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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MATILDE, A BRUXA EM MELGAÇO

04.04.15, melgaçodomonteàribeira

 

O CAVALEIRO DE OLIVENÇA

 

A vida de Matilde cruzara-se com a de Vasco no longínquo ano de 1498, quando fora condenada à morte por enforcamento, em Melgaço, sob a acusação de ser bruxa e de ter provocado a morte de uma fidalga. Mulher nova, então com uns vinte anos de idade, sempre se dedicara a mezinhas e poções, e aprendera com a avó e uma tia a distinguir as plantas e a saber as propriedades de cada uma; era uma ciência natural, mas a ignorância das pessoas julgava-a sobrenatural e, na verdade, Matilde aproveitava-se da credulidade da vizinhança; imprevidente, não se importara ao ganhar fama de bruxa. Um dia uma amiga sua, criada de fidalgos abastados, aparecera discretamente e contara-lhe que a filha de seu senhor emprenhara; estava muito desgostosa e não podia levar a gravidez avante, pois assim que se soubesse, seu pai a mataria. Trazia boas moedas e logo Matilde lhe deu as ervas apropriadas. No entanto o caso correra mal e a fidalga finara-se esvaída em sangue. A Justiça apertara com a criada e esta denunciara a amiga. O fidalgo pressionara o juiz e como este era amigo da maior rival de Matilde naquela comarca, cedeu aos pedidos da sua amante, por entre beijos e afagos, para lhe conceder o exclusivo dos negócios de bruxaria. No entanto, o corregedor trabalhava para Vasco de Melo e conseguira deter a execução até seu amigo regressar de uma viagem à Mina.

Vasco visitara-a no calabouço e salvara-a da morte, a troco de lhe ficar com a vida. Tinha de deixar o Minho e instalar-se no Alentejo, onde ninguém a conhecia. Tinha de se ajuntar com um homem novo, de nome Gonçalo, que era natural de Terras do Bouro. E com mais um corcunda e três anões passariam a espiar para a Coroa de Portugal, disfarçados de jograis. Matilde aceitara de bom grado a proposta.

 

pp. 26 – 27

 

Ao entrar na sala, comoveu-se ao ver Vasco de Melo vestido de bobo. Enquanto se aproximava dele recordou o momento em que ele lhe aparecera no calabouço de Melgaço, qual anjo, prometendo livrá-la da forca; reviu a sua face radiosa quando lhes dava ordens entusiasmado com o serviço a el-rei; lembrou-se dele aos solavancos na cabeça do touro em Burgos ou de espada em riste, em Mirandela, salvando-a do linchamento; e, finalmente, recordou-o agarrado à mão fria de Iamê, fazia agora um ano. E ali estava ele, fidalgo da Casa Real de Portugal, fazendo de bobo, como disfarce para poder chegar a um colaborador perdido.

 

p. 365

 

O Cavaleiro de Olivença

João Paulo Oliveira e Costa

Círculo de Leitores e Temas e Debates

2012

 

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