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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O DEPUTADO DE MELGAÇO EM CAMILO CASTELO BRANCO

melgaçodomonteàribeira, 19.10.19

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O CARRASCO DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES

 

CAMILO CASTELLO BRANCO

 

Eram negros côr da noite

Uns olhos negros que eu vi…

 

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d’esta arte:

- Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo consta, sangue real nas veias. Se eu fosse príncipe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo.

- E eu dois – ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço – (de Melgaço é que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos ósculos – continuou mais requebrado – limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas allabastrinas, mãos de princeza…

  1. Maria José, durante as pungentes facécias dos mal-fadados, não erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. Mal-fadados lhes chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e comia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega mortal.

E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice:

- Então o meu anjo não se humanisa até á humanidade de me tomar a medida do pescoço?

- Meço-lh’o eu – disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e d’ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignação, e disse-lhe:

- Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.

E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do seu infausto amigo.

Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.

 

O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castello Branco

Porto Livraria Chardron

de Lello&Irmão, editores

1902

 

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http://www.gutenberg.org/files/30176/30176-h/30176-h.htm

 

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