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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - VI

melgaçodomonteàribeira, 08.04.15

Foto da CMM

 

(continuação)

 

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descendente.

O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous, sendo diffícil a passagem quando de frente encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quasi escadaria) de mais de meia légua, desembocava abruptamente no acampamento. N’este o Rei que logo veio receber a Rainha, começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres.

Na Corte dos Valois, perto de três séculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho, no célebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duquesa d’Etampes, o pomposo Chataignerie, defensor de Diana de Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as summidades de França.

Aqui, porém, n’esse final do século XIV, e n’este canto da Península, as escaramuças, perante uma corte mais guerreira que polida, mais austera que licensiosa, se não tinham o esplendor das cerimónias thetraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos importantes os seus resultados.

Pelo contrário. Na Corte de Henrique II digladiavam-se dois adversários para liquidarem uma intriga de alcova.

No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dous exércitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.

N’essa manhã do começo de Março em que a Arrenegada sahiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Ignez Negra, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o espectáculo d’esta pugna de nova espécie, a que deram foros de combate, e que a chronica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas.

Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam círculo em volta das luctadoras, saudando com vozearia carinhosa Ignez Negra a portugueza, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.

As almas também tem sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicáveis, tantas anomalias flagrantes – homens mulherengos, mulheres viragos.

Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadoras valentes, herdadas talvez dos seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Penínsulas as raças invasoras.

Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com fúria, com sanha, com rancor atiraram-se uma à outra sem mais armas que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta; ensanguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja.

Davam mais a impressão de dous monstruosos animaes enovellados em trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construídas.

O drama começava a abalar o ânimo ainda dos menos susceptíveis de soffrer comoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos músculos que Ignez Negra, ou porque o espírito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, cahindo logo desfallecida.

Então Ignez, que a suplantara, foi gloriosamente levada em triumpho e saudada com aclamações, ao som de trombetas e charamelas festivas.

Alguns escritores, seduzidos pela ideia de attribuir a este episódio o resultado da empreza, outros copiando aquelles (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações), affirmam ter sido decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.

Phantazias!

A verdade é que, se este duelo animou e exccitou a coragem dos portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, três de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos.

Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças; depois à escalada dos que «se chegavam tanto à Villa que punham um pé no muro outro na escada», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.

A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) emquanto outros se atiravam ao muro com grossos paos.

De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com impreccações e insultos, «desmesuradas palavras» que assanhavam o ânimo de D. João I.

Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a própria inferioridade, pediam novamente tréguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assédio à viva força. Então João Rodrigues de Sá, o das Galés – voz sensata – alvitrou que era de boa política acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu:

- «Quem medo houver não vá na escada.»

Subiu uma onda de sangue às faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés da Ribeira de Lisboa. E ressentido respondeu:

- «Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conheceste.»

E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de cólera eram logo dominados pela força da razão, emendou:

- «Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, por que os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoável do ponderado Sá, com o qual o Rei conccordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas aceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza em gibões sem outra cousa…

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:

- «Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa.»

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e três dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era Ignez Negra a batalhadora, imagem symbólica das energias femininas, proclamando assim a victória que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.

Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendária proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas da independência, o feito mais authentico e mais significativo de Ignez Negra a heroína de Melgaço.

 

(*) Ainda hoje, emquanto isto escrevemos (Agosto 1917), a villa conserva alli algumas d’essas vielas de pittoresco aspecto, e é, em parte, cintada com as veneráveis muralhas que tanto a enobrecem.

Consterna-me, porém que o município, com a deplorável mania de «modernizar», vício incorregível das nossas edilidades, umas boçaes, outras mal orientadas, está attentando criminosamente contra a magestade da sua terra, dilacerando-lhe os vestutos flancos para «fazer dinheiro» e colher materiaes destinados a um edifício público! Um tribunal, segundo me informam, que será provavelmente semelhante ao matadouro com que já se orgulha! Uma lástima! Se alguma entidade há, que possa impedir o sacrílego, acudi breve a afastar esta vergonha de Portugal!

 

NEVES DE ANTANHO

CONDE DE SABUGOSA

 

Retirado de:

 

www.archive.org/stream/nevesdeantanho00sabu/nevesdeantano00sabu_djvu.txt

 

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