Sábado, 8 de Dezembro de 2018

O RESPONSO DO CONTRABANDISTA

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talha do mestre abel barrenhas igreja de santa maria da porta

 

O CONTRABANDO

O concelho de Melgaço encontra-se situado no extremo Norte de Portugal, entre o rio Minho e o rio Trancoso, que fazem de fronteira natural entre o Minho e a Galiza. A partir de Portelinha começa a demarcação da raia seca. A Sul o concelho fica delimitado pelos concelhos de Arcos de Valdevez e Monção.

Ao longo de toda a fronteira natural, para além de uma alfândega em S. Gregório e de uma delegação em S. Marcos, existiam de ambos os lados vários postos guarnecidos de guardas-fiscais e carabineiros, que tinham por missão fiscalizar a entrada de pessoas e bens. O que dificultava a acção dos prevaricadores da lei das fronteiras, dos chamados «contrabandistas».

O contrabando era uma actividade muito antiga, praticada pelas populações que viviam nas margens do rio Minho, do Trancoso e da raia seca na zona de Castro Laboreiro.

Contrabandear foi a única maneira encontrada pela maioria das gentes do Minho e da Galiza para ganhar uns escudos ou umas pesetas. Era, por assim dizer, a única porta de entrada, e saída, para o exterior, para nós e para eles.

A necessidade e o interesse por esta actividade eram mútuos. Era só praticá-la. Mas pela frente, além do obstáculo natural de atravessar o rio Minho, sobretudo no inverno, havia que ludibriar a vigilância continua dos Guardas-fiscais e dos Carabineiros.

O contrabando tanto ia para lá como vinha para cá, o factor dominante sendo o câmbio entre o escudo e a peseta.

Na zona de Melgaço, em maior ou menor escala, fez-se contrabando de tudo: galinhas, ovos, café, sabão, peças de pano, alfinetes, agulhas, pedras de isqueiro, estanho, volfrâmio, gado, porcos, bacalhau, bananas, azeite, meadas de arame, arados, sulfato, máquinas de sulfatar, etc.

Após a guerra civil 1936/39, a Espanha estava necessitada de tudo. Quase todas as famílias andavam no contrabando, embora sabendo que corriam riscos.

As autoridades de um lado e do outro, lá iam facilitando, embora de vez em quando para tapar os olhos, faziam algumas apreensões. Tinha que ser, não podia passar tudo. Só que às vezes pagava o justo pelo pecador.

Houve muitas pessoas que começaram a contrabandear uns quilos de café e depois chegaram a encher mais que um vagão do comboio só de uma vez.

Para isso, foi necessário construir armazéns próximos da fronteira, comprar camiões, fazer barcos, comprar mulas e até fazer caminhos e estradas para chegar próximo da fronteira.

Recrutavam homens nos cafés e nas tabernas para carregar as cargas de mercadoria, que era transportada ás costas através dos campos e dos montes, saltando valados, corgas e ribeiras, para não serem vistos pelas autoridades.

Em S. Gregório, houve uma sociedade que levava os camiões de café até aos Casais e a Cevide. Depois era só atravessar o rio em barcos e carregar os vagões do comboio do outro lado.

O café era colocado ao pé da linha do comboio, jogo combinado com o chefe da estação da Frieira, que fazia o sinal vermelho e, em poucos minutos, o comboio ficava carregado e seguia o seu destino.

Na zona de Castro Laboreiro, as mulas é que transportavam as cargas do contrabando através dos montes e das serras.

No rio Minho, os pequenos contrabandistas não tinham barcos. Passavam o contrabando em pequenas batelas ou gamelas de madeira muito frágeis, pondo em risco a própria vida. Morreram várias pessoas por afogamento.

 Quando não tinham barco ou batela, em pontos estreitos do rio cordeavam o contrabando em pequenas quantidades.

No rio Trancoso, passava-se o mesmo durante o inverno. Observei várias vezes junto dos moinhos do Recobo, em frente à porta do moinho do «Zé Moreno» e dos herdeiros, as pessoas a cordear cestas de ovos e outros artigos. O galego que trazia a corda para cordear os ovos chamava-se sr. Júlio Reinales. Em criança, lembra-me de ir a casa dele, à Aldeia do Souto, com minha avó Josefina e com Pureza da Marga. Também levei muitas dúzias de ovos. Quando o rio estava bom, passávamos junto ao moinho da tia Joaquina, ou do Alberto. Entretanto, acabou a rambóia dos ovos. O contrabando que durou até à entrada de Portugal na Comunidade Europeia foi o do café e de outros produtos.

