Sábado, 24 de Novembro de 2018

O LILI DO TEODORICO

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

I

O Lili do Teodorico era o assunto de momento. O Alfredo Pereira, mais conhecido como Pandulho, oficial de diligências, divulgou que o rapaz fora indicado pelo ministério público e iria a julgamento. Perplexo, o povo da terra passou a especular. Inventavam várias hipóteses para explicar o acontecimento.

Novamente o Pandulho, que tinha acesso ao processo deu a explicação: o Lili, Teodorico João Fernandes como fora baptizado, escrevera ao Ministério da Saúde, em Lisboa, reclamando do não fornecimento da penicilina à sua farmácia. E acrescentara: «os donos das outras farmácias da região estavam ganhando muito dinheiro vendendo o remédio para a Espanha». A reclamação foi tomada como denúncia e teria de provar tal afirmativa.

O uso da penicilina era rigorosamente controlado e sua comercialização não oficial era considerada crime contra a economia nacional. No fim da segunda guerra mundial os jornais anunciaram como grande descoberta, um medicamento que iria acabar com todas as doenças inflamatórias, a penicilina. O povo simples logo enfeitou a notícia a seu belo prazer.

Naquela pequena e humilde vila dos confins de Portugal, ou melhor, onde começa Portugal, a notícia da maravilhosa descoberta gerou várias versões. Seria a redenção da humanidade, curaria todas as doenças e até nem precisaria ser comprada nas farmácias. Os mais esclarecidos destrinçaram a notícia: num laboratório nos Estados Unidos, uma cultura de germens produziu um certo bolor que eliminava vírus, bactérias e micróbios. Elaborado foi comercializado com o nome de penicilina. Ora, naquela região desde sempre as famílias fabricavam o seu próprio pão. Em priscas eras, de centeio, depois, desde que o milho foi introduzido na Europa, deste cereal. Era o pão feito em grandes broas que duravam a semana inteira. Acontecia que quando não ficava bem cozinhado ao fim de dois ou três dias embolorava; apareciam fungos esverdeados. Quando estas manchas bolorentas tomavam todo o pão não dando para apenas raspar os pequenos pontos, era jogado aos animais, porcos e galinhas, até um dia, no advento da grande descoberta, que alguém divulgou que aquele mofo era penicilina. Ninguém mais jogou pão aos animais durante bastante tempo.

   Importada dos Estados Unidos da América era a penicilina restrita a poucos países inicialmente, e em Portugal chegava em pequena quantidade e seu uso estava sujeito a justificação requerida a organismo próprio. A Espanha que, durante a guerra, fora aliada da Alemanha, sofria bloqueio comercial das potências aliadas que haviam ganhado a guerra. E ainda sentia as consequências da sua guerra civil. Estava carenciada de tudo. O contrabando de Portugal para Espanha era a momentânea opulência da gente fronteiriça. Esta situação manteve-se os anos quarenta e cinquenta do século XX.

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:06
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