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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 29

melgaçodomonteàribeira, 13.03.21

 

Era um sossego indefinido ter com que pagar aqueles incomplacentes, insaciáveis da Benemérita. Acalmá-los-ia mais uns tempos. O contacto do posto de Puente Barjas, exagitado havia uns dias, compareceria, sem dúvida, ao anoitecer, a fim de reivindicar a gratificação de todos os colaboradores. Nos períodos ordinários, era ele que o prevenia com antecedência se podiam trabalhar. A luz verde para aquela noite estava subordinada aos pagamentos em suspenso.

Sendo as bananas vendidas no mercado português, e, por conseguinte, saldadas em escudos, a complexidade traduzia-se na conversão em pesetas da substancial quantia necessária para solver os honorários do ramo espanhol da associação: o abastecedor da fazenda, os guardas civis e o Manolo.

Mesmo este, apesar das somas serem incomparáveis, defrontava-se, por vezes, com algumas contrariedades para cambiar os escudos que os clientes portugueses despendiam no seu minimercado.

A palpável rareza da moeda espanhola – e de outras nacionalidades – em Portugal era causada por uma balança comercial extremamente deficitária. As interrogações do pós-25 de Abril, a independência das colónias, o regresso dos portugueses nelas implantados e o rebuliço político-financeiro tiveram como repercussão, entre outras, a descida evolutiva do escudo e uma viva redução da tradicional frequentação de turistas estrangeiros, indústria que, havia muito, representava a fonte dominante de divisas.

À vista da conjunção destes factores, o Estado, a fim de asseverar as incontornáveis e férteis importações – além dos créditos dos organismos internacionais –, fazia tudo para monopolizar as moedas dos países preponderantes – repatriadas pela diáspora – que os bancos detinham, jungindo os portugueses que aspiravam sair do país, fosse qual fosse o intuito, a drásticas restrições.

Os contrabandistas recolhiam o grosso dos fundos nas lojas que fervilhavam em algumas vilas da margem portuguesa do rio Minho – entre São Gregório e Caminha – nas quais muitos turistas espanhóis se desfaziam das tão aneladas pesetas quotidianamente. Valença, nesse campo, excelia.

Estes mercadores, além do provento da venda, ainda lucravam com o câmbio. Quando os nossos vizinhos faziam compras nas suas lojas, liquidavam com pesetas; cupidamente, os lojistas menosprezavam o seu valor oficial e convertiam o importe das aquisições em sua vantagem, aumentando o valor oficial do escudo em relação à moeda espanhola; granjeavam, deste modo, mais pesetas. Quando as vendiam aos contrabandistas ou a quem tivesse de se distanciar da raia – onde o escudo não era aceite – faziam exactamente o cálculo inverso: desvalorizavam a peseta para obterem mais escudos.

Inevitavelmente, o mercado negro eclodiu. Muitos emigrantes, em vez de trocarem as economias nos bancos, vendiam-nas a alguns particulares que tinham vestido o capote de agiotas e, obviamente, lhes ofereciam melhores condições.

O Manolo findou o cômputo. A importância, como sempre, estava correcta, mas, como diz o refrão, «as boas contas fazem os bons amigos». Ergueu-se e foi à loja. Refluiu com três grandes envelopes. Tirou um papel do bolso das calças, desdobrou-o e pô-lo por cima da mesa. Nele estava orçado e apontado o quinhão relativo a cada um: a sua alíquota – que englobava o dinheiro avançado para pagar aos carregadores as duas últimas transferências –, a do Zeca, a dos guardas civis e a dos fornecedores. Recheou os três invólucros de molhos de notas, depositou-os com o dinheiro remanescente nas caixas e fechou-as à chave no baixo do armário castanho que mobilava a cozinha. O espectro e a obsessão, que havia quase duas semanas o minavam, seriam sub-rogados pelo contentamento, pela consolação e a afoiteza de que tanto carecia.

Afastou a cortina que o cortava do bar e foi encostar-se à máquina de café, diante do Nelo e do Zeca. Estes, como estipulava o protocolo, aguardavam que ele revisasse e homologasse a respeitável cifra que lhe fora confiada. Saboreavam o segundo botellin – cerveja mini –, dialogando e afinando em voz baixa, os detalhes do traslado que, enfim, se realizaria naquela noite.

A uma das mesas, quatro dos carregadores invariáveis jogavam à sueca. De pé,  outros dois curtiam o espectáculo. Todos faziam por vir cedo a fim de serem os primeiros a iniciar o trabalho e ter, dessa forma, a probabilidade de efectuar mais viagens do que os outros.

O Zeca procurava de modo incessante mobilizar o maior número de homens que podia. Para os contrabandistas, um número superior de elementos era vantajoso: pelo mesmo preço, a mercadoria mudava de terra com maior rapidez, sendo menor a ameaça de uma emboscada. Em contrapartida, para os carregadores, a ganância diminuía significativamente, visto consumarem menos viagens.

Para escambar de país cinco toneladas de bananas, a equipa usual compunha-se de cerca de doze indivíduos, não resistindo alguns a dez viagens. O Zeca percorrera os lugares dos Casais, São Gregório, Cristóval e Paços para recrutar uma enxurrada de carregadores, já que para as dez toneladas daquela noite era capital o dobro de homens.

As rodadas de cervejas sucediam-se a bom ritmo. Os portadores eram, em maioria, bebedores eméritos, de tal modo que não apreendiam como, certos dias, efectivavam a dezena ou a dúzia de viagens. O Manolo bem intentava moderá-los, mas as tentativas revelavam-se infrutíferas. Um deles, o Lapa, que bebia somente aguardente, de manhã à noite, era o mais impressionante. Pequeno, escanifrado, cambaleava, mas, quando se aproximava a hora, confirmava, sem hesitar, que a ilusão é bem uma caricatura da realidade. Com sarcasmo, dizia que era o peso do frete que o mantinha firme.

O que ganhavam em poucas horas dilapidavam-no em bebidas e sandes durante os dias que precediam a próxima noite de carradas.

Os outros, mais aforradores e comedidos, acercavam-se pouco antes da hora concertada. Dois dos que carregavam regularmente tinham completado os estudos secundários. Filhos de famílias humildes, a enxada, como aos outros, consolidara os bíceps braquiais, enrijecido o dorso, a resistência. Na impossibilidade de conseguirem um emprego na região – e dificilmente fora –, tinham de sujeitar-se àquele expediente desgastante e perigoso para usufruir de uma indepêndência minimal.

 

Continua.

 

 

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