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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O SENHOR MARECO

13.08.16, melgaçodomonteàribeira

lugar de mareco

 

O CHAMAMENTO DO MUNDO

 

Na segunda semana de Julho, celebra-se no lugar de “Borja Travessa”, a festa de S. Bento. Os fenos já foram segados nos campos, e a messe inclinava as suas douradas espigas ao sol quente de julho, ultimando o seu amadurecer.

Neste intervalo, havia bagar para algum descanso, que os castrejos aproveitavam para festejar.

Assim, após o serviço litúrgico, o terreiro da capela e a encosta de Sabariz, encheram-se de pessoas que se cumprimentavam efusivamente, trocavam notícias, aguardando por instantes a chegada de algum convidado retardatário para o almoço da festa, que, por ser de festa, seria lauto e copioso.

Foi nesse momento que eu a vi. Bela, elegante, contrastava com as outras raparigas que, vestidas à camponesa, não podiam rivalizar com ela em elegância e postura.

O jovem seminarista que eu era sentiu o coração bater mais forte quando o seu olhar se cruzou com o meu, e, por breves instantes, suspendeu a marcha errática, através da multidão.

Nos momentos seguintes, admirei, embevecido, os cabelos pretos, tão pretos que tomavam uma tonalidade azulada, o seu corpo fino e ágil, o rosto moreno trigueiro, agora ligeiramente carminado.

Foi um momento mágico; durou alguns segundos, depois ela partiu.

Quem seria?

Era costume nesse tempo, aliás, penso que ainda o é hoje, as famílias residentes no lugar, convidar para o almoço da festa familiares e amigos. Alguns vinham de longe.

Foi assim que o meu pai e o resto da família fomos convidados a comer em casa do senhor Mareco, pessoa muito importante do pequeno burgo, amigo e compadre dos meus progenitores.

O Mareco era o príncipe dos contrabandistas, não só de Castro, mas mesmo do concelho.

Na década de cinquenta, era o contrabando uma actividade muito praticada na minha aldeia, como aliás em todas as zonas raianas.

Este não tinha ainda, nem social nem criminalmente, a carga negativa, trazida pelos estupefacientes, muito menos o perigo e a incerteza que o terrorismo trouxe à sociedade, nas décadas seguintes.

Assim, os contrabandistas, economicamente mais abastados, eram normalmente as pessoas mais respeitadas da terra. Era o caso do Mareco, e em grau menor, o do meu progenitor.

Como contrabandista, o Mareco era o maior, o mais rico, o mais inteligente, o mais poderoso.

Em Castro, o contrabando, era “as fábricas”, que tínhamos para trabalhar; como em quase todo o interior, o Estado nada fazia por nós, a não ser cobrar alguns míseros impostos.

Os contrabandistas, ainda que de maneira ilícita, desenvolviam o comércio com os vizinhos do outro lado da fronteira, exportando café, tripas, tecidos, tabaco; pagos com, além da muito desvalorizada peseta, com prata, mercúrio, às vezes ouro.

Desenvolviam mesmo o mercado financeiro, cobrando em Portugal cheques de banco, oriundos das Américas, muito melhores pagos em Portugal do que na Espanha franquista, ainda voltada ao ostracismo pela comunidade das nações.

O dinheiro líquido seria levado em mão própria, através da raia, e entregue em lugar e sítio previamente determinado.

Era só necessário ser “honesto, sério e de palavra”. Nada mais, nada menos.

O Mareco tinha assim a honrar a sua mesa, gente muito importante, ligada à banca, ao comércio, à indústria, oficiais das forças militarizadas e outras forças vivas do norte do país.

Entre os convidados, estava o meu pai, contrabandista muito menos importante, mas velho amigo dos tempos difíceis, pois mesmo para o Mareco, nem tudo foram rosas nos primeiros tempos.

Sentado a um canto da mesa, eu observava esta fauna, com aspecto de gente muito importante, entre os quais o meu pai, que com o seu porte atlético e ar altivo, os ofuscava completamente.

Foi então que a vi, sentada mesmo à minha frente, apenas separados pela largura da mesa, lá estava a minha morena trigueira. Chamava-se Margarida, e o nome lhe ia bem.

 

In Ecos dos Montes Laboreiro

António Bernardo

Edição do autor

2008

pp. 85-88

 

 

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