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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - IV

melgaçodomonteàribeira, 25.03.15

Batalha de Aljubarrota

 

(continuação)

 

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mor D. Beatriz Gonçalves de Moura viúva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha d’esta Teresa Vasques Coutinho, viúva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Teles; a irmã d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Beringeira Nunes Pereira, prima do Condestável e filha de Ruy Pereira, que morrera na peleja das naos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico episódio d’aquella época.

D.João I preparava-o adrede para mostrar à Rainha como se assediava uma praça, e para exhibir perante a sua Corte, a valentia dos homens d’armas, que vinham consolidando a independência do Reino.

Era uma genuína galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flor da Corte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da destreza, e do valor com que se pelejava.

Era também uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estímulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma ala de namorados de nova espécie, batalhando em frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras – o Doutor, João Affonso de Santarém, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Instituías, que no brandir das espadas e dos arremeções.

Corria o mêz de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fetos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graníticos; com o velludo esmaraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das tílias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regência de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflecte nas lantejoulas de feldspatho e mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o jeito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabugenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o séquito prosseguia lentamente, mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavalos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali à aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas relíquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e condutores de equipagens, alvoraçavam as pessoas do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rústicos tugúrios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surgiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farnéis, emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva coleando pelos caminhos do valle, deixava à esquerda os montes levemente ondulados de Galliza, e começando a subir a encosta, que vae a Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Rouças.

A rainha com a sua Corte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade à frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia à portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afora a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçara a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de Diogo Lopes, assassino de D. Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a quadrada torre afonsina, era defendida por Álvaro Pães de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além de gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores pacíficos, cujas famílias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.

Entre as famílias que n’esse fim do século XIV se acoitavam n’aquelles habitáculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha da Arrenegada.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma refilona e, como todos os renegados, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo portuguez. Ardia em fúria e ânsia de arremeter ella própria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos.

Assistiu também inquieta e fervilhante às primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma setta, fora ferido Pêro Lourenço de Távora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado português foi correspondido, não havendo grandes damnos de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projectos que destruíram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

 

(continua)