Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

HOMENAGEM AO PACHORREGO E AUTO DA LADINA V

31.01.15, melgaçodomonteàribeira

 Ribadávia – Ruela do Barrio Judio

 

Chedas, pagas tu, num pagas ?

 

A atracção – legítima, indiscutivelmente – que as festas dos nossos vizinhos espanhóis exerciam e continuam a exercer sobre a população portuguesa arraiana não é um segredo para ninguém. Se há zonas onde essa atracção é mais significativa, o concelho de Melgaço faz parte delas e ocupa, sem dúvida alguma, um lugar honorável.

O acontecimento que vou narrar conheço-o desde os primórdios da minha adolescência. Nunca o instigador de tal feito me confirmou ou desmentiu a sua veracidade. Porém, como fui espectador duma e figurante noutra das suas frequentes manivérsias, para mim, a autencidade do episódio ficou estabelecida.

O Alfredo Lourenço do Paço, mais conhecido por Pachorrego, era barbeiro no cimo da rua da Calçada, em Melgaço, correspondente local de alguns jornais regionais e, entre outras "actividades" bem mais controversas, um crava inveterado que não hesitava em intrujar para chegar aos seus fins. Tinha as faculdades decisivas indispensáveis a todo crava: o descaramento, a lábia e a perspicácia. Em princípio, existem duas categorias de cravas: os que o são por divertimento e os que o são por necessidade, sendo estes últimos bastante mais numerosos. O Pachorrego era-o, no mesmo grau, pelas duas razões, e o seu talento excepcional, reconhecido unanimemente, transbordara os limites do concelho.

Naquele domingo de tarde, como todo pendura que se preza, encontrou quem lhe desse boleia para ir à Feira do Viño do Ribeiro, em Ribadávia. Esta vila medieval, antiga capital do Reino Galego, estava separada de Melgaço por menos de uma quarentena de quilómetros, passando pela fronteira de S. Gregório. Para os abundantes "enologistas" daquela região raiana, tanto portugueses como galegos, esta festividade que, desde 1963, reúnia dezenas de produtores, era infalível, obrigatória. Podia dizer-se que era uma romaria cujo santo era o suco da uva.

Uma vez em Ribadávia, o barbeiro limitou-se a percorrer pacatamente as ruelas do bairro judeu e a inspeccionar os seus numerosos bares e furanchos* à procura de "patos" que, entre duas de paleio, lhe fossem pagando umas tigelas de branco. Mas se, por milagre, o Céu lhe enviasse um papalvo e tivesse oportunidade de o "trabalhar" como só ele sabia, então acabava sentado diante dum prato de anguilas, de pulpo ou de callos, as suas iguarias predilectas, assim como da imanente garrafa de vinho branco do Ribeiro. Eram, lamentavelmente, ocasiões escassas, mas os cravas são pacientes e perseverantes, atributos que lhes são próprios.

A tarde foi decorrendo normalmente. Para tigelas, não teve dificuldades em arranjar "clientes", mas, questão petiscos, não encontrou ninguém que correspondesse aos critérios essenciais para encarar, ainda que fosse, uma mera tentativa.

O seu estômago, já bem encharcado, precisava de consistência para calar o borborigmo incessante dos intestinos. Meteu a mão no bolso direito das calças e verificou os "câmbios". O dia de feira fora bastante frutuoso, graças a Deus. Dera uma parte à mulher, comprara duzentas pesetas na loja dos Pereiras, no sábado de manhã, e pusera de parte uns miúdos para os dias seguintes. Mas duzentas pesetas não permitiam loucuras. No cardápio, as anguilas e o pulpo tinham a sua preferência. Porém, o bom senso aconselhava-lhe um prato de callos, mais abordáveis pecuniariamente, e uma ou duas tigelas de vinho, no máximo.

Decidiu dar mais umas voltas. Nunca se sabe. Houve ocasiões em que, por uns minutos, perdera manjares substanciais. Infelizmente, ao cabo de meia hora, o passeio revelou-se infrutífero e a sua barriga, exorbitante, implorou-o. Capitulou e pôs-se a caminho da Taberna Papuxa. Serviam bem, já lá comera várias vezes, conhecia o patrão e era a melhor relação qualidade/preço que descobrira em Ribadávia.

A sala estava concorrida, como as de todas as tascas da vila num dia de festa, mas havia mesas disponíveis. Sentou-se e, passados dois minutos, foi o patrão, o Ciprian, que veio ter com ele. O Ciprian, desde o primeiro dia, simpatizara com o "jornalista" português, estatuto que o anódino correspondente se autorizava interessada e pretensiosamente. Encomendou um prato de callos, uma tigela de tinto (com carne impunha-se o tinto !) e muito pão; depois, veria, disse-lhe.

— Ciprian !  – gritou quando este se afastou – Diz à tua mulher que num trema, qu’eu tenho a barriga grande, bem o sabes.