Na parte de cima da igreja, houve dois homens que desde sempre fizeram contrabando sozinhos e que depois com homens por conta deles contrabandearam muito café. Chamavam-se eles o Nelo da Ozinga e o Zê Moreno já falecidos. Estes dois homens eram dos mais arrojados para contrabandear. Chegaram a passar o rio Trancoso a tralhão (tudo a eito), como eles diziam. Para fugir aos guardas-fiscais e aos carabineiros levavam o contrabando a Deva, a Trado e onde calhava, para ganhar a vida. Apanharam muitos sustos, suadelas e molhadelas, debaixo da chuva e do frio. Era muito dura a vida de contrabandista.

Cristóval sempre foi um ponto de passagem de contrabando. A Galiza após a guerra civil de Espanha estava carenciada de tudo.

Todos os comerciantes da zona faziam muito negócio com os galegos. Chegava-se a fazer fila indiana pelos carreiros de dia e de noite.

Ainda me lembra de os galegos entrarem para a casa Branca por um portão pequeno que dá acesso para a Corga da Marga. Saíam por ali carregados com cargas de contrabando. Outras vezes desciam as cargas com uma corda para o campo do Corno da tia Maria (Charameca). Faziam tudo para fugir e enganar os guardas-fiscais. Já lá vão mais de 50 anos. Ainda o falecido sr. Manuel Martinho morava lá.

Outro senhor que também vendia e levava contrabando aos galegos era o sr. António (do Orfo), que após ter regressado do Brasil montou uma loja na casa que actualmente pertence ao sr. Armando (Videira). A maioria das pessoas foi pelo mundo à procura da fortuna, este senhor também foi, regressou e veio fazer fortuna na sua terra.

Contou-me muita vez minha avó Joaquina que sr. António (do Ofro), quando regressou do Brasil, ao chegar a S. Gregório, deixou ficar a mala e depois mandou um senhor conhecido (pelo Nacho) buscá-la; quando este chegou ao lugar da Porta, disse: «a mala do sr. António (do Ofro) pesava muito, deve trazer muito dinheiro».

Quando abriram a mala, tiveram uma surpresa: o dinheiro eram pedras. Tinha sido ele que, por malandrice, enchera a mala com pedras.

Naquele tempo os brasileiros tinham a fama de ter muito dinheiro, só que neste caso nem fama nem proveito.

No entanto, com a sua loja fez fortuna na sua terra. É assim a sorte, por vezes está mais perto do que pensamos.

Dizia-me a minha avó muitas vezes: «estás a ver, a ser rico custa muito, mas ser riquíssimo não custa nada, um dinheiro ganha outro».

Muitas vezes tenho pensado nisto, eu era criança, para mim parecia-me um conto de fadas, mas, passados estes anos todos, penso para comigo mesmo: “Como é que uma pessoa que não sabia ler sabia que o dinheiro ganhava dinheiro”. Hoje todos nós sabemos isso, naquele tempo nem todas as pessoas pensavam assim.

Além do contrabando, o sr. António (do Ofro) dedicava-se também ao câmbio de moeda. O senhor a quem ele confiou algumas destas tarefas chamava-se Aniceto Pires, e deslocava-se muito longe a levar e trazer moeda, bem como contrabando.

Ainda fui algumas vezes com ele levar meadas de arame, arados, sulfato e máquinas de sulfatar.

Normalmente, íamos de manhã cedo. Antes de sair, o Niceto rezava os responsos de Santo António. Se não se enganasse a rezar, dizia que tudo ia correr bem, se, por acaso, se enganava dizia que era melhor não ir, que ia correr mal. Se mesmo assim ia trocava constantemente de caminho ou carreiro.

 

Era este responso que ele e muita gente rezavam:

 

Santo António de Lisboa                        E três vezes chamou

Em Lisboa nasceste                                António! António! António!

Em Pádua morreste.                                E  três coisas te pediu,

No púlpito que o Senhor pregou            Que o perdido fosse achado,

Também vós pregaste                             O esquecido lembrado

Indo pelo caminho                                  E o morto ressuscitado.

Perdeste o breviário

Jesus Cristo vo-lo encontrou

                                                   Maria de Jesus Marques – Pousadas

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

             José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 130, 131, 132

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:33
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