando onde punha os pés, o que menos lhe importava era os socos cheios de água, queria o amparo da companhia. Fez-lhe sinal para parar, alcançou-o e segredou-lhe que tinham companhia. Estava enganada, acabara de se cruzar com eles no sentido contrário, baixavam para Lapela.

Aproximaram-se do ponto fatídico onde o biltre se escondia e Isabel riu-se em voz alta do seu próprio medo: o que ela tinha tomado por um bivaque amarelo à sua espreita não passava de um grande tojo maiado abanando ao vento. Nem se aborreceu com os chistes do Domingos nem se apressaram a chegar ao marco três antes do pôr do sol, se os falangistas se dirigiam para o lugar de Lapela tinham tempo de regressar com calma e fazer da caminhada um momento de partilha.

O medo de se confrontar com os fascistas e ser maltratada até a fizera esquecer-se do dinheiro guardado na quentura do seio, só à noite, ao desapertar o colete, antes de se deitar, é que encontrou as notas que o Cerdeirinha lhe tinha dado à tarde.

 

                                                              Olinda Carvalho

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Abril de 2015

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