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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 32

melgaçodomonteàribeira, 24.04.21

Assim, uma noite, puseram em prática um jeu de rôle: no bar, a Maribel interpretava o seu papel; na garagem, o Nelo, o do Manolo; e o Zeca, o de carregador. O Manolo implementou várias viagens com a sua carrinha Citroën 2CV, a velocidades discordantes. A cada volta a Maribel ia retardando o alerta. Ao cabo de três quartos de hora, deduziram que era razoável dar sinal quando os veículos alcançassem a casa do Pepe. O risco de a mulher se equivocar era nulo: naquele ponto, a estrada fazia uma curva de cento e oitenta graus e o feixe de luz devinha frontal. Tinham tempo para aviar dois, três ou, talvez, quatro carregadores, extinguir a electricidade e aferrolhar a porta.

Para muitos, o tempo era dinheiro; para o Manolo e os sócios também era prudência.

O que o obsidiava era a imprevisível aparição do jipe do tenente do posto de Puente Barjas.

A Otília e a mãe habitavam por cima do forno – assim designavam a padaria – e dormiam no mesmo quarto, mas em leitos individuais. Nos dias álgidos e húmidos de inverno, o calor proveniente do rés-do-chão chegava para terem uma temperatura pontual na casa: um calor conforme durante as horas mais frescas da noite e um calor ameno no restante do dia. No verão, residiam numa estufa.

Desde que ficara acamada, a provecta mulher via o tempo dissipar-se na solidão mais completa, dormitando de modo intermitente. A Otília, embora tomasse conta dela com a maior idoneidade, sentia-se incapaz de lhe fazer companhia duravelmente. Era como uma corrente de ar, um sopro. Exceptuando as situações inquietantes em que a sua presença era indispensável, pouco parava na casa.

Durante o dia, o apito revelador da carrinha do peixe – de segunda a sexta –, assim como o das locomotivas, que, consuetudinariamente, lhe provinham do outro lado do rio, representavam as referências predominantes da mãe. Se, por qualquer motivo, um comboio estivesse fora da hora, enquanto não distinguisse o seu rangido, não amortecia.

Estes factores ambientais enquadravam o seu inflexível relógio circadiano e serviam de charneira entre o pôr do sol e a noite; com esta derradeira é que verdadeiramente começava o dia para ela. Só ela lhe oferecia a presença efectiva e afectiva da filha, as suas palavras e a sua orelha.

Mas tão ponderoso como a convivência da filha, era o alvoroço da padaria, pelo qual se regia. Acostumara-se aos seus ruídos específicos, familiares havia muito: ao seu cheiro, ao gemido reiterativo da amassadeira, ao chiar e ao bater da porta do forno; ao provecto e enfarinhado transístor, que tanto brotava uma música incompreensível como uma palração anfigúrica, ao gargalhadear ruidoso causado pelos chistes dos dois trabalhadores, vindos indistintamente de baixo... Fizera do forno o seu segundo marco, o seu sol nocturno. Ao genuíno, havia muito que não o avistava, ressentindo apenas, ao fim da tarde, o calor da sua radiação anemizada através da janela.

A sonoridade flácida que derivava de baixo e atingia os seus ouvidos ainda eficazes, divergia demasiado da do seu tempo. A imaginação, artífice sem tabiques dos resquícios e das pegadas memoriais, tem um enorme potencial para ajustar desejos ou instantes memoráveis, por muito disformes que sejam; a Concepción, invocando os retalhos mais salientes e deslumbrantes da sua vida, projectava-se mais de meio século atrás. Ainda que se desdiga, o passado é sempre o mais atractivo, o mais inebriante, mormente quando o futuro pssou a ser o presente. Ainda não se deslembrara de que a padaria fora a obra do marido e dela.

Estas conjunturas, talvez imperceptíveis para os que mais sofriam de derrelicção, formavam uma milagrosa revivificação. Graças a elas, ainda discernia o frágil fio de vida que, dia-a-dia, irreparavelmente, se ia constringindo nas suas entranhas, mas ao qual se agarrava com um entusiasmo implacável, raivoso. Esta atmosfera folclórica ritmava e revigorava as noitadas da sua vegetativa cenestesia; fazia com que adormecesse a altas horas da madrugada.

Como neste mundo para dar o merecido valor a algo é imprescindível vivenciar a sua adversidade, o domingo era uma execração inequívoca para ela. Privada do cláxon infatigável da carrinha do peixe e do tumulto do forno, tinha de se confortar com o silvo dos poucos comboios que nesse dia circulavam, e postulava a Virgen para que a têmpera aleatória da filha mostrasse a boa cara. 

Se nenhuma das doenças que a carcomiam intimamente a entravasse, tagarelava obstinadamente todos os dias com ela. Velha, doente, num grau héctico crítico, a voz não denunciava a sua natureza nem a longeva idade.

A Otília, bem disposta na maior parte das vezes, narrava-lhe, com prazer e minúcia, o desenvolvimento dos acontecimentos polimorfos em andamento e as novas do dia; quando fatigada ou cateada, egoistamente, repudiava-a. Quando se dava o caso, a desditosa anciã, cujo mental por momentos oscilava, monologava, encarnando as duas figuras.

Fosse como fosse, as suas pálpebras poucas vezes se juntavam antes de identificar a frequência das colisões da porta do forno, sinal de que o Fernando enfornava as primeiras barras de pan – cacetes.

Naquela noite, a Otília descreveu explicitamente à mãe a preocupação que se apossara dela e lhe inquietava o pobre espírito. Crescera nela a apreensão pela rica casinha, na qual ambas tinham nascido e, decisivamente, expirariam.

— Ó mulher – questionou a Concepción –, como podes crer que nos vai botar a casa abaixo com paus? É impossível!

Conversaram, conversaram, sem interrupção. Às vezes, cada qual por seu lado, expressavam-se numa total simultaneidade.

A Otília não se achava ingénua ao ponto de acreditar que o choque das ripas, uma vez por outra, findasse por lhe deitar a casa abaixo. A verdade é que já havia muitos anos que, diariamente, rachavam a lenha ali. Já não se recordava, mas afigurava-se-lhe que os sarrafos nunca tinham sido dilacerados noutro lado.

A tarde foi correndo e a Otília não cessou de magicar. Contra o fim, não contendo mais a florescente exaltação, prospectou minuciosamente a parede da casa e ratificou a existência de umas fissuras esparsas. «Pequenas, é certo, mas é assim que tudo começa», pensou, atribulada, relembrando as palavras do Manolo. A pancada das ripas talvez não lhe derrubasse a casa, mas não tinha a menor dúvida de que lha danificava pouco a pouco.

 

Continua.