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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - I

melgaçodomonteàribeira, 04.03.15

 

 

IGNEZ NEGRA

 

A HEROINA DE MELGAÇO

 

SUMMARIO

 

Loa de mel – A primeira separação – Incursões na Galliza – Morte de Ruy Mendes de Vasconcellos – Regresso a Coimbra – Doença do Rei – Partida do Duque de Lancastre – Viuvez de Nun’Alvares – Projecto de ataque a Melgaço – A corte da Rainha é convidada a assistir – As duas contendoras – Victoria de Ignez Negra.

Eram casados de pouco, quando foram obrigados a separar-se, porque as exigências da lide guerreira assim o impunham a El-Rei D. João I.

Em plenilúnio de mel, a loura Filippa de Lencastre, affectuosa e ternamente enlaçada no noivo, que a política do pae lhe outorgara, e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.

É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade, mas eram todas portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados, dignitários, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco de molde a saber consolar-lhe o ânimo saudoso.

Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:

- «Senhor! N’este Reino so hia de haver um costume de antigo tempo que o homem no anno em que casava, não havia de ir em guerra, nem ser constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis agora britar e vos ir fora do reino?»

João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.

Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua terra, e fazer damno a seus inimigos.»

E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na sonhada conquista do throno d’aquelle reino.

Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste, ainda rutilante da glória alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.

Iam os dois condestáveis – Nun’Alvares, o de Portugal – e João de Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra) condestável do duque de Lancastre.

Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande «prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.

Na outra ala luzia com garbo Ruy Mendes de Vasconcellos, sempre ardido e desenvolto no acometer; Gonçalo Vasques Coutinho, «tão bom como D. Tristão», e outros mais. Era na própria consciência do bando heróico, uma corte d’esse novo – Rei Arthur, Flor de Lys – D. João I de Portugal.

Seguindo em imaginação a marcha da hoste na sua tarefa affanosa de ataque, de conquista e de rapina, assistimos maravilhados á rude e enérgica actividade d’este rei de 30 annos, ao mesmo tempo severo e lhano, audaz e cauteloso, promto, e cruel até era a reprimir, mas generoso no premiar, inexorável com os deliquentes mas afável, familiar e bom camarada com os companheiros de armas.

Verdadeiro chefe, sabia mandar.

Perfeito Rei, na missão paterna, era o protector do seu povo.

E elle lá vae montado galhardamente, vestindo com elegância, o loudel de panno de sirgo branco com a cruz de S. Jorge, incitando uns, gracejando com outros, e discutindo com Nun’Alvares a procedência na vanguarda, que este não queria ceder ao Duque de Lancastre…

Atacaram Benavente, tomaram Roales e Valdeiras, e cercaram Villa Lobos, havendo aqui e além escaramuças, e correndo-se pontas, sempre com brilho e lustre para a gente portugueza.

Desafiavam às vezes os inimigos a combates singulares: agora um creado do Condestável, Álvaro Gomes, que «sem fraldão e bem desenvolto» deu em terra com um castelhano seu contendor; logo Mamborni pelos portuguezes e o francez Ruc pelos castelhanos; aquelle levando o bacinete sem cara, este com dois calmaes e um gorjal, o que não lhe evitou ser posto fora da sella, tombando limpo no chão. Mais depois é a façanha de Ruy Mendes que, sahindo da sua tenda sem armadura, e apenas com o escudo no braço e lança na mão, dá caça aos castelhanos fazendo-os mergulhar nas águas turvas da cava. Essa imprudência valeu-lhe uma reprehensão do Rei, ao qual bem humorado e em tom de graça, o valente responde:

- «A la fé! Eu sou Rodrigo, tão bem las faço, como las digo.»

E logo adeante dá-se a escaramuça, junto a Castro Verde, d’este mesmo Ruy Mendes de Vasconcellos, que foi attingido perto do hombro por um virotão, que o feriu.

A scena é descripta tão pittorescamente pelo velho Fernão Lopes, que, para não lhe tirar o sabor, a copiamos tal como ella apparece na chronica:

«E como veiu à tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram presentes:

- «Por certo eu sou ferido d’herva.»

E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:

- «Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo ha, que todas as tenho em elles.

- «Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui proveitosa para esto.»

Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua saúde, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse contra elle:

- «E como não bebereis vós do que eu bebo?»

Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.

El-Rei vinha-o ver cada dia duas e três vezes, e ao terceiro dia estando com elle falando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle disse contra El-Rei:

- «Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação, mas entendo que em mim não ha senão morte…»

El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos nadando em lágrimas… e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e tristeza…»

Poderá a nota naturalista da anedota, no que se refere à pharmacopêa medieval, provocar um sorriso de leve enjoo a alguma leitora menos affeita à prática das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.

Mas ninguém se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza da scena.

Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados pela lança que os tóxicos violentos do strophantus ou da digitallis, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas precursores da morte.

Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas, destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triunfos, com as lágrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ansioso, comovido a ponto de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como infalível.

Elle às vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.

 

(continua)

 

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