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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 34

melgaçodomonteàribeira, 22.05.21

 

O padeiro deitou a mão à sande de presunto. O pão, saído do forno, achatou-se sob a pressão dos dedos. Antes de dar a primeira dentada, encarou-o de esguelha e delineou um sorriso levemente cáustico.

— Não desperdiças uma, Oliva – o Fernando denominou sempre o Manolo pelo seu segundo nome. é novidade para ti, e, quando quero, também sei tecer encrencas.

— Eu não tenho nada que ver com o ocorrido, Fernando. Apenas piquei a Otília para me divertir um pouco. Sabes como sou. Confias em mim, ou não?

O rosto traía os dizeres aos quais o Fernando não dava qualquer crédito, evidentemente.

—  Confio em ti de olhos fechados, Oliva. 

Com efeito, as relações e a concórdia entre eles eram um tanto eufónicas. O Manolo tinha uns dez anos mais. O primeiro contacto selou uma sincera afinidade que se foi reforçando gradualmente. Eram integramente semelhantes. A propensão e o esmero congénitos pelo humor sociável, espontâneo e bucólico, cimentou uma indestrutível condescendência.

Nenhum desconhecia que a irrisão é uma propriedade detentora de carinho e irrigada  de fraternização. Em geral, graceja-se meramente com as pessoas amigas. Reinavam com admirável maneabilidade, sem subentendidos, sem iniquidade nem indelicadezas.

— Sei que não me estás a levar a sério, Fernando. Não é mentira nenhuma  que adoro pilheriar, mas com a Otília há muito que deixei de o fazer. Limito-me a umas facécias ligeiras. É uma peste incontrolável, bem o sabes.

— Não perseveres com a tua ladainha, Oliva, senão vou a Puente Barjas informar o teu amigo tenente que tens a garagem repleta de bananas. Ó Rosa – implorou –, tira-mo daqui antes que desatine.

O Manolo deu uma gargalhada e escapuliu para a loja.

À noite, a Otília não foi capaz de controlar a exasperação que a facécia da casa lhe provocara. Suspicaz, anatematizou sucessivas vezes a casmurrice do Fernando.

Na padaria, o sobrinho desenfornava os primeiros cacetes e ainda ela e a mãe não tinham posto fim ao litígio. A conversa era cativante. Para o padeiro e o seu jovem ajudante, que as escutavam, foi um jocoso divertimento. De vez em quando, interceptavam umas palavras sem, todavia, apanharem o fio da discussão.

O Fernando não duvidava do teor nem da essência do que estava a ser debatido por cima deles. Não pôde disfarçar uma desbordante risada de real conivência ao lembrar-se do autor da  trapaça. «A possibilidade de uma irracionalidade ser aceitável e defrontada como uma contingência, é indiscutível, desde que a pessoa concernida presuma que lesa o seu bem-estar », pensou.

 

 

A estrada diante da Casa Manco estava saturada de automóveis aparcados desordenadamente nas valetas e, em alguns sítios, em campos e terrenos baldios.

A orquestra que animava o baile naquela noite não diferia em nada da maioria das que a tinham antecedido: desafinada, iterativa e barulhenta. Estava incluída no lote das que cobravam os cachês mais abordáveis. As mais notáveis deixaram de ali actuar desde que o Manco não honrara pecuniariamente o contrato com uma delas, argumentando que o número de entradas não fora satisfatório.

De todos modos, o mérito das orquestas não tinha a mais pequena influência para grande parte das parelhas, que apenas reclamavam uma exultação erótica leviana. Aos olhos da sociedade, a música era o meio que autorizava os jovens a apertar-se e a excitar-se abertamente nos braços uns dos outros. A falsa permissividade da sociedade favorizava paixões ardentes que incrementavam neles, e faziam com que a abrasão os consumisse profundamente; obrigava muitos a dissimularem-se em lugares recônditos para poderem asfixiar esse ardor, desafiando as contradições sociais e violando as suas proibições aberrantes.

Depois de duas ou mais horas em liminares lascivas, os casais mais exaltados, incontinentes desertavam o salão para se refrescarem com uma bebida ou para dar um passeiozinho. Passo a passo, caminhavam pela estrada semi caliginosa. Palravam, recreavam, caçoavam e riam com doçura. De repente, desapareciam, como ingurgitados pela escuridão que envolvia os campos ladeiros da Casa Manco.

Só não escapavam ao olhar perspicaz do Padre e do seu comparsa. Quando a onda gerada pela ganza os exortava, a partir de certa hora, arrastavam os pés à saída do salão de bailes; escrutavam cuidadosamente as parelhas que davam mostra de forte frenesim. Os moços deleitavam-se com estes casalinhos inflamados.

Com absoluta discrição, perseguiam imediatamente o casal mais passional. Além de o meio não ter segredos para eles, moviam-se como felinos. A sua presença foi descoberta escassas vezes. Silenciosos, contemplavam-nos. Quando consideravam que a coisa se acelerava e os gemidos anunciam um fim iminente, lançavam-lhes torrões e caroços de couves e, com un apito que traziam no bolso, improvisavam um charivari. Os amorosos, caóticos, aterrados e, em especial, inibidos, erguiam-se precipitadamente e evaporavam-se. Algumas meninas tinham abandonado as calcinhas no sítio, um trofeu que os rapazes coleccionavam. Os sacanas, ledos, curtiam uma de riso infindável.

Uma sublime latada bem verde, sob a qual faziam grelhados ao abrigo do sol, protegia a entrada da Casa Manco. No domingo à noite, como era usual, apareceu o Manel. O filho e o Chino, os miolos bem enfumados, estavam sentados num dos dois longos bancos de madeira ali colocados. O pai do rapaz ainda estava a meio pau, apesar de já ter mais vinho do que sangue nas veias. Como o Manco, por comer muito suportava bem o álcool. Qualquer prediria que estava sóbrio. Portanto, como todos os domingos, subira a S. Gregório e visitara as tascas das Pachecas, da Tia Antónia, do Camilo e os cafés Seixo e Coelho. O número de tigelas esvaziadas era incalculável.

O Padre não tinha qualquer dúvida quanto à sua comparência no Manco; era uma etapa do seu périplo dominical. Odiava-o tanto que só a sua vista indispunha-o. O Chino dera por ela e receava que, um dia, o colega fizesse uma asneira.

— Ó rapaz – apostrofou o Manel abruptamente–, a tua irmã anda no baile?

Ficou irritado. Hesitou uns segundos em desdenhá-lo ou replicar. Para quê saber dela se não se falavam?

— Se anda, não a vi; e se a tivesse visto também não to dizia – balbuciou secamente.

Curvou-se, apoiou os braços nas coxas e entrelaçou os dedos das mãos, como quem despede o abelhudo.

Continua.