Quarta-feira, 11 de Março de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - II

 

(continuação)

 

Era esse punhado de heroes, cujos ânimos abrigavam não só as qualidades brutaes e violentas, que levavam à victória, mas as delicadas dedicações e devotas amizades promtas para o sacrificio, que fazia exclamar o Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:

- «Oh! que bom Portugal!»

- «Oh! que bons portuguezes!»

Quando, terminada aquella campanha, no fim do mez de Julho, El Rei vinha com a sua hoste de Guimarães pelo Porto em direitura a Coimbra, onde então estava a Rainha, ao chegar ao Curval, pequeno povoado a meio caminho das duas cidades, sentiu-se accomettido de doença.

Dor da quentura, diagnosticaram os physicos, consultados sobre o caso. (Que a doença parecia grave – acrescentavam; que já tinham caído enfermos muitos dos homens de armas, com a mesma moléstia, causada talvez pelos excessivos calores da estação; e que era conveniente avisar a Rainha.)

Partiu logo, a galope, uma estafeta sem parar até Coimbra, onde, de visita a sua filha, se achava também o Duque de Lancastre. O mensageiro subiu à Alcáçova, peneirou nas abobadas que levam à sala dos archeiros, e, ofegante encarregou-se do penoso recado.

Logo foi grande, e tão ruidoso, o borborinho nos Paços de Coimbra, que chegou aos aposentos de D. Filippa surprehendendo-a dolorosamente.

Longe de ser, como a alguns se tem affigurado, uma mulher fria, fleugmática, pedaço de gelo importado de Inglaterra, que o sol da nossa terra não logrou derreter: longe de ser apenas uma creatura de dever, forja geradora de altos infantes, e rígida disciplinadora de corte, a loura ingleza que tão grande missão veiu cumprir no mundo, era amorável, e ternamente devotada ao marido, que ella sentia “tão concordável ao seu desejo”.

Demonstram-n’o, além das palavras dos chronistas (talvez sujeitas a reservas) o que é mais e o que é melhor, alguns factos que revelam a sua índole carinhosa e meiga, a sua alma toda entregue ao homem a quem, além de tudo, a ligava um sentimento de gratidão, pela preferência que lhe dera sobre sua irmã D. Catharina, mais nova, talvez mais formosa, e com direitos, por sua mãe, a um throno – o throno de Castella.

Bem sabia ella que o Rei não a escolhera por amor, pois D. João I, entendendo que pretender esse throno para si, seria um perigo para Portugal, optara pela solução mais convinhável à sua politica.

Entretanto era certo ter sido ella a eleita. E as mulheres nunca são indiferentes a uma preferência. Além d’isso, o coração não carece de razões para se decidir.

Gosta-se, porque se gosta!

E porque a loura Rainha recém casada adorava o marido, apenas o soube doente determinou partir.

Não attendeu a pedidos, exhortações, e súplicas para que desistisse de commetter tamanha imprudência.

O verão corria abrasador e doentio (diziam-lhe). Os caminhos eram ásperos, e as mulas facilmente tropeçariam nos córregos pedregosos dos montes até ao Curval. Uma queda desastrosa podia ameaçar, e até destruir a esperança de um herdeiro, que se ia annunciando propiciamente. A nada cedeu.

Conselhos do pae que com a sua voz arrastada, mas persuasiva insistia sensatamente, rogos das damas, representações dos physicos e dos homens sisudos, tudo foi inútil para a demover.

Organizou-se prestes a caravana.

Donas, aias e camareiras, besteiros portuguezes e alguns archeiros inglezes prepararam-se sem demora para a abalada.

Com infinitas cautelas acommodaram-se as andas que haviam de transportar a Rainha, e não tardou que a cavalgada se puzesse em marcha, caminhando todos em silêncio, e ruminando cada qual pensamentos inquietadores.

A Rainha, por um phenómeno frequente nas almas alvoraçadas com a approximação da desgraça, recordava os tempos da sua ephémera felicidade. Rememorava as bodas ainda recentes, com os festejos, justas, danças e trabalhos. Revia o cortejo sahindo do Paço Episcopal do Porto, através das ruas atapetadas de verduras e cheiros. Olhava, com os olhos da alma, a figura do seu noivo, que se lhe affigurava um archanjo montado n’um cavallo branco em pannos de ouro, junto ao d’ella, que era levado de rédea pelo Arcebispo. Escutava o echo das trombetas, das pipias e das músicas, que se casavam com as acclamações da multidão em delírio.

Relembrava a sala do banquete com as mesas mui guarnecidas em volta das quaes se sentavam os bispos, os fidalgos, os burguezes do logar, donas e donzellas do Paço e da cidade. E repassava commovida na memória a scena dos prelados à luz das tochas, benzendo o leito nupcial.

Depois, era a primeira separação tão custosa ao seu affecto, mas em que o via partir são, forte, todo entregue à ância de batalhar…

E agora?...

Agora era uma onda de amargura levantada no coração pelas más novas; era o receio do que iria encontrar; era a ameaça do destino que lhe afogava a garganta; era o prognóstico de um sortilégio sinistro que lhe opprimia as entranhas, em que se estava gerando o futuro Rei de Portugal.

Duque de Lancastre, aparentando mocidade, apezar dos seus sessenta e tantos annos, ia também apprehensivo, embora desfarçasse a perturbação que lhe trazia ao ânimo tantas interrogações inquietadoras.

Até que ponto a morte provável do genro alteraria a situação, e prejudicaria o êxito das suas ambições?

Aos espíritos de todos os outros que acompanhavam a Rainha afluíam semelhantemente incertezas afflictivas.

Em alguns, (almas generosas, incondicionalmente devotadas ao Rei) dominava a angústia e o receio de o perderem, sem a mistura de outro sentimento.

Outros pesavam dentro de si, n’aquella balança de egoísmo, inseparável da natureza humana, os prós e os contras que um desenlace funesto traria às conveniências próprias. E o interesse, a principal força determinante das acções dos homens, segredava-lhes perfidamente soluções diversas para o seu proceder ulterior.

Se a creança nascesse viável, quem seria o Regente na menoridade?

Se, porém, a Rainha não desse à luz um herdeiro a quem iria de vez o governo do Reino?

Do lado de Castella redobrariam as pretensões!...

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 10:18
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