Tranquilo, Alfredo.

Primeiro veio a tigela de tintol e o pão, ao qual o Pachorrego se atirou. Quanto ao vinho, ia esforçar-se por acabar a refeição com uma única tigela. O prato de callos, abarrotado, chegou pouco depois. Salivou ao ver fumegar aquelas tripas com garbanzos que tinham a cor e o cheiro característico do açafrão espanhol ! Pegou imediatamente na colher – na Taberna Papuxa os callos comiam-se com colher. O Ciprian sorriu e desejou-lhe bom apetite.

O Alfredo não o ouviu, apenas tinha olhos para o prato de callos, dos quais se desprendia um cheiro que lhe fazia dançar as narinas. Regalou-se. Valia a pena petiscar na taberna do Ciprian. O estômago consolidou-se e os intestinos emudeceram. Contudo, nestas ocasiões, algo o impedia de se sentir totalmente satisfeito e até o incomodava: o ter de pagar. Era uma reacção espontânea, convulsiva que, por vezes, lhe dificultava a digestão. Para se relaxar, cravou um cigarro a um dos indivíduos da mesa do lado e magicou até dar a última passa. Chegara o momento penível da dolorosa.

Levantou-se. Foi quando viu entrar o Manuel Chedas, um conterrâneo famoso por ser um forreta inveterado. Instantaneamente, o cérebro iluminou-se-lhe e entrou em jogo a sua clarividência. Dirigiu-se para o balcão, encostou-se e, discretamente, observou os seus movimentos. O homem hesitou entre duas mesas antes de se sentar.

O Pachorrego começou a pôr em prática o plano que a sua imaginação tramara instintivamente.

— Ciprian, olha, anda cá ! – pediu ao dono da taberna, que se aproximou.

— Aquele que se sentou ali é um grande amigo meu, entendes ? – e designou o Chedas com um movimento de cabeça – Peço-te que o trates como me tratas a mim, vale ?

Sí, home, sí.

— Bom, então prepara a minha conta enquanto o vou saludar.

Sorridente, acercou-se da mesa do Chedas e apoiou-se nela.

— Caralho, Chedas, tamem num falhas uma !

Como resposta, obteve um grunhido.

— Vais comer, nam ?

Ao Chedas, que o conhecia há muito e muito bem, bastaram-lhe estas sucintas palavras para aperceber o perigo. Não, não seria à sua pala que o Pachorrego se empanturraria.

— Por acaso até vou. Por quê ?

O porquê era provocante, trocista e firme; advertia-o da inutilidade de se aventurar mais.

— Por nada, Chedas, era só pra saber. Por acaso aqui come-se bem.

E, em sinal de consideração, deu-lhe uma palmadinha no ombro, antes de acrescentar: 

— Mas pagas uma tigelinha, nam ? É festa, caralho…

O Chedas estava à espera dela. Era como quem lhe arrancava a alma, mas assentiu com outro grunhido só para se ver livre dele. Metia-lhe pena e asco, simultaneamente.

O barbeiro voltou para o balcão e, desta vez, pediu uma tigela de branco ao patrão. Agarrou nela e disse-lhe:

— Ah ! Quem paga a minha despesa é o meu amigo Manuel. Aí atrás fiz-lhe uns jeitos…. Sabes como é, non, Ciprian ?

E, virando-se para a mesa do Chedas com a tigela levantada, gritou:

— Chedas, pagas tu, num pagas ?

— Pago, pago ! – replicou aborrecido o questionado, pensando, evidentemente, que o Alfredo se referia à tigela de vinho.

Vale, Alfredo, vale ! – limittou-se a dizer o dono do bar.

O barbeiro esvaziou a tigela, despediu-se do Ciprian e encaminhou-se para a saída. Ao passar diante da mesa do Chedas, prometeu-lhe:

— Logo, se nos virmos, pago eu, Chedas.

Não obteve resposta. Era-lhe igual. Já estava a imaginar a cara que faria quando o Ciprian lhe apresentasse a dolorosa. Ia-lhe custar digerir, ia sofrer e certamente arrepender-se de ter ido a Ribadávia.

O Pachorrego sabia perfeitamente que a manigância que acabara de realiazar teria consequências, fossem elas quais fossem, mas adorava estes impulsos irresistíveis que o faziam jubilar profundamente. Já passara momentos difíceis, era verdade, mas, até ao presente, sobrevivera às multíplices represálias.

A sensação de estômago pesado cedera o lugar a um bem-estar indescritível. Feliz, acendeu um cigarro dos seus e percorreu as duas ruelas que desembocavam na artéria principal de Ribadávia. Agora é que a festa ia começar.

 

 

Junho de 2014

 A. El Cambório

 

*Furancho (ou loureiro) – É um local geralmente situado no fundo da casa do lavrador, no qual, durante uns meses por ano, pode vender, livremente, a produção caseira de vinho.

  

 

AUTO DA LADINA V

 

Ti Zé Carcereiro

 

 

(Narrador – parecendo escandalizado)

 

                                        E nesta onda de «ditos»

                                        seguiram para a prisão;

                                        ela pensando: malditos!

                                        vamos ver quem tem razão!

 

(Neste passo o narrador muda de tom de voz)

 

                                        Exaustos, rotos, vingados,

                                        chegam à cadeia com ela.

 

(1º guarda – dirigindo-se ao carcereiro)

 

                                        Abre, Neu, os cadeados,

                                        mete esta bruxa na cela.

 

(Narrador – mais calmo)

 

                                        Todo o processo se inicia

                                        e vai, enfim, a tribunal;

                                        a sentença s’anuncia:

                                        é no mês de carnaval!

 

(O Narrador, aqui, dá duas fortes gargalhadas)

 

                                        Foram buscá-la ao cárcere,

                                        sentam-na no banco dos réus;

                                        o juiz, tal com um prócere:

                                        semi-homem, semi-deus!

 

(Ladina – com ar solene)

 

                                        Sobre esta bíblia eu juro

                                        só a verdade proferir;

                                        condene-me Zeus por perjuro,

                                        mate-me Alá por mentir.

 

(Narrador – sentencioso)

 

                                        E perante o auditório,

                                        a ré sua «estória» conta;

                                        no banco atrás falatório:

 

(Vozes – admiradas e irritadas)

 

                                        «Ela, peça a peça, monta»!

 

(Narrador – retomando o discurso)

 

                                        O advogado contrário,

                                        interrompe a habilidosa.

 

(Advogado – de pé, virado para o juiz)

 

                                        Isso é conto do vigário,

                                        é «estória» engenhosa!

 

(Juiz – com ar carrancudo)

 

                                        Deixe, Sir, falar a ré,

                                        seja, Sir, mais educado;

                                        isto não é cabaré…

                                        é um lugar respeitado.

 

(Narrador – dando a impressão de lastimar)

 

                                        O advogado… seco engole,

                                        e pensa para os seus botões:

                                        «o cliente que se amole,                                        

                                        não posso com safanões»!

 

(O Narrador, neste passo, altera a voz)

 

                                        Eis que é chamado o moleiro.

                                        Todo ele é comoção.

 

(Vozes da sala do tribunal)

 

                                        Terá sido só por dinheiro

                                        qu’ele vendeu a Conceição?

 

  

 

(Narrador – olhando para o moleiro)

 

                                        O moleiro, atrapalhado,

                                        fala quase em surdina.

 

(Moleiro – dando a sensação de falar para o universo inteiro)

 

                                        Não pensem que sou malvado,

                                        que sou um reles lupina;

                                        eu tenho catorze filhos

                                        e, a minha profissão,

                                        nos anos de maus milhos,

                                        deixa-me a casa sem pão.

 

                                        A minha mulher, coitada,

                                        é uma pobre doente;

                                        de roupas, não tem pitada!

                                        de comer… sabe-o a gente!

 

                                        Eu precisava de dinheiro,

                                        por isso a criança vendi;

                                        Eu sou honesto moleiro,

                                        não devia estar aqui!

 

                                        Trabalho de sol a sol,

                                        não há descanso p’ra mim;

                                        na cama, não há lençol…

                                        na mesa, só um petim!

 

                                        Tanta boquinha inocente,

                                        a pedir-me de comer;

                                        eu, zangado, descontente,

                                        nem sei o que hei-de dizer!

 

                                        No mundo foi sempre assim:

                                        uns são ricos, outros pobres;

                                        o pobre é mau, é ruim…

                                        os ricos são sempre nobres!

 

                                        Essa mulher me iludiu,

                                        a verdade não me contou;

                                        com todos os dentes mentiu,

                                        quando a criança comprou.

 

(Canta)

 

                                        O moleiro é pobrezinho,

                                        mal ganha para comer;

                                        depende do seu moinho

                                        e da água a correr.

 

                                        Recebe como maquia

                                        um punhadinho de grão;

                                        e trabalha noite e dia

                                        p’ra que outros tenham pão.

 

                                        Não tem qualquer instrução,

                                        nunca frequentou a escola;

                                        não conhece outro chão

                                        senão o da terriola!

 

                                        Nos brutos pés usa chancas,

                                        sapatos não pode usar;

                                        a porta dispensa trancas,

                                        pois nada tem p’ra roubar!

 

                                        Deixa prole numerosa,

                                        nada mais pode deixar;

                                        deixa à morte poderosa

                                        tanta vida pra ceifar!

 

                                        Deixa o mundo sem queixumes,

                                        parte tal como chegou;

                                        nascido entre estrumes

                                        ao estrume regressou.