Sábado, 20 de Setembro de 2014

O ANIMATÓGRAFO EM MELGAÇO

 

Peso

 

CORREIO DE MELGAÇO Nº 52, 1/6/1913

 

Há indivíduos que pela sua ilustração e inteligência se impõem à nossa consideração e estima; outros, que pelo seu espírito verdadeiramente regional e empreendedor se impõem à nossa veneração. Neste caso está (…) Cícero Cândido Solheiro, que heroicamente trabalha para o engrandecimento material deste concelho, a quem adora, não se cansando de (…) lhe introduzir os melhoramentos indispensáveis à vida provinciana. O ano passado comprou (…) um magnífico camion para transporte de passageiros e bagagens, de Valença a esta Vila, e vice-versa, melhoramento de capital importância, já pela rapidez relativa da viagem, já pela comodidade com que nos transportamos, estradas em fora, numa distância de 42 kms. A sua actividade, porém, não parou aqui. Cícero Solheiro, estendendo as suas vistas de águia, reconheceu a necessidade de mais um camion, para quando houvesse grande movimento para as Águas do Peso e além disso poder facultar aos (…) hóspedes anuais digressões cómodas e agradáveis. Efectivamente, mais um luxuoso e elegante “Berliet” foi adquirido por este nosso amigo, melhoramento importante para o concelho, extraordinária e vantajosa comodidade para os seus hóspedes, que se podem transportar para onde lhes apraza, com a rapidez e conforto indispensáveis. Mas o Peso, dizia o bom do nosso Cícero, não tem uma única distracção, onde os aquistas possam relembrar a vida das cidades, onde passem algumas horas de ócio, despreocupadas e alegres. O Peso não tem outra distracção que não seja a beleza do nosso solo, tapetado de verdura e coberto de luxuriante vegetação. Dotar o Peso com luz eléctrica e um cinematógrafo era a ideia que mais o preocupava e que pôs imediatamente em execução, mandando-o construir e aplicar-lhe os mais aperfeiçoados aparelhos que a Companhia Cinematográfica Portuguesa pode fornecer e com cujo mecanismo fornecerá, de luz eléctrica, não só o salão cinematográfico, mas também os hotéis e estância das águas, caso queiram tal melhoramento, o que é muitíssimo plausível. Para deliciar os amadores de música adquiriu um lindíssimo e completo piano eléctrico, que também pode ser manual, ao qual adaptará belas composições musicais, ficando assim o Peso, até aqui de uma monotonia aldeã, transformado numa aprazível e encantadora estância. Sabemos que em 15 de Junho (…) será inaugurado o cinematógrafo, onde todos iremos, como verdadeiros regionais e amantes do progresso deste lindo rincão, prestar a nossa homenagem de consideração, veneração e estima, a esse novo, mas corajoso e intrépido trabalhador, a quem Melgaço deve todos os melhoramentos que possui. Mas a nossa veneração aumenta de intensidade ao lembrarmo-nos que Cícero Solheiro se não fora o grande amor pela sua terra (…), podia gozar despreocupado e sem canseiras, os seus avultados rendimentos. Mas não! Cícero Solheiro quer melhorar a sua terra, por cujo engrandecimento trabalha afanosamente, crendo nós bem que não haverá nenhum melgacense que ao pronunciar o seu nome não sinta por ele a veneração devida aos beneméritos da sociedade. Receba o nosso Cícero os cumprimentos do “Correio de Melgaço” pelo seu gesto dum verdadeiro patriota, dum sincero e desprendido regional.

 

CORREIO DE MELGAÇO Nº 63, 24/8/1913

 

Inaugurou-se ontem, no Peso, com extraordinária concorrência, este belo salão cinematográfico… É uma bela casa de recreio, dotada de todos os aperfeiçoamentos modernos e requisitos indispensáveis a edifícios desta natureza; profusamente iluminado a luz eléctrica e pintado com muito gosto artístico. Admira-se ali um magnífico piano-concerto accionado a electricidade, que também pode ser tocado por qualquer pianista – sensacional novidade entre nós. Hoje há quatro sessões, que prometem muito, pela variedade e importância das fitas: às 14, 16, 20 e 22 h, que corresponderão à carreira de automóveis, entre a Vila e o Peso, pelo preço de 50 centavos, ida e volta, com direito a uma sessão. Há sessões todas as noites.

 

Retirado de: Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                    Volume II

                    Autor: Joaquim A. Rocha

                    Edição do autor

                    2010

                    pp. 24-25

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 10:31
